Prazeres Encantados por Eloisa James - Versão HTML

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PRAZERES ENCANTADOS

(Enchanting Pleasures)

Eloisa James

―Bem-vinda a Inglaterra, senhorita Jerningham.

Quill Dewland vai ao porto receber a sua futura

cunhada que chega da Índia e mal pode dissimular sua

surpresa; esperava ver uma herdeira e quem desce do navio

em seu lugar é uma jovem despenteada e gordinha, cuja

espontaneidade se choca com os estritos costumes da

sociedade vitoriana. De fato seu irmão Peter, o noivo, esta

horrorizado. É impossível que acreditem que realmente vai

se casar com esse espantalho que não sabe comportar-se.

Se o fizer se converterá no bobo de toda Londres.

Quill por sua parte não pensa o mesmo. Desde que a

conhece, essa voluptuosa sereia embota seu sentido

fazendo desejar estar no lugar de seu irmão Peter… Se não

fosse pelo terrível segredo que o impede de ter qualquer

tipo de intimidade com uma mulher.

Envio do Arquivo: Lucilene

Tradução: Gisa

Revisão Inicial: Tessy

Revisão Final e Formatação: Lívia

Tiamat - World

Nota da Revisora Tessy: Para fechar com chave de ouro a

história não podia ser melhor!!! Nela tem tudo de bom,

romance, diversão e senas quentes... Adorei essa série e

espero que gostem também.

Nota da Revisora Lívia: Gentem amei esta trilogia, apesar

de não ser hot, é muito gostosa e os personagens muito

engraçados e espirituosos, amei e vcs Tb vão amar,

meninas.

Capitulo 1

St James Square, Londres, 1806.

A sorte acabava de dar ao visconde Dewland um golpe

que teria derrubado um indivíduo menos forte, ou mais

sensível, que ele. Olhava seu filho mais velho com a boca

aberta sem fazer caso do balbuceio de sua esposa. Depois

passou pela sua cabeça uma ideia: essa mesma esposa tinha

lhe dado dois filhos varões.

Sem dar mais voltas, girou sobre seus calcanhares e

ladrou dirigindo-se a seu filho mais novo:

―Já que seu irmão não pode sacrificar-se no dever

conjugal, será você o que se encarregue. Por uma vez em

sua vida, comportará-se como um homem.

A Peter Dewland pegou de surpresa esse ataque.

Acabava de levantar-se para comprovar no espelho do salão

o estado do nó de sua gravata, evitando desse modo

encontrar-se com o olhar de seu irmão. Em nome de Deus

que se podia fazer diante uma revelação como essa?

Foi sentar no sofá.

―Suponho que esta sugerindo que me eu case com a

filha de Jerningham.

―Evidentemente! ― Gritou o visconde ― Algum dos

dois tem que fazê-lo e seu irmão acaba de declarar-se

incapaz.

―Rogo que me perdoe ― Disse Peter com expressão

realmente enojada ― Mas não tenho nenhuma intenção de

me casar só para agradar você.

―E que quer dizer com isso? Casar-se-á com ela se eu

lhe ordenar isso!

―Não tenho pensado me casar, pai, ordene você ou

qualquer outra pessoa.

―Tolices! Todo mundo se casa.

―Isso não é certo ― Suspirou Peter.

― Foi o acompanhante de um montão de garotas

apropriadas durante seis anos, se alguma tivesse gostado

cederia a seus desejos, mas como esse não parece ser o

caso, casar-se-á com a filha de Jerningham. E o fará

porque seu irmão está incapacitado. Tive muita paciência

contigo; neste momento poderia estar no sétimo de

infantaria, tinha ocorrido pensá-lo?

―Preferiria isso antes que tomar uma esposa ―

Decretou Peter.

―Nem pensar! ― Grunhiu o visconde dando a volta ―

Seu irmão esteve entre a vida e a morte durante anos.

Fez-se um pesado silêncio. Peter fez uma careta em

direção a seu irmão mais velho.

Quentin Dewland, que estava um momento olhando a

ponta das botas, levantou os olhos para seu pai.

―Se Peter tiver decidido não casar-se, eu o farei ―

Disse com sua grave voz.

―Para que? Não poderia fazer frente a suas

obrigações como marido, e essa pequena tem direito a ter

um digno de tal nome, diabo!

Quentin, a quem seus amigos chamavam Quill, abriu a

boca para responder, mas a voltou a fechar. Podia

consumar o matrimônio, mas certamente não seria uma

agradável experiência. Qualquer mulher merecia algo

melhor que o que ele podia oferecer. Embora suas feridas

tivessem deixado de fazê-lo sofrer, as enxaquecas de três

dias de duração que implicava qualquer tipo de movimento

repetitivo, certamente não favoreciam uma união

agradável.

