Prosas Bárbaras por Eça de Queirós - Versão HTML

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comunicação com os homens, – a Arte.

Da história visionária desta – na longa peregrinação divina – a «Sinfonia de Abertura», faz-nos

ouvir – adagio ou vivace, piano ou forte – algum trechos maravilhosamente instrumentados...

«Quando» os povos – na Caldeia, no Egipto. na Grécia «plantavam tendas debaixo das

estrelas»..., e, mais tarde, em céus de profundo misticismo cristão, nas regiões

transcendentes, prodigiosamente luminosas, «onde as próprias estrelas são» apenas, «gotas

de sombra...»[20] 20

Entrevêem-se, flutuando as imagens, as diferentes Artes:

A Arquitectura «que se abriu em transparência e transfigurações, como se quisesse ser, no

espaço, a morada suspensa do espírito».

A Música enfim «liberta dos contornos, dos coloridos, e das gravidades, dissipando-se nos

amolecimentos divinos...»

«...no terror da Natureza, onde o Diabo era visível... a alma alemã tinha todo a sorte de

penumbras, de desfalecimentos, de pálidos silêncios que se exalavam divinamente no

canto..

Esvai-se «aquela melopeia grega esfarrapada pela aspereza do latim dos versículos...»

«Aparece Lutero, a alma alemã... que desfalecia naquelas melancolias imensas que Alberto

Dürer revelou...»

Mas «a Música, que é a alma, o espiritualismo, o vapor da Arte, sumiu-se com a aproximação

do Renascença que vinha cheia das rebeliões da carne...

Até que outra vez «se produziu, na nossa época, como a Grécia produziu a Escultura, como a

Europa gótica produziu a Arquitectura...»

Chega-se assim aos tempos modernos:

«A alma começou a entrever cimos luminosos, por entre os astros, que se chamavam Homero,

Ésquilo, Dante, Miguel Angelo, Rabelais, Cervantes e Shakespeare. A alma queria subir

aqueles escarpamentos divinos para colher a flor do ideal.»[21] 21

A melancolia dó cor cio Romantismo...

«O tipo em quem se resumem todos os sofrimentos, todas as desesperanças, as melancolias,

as incertezas, as aspirações. os lirismos desta época pálida e doentia:

Fausto, Manfredo, Lara, Antony, Werther, Rolla, D. Juan...» que saem então de «toda uma-

mocidade pálida e nervosa», de «toda uma Primavera...

«O indefinido da alma de D. Juan revelado pela arte – eis aí a Música...»,

«aquela vaga Ofélia que se chama Música...», «uma voz Inesperada em que se entendem os

desconsolados...»[22]

Constituiu-se enfim a música moderna:

«A Alemanha... a loura Alemanha de ideal seriedade, luminosa, um tanto nuvem, cheia de

vapores e de constelações... A Alemanha que pensa com o doce ruído inefável», forma a sua

«Música que é o vapor da Arte...»

E, ao lado dela, a «Música italiana.., tendo o quer que seja de palpável.., de ondeante como

seda invisível».

Tal é, muito vagamente, a significação sentimental da «Sinfonia de Abertura».

Os escritos coligidos neste volume são assim, em prosa, os «Cantos Fragmentários» de um

imenso «Poema Fantástico»:

O Universo é um infinito de almas. As coisas têm sentimentos humanos que se disseminam,

sem se alterarem, com a dissociação de todas as morres. Os que morrem vão difundir-se nas

coisas sem nas decomposições inteiramente aniquilarem a personalidade, passando por

formas inferiores no homem, e por formas purificadas na Natureza. Na alma é que se concebe,

ria, o mal: o corpo, a matéria, essencialmente inalterável, volta sempre à pureza natural. Com

sucessivos ideais, e sucessivas e profundas comoções, o homem gera, para rodo o sempre,

deuses que o dominam, que vivem de uma vida sentimental e independente, mas que fogem,

uns ante os outros, para desvairados destinos, que se asilam, errantes, em todos os grandes

centros de vida misteriosa da Criação, que sé fazem sedução sob a forma, ainda angélica e já

irónica, do Diabo, que se dispersam na Natureza transformadora.

Com este vago tema geral, o «Poema» em prosa de Eça de Queirós propunha-se ser a

expressão das mais profundas regiões do sonho, da visão, do indeterminável, do substrato

fantástico que se encontra sob a realidade evidente; queria tornar Sonoras as capacidades de

vibração musical que formam a intimidade de todos os seres – todas as vibrações impossíveis

de completamente reduzir aos sons calculados de uma escala musical; era a fantasia

tocando, um momento apenas, o mundo da realidade, para logo se afastar dele, voando,

exilada pela incompreensão, pela insensibilidade, pela determinação nítida e clara das forças

sensatas do espírito. E assim, após os belos deuses de mármore, que se escondem fugitivos

nas florestas ainda enevoadas dos sonhos de religiões anteriores, os anjos sublimados ou

réprobos do cristianismo a própria ironia espiritualista de Satanás, o própria pálida e doce

figura de Jesus vão igualmente perder-se e ser esquecidos: morreu a fantasia. São fúteis

todas as ilusões.

