Quem não chora não mama! Panorama do design gráfico brasileiro através do humor 1837-1931 por José Carlos Mendes André - Versão HTML

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Quem não chora não mama!

Panorama do design gráfico brasileiro através do humor 1837-1931

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Quem não chora não mama!

Humor e representação cômica

na história do design gráfico brasileiro

1837-1931

e a obra conjunta do

Barão de Itararé & Andrés Guevara

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Tese de Doutorado apresentada à

Faculdade de Arquitetura e Urbanismo

da Universidade de São Paulo,

como exigência parcial para obtenção do título de

Doutor em Arquitetura e Urbanismo,

sob orientação da Professora Doutora Marlene Yurgel.

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RESUMO

ABSTRACT

Esta tese é um panorama da história gráfica brasileira de This thesis is an overview of the Brazilian graphic history 1837 até 1931, visto pela ótica da representação cômica, from 1837 to 1931, seeing by comic graph representations, do design gráfico e da mentalidade. A idéia principal foi graphic design and historical mentalities. The main idea partir de um plano geral para encontrar na década de 1920

was start from a general plan to reach in the 1920’s the a obra conjunta do humorista Aparício Torelly, o Barão de four hands works of the humorist Aparício Torelly (Barão Itararé, e do artista gráfico paraguaio Andrés Guevara.

de Itararé) and the Paraguayan graphic artist Andrés Passando pelos autores mais relevantes deste período, a Guevara. Passing by the more relevant artists of this pe-inspiração rizomática é a própria cronologia, onde os as-riod, the root inspiration is the chronology itself, were the suntos relacionados a humor, design e mentalidade trepi-subjects related to humor, design and mentality tremble dam e se desdobram em conexões pertinentes e interes-and unfolding pertinent and interesting connections for santes para o próprio tema.

the own theme.

A tese foi concebida em três partes, a saber:

The work was conceived in three parts:

A primeira versa sobre o objeto de conhecimento, objeto The first one runs upon the knowledge subject, applica-de estudo, metodologias e fontes; assim como fala breve-tion subject, methodologies and the wellspring of infor-mente sobre os autores principais — Barão & Guevara —

mations; as well as talk briefly about the main authors —

, mote da estratégia de abordagem do assunto.

Barão de Itararé & Guevara —, reason of the strategy subject approach.

A segunda parte destrincha os antecedentes históricos sob as óticas propostas através de uma amostragem de fon-The second part clear up the historical foregoings under tes primárias (imagens & autores) em contraponto com the proposed look through an stamp of original wellsprings trechos de importantes fontes secundárias, costurado com (images and authors) put against extracts of the more im-comentários que vão propondo novas interpretações e

portant Brazilian bibliography, sewed with comments that olhares para os mesmos temas e objetos, sem aplicação proposes new interpretations and new looks over the same de juízos de valor, mas apenas mostrando que foi assim themes and subjects, without judgements, but just show-que as coisas se passaram.

ing that was the way the things took place.

A terceira parte está focada na década de 1920, e é onde The third part is focused on 1920 decade, and is where I encontro os autores “alvo” e aplico um detalhamento

meet the target authors and apply for more details, mak-maior, evidenciando um momento de forte gênese e ex-

ing evident the moment of strong creation and experimen-perimentação no design gráfico brasileiro frente à mudan-tation in the Brazilian graphic design face to the complete ça completa de paradigmas com a introdução da estética change of paradigms in order of the introduction of mod-modernista, e a assimilação e difusão acentuada dos va-ernist esthetics and the assimilation and great dissemina-lores burgueses no campo social.

tion of burgess values in the social field.

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A memória de

Aparício Torelly, José Reginaldo Fortuna e Glauco Vilas-Boas