Problemas do Futuro por Pietro Ubaldi - Versão HTML

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PROBLEMAS DO FUTURO

INTRODUÇÃO .................................................................................................................... 1

I. A VERDADE ................................................................................................................... 25

II. A PERSONALIDADE OSCILANTE E A VISÃO DE OUTRAS VERDADES ...... 37

III. EXPERIÊNCIAS EM BIOLOGIA TRANSCENDENTAL ..................................... 46

IV. UM CASO VIVIDO ..................................................................................................... 58

V. A ECONOMIA SUPERNORMAL .............................................................................. 67

VI. LUTA E SELEÇÃO ..................................................................................................... 81

VII. O MAIS FORTE ......................................................................................................... 90

VIII. A METAMORFOSE ................................................................................................ 99

IX. A TÉCNICA DA EVOLUÇÃO ................................................................................ 113

X. O PENSAMENTO CRIADOR ................................................................................... 123

XI. LIVRE-ARBÍTRIO E DETERMINISMO .............................................................. 128

XII. EQUILÍBRIOS ......................................................................................................... 139

XIII. EVASÕES ................................................................................................................ 152

XIV. INFERNO E PARAISO .......................................................................................... 161

XV. DEUS E UNIVERSO (I Parte) ................................................................................ 174

XVI. DEUS E UNIVERSO (II Parte) ............................................................................. 191

XVII. AS ÚLTIMAS ORIENTAÇÕES DA CIÊNCIA ................................................. 207

XVIII. O CONTÍNUO ESPAÇO-TEMPO E A EVOLUÇÃO

DAS DIMENSÕES ........................................................................................................... 224

XIX. O ESPAÇO-CURVO E A SUA EXPANSÃO ....................................................... 236

XX. COM A CIÊNCIA PARA O INCONCEBÍVEL .................................................... 247

XXI. A CIÊNCIA NA DESCOBERTA DE DEUS ........................................................ 259

XXII. O DRAMA DE QUEM CRÊ ................................................................................ 266

Vida e Obra de Pietro Ubaldi ( Sinopse) ........................................................................ 275

Pietro Ubaldi

PROBLEMAS DO FUTURO

1

INTRODUÇÃO

Iniciando o presente volume, que se abre no limiar da terceira trilogia, é ne-

cessária uma pausa para nossa orientação. Cada um desses livros é uma jorna-

da, cada trilogia representa uma volta na maturação do destino daquele que

escreve e no desenvolvimento do seu pensamento, traçado nesta obra, em pa-

ralelo com o desenvolver do pensamento da própria vida, conforme esta se

expressa pela ação, na fase histórica que estamos atravessando. Façamos isso,

portanto, para que nos possamos orientar nesses aspectos, os quais se acham

intimamente entrelaçados e se desenvolvem em ressonância, formando uma

perfeita sinfonia, no mais unitário sentido da vida. Isto não é somente afirmado

em cada palavra, mas também vivido profundamente.

O enquadramento formal dos seis volumes, que compõem a primeira e se-

gunda trilogias, já se encontra no prefácio do trabalho precedente: A Nova Ci-

vilização do Terceiro Milênio. Vamos repeti-lo, entretanto, para o leitor novo,

que ainda não conhece o argumento. A primeira trilogia compreende: 1) Men-

sagens 1 e A Grande Síntese; 2) As Noúres; 3) Ascese Mística. A segunda trilo-

gia é formada de: 1) História de um Homem; 2) Fragmentos de Pensamento e

de Paixão; 3) A Nova Civilização do Terceiro Milênio. A terceira trilogia ini-

cia-se com Problemas do Futuro. No capítulo XVIII, do volume precedente,

acha-se sumariamente explanada a significação dessas etapas.

O autor é um viandante da vida, de uma vida em ascensão, na qual ele se

eleva penosamente, degrau por degrau. Nessa subida, realiza uma série apoca-

líptica de experiências espirituais, que se lhe mostram muito graves e decisivas

no mundo biológico e que, por transcenderem a vida comum, o deixam tão

espantado, que não pode furtar-se à necessidade de analisá-las. As palavras

que escreve foram por ele vividas com luta e sofrimento, portanto compreen-

der-se-á que, atrás do desenvolvimento do pensamento racional, encontra-se o

desenvolvimento de um destino e que a batalha de conceitos foi primeiramente

batalha de paixão. Pode-se dizer, pois, que cada palavra aqui escrita ainda está

sangrando de dor, vibrando em consequência da luta travada. No fundo, trata-

se propriamente de uma biografia, vista em sua profundidade; de um caso real,

em que é a vida que fala e se revela, com a experiência de um para proveito de

todos. É natural que, assim sendo, o pensamento explanado nestas páginas tem

1 Traduzidas em português como Grandes Mensagens. (N. do T.)

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PROBLEMAS DO FUTURO

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de estar estreitamente unido à manifestação histórica da própria vida, porque

ela é sempre una e indivisível.

Foi afirmado já, na conclusão da precedente segunda trilogia, que o ciclo da

primeira é explosivo e o da segunda, reflexivo. É a assimilação que se segue à

inspiração. É uma espécie de recuo sobre a primeira impetuosa revelação, para

que ela possa ser disciplinada e melhor compreendida racionalmente por to-

dos. É uma assimilação necessária para se poder subir ainda mais, depois de

terem sido racionalmente consideradas e consolidadas as posições alcançadas

por inspiração. Foi muito forte e muito rápido o passo até à Ascese Mística.

Após atingir as alturas místicas, havia necessidade de tudo disciplinar e en-

quadrar. O filósofo não achará nesse caminho exposição sistemática, onde se

busca a construção de sistemas com um cerebralismo artificioso. Isto foi evita-

do, para que a própria vida falasse com o seu dinamismo. A organicidade,

mais do que nos esquemas conceptuais da exposição, está inserida na sempre

presente substância do argumento: a eloquente estrutura orgânica do universo.