Reina o cálculo demonstrável[23] .

Heine também já contara o exílio dos antigos Deuses[24], e Michelet[25] recorda o brado, «Le

grand Pan est mort!»[26] que se ouviu pelo vasto mundo ao aparecer de novas crenças.

O que caracteriza este momento da vida literária de Eça de Queirós é a sincera comoção do

criar fantástico, sem excluir inteiramente, já então, a ironia–que mais tarde é o inseparável

instrumento de trabalho do seu espírito fornecedora de tão delicadas velaturas, ou de toques

tão vivos e reais a todas as suas obras. Consegue assim idear um inundo imaginário, um

cenário de alegorias; sabe que esse mundo é ilusório, que só parece povoado por metáforas

e enternece-se, e comove-se, e comunica essa ternura e essa comoção. como se as

produzissem realidades, sentindo e fazendo sentir, ao mesmo tempo. inexplicavelmente. que

com efeito existe uma profunda realidade, vagamente simbolizada por todas essas imagens

[27] .

Como quer que episodicamente fale de assuntos inteiramente reais da América do Norte, de

Lisboa, da vida de estudante de Coimbra é sempre o mesmo substrato visionário da

realidade para que o seu espírito procura expressão.

Esta situação especial do espírito de muitos artistas não foi ainda, parece-me, suficientemente

estudada pela crítica e pela filosofia da arte.

VII

Eça de Queirós tinha, por aquele tempo, igual exuberância e originalidade de fantasia em

verso; e sentia muitas vezes a necessidade de metrificar quase o mesmo género de

necessidade de som e ritmo que o fazia com frequência cantarolar, em voz baixa, pequenas

frases musicais, sempre erradas, sempre fora de tom, mas sempre impregnadas das mais

patéticas inflexões[28] .

Os versos que compunha eram de um enorme relevo pela originalidade da concepção, dos

epítetos e das imagem, e conservavam ainda a fluência romântica, apaixonada, fantástica, dos

primeiros escritos, quando já ele a havia quase inteiramente eliminado da sua prosa realista.

Mas teve sempre grande dificuldade em compreender e sentir os processos técnicos da

metrificação.

Datam exactamente do mesmo período dos escritos coligidos no presente volume as linhas

seguintes, que deviam, na intenção do autor, ser versos alexandrinos[29]:

Ó Satã tenebroso, trágico fulminado,

Tu vencerás em mim o íntimo Deus bom

Não com as armas bíblicas com que bateste os astros,

Mas vindo unicamente vestido à Benoiton!

Mas é de pouco depois a seguinte admirável poesia, mais tarde publicada com a assinatura de

C. Fradique Mendes[30] :

SERENATA DE SATÃ ÀS ESTRELAS

Nas noites triviais e desoladas,

Como vos quero, místicas estrelas!.

Lúcidas, antigas camaradas...

Gotas de luz no frio ar nevadas,

Pudesse a minha boca inda bebê-las!

Não vos conheço já. Por onde eu ando!...

Sois vós místicos pregos duma cruz,

Que Cristo estais no Céu crucificando?

Quem triste pelo ar vos foi soltando

Profundos, soluçantes ais de luz!

Ó viagem nas nuvens desmanchadas!

Doces serões do Céu entre as estrelas!

Hoje só ais, ou lágrimas caladas...

Ai! sementes de luz mal semeadas,

Ave do Céu, pudesse eu ir comê-las!

Triste, triste loucura, ó flor’s da cruz,

Quando vos eu dizia soluçando:

– Afastai-vos de mim cardos de luz! –

Pudesse eu ter agora os pés bem nus,

Inda por entre vós i-los rasgando.

.............................................................

Hoje estou velho, e só, e corcovado;

Causa-me espanto a sombra duma estola;

Enche-me o peito um tédio desolado:

E corro o mundo todo, esfomeado,

Aos abutres do céu pedindo esmola.

Eu sou Satã o triste, o derrubado!

Mas vós estrelas sois o musgo velho

Das paredes do Céu desabitado,

E a poeira que se ergue ao ar calado,

Quando eu bato com o pé no Evangelho!

O Céu é cemitério trivial:

Vós sois o pó dos deuses sepultados;

Deuses, magros esboços do ideal!