―Não responde? ― Disse o visconde, triunfante ―

Não estou falando por falar, nem tento fingir que é um

garanhão quando não é assim. Dá conta de que poderia

fazê-lo já que a garota não saberia nada até que fosse

muito tarde. E seu pai se tornou tão miserável que nem

sequer a acompanhou a Inglaterra. Seja como for ―

Prosseguiu dirigindo-se de novo a seu filho mais novo ― Ela

vem para casar-se. E se não poder ser com Quill, será

contigo. Enviarei-lhe teu retrato no próximo navio.

―Não quero me casar, pai ― Insistiu Peter marcando

cada sílaba.

O visconde ficou vermelho como um tomate.

―Já vai sendo hora de que deixe de se divertir. Por

Deus que me obedecerá!

Peter tirou de forma visível, uma bolinha de pó do

pescoço de veludo.

―Não me entendeu, nego a me casar com a filha de

Jerningham.

Só o leve tremor de sua voz traía seu nervosismo.

A viscondessa interveio na conversa antes que seu

marido tivesse tempo de gritar de novo.

―Está muito alterado, Turlow Não poderiam continuar

com esta conversa mais tarde? Já sabe o que disse o

médico: não deve ficar nervoso.

―Bobagens! ― Replicou o visconde deixando-se

conduzir, entretanto até uma poltrona ― Por São Jorge,

senhor Peter Dewland, que me obedecerá ou te porei na

porta da rua!

As veias das têmporas estavam inchando de forma

preocupante e a viscondessa lançou um olhar suplicante a

seu filho mais novo.

Mas antes que Peter pudesse falar, o visconde se pôs

em pé de um salto.

―E que se supõe que devo contar a essa garota quando

houver feito toda a viagem da Índia? Que você não deseja

se casar com ela? Planeja dizer a meu amigo Jerningham

que não quer a sua filha?

―Exatamente.

―E o dinheiro que me emprestou durante todos estes

anos? Sem interesses. Enviava-me isso para que eu fizesse

o que quisesse com ele. Pode ser que ainda seguisse

fazendo-o se seu irmão não tivesse amassado uma fortuna

especulando com a Companhia das Índias. Entre os dois

decidimos considerá-lo como um dote. Casar-se-á com essa

pequena ou eu…

Agora sua cor se tornou arroxeado e apertava as

mãos contra o peito sem dar-se conta.

―Quill poderia devolver o dinheiro ― Objetou Peter.

―Maldição! Já permiti que seu irmão se transformasse

em um comerciante e que jogasse na Bolsa, que me

condenem se agora permito que pague minhas dívidas!

―Não vejo em que mudaria isso as coisas já que está

pagando todos nossos gastos.

―Basta! A única razão pela que seu irmão… Pela que

permiti que seu irmão se metesse na Bolsa foi por que…

Bem, porque está doente. Mas ao menos ele é um homem

razoável, enquanto que você só é um inútil frívolo que só se

preocupa com a moda.

Enquanto o visconde tomava fôlego, Quill cruzou seu

olhar com o de seu irmão. Peter leu em seus olhos uma

espécie de desculpa e viu como se fechavam as esporas do

matrimônio em seus pulsos. Virou para olhar a sua mãe, mas

viu que não podia esperar nenhuma ajuda por esse lado.

Com o coração em um punho, sentiu que fraquejava.

Abriu a boca para protestar mais que podia dizer? Ao final

o largo costume da submissão se apoderou dele.

―Muito bem ― Resmungou com voz lúgubre.

Kitty Dewland se levantou para depositar um beijo em

sua bochecha.

―Peter ― Disse ― Você sempre foi um consolo para

mim. E a verdade é que se relacionou com muitas mulheres

sem se declarar a nenhuma delas. Estou segura de que a

filha de Jerningham será perfeita. Já sabe que sua mãe

era francesa.

O olhar de seu filho expressava um resignado

desespero que lhe doeu.

―Há alguma outra mulher querido? Alguém com quem

desejasse se casar?

Peter negou com a cabeça.

― Bom ―Continuou alegremente a viscondessa ―

Vamos nos preparar para receber a essa jovem Como se

chamava Thurlow? Thurlow!

O visconde, muito pálido, estava apoiado no respaldo

da poltrona.

―O meu peito está doendo Kitty ― Resmungou.

A viscondessa saiu imediatamente do salão, muito

afetada para dar-se conta de que seu adorado mordomo,

Codswallop, estava justo atrás da porta.

― Vá procurar o doutor Priscian! ― Gritou com voz

aguda, voltando logo para salão.

