'Por trás do véu e da espada': o disfarce subjacente à representação das personagens cervantinas por Edwirgens Aparecida Ribeiro Lopes de Almeida - Versão HTML

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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE LETRAS MODERNAS

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LÍNGUA ESPANHOLA E

LITERATURAS ESPANHOLA E HISPANO-AMERICANA

EDWIRGENS APARECIDA RIBEIRO LOPES DE ALMEIDA

‘POR TRÁS DO VÉU E DA ESPADA’: O ‘DISFARCE’

SUBJACENTE À REPRESENTAÇÃO DAS PERSONAGENS

CERVANTINAS

Versão corrigida

SÃO PAULO

2013

UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE LETRAS MODERNAS

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM LÍNGUA ESPANHOLA E

LITERATURAS ESPANHOLA E HISPANO-AMERICANA

‘POR TRÁS DO VÉU E DA ESPADA’: O ‘DISFARCE’

SUBJACENTE À REPRESENTAÇÃO DAS PERSONAGENS

CERVANTINAS

Edwirgens Aparecida Ribeiro Lopes de Almeida

Tese apresentada ao Programa de Pós-

Graduação em Língua Espanhola e Literaturas

Espanhola

e

Hispano-americana

do

Departamento

de

Letras

Modernas

da

Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências

Humanas da Universidade de São Paulo, para a

obtenção do título de Doutor em Letras.

Orientadora: Profª. Drª Maria Augusta da Costa

Vieira

São Paulo

2013

Autorizo a reprodução e divulgação total ou parcial deste trabalho, por qualquer meio

convencional ou eletrônico, para fins de estudo e pesquisa, desde que citada a fonte.

Catalogação na Publicação

Serviço de Biblioteca e Documentação

Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo

Almeida, Edwirgens Aparecida Ribeiro Lopes de

A447‘

‘Por trás do véu e da espada’: o ‘disfarce’

subjacente à representação das personagens cervantinas

/ Edwirgens Aparecida Ribeiro Lopes de Almeida ;

orientadora Maria Augusta da Costa Vieira. - São

Paulo, 2013.

194 f.

Tese (Doutorado)- Faculdade de Filosofia, Letras

e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo.

Departamento de Letras Modernas. Área de

concentração: Língua Espanhola e Literaturas Espanhola

e Hispano-Americana.

1. Literatura espanhola. 2. Cervantes. 3. Mulher.

4. Gênero. 5. Séculos de Ouro. I. Vieira, Maria

Augusta da Costa, orient. II. Título.

EDWIRGENS APARECIDA RIBEIRO LOPES DE ALMEIDA

‘Por trás do véu e da espada’:

O ‘disfarce’ subjacente à representação das personagens cervantinas

Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Língua Espanhola e Literaturas

Espanhola e Hispano-americana do Departamento de Letras Modernas da Faculdade de

Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, para a obtenção do

título de Doutor em Letras.

Aprovado em:

Banca examinadora:

______________________________________________________________________

Profª. Drª Maria Augusta da Costa Vieira – Universidade de São Paulo

Orientadora

______________________________________________________________________

Profª. Drª Maira Angélica Pandolfi (UNESP)

______________________________________________________________________

Profª. Drª María Dolores Aybar Ramírez (UNESP)

______________________________________________________________________

Profª. Drª Livia Maria de Fraytas Reis Teixeira (UFF)

______________________________________________________________________

Prof. Dr. Antonio Roberto Esteves (UNESP)

A minha família Alessandro, Júlia e Betina

e a minha amiga Eleni

AGRADECIMENTOS

A concretização deste trabalho não seria possível sem o apoio e a colaboração de

pessoas muito importantes às quais dedico os mais sinceros agradecimentos:

A “Deus” pela força diante de todas as dificuldades encontradas ao longo deste

percurso.

À minha família Alessandro, Júlia e Betina pela compreensão nas minhas ausências.

À Jeane que tornou possível os estudos e a escrita deste texto.

À meus pais, Dina e Gonzaga Lopes e a minha irmã Dany ( in memorian) por se fazerem

sentir como presenças constantes em minha vida.

Às professoras Drª María Dolores Aybar Ramírez e Drª Rosângela Shardong pelas

valiosas sugestões propostas na banca de qualificação, muitas delas incorporadas ao

trabalho ora apresentado.

Ao Professor Dr. Mário Miguel González (in memorian) pelo incentivo e pelo

direcionamento da pesquisa atribuído na banca de seleção.

A minha amiga Eleni Nogueira dos Santos, pela sempre prestativa disponibilidade de

ajuda.

E, de maneira muito especial:

À minha orientadora Drª. Maria Augusta da Costa Vieira pelo acompanhamento, pela

sugestão de leituras, pela compreensão de minhas problemáticas pessoais e, sobretudo,

pelas prudentes, competentes e sensatas observações que, efetivamente, tornaram

possível o desenvolvimento deste estudo.

Finalmente, àqueles que, de alguma maneira, de forma direta ou indireta, participaram

ou contribuíram com o desenvolvimento dos meus estudos.

Si Cervantes disfraza u oculta sus ejemplos, si de vez en

cuando los insinúa, en apartes, es porque nos quiere

desafiar a vernos a nosotros mismos como somos, a

nuestro mundo como es, desengañándonos mediante la

risa, terapia divertida, eutrapélica, eficaz.

Colin Thompson

ALMEIDA, Edwirgens Aparecida Ribeiro Lopes de. ‘Por trás do véu e da espada’: o

disfarce subjacente à representação das personagens cervantinas. São Paulo, 2013. 194

p. Tese de doutorado. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade

de São Paulo.

RESUMO

Este texto estuda as narrativas breves El celoso extremeño e Las dos doncellas,

integrantes do conjunto intitulado Novelas Ejemplares, publicadas por Miguel de

Cervantes, em 1613. Tendo em vista que os textos nos permitem experimentar distintas

dimensões de leitura, temos, no plano explícito, a expressão desse autor conformista e

ortodoxo, nas palavras de Williamson (1990) e, no plano sugestivo, um olhar irônico e

crítico, sobretudo da condição e do papel da mulher, nas relações de gênero e ainda na

vida em sociedade. Em outras palavras, os dois níveis sobre os quais traçamos os nossos

estudos podem ser vistos, simultaneamente, isto é, no discurso explícito, estão revelados