Fundamentalmente, é o mesmo processo evolutivo que falou em muitos, como

a Beethoven, na Nona Sinfonia, ou a Wagner, no Parsifal.

Esse processo evolutivo implica a retomada dos motivos da primeira explo-

são, onde foram apenas sinteticamente expressos, para se proceder depois ao

seu desenvolvimento analítico. É por isso que, no volume precedente, A Nova

Civilização do Terceiro Milênio, encontra-se o subtítulo: “Análise e Desen-

volvimento de A Grande Síntese”. Esta, como escrito inspirado, permanece

fundamental, mas sempre parece mais um esquema do que um verdadeiro e

exaustivo tratado. Dai a necessidade de desenvolvê-lo, de ultrapassar sua vas-

tidão sintética, descendo-se à profundeza analítica.

As características da terceira trilogia não se tornarão completamente evi-

dentes senão quando o processo for completado. Não podemos prever, senão

no conjunto, aquilo que a vida poderá dizer em uma determinada fase de sua

manifestação. O certo é que este primeiro volume da terceira trilogia se inicia

com um retorno à obra A Grande Síntese, com um desdobramento reflexivo

sobre a sua parte mais difícil, que é a inicial, científica. O alforje do autor,

caminhante da vida, tem se tornado sempre mais cheio de experiências. Ele

está cansado de palavreado inútil e tem pressa em concluir a demonstração da

doutrina de A Grande Síntese com provas resolutivas. Ele sente toda a vacui-

dade e a corrosão das polêmicas filosóficas e religiosas. Preocupa-o apenas o

que é consistente para provocar no involuído o abalo decisivo na hora histórica

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crucial. Por isso ele se dirige à ciência, procurando o motivo da vida na origem

e na psicologia do homem, para então desenvolver o presente volume.

Mas, também aqui, o caminho continua sempre, assim como a vida segue

da matéria para o espírito. Deste modo o presente livro, tal como os outros,

nada mais é senão uma diversa sinfonia da ascensão. Mesmo retomado de

baixo, o traçado é sempre o mesmo, portanto, embora não se possa exata-

mente prever o conteúdo desta terceira trilogia, porque a vida fala com os

fatos e se expressa em formas concretas, reais e vividas, a lógica do desen-

volvimento e o pressentimento de intuição dizem que, como a nota dominan-

te da primeira trilogia foi explosão e a da segunda, assimilação, então a da

terceira será sublimação.

Dados esses graus de desenvolvimento, é natural que a nota inspiradora te-

nha dominado no primeiro tempo (primeira trilogia). Daí, os qualificativos de

médium, ultrafano2, inspirado e místico, aplicados ao autor. De fato, ele falou

em nome de outra personalidade, em forma ultrafânica, em Grandes Mensa-

gens e A Grande Síntese. No seu segundo volume, As Noúres, ele se pôs logo a

observar a si mesmo, para poder compreender o fenômeno da inspiração e suas

consequências, a fim de que tudo viesse a ser controlado com responsabilidade

e plena consciência. Porém o ímpeto da explosão não pôde deixar de levá-lo até

à altura do terceiro volume: Ascese Mística. No segundo tempo (segunda trilo-

gia) a nota inspirativa, tratando-se de um período reflexo, se atenua e, com o

primeiro livro, aparece um retorno autobiográfico: História de um Homem, no

qual o autor procura a si mesmo. O segundo volume é uma coletânea de artigos

que expunham de forma dispersa o seu pensamento e que foram publicados em

revistas. O terceiro é, como foi dito antes, uma retomada e um desenvolvimento

dos problemas mais humanos de A Grande Síntese, decisivamente apontando

para a meta de toda a obra, que é a nova civilização do espírito, o grande moti-

vo, apenas assinalado anteriormente. Retornos necessários, sem os quais o de-

senvolvimento não é possível, método que, embora ao leitor menos avisado

possa parecer apenas repetição, é conscientemente adotado.

Assim, cada volume, significando uma etapa do caminho e exprimindo

uma fase de vida, à qual adere, tem sua característica própria, que o distin-

gue, como se dá, por exemplo, com as sinfonias de Beethoven. Assim, o ter-

2 O que pratica a ultrafania, quer que dizer: luz do além. Ultrafano corresponde ao médium

espiritista. (N. do T.)

Pietro Ubaldi

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ceiro tempo (terceira trilogia), que podemos chamar de sublimação, inicia-se

com este primeiro volume, no qual é feito primeiramente um profundo exa-

me da personalidade humana, já iniciado no livro anterior; abarca-se depois a

ciência da matéria, a fim de finalmente levá-la até à fé e ao espírito, seguindo

um método ultramoderno de renovação, em que, alcançando uma visão mais

profunda do universo, não mais materialista, a ciência se torna um grande

motivo de sublimação, que não poderá deixar de constituir o final místico de

toda a obra nos ulteriores volumes. Este final, para o autor, significa a última

sublimação do seu destino e, para o mundo, o despontar da aurora da nova

civilização do espírito. Nestas três formas estreitamente ligadas: exposição

conceptual, caso individual de evolução espiritual e ascensão coletiva do

homem, a vida fala, exprimindo o mesmo pensamento. Há, na tempestade

dos conceitos, nos dramas de paixão e de dor de quem escreve e nas lutas do

mundo, a mesma elevação, a purificação criadora que da matéria leva ao es-

pírito, a sublimação na dor que redime.

◘ ◘ ◘

Nesta curva da vida do autor, da exposição que constitui sua obra e do pró-

prio destino do mundo, três fatos sintonizados no mesmo ritmo ascensional, é

necessário aprofundar os conceitos acima expostos, com coragem e sincerida-

de, para proveito de todos. Que significa, nesses seus três aspectos, essa su-

blimação que caracteriza a terceira trilogia? Comecemos pelo primeiro.