O rígido Codswallop tinha estado escutando a

conversa de seus senhores. Olhou ao filho mais velho dos

Dewland antes de chamar um lacaio. Era incrível! Quentin

sempre tinha tido um corpo perfeito que se notava debaixo

dos ajustados trajes, o tipo de corpo que fazia que as

criadas ofegassem quando pensavam nele. Devia tratar-se

de uma enfermidade… Intima, disse-se com um

estremecimento.

Nesse momento, Quill o olhou. Seus olhos foram de

um estranho cinza esverdeado e seu rosto, muito

bronzeado, tinha umas quantas rugas de dor. Dirigiu ao

mordomo um olhar que o congelou até os ossos.

Este se refugiou rapidamente no vestíbulo e ordenou a

uns criados que levassem o visconde a suas acomodações.

Peter saiu em tromba, furioso, seguido mais lentamente

pelo Quill, e Codswallop fechou atrás deles a porta do

salão.

Uns três meses depois, o assunto estava fechado. A

senhorita Jerningham devia chegar na semana seguinte no

Plassey, uma fragata que procedia de Calcutá.

O visconde explodiu de raiva quando Peter anunciou no

dia anterior à chegada da jovem, que ia passar uns dias no

campo. Mas a noite desse cinco de setembro em vez de

dirigir-se para o Hertfordshire se encaminhou para seu

clube, e o visconde, pôde dar um discurso sobre as

vantagens das futuras bodas, enquanto serviam o pombinho

assado no jantar. Sem ter falado entre eles, Thurlow e sua

esposa estavam convencidos de que se deixavam que

fizesse o que quisesse, Peter nunca se casaria.

―Se tranquilizara assim que essa pequena esteja aqui

― Declarou Thurlow.

―Terão uns formosos filhos ― Anuiu sua mulher.

Só Quentin parecia cético. Quando seus pais

abandonaram o salão, aproximou-se da janela e se apoiou no

vidro com o olhar perdido nos jardins. Ao notar que a perna

direita começava a protestar, mudou ligeiramente de

posição. Estava acostumado aos aborrecimentos de seu pai

e os tinha suportado em silencio durante anos para fazer

logo o que queria. Peter, por sua parte, sempre o tinha

obedecido, de modo que não era surpreendente que tivesse

terminado por ceder à vontade do visconde. Certamente

nem sequer tinha pensado em desobedecer no momento em

que compreendeu que seria seu filho quem herdaria o título

algum dia.

Entretanto Quentin tinha o coração em um punho.

Como seria a vida de Gabrielle Jerningham uma vez que

estivesse casada com Peter? Teria uma vida disciplinada e

sofisticada como era frequente na alta sociedade. Uma

união amistosa e distante.

Esticou-se e seu poderoso corpo se recortou contra a

luz. Tinha um corpo moldado pela dor, a força de vontade e

o exercício. Um corpo do qual conhecia todas as forças e

debilidades. Não era o corpo de um simples cavalheiro

londrino.

Com um movimento da cabeça, jogou o cabelo para

trás, um cabelo que estava crescendo muito para estar na

moda. Por um momento ficou imóvel golpeado pela

lembrança do vento jogando com seu cabelo quando

cavalgava com seu cavalo arrojado ao galope.

Mas os cavalos, igual às mulheres, eram agora um

prazer proibido para ele. Um esforço que requeresse

movimentos rítmicos ele pagava irremediavelmente com

terríveis enxaquecas que faziam permanecer em seu

dormitório, coberto de suor e presa de violentas náuseas. E

os médicos se limitaram a dizer que a ferida que tinha

sofrido na cabeça seis anos antes, o impedia de realizar

movimentos repetitivos. Todos.

Quill apertou os dentes. Não havia nada pior que

compadecer de si mesmo. Os cavalos e as mulheres eram

agora parte do passado.

Sorriu; os esportes que mais sentia falta de (uma boa

cavalgada e uma noite com uma mulher) a Peter não

interessavam absolutamente. Que diferentes eram os dois

irmãos!

Ao final talvez fosse que Quentin estava preocupando

sem motivo por Peter e Gabrielle. Se seu irmão mais novo

não gostava da ideia do matrimônio, ao menos gostava da

companhia das mulheres. Uma jovem francesa decorativa,

com a qual pudesse conversar comentar as últimas modas e

pavonear-se nos bailes, poderia chegar a ser sua melhor

amiga. E Gabrielle era um nome muito bonito que evocava

elegância e refinamento. Peter alimentava uma verdadeira

paixão pela beleza. Uma encantadora jovem certamente

conseguiria que chegasse a aceitar o matrimônio.

Quill teria sido menos otimista se tivesse podido ver a

encantadora jovem em questão.

A prometida de Peter estava nesse momento

ajoelhada sobre o chão de seu camarote olhando à menina

sentada em um tamborete que a escutava com atenção. Os

cabelos de Gabrielle escapavam de seu penteado e seu

vestido passado de moda estava completamente manchado.

