Prólogos interessantíssimos por Vários autores - Versão HTML

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MINISTÉRIO DA CULTURA

Fundação Biblioteca Nacional

Departamento Nacional do Livro

PRÓLOGOS INTERESSANTÍSSIMOS

Vários autores

LEDE( Prólogo de Suspiros poéticos e saudades)

Domingos José Gonçalves de Magalhães

PEDE o uso que se dê um prólogo ao Livro, como um pórtico ao edifício; e como este deve indicar por sua

construção a que Divindade se consagra o templo,assim deve aquele designar o caráter da obra. Santo uso de que nos

aproveitamos, para desvanecer alguns preconceitos, que talvez contra este Livro se elevem alguns espíritos

apoucados.

É um livro de Poesias escritas segundo as impressões dos lugares; ora assentado entre as ruínas da antiga

Roma, meditando sobre a sorte dos impérios; ora no cimo dos Alpes, a imaginação vagando no infinito como um

átomo no espaço; ora na gótica catedral, admirando a grandeza de Deus, e os prodígios do Cristianismo; ora entre os

ciprestes que espalham sua sombra sobre túmulos; ora enfim refletindo sobre a sorte da Pátria, sobre as paixões dos

homens, sobre o nada da vida. São poesias de um peregrino, variadas como as cenas da Natureza, diversas como as

fases da vida, mas que se harmonizam pela unidade do pensamento, e se ligam como os anéis de uma cadeia; poesias

da alma e do coração, e que só pela alma e o coração devem ser julgadas.

Quem ao menos uma vez separou-se de seus pais, chorou sobre a campa de um amigo, e armado como

bastão de peregrino, errou de cidade em cidade, de ruína em ruína, como repudiado pelos seus; quem no silêncio da

noite, cansado de fadiga, elevou até a Deus uma alma piedosa, e verteu lágrimas amargas pela injustiça, e misérias

dos homens; quem meditou sobre a instabilidade das coisas da vida, e sobre a ordem providencial que reina na

história da Humanidade, como nossa alma em todas as nossas ações; esse achará um eco de sua alma nestas folhas

que lançamos hoje a seus pés, e um suspiro que se harmonize com o seu suspiro.

Para bem se avaliar esta obra, três coisas releva notar: o fim, o gênero, e a forma.

O fim deste Livro, ao menos aquele a que nos propusemos, que ignoramos se o atingimos, é o de elevar a

Poesia à sublime fonte donde ela emana, como o eflúvio d’água, que da rocha se precipita, e ao seu cume remonta,

ou como a reflexão da luz ao corpo luminoso; vingar ao mesmo tempo a Poesia das profanações do vulgo, indicando

apenas no Brasil uma nova estrada aos futuros engenhos.

A Poesia, este aroma d’alma, deve de continuo subir ao Senhor; som acorde da inteligência deve santificar

as virtudes, e amaldiçoar os vícios. O poeta, empunhando a lira da Razão, cumpre-lhe vibrar ‘as cordas eternas do

Santo, do Justo, e do Belo.

Ora, tal não tem sido o fim da maior parte dos nossos poetas; e o mesmo Caldas, o primeiro dos nossos

líricos, tão cheio de saber, e que pudera ter sido o reformador da nossa Poesia, nos seus primores d’arte, nem sempre

se apoderou desta idéia. Compõe-se uma grande parte de suas obras de traduções; e quando ele é original causa

mesmo dó que cantasse o homem selvagem de preferência ao homem civilizado, como se aquele a este superasse,

como se a civilização não fosse obra de Deus, a que era o homem chamado pela força da inteligência, com que a

Providência dos mais seres o distinguira!

Outros apenas curaram de falar aos sentidos; outros em quebrar todas as leis da decência!

Seja qual for o lugar em que se ache o poeta, ou apunhalado pelas dores, ou ao lado de sua bela, embalado

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pelos prazeres; no cárcere, como no palácio; na paz, como sobre o campo da batalha; se ele é verdadeiro poeta,

jamais deve esquecer-se de sua missão, e acha sempre o segredo de encantar os sentidos, vibrar as cordas do coração,

e elevar o pensamento nas asas da harmonia até as idéias arquétipas.

O poeta sem religião, e sem moral, é como o veneno derramado na fonte, onde morrem quantos ai procuram

aplacar a sede.

Ora, nossa religião, nossa moral é aquela que nos ensinou o Filho de Deus, aquela que civilizou o mundo

moderno, aquela que ilumina a Europa, e a América: e só este bálsamo sagrado devem verter os cânticos dos poetas

brasileiros.

Uma vez determinado e conhecido o fim, o gênero se apresenta naturalmente. Até aqui, como só se

procurava fazer uma obra segundo a Arte, imitar era o meio indicado; fingida era a inspiração, e artificial o

entusiasmo. Desprezavam os poetas a consideração se a Mitologia podia, ou não, influir sobre nós. Contanto que

dissessem que as Musas do Hélicon os inspiravam, que Febo guiava seu carro puxado pela quadriga, que a Aurora

abria as portas do Oriente com seus dedos de rosas, e outras tais e quejandas imagens tão usadas,, cuidavam que tudo

tinham feito, e que com Homero emparelhavam; como se pudesse parecer belo quem achasse algum velho manto

grego, e com ele se cobrisse! Antigos e safados ornamentos, de que todos se servem, a ninguém honram

Quanto à forma, isto é, à construção, por assim dizer, material das estrofes, e de cada cântico em particular,

nenhuma ordem seguimos; exprimindo as idéias como elas se apresentaram, para não destruir o acento da inspiração;

além de que, a igualdade dos versos, a regularidade das rimas, e a simetria das estâncias produz uma tal monotonia, e

dá certa feição de concertado artificio que jamais podem agradar. Ora, não se compõe uma orquestra só com sons

doces e flautados; cada paixão requer sua linguagem própria, seus sons imitativos, e períodos ‘explicativos.

Quando em outro tempo publicamos um volume das Poesias da nossa infância, não tínhamos ainda assaz

refletido sobre estes pontos, e em quase todas estas faltas incorremos; hoje porém cuidamos ter seguido me

lhor caminho. Valha-nos ao menos o bom desejo, se não correspondem as obras ao nosso intento; outros mais

mimosos da Natureza farão o que não nos é dado.