Só com rasgar-se a folha de um missal,

Vós caís mortos, hirtos, gangrenados.

Eu sou expulso, roto, escarnecido;

Mas a vós já ninguém vos quer as leis

Oh! velho Deus, oh! Cristo dolorido!

Lembrai-vos que sois pó enegrecido

E cedo em negro pó vos tomareis.[31]

Dois episódios mostrarão o seu então quase permanente desejo de improvisação poética.

Uma noite no Verão de 1867 ou 1868, depois de cear» o Eça de Queirós, o Salomão Saragga

e eu fomos de passeio, conversando, até Belém.

A noite estava muito quente. Havia uma grande claridade de lua cheia.

Seriam umas duas horas de madrugada quando chegámos à praia da Torre.

Quase varado na areia, havia um barco. Metemo-nos dentro. A maré enchente fez-nos flutuar.

Aí continuámos a nossa conversação até que o dia apareceu e o Sol se levantou por detrás da

casaria e dos altos de Lisboa.

Desembarcámos então e dirigimo-nos para Belém, com fome, em busca de uma. taberna ou

restaurante. Queríamos almoçar ali mesmo; continuando, à beira do rio, a nossa discussão.

Mas conhecíamos os nossos três apetites, e verificámos, reunindo todo o dinheiro, que ele

apenas pagaria um insuficiente repasto.

Que fazer?

Tenho uma ideia – disse o Eça de Queirós, fazendo o resto consagrado de bater na testa. –

Tenho uma ideia venial acrescentou, erguendo tremulamente os braços ao céu: Sigam-me.

E negro, linear, curvo, agitando a badine na mão como se esgrimisse, com passos largos e

rítmicos que pareciam saltar obstáculos invisíveis, a sombra da figura esguia e imensa

projectada pelos raios horizontais do sol-nascente, Eça de Queirós adiantou-se em direcção à

calçada que leva de Belém à Ajuda.

Salomão Saragga e eu íamos atrás, famélicos, murmurando.

Seriam quase 5 horas da manhã.

Junto da Igreja da Memória o Eça de Queirós dirigiu-se a uma casa baixa, de janelas cerradas,

e bateu.

Os habitantes da casa estavam ainda evidentemente no melhor dos seus sonos.

O Eça de Queirós explicou-nos:

Mora aqui o Mancília, a quem vamos «dar um tiro». Só ele nos pode salvar neste deserto.

E continuou a bater durante minutos.

Por fim ouviu-se falar dentro da casa. Alguém abriu a porta resmungando, e vimos diante de

nós uma cara larga, um bigode castanho, e uns olhos, entre terríveis e risonhos, sob uma

grande trunfa de caracóis desordenados. Era o Lourenço Malheiro.

Menino contou o Eça de Queirós – estamos esfomeados após muitas horas de incalculável

criação romântica. Jurámos não morrer antes de produzirmos três obras de génio. Dá-nos

entretanto dinheiro para almoçar. Mas olha lá... Comunicámos toda a noite, espectralmente, no

Restelo, com as armadas portuguesas que dali foram ao descobrimento da Índia e do Brasil:

dá-nos pois dinheiros antigos e sugestivos – sequins, dobrões, florins, ducados, escudos,

peças, ou, quando menos, pintos...

O Malheiro foi dentro e trouxe três moedas de cinco tostões.

Ouvirás falar da tua generosa dádiva, Mancília disse a Eça de Queirós, apertando-lhe as

mãos com comoção e solenidade.

Voltámos a Belém.

E, enquanto na cozinha da taberna, onde bebiam marinheiros e uma guitarra gemia frases

lancinantes do Fado, se preparava a pescada com batatas e a caldeirada que

encomendáramos, o Eça de Queirós e eu, num quarto do primeiro andar, organizávamos o

seguinte problema cuja glosa e solução seria enviada ao providencial Lourenço Malheiro:

Cristo deu-nos o amor,

Robespierre a liberdade;

Malheiro deu-nos três pintos:

Qual deles deu a verdade?

O Salomão Saragga fez-nos uma sábia dissertação sobre a prosa rítmica dos livros hebraicos

e declarou que, como semita puro, não pudera jamais fazer versos – m as comporia, para o

caso memorável, um salmo penitenciário sobre a vaidade da pescada cozida e das caldeiradas

humanas.

Almoçando, o Eça de Queirós e eu glosámos e resolvemos o problema em quatro quadras e

décimas contadas ali logo, ao acompanhamento do Fado que continuava a ouvir-se chorar na

cozinha do rés-do-chão.

Existem as minhas quadras mas perderam-se as décimas de Eça de Queirós, que com efeito

sobrescritámos para o Lourenço Malheiro, décimas cheias de graça e fantasia.

