Prosa de Circunstância por Emílio de Meneses - Versão HTML

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LITERATURA BRASILEIRA

Textos literários em meio eletrônico

Prosa de circunstância, de Emílio de Menezes

Obra de referência:

Obra Reunida, de Emílio de Menezes,

Rio de Janeiro: Livraria José Olympio, 1980.

PROSA DE CIRCUNSTÂNCIA

LUCINDA SIMÕES

Para quem escreve estas linhas não pode haver missão mais difícil do que falar de um

artista de teatro. Mais difícil ainda quando tal artista traz, apensa ao nome, a glorificação

consagrada unanimemente.

É o caso de Lucinda Simões. Que impressão poderá produzir no espírito público e no

próprio espírito de Lucinda, uma palavra a mais, que se venha ajuntar ao vocabulário já

por demais completo de encômios, que se tem organizado, de apoteose em apoteose,

durante toda a sua trajetória cênica, para a perpetuação definitiva do seu nome? E esta

dificuldade que existiria para quem quer que se abalançasse agora a dizer sobre Lucinda

Simões, em mim é prófundamente aumentada pela ausência absoluta de hábitos de

crítica teatral, que só se adquire com muita assiduidade à vida das platéias e dos

bastidores.

Ora, eu me considero neste terreno um perfeito catecúmeno. Faltará provavelmente

nestas linhas que por aqui correm, esse amaneirado característico, essa fluência típica

dos críticos de ribalta, em que todos mais ou menos se parecem pela incongruência dos

conceitos, pela linguagem quase de gíria e sobretudo pela absoluta falta de sinceridade e

de emoção.

Há muito que não via Lucinda. Um incidente imprevisto me aproximou um destes dias

da eminente artista, com quem falei pela primeira vez, e nesse dia abjurei dos meus

princípios e lá fui ao "Arara".

Havia qualquer coisa de saudoso em mim, ao penetrar outra vez, depois de longos

anos, o teatrinho da rua do Espírito Santo. Como que me sentia numa vaga sensação de

iniciado, ao ir rever em cena a genial reencarnadora de "Baron e D'Ange", "Princesse

Falconiere"; "Duquesa de Reville", "Fedora", "Georgette", e tantos outros padrões de sua glória cênica, dos quais não precisava mais do que um para fazer a reputação invejável

de que goza com tanto desprendimento, tanta modéstia e sobretudo com essa suave

melancolia com que envolve a narração dos seus sofrimentos e das suas desilusões, sem

a menor referência aos seus triunfos e às suas apoteoses.

Que me permita Lucinda, dizer-lhe aqui com a maior sinceridade a impressão que me

produziu o seu papel, escabrosíssimo, na peça de Feydau, dificilmente se encontraria,

estou certo, quem tivesse coragem de abordá-lo e não se encontraria talvez, quem o

levasse de vencida, com tanto talento e com tal perfeição. Não vai portanto nisto a menor

alusão ao desempenho impecável que dá a esse papel. Como porém, isto não é um artigo

de crítica, e apenas uma impressão toda pessoal, como não vejo o papel com o olhar

arguto de profissional, e sim com o olhar bisonho do espectador ingênuo, devo dizer, que

ao revê-la no palco, todo o meu desejo era que fosse numa dessas assombrosas criações

que lhe aureolaram, o nome. Esse papel antipático, dificílimo, é certo, por melhor que seja

interpretado pela genial artista, desloca-a completamente, da atmosfera de simpatia e

estima com que sempre é recebida em cena.

Espero pois para o dia da sua festa artística para encontrar de novo a Lucinda que eu

compreendo, a Lucinda que eu conheço.

Ao terminar estas heresias, que outras coisas não podem ser as afirmações de um

profano, tenho fé ao menos em que a gloriosa cultivadora da prosódia portuguesa, haverá

de ver nessas impressões a sinceridade de uma pena que ainda não quebrou o bico ao

tropeçar de um elogio desmerecido, o que, durante doze anos de vida de imprensa no Rio

de Janeiro, é a primeira vez que se refere, no mal que escreve, a uma individualidade do

teatro. Que isto lhe sirva de consolo ao sacrifício de ter lido - se é que se deu ao trabalho

de o fazer - este acervo de sinceridade e de ignorâncias, de admirações reais e de

incapacidade para as exprimir.