Algumas palavras acharão neste Livro que nos dicionários portugueses se não encontram; mas as línguas

vivas se enriquecem com o progresso da civilização, e das ciências, e uma nova idéia pede um novo termo.

Eis as necessárias explicações para aqueles que lêem de boa-fé, e se aprazem de colher uma pérola no meio

das ondas; para aqueles, porém, que com olhos de prisma tudo decompõem, e como as serpentes sabem converterem

veneno até o néctar das flores, tudo é perdido; o que poderemos nós dizer-lhes?... Eis mais uma pedra onde afiem

suas presas; mais uma taça onde saciem sua febre de escárnio.

Este Livro é uma tentativa, é um ensaio; se ele merecer o público acolhimento, cobraremos ânimo, e

continuaremos a publicar outros que já temos feito, e aqueles que fazer poderemos com o tempo.

E’ um novo tributo que pagamos à Pátria, enquanto lhe não oferecemos coisa de maior valia; é o resultado

de algumas horas de repouso, em que a imaginação se dilata, e a atenção descansa, fatigada pela seriedade da ciência.

Tu vais, ó Livro, ao meio do turbilhão em que se debate nossa Pátria; onde a trombeta da mediocridade

abala todos os ossos, e desperta todas as ambições; onde tudo está gelado, exceto o egoísmo: tu vais, como uma folha

no meio da floresta batida pelos ventos do inverno, e talvez tenhas de perder-te antes de ser ouvido, como um grito

no meio da tempestade.

Vai; nós te enviamos, cheio de amor pela Pátria, de entusiasmo por tudo o que é grande, e de esperanças em

Deus, e no futuro.

Adeus!

Paris, julho de 1836.

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PRÓLOGO de Primeiros Cantos *

Antônio Gonçalves Dias

Dei o nome de Primeiros Cantos às poesias que agora publico, porque espero que não serão as últimas.

Muitas delas não têm uniformidade nas estrofes, porque menosprezo regras de mera convenção; adotei

todos os ritmos da metrificação portuguesa, e usei deles como me pareceram quadrar melhor com o que eu pretendia

exprimir.

Não têm unidade de pensamento entre si, porque foram compostas em épocas diversas – debaixo de céu

diverso – e sob influência de impressões momentâneas. Foram compostas nas margens viçosas do Mondego e nos

píncaros enegrecidos do Jerez e no Tejo – sobre as vagas do Atlântico, e nas florestas virgens da América. Escrevi-as

para mim, e não para os outros; contentar-me-ei, se agradarem; e se não...é sempre certo que tive o prazer de as ter

composto.

Com a vida isolada que vivo, gosto de afastar os olhos de sobre a nossa cena política para ler em minha

alma, reduzindo à linguagem harmoniosa e cadente o pensamento que me vem de improviso, e as idéias que em

mim desperta a vista de uma paisagem ou do oceano – o aspecto enfim da natureza. Casar assim o pensamento com o

sentimento – o coração com o entendimento – a idéia com a paixão – colorir tudo isto com a imaginação, fundir tudo

isto com a vida e com a natureza, purificar tudo com o sentimento da religião e da divindade, eis a Poesia – a Poesia

grande e santa – a Poesia como eu a compreendo sem a poder definir, como eu a sinto sem a poder traduzir.

O esforço – ainda vão – para chegar a tal resultado é sempre digno de louvor; talvez seja este o só

merecimento deste volume. O público o julgará; tanto melhor se ele o despreza, porque o Autor interessa em acabar

com essa vida desgraçada, que se diz de Poeta.

Rio de Janeiro, julho de 1846

* Conforme a primeira edição.

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Prólogo de Iracema

José de Alencar

Meu amigo.

Este livro o vai naturalmente encontrar em seu pitoresco sítio da várzea, no doce lar, a que povoa a

numerosa prole, alegria e esperança do casal.

Imagino que é a hora mais ardente da sesta.

O Sol a pino dardeja raios de fogo sobre as areias natais; as aves emudecem; as plantas languem. A natureza

sofre a influência da poderosa irradiação tropical, que produz o diamante e o gênio, as duas mais sublimes

expressões do poder criador.

Os meninos brincam na sombra do outão, com pequenos ossos de reses, que figuram a boiada. Era assim

que eu brincava, há quantos anos, em outro sítio, não mui distante do seu. A dona da casa, terna e incansável, manda

abrir o coco verde, ou prepara o saboroso creme do buriti para refrigerar o esposo, que pouco há recolheu de sua

excursão pelo sítio, e agora repousa embalando-se na macia e cômoda rede.

Abra então este livrinho, que lhe chega da corte imprevisto. Percorra suas páginas para desenfastiar o

espírito das cousas graves que o trazem ocupado.

Talvez me desvaneça amor do ninho, ou se iludam as reminiscências da infância avivadas recentemente. Se

não, creio que, ao abrir o pequeno volume, sentirá uma onda do mesmo aroma silvestre e bravio que lhe vem da

várzea. Derrama-o, a brisa que perpassou os espatos da carnaúba e a ramagem das aroeiras em flor.

Essa onda é a inspiração da pátria que volve a ela, agora e sempre, como volve de contínuo o olhar do

infante para o materno semblante que lhe sorri.

O livro é cearense. Foi imaginado aí, na limpidez desse céu de cristalino azul, e depois vazado no coração

cheio das recordações vivaces de uma imaginação virgem. Escrevi-o para ser lido lá, na varanda da casa rústica ou na

fresca sombra do pomar, ao doce embalo da rede, entre os múrmures do vento que crepita na areia, ou farfalha nas

palmas dos coqueiros.

Para lá, pois, que é o berço seu, o envio

.

Mas assim mandado por um filho ausente, para muitos estranho, esquecido talvez dos poucos amigos, e só

lembrado pela incessante desafeição, qual sorte será a do livro?

Que lhe falte hospitalidade, não há temer. As auras de nossos campos parecem tão impregnadas dessa

virtude primitiva, que quantas raças habitem aí a inspiram com o hálito vital. Receio sim que seja recebido como

estrangeiro e hóspede na terra dos meus.