‘fragmentos da realidade’ a partir de um discurso conservador das regras prescritas,

mas, por outro lado, no plano implícito, está o caráter reflexivo, crítico, às vezes, até

transgressor dos costumes predominantes. Nessas narrativas estudadas, se por um lado

as mulheres atuam como ‘perfectas corderas’, cumprindo as regras para uma nobre

donzela ou para uma mulher casada, por outro lado, essas mesmas mulheres vencem as

suas fragilidades e inseguranças no ato de tomar decisões, demonstrando certa

autoridade ou deixando ver ‘poderes ocultos’ femininos. Em vista do comportamento

masculino, nos deparamos com homens que, por trás de toda a superioridade e

privilégio ditado pela cultura vigente, revelam-se sujeitos aos desejos e domínios

femininos, o que nos faz entender todo aquele controle outrora evidenciado como uma

forma ‘simbólica’ de poder. Tendo em conta a sutileza com que o autor trabalha

artisticamente a questão, essas dimensões de leitura só são perceptíveis pela

interpretação do leitor ‘cuidadoso’, tomando de empréstimo o termo cervantino, em que

é capaz de identificar a dupla face de um escritor ‘escurridizo e irónico’ ao invés de

‘solemne y ejemplar’. Enfim, essas controvérsias de leitura nos fazem concluir que o

autor exibe, pelas páginas da ficção, uma representação da dinâmica da vida em

sociedade, na qual a formação de novas personagens demonstra que a força e a vontade

do ser humano predominam sobre as regras e as convenções sociais. Sendo assim, a

proposta é analisar como, ao deixar entrevisto um discurso crítico e irônico, novas

representações de personagens masculinas e femininas flexibilizam os mecanismos

culturais que sustentam a suposta hierarquia entre os gêneros. Nessa perspectiva,

entendemos que essa leitura pode revelar alguns dos ‘mistérios escondidos’ como as

rupturas, subversões e transgressões às convenções revelando uma sociedade ‘secreta’

em que as mulheres exibem alguma autoridade num contexto de ordem, ainda,

predominantemente, masculino.

Palavras-chave: Cervantes, gênero, representação da mulher, poder oculto, poder

simbólico, discurso predominante.

ALMEIDA, Edwirgens Aparecida Ribeiro Lopes de. 'Behind the veil and the sword':

The masquerade behind the depiction of Cervantine characters. São Paulo, 2013. 194 f.

Doctoral dissertation. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade

de São Paulo.

ABSTRACT

This paper studies the brief narratives El celoso extremeño and Las dos doncellas, part

of the collection called Novelas Ejemplares, published by Miguel de Cervantes in 1613.

Considering that the texts allow us to experience different aspects of reading, we have

in the explicit plan the expression of this conformist and orthodox author in the words

of Williamson (1990) and in the suggestive plan we have an ironic and critical look,

particularly on the women’s condition and position in the gender roles and also in

society life. In other words, these two levels studied can be viewed simultaneously, that

is, on the explicit discourse, 'fragments of reality' are disclosed from a conservative

discourse of the prescribed rules, but on the other hand, in the implicit plan there is the

reflexive, critical character which sometimes can even transgress the prevalent customs.

In these studied narratives, on the one hand, women act as 'perfectas corderas' ,

fulfilling the rules for a noble maiden or a married woman. On the other hand, these

women overcome their weaknesses and insecurities in the act of making decisions,

showing certain authority or revealing female 'occult powers'. In view of male behavior,

we find men who behind the superiority and privilege dictated by the prevailing culture,

reveal themselves subject to female wishes and domains making us understand all that

formerly evidenced control as a 'symbolic 'form of power. Given the subtlety the author

works the question with art, these reading dimensions are only perceived by the

interpretation of the 'careful' reader, borrowing the term Cervantine which is able to

identify the two faces of a 'escurridizo’ and ironic writer instead of' ‘solemne y

ejemplar’. Anyway, these reading controversies make us conclude that the author

displays a representation of the social life dynamics through the fiction pages in which

the formation of new characters demonstrates that the strength and will of the human

being predominate over the rules and social conventions. Therefore, the proposal is to

analyze through a critical and ironic discourse how new representations of male and

female characters make flexible cultural mechanisms that underpin the supposed

hierarchy between genders. In this perspective, we understand that this reading can

reveal some of the 'hidden mysteries' such as disruptions, subversions and

transgressions to conventions revealing a 'secret' society in which women exhibit some

authority in the context of order still predominantly male.

Keywords: Cervantes, gender, representation of women, hidden power, symbolic

power, dominant discourse.

SUMÁRIO

Introdução........................................................................................................................09

Capítulo 1

Homem versus Mulher: uma longa história....................................................................20

1.1.

Do sexo ao gênero: discussões em torno do homem e da mulher.......................22

1.2.

Da história para a ficção: as relações de gênero no século XVI e XVII..............35

1.2.1. O discurso literário: o mundo da representação e a representação do mundo.....42

1.3.

Na representação literária, a (re) formulação das personalidades.......................50

Capítulo 2

A representação dos gêneros em El celoso extremeño....................................................62

2.1. O espelho da mulher: o ver-se nas páginas do papel................................................64

2.1.2. Um final possível: da submissão à resistência feminina.......................................77

2.2. Poder e vulnerabilidades masculinas: el viejo celoso...............................................86

2.2.1. Luis e Loaysa: no teatro das representações..........................................................96

2.3. Mulheres coadjuvantes: outras formas de poder....................................................110

Capítulo 3

A dinâmica das identidades em Las dos doncellas........................................................120

3.1. Las dos doncellas: um discurso sugestivo..............................................................121

3.2. Teodosia e Leocadia: sujeitos ou vítimas das aparências.......................................127

3.2.1. Sob o jogo das identidades: o travestir-se...........................................................139

3.3. Atrevimento, honra e paixão: o ‘simbólico’ poder masculino...............................147

3.3.1. Coragem, sedução e bravura: um paradigma varonil..........................................157

Capítulo 4

O mistério escondido: a sociedade ‘secreta’ num universo, predominantemente,

masculino.......................................................................................................................166

Considerações Finais.....................................................................................................182

Referências....................................................................................................................185

9

‘POR TRÁS DO VÉU E DA ESPADA’: O ‘DISFARCE’ SUBJACENTE À

REPRESENTAÇÃO DAS PERSONAGENS CERVANTINAS

INTRODUÇÃO

Yo he abierto en mis Novelas un camino,

por do la lengua castellana puede

mostrar con propiedad un desatino

Cervantes em Viaje al Parnaso V

Explorando de forma sistemática os caminhos da criação novelesca, em 1613,

Miguel de Cervantes publica as Novelas Ejemplares. Revelando domínio da língua e da

arte discursiva, nessas novelas, a capacidade narrativa do autor se manifesta em todos os

planos, em suas personagens, na estrutura, nos registros que utiliza, desde a cena épica à

doméstica, constituindo o que Rosa Navarro Durán (1995) compreende como “un

completo muestrario de la magistral y modernísima” arte do Século de Ouro.