Certamente não parecia para nada elegante.

―O tigre se movia sem fazer ruído na espessa mata ―

Estava dizendo em voz baixa e misteriosa ― Punha uma

pata diante da outra sem incomodar aos pássaros que

cantavam nos ramos das árvores e lambia os lábios

pensando no banquete que trotava alegremente diante dele.

Phoebe Pensington, uma órfã de cinco anos que se

dirigia à casa de sua tia em Londres, estremeceu enquanto

Gabby, cujos olhos marrons tinham tomado a cor dos do

tigre, continuava:

―Mas quando o tigre chegou ao limite do bosque,

deteve-se em seco. A cabra branca estava andando pela

beira justo na borda das ondas azul marinho do oceano

Índico. E o tigre tinha medo de água. Seu estômago lhe

ordenava que avançasse, mas seu coração estava encolhido

de medo. Ficou imóvel à sombra de uma árvore.

―Mas, senhorita Gabby ― A interrompeu Phoebe com

ansiedade ― Se não se comer à cabra o que vai jantar? Não

morrerá de fome?

Um brilho divertido atravessou o olhar de Gabby.

―Talvez estivesse tão envergonhado de sua falta de

coragem que se esconderá no alto da montanha para

alimentar-se somente de frutos e de folhas.

Phoebe tinha uma mente muito prática.

―Não acredito. Eu penso que o tigre saltou sobre a

cabra e a devorou.

―Os tigres, ao igual aos gatos, têm terror da água ―

Disse Gabby ―Não se dão conta da beleza das ondas

acariciando a areia. Para este as ondas eram como pinças

de caranguejo mordiscando seus ossos.

Phoebe deu um grito quando a porta do camarote se

abriu rompendo a magia do relato.

Eudora Sibbald, completamente vestida de negro,

observou a cena com severidade. A senhorita Gabrielle

Jerningham estava sentada em uma postura muito pouco

adequada, despenteada como de costume e com o vestido

sujo. Parecia uma Maria macha cujo cabelo revelava um

caráter desordenado.

―Phoebe ― Grunhiu a babá da menina.

A pequena ficou em pé de um salto e fez uma

reverência.

―Senhorita Jerningham ― Continuou severamente

Eudora com o tom que tivesse utilizado para repreender

uma faxineira.

Gabby, que se tinha levantado do chão, recebeu com

um encantador sorriso à antipática mulher.

―Perdoe… ― Começou.

―Possivelmente não a ouvi bem, senhorita Jerningham.

Você não me disse nada de “mordiscar os ossos” verdade?

Gabby pensou que Eudora não poderia ter chegado em

pior momento.

―OH não! ― Disse em tom conciliador ― Estava

contando a Phoebe uma passagem da Bíblia.

A senhora Sibbald enrugou o nariz. Sabia muito bem o

que tinha ouvido e não se parecia muito a nenhuma

passagem da Bíblia.

― Tratava-se da história do Jonas e a baleia ―

Acrescentou rapidamente Gabby ― Já vê senhora Sibbald,

como meu pai era missionário tenho tendência a falar sem

parar da Bíblia.

A babá se tranquilizou um pouco.

―Nesse caso senhorita Jerningham… Entretanto lhe

rogo que tente não excitar muito à menina. É mau para a

digestão. E onde está Kasi Rao Holgar?

―Acredito que está dormindo a sesta. Disse que

estava um pouco cansado.

― Me perdoe senhorita Jerningham, mas me parece

que você mima muito esse menino. Príncipe ou não necessita

dos edificantes ensinos da Bíblia. Depois de tudo é um

indígena e só Deus sabe que influências teve em sua mais

tenra infância.

―Kasi foi educado em minha casa ― Protestou Gabby

― E asseguro que é tão cristão como Phoebe.

―Tolices! ― Decretou a senhora Sibbald ― Nenhum

hindu pode ser tão cristão como uma inglesa. Mas bom, é a

hora do chá. Seu penteado esta desfeito uma vez mais

aconselho que o arrume imediatamente.

Dizendo isto a babá abandonou o camarote.

Gabby, suspirando, sentou-se em uma poltrona.

Efetivamente várias mechas se escaparam das forquilhas.

Uma pequena mão puxou sua saia.

―Esqueceu-se por mim, senhorita Gabby, acredita que

deveria chamá-la?

Dois enormes olhos azuis a estavam olhando com

adoração. Gabby pegou à pequena e a sentou em seus

joelhos.

―Juraria que cresceu meia cabeça durante esta

viagem ― Disse.

― Sim ―Replicou Phoebe olhando com desgosto seu

vestido ― A saia é muito curta e me começam a ver os

calções.