Se porém, ao abordar às plagas do Mocoripe, for acolhido pelo bom cearense, prezado de seus irmãos ainda

mais na adversidade do que nos tempos prósperos, estou certo que o filho de minha alma achará na terra de seu pai a

intimidade e conchego da família.

O nome de outros filhos enobrece nossa província na política e na ciência; entre eles o meu, hoje apagado,

quando o trazia brilhantemente aquele que primeiro o criou. Neste momento mesmo, a espada heróica de muito

bravo cearense vai ceifando no campo da batalha ampla messe de glória. Quem não pode ilustrar a terra natal canta

as lendas suas, sem metro, na rude toada de seus antigos filhos.

Acolha pois a primeira mostra e ofereça a nossos patrícios a quem é dedicada.

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Este pedido foi um dos motivos de lhe endereçar o livro; o outro lhe direi depois que o tenha lido.

Muita cousa me ocorre dizer sobre o assunto, que talvez devera antecipar à leitura da obra, para prevenir a

surpresa de alguns e responder às observações ou reparos de outros.

Mas sempre fui avesso aos prólogos; em meu conceito eles fazem à obra o mesmo que o pássaro à fruta

antes de colhida; roubam as primícias do sabor literário. Por isso me reservo para depois.

Na última página me encontrará de novo; então conversaremos a gosto, em mais liberdade do que teríamos

neste pórtico do livro, onde as etiquetas mandam receber o público com a gravidade e reverência devidas a tão alto

senhor.

Rio de Janeiro - Maio de 1865.

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Prefácio de O CABELEIRA

Franklin Távora

MEU amigo.

A casa, onde moro, está situada ao lado de uma rua de bambus, em um dos cantinhos mais amenos da bacia

de Botafogo.

Vejo daqui uma grande parte da baía, os morros circunstantes, cravando seus cumes nas nuvens, o céu de

opala, o mar de anil.

Infelizmente este belo espetáculo não é imutável.

De súbito o céu se torna brusco, e só descubro cabeços fumegantes em torno de mim; ribomba o trovão nos

píncaros alcantilados; a chuva fustiga as palmelras e casuarinas; a ventania brame no bambuzal; a casa estala. Parece

que tudo vai derruir-se.

Estas tormentas duram horas, noites, dias inteiros, e reproduzem-se com mais ou menos freqüência.

Quando elas têm passado de todo, o céu mostra-se mais puro e belo, o mar mais azul, as árvores mais

verdes, a viração tem mais doçura, as flores mais deliciosos aromas.

Pela face das pedreiras correm listões d’água prateada, que refletem a luz do Sol, formando brilhantes

matizes. Coberta de frescas louçanias, a natureza sorri com suave gentileza depois de haver esbravejado e chorado

como uma criança.

É tempo de cumprir a promessa extorquída pela amizade, que não atendeu às mais legitimas escusas. Essa

natureza brilhante e móvel estava a cada instante convidando o meu desânimo a romper o silêncio a que vivo

recolhido desde que cheguei do extremo norte do império.

Depois de cerca de dois anos de hesitações, dispus-me enfim a escrever estas pálidas linhas — notas

dissonantes de uma musa solitária, que no retiro, onde se refugiou com os desenganos da vida, não pode esquecer-se

da pátria, anjo das suas esperanças e das suas tristezas.

Tive porém que melhor seria leres umas centenas de páginas na estampa, do que traduzires um volumoso in-

folio inçado de tantas emendas e entrelinhas que a mim mesmo custa às vezes decifrá-las, pela razão de que tudo

aqui se escreveu sem ordem, sem arte, sem se atender a ideal, por aproveitar momentos vagos e incertos de uma pena

que pertence ao Estado e à família.

Por isso, em lugar de uma carta receberás nessa encantadora Genebra, onde te delicias com a memória de

Rousseau, Staël, Voltaire, Calvino — astros imortais, que rutilarão perpetuamente no firmamento da civilização, um

livro hoje, outro talvez amanhã e alguns mais sucessivamente, até que me tenha libertado da obrigação, que me

impuseste, conforme o permitirem as minhas forças diminuídas pelo meu afastamento das coisas literárias de nossa

terra.

Inicio esta série de composições literárias, para não dizer estudos históricos, com O Cabeleira, que pertence

a Pernambuco, objeto de legitimo orgulho para ti, e de profunda admiração para todos os que têm a fortuna de

conhecer essa refulgente estrela da constelação brasileira. Tais estudos, meu amigo, não se limitarão somente aos

tipos notáveis e aos costumes da grande e gloriosa província, onde tiveste o berço.

Pará e Amazonas, que não me são de todo desconhecidos; Ceará, torrão do meu nascimento; todo o Norte

enfim, se Deus ajudar, virá a figurar nestes escritos, que não se destinam a alcançar outro fim senão mostrar aos que

não a conhecem, ou por falso juízo a desprezam, a rica mina das tradições e crônicas das nossas províncias

setentrionais.

Depois de alguns meses de ausência, tornei a ver o Recife, esplêndida visão de teus sonhos nostálgicos.

Lamento que, havendo sido transportado muito novo ainda ao velho mundo, não guardes dessa visão a menor

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lembrança, fugitiva embora. Genebra com o Mont-Blanc coberto de neves e gelos eternos; o lago imenso, que a um

sem-número de poetas tem inspirado maviosos e imortais cantos; o Ródano que, ao dizer de um viajante nacional,

“foge apressado, resmungando com voz medonha em procura de hospitalidade no Mediterrâneo”, não pode ter a

beleza dessa elegante e risonha cidade, que surge dentre mangues verdejantes, águas límpidas, pontes soberbas, e se

estende por sobre vasta planície, obrigando os matos a se afastarem de dia em dia ao ocidente para ter espaço onde

alongue de improviso suas novas ruas, suas estradas, seus trilhos, testemunhos de sua prosperidade material,

comercial e agrícola; onde funde novas escolas e erija novos templos, testemunhos de sua civilização e grandeza

moral.

