Preciso te contar uma coisa por Melissa Hill - Versão HTML

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1.

A BALANÇA, COLOCADA ameaçadoramente no chão do banheiro, desafiava Jenny

a sair daquele estado miserável. Subiu na balança e sentiu uma secura na garganta,

enquanto olhava a fina agulha parar, depois de ir para frente e para trás durante

segundos que pareceram minutos. Sessenta e três quilos. Sessenta e três quilos! De onde

teriam vindo esses malditos três quilos?

Fez de tudo para emagrecer a semana toda. Tudo bem, talvez não toda a semana,

admitia, mas com certeza a maior parte dela, e lembrava bem que perdeu o seriado de

segunda-feira à noite por ter ficado mais tempo do que o esperado em seus “exercícios

de rotina”

E apesar dos esforços não perdeu nem meio quilo — na verdade, havia

engordado mais três. Como isso aconteceu se a previsão de seu horóscopo mensal

afirmava claramente que ela emagreceria antes do casamento?

“Os autossacrificios que fizer de agora até agosto acabarão resultando no fim de

um longo embate que você teve consigo mesma.”

Não estava bem claro para todos que “autossacrificios” significava desistir de

chocolate, salgadinho de alho e que “longo embate” era obviamente sua eterna luta

contra a balança?

Então por que aqueles três quilos a mais?

De repente, um pensamento a atingiu em cheio. Retenção de água — era

provavelmente a tal retenção de água. Sua amiga Karen era magra como uma tábua, e às

vezes reclamava que não conseguia entrar em suas roupas por essa razão. Era isso,

pensou Jenny se consolando.

Ouviu Mike assobiando lá embaixo, na cozinha. Não conseguia entender como

seu noivo podia ser tão animado de manhã. Ele nunca foi do tipo de cobrir a cabeça e se

enfiar debaixo dos cobertores para dormir de novo, se desligando do resto do mundo.

Jenny adoraria ficar na cama um pouquinho mais, e, não fosse por Mike ter insistido

que se levantasse, ela teria ficado muito bem deitada até o meio dia, o que significaria

um dia perdido.

Pena que o exame seja tão cedo, suspirou, enxaguando o condicionador do

cabelo. Ela precisava fazer hoje o máximo de coisas que pudesse, e quanto mais cedo

começasse, melhor. Só seria promovida para o setor hipotecário do Alliance Trust Bank

se passasse nesse exame. A essa altura, ela teria que recuperar o tempo perdido e torcer

para que o que fizesse naquele dia fosse suficiente. E Mike saiu de sua rotina para

garantir que ela tivesse um dia tranquilo, só para si — pelo menos uma vez.

Enrolou uma toalha na cabeça e juntou-se a Mike lá embaixo, na cozinha.

Ele pós na mesa, diante dela, uma caneca de chá quente e um prato de torradas

com manteiga, e beijou-a levemente na testa.

— Acordada, princesa? — disse ele, gracejando. Jenny fez uma careta.

— Minha querida, agora sei por que decidi casar com você: por causa dessa

linda carinha. Ela simplesmente ilumina meu dia.

Jenny deu uma mordida na torrada, torceu o nariz e jogou-a de volta no

prato.

— Argh! O que é isso?

— Isso o quê? — disse Mike, olhando para ela, perplexo.

— A torrada! O que você colocou nela?

— Manteiga — respondeu mecanicamente. — Por quê?

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— Manteiga... — repetiu Jenny admirada. — Mike, você sabe que ultimamente

estou comendo só coisas light. Você não pode pôr manteiga em minha torrada ou em

qualquer outra coisa quando estou de dieta. Você sabe disso!

— Tudo light, é? — disse ele, piscando os olhos de prazer. — E devo supor que

os salgadinhos são fritos em óleo de baixa caloria agora, não é?

Jenny mostrou a língua, e disse:

— Isso é diferente. O que eu como nos fins de semana não conta de verdade, de

jeito nenhum.

— Ah — disse Mike, esforçando-se para se manter sério. — De qualquer

maneira, Jen, você não tem que se matar fazendo dieta. Sabe que a acho perfeita do jeito

que é.

Ele deu a volta na mesa e a beijou no alto de sua cabeça.

Jenny fulminou-o com o olhar ao dizer:

— Mike, usei manequim 46 durante a maior parte de minha vida, e isso na

verdade nunca me incomodou. Mas agora estou determinada, realmente determinada, a

entrar no vestido de casamento tamanho 42 que está em meu armário.

— Realmente determinada, é?

— Absolutamente.

— Certo. E onde está o light então?

— O quê?

— Você ainda está comendo a torrada com manteiga.