Essa ideia a aterrorizava.

―Estou segura de que terá roupa nova na Inglaterra ―

A tranquilizou Gabby.

―Acredita que ela me quererá? ― Murmurou a

pequena apoiando-se em seu ombro.

―Quem?

―Minha nova mamãe.

―Como poderia não querer? É a menina mais adorável

de todo o navio. A verdade é que é a menina mais deliciosa

que tenha chegado jamais da Índia.

Phoebe se apertou mais contra ela.

―É que, quando me despedi do Ayah…

Ayah era o hindu que tinha recolhido à menina. Sua

separação do parecia havê-la traumatizado mais que a

morte precoce de uns pais aos que mal tinha conhecido.

―Ayah disse que tinha que seja muito, muito boa, do

contrário minha nova mamãe não me ia querer porque não

tenho dinheiro.

Gabby amaldiçoou em silencio ao Ayah.

―O dinheiro não tem nada que ver com o carinho que

uma mãe sente por seus filhos ― Disse com tanta firmeza

como pôde ― Sua nova mãe te quereria embora chegasse

de camisola.

Esperava de todo coração que isso fosse certo.

Segundo o capitão do navio não tinha havido nenhuma

resposta à carta que tinham enviado à única parente de

Phoebe, sua tia.

―Senhorita Gabby ―Disse a menina ― Por que disse à

senhora Assobiem que estava contando a história do Jonas

e a baleia? Ayah diz que é errado dizer mentiras,

sobretudo aos empregados e a senhora Sibbald é uma

empregada não é certo? Contrataram-na para que me

acompanhasse até a Inglaterra.

Gabby esfregou sua bochecha no sedoso cabelo da

menina.

―Ayah tinha razão em parte. Mas às vezes se pode

disfarçar ou pouco a verdade para que a pessoas esteja

mais contente. À senhora Sibbald gosta que estude a Bíblia

e já viu quão contente ficou quando a mencionei.

―Eu não acredito que nunca esteja contente ―Disse

Phoebe depois de pensá-lo um momento.

―Possivelmente, mas então é muito mais importante

não zangá-la.

―Acredita que se disser a minha nova mamãe que

tenho dinheiro ficará mais contente? Isso a faria me

querer?

Gabby engoliu o nó que tinha na garganta.

―Carinho, estava falando de mentiras pequenas. Não

tem que dizer a sua nova mãe uma coisa assim porque isso

seria uma mentira muito grande. Às pessoas que se

importam como sua nova mãe, terá que dizer sempre a

verdade.

A menina sumiu em um silêncio cheio de cepticismo.

Gabby estava espremendo o cérebro; apesar de seu

desejo de ter filhos, estava-se dando conta de que educá-

los era mais difícil do que pensava.

―Você contribui com dinheiro ao seu marido? ―

Perguntou Phoebe apoiando a face no ombro de Gabby.

―Sim ― Confessou ela de má vontade ― Mas não me

amará por isso.

Phoebe se levantou com curiosidade.

―Não?

―Peter me amará por mim mesma ― Disse

tranquilamente Gabby ― E sua mãe te quererá por si

mesma.

A pequena saltou ao chão.

― Por que disse à senhora Sibbald que Kasi estava

dormindo a sesta em seu camarote? Isso não é certo, e não

a fez feliz.

―É outra regra. Meu querido Kasi está aterrorizado

pela senhora Sibbald.

―Que regra?

―Terá que proteger os fracos frente os fortes ―

Contestou Gabby retificando imediatamente ― Bom, não é

exatamente assim Phoebe. Já conhece o Kasi. O pôr nas

mãos da senhora Sibbald teria sido como entregar a cabra

ao tigre.

Ouviu-se um ruído atrás do biombo que tampava a

banheira e a menina se aproximou de olhar.

―Tem que sair Kasi Rao folgar ― Ordenou pondo as

mãos nos quadris ― O que pensaria a senhora Sibbald se te

visse na banheira completamente vestido?

― O deixe que fique se quiser ― Indicou Gabby do

outro extremo do camarote.

Mas Phoebe moveu a cabeça com uma determinação

que sua babá teria aprovado.

―É a hora do chá Kasi ― Insistiu ―Não se preocupe

Gabby não voltará a contar a história do tigre.

Um pequeno rosto com uns imensos olhos apareceu

atrás do biombo. O menino não tinha muita vontade de sair

de seu esconderijo mais Phoebe o puxou pela mão.

―Só estamos nós Kasi.

Os olhos escuros inspecionaram o camarote e Phoebe

o sacudiu com impaciência.

―A senhora Sibbald acredita que esta dormindo de

modo que não tem nada que temer.

― Vamos tomar o chá ― O tranquilizou Gabby.