Vi o Pará, e adivinhei-lhe as incalculáveis riquezas ora ocultas no regaço de um futuro que, se não anunciou

ainda a época precisa de sua realização, não se demorará muito, segundo se infere do que apresenta, em traduzir-se

na mais brilhante realidade.

E que direi do Amazonas, incompreensível grandeza, que tem a indole da imensidade e a feição do

escândalo?

Não há prodígio que se possa comparar com aquele no descoberto. Não creio que Rousseau fosse capaz de

fantasiar semelhante, ainda que levasse toda a vida a imaginar, ele o filósofo sonhador que com suas idéias

revolucionou o mundo; o homem cria a grandeza ideal, a grandeza física porém só Deus a concebe e executa. Staël

em vão tentaria descrever esse reino encantado como descreveu Itália em sua imperecedora Corina em que o estudo

dos monumentos e do passado não desdiz do coração, monumento de todos os tempos.

Entrando ali, pareceu-me entrar em um templo fantástico e sem proporções. É natural o fenômeno: sempre

que nos achamos diante das obras-primas da criação, secreto instinto nos adverte que estamos na presença de Deus.

A admiração tem então a solenidade de um recolhimento e de uma homenagem. As impressões passam dos sentidos

ao fundo da alma onde vão repetir-se com maior intensidade. Todas as nossas faculdades — a inteligência, a

imaginação, a própria vontade, deixam-se dominar de uma como volúpia que não é sensual, mas deleitosa, e grande

como é talvez o êxtase. Ainda quando tenhamos o espírito cansado dos erros e injustiça dos homens, nós o

sentiremos levantar-se imediatamente cheio de vida diante da representação enorme, como se ele se achasse em sua

integridade virginal. o efeito do assombro que percorre, como fluido, o nosso organismo, despertando em nós abrutas

sensações que nunca experimentamos, e que são para nós verdadeiros fenômenos do mundo fisiológico.

Aguas imensas serviam de lajeamento ao majestoso templo, que tinha por abóbada o céu sem limites. À

visão física escapavam as colunas e paredes dessa catedral-mundo, as quais a minha imaginação fora colocar além

dos horizontes invisíveis do Atltântico.

Do lado do norte quebravam a monotonia da superfície envoltos nos vapores matutinos uns como

rudimentos gigantescos de arcadas colossais. Em outras quaisquer condições cósmicas esses rudimentos apresentar-

se-iam à minha vista como grandiosas ruínas; ali não; o que se afigura ao espírito de quem os observa, é uma coisa

indizível; afigura-se que essas arcadas estão em começo de construção e se destinam a romper o céu, porque no meio

daquele suntuoso impossível poder-se-á dizer que nenhum átomo tem o direito de se deixar destruir; quando tudo não

exista ali ab initio, quando tudo não tenha ali uma vida que não resta ao corpo é nésóer, agigantar-se, eternI-zar-se na matéria, que não acabará senão no fim dos tempos.

O que eu via e acabo de apontar não era outra coisa que a região amazônica que começava a desenhar-se

risonha, azulada, esplêndida. Eram ilhas sem-número, umas de comedidas dimensões, outras de descomunal

amplitude, todas elas multiformes, marchetando aqui as águas, bordando ali o continente coberto de uma espessa

crosta de verdura.

Quem não entrou ainda nesse mundo novo onde ao homem que pela primeira vez nele penetra, se afigura

não ter sido precedido por um único sequer dos seus semelhantes; onde há léguas e léguas que ainda não foram

pisadas por homem civilizado, e onde há rios que só a canoa do índio tem fendido, não pode formar idéia dessa

esplêndida maravilha.

Quando me achei, não em face mas no seio daquela natureza (porque em breve me vi cercado de ilhas, das

quais algumas podem comparar-se a continentes, em que todas as direções iam ficando ou aparecendo), natureza a

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que a minha imaginação tinha dado formas incríveis, filhas da visão íntima, reconheci só então quanto em seus vãos

arroubos me havia a fantasia deixado aquém da realidade.

Nada do que fui descobrindo conformava com as palisagens que eu traçara e colorira na mente não obstante

as proporções gigantescas, as linhas corretas, as cores variadas, os matizes estupendos com que eu as tinha feito

surgir de minha paleta. Pálidos e somenos hão de ser sempre diante daquela realidade a modo de fortuita os sonhos

do maior imaginar.

Muito se há escrito do Pará e Amazonas desde que foram desco-bertos até nossos dias. Que valem porém

todos os escritos e narrações de viagem a semelhante respeito? Quase nada.

O que eles nos põem diante dos olhos é o traço hirto, e não o músculo vivo e hercúleo; é a ruga, e não o

sorriso; é a penumbra, e não o astro; o que eles nos oferecem são formas tesas e secas em lugar dos contornos

brandos, delicados e flexíveis dos imensos panoramas e transparentes perspectivas dessas regiões paradisíacas.

Como pintar as miríades de ilhas, rios, furos, igarapés, que se mostram aos olhos do via jante desde a foz do

grande rio, desde a confluência deste com os outros rios, que não têm conta, até suas nascentes, que durante muitos

anos ainda hão de ser quase inteira-mente desconhecidas? Como pintar tais imensidades, se vencer um desses rios,

um desses furos, um desses igarapés, deixar atrás ou de lado uma, dez, cem ilhas, é o mesmo que penetrar em novos

igara pés, novos furos, novos rios, contornar novas ilhas.

Nem sempre porém a natureza sorri, ou protege, ou abraça; às vezes ela encoleriza-se e, trocando os afagos

da mãe carinhosa com as asperezas da madrasta d~esamorável, repele o homem por mil formas, e o impele para mil

perigos.

A cólera, o açoite, a repulsa, o impulso, o puro franzir do sobreolho da madrasta irritada são terríveis

manifestações; é a tempestade que afunda mil vidas — o homem, a cobra, a onça, a ave infeliz que passava trinando

venturas; é a correnteza que desagrega, desfaz ilhas, e as apaga da superfície das águas, e arranca o cedro, a palmeira, os quais vão arrebatados no turbilhão, que os engole vestidos de virente folhagem para os vomitar escalavrados, nus,

despedaçados, sórdidos.