De outra vez dois dos nossos amigos o capitão João de e o Zagalo – convenceram-nos a

irmos com eles a uma espera de touros.

Na volta, pela madrugada, abancámos a cear numa tasca do Arco do Cego.

Éramos, a esse tempo, um grupo numerosa. Apareciam amigos, conhecidos, desconhecidos.

Nós, expansivamente, íamos convidando. Eles iam comendo, bebendo, desaparecendo.

Quando rompeu o dia e quisemos nós mesmos partir, descobrimos que havíamos gasta, em

bacalhau, iscas de fígado, azeitonas e Colares, um dinheirão que não tínhamos na algibeira.

Comêramos num pátio onde havia galinhas, e uma. horta com couves e parreira.

Ao lado, dava para esse pátio uma casa estreita, de janelas sem vidraças, onde se guardavam

frutas, legumes secos e feno. Era madrugada.

O Eça de Queirós e eu, já sonolentos, resolvemos esperar ali, até à tarde seguinte, que o João

de Sá e o Zagalo nos viessem desempenhar com o dinheiro necessário a pagar as nossas

dividas.

Cerca do meio-dia acordámos sobre os molhos aromáticos do feno, rodeados por galinhas e

pombos familiares. As paredes da casa onde dormíramos eram caiadas.

Então – depois de almoçarmos ainda a crédito – com dois lápis. devorando fruta, principiámos

a cobrir as paredes de um longo poema, difuso, indeterminado, lírico,. h umorístico, tristíssimo

e hilariante, misto, como género do «Childe Harold» e «D. Juan» de Byron, do «Mardoche» e

«Namouna» de Musset, do «Intermezzo» de Heine, e da «Fobia» de Francisco Palha. Este

exercício durou 4 ou 5 horas. Duas das paredes da casa ficaram, até à altura de homens,

cinzentas de versos.

Sinto hoje não haver copiado, e ter completamente esquecido, a parte do Eça de Queirós

nesta colaboração extravagante: lembro-me nitidamente de que havia nessa parte trechos

espantosos pelas imagens originais, pela fantasia, pela graça, pelo imprevisto.

VIII

Ainda dormíamos, um dia que o Eça de Queirós ficara em minha casa, quando à porta do

quarto apareceu uma pequena cabeça de cabelo muito curto, faces pálidas, feições miúdas,

ligeiro buço sobre os beiços grossos e uns olhos pequenos. piscos, risonhos e maliciosos. Por

cima desta cabeça via-se outra de longo cabelo negro e crespo, nariz aquilino, olhos grandes,

bigode audaciosamente retorcido, e mais abaixo uma terceira cabeço rosada, de olhos

avermelhados, cabelos aos caracois louros, bigode louríssimo pendente.

Acordámos.

Luís! Manuel! exclamou Eça de Queirós bocejando.

Chavarro! – concluí eu sentando-me na cama.

Eram o conde Luís de Resende, seu irmão Manuel[32] , e o João de Sousa Canavarro.[33]

Chegámos do Pano. Vimos buscá-los para jantar disse o conde de Resende.

À noite jantámos com efeito no José Manuel, ao Cais do Sodré – um restaurante então

célebre, a preço fixo, onde causávamos devastação e horror, pela quantidade inverosímil do

que comíamos, discutindo toda a sorte de assuntos ininteligíveis.

Nesse jantar demonstrou-se o vasto ridículo do Romantismo; descreveu-se, discutiu-se e

aprovou-se o Realismo na arte; fez-se a apologia violenta e clamorosa da frieza, da

impassibilidade, da serenidade crítica, da correcção nas ideias, nas maneiras, no estilo, na

toilette – a apoteose de todas as correcções. Terminámos, depois da meia-noite, abraçando

efusivamente o velho Andrews – o inglês que tinha uma lenda misteriosa, e ali jantou, durante

anos, despejando por noite, em silêncio, com método, lentidão e continuidade, três garrafas de

vinho do Porto[34] .

Tempos depois o Eça de Queirós partia em: viagem com o conde de Resende: – «Le comte de

Rezende, grand amiral du Portugal et chevalier de Queirós» – diziam os jornais do Cairo.

Assistiram à inauguração do Canal de Suez, visitaram a Egipto e a Palestina.

Na Primavera de 1869, estávamos uma tarde o Antero de Quental e eu na casa que então

habitávamos a S. Pedro ele Alcântara, quando entrou o Eça de Queirós, chegado, havia

pouco, do Oriente, mas que ainda não víramos.