O menino encontrou por fim a coragem para sair de

seu refúgio e se precipitou a ir aos joelhos dela onde se

aconchegou como um passarinho em seu ninho.

―Tem fome irmãozinho?

―Não é seu irmão ― Retificou Phoebe ― É um

príncipe!

―É certo, mas sua mãe era parente da primeira mulher

de meu pai e cresceu a meu lado de modo que tenho a

sensação de que é meu irmão.

Kasi estava brincando com o medalhão que Gabby

tinha pendurado ao pescoço e cantarolava enquanto tentava

abri-lo.

Phoebe, do outro extremo da poltrona se aproximou

para apoiar-se na perna de Gabby.

―Posso ver o retrato de seu marido?

―É obvio!

Antes de sair com destino à Inglaterra tinha recebido

uma miniatura de seu futuro esposo. Abriu o medalhão.

― A está esperando em Londres, senhorita Gabby?

Sim. Esperam-nos no mole, Phoebe. A você sua nova

mamãe e ao Kasi a senhora Malabright. Verdade carinho?

Teve a satisfação de ver que o pequeno príncipe

assentia com a cabeça. Todos os dias lhe recordava que

uma vez na Inglaterra, a senhora Malabright iria lhe

buscar.

―E depois o que acontecerá, Kasi? ― Insistiu.

―Viverei com a senhora Malabright ― Disse ―Eu

gosto de muito a senhora Malabright. Eu não gosto da

senhora Sibbald.

― A senhora Malabright te levará a sua casa e nunca

voltará a ver a senhora Sibbald ― Prometeu Phoebe ― Eu

irei vê-lo, esconderei-me e não direi a ninguém onde está.

―Sim! ― Disse o menino satisfeito voltando a brincar

com o medalhão.

―Gosta de seu futuro marido senhorita Gabby ―

Perguntou Phoebe.

Só olhando o retrato de Peter, com seus doces olhos

marrons e seu cabelo ondulado, Gabby sentia o coração

disparado.

―Sim ― Respondeu.

Phoebe, que já era uma romântica apesar de sua curta

idade, deu um lânguido suspiro.

―Estou segura de que você também gosta. Enviou um

retrato para ele?

―Não tive tempo de fazê-lo.

Embora o tivesse tido não o teria mandado. No único

retrato que seu pai tinha permitido que fizessem dela

aparecia horrivelmente bochechuda.

Guardou o medalhão no sutiã.

Enquanto os três roíam umas torradas de pão duro já

que o fresco se terminou fazia tempo; não pôde evitar

sonhar com os olhos de seu prometido. Graças a Deus a

entregavam a um homem que era tudo o que ela esperava de

um marido. Parecia tranquilo e conciliador, justamente o

contrário que seu pai.

Gabby estava contente. Peter seria um pai amoroso e

dedicado a seus filhos. Já imaginava quatro ou cinco

meninos com os olhos de seu pai. Dia após dia, o navio a

levava léguas da Índia, longe das ácidas recriminações de

seu pai:

―Gabrielle, não pode ficar um momento calada?

Gabrielle, outra vez me envergonhou com seu mau

comportamento.

Ou o pior de tudo:

― Meu Deus! Por que me castigou com uma filha tão

feia e faladeira?

A felicidade de Gabby ia aumentando com cada milha

que avançava o navio.

E a confiança em si mesma aumentava ao mesmo

tempo. Peter a amaria, coisa que seu pai tinha sido incapaz

de fazer. Tinha a sensação de que seus olhos viam o fundo

de sua alma, que podiam ver a Gabby digna de ser amada,

não a Gabby impetuosa e torpe…

Sim, se Quentin tivesse podido ver Gabrielle e ler

seus pensamentos, ficaria gelado.

Mas como não tinha muita imaginação, e tampouco era

adivinho, convenceu-se de que a senhorita Gabrielle

Jerningham seria uma perfeita esposa para seu irmão. De

fato, mais tarde durante a noite, disse a Peter quando viu

no clube.

Este último, de muito mau humor, estava tentado

afogar suas penas em álcool.

―Não sigo seu raciocínio ― Resmungou.

―O dinheiro ― Respondeu Quill.

―O dinheiro? Que dinheiro?

―O seu.

Quentin teve um fugaz sentimento de culpa, a estava

tratando como se fosse uma mercadoria, coisa que por

outra parte era certa em parte.

―Com o dinheiro de Jerningham ― Continuou ―Poderá

compartilhar a roupa que tanto você gosta.

―Já uso o melhor que há ― Disse Peter com altivez

consciente de ir sempre à vanguarda da moda.

―Usa o que te pago ― Respondeu seu irmão.

Peter mordeu o lábio inferior. Teria sido muito

grosseiro; e iria contra sua natureza basicamente amável;

fazer notar a Quentin que algum dia a fortuna deste

passaria a ser dele porque não haveria outro herdeiro.