— Eu sei. Mas é porque... porque estou com um pouco de pressa, por causa de

tudo o que devo fazer hoje, e realmente não estou com tempo para esperar outra... pare

de rir de mim!

Jenny acabou sorrindo disfarçadamente e então se lembrou do que ainda tinha

pela frente.

— Ah, eu aqui, tendo de atacar aqueles livros, e olhe só o lindo dia que está lá

fora.

Ela olhou ansiosamente para a janela e viu aquele belo céu de fevereiro, sem

nuvens.

— Você vai ficar bem assim que começar, sabe disso. — Mike empurrou o prato

para o lado e encheu de novo sua xícara com chá. — De qualquer maneira, em duas

semanas tudo terá acabado, e então você vai esquecer isso.

— Pois é, esse é o problema — resmungou. — Só faltam duas semanas! Ah, por

que, por que não me dediquei mais? Sou uma idiota por ter deixado passar tanto tempo.

Ela pegou um dos manuais de estudo que estavam na mesa e encarou-o,

desejando que as informações contidas em suas páginas fossem transportadas

diretamente para sua cabeça.

Um exemplar da revista Hello que estava sob os livros a distraiu

momentaneamente. Trazia uma foto de Liz Hurley chegando à estreia de algum filme ou

outro evento num de seus vestidos de grife, decotado, colado ao corpo e fenda aberta até

a coxa. Jenny encarou o decote de Liz. Não era possível que alguém tivesse uma barriga

assim tão reta. Não havia como, com retenção de água e tudo o mais... Para ficar

daquele jeito, a mulher tinha que estar usando uma cinta modeladora.

— Jen, você vai se sair bem — acalmou-a Mike. — Provavelmente já deve saber

boa parte dos temas da prova. Você não ficou estudando Conor nos últimos meses? Já

deve ter fixado as coisas importantes.

— Eu sei, mas não me esforcei para aprender as coisas mais dificeis, como titulo

legal, registro de terra e coisas desse tipo. E se eu não souber isso, não vou conseguir

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me qualificar como conselheira. Posso começar a conceder hipotecas a torto e a direito

sem pesquisar corretamente. Imagina? — comentou, mordendo os lábios.

Mike sorriu para ela de modo encorajador e colocou uma de suas mãos entre as

dela.

— Não se preocupe com isso, Hamilton. Sei que tem capacidade. Não há

ninguém melhor para esse trabalho, e você sabe que ele é bom tanto para você como

para o banco. Só use a paz e a tranquilidade de hoje para estudar muito, e amanhã à

noite vamos sair para tomar uns drinques e relaxar. O que acha?

Jenny fez que sim, e eles encerraram o assunto. Mike tinha razão. Não havia

sentido em se desesperar por causa do exame. Hoje, ela ficaria só estudando. Bastou

pensar em tudo o que tinha que estudar para ficar desanimada. E ela realmente

precisava, hoje, dar o máximo de si.

— Estava pensando — disse Mike —, se você não se importar, que eu poderia

chamar o cara do trabalho para sair conosco amanhã à noite, acompanhado, se ele tiver

alguém. Ainda não tive chance de conhecê-lo socialmente. O que acha?

— Sem problema. De qualquer maneira, estou ansiosa para conhecê-lo. Como

ele é? — perguntou, servindo-se de outra torrada.

— Ele é ótimo, Jenny, e acho que vai ser um ganho real para a InTech. Tem

bastante experiência na área de marketing, especialmente a que acumulou enquanto

trabalhava nos Estados Unidos. E você sabe como sou ruim nisso — disse Mike,

balançando a cabeça com ar de admiração.

Jenny sorriu, concordando. Mike era um programador excelente, e, embora

criasse programas para algumas das maiores empresas irlandesas, não era vendedor.

Com a crescente instalação no país de novas companhias de tecnologia de informação,

particularmente em Dublin, a empresa do noivo precisava da pessoa certa para

promover os produtos, tendo em vista a rápida saturação do mercado.

Fazia tempo que Mike e seus sócios estavam tentando encontrar alguém que

conhecesse profundamente a indústria. Esse rapaz parecia um espécime raro: era um

programador altamente capacitado e igualmente competente em marketing e vendas.

— E também não é nenhum bobo. Demorou a bater o martelo e fechar o contrato

conosco. Não queria trabalhar na base de comissões, como faz a maioria. Stephen

achou-o arrogante e desagradável — disse Mike.

— Coisa do Stephen! Aposto que estava desapontado por você não estar

empregando um ruivo arrebatador, bem penteado e de fazer cair o queixo — disse ela

revirando os olhos, enquanto Mike ria da descrição precisa do caráter de seu sócio.

— Mas é sério mesmo, o sujeito é osso duro de roer. Ele já teve umas rusgas

com o Frank. Até a semana passada, o pobre Frank continuava chamando-o de Ronan.