Trajava uma longa sobrecasaca aberta de cuja botoeira saía, com coloridos, um enorme ramo

de flores; cobria-lhe o em relevo, um plastron que nos pareceu imenso, sobre a qual se erguia

um colarinho altíssimo, onde a custo a cabeça oscilava. Os punhos, que botões uniam pelo

centro com ama corrente de ouro, encobriam grande parte das mãos metidas em luvas cor de

palha. Vestia calças claras, arregaçadas alto, mostrando meias de seda preta com largas

pintas amarelas como ouro e Sapatas muito compridos, ingleses, de polimento. Tinha na

cabeça um chapéu alto, de pêlo de seda brilhantíssimo. E olhava-nos com um monóculo que

lhe estava sempre a cair e que ele, por isso, elevando as sobrancelhas e abrindo a boca em

esgares sarcásticos, amiúde reentalava junto da lacrimal do olho direito.

Abraçámo-lo com entusiasmo e cobrimo-lo de epigramas.

Contou-nos casos das suas viagens, descreveu-nos tipos, cenas nos bazares do

Cairo, no deserto egípcio – os guias, os sheiks, e à noite, em volta das fogueiras, os camelos,

«de expressão humorística, sorrindo ironicamente», e alongando as cabeças como que para

escutar o narrador, por sobre os ombros dos beduínos atentos, graves e de pernas

encruzadas. Analisou, minuciosamente, as sensações que lhe dera, no Cairo, o uso do

haschisch, e as visões fantásticas que nos preparava porque de e o conde de

Resende haviam-nos trazido haschisch misturado a geleia, a bolos, e a pastilhas que se

fumavam em cachimbos especiais.

Mas pretendia haver voltado doentíssimo, de uma extrema debilidade, de uma mórbida

impressionabilidade nervosa, e agitava, de contínuo, um grande lenço perfumado de seda

branca, com que limpava a testa e cofiava a barba, que atirava obre a mesa, interrompendo-se

para entalar o monóculo e exclamar em voz desmaiada:

Meu Deus! como me sinto mal! Vou ter o meu delíquio! meu apopleté! Meninos, depressa, os

meus sais... onde estão os meus sais?!...

E tirava, com efeito, da algibeira, um longo frasco de sais que sofregamente aspirava.

Ficará para sempre o prazer delicado de ler os livros de Eça de Queirós; mas perdeu-se o

prazer, ainda talvez maior, de o ouvir, quando ele conversava, quando ele contava, quando ele

representava algum personagem que quisesse imitar ou a que quisesse dar vida. Parecia, com

o seu forte e inesperado poder de expressão, de imagem, de réplica, de graça, o

representante de uma raça especial diversa da portuguesa, ou de qualquer outra, falando, em

Portugal, uma língua nova.

Ouvimo-lo toda aquela tarde, jantámos com ele – não o podíamos largar.

As ideias estéticas de Eça de Queirós haviam-se, a esse tempo, modificado e entrado numa

fase de transição.

Citava especialmente a «Salambô» e a «Tentação de Santo Antão»[35] de Gustavo Flaubert.

Preocupava-se com a perfeição da forma, com a realização da cor verbal, segundo este último

literato. Lia também a «Vida de Jesus, o «São Paulo», de Ernesto Renan, e as «Memórias de

Judas», de F. Petruccelli del a Gattina.

Foi sob estas influências que – com as impressões locais da sua recente viagem à Palestina

começou, em Lisboa, a escrever a «Morte de Jesus», publicada em folhetins, na «Revolução

de Setembro», de 13 de Abril a 8 de Julho de 1870.

Mas escrevera desta obra, além do que se publicou –uns capítulos que ele me leu, e depois

sem dúvida destruiu ou se perderam.

IX

Entre os «Folhetins» da «Gazeta de Portugal» e a «Morte de Jesus» na «Revolução de

Setembro», medeiam quase 3 anos.

Passou mais tempo ainda. A evolução crítica do espírita de Eça de Queirós continuava.

Um dia veio mostrar-nos, ao Antero de Quental e a mim, o primeiro esboço, muito

desenvolvido tão extenso que levou várias noites a ler – de um romance intitulado «História

de Um Lindo Corpo».

Foi, julgo eu, a sua primeira tentativa na chamada Literatura Naturalista ou Realista. A ideia

fundamental da obra era, até certo ponto, se bem me recordo, a do «Affaire Clémenceau», de

Alexandre Dumas filho; mas a execução, já, em grande parte, devida à influência dos

processos da «Madame Bovary» e da «Educação Sentimental» de Gustavo Flaubert.

Pouco depois – em 1871 – Eça de Queirós descrevia, suma das Conferências Democráticas

do Casino, o Realismo na Arte, expondo as ideias praticadas por Flaubert e Courbet, e

teoricamente descritas, por Proudhon, no livro «Do Principio da Arte e do Seu Destino Social».