Para o autor, isto significa aprofundar sempre mais a consciência do próprio

destino, quer dizer, manter sempre mais estreito contato com o infinito; signi-

fica completar a purificação. Há muitos anos, o misterioso processo biológico

da maturação vem-se realizando, sem ser visto exteriormente nem compreen-

dido, através de uma profunda e dilacerante maceração, sob múltiplas formas.

Trabalho intenso, dor, renúncia, pobreza. Um contínuo afastamento de si

mesmo, de tudo o que é humano, arrancando a própria carne viva pedaço por

pedaço, lentamente, para não acabar morto. Sim, e tudo isto endossado pela

vestimenta exterior do imbecil que não sabe conduzir seus negócios, pela más-

cara do homem educado que deve sorrir para não incomodar, mas, intimamen-

te, acompanhando o progressivo esclarecimento da consciência do seu próprio

destino, num crescente senso da missão que deve desempenhar, numa afirma-

ção no plano do espírito. A grande experimentação evangélica da qual nasce-

ram os volumes precedentes não foi para o autor literatura, mas um fato vivi-

do, carregado de frutos vivos. Ele, tendo em vão procurado livrar-se do peso

Pietro Ubaldi

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da riqueza, que constituía um embaraço à marcha encetada, acabou por enfren-

tar o dilema: ou cuidar de seus próprios negócios ou renunciar à sua missão.

Conciliar duas coisas, onde cada uma exigia totalmente o homem, era impos-

sível. E o senso da missão a cumprir, cada dia que passava, mais se acentuava

em seu íntimo e mais forte gritava. Precisava então abandonar os interesses

materiais, deixando-os à mercê do assalto de todos.

Eis o dilema: salvar os valores do espírito ou os da matéria? Ora, uma vez

que, neste nosso mundo, sempre se encontra aquele que está pronto a levar o

que não é guardado nem defendido, além do que é impossível confiar em ou-

tros, pois quem sabe desincumbir-se de seus negócios, em geral, só o sabe para

si mesmo, então ocupar-se dos valores do espírito significava pobreza. Precisa-

va escolher. Vivemos em um mundo no qual os involuídos são ativíssimos em

realizar sua vida com seu próprio método, a qualquer preço. O homem de espí-

rito, que nesse campo é inepto, facilmente é eliminado. Então, a escolha foi

feita, e foi iniciada a experimentação evangélica. O autor pôde descrevê-la nos

volumes anteriores, porque a estudou de perto, porque a viveu. Evangelho ex-

perimental. Só assim essas coisas podem ser verdadeiramente compreendidas;

só assim se pode fazê-las compreendidas, quando as pregamos; de outro modo,

não passaria de retórica. Trata-se de experimentação que verdadeiramente in-

verte os valores e refaz o homem; catarse que penetra até aos ossos. É um

avanço que parece de loucos, nas trevas rasgadas pelo lampejar de uma aluci-

nante luminosidade interior, em meio da qual o Evangelho, como sentinela ao

longe, grita: “Ocupai-vos das coisas do espírito e tudo o mais vos será dado”.

Se soubermos, pois, inverter os valores correntes e realmente viver a utopia

do Evangelho, entraremos no mundo dos prodígios, tornando atual a já descri-

ta economia do evoluído, baseada na Providência. O milagre consiste em que

sua vida, parecendo humanamente ter que findar no desespero da miséria e da

fome, deságua, ao contrário, num confiante abandono em Deus, porém não só

confiante pela fé, mas também através da prova experimental, onde os fatos

demonstram que o apoio nunca falta a quem verdadeiramente crê no Evange-

lho, praticando-o.

Quando é superada a grande barreira que nos separa da inversão dos valo-

res correntes, desenvolve-se a série dos milagres. A percepção do mundo que

nos circunda é dada pela nossa natureza; se nós mudamos, tudo muda. Assim,

com a nossa elevação no espírito, tudo tende a sublimar-se; o que antes era

dor, transforma-se em regozijo. Então, o trabalho, hoje transformado em con-

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denação pela máquina e pela avidez humana, torna-se um livre e alegre ato da

criação, no qual o homem é chamado a colaborar no funcionamento do uni-

verso e operar, à semelhança de Deus, imitando-o em Sua perene ação criado-

ra. Toda renúncia na matéria aparece no lado positivo, como construção do

eu, isto é, como conquista e afirmação no espírito. A solidão se povoa de for-

ças amigas que nos estendem os braços e nos ajudam; as provações se suavi-

zam e se tornam criadoras de nós mesmos.

Eis as maravilhas da ascensão, o milagre experimentado pelo autor. O va-

lor destes escritos não se baseia na novidade de conceitos, que são velhos

como a vida, mas sobre o fato de que eles foram experimentalmente vividos,

e não apenas repetidos, ainda que em perfeita ortodoxia de forma. É certo

que, antes de Colombo descobri-la, a América já existia, contudo ela foi no

seu tempo a maior descoberta do século. Desta forma, se hoje, assim como

Colombo fez com a América, o homem descobrisse verdadeiramente o Evan-

gelho, vivendo-o experimentalmente, tocando-o com as mãos, esta também

seria a maior descoberta do século.

Atingindo pela evolução o plano do espírito, tem-se a sensação de que

emergimos de um fétido mar de lama. Liberdade no infinito. Entre tantas im-

perfeições dolorosas, se percebe, de outro lado, a harmoniosa perfeição da

obra de Deus. No plano do universo, percebe-se a lógica do próprio destino,

que é assim aceito, porque se verifica que ele nos conduz “sempre” ao encon-

tro daquilo que representa o nosso bem. Compreende-se a maravilhosa trama

da vida, admira-se tudo e bendiz-se a Deus. É verdade que há as provações,

mas, depois de superá-las, compreende-se o respectivo sentido e o seu valor

criador; adquire-se então uma visão profunda, que vê o porquê de cada uma

das vicissitudes humanas. Tudo se vai revelando completamente, a dor se faz

instrumento de redenção, e cada acontecimento de nossa vida se torna um

amigo, porque é para nós, sempre, o melhor possível. O grande milagre da

ascensão é a nossa progressiva libertação da dor e do mal. Todo assalto des-

truidor se transforma em meio de criação. E a força de cada ocorrência nos

fará sempre sentir perto de nós a mão operante de Deus, imanente em nós!