Salvo se, por um milagre, alguém conseguisse curar suas

enxaquecas.

Sim, seria muito agradável dispor de seu próprio

dinheiro.

Quentin viu como se iluminava o olhar de seu irmão e

tornou a sentir o coração mais leve. Deu-lhe uma amistosa

palmada nas costas antes de abandonar o clube.

Capitulo 2

O visconde Dewland tinha enviado George, um jovem

lacaio, aos moles da Companhia das Índias o dia que

supunha que ia chegar o Plassey. Mas depois de duas

semanas, já que o navio chegava com atraso, os viscondes

decidiram ir a Bath, pensando que uma cura em suas águas

melhoraria a saúde de Thurlow. Kitty pediu a Codswallop

que os avisasse quando soubesse algo do navio. E todas as

noites durante três semanas mais, o jovem George voltou

para casa com um aspecto bastante desarrumado depois de

haver passado todo o dia nos botequins que havia no porto.

Tiveram que esperar dois de novembro para que o

Plassey atracasse. George se apressou a voltar para St.

James Square.

Mas encontrou com uma casa sumida no silêncio. Não

viam muito o noivo nos últimos dias. Seu ajudante de

câmara dizia que estava emburrado, o qual divertia

enormemente aos criados já que não podiam acreditar que

estivesse zangado porque o obrigavam a casar-se com uma

rica herdeira.

De fato o único membro da família que se encontrava

presente na casa era Quentin, que estava comprovando os

informes que seu secretário tinha entregado. Desde o

acidente estava privado das distrações habituais dos

cavalheiros de modo que tinha posto sua enorme

inteligência a disposição dos negócios. Nenhum de seus

professores de Eton; que o consideravam como um dos

alunos mais brilhantes que tinha passado pela universidade;

estranhou ao saber que seus investimentos tinham dado

consideráveis benefícios. Quill, que tinha começado a

amealhar uma fortuna graças à Companhia das Índias,

possuía agora uma fábrica de lã em Yorkshire e uma

leiteria em Lancashire.

Apesar

de

tudo

preferia

especular

a

ter

propriedades. Tinha quinze empregados que percorriam as

Ilhas Britânicas reunindo informação sobre minas de cobre

e de carvão. Recentemente tinha decidido que atuassem de

incógnito porque se alguém se dava conta de que Quentin

Dewland estava interessado em uma empresa, às ações

desta subiam como a espuma na Bolsa.

Nesse

momento

sua

mente

estava perdida;

esquecendo o relatório de Maugnall & Bulton, fabricantes

de malhas; na contemplação das folhas mortas que estavam

disseminadas pelo atalho. Durante sua convalescença

passou horas reorganizando o jardim de sua janela. As

ameixeiras este ano tinham dado muitos frutos.

Entretanto estava nervoso e custava muito

concentrar-se nos numerosos informes que estavam

esperando turno.

O jovem George se manteve diante dele até que

levantou os olhos.

―O Plassey chegou milorde, e o senhor Codswallop não

sabe onde está o senhor Peter.

Quill se levantou.

―Diga a Codswallop que irei eu mesmo a procurar à

senhorita Jerningham.

Isso era exatamente o que necessitava dar uma volta

por quão moles ferviam de atividade embora só fosse para

procurar à futura esposa de seu irmão.

Meia hora mais tarde, sua elegante carruagem se

deteve e desceu dela para continuar o caminho a pé entre a

gente.

―Nossa Dewland, olá! Veio fiscalizar o desembarque

de alguma mercadoria?

Timothy Waddell não podia esconder sua curiosidade.

Todos sabiam que o que tocava Dewland se transformava

em ouro e lhe tivesse gostado de saber sua opinião sobre

uma fábrica de algodão que acabava de comprar.

― Hoje não ― Respondeu Quentin.

Foi tão cortante que Waddell recuou e não se atreveu

a lhe perguntar.

Quill se afastou. Reparou em uma mulher que havia no

mole, certamente uma passageira do Plassey; enquanto se

aproximava se deu conta de que tinha agarrada a mão a uma

menina. Supôs que a prometida de Peter devia estar

esperando que alguém fosse recolhê-la antes de abandonar

o navio.

Dirigiu-se a um marinheiro.

―Onde posso encontrar à senhorita Jerningham?

O homem sorriu.

― Bem atrás de você.