O fim da Arte foi, doutrinalmente, desde então, para Eça de Queirós, a reprodução exacta da

Natureza, da realidade, impessoal, impassível. A intervenção da ironia[36] representa a forma

superior, a única forma admissível da opinião do artista se manifestar, e a correcção

necessária para qualquer excesso de sentimento.

Foi por este tempo que eu lhe aconselhei a reunião em volume dos antigos «Contos

Fantásticos» da «Gazeta de Portugal» e lhe reli, se não me engano, «As Memórias de Uma

Forca», de que se havia quase esquecido[37] .

Ao ouvir a sua obra primitiva, Eça de Queirós soltava gargalhadas sarcásticos, gritos de

indignação contra as imagens, os assuntos, o estilo: não compreendia como pudesse ter

escrito assim, tão pessoalmente, tão apaixonadamente, tão vagamente, com tanto desleixo –

berrava ele – na criação das imagens. na construção da frase e no emprego dos vocábulos.

Mas depois de uma longa discussão concluiu dizendo-me:

Tens talvez razão, com eleito está claro, tens razão Talvez se deva republicar. isso em

livro. – E acrescentou muito grave: – Mas sob o titulo crítico e severo de «Prosas Bárbaras».

Não pertence a esta «Introdução» descrever as subsequentes fases do desenvolvimento

estético e da obra literária de Eça de Queirós, e eu devo resistir à tentação de demonstrar aqui

como ele foi um dos artistas mais eminentes da Literatura portuguesa de todos os tempos – e

de todas as Literaturas, nos últimos anos do século XIX.

Juntarei ainda, apenas, uma última recordação.

Eu lamentara sempre que Eça de Queirós houvesse abandonado o mundo de criações

fantásticas onde a sua imaginação tão maravilhosamente vivera algum tempo.

Um dia, no Verão de 1891, estava o Eça de Queirós em minha casa – por esse tempo, em

Vaucresson, numa clareira da floresta de Saint-Cloud, não longe de Paris.

Então, passeando sob as árvores do maciço de alto furte que rodeio os lagos românticos de

Saint-Cucufas, contou-me ele: «Saberás, porventura com satisfação, que estou seguindo o teu

antigo conselho: enevoei-me outra vez, totalmente, no fantástico quase naquele velho

fantástico da Gazeta de Portugal, feito agora com menos abutres, e em prosa talvez menos

barbara que a desses longínquos tempos: estou escrevendo a vida diabólico e milagrosa de S.

Frei Gil. E por sinal – dir-to-ei agora aqui. quando justamente nos achamos sob os arvoredos

que a nossa riquíssima língua portuguesa me parece deficiente em cores com que se pintem

selvas; e também te confiarei que. tendo metido, por minhas próprias mãos, o santo bruxo

numa floresta, não sei como o hei-de tirar de lá.»

Sintra, Setembro de 1903.

Jaime Batalha Reis.

NOTAS MARGINAIS

.................... deste lado do rio

.................... o namorado,

E a moça dos olhos pretos

.................... do outro lado.

Mas o rio era profundo,

Não se podiam juntar.

Nunca o Sol encontra a Lua.

Tal andava aquele par.

.................... flores

... à água iam dar:

................. os beijos

Ficavam todos no ar.

A moça ............................

Disse adeus ao namorado:

E foi ................................

......... bandas do povoado.

Ele ficou amarelo,

Como a vela de um altar.

Mas se o rio ....................

Não se podiam juntar.

Anoiteceu ...........................

Por ali andou penando.

E por fim lançou-se ao rio,

E o rio ................................

............................................

............................................

Mas as flores foram prender-se

Nas suas mãos cor de cera.

Na margem do papel marcado, onde se viam ainda estes restos de uma velha cantiga, alguém

escreveu estas notas desordenadas e bizarras.

I

Ó doce cantiga dos namorados da beira do rio, tu és uma verdade sempre nova!

Ainda hoje o triste anda penando nas águas escuras; e os teus olhos, ó serena rapariga, são

eternamente falsos!

Não era assim que eu pensava no tempo daqueles nossos amores, ó nome que eu não

escrevo!, daqueles amores tão doces, como a suavidade das nossas noites de Outono

– tão coloridos e vagos como aquelas nuvens, que sempre no ar andávamos formando e.

desmanchando!

II

Ó voluptuosidade!, tu és a imagem do oceano nos teus caprichos. Ora te embalas docemente

dourada com os últimos raios do Sol; depois dormes tranquila aos calores silenciosos: por fim

agitas-te cheia de tempestades.

III

E quando eu te via, não via mais as flores, nem as pombas, nem as estrelas: mas quando

pensava em ti, via-te delicada como todas as flores, voluptuosa como todas as pombas,

luminosa como todas as estrelas.