Então, o caminhante da vida, carregado de recordações, em que o futuro,

antes um tanto vago, se transformou em passado, vê e compreende. Compre-

ende como cada golpe da adversidade provocou como reação uma nova luz,

como cada obstáculo o estimulou, como cada provação o instruiu e como

toda vicissitude se transformou em força criadora. Então ama-se tudo o que

Pietro Ubaldi

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antes desagradava e pesava, porque já se sabe que tudo serve para edificar o

espírito. A catarse é de todo o ser, de suas qualidades, de suas necessidades e

desejos, assim como de sua dor. Tudo se sublima nele e, nele e com ele, des-

tila-se e transmuda-se. E isto o faz verdadeiramente rei da vida. É o supera-

mento de todo um mundo, para entrar em outro mais alto. O ser é levantado

para o céu por esta sua sublimação acima de todos os males e dores humanas.

Eis o conceito dominante na terceira trilogia.

◘ ◘ ◘

Com relação a este conceito, observemos agora a obra escrita, a série de vo-

lumes que dele são consequência. O processo evolutivo do autor não pôde dei-

xar de produzir nele um relampejar da mente, um clarão de conceitos que, regu-

larmente registrados e depois publicados, têm dado lugar a várias interpreta-

ções. No princípio, no período explosivo da primeira trilogia, esse clarão foi tão

forte, misterioso e imprevisto, que tomou o aspecto de verdadeira mediunidade.

O autor foi, pela necessidade bem humana do enquadramento, catalogado logo

no campo mediúnico (primeiro período das Grandes Mensagens e de A Grande

Síntese). Mas, saberemos nós o que, verdadeiramente, seja a mediunidade?

O autor passou, pois, a procurar por si mesmo, tentando aprofundar a visão

nesse abismo que é o mistério da personalidade humana, fenômeno até hoje

bem longe de ser plenamente conhecido. Assim, começou a compreender o

seu caso e procurou defini-lo (segundo volume: As Noúres). Pôde, então, pre-

cisar que se tratava de mediunidade inspirada, ativa e consciente. Nenhum

transe, inconsciência ou cessão passiva de seu próprio eu a qualquer entidade

incorpórea ou forças estranhas. Ele, permanecendo consciente, captava a onda

(noúre) e registrava, escolhendo com pleno conhecimento, como uma antena

que captasse a frequência transmissora porque a conhece e quer sintonizá-la,

recebendo-a por relação voluntária de ressonância, livremente. A mediunidade

torna-se assim inspirativa, isto é, não mediunidade de efeitos físicos – nunca

praticada e sempre evitada pelo autor como barôntica3 – mas ultrafania ativa e

consciente, sem transe. E assim foi ele tido por ultrafano. À vista disto, os seus

escritos foram considerados suspeitos pela Igreja e aceitos no campo espírita.

Mas, eis que no fim do primeiro período, com o seu terceiro volume, Asce-

se Mística, o autor supera também o campo ultrafânico e, deixando atrás o

3 De natureza densa, inferior. (N. do T )

Pietro Ubaldi

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espiritismo, que o havia catalogado entre os seus, se transforma em inspirado

e, enfim, em místico, entrando num campo apropriado sobretudo às religiões.

Os trabalhos que compõem a segunda trilogia perderam a vestimenta medi-

única, ultrafânica ou inspirativa e falam a linguagem normal. Assim é o pre-

sente volume. Ora, muitos perguntam se esses novos livros que se expressam

como falam todos, e não com tonalidade extra ou sobrenatural, são ou não

inspirados. Os leitores, em geral, estão habituados, como os demais, a tratar

com o homem normal de tipo único e constante, de enquadramento estável, e

não com o tipo múltiplo, em contínua evolução, como é o nosso caso, que, por

isso mesmo, não pode ser enquadrado em esquemas fixos.

Em se tratando desta trilogia, era necessário responder a esta pergunta, es-

clarecendo dúvidas. O autor, agora, acha-se cônscio de haver completado seu

misticismo na forma ativa de sua missão e o tem estudado em si mesmo, com

auxilio de outros místicos, embora ainda esteja longe de tocar o fundo deste

mistério (que, aliás, não pode findar), de tal maneira que, em seu caso, através

de um contínuo controle racional do fenômeno de sua intuição e dos seus pro-

dutos por ele registrados, transformou a sua própria inspiração em técnica re-

gular de pesquisa, que ele chama o método da intuição, não tendo nada a ver

com a ultrafania em transe e muito menos com o mediunismo de efeitos físi-

cos. A finalidade da vida do autor, como acima ficou dito, não é de nenhuma

maneira o estudo dos fenômenos mediúnicos, e o espiritismo lhe interessa rela-

tivamente. Sua vida é missão, e seu escopo não é a experimentação espiritista,

mas sim a evangélica; não é a indagação do além-túmulo, mas a ascensão espi-

ritual. O grande problema é a conquista da felicidade, e o que transforma tudo

em nós, para o bem e a alegria, não é o além-túmulo, mas sim a evolução, a

catarse da vida, elevando-nos do plano animal humano ao super-humano. O

que importa é a sublimação, sem o que tudo permanece cego, inferior, doloro-

so, seja aqui ou acolá. E o mediunismo de efeitos físicos ocupa-se bem pouco

da sublimação; visa problemas particulares, realmente secundários em relação

ao problema de apresentar, na atual e tremenda hora histórica, cada vez melhor

contribuição para a salvação do mundo.