A pedra não resiste. A revolução arrasta-a com rapidez inconceptível, e a vai levar em um momento a

fundos abismos, que são outros tantos domicílios da vertigem e da morte. Com a pedra desapareceria a montanha, se

tivesse a imprudência de ir surgir à frente, ou no meio daquelas impetuosas águas, que alagam, constringem, cavam,

desmantelam, pulverizam praias, ribas, fragas e continentes.

— Que não seria deste mundo — pensei eu, descendo das eminências da contemplação às planícies do

positivismo, — se nestas margens se sentassem cidades; se a agricultura liberalizasse nestas planícies os seus

tesouros; se as fábricas enchessem os ares com seu fumo, e neles repercutisse o ruído das suas máquinas? Desta

beleza, ora a modo de estática, ora violenta, que fontes de rendas não haviam de rebentar? Mobilizados os capitais e

o crédito; animados os mercados agrícolas, industriais, artísticos, veríamos aqui a cada passo uma Manchester ou

uma New, York. A praça, o armazém, o entreposto ocupariam a margem, A hoje nua e solitária, a cômoro sem vida e

sem promessa; o arado percorreria a região que de presente perten-ce à floresta escura. O estado natural, espancado

pelas correntes da imigração espontânea que lhe viessem disputar os domínios improdutivos para os converter em

magníficos empórios, ter-se-ia ido refugiar nos sertões remotos donde em breve seria novamente desalojado. Uma

face nova teria vindo suceder ao brilhante e majestoso painel da virgem natureza. Não se mostrariam mais aqui as

tendas negras da fome e da nudez. O trabalho, o capital, a economia, a fartura, a riqueza, agentes indispensáveis da

civilização e grandeza dos, povos, teriam lugar eminente nesta Imensidade onde vemos unicamente águas, ilhas,

planícies, seringais sem-fim.

Mas por onde ando eu, meu amigo? Em que alturas vou divagando nas asas da fantasia? Venhamos ao

assunto desta carta.

NÓ Cabeleira ofereço-te um tímido ensaio do romance histórico,, segundo eu entendo este gênero da

literatura. À crítica pernambucana, mais do que a outra qualquer, cabe dizer se o meu desejo não foi iludido; e a ela,

seja qual for a sua sentença, curvarei a cabeça sem replicar.

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As letras têm, como a política, um certo caráter geográfico; mais do Norte, porém, do que no Sul abundam

os elementos para a formação de uma literatura propriamente brasileira, filha da terra.

A razão é óbvia: o Norte ainda não foi invadido como está sendo o Sul de dia em dia pelo estrangeiro.

A feição primitiva, unicamente modificada pela cultura que as raças, as índoles, e os costumes recebem dos

tempos ou do progresso, pode-se afirmar que ainda se conserva ali em sua pureza, em sua genuína expressão.

Por infelicidade do Norte, porém, dentre os muitos filhos seus que figuram com grande brilho nas letras

pátrias, poucos têm seriamente cuidado de construir o edifício literário dessa parte do império que, por sua natureza

magnificente e primorosa, por sua história tão rica de feitos heróicos, por seus usos, tradições e poesia popular há de ter cedo ou tarde uma biblioteca especialmente sua.

Esta pouquidade de arquitetos faz-se notar com especialidade no romance, gênero em que o Norte, a meu

ver, pode entretanto figurar com brilho e bizarria inexcedível. Esta verdade dispensa demonstração. Quem não sabe

que na história conta ele J. F. Lisboa, Baena, Abreu e Lima, Vieira da Silva, Henriques Leal, Muniz Tavares, A J. de

Melo, Fernandes Gama, e muitos outros que podem bem competir com Varnhagen, Pereira da Silva e Fernandes

Pinheiros; que o primeiro filólogo brasileiro, Sotero dos Reis, é nortista; que é nortista Gonçalves Dias, a mais

poderosa e inspirada musa de nossa terra; e que Igualmente o são Tenreiro Aranha, Odorico Mendes, Franco de Sã,

Almeida Braga, José Coriolano, Cruz Cordeiro, Ferreira Barreto, Maciel Monteiro, Bandeira de Melo, Torres

Bandeira, que valem bem Magalhães, A. de Azevedo, Varela, Porto Alegre, Casimiro de Abreu, Cardoso de

Meneses. Teixeira de Melo?

No romance, porém, já não é assim. O Sul campeia sem êmulo nesta arena, onde têm colhido notáveis

louros: Macedo, o observador gracioso dos costumes da cidade; Bernardo Guimarães, o desenhista fiel dos usos

rústicos; Machado de Assls, cultor estudioso do gênero que foi vasto campo de glórias para Balzac; Taunay que se

particulariza pela fluência, e pelo faceto da narrativa; Almeidinha, que a todos estes se avantajou na correção dos

desenhos, posto houvesse deixado um só quadro, um só painel, quadro brilhante, painel imenso, em que há vida,

graça e colorido nativo. Estes talentos, além de outros que me não lembram de momento, não têm, ao menos por

agora, competidores no Norte, onde aliás não há falta de talentos de igual esfera.

Não me é lícito esquecer aqui, ainda que se trata do romance do Sul, um engenho de primeira grandeza, que,

com ser do Norte, tem concorrido com suas mais importantes prlmícias para a forma-ção da literatura austral. Quero

referir-me ao Exmo Sr. Conselheiro José Martiniano de Alencar, a quem lá tive ocasião de fazer justiça nas minhas

conhecidas Cartas a Cincinato.

Quando, pois, está o Sul em tão favoráveis condições, que até conta entre os primeiros luminares das suas

letras este distinto cearense, têm os escritores do Norte que verdadeiramente estimam seu torrão, o dever de levantar

ainda com luta e esforços os nobres foros dessa grande região, exumar seus tipos legendários, fazer conhecidos seus

costumes, suas lendas, sua poesia, máscula, nova, vivida e louçã tão ignorada no próprio templo onde se sagram as

reputações, assim literárias, como políticas, que se enviam às províncias.

Não vai nisto, meu amigo, um baixo sentimento de rivalidade que não aninho em meu coração brasileiro.