Tais Novelas compõem um conjunto de doze narrativas curtas que trazem em si

um terreno fértil para investigações que se ampliam desde os aspectos de composição

até os temáticos envolvendo os olhares críticos sobre a organização social. No plano

temático, com perspicaz sensibilidade poética, o autor imprime intensa vitalidade em

suas personagens, isto é, materializa conflitos individuais e coletivos que conferem ao

conjunto dessas narrativas sedutor conteúdo literário. Tal habilidade processada por

Cervantes tem motivado pesquisadores das mais distintas nacionalidades a se

enveredarem sobre seus escritos.

No caso das Novelas Ejemplares, encontramos vários estudos, entretanto, no

âmbito brasileiro, eles ainda são escassos. Em função da necessidade de delimitar o

objeto de investigação, selecionamos, dentro do conjunto novelesco, duas narrativas,

sendo elas El celoso extremeño, considerada por E. C. Riley (2001) como

predominantemente novelesca, e Las dos doncellas, entendida pelo mesmo crítico como

predominantemente romance1. No acervo crítico sobre essas narrativas, predomina a

1 Ver o artigo “Una cuestión de género” no qual E. C. Riley (2001) expõe as várias classificações de

gênero atribuídas aos textos cervantinos sob a perspectiva de importantes teóricos e críticos literários.

Contudo, acrescenta que a problemática se reduz ao fato de encontrar duas espécies do mesmo gênero, a

saber, o romance e a novela. Sendo ambos integrantes do gênero narrativo, explica a dificuldade da

10

discussão em torno da exemplaridade que intitulou o conjunto desses textos2 e que foi

anunciada por Cervantes já no Prólogo ao leitor.

Um dos motivadores da crítica sobre El celoso extremeño tem sido, em certa

medida, as divergências existentes entre o manuscrito de Porras de la Cámara preparado

entre 1605 e 1609 e a publicação integrante da coleção assinada por Cervantes em 1613,

em relação às razões que, possivelmente, desencadearam tais mudanças.3 Pelas leituras

realizadas, foi perceptível que, sobre Las dos doncellas, como explica Jorge García

López (2001), o cervantismo clássico oscilou entre uma classificação ‘sentimental’ ou

‘italiana’, ou se dedicou à comparação às novelas de cavalarias. No plano textual, as

referências críticas têm se limitado à exemplaridade e inverossimilhança apresentadas,

aspecto que nos convida aos estudos de gênero4.

Com vista nesses parâmetros, é interessante ressaltar que o conjunto das

Novelas ejemplares é bastante sugestivo de um estudo das representações femininas e

das relações de gênero no contexto do Século de Ouro, porém, o que encontramos são

estudos isolados de cada narrativa, sem que se estabeleçam muitas relações entre as

mesmas. Procurando reduzir essa parcialidade dos estudos realizados, buscaremos

explicar, a partir da releitura das narrativas El celoso extremeño e Las dos doncellas,

como Cervantes, dialeticamente, constroium discurso coerente com a ordem

definição de ambos e exibe, nesse texto, algumas marcas características tanto do romance quanto da

novela. Para Riley, é exatamente a fluidez da prosa cervantina que demonstra a intensidade da estreiteza

entre os limites das formas do romance e novelescas.

2 Sobre a exemplaridade nas Novelas Ejemplares, ler CASTRO, Americo. La ejemplaridad de las Novelas

cervantinas. In: Hacia Cervantes. 3 ed. Madrid: Taurus ediciones, 1967. p. 451-484. Ver ainda,

THOMPSON, Colin. “Horas hay de recreación, donde el afligido espíritu descanse”: reconsideración

de la ejemplaridad en las Novelas ejemplares de Cervantes. Actas de V Congresso de la AISO, 1999,

Christoph Strosetzki (ed.), Frankfurt, Iberoamericana, Vervuert, 2001. Ver também PABST, Walter. La

novela corta en la teoria y en La creación literaria. (Versión española de Rafael de la Vega) Madrid: Editorial Gredos, 1972.

3 A questão tem despertado atenção da crítica sobretudo porque há duas versões da novela, no manuscrito

Porras, com data imprevista de 1600, 1605-1609, e a publicação impressa de 1613. A distinção central

encontra-se na realização do adultério no manuscrito e não na versão impressa, embora outras

modificações como nomes de personagens, a morte de Loaysa e comentários do narrador também

aconteçam. Relevante leitura também é El ‘misterio escondido’ em El celoso extremeño: una

aproximación al arte de Cervantes, de E. Williamson, em Nueva Revista de Filología Hispânica,

XXXVIII, 1990. Um estudo recente intitulado De la Novela a la Comedia: las Novelas Ejemplares de

Cervantes en el Teatro del Siglo de oro, de Katerina Vaiopoulos (2010), faz uma interessante leitura da

transposição de algumas das novelas exemplares que deram origem a obras teatrais.

4 Na edição das Novelas Ejemplares, lançada em 2001, pela Editorial Crítica, Jorge García faz um

apurado levantamento da crítica existente sobre o conjunto das narrativas breves cervaninas, destacamos

nele o estudo sobre El celoso extremeño e Las dos doncellas.

11

predominante, mas que, paradoxalmente, critica-o5, isto é, incita uma reflexão sobre os

perfis predominantes de homens e de mulheres. Para isso, é preciso ter presente que a

dialética da escrita cervantina, nas Novelas, faz-se registrando em tese, ou melhor, em

primeiro plano, certo seguimento aos códigos de conduta moral. Como destaca Luisa

López Grigera (1994), nas grandes narrativas de ficção do Século de Ouro, pelo menos

as personagens principais são construídas por circunstâncias prescritas pela retórica

renascentista e por certa conformação aos tratados de morais. Por outro lado, num

discurso subjacente ao dito, o autor, com uma estratégia semelhante àquela formulada

por Erasmo de Roterdam, através de mecanismos irônicos, estimula um viés

intensamente reflexivo acerca do contexto dos Séculos XVI e XVII.