Quentin se virou lentamente. A mulher o estava

olhando inquisitivamente. Maldição! Pensou a senhorita

Jerningham era indiscutivelmente formosa, Tinha a boca

mais carnuda que ele já tinha visto e seus olhos… Seus

olhos tinham uma cor quente similar ao do conhaque; mas

foram sobretudo seus cabelos os que chamaram a atenção

de Quill. Eram de uma cor castanha dourada como se fosse

cobre escuro e os cachos escapavam das forquilhas. Parecia

que acabasse de sair da cama. Uma cama que devia ser

muito cômoda. De fato era o contrário de uma elegante

dama francesa. Diabo!

Repentinamente se deu conta de que a estava olhando

fixamente sem que tivesse ocorrido apresentar-se.

―Peço desculpas ― Disse fazendo uma reverencia ―

Sou Quentin Dewland, e logo terei o prazer de ser seu

cunhado.

―Oh!

Por um momento ela tinha acreditado que era Peter,

seu

prometido,

mas

embora

Quentin

parecesse

ligeiramente a seu irmão, não tinha nada em comum com o

retrato. Não. Era muito impressionante, muito viril. E seus

olhos pareciam muito… Autoritários.

Ela fez uma reverência e notou que alguém puxava sua

manga.

―É seu marido, senhorita Gabby? ― Perguntou Phoebe

com os olhos brilhantes de excitação.

Gabby se ruborizou ligeiramente ao se dirigir a

Quentin.

―Posso lhe apresentar à senhorita Phoebe Pensington?

Phoebe e eu passamos muito tempo juntas durante a

travessia. Phoebe, este é o senhor Quentin Dewland, o

irmão de Peter.

Quentin a estava observando com tanta insistência

que cortou seu fôlego. Ele parecia muito formal, melhor não

gostava que chamasse a seu irmão por seu nome de

batismo.

Assombrou-se ao ver que saudava cortesmente à

menina.

―Senhorita Phoebe…

Quando sorria lhe iluminava o rosto. Possivelmente

depois de tudo, não fosse tão aterrador, de todos os

modos, logo seriam família e ela tinha a obrigação de lhe

respeitar.

―Você sabe onde está minha nova mamãe? ―

Perguntou Phoebe.

Quentin negou com a cabeça.

―Temo que não ― Respondeu lançando um olhar

interrogador a Gabby.

―Acreditei que estaria chovendo ― Continuou a

menina ― Ayah me disse que o céu inglês estava sempre

negro como a cova do diabo. Por que não está chovendo?

Você acha que esta tarde choverá?

―Uma nova mamãe? ― Repetiu Quentin cruzando seu

olhar com a de Gabby.

―Phoebe se refere à senhora Emily Swing ― Explicou

ela ― É a irmã de sua falecida mãe. Os pais da menina

morreram em um desgraçado acidente no Madras, de modo

que tiveram que enviá-la a Inglaterra. Entretanto o capitão

me disse que a carta avisando à senhora Swing deve ter se

perdido porque não tinha chegado nenhuma resposta

quando o Plassey se fez ao mar.

―E porque diabos a meteram no navio de todas as

formas?

A menina estava escutando atentamente e Gabby era

consciente disso.

―Estou segura de que a carta chegou a seu destino

depois de nossa saída ― disse alegremente.

―Isso não pode assegurá-lo, se assim fosse essa

mulher estaria aqui.

Gabby o olhou muito séria.

―É muito possível que não saiba que chegamos.

Desgraçadamente Plassey se desviou de sua rota faz coisa

de um mês por culpa de uma tormenta à altura das Ilhas

Canárias.

―A senhorita Phoebe não tem acompanhante?

―Neste momento não. O governador contratou uma

senhora para que a acompanhasse, a senhora Sibbald, mas

esta considerou que sua missão tinha terminado assim que o

navio atracou. Foi embora.

―Onde está o capitão? A senhorita Phoebe está sob

sua responsabilidade, deveríamos lhe entregar à menina e

eu acompanharei você a Dewland House, senhorita

Jerningham.

―Eu não gosto do capitão Rumbold ― Interveio a

pequena ― Não quero ir com ele e não quero vê-lo nunca

mais.

―Temo que não seja possível ―Acrescentou Gabby ―

Compreenda, o capitão Rumbold está muito contente de ter

conseguido chegar ao porto, acredito que em alguns

momentos de viagem teve medo de perder seu navio.

Mandou fabricar, na Índia, uns chapéus, e os carregou no

navio, são horrorosos mais quer fazê-los passar por

chapéus franceses…

Gabby viu que Quentin Dewland franzia os lábios e se

apressou a terminar:

―O capitão já se despediu de nós. Partiu para ir

fiscalizar o desembarque de sua mercadoria. Além disso ―

Acrescentou ― Não gosta de crianças.

Quill respirou profundamente. Orgulhava-se de não

perder nunca a calma, nem sequer sob a dor mais intensa,

mas essa mulher estava a ponto de deixá-lo louco, muito

mais que sua ferida na perna. Nesse momento estava com