Proclamo uma verdade irrecusável. Norte e Sul são irmãos, mas são dois. Cada um há de ter uma literatura sua,

porque o gênio de um não se confunde com o do outro. Cada um tem suas aspirações, seus interesses, e há de ter, se

lá não tem, sua política.

Enfim não posso dizer tudo, e reservarei o desenvolvimento, que tais idéias exigem, para a ocasião em que

te enviar o segundo livro desta série, o qual talvez venha ainda este ano, à luz da publicidade.

Depois de haveres lido O Cabeleira, melhor me poderás entender a respeito da criação da literatura

setentrional, cujos moldes não podem ser, segundo me parece, os mesmos em que vai sendo vazada a literatura

austral que possuímos.

Teu

FRANKLIN

TÁVORA

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Rio, — 1876

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Ao leitor ( Capítulo do Romance Memórias póstumas de Brás Cubas)

Machado de Assis

Que Stendhal confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores, coisa é que admira e consterna.

O que não admira, nem provavelmente consternará, é se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal, nem

cinqüenta, nem vinte, e quando muito, dez.. Dez? Talvez cinco. Trata-se, na verdade, de uma obra difusa, na qual eu,

Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne, ou de um Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens

de pessimismo. Pode ser. Obra de finado. Escrevia-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia, e não é difícil

antever o que poderá sair desse conúbio. Acresce que a gente grave achará no livro umas aparências de puro

romance, ao passo que a gente frívola não achará nele o seu romance usual; ei-lo aí fica privado da estima dos graves

e do amor dos frívolos, que são as duas colunas máximas da opinião.

Mas eu ainda espero angariar as simpatias da opinião, e o primeiro remédio é fugir a um prólogo explícito e

longo. O melhor prólogo é o que contém menos coisas, ou o que as diz de um jeito obscuro e truncado.

Conseguintemente, evito contar o processo extraordinário que empreguei na composição destas Memórias,

trabalhadas cá no outro mundo. Seria curioso, mas nimiamente extenso, aliás desnecessário ao entendimento da obra.

A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote,

e adeus.

Brás Cubas

(1881)

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Capítulo I do Romance, O Encilhamento, cenas contemporâneas da Bolsa em 1890,1891 e 1892

Alfredo DÉscragnolle Taunay

Embora de inverno, pungia o sol esperto, um tanto cáustico.

Pouco, porém, lhe importava o calor à multidão que enchia, barulhenta e agitada, todo o trecho final da rua

da Alfândega até a de Primeiro de Março, transbordando pelos dois ramos laterais da apertada e torta viela, mais que

rua, chamada de Candelária, nos arredores do edifício do Banco do Brasil.

Debalde apitavam impacientes e estrídulos os bondes a pedirem passagem; debalde praguejavam,

vociferando insolentes, os carroceiros e manejando a custo no meio do povo os pesados veículos; ninguém quase se

abalava para os evitar na compacta massa, que ora se intumescia e oscilava com movimentos isoméricos e

combinados, ora de repente se dividia, rareava e se espalhava para ir adiante, logo e logo, formar novos e mais

densos agrupamentos.

De vez em quando, neles se abriam sinuosos sulcos, por onde, coleando, se esgueiravam azafamados,

ligeiros e jeitosos, corretores e, sobretudo, zangões, estes em número incalculável, de todas as idades, rubros,

banhados em suor, com o chapéu caído sobre a nuca e o lenço em torno do pescoço como babadouro, a gritarem

compro, vendo, sem particularizarem o que pretendiam comprar ou vender. “Duzentas Repúblicas”, anunciava um

com insistência e esganiçada grita. “Quanto?” “ 83”. “Estão fechadas.” E rápidas se escreviam as notas em

pedacinhos de papel ou nos punhos postiços da camisa, cheios já de algarismos, enquanto mil sinais trocados no ar,

mal esboçados, simples piscadelas de olho, encetavam grossas negociações ou de todo as concluíam.

Terrível o aperto, completos o acotovelamento e a igualdade; todas as classes da sociedade misturadas,

confundidas, enoveladas, senadores, deputados, médicos de nota ou sem clínica, advogados bem reputados ou

despretigiosos, magistrados de fama, militares, um mundo de desconhecidos, outros infelizmente demasiado

conhecidos; homens vindo de todos os pontos do Brasil, alguns até das velhas bolsas da Europa, espertos, ativos, de

modos ora insinuantes, ora imperiosos como que fidalgos deslocados do seu meio habitual, afeitos a todos o

negócios, prontos para todas as transações havidas e por haver; gente chegada de fresco dos Estados com a feição

ainda tímida e acaipirada de provincianos e gestos de quem mal domina surpresas e medos imensos, outros veteranos

já naquele fogo de nova espécie, gabolas, farfalhantes, rindo alto, contando proezas e os mais arriscados lances;

políticos de posição, há pouco, afirmada pela cartola solene, sobrecasaca abotoada e ademanes compassados, agora

de chapéu mole, paletó saco e maneiras familiares, a correrem, com o sorriso estereotipado das dançarinas, atrás dos

possíveis fregueses, em penosa competência com caxeirinhos, verdadeiros meninos atirados em cheio na voragem da

bolsa, crianças quase, a levarem, nas pequeninas mãos nervosamente fechadas, grossos maços de notas amarrados

por cordéis brancos em cruz, contos e contos de réis.

Por sobre todos pairava uma ansiedade opressora, deliqüescente, de esperanças e receios, como que fluido

indefinível, elétrico, febril, intenso, que, emergindo do seio da multidão, a envolvia em pesada atmosfera com

prenúncios e flutuações de temporal certo, inevitável, mas ainda distante, longe, bem longe – a fome do ouro, a sede

da riqueza, a sofreguidão do luxo, da posse, do desperdício, da ostentação, do triunfo, tudo isso depressa, muito

depressa, de um dia para outro!

Também nos rostos, quase todos alegres e desfeitos em riso, alguns não sombrios mas preocupados e sérios,

se expandia uma alacridade contrafeita, reflexo de sentimentos encontrados, a consciência de se estar empenhado até

aos olhos num brinquedo, quando não jogo, perigoso, travado de riscos e desastres iminentes, mas atraente, sedutor,

irresistível.