Partindo dessa premissa e com um olhar voltado para o cenário narrado,

procuraremos explicar como é que se dá essa dinâmica de escrita cervantina tendo em

vista o lugar ocupado e o papel social dos gêneros, isto é, do homem e, sobretudo, da

mulher, no ambiente ficcional. As relações travadas em Las dos doncellas e El celoso

extremeño nos permitem visualizar essa estratégia de composição que consentiu a

publicação da Coleção e, ao mesmo tempo, legou à posteridade a revisão de ideias e

práticas coetâneas daquele contexto. Nas duas narrativas eleitas como objeto de

investigação, temos personagens que, aparentemente, cumprem com seus papéis sociais

definidos pelos discursos morais e religiosos. Entretanto, a exploração do entredito nos

põe diante de relações ‘simbólicas’6 de poder. Se, pelo discurso hegemônico, foi legado

ao homem o direito das ideias e das práticas, à mulher ficou reservada a privação e o

acolhimento familiar. Diante dessa tradição, o que entendemos do relato ficcional é que,

embora as mulheres protagonistas Leonora, Leocadia e Teodosia, bem como algumas

5 Podemos entender o termo “crítica” atribuído à postura de Cervantes como aquela postura em que “se

exerce no sentido de conduzir-se para dentro dos vestígios deixados pelo poético” (SOARES, 2001, p.

149). Isto é, a crítica inerente ao texto cervantino se refere à possibilidade de outras interpretações, isto é,

Cervantes, ao escrever a problemática dos gêneros nas novelas que vimos examinando, mostra-nos que há

outras formas de leitura, ou melhor, nem sempre podemos entender que a sociedade tanto a histórica

quanto a ficcional fosse regida por práticas e comportamentos tão rigorosos e fixos como muitos relatos

exibem. O que ele demonstra, pelo exame que vimos fazendo, é que há uma intensa dinâmica social,

inclusive em se tratando das relações homens x mulheres.

6O termo simbólico utilizado neste estudo pode ser melhor explicado por Jean Chevalier e Alain

Gheerbrant (2009) como o anúncio de um outro plano de consciência. É a figuração daquilo que já pode

ser bem conhecido de uma outra maneira. O símbolo anuncia um outro plano de consciência, é a chave

de um mistério, um meio de se dizer aquilo que não é explicado de outro modo. Nesse sentido, o símbolo

transcende o significado e depende da interpretação. Assim, é simbólico no sentido de apresentar um

sentido figurado, isto é, o poder que parece haver em determinados comportamentos indicam, a primeiro

plano, fragilidades e submissão do homem.

12

coadjuvantes, sejam marcadas pela submissão e passividade, são elas quem, de certo

modo, engendram os acontecimentos. Para tanto, elas utilizam distintos mecanismos tais

como o próprio seguimento às regras tanto morais quanto religiosas e de linhagem, a

argumentação, o disfarce bem como o travestismo para alcançarem seus objetivos e, ao

mesmo tempo, exercerem algum controle sobre as situações e sobre os homens.

Do lado masculino, o que temos, nessas representações, são homens com

características bem diversas, mas que conservam a postura exigida pelos códigos de

honra patriarcal. Marco Antonio, Don Rafael, Carrizales e Loaysa, além da personagem

secundária, que a nosso ver, adquire uma função primordial no enredo, isto é, Luis o

negro eunuco, manifestam os seus ensejos de pais, namorados ou maridos que

culminam em poderes ‘simbólicos’ diante da ‘oculta’ ação e da presença feminina. Para

materializar esse balanceio entre o que se mostra explícito e o que está implícito, o autor

constroium pacto com o leitor lhe permitindo uma relevante parcela na decifração do

sentido do texto. Cabe ao leitor perceber, na profundidade do tecido narrativo, uma

sátira demolidora de costumes baseados não em fatos reais, mas com vistas no real

produzindo um discurso verossímil. Partindo das preceptivas poéticas, Cervantes

combina a necessidade humana de descanso e de entretenimento e anuncia já no

Prólogo ao leitor que, em suas novelas, “no hay ninguna de quien no se pueda sacar

algún ejemplo provechoso” (CERVANTES, 1995, p. 59). Tal explicação mostra a

preocupação com a capacidade de transformação social possível a partir da arte

impressa. A consciência de Cervantes da inovação na forma narrativa e mesmo o

pensamento predominante na espiritualidade fica evidente quando salienta “[m]i edad

no está ya para burlarse con la otra vida” (CERVANTES, 1995, p. 59-60).

O teor da crítica encontrado nessas Novelas esbarra nos receios do autor, pois

“no clima espiritual da Contra-Reforma, quando o poder de persuasão da literatura era

objeto de extrema vigilância, a exemplaridade dos relatos de ficção será elevado a

critério de verdade” (CANAVAGGIO, 2005, p. 285). Canavaggio, na mesma obra,

ainda questiona as razões cervantinas para a exemplaridade presente na coleção

referindo a quem se dirige o autor, se para educar o leitor ou para desarmar um censor.

Vale lembrar que o título apresentado por Cervantes aos censores era Novelas

Ejemplares de honestísimo entretenimiento. Se na superfície do discurso novelesco

parecem sobrepor os valores morais, éticos e, especialmente, os religiosos, estes podem

ser endossados se pensarmos com o historiador Josep M. Buades (2006) que, no plano

intelectual, os escritos procuravam fortalecer o discurso do catolicismo e evitar a

13

entrada de ideias “dispersivas”. Alberto Porqueras Mayo contesta essa hipótese ao

explicar que não podemos estar de acordo que “los princípios son como un

enmascaramiento para que sus libros circulen sin dificultad” (PORQUERAS MAYO,

1972, p. 107). Para Porqueras Mayo, os autores queriam escrever conforme os

princípios teóricos aprendidos nos livros. De uma ou outra maneira, desenrolando os

fios do novelo ficcional, o que uma leitura atenta e sintonizada com os mecanismos de

escrita do autor de Don Quijote nos indica é que Cervantes constroi um discurso que se

autoreferencia para, conjuntamente, criticá-lo.

Sendo assim, frente ao conflituoso contexto em que as Novelas foram

concebidas e publicadas, é preciso penetrar na escrita do autor para entender a maestria

com que criou um novo modelo de tradição crítica usando vários planos em, pelo

menos, dois níveis de significação, um nível de leitura conservador dos parâmetros

daqueles tempos e outro nível revelador e reflexivo sobre aquelas ideias e práticas.

Imprimindo em seu legado as contradições daquele contexto, observa Jean Canavaggio

(2005), que Cervantes pode ser interpretado como uma “testemunha de um tempo de

dúvidas e crise” e que, sob vários aspectos, encarna e resume o próprio espírito do

Século de Ouro. Para a ficcionista, crítica e historiadora da literatura moderna Lúcia

Miguel Pereira (1994), Cervantes foi, a seu modo, um descobridor tão ousado como

Colombo. Este voltado para fora, para os mares imensos e misteriosos, arrancou ao

desconhecido um continente, enquanto Cervantes olhando para dentro, conseguiu

atingir as profundezas da alma, criando personagens que ajudariam a melhor conhecer o

ser humano.