IV

Ás vezes, solitário e silencioso, via passar na sombra, diante de mim, como uma legião de

inspirações rapsódicas, os teus olhos húmidos, como violetas debaixo de água

– depois os teus braços da cor do mármore – depois os teus cabelos negros e flutuantes...

Enfim sobre um fundo maravilhoso tu aparecias superiormente serena, perfeita e luminosa!

V

De cada um dos teus desejos nascia uma flor.

E os meus suspiros, como a aragem serena da tarde, embalavam docemente aquelas flores

virginais.

E as flores cresciam, cresciam até se tornarem magnólias grandes – o vento tomava-as

preguiçosamente pela haste – e elas, inclinando os seus rostos pálidos, contavam-lhe os

perfumes de mais segredo.

E as magnólias iam crescendo até se tornarem numa árvore imensa. Então o vento enroscava-

se pelo tronco, pendurava-se nos ramos e espalmava-se nas folhas sonoras.

E então a árvore estremecia, como num sonho agitado – depois adormecia – e dava em redor

uma sombra serena e Consoladora.

VI

Quando te vejo, despertam no meu pobre coração as melodias e as doces melancolias de

amor, como na Primavera se reanimam as aves e desabrocham as violetas.

Quando me falas, tudo se alumia com constelações apaixonadas, e parece que passam dentro

de mim todos os aromas das magnólias.

Mas se me dizes que me queres muito, sinto que vem logo um estranho Inverno descorar-me

as faces, desfolhar-me a alma de todas as emoções e cobrir de geada todos os loucos

desejos.

Oh!, nunca me digas que me queres muito!

VII

Tua irmã é carinhosa, e doce, e meiga, e casta, e consoladora..

Tu és altiva, e inquieta, e desdenhosa.

Tua irmã!... Mas se ela não tem o timbre suave da tua voz, o luminoso fulgor dos teus olhos, a

cor mimosa dos teus cabelos! Mas se ninguém tem a santa, a purificadora brancura da tua

fronte!

VIII

Os teus olhos negros são como duas flores do mal. Os seus olhos azuis são como duas doces

elegias.

E a flor do loto, a apaixonada e inteligente flor do loto, somente se abre à doçura imensa da

Lua!

IX

Oh!, minha bem-amada!, eu já vi os teus olhos brilharem dolorosamente, como duas estrelas

negras da melancolia: tinhas tu então rasgado um véu cor de papoula; que te cobra.

X

Tu estavas na igreja, curvada, e perdida nas tuas orações como uma fidalga espanhola.

Tinhas um olhar velado e piedoso – um olhar que só dizia – Jesus!

Mas nos lábios tinhas um colorido aveludado e luminoso, como o das flores vermelhas metidas

na água; e na linha de sombra dos teus lábios corria um sorriso, que só dizia – Amor!

Talvez um dia ainda te encontre na igreja. Somente, então. os teus lábios estarão descorados

como a fadiga e tímidos como o arrependimento. Somente então os teus olhos estarão fixos

como os dos esfomeados; e terão aquela luz desejosa e ávida que têm as estrelas.

XI

Foi debaixo das árvores. Voavam as pombas brancas. Das lágrimas das folhas nasciam as

violetas. Os castanheiros, grandes e concentrados, ouviam subir a seiva.

Foi lá que me disseste aquelas palavras, que me pareceram uma blasfémia que te vinha do

coração. Eu fiquei hirto e nulo. como um sacerdote esbofeteado pelo seu Deus!

XII

Eu tinha todo o corpo coberto de lágrimas, e ela compunha as pregas do seu vestido!

As vezes o grande mar embala-se preguiçoso, enquanto as ondas pequenas – as pobres

ondas – soluçam e choram sobre a areia.

XIII

Houve um tempo em que andavam exiladas dos lugares humanos as estátuas, que tinham

feito a legenda da beleza antiga. Eram de mármore pálido, e a sua nudez era. doce, melodiosa

e velada.

Outrora, no tempo dos idílios divinos, quando ainda vivia o grande Pã, e havia deuses debaixo

das estrelas elas viviam entre os jogos, as coreias, e todas as flores do bem: brancas, como as

espumas iónias; serenas, como a lua de Delos; melodiosas, como a voz das sereias.

Agora andavam perseguidas, e errantes pelas florestas sonoras, e envolvidas na consolação

imensa, que sai do canto das aves e da humidade das plantas.