Era

o

Encilhamento, palavra quase genial do povo, adaptada da linguagem característica do esporte local

em que se dá a última demão aos cavalos de corrida antes de atirá-los à raia da concorrência e forçá-los, ofegantes e

em supremos esforços, a pleitearem o prêmio da vitória. E , quantos, montados por hábeis jóqueis, cuja existência se

passa a fazê-los ganhar ou perder à vontade, quantos não tinham de ficar em meio da arena, vencidos, humilhados,

arquejantes, o pelo alagado de mortal suor, a curtirem as vergonhas e as angústias da derrota, com as pernas a tremer,

o coração a estalar da vertiginosa carreira, para que um único, um só, o mais rápido, o mais feliz, ou o mais bem

guiado pela trapaça do cavaleiro, atingisse a meta, e arrebatasse, entre delirantes aclamações, o ambicionado laurel,

aproveitado em seus rebotalhos, quando muito, por mais dois ou três companheiros de glória hípica?!

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Era

o

Encilhamento – espécie de redemoinho fatal, de Maelstrom oceânico, abismo insondável, vórtice de

indômita possança e invencível empuxo a que iam convergir, em desapoderada carreira, presas, avassaladas,

inconscientes no repentino arroubo, as forças vivas do Brasil, representadas por economias quase seculares e de todo

tempo cautelosas, hesitantes. Dir-se-ia um desses faróis imensos, deslumbrantes, de encontro a cujos vidros

inquebráveis, convexos, se atiram, nas sombras da noite e nos vaivéns da tempestade, grandes e misteriosas aves do

oceano, para logo caírem malferidas, moribundas, ou sem vida e fulminadas sobre ásperos rochedos, na base das

torres agigantadas.

Por ali rolava bamboleando ou pirueteava nos ares como visão fantástica de voluptuosa acrobacia a Fortuna,

levíssima nos movimentos felinos e nas inesperadas cabriolas, mas de aspecto pesadão, à maneira de uma rósea e

carnuda barregã de Rubens, toda em gargalhadas, báquica, aos tombos, caprichosa, volúvel, com uma ponta de

ebriedade, a oferecer o corpo todo nu, lascivo, os seios empinados e largos, o ventre vasto e roliço, presa

enganosamente fácil de quantos, ávidos, tresloucados, a quisessem empolgar e possuir. E a simples possibilidade de

lhe merecer por acaso um só dos seus lúbricos sorrisos, quando mais não fosse, retinha naquela áurea paragem, em

que se jogava às tontas, inúmeros papalvos e curiosos, de todo alheios a qualquer transação, como quem espera tirar

a sorte grande sem comprar bilhetes de loteria.

Gatunos propriamente, batedores de carteira ou apalpadores de algibeira, poucos, bastante raros. Assinalado

o dia em que se ouvia o brado angustioso de “ Pega ladrão!” “ Lá se foi o meu relógio” e, ao trilar dos apitos,

acudiam com grande espalhafato, e logo de chanfalho em punho, soldados de polícia, aliás sem resultado para a

garantia da propriedade em perigo e reconquista dos bens surripiados.

Tomava todos os visos de honesto labor o trabalho que se operava naquele atrito de interesses e ambições,

por enquanto simpático, quase cordial e bonachão; e, pela imprensa, já haviam vozes autorizadas reclamado do

honrado presidente da intendência a formal proibição do trânsito de carroças, caminhões e outros veículos por

aqueles quarteirões. Deviam ficar, sem reserva ,destinadas à atividade e à faina, tão úteis ao incremento do país, dos

cidadãos entregues às múltiplas especulações da bolsa, às exigências da fecunda jogatina e às contínuas

incorporações de bancos, empresas e companhias, cujos pomposos prospectos diariamente enchiam, quase de

princípio a fim, os jornais mais lidos e procurados da Capital Federal.

Do alto descia, senão bem às claras o exemplo, pelo menos o incitamento. O governo, na entontecedora

ânsia de tudo destruir, tudo derrubar, metido nos escombros da demolição, coberto de caliça e de poeira, anelante de

glórias da reconstrução no menor prazo, às carreiras, sem demora, olhando pouco para a natureza e qualidade dos

elementos e materiais de que se ia servindo, visando efeitos imediatos, como que esquecido do futuro e do rigor da

lógica, a amontoar premissas de que deviam fatalmente decorrer as mais perigosas conseqüências, o governo, com a

faca e o queijo na mão promulgava decretos sobre decretos, expedia avisos e mais avisos, concessões de todas as

espécies, garantias de juros, subvenções, privilégios, favores sem fim, sem conta, sem nexo, sem plano, e daí outros

tantos contrachoques na bolsa, poderosíssima pilha transbordando de eletricidade e letal pujança, madeiros enormes,

impregnados de resina, prontos para chamejarem, atirados à fogueira imensa, colossal!

Pululavam os bancos de emissão e quase diariamente se viam na circulação monetária notas de todos os

tipos, algumas novinhas, faceiras, artísticas, com figuras de bonitas mulheres e símbolos elegantes, outras

sarapintadas às pressas, emplastradas de largos e nojentos borrões.

Quanto aos lastros em libras esterlinas e apólices da dívida pública, fazia-se vista gorda

Contratos de imigração a dar com o pau, localização de milhares e milhares de famílias européias em todas

as terras devolutas imagináveis, um nunca acabar, metade da Europa puxada a reboque para aqui, sem estorvo, nem

dificuldade, que não fossem superadas. Bastava singela petição de qualquer, já rico, já pobre, barão assinalado ou

mais que modesto incógnito; sobretudo, porém, parentes, amigos, aduladores e apaniguados do momento.

O deferimento não se fazia esperar; nem havia mãos a medir. Requerimentos rabiscados sobre a perna, no

intervalo de ruidosas palestras, entre duas fumaças de perfumado havana nos gabinetes ministeriais,s em indicação

certa dos lugares, tudo no ar, às cegas, às cabeçadas, e logo transferido por bom dinheiro, centenas, senão milhares

de contos de réis a companhias que, da noite para o dia surgiam como irisados e radiantes cogumelos após chuvas e

enxurradas, vivificados os incontáveis micróbios da podridão e dos esterquilíneos.