NEÓFITO

O Rebate, Rio de Janeiro, 29 ago. 1900.

O ÚLTIMO CORVO DE CÉSAR

Estes "Salpicos", em geral são rimados, mas a rima, coisa de poeta, participa da

natureza deste. É inconstante e indolente. Até a última hora, não nos chegaram os versos

esperados e resolvemos preencher a seção de qualquer maneira. Há sempre numa

redação coisas inúteis, insultas e malvernaculizadas, que ficam a entulhar gavetas e

armários para os dias fatais de falta de matéria. (Falta rara, felizmente, cá por casa). São

colaborações anônimas e gratuitas de vários gêneros e sabores vários.

Numa devassa pelos móveis, com todos os rigores de busca e apreensão com que

Aurelino costuma arranjar as provas de uma conspirata, resolvemos tudo e demos com

essas tiras que aí vão, em súmula, já amarelentas, como as faces semitapuias do Sr.

Pires Ferreira

0 que aí segue perdeu em graça o que julgou ganhar em filosofia e perdeu em filosofia

o mesmo que deixou de ganhar em graça. É uma velha anedota de cunho autenticamente

histórico e que, apesar da falta de graça e ausência de filosofia, talvez possa, com

retoques, ter uma aplicação de atualidade.

Vamos resumí-la. Como sabem, o corvo, na Europa, só tem de comum com o nosso

urubu, malandro ou não-malandro, a cor. É um conirostro palrador que, dentro da

plumagem hemeterícamente escura, e sem os tons verde-amarelos da alma jacobina do

Sr. Lopes Trovão e do nosso papagaio, fala como este e como este aprende coisas.

Quando César voltava triunfalmente das Gálias, um patriota qualquer, desses que amam

o oportuno fio da espada, conseguiu ensinar o seu corvo predileto que, por sinal, não era

de todo negro, a dizer esta frase: "Eu te saúdo, César vencedor!" César, ao passar ficou

maravilhado ante o prodígio e fez imediatamente adquirir o plumitivo exaltador da sua

onipotência e da sua vaidade. Foi uma praga. Quem tivesse corvo à mão, entrava logo a

ensinar-lhe aquelas palavras excelentemente glorificadoras. E César começou a comprar

corvos, mas tantos comprou que já se lhe entupiam as oiças com o coro infernal das

glorificações.

Um mísero sapateiro, cuja vida lhe corria pior que a do Sr. Cunha Vasconcelos nos

tempos de hoje, concentrou todas as esperanças de salvação financeira, tal qual

Pernambuco, num corvo que filha amorosa lhe mandara de longes terras. Todos os dias,

por vinte ou cem vezes, pacientemente repetia as palavras sagradas e o corvo moita.

Mantinha-se fúnebre, no seu crocitar primitivo, sem mostras de entender patavina daquilo,

na mesma pirronice com que o Bezerra não quer entender de agricultura.

De todas as vezes, o velho sapateiro se erguia desolado, abandonava a sovela e o

cerol e exclamava: "Perdi meu tempo e meu trabalho!" e o corvo moita. Passam-se as

semanas, correm os meses. "Eu te saúdo, César vencedor!" - "Perdi meu tempo e meu

trabalho!

Acontece, porém, que César, passando certo dia pela tenda do gaspeador de botas,

com o ruído das aclamações, o corvo, até então mudo como o índio no Senado,

despertou e, por singular coincidência, pronunciou inconscientemente a saudação por

tanto tempo ouvida.

César, já cansado de comprar corvos, não ligou. Mas o corvo tinha decorado também o

resto e grasnou: "Perdi meu tempo e meu trabalho!" 0 vencedor das Gálias retrocedeu e

foi esse o último corvo que adquiriu.

Quem será o último corvo de César?

Gazeta de Notícias, seção Salpicos.