A perspicaz comparação da escritora brasileira associa-se bem à nossa

observação sobre os mecanismos utilizados pelo autor espanhol na retratação de suas

personagens. Criando uma estratégia de representação que visa a olhar para dentro dos

seres humanos, representando neles exemplos de posturas e de ideias que objetivam

mais do que serem seguidas, serem revistas. Cervantes não revela apenas o que é visto,

o que está em conformidade com o que foi posto naquela sociedade, ele consegue ir

além, desvendar caminhos tortuosos e desconhecidos das intencionalidades humanas,

mormente no tocante à condição social da mulher e do homem nas relações sociais e de

gênero.

Através de uma enunciação marcadamente masculina, o que temos nessas

narrativas curtas são padrões distintos de interpretação. Em suma, em uma leitura de El

celoso extremeño, notamos a presença de uma mulher abúlica, passiva, isto é, pintada

14

dentro do modelo delineado por moralistas da época como Juan Luis Vives e Fray Luis

de León. Não é nossa proposta estudar as personagens por meio dos Códigos e Tratados

de conduta, pois estamos cientes de que a arte não possui nenhum compromisso com a

vida real, porém iremos, por vezes, traçar alguns paralelos entre a arte e esses textos

com a intenção de mostrar como os discursos vigentes eram rigorosos em se tratando do

comportamento de homens e, sobretudo de mulheres. Na leitura de Las dos doncellas

nos deparamos com mulheres que agem em favor de si mesmas buscando a sua

realização, mas, por fim, almejam aquele predominante lugar ocupado pelo feminino.

A exemplo do que reza o livro Instrucción de la mujer Cristiana, de

Vives, escrito no Século XVI, a literatura de Cervantes nos apresenta Leonora, uma

jovem resignada com sua condição de mulher casada. Descrevendo também as

características da mulher ideal como esposa e mãe, segundo o discurso da Idade Média

e do Renascimento, Fray Luis de León, em A perfeita mulher casada, salienta: “a

mulher casada deve tratar com Cristo para alcançar dele graça e favor para acertar na

criação do filho, para governar bem a casa e servir como se deve ao marido, […] servirá

a Deus trabalhando no cuidado da casa por ele” (LEÓN, s.d., p. 18). Voltando à ficção,

o que temos, a princípio, em ambos os contos que estamos estudando são o

submetimento e a resignação daquelas mulheres a pretexto do que prega a religião.

Porém, se adentrarmos a instância narrativa e analisarmos as minúcias do

enunciado, veremos que essas mulheres não executam suas trajetórias a bem da

tradição, mas são, de certa maneira, livres em suas escolhas. Leonora, apesar de não se

expor ao espaço público como fazem Teodosia e Leocadia, opta por entrar para o

convento na sua viuvez contrariando o pedido do esposo de se casar com Loaysa, sendo

assim, ela encontra um final para si mesma. Se no desfecho da narrativa, Leonora, que

já não é mais controlada por Carrizales, decide ir para o convento, questiona-se essa sua

iniciativa seria decorrente de uma determinação própria ou o autor quer chamar a

atenção para as mulheres que, imaturas, não sabiam se guiar, por isso precisavam da

religião para conduzi-las? A religião seria aqui uma recompensa ou a punição da

mulher? Ao lado desse poder ‘oculto’ da esposa, encontramos o marido Carrizales, no

qual se vê o ‘simbólico’ poder do homem uma vez que os sinais de força e controle

masculinos vêm configurados pelas restrições e censuras, o que evidencia o ciúme como

indicação de fraqueza ou medo da ação feminina, dando forma a uma situação risível

que, ao final, torna-se trágica. Contudo, é possível perceber que, além das mulheres

terem suas condutas orientadas pelos discursos e práticas proeminentes, também aos

15

homens eram sugeridas determinadas posturas, por meio de alguns prescritos que

visavam ao alcance da condição de um homem ideal. Nomes como os de Castiglione,

Gracián Dantisco e Baltasar Gracián, cada um em seu tempo, foram determinantes para

o condicionamento do modus vivendi do homem da corte. Vale destacar aqui que,

quando nos referimos à condição de nobreza das personagens abordadas, esta não tem

relação direta com a condição social, mas com a condição ética e comportamental,

como explica Vives (1964).

Tendo em vista essas Novelas como sintomas de um novo cenário, pelo menos

inscrito na ficção, podemos entrever que, em Las dos doncellas, Leocadia e Teodosia,

se disfarçam de homens para alcançar seus objetivos de mulheres, isto é, ironicamente,

elas objetivam um modo de vida tradicional, mas para alcançarem isso precisam se

travestir de homens. Essa postura, mesmo que encontremos tal comportamento em

outras obras literárias, não deixa de configurar uma ousadia da mulher, já que o discurso

predominante daquele tempo era o de que ao homem cabia o espaço público enquanto à

mulher estava reservado o recato e o acolhimento do lar. Assim, apesar da mediação do

bravo e prudente Don Rafael para alcançarem o objetivo de encontrarem Marco

Antonio, é como mulheres belas, sensíveis e sedutoras que elas resolvem a questão

amorosa quando, no desfecho da obra Teodosia se casa com Marco Antonio e Leocadia

alcança o seu final feliz com Don Rafael.

Neste ponto, vê-se que a reflexão provocada por Cervantes, embora ainda

possa ser entendida como atual, põe em julgamento valores e juízos orientadores do

modus vivendi dos Séculos XVI e XVII. Para engendrar esse discurso ora ambíguo, ora

contraditório, o autor conta com dois fortes aliados: o narrador e o leitor. Se no prólogo,

o autor pode falar por ele mesmo, para marcar as ‘imprecisões’ ou a ‘reflexão’ inerente

ao discurso literário, o autor recorre à eminente presença do narrador. Pelo que indica

Canavaggio (2005), é latente em Cervantes o interesse em impressionar e ser

reconhecido pela coroa espanhola como importante escritor. Já foi dito que, em seu

Prólogo ao leitor, o autor realça, constantemente, a sua preocupação com a necessidade

de descanso, entretenimento e aprendizagem resultando em uma forma de redenção

humana.

Frente a esse pensamento, podemos sublinhar que a postura do narrador seja

mais um desses ‘descaminhos’ propostos por Cervantes para inscrever no texto a sua

reflexão. É em vista dele que o leitor é conduzido a refletir sobre os sucessos narrados.

Às vezes, o pensamento crítico não está nos eventos narrados, mas na narração e na

16

recepção do leitor. Nas duas narrativas que estamos estudando e, geralmente, nas

demais, a adjetivação é constante e indica uma forma do narrador se posicionar diante

das personagens, de suas práticas e de suas ideias. Contudo, os termos ‘principal’ e

‘mais bonita’ são reiterados em todo o discurso, a nosso ver, com o propósito de chamar

a atenção para a relevância dos privilégios, mormente de linhagem e de classe.