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Travava-se a responsabilidade do país em somas pavorosas e brincava-se com o crédito, o nome e o porvir

da nação.

Pelo empenho dos corrilhos, pelas manobras da advocacia administrativa desbragada e impudente, viam-se

atendidas as mais escandalosas reclamações, mil vezes indeferidas e enterradas nos escaninhos escuros dos arquivos;

e indenizações que bradavam aos céus, abriam nos flancos do tesouro público verdadeiras brechas, que não sangrias,

a cada momento aventadas pelos caprichos do ditador...Só o estilete de Tácito ou o látego de Juvenal...

Parecia indeclinável acabar de uma vez com todas as antigas práticas, transformar, quanto antes, as velhas

tendências brasileiras de acautelada morosidade e paciente procrastinação. Ao amanhã de todo o sempre,

substituíra-se o e ! Quanto moroso, senão estéril no natural egoísmo, o pesado trabalho da terra, com os seus hábitos arraigados, rotineiros! A indústria, sim, eis o legítimo escopo de um grande povo moderno e que tem de

aproveitar todas as lições da experiência e da civilização; a indústria, democrática nos seus intuitos, célebre nos

resultados, a fazer a felicidade dos operários, a valorizar e tresdobrar os capitais dos plutocratas, sempre em avanço e a progredir, tipo da verdadeira energia americana e a desbancar, com os seus inúmeros maquinismos, que

dispensariam quase todo auxílio braçal, tudo quanto pudesse haver de melhor e mais aperfeiçoado nos mercados

estrangeiros!

Tinha então a ironia patriótica sorrisos de inexcedível desprezo pelas idéias de outrora – esse outrora de ano

e meio no mais e já tão afastado, tão distante! Que carrancismo, quanto atraso! Por ventura não era tão simples correr

sem parar ,até perder o fôlego? Que melhor política do que sacar sobre o futuro, sacar sempre, a mais e mais com

todo desembaraço? Não é tão largo, tão extenso o futuro? Um país com tantos recursos! De que ter medo? O

câmbio? Ah! o eterno espantalho das épocas idas, ocultas, já nas dobras do esquecido passado, omnioso passado –

diziam alguns, muitos até.

O câmbio? Que importava? Fosse por aí abaixo, rodasse quanto quisesse, a 14, a 12, a10, a 9... Melhor, não

emigrariam os capitais, ficando a girar dentro do país, a enriquecê-lo, a fomentá-lo como generoso sangue, que por

toda parte infundisse vida, saúde e robustez. Até os mais longínquos pontos do abandonado Mato Grosso iam desde

logo partilhar dos bens da inesgotável cornucópia a entornar-se.

Cidades aniquiladas, mortas, nos últimos confins, surgiriam das tristes ruínas louçãs e garridas, como que

tocadas pela varinha da bondosa fada, e em pouco tornariam aos dias de grandeza e opulência, nos tempos das

fabulosas minas de ouro nativo de 24 quilates e à flor do chão!...

Então, que dizer do Rio de Janeiro? Ruas e até simples quarteirões viam constituírem-se companhias para

transfigurá-los de momento em avenidas de suprema elegância, com todos os requintes do mais exigente

policiamento.

As ciências, letras e artes, a educação da mocidade com tontinas, seguros de vida e loterias, tudo era motivo

para valentes organizações sociais. E numerosas diretorias, largamente retribuídas, jurando aos seus deuses e batendo

de entusiasmo nos peitos, prometiam fazer deste país uma nação excepcional em todo o orbe, graças aos simples

influxos destas duas palavras escritas com letras verdes – a cor simbólica dos formosos ideais – ORDEM E

PROGRESSO.

Por que razão pedir e pagar um sem número de produtos à interesseira e avara Europa, até perfumes!

quando de tudo aqui se tinha em profusão inacreditável?! Tanta matéria prima à mão, e, entretanto, malbaratada,

perdida, a apodrecer, como se fora no centro da bárbara e desconfiada Ásia ou da negra e boçal África! Importar

seda, chá, vinho, trigo, linho e mil artefatos! Que inconsideração! E que faziam Minas Gerais, Paraná, Rio Grande do

Sul, todos os climas do mundo incluídos dentro do Brasil vastíssimo, interminável? Só se carecia de uma coisa:

iniciativa, espírito de associação. A todo transe, urgia apelar, reunir, mobilizar capitais, acordá-los, sacudi-los, tangê-

los e, sem detença, nem vacilação, obrigá-los a frutificar – antes do mais em proveito de quantos se propunham,

ousados e patriotas ( era essa a nota do dia!), a agitar e vencer o torpor das economias amontoadas, apáticas,

imprimindo-lhes elasticidade e vibração.

Para acudir a hipotéticos compromissos, formavam-se, em vésperas de incorporações, sindicatos, cujos

membros camarariamente e com toda paz de consciência entre si repartiam as primeiras e avultadas contribuições

dos acionistas pressurosos, confiantes, hipnotizados. E na caixa coletora e abarrotada de dinheiro, cada qual por seu

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turno mergulhava até aos ombros os compridos e impacientes braços, explorando a gosto esses novos e

comodíssimos placers californianos.

Dias depois, mais cinco, mais dez ou vinte espalhafatosas carruagens, puxadas por éguas ou cavalos de

todos os tamanhos e pelos, alguns mosqueados como onça pintada, todos a bateram com grande estrépito as patas,

iam alinhar-se, guiadas por cocheiros graves, tensos, gordos, à inglesa, nas fileiras duplas e tríplices que tomavam de lado a lado o largo de São Franciscox de Paula, atestando ao bom do José Bonifácio, imóvel, brônzeo, com o seu

eterno gesto de afetação acadêmica, a expansão instantânea e estupefaciente do seu querido Brasil.

Quanto ao povo, à gente que ainda andava a pé, ao cisco, como então se dizia, esse, contemplava tudo,

atônito, boquiaberto, um tanto assustadiço e sempre bestializado, na frase que ficou célebre.