Se o misticismo é para o autor o vértice da ascensão, o método da intuição

(a inspiração reduzida a método) é a sua disciplina, que organiza e racionali-

za a inspiração, dirigindo-a metodicamente à conquista do conhecimento,

para resolver os mais variados problemas, inclusive os da ciência, com o ob-

jetivo de melhorar o homem, para seu próprio bem. A sublimação atua então

Pietro Ubaldi

PROBLEMAS DO FUTURO

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em dois campos: no sentimento, levando ao misticismo, e na mente, levando

à disciplina orgânica e racional da inspiração – disciplina da técnica recepti-

va após analisá-la, e organização de uma doutrina racional com os dados

obtidos pela inspiração. Nesse trabalho múltiplo e complexo cumpre-se a

missão do autor. Com o progresso da sua maturação, enquanto por um lado

sublima-se como paixão no misticismo, por outro assenhoreia-se cada vez

mais da técnica receptiva e da sistematização orgânica e racional dos resulta-

dos, de modo a poder expô-los em linguagem normal. Tudo isto, ainda que

possa desagradar aos espiritistas, era necessário dizer, para que estes escritos

fossem aceitos pela ciência, pela cultura séria, pelos que têm prevenções an-

tiultrafânicas, para os quais todas as coisas expressas em tais roupagens ins-

pirativas não são sérias nem aceitáveis.

Certo é que a inspiração subsiste ainda na segunda e terceira trilogias, mas

é normalizada em veste comum. A mesma característica, não mais explosiva

(primeira trilogia), e sim reflexiva, de assimilação e análise (segunda trilogia),

leva a esta conclusão. Mas, nem por isto, o autor perde o contato com a fonte

da inspiração. Ao contrário, na sua ascensão mística, o contato é normalizado,

a sintonia estabilizada, a distinção no uníssono das vozes se torna, assim, sem-

pre menos sensível. A catarse é de fato uma sublimação também neste sentido:

uma união sempre mais estreita com a fonte. A recepção, em geral salteada e

inconsciente no ultrafano, aqui é contínua e consciente, é um colóquio, um

contato, uma comunhão que tende à unificação; torna-se prece, religião, misti-

cismo, amor de Deus. A terceira trilogia, que representa a fase da sublimação,

não pode acabar senão em pleno misticismo. Assim, sempre progredindo, fe-

cha-se o caminho iniciado com manifestações que foram chamadas mediúni-

cas, alcançando resultados que, como técnica receptiva, são bem diversos e,

como conteúdo, estão muito longe da mensagem ultrafânica usual em função

de certa entidade. Aqui, a mensagem é uma obra orgânica racional, que já

atinge o oitavo volume; a mediunidade é uma missão que se apossa de uma

dada hora histórica e de toda a vida de um homem. Como se vê, os conceitos

espíritas comuns não são mais suficientes para conter estes resultados.

Chegamos aqui a uma disciplina consciente e racional, que analisa e põe em

ordem, organicamente, os produtos da intuição. Em geral, todos, mais ou me-

nos, possuem intuição, mas de um modo vago e sumário, sem a crítica e a pre-

cisão de um método. Em nosso caso, a intuição não só se faz método de inves-

tigação cientificamente exata, vasta a ponto de permitir compreender e orientar

Pietro Ubaldi

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todos os problemas do conhecimento, mas também é traduzida do seu natural

funcionamento por clarões sintéticos e intermitentes para os termos da exposi-

ção contínua e da análise racional. Se tudo é antes sentido por via intuitiva,

como síntese, conclusão e solução dos problemas, deve ser, depois, analitica-

mente demonstrado pela força da lógica, para uso da forma mental corrente,

não intuitiva. Trabalho de reflexão e coordenação, útil e necessário para per-

mitir a compreensão; de precisão analítica e cultural, sem o que, a mensagem

inspirativa ficaria confusa e distante. A mensagem provém de superiores di-

mensões conceptuais, sendo necessário reduzi-la à nossa dimensão racional.

Trabalho inicialmente de audição e compreensão, posteriormente de elabora-

ção dos dados da inspiração, desconhecido, portanto, do ultrafano comum.

Em nosso caso, a inspiração, embora se possa dizer que dirige como um

guia a mente do sujeito, é, todavia, por este controlada. Mais do que de re-

cepção, pode-se neste caso falar de colaboração consciente de ambas as par-

tes, sem com isto deixar de reconhecer quão mais sábia e potente é a fonte

transmissora. Por outro lado, uma vez que o já conhecido fenômeno da união

mística, através da progressiva catarse do sujeito, torna-se sempre mais in-

tenso, compreende-se como vem a ser cada vez mais difícil distinguir o re-

ceptor do transmissor – fundidos que estão num mesmo ritmo de pensamento

– e isolá-lo de uma fonte em que a sua personalidade, distinta no sentido

humano, sente-se como que diluir em sublime alegria. De fato, uma das mais

perturbadoras sensações que a elevação mística produz é a da dissolução do

próprio eu como unidade egocêntrica. Na alta psicologia, como na alta ma-

temática, os conceitos comuns não têm mais sentido. Tudo isto transforma o

fenômeno neste nosso caso, distanciando-o cada vez mais da ultrafania e

aproximando-o da inspiração do artista, do sábio, do místico, enfim daquele

que, em todo campo, cria no espírito. Em nosso caso, a sensibilidade ultrafâ-

nica veio tornar-se um método preciso de pesquisa, que encara os problemas

com o velho sistema experimental analítico apenas num segundo tempo, co-

mo controle, enquanto, num primeiro tempo, perlustra-os por vias intuitivas,

sintéticas, somente alcançáveis por um hipersensitivo, tornado tal pela evo-

lução do instrumento humano. Este será o método de indagação do amanhã,

que só um tipo humano mais evoluído saberá empregar.