Outro uso frequente e determinador do posicionamento do narrador é a

expressão ‘parece’. Ao recorrer a essa palavra, o narrador se posiciona ao lado do autor

para indeterminar seus pensamentos, o que indica, talvez, que nem um nem outro quer

se comprometer diante da censura daqueles tempos, mas sugere ao leitor outra

interpretação. Como constata Rosa Navarro Durán, “El narrador que habíamos creído

exacto, puede no serlo; tampoco se afirma con precisión” (NAVARRO DURÁN, 1995,

p. 34). Em consequência do comportamento do autor e do narrador, fica a critério do

leitor a exploração do texto ficcional. Ainda pensando com Rosa N. Durán, “El lector

intuye lo que puede ser, pero que el novelista se calló” (NAVARRO DURÁN, 1995, p.

28). Embora estejamos cientes da relevância do narrador na condução do leitor na

interpretação das narrativas, não nos prenderemos a esta análise de ordem estrutural,

mas apenas a uma exegese dos planos de leitura possíveis ao leitor tendo em vista a

correspondência do relato ficcional ao entorno cervantino.

Diante dessa percepção é que, tratando dessa dialética de dizer, sugerir ou se

calar inscrita por Cervantes na construção do cenário ficcional, temos nos meandros do

tecido narrativo, um discurso aparentemente conservador, tradicional, 7que põe em cena

homens e mulheres cumpridores de seus papéis sociais tendo em vista as práticas

hegemônicas. Contudo, percebemos que, por meio de estratégias literárias, inclusive o

seguimento aos tratados de poética, retórica e de conduta, o que temos são homens que,

por trás de heroísmo, força e bravura deixam ver suas fragilidades e sensibilidades

através de total entrega, ciúmes, censuras e negociações. Do outro lado e, ‘por trás do

véu’, temos mulheres que, embora se submetam à ação masculina, manipulam as

situações e os discursos predominantes por meio da beleza, da argumentação, do

7 Neste estudo, o conceito de tradição é pensado a partir dos postulados de Raymond Williams no qual

esse substantivo latino assume o sentido empregado no inglês, esclarecido como “descrição de um

processo geral de transmissão, mas há um sentido implícito muito forte e amiúde predominante de

respeito e obediência” (WILLIAMS, 2007, p. 400). Nessa direção é que empregamos o termo aos escritos

de Miguel de Cervantes em que o autor mantém certa conivência e respeito às práticas e ideologias,

sobretudo, religiosas, contemporâneas do Século de ouro, embora se emane desse mesmo discurso o teor

de reflexão crítica.

17

cumprimento das regras, da passividade, da sedução ou mesmo por meio do

silenciamento. Também aqui, o autor pretende instituir uma reflexão porque, como

‘bruxas’, transgressoras elas também não alcançam êxito. Ironicamente, não só a

procedência ideal interessa, mas o corpo, a beleza faz-se essencial no processo de

conquista. Enfim, nesse processo de ocultamento e de revelação, o que temos naqueles

cenários mulheres passivas ou ativas e homens fortes ou frágeis?

Tendo em vista a dinâmica do texto de Cervantes, essa pesquisa procura, numa

perspectiva de análise sociológica, verificar como o autor escreveu personagens que,

inscritas sob o discurso em vigor naquela época, mostram o ridículo, os defeitos morais

da vida cotidiana através de comportamentos cômicos, trágicos, irônicos, bastante

verossímeis. Sendo assim, não trataremos a ficção como se ela fosse a vida, a história,

mas como uma forma de ver, por intermédio da arte, um viés das experiências vividas e/

ou imaginadas para a sociedade coeva ao tempo da narração. Vale anotar ainda que

diferentes tipos de textos escreveram distintos modelos de homens e de mulheres,

contudo, não exploraremos essa questão textual na análise que vimos empreendendo.

Dessa forma, entendemos o ‘mistério escondido’ anunciado pelo autor no

prólogo como essa outra leitura que podemos perceber, isto é, lida pelas práticas de

homens e de mulheres inscritos nas páginas ficcionais, o que, a nosso ver, justifica a

escolha do título “’Por trás do véu e da espada’: o ‘disfarce’ subjacente à representação

das personagens cervantinas”. Se, ao longo da escrita da história e da arte, encontramos

homens estereotipados por serem fortes, viris, lutadores e mulheres submissas, reclusas

ao ambiente doméstico, simbolizados, respectivamente, pelo uso da espada e do véu,

essa nossa leitura vem mostrar que estes também podem ser lidos como disfarces de

ambos para não deixar ver outras posturas que, pelos textos que estamos estudando,

mostram a instabilidade desses paradigmas.

Por esse lado, assiste-se, assim, a um movimento de reestruturação das relações

homem-mulher quando se depreende certa insegurança da própria ambiência social do

contexto da narração. Em uma perspectiva literária, vale anotar que, a partir do que os

tratados e o discurso religioso elaboraram sobre as relações de gênero, as narrativas em

questão materializam estratégias para que seja visto o equilíbrio nas formas de assumir e

conferir poder a homens e mulheres. Isso nos faz entender esses poderes ora como

ocultos, ora como simbólicos.

Diante do que foi esclarecido, o exame central desta tese incidirá sobre estes

planos, da revelação e do ocultamento, das condições sociais dos gêneros inscritos em

18

El celoso extremeño e Las dos doncellas. Sendo assim, a discussão proposta se

desenvolve em quatro capítulos assim estruturados: o capítulo primeiro objetiva traçar

um breve panorama da condição social da mulher ao longo da tradição clássica e, por

sua vez, a influência que os discursos misóginos daqueles tempos tiveram sobre o

discurso patriarcal vigente na Idade Média. Acreditamos que essa revisão seja relevante

porque os tratados que educaram homens e mulheres no Renascimento e no Barroco se

orientaram a partir do percurso vivido por estas em relação ao privilégio dos homens.

Não podemos estereotipar as mulheres como se todas elas sofressem os mesmos tipos

de restrições, porém, vale anotar que, além das questões referentes aos privilégios de

linhagem, de classe, de raça e de religião, o prejuízo oriundo da condição de gênero foi

determinante na trajetória da mulher. Sendo assim, revisitando esses documentos vale

anotar como a escrita de Cervantes revela-nos o quanto ele esteve sintonizado com as

problemáticas envolvendo as relações sociais e de gênero, o que nos faz entender a

importância de relatar como esse passado se faz presente na vida das mulheres

ficcionalizadas com o propósito de provocar a reflexão sobre esse embate presente na

vida de homens e de mulheres.