As vezes um cavaleiro, batalhador escuro, que voltava das cidades de ouro e de coral,

encontrava uma das brancas peregrinas, como uma aparição de languidez e de tristeza,

evocada pela música das ramagens. E se ele por acaso deixava mergulhar nos seus olhos os

raios brancos e aveludados dos olhos de mármore, ao outro dia os caminheiros, os que vão de

noite cantando à mole claridade das estrelas, encontravam, junto das grandes árvores

pensadoras, um corpo inanimado e lívido, como aquelas crianças das legendas, a quem as

bruxas chupam o sangue!

Esta história é de há seiscentos anos, e de ontem à noite.

XIV

Por fim, tu eras simplesmente uma alma preguiçosa e uma pele macia.

Todos os teus pensamentos se moviam numa comédia bizarra e solta.

Abafavas burguesmente a música do teu corpo em xales pesados e largas saias; e a seda dos

teus vestidos tinha um frémito indefinido de sarabanda e de cachucha.

XV

Eu andava perdido pela floresta escura e sonora. As estrelas, como grandes olhos curiosos,

espreitavam através da folhagem. Eu era o tenebroso, o inconsolável, o viúvo.

Errava pela floresta e a espaços cantava uma canção vagamente triste como o sussurro dos

ciprestes – depois dizia palavras iradas e ásperas como os cardos – e mais adiante uma

oração indefinida enchia-me todo o coração, e saia-me pelos lábios, como uma açucena

branca, que se abre dentro de um copo e que o enche.

E por cima de mim, ó meus amigos!, ó minha bem-amada!, os ramos estendiam-se para os mil

e mil pontos do infinito, como para mostrar às cantigas, às iras e as orações todos os

caminhos do céu.

XVI

Tu pensavas que o teu amor me envolvia molemente como um largo vestido de seda, todo

forrado de arminhos.

E um dia, ó minha bem-amada de cabelos cor de amora., vieste despir-mo de golpe, com um

rosto colorido de risos.

Mas o vestido estava colado ao corpo – vinte vezes colado ao corpo; e tão rapidamente o

tiraste, que me rasgou pedaços de carne, e levou-me jorros de sangue, e arrancou-me os

cabelos, e deixou-me, ó minha bem-amada de braços de aço!, como uma forma longa,

vermelha e indefinida!

XVII

Quando te amava, e pensava em ti, via-te soberba como o mundo, e eras para mim a terra, o

céu e o mar. Agora vejo que tinha razão; porque és tão vária como o céu, tão. fria como o mar,

tão dissoluta como a terra.

XVIII

Eu abri aquele coração, que era delicado, pequeno e feminino. Descobri lá dentro vagamente

uma floresta medonha, que se debatia e rugia, como uma multidão de doidos sinistros, todos

vestidos de ramos e de folhas; na sombra andavam os olhos redondos e famintos dos lobos:

por cima da folhagem mugidora esvoaçava, balouçada por ventos imensos, uma confusão de

sombras, que uivavam e se arrepelavam, e rasgavam com os ossos dos cotovelos as carnes

moles, e lambiam o sangue que escorria das órbitas sem olhos, e davam beijos selvagens,

enroscadas e desfalecidas em voluptuosidades mais mórbidas do que os orvalhos da Lua.

Depois fixei o coração da minha bem-amada, e vi-o outra vez delicado, pequeno e feminino – e

tão feminino, tão pequeno e tão delicado que lhe dei um beijo!

XIX

Eu ia para baixo dos arvoredos, para junto dos rios, e olhava para as nuvens.

Tudo me parecia despovoado, e apenas como a sombra de uma vida distante.

Outrora, ó lendas de encantos e de amores!, ó rondas aéreas das fixes por entre a música dos

canaviais!, ó ondinas húmidas!, ó danças nebulosas das willis! ó espíritos gentis e vaporosos,

que andáveis nos aromas das violetas!, ó elfos pequenos. que adormecíeis dentro do cálice

dos lírios brancos, embalados como num berço!, Ó doces e enganadoras criaturas que

povoáveis e alumiáveis tudo como estrelas românticas!

Os rios, o céu e os arvoredos encobriam-vos, ó invisíveis!, mas como um tecido fino, que deixa

passar todos os aromas e todas as cores.

E agora os rios, o céu e os arvoredos estão desertos.

Os arvoredos só contam, como velhos palradores, histórias de gigantes, loucas legendas de

combates, e feitiços, e as aventuras das filhas da folhagem.

O céu tem apenas nuvens, que eram lentas e pesadas como os pensamentos sérios de um

crânio imenso.

Os rios vão sempre cantando, e fugindo, como os amores da mulher.

XX

Andamos todos sofrendo. Passamos lentos, desconsolados, e alumiados pelo sol negro da

melancolia. Nem largos risos, nem bênçãos fecundas. A esperança fugiu para além das

estrelas, das nuvens e dos caminhos lácteos. Nos corações nascem amores imensos e loucos.