Mas não há só este trabalho de controle da recepção, de coordenação e or-

ganização dos resultados, de precisão analítica racional e cultural. Em geral,

os leitores creem que a inspiração representa qualquer coisa concedida gratui-

Pietro Ubaldi

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tamente, no entanto ela é conquistada com trabalho e fadiga. É necessário

procurar ardentemente, porque Deus não se revela senão àquele que o procura

e o chama. É preciso subir com o próprio esforço para chegar a escutar, é pre-

ciso duramente maturar-se e merecer para ter resposta. É necessária uma fé

positiva, que saiba vencer todos os obstáculos. E quando a inspiração chega, é

preciso segui-la a todo custo e em qualquer condição, no seu arremesso impe-

tuoso, ainda que estejamos atordoados por tantas exigências de um mundo

que pretende andar por estrada bem diferente.

Ainda que haja sofrimento, é preciso escrever; extenuado ou doente, mes-

mo assim é preciso escrever. Pode faltar de tudo, mas escreve-se; se os inte-

resses materiais estão a caminho da derrocada e os involuídos roubam tudo

não importa, escreve-se; se a casa cai e o mundo explode ou está perto do fim

não importa, escreve-se até ao último suspiro. É necessária uma vida concen-

trada toda em um ponto: registrar esse pensamento que nasce dentro de cla-

rões, de turbilhões, como um furacão que grita, canta, arrebata e atordoa. Re-

gistrar tudo, nos mínimos detalhes, quer na potencialidade como na doçura,

seja como conceito seja como paixão. Abandonando-se ao irresistível, deve-

se muitas vezes exprimir o inexprimível, sem, contudo, deixar de permanecer

na forma. É preciso viver as teorias expostas, fazer-se campo experimental e,

com as provações trazidas por elas, confirmar a exposição. Com uma vida

elevada de sacrifício, é necessário manter-se em permanente sintonização,

fazendo de tudo isto uma missão para o bem dos outros, vivida em abrasa-

mento, como cumprimento de um destino. Levar tudo isto adiante, ardendo

sempre mais e não ceder nunca, fiel a Deus até à morte.

◘ ◘ ◘

Agora, que vimos o significado da terceira trilogia relativamente à matu-

ração do autor e à natureza de sua produção intelectual, observemos a cone-

xão que tudo isto pode ter com a atual hora histórica, como contribuição e

como missão.

Em nosso caso, não há só a catarse do autor e a criação efetuada pelo fenô-

meno inspirativo, mas há também o fato da compreensão sempre maior por

parte do público. De que deriva isto? Nota-se que, no leitor que lê estes volu-

mes, nasce um senso íntimo de convicção que não é apenas racional. Muito

mais do que pelos processos lógicos, geralmente quem lê fica persuadido pela

ressonância íntima, pela convicção segura de quem escreve, pela sua sincera

paixão, pela misteriosa formação daquela sintonia que constitui base e condição

Pietro Ubaldi

PROBLEMAS DO FUTURO

12

necessária para a compreensão. Mas o que, então, determina o aparecimento

dessa sintonia? De onde desponta essa vibração que une leitor e escritor?

O fenômeno inspirativo a que se deve a gênese primeira destes escritos co-

loca o autor em uma posição especial, diferente daquela assumida pelo escritor

comum, que exprime apenas a si mesmo, quando não faz coisa menos sincera

e verdadeira, como uma criação de fantasia. Em nosso caso, a inspiração per-

mite ao autor colóquios diretos com a vida, com o pensamento de Deus, ou-

vindo a voz de todos os seres, em todas as suas formas, da pedra ao gênio e

sempre mais alto, até às dimensões do superconcebível, pelas sendas do misti-

cismo. Aquele que aqui escreve não inventa nada, simplesmente lê no grande

livro da vida universal; é um espectador da infinita sabedoria de Deus, que ele

contempla em visões e exprime em livros. Assim, quando quem fala não é o

indivíduo, mas sim a própria vida, o pensamento não envelhece. O mundo está

repleto de ideias cansadas, que têm exaurido seu dinamismo e sua função. Lá

onde é a vida que fala, a ideia é sempre jovem e viva. Se o autor simplesmente

revela aquilo que já está escrito no íntimo de todos e que é instintivamente

sentido, ainda que de modo impreciso, é natural que o fundo comum, o ele-

mento base da sintonia, já preexista com grande potência. Então o leitor, em

seu instinto, onde fala a vida, sente e reconhece aquela voz como sendo a voz

da verdade e, mesmo sem poder ainda compreender o porquê, aprova com um

irresistível senso de íntima convicção. Eis a sintonia e o consentimento pleno.

O leitor, mais do que isso, sente alegria ao encontrar um intérprete exato de

seus vagos sentimentos, que ele mesmo tentava precisar, mas que não conse-

guia levar à plena luz de sua consciência; sente-se feliz em encontrar feito o

esforço que a vida lhe pedia, de levantar o véu do mistério; regozija-se ao en-

contrar pronta uma resposta a tantos porquês que o torturavam e ver assim

resolvidos os seus mais tormentosos problemas.

Parece então ao leitor tornar a ouvir a sua própria voz, clara e engrandecida,

tão perfeita é a sintonia dada pela mesma lei da vida que a todos anima. Há

uma aproximação com aquele que lê, um retorno de alma para alma, que pela

sintonia e convicção que se seguem, reforça-se em admiração, gratidão, simpa-

tia e amizade. Estes livros terminam assim em afetuoso liame, em vínculo não

só de compreensão, mas de ação e de missão. No campo social, esse é o resul-

tado, no terceiro tempo, da trilogia com a qual a obra se concluirá, e essa é a

estrada pela qual o autor, pelo caminho da livre e espontânea convicção, quer

dar a sua contribuição para o advento da nova civilização do espírito.

Pietro Ubaldi

PROBLEMAS DO FUTURO

13

Porém há mais. A expressão da voz da vida, captada pelo autor por via

inspirativa, não é vaga e genérica, e sim precisa, na forma do atual momento

histórico, falando aos homens do amanhã próximo, em função de aconteci-

mentos iminentes. Eis então que todos os sensitivos que já verificam o fer-

mento da hora prestes a soar, se incendeiam na leitura como diante de uma

revelação. O fato é que estes livros são estreitamente ligados ao nosso tempo,

são expressões da vida, que tem de dizer alguma coisa de muito grave e se

apressa a dizê-lo aos que têm ouvidos para ouvir. Estes escritos estão ligados

à história e à evolução biológica, delas exprimem o atual drama e a elas dese-

jam dar uma contribuição efetiva. Mais exatamente, eles revelam as correntes

biopsíquicas que dominarão no dia de amanhã, anunciando-as e preparando-

as. Realizando a função de antena biológica, quem os escreve capta a anteci-

pação do futuro. Muitos já o pressentem, embora não consigam precisar tudo,

porém já estão aptos a reconhecer qual é a voz da vida, porque esta fala neles,

e aguardam ansiosamente quem se levante para exprimi-la, prontos para abra-

çá-la com paixão, quando se encontrarem com a sua revelação. Os homens

somente respondem a um apelo quando este já se encontra no interior deles,

de onde a vida já lhes está bradando. De outro modo, ficam mudos, sem com-

preender. Somente então se forma a corrente coletiva, constituída pela corren-

te das forças da vida, que quer atingir assim os seus objetivos, corrente que

pertence a todos e a todos vai arrastando. O revelador da ideia, que parece o

seu criador, é tão-somente um expoente exterior; é apenas o representante de

um pensamento que não é seu e que ele tem a função de sentir antes, para

depois exprimi-lo e divulgá-lo. Trata-se apenas disso, e não de outra coisa. Na

vida, mais que o indivíduo, importa a sua função.

Se muitos não ouvem o chamamento da vida, se estão fora desta corrente

que impele a evoluir, se não podem sintonizar-se com ela e se, enfim, são sur-

dos a ela, não importa. À grande massa dos involuídos, daqueles que, podemos

dizer, servem como lastro, a vida não tem confiado funções de antecipação e

criação. Esses têm que ser impelidos para depois chegar por último. Os inferi-

ores são os que mais opõem resistência e, no entanto, são os que mais preci-

sam ser ajudados para evoluir.

Se compreendermos a estrutura e a gravidade da atual hora histórica, jus-

tamente porque involuída, veremos que tal contribuição é hoje necessária. Os

valores do domínio autoritário, da vitória baseada somente na força, se é que

ainda há quem pense ter domínio próprio, já caíram substancialmente, porque,

Pietro Ubaldi

PROBLEMAS DO FUTURO

14

depois do desastre geral para vencedores e vencidos na última guerra, diminui

sempre o numero dos que neles acreditam. Os valores da riqueza subsistem

ainda, mas sob a ameaça de tamanhos golpes, que já vacilam, inspirando

sempre menor confiança. A que valores se prenderá então o mundo assim

abalado, senão aos únicos que restam, os do espírito? Onde se poderá de outra

maneira achar aquela solidez e invulnerabilidade que a humanidade demons-

trou não possuir? O mundo está desiludido e tem fome de uma fé, porque não

se pode viver sem esperar alguma coisa e sem crer no amanhã. As filosofias

não servem, e as religiões devem adaptar-se às massas involuídas e supersti-

ciosas. Mas o motivo do espírito já desponta nas conclusões dos grandes inte-

lectuais da ciência, que começa a emergir de seu velho materialismo. Eis aí

alguns sintomas, que não são os únicos.

A vida é uma viagem. Parar é morrer. Mas não se pode conceber caminho

sem meta. A vida tem, portanto, absoluta necessidade de possuir uma tábua de

valores e subir para planos mais elevados, a fim de realizar a evolução, que é o

imperativo absoluto. A culpa mais grave, aquela que se paga mais caro, é a de

furtar-se à ascensão, é a de não atender à lei da evolução.

A nova aristocracia não poderá ser, por certo, a da força ou a da riqueza,

porque de tais aristocracias, até hoje, o mundo já teve superabundância. Tais

formas exauriram a sua experiência e deram o seu rendimento biológico. A

vida não alimenta senão aquelas formas que têm uma função e um objetivo

definidos, por isto liquidará esses tipos de classes dirigentes. Ela tem necessi-

dade de outras formas, para outro trabalho. O tipo dos novos condutores não

será o bélico, político ou econômico, mas um tipo completo, que, mais do que

religioso, seja sábio e justo. Depois da falência dos chefes armados, dar-se-á o

advento dos chefes espirituais, dos profetas desarmados. A vida tem necessida-

de também dos valores mais desprezados hoje, que são os da vida interior. De-

les tem necessidade para reequilibrar-se, justamente porque deles hoje há ex-

trema carência. O homem tem fome destes valores. As novas classes dirigentes

não poderão, portanto, formar-se segundo o nascimento, o poder ou apenas a

inteligência, mas deverão basear-se nos valores espirituais, que superam a ani-

malidade, valores constituídos por sensibilidade psíquica e moral, sabedoria,

sensatez, altruísmo, caridade e amor, bondade, desprendimento das riquezas,

renúncia a toda forma de excesso. A vida pede ao homem muitas vitórias, prin-

cipalmente sobre o ódio e a cobiça, que hoje envenenam a vida. Deve aparecer

um novo tipo de lutador, evangélico, desprendido e desarmado, mas inteligente

Pietro Ubaldi

PROBLEMAS DO FUTURO

15

e consciente, muito mais poderoso que o rude e violento de hoje. Há bem maio-

res revoluções para se fazer do que aquelas que o homem atual concebe.

Tudo isto, hoje, pode parecer muito longínquo e, portanto, de escasso inte-

resse. Mas todo amanhã é feito para tornar-se depressa o hoje. Quando o ho-

mem tiver realizado as suas necessidades e desejos de hoje, que fará? Quando

o homem, com a máquina e a técnica, com suas novas teorias econômicas e

distributivas, tiver resolvido o problema do bem-estar material para todos,

quais os problemas que encontrará pela frente? Quando o progresso científico

e social tiver reduzido, para todos, o dia de trabalho a poucas horas e resolvido

as dificuldades da vida material para todos, ao menos quanto a um mínimo

necessário, como ocupará o homem o supérfluo de seu tempo e de suas energi-

as? É certo que ele se aproveitará disto para abandonar a luta e, em vez de con-

tinuá-la em um plano superior para conquistas mais altas, deixar-se-á quedar

no ócio, em busca de prazeres e vícios, chegando assim ao destino de todas as

aristocracias e dos povos ricos e preguiçosos, que é o esfacelamento. A vida

fere quem dorme sobre as conquistas feitas. Ela hoje caminha com rapidez, e

essas conquistas estão mais perto do que possa parecer. Todo futuro é feito

para tornar-se presente; assim a utopia se transforma em realidade. Nenhuma

utopia é maior que a do Evangelho; entretanto, se ele foi pregado, não o foi,

decerto, para permanecer como utopia, mas para se transformar em realidade.

A atual hora apocalíptica, através de grandes lutas e crises, prepara novas

condições de vida. Entre tantos homens que pensam somente no presente, é

necessário que haja alguém que enxergue mais longe no futuro e tenha a intui-

ção desse futuro, o anuncie, o prepare. Os problemas existem para serem solu-

cionados, mas há decerto, além dos atuais relacionados ao dinheiro e ao estô-

mago, outros problemas, que também devem ser resolvidos. Nas grandes vol-

tas da história, como a verificada hoje, não bastam os homens de ação, admi-

nistradores, que seguem perspectivas imediatas e realizações vizinhas, é ne-

cessário que haja também homens de pensamento, capazes de se orientar se-

gundo óticas mais amplas, em relação não só ao que é contingente, mas a todo

o funcionamento orgânico da história e da vida. Da compreensão da extrema

gravidade da hora, da necessidade de preparar um amanhã que se avizinha

rápido, da consciência do dever de dar a contribuição necessária, nasce então,

em alguns pioneiros de sensibilidade apurada e aptos para esse fim, o senso de

missão, confiada a eles pela vida, que neles escolhe seus meios para fazer ou-

vir a sua voz. Estes pioneiros, por serem evoluídos, já superaram o egocen-

Pietro Ubaldi

PROBLEMAS DO FUTURO

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trismo animal e somente sabem viver fundidos no amor ao próximo, missão

inevitável para eles, que não sabem dar outro conteúdo à vida senão esse.

Eis em particular o significado deste volume, Problemas do Futuro, e da

terceira trilogia que ele inicia, bem como de toda a Obra. Com o novo milênio,

o homem entra em um novo ciclo histórico e biológico. É preciso fazer que ele

compreenda essa imensa realidade que o espera. É necessário incendiá-lo, en-

fim, com uma fé e com um impulso proporcionado ao esforço que hoje a vida

lhe pede, para que ele saiba conquistar essa realidade. A vida nunca dá presen-

tes, mas nos convida e nos ajuda a merecermos tudo. Há perigos, mas há tam-

bém ilimitados horizontes. É preciso orientar o homem. Ele hoje procura sua

realização e alegria fora de seu verdadeiro lugar e fica desiludido. É preciso

transformá-lo de involuído em evoluído. Quem escreve deve ter vivido antes,

pessoalmente, a sublimação da vida, para depois ensiná-la aos outros, ofere-

cendo-lhes gratuitamente a sua conquista biológica, um precioso produto expe-

rimental, fruto de tremendas lutas.

O nosso mundo atual está em estado de colapso espiritual. O homem mo-

derno, enfunado de descobertas, tornou-se um vazio espiritual. A fase da

onda atual representa a inércia das qualidades mais nobres da alma. A im-

prensa gosta de destacar os delitos e todas as piores baixezas humanas. A

arte se está degenerando em todos os seus aspectos. Mesmo debaixo das apa-

rências mais intelectuais, respira-se sempre um ar de depravação. Parece

mesmo que tudo há de ter hoje esse sabor fundamental. Mas é preciso reagir

e salvar-se. Há uma quantidade apreciável de valores superiores que nos po-

dem tornar muito poderosos e ricos. Mas é preciso descobrir esses novos

continentes do espírito, para desfrutá-los. É preciso aprender a substituir por

esses valores superiores os inferiores da riqueza material, para nos tornar-

mos, o mais que pudermos, independentes dela e de todos os dissabores que

dela se originam. Dá-se tanto valor ao dinheiro, que não se pode resolver o

problema espiritual se não for antes resolvido o material. É verdade, mas o

grande erro consiste em se considerar as coisas do espírito como artigo de

luxo, supérfluo, a que se recorre somente quando se está saciado de tudo e

não se sabe mais desejar outra coisa, no entanto são elas as coisas de primei-

ra necessidade. O bem-estar econômico por si só não basta. O problema da

vida não é de solução assim tão simples, como o crê a moderna psicologia

utilitária e materialista. Nada está isolado na vida, nenhum problema pode

ser resolvido isoladamente e, portanto, também o material e o espiritual, tan-

Pietro Ubaldi

PROBLEMAS DO FUTURO

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to que se pode dizer o contrário do que todos dizem, isto é, que o problema

material não pode ser resolvido se antes não foi resolvido o espiritual.

A riqueza pode ser nociva para quem dela não sabe fazer bom uso. Hoje

não se crê senão nela e se tem horror da pobreza. Não se compreende hoje

uma pobreza que não é miséria, mas um estado de poucas necessidades mate-

riais e de grandes riquezas espirituais, a ponto de poder tornar aquele que as

possui mais rico do que os ricos. Essa pobreza de vastos horizontes, bem

diversa daquela que também é miséria de alma, pode transformar-se em ter-