Não conseguia guardar seu nome, e o outro não aguentou. “Meu nome não tem ‘n’. É

Roan, não Ro-nan” — Mike exagerava na mímica.

— Como ele se chama? — perguntou ela, com a torrada a meio caminho da boca

e o coração disparado no peito.

— Eu sei, é um nome pouco comum, não é? Roan. Nunca conheci alguém com

esse nome. Acho que ele é de algum lugar de Kildare... Monasterevin, ele disse.

Ela teve que usar toda a sua força para tentar ficar calma. Sua boca ficou seca e,

por um segundo, Jenny achou que não seria capaz de respirar. Meu Deus! Será que é

ele?

— Conheci um rapaz chamado Roan alguns anos atrás, quando morava com

Karen. Roan Williams — disse ela, tentando manter a voz calma, embora suas mãos

tremessem. — Roan Williams! É a mesma pessoa?

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— É... Williams é o sobrenome dele. Não é engraçado? Como se diz, o mundo é

pequeno, mas aqui neste país isto é especialmente verdadeiro. Você o conheceu bem?

— comentou Mike, parecendo não perceber seu desconforto.

— Não tão bem — respondeu ela automaticamente, com um sorriso falso,

enquanto tentava engolir a torrada, que parecia chumbo em sua boca. Sua mente voava.

Não podia acreditar. Roan Williams de volta à Irlanda. Como poderia olhar para ele?

Será que devia contar para Mike? Não, ainda não. Precisava de algum tempo para

pensar nisso, para decidir o que fazer depois.

—Jen, está me ouvindo? Disse que a gente poderia sair amanhã à noite, o que

acha? — a voz de Mike interrompeu seus pensamentos.

Jenny olhou para ele, pálida.

— Você ainda está com sono, amor? Achei que a esta altura você já estaria

acordada. — Ele se levantou e afagou seu cabelo, enquanto ela o fitava com um olhar

penetrante.

— Ok, ok! — disse ele, levantando as mãos. — Você está com tudo hoje, por

isso já vou indo enfrentar o trânsito de Dublin e, quando voltar à noite, vou fingir que

sou um comprador de primeira viagem e você poderá me dizer tudo o que tenho que

saber para adquirir a casa dos meus sonhos, certo? — disse ele, bebeu o resto de seu chá

e pós a xícara dentro da pia. Antes de sair, deu-lhe um leve beijo no nariz.

— Desculpe, amor. Estou com os nervos à flor da pele. Não sei como você me

aguenta — disse Jenny sentindo-se meio tonta. Puxando Mike para si, deu-lhe um

sonoro beijo nos lábios.

—Jennifer, também não sei como aguento — disse Mike seriamente —, mas

depois de agosto vou estar amarrado a você, e suponho que terei que fazer o melhor que

puder.

— Saia, seu malcriado, saia enquanto ainda tem pernas para andar! — disse

Jenny, saltando sobre ele, que se esquivou e saiu, rindo muito.

— Ah, só para lembrar, vou voltar para casa mais tarde hoje, por isso não

prepare o jantar muito cedo — disse ele, com a cabeça enfiada no vão da porta.

— Tem certeza de que não quer que eu vá direto para a casa da Rachel? —

perguntou ela distraidamente.

Mike, com um gesto, dispensou a sugestão e respondeu:

— Fique tranquila, está tudo em ordem. Vou sair do trabalho às quatro, assim

posso atravessar a cidade mais cedo e, com sorte, antes que o trânsito piore. Gostaria

que minha irmãzinha viesse a pé para este lado da cidade e me poupasse a viagem. Bem,

então a gente se vê mais tarde.

Jenny concordou e forçou um sorriso, mas foi um alívio vê-lo sair. Sentou-se à

mesa da cozinha por um bom tempo depois que ouviu a porta da frente se fechar.

Como ela se sentida se visse Roan de novo? Quando o visse, se corrigiu. Ela e

Mike saíam sempre com a turma da InTech, portanto, mais cedo ou mais tarde seus

caminhos teriam que se cruzar.

Tinha que acontecer, não tinha? Justo quando tudo estava indo tão bem para

eles, Roan Williams tinha que voltar para sua vida, para a vida deles.

Com peso no coração, Jenny se levantou, tirou a mesa e pôs a louça na pia.

Abriu a geladeira e olhou lá dentro. Ficou parada por um momento e fechou a porta de

novo, esquecendo por que a tinha aberto. Pôs água para ferver na chaleira, despejou

detergente nos pratos e devolveu o frasco ao armário.

Foi até a janela da cozinha e ficou olhando para o pequeno quintal. Então,

apoiando a cabeça no vidro, Jenny rendeu-se às lágrimas.

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