No segundo capítulo, adentramos ao universo ficcional construído por

Cervantes em El celoso extremeño. Neste momento, tratamos da representação feminina

e masculina na obra a fim de mostrar como o autor, numa forma de respeito à tradição,

cria personagens que, aparentemente, apresentam práticas e discursos coerentes com a

cultura patriarcal predominante, mas, por outro lado, permite a seu leitor outras formas

de leitura, deixando ler certa revisão naquelas posturas tradicionais tanto de mulheres

quanto de homens.

Já no terceiro capítulo, persistimos no intento de demonstrar que, nessas duas

narrativas curtas, Miguel de Cervantes permite ao leitor distintas interpretações sobre a

condição social destinada a homens e a mulheres, o que entende ser, por parte do autor,

um fator de reflexão do social. Neste terceiro capítulo, dedicaremos à novela Las dos

doncellas e, nesta leitura, veremos que, assim como em El celoso extremeño, a mulher

também procura estratégias para a sua realização pessoal, e não apenas aceita o destino

reservado para si como o discurso predominante procura convencer. Também o

comportamento do homem nesta obra merece ser avaliado uma vez que, há nele, certa

aceitação e resistência, se comparado com os preceitos dos manuais de

comportamentos.

19

O último capítulo promove uma breve aproximação entre as duas narrativas

estudadas, El celoso extremeño e Las dos doncellas buscando demonstrar como o modo

de composição de ambas as narrativas, embora o autor utilize estratégias distintas, são

análogas no que se refere à impressão do comportamento da mulher. Também visa a

demonstrar como a música foi um instrumento relevante para provocar a crítica na

primeira novela estudada e ainda em outras narrativas da mesma coleção.

Por fim, frente a tais esclarecimentos, entendemos que o autor, ao proporcionar

essas diversas leituras de seus relatos, nos põe diante de algumas reflexões elementares

tais como: as atitudes dessas personagens femininas são fruto de suas vontades? Serão

elas vítimas ou parceiras desse sistema vigente que as acomodam? Ademais de não

encontrar respostas na obra, mas de ver nela possíveis sugestões de leituras como esta

que vamos exprimindo, o fato é que a produção ficcional cervantina, de modo peculiar,

representa a relação que homens e mulheres estabelecem entre si e com o mundo, apesar

das restrições a que eram submetidas seja pela classe, linhagem, religião e, sobretudo

pelo gênero, ou sexo8, no entender daquele contexto. Portanto, lemos as personagens, ou

seus comportamentos, como caricaturas das práticas conservadoras e da dominação nas

relações sociais e de gênero. Independente das razões que teve Cervantes para escrever

essa dialética nas novelas, o que nos motiva é exatamente o prazer de nos debruçar

sobre esse emaranhado que além de nos provocar a diversão e a reflexão, produz

admiração.

8 Ao longo deste texto, utilizaremos o termo gênero para referir ao que, naquele tempo, era entendido

apenas por sexo. Dessa forma, utilizamos o termo gênero para designar o que, nos séculos XVI e XVII,

ainda era pensado como algo biologicamente determinado. Portanto gênero era sexo, não existindo

aspectos culturais, sociais ou políticos que construíssem identidades. Para a época em estudo, o gênero

vinha determinado desde o nascimento por aspectos biológicos e coincidia com o sexo, enquanto hoje o

gênero é entendido como uma construção cultural.

20

CAPÍTULO 1. HOMEM VERSUS MULHER- UMA LONGA HISTÓRIA...

Devemos ter em mente que a transformação cultural é um produto

complexo da ação humana no curso da História e que ocorre de modo

particular em cada época e em determinados espaços.

Renata Cardoso Beleboni

É bastante curioso o fato de pensarmos que o registro da História das mulheres

ou da História dos gêneros seja algo de preocupação recente. É bom ressaltar, em vários

períodos da história, são-nos apresentados escritos que colocam em questão a

participação de homens e de mulheres frente à dinâmica social. Porém, dentre os textos

que citam as relações de gêneros, é claro o privilégio masculino em relação à mulher.

Pensar o legado cervantino frente aos estudos de gênero não é tarefa fácil, já

que alguns estudiosos têm apontado certa predileção do autor do Quijote pelas mulheres

a ponto de colocá-las em primeiro plano, isto é construindo um discurso que visa à

representação das práticas hegemônicas. Contudo, o que deparamos com a leitura dessas

narrativas curtas é com uma dialética do explítico e implícito que, nos relatos literários

do tempo da enunciação, pode ser considerada como algo novo. Por essas questões, é

bom ter em conta a presença feminina nos mais variados tipos de relatos que

antecederam e, de certo modo, influenciaram os escritos daquele contexto contra

reformista. Logo, a distinção das representações se dá, sobretudo, pelo modo como cada

escritor viu, interpretou, desejou e imprimiu, através de suas penas, os embates sociais e

de gênero de seu entorno.

Estudando os discursos acerca da relação entre homens e mulheres ao longo da

história, Pedro Carlos Louzada Fonseca faz uma releitura das fontes difamatórias da

mulher na Idade média e destaca que, desde a Antiguidade,

é sabido o quanto Hesíodo já maldizia da praga do mal introduzida no

mundo através da mulher. Ovídio, cujos antecessores misóginos foram

temporariamente perdidos de vista no período medieval, constitui um

nome obrigatório na longa lista de antigas e tradicionais sátiras contra

a mulher (FONSECA, 2009, p. 170).

É extensa a lista de nomes clássicos difusores do pensamento difamador da

mulher. O relato de Aristóteles presente no livro História dos animais, Livros VII-X foi

uma relevante fonte de inspiração para a ideologia político-religiosa da Idade Média,

bem como para a subestimação do corpo feminino, entendendo-o como impuro e

21

deformado diante da perfeição do corpo e da intelectualidade masculina. Desse

pensamento também decorre a filosofia dos tratados orientadores da conduta, sobretudo

feminina, difundida na transição para a Idade Moderna, isto é, momento em que

Cervantes registra as suas Novelas Ejemplares. De modo geral, passando da

Antiguidade ao discurso patriarcal da Idade Média, pode-se constatar a presença de uma

maior quantidade de textos de natureza misógina que aqueles defensores da mulher.

Esse discurso preconceituoso em relação à mulher ganha força na Idade Media

associando-se ao discurso religioso que a estereotipa a partir da imagem da virgem

Maria, submissa e acolhedora, em detrimento da personalidade de Eva, símbolo da

transgressão, portanto motivadora do pecado original. Tal ideologia e a prática dessa

reclusão feminina ainda vigoraram intensamente nos primeiros séculos da Idade

Moderna, isto é, os séculos XVI e XVII, motivo que nos instiga a fazer essa revisão,

uma vez que os escritos cervantinos refletem, a seu modo, essa balanceio entre condutas

de homens e de mulheres. Contudo, dentre as inúmeras vozes que difundiram a

misoginia medieval, vale destacar a presença de uma voz que se destoa do discurso

predominante atribuindo uma argumentação em favor da natureza feminina, a de

Cristina de Pizán.

Cristina de Pizán foi considerada como a primeira mulher profissional na

carreira de escritora. Viúva e mãe de três filhos, Cristina tem conservadas trinta e sete

obras, dentre as quais destaca-se La ciudad de las damas, na qual a escritora apresenta

sua indignação frente ao comportamento dos homens diante das mulheres. Nesta mesma

obra, sobretudo, ela destaca como escritores tão sábios quanto Aristóteles são capazes

de pronunciamentos tão ‘preconceituosos’ e ‘absurdos’ contra a mulher.

Por essas considerações, vê-se que a preocupação com o papel dos gêneros,

tendo em conta as possibilidades de cada época, é algo inerente à história da

humanidade. Embora o gênero fosse pensado nesse tempo como sexo por se tratar de

diferenças determinadas biologicamente, e não social e culturalmente, como nos tempos

de hoje, conforme afirma Barbieri (1991), a discussão já era latente nos tempos que

vimos discutindo. Dessa forma, utilizamos o termo gênero para designar o que, nos

séculos XVI e XVII, ainda era pensado como algo biologicamente determinado.

Portanto gênero era sexo, não existindo aspectos culturais, sociais ou políticos que

construíssem identidades. Naquele tempo, o gênero vinha determinado desde o

nascimento por aspectos biológicos e coincidia com o sexo, enquanto hoje o gênero é

entendido de forma mais abrangente como uma construção cultural.

22

Pensando então na problemática dos sexos, isto é, dos gêneros, vale acrescentar

que grande parte dos textos que serviram como base para a inscrição e a revisão dessa

ligação entre homens e mulheres eram os textos literários, cuja distinção se fazia

bastante complexa dos tratados e textos moralizantes, já que a literatura também

educava. Nesse tempo, não existia a noção de modelos canônicos e nem sequer a

própria noção de gêneros literários, por isso também se faz relevante essa revisitação

dos discursos morais. Os tratados eram importantes porque apresentavam princípios,

normas de comportamento, de composição. A concepção de gêneros literários também

era incipiente. Para se ter uma medida, o modo como classificavam a prosa narrativa era

“histórias fingidas”, o que nos leva a questionar a representação que estas faziam da

vida em sociedade. Vale anotar que, de modo sumário, as artes estavam divididas pela

finalidade de censurar os vícios ou elogiar as virtudes. De acordo com essas finalidades

é que se empreendia a representação do caráter das personagens.

Contudo, a nosso ver, Cervantes nas novelas a que nos referimos não se

prende, totalmente, a essas regras e produz textos que, mais do que orientar o leitor para

o seu sentido, atribui a ele essa função da decifração, como diz Colin Thompson (1990).

Sendo assim, é com base nessa relação que a literatura estabelecia com os tratados e

com a representação da vida social que vamos problematizar o texto literário de forma

que seja possível ver nele o que há de representativo do contexto histórico no qual foi

produzido, o que produz, em termos artísticos, maior embelezamento da ficção

cervantina.

1.1. Do sexo ao gênero: discussões em torno do homem e da mulher

Ao separar a história da mulher da história do homem, se termina por

impossibilitar a compreensão do verdadeiro grande tema, que é a

sociedade, ou o corpo social.

Reyna Pastor

Estudando a condição social da mulher na Espanha medieval, Reyna Pastor

(1986) observa que, sendo a mulher um elemento social, deve ser estudada na sua

interação com o homem, isto é, vivendo em sociedade, embora seja necessário ressaltar

as restrições a que foram submetidas as mulheres daquele contexto. De acordo com o

pensamento da historiadora Maria Filomena Dias Nascimento,

23

A sociedade feudal foi, sem dúvida, patriarcal e, para muitos autores,

estaríamos falando de uma época histórica na qual as mulheres

estavam obrigadas a circular exclusivamente na esfera privada. E,

ainda assim, estaríamos falando de uma circulação somente permitida

dentro dos limites da casa paterna, da casa marital ou do convento

(NASCIMENTO, 1997, p. 85).

Tal limitação nas práticas femininas, bem como a inferioridade das ideias em

torno da mulher foi reforçada pela grande difusão das teorias misóginas ao longo da

Idade Média. Era frequente a recorrência ao pensamento de teóricos antigos e medievais

sobre a condição feminina, fator que reforçou a submissão da mulher medieval nos

primeiros séculos da Idade Moderna. Essa ideia da reclusão feminina figurou como

enredo de muitos registros literários desse período, como veremos em El celoso

extremeño e em Las dos doncelas. Pensadores como Aristóteles, São Paulo, Santo

Agostinho e São Tomás de Aquino foram decisivos na construção do discurso

misógino.

Em História dos animais (2008), o filósofo grego Aristóteles foi disseminador

da inferioridade da mulher reduzindo o seu papel, na geração, ao de matéria prima à

espera da ação formadora ou movedora do sêmen do homem. Acrescenta Pedro Carlos

Louzada Fonseca que “a considerável autoridade de Aristóteles foi certamente

responsável pela conservação medieval da equação da mulher à matéria, enquanto o

homem era responsável pela forma que, equacionada à Alma, encontrava-se em estado

superior apenas no sexo masculino” (FONSECA, 2009, p. 172). Também é de origem

aristotélica (2008) o significado de corrupção moral adquirido pela menstruação.

Acreditava-se que o sangue da menstruação impedia a germinação e matava as plantas,

oxidava o ferro e transmitia raiva aos animais. Ainda o sêmen “foi considerado como

uma espécie de resíduo de sangue altamente depurado, supôs-se, na opinião transmitida

por esses pensadores da Antiguidade, que a frequente atividade sexual literalmente

drenaria a vitalidade do sangue do homem, causando-lhe deficiências” (FONSECA,

2009, p. 172).

Maria Filomena Dias Nascimento lembra que, antes do século XIII, a igreja já

estava profundamente afetada pela imagem negativa da primeira mulher que se formara

em torno de Eva. Esta era considerada “um ser pecador, incapaz de resistir à tentação,

pelo que necessário submetê-la à tutela masculina” (NASCIMENTO, 1997, p. 85). Esse

pensamento foi fundamental para estereotipar a mulher em suas ações como um anjo ou

como uma bruxa, como veremos na leitura de El celoso extremeño a seguir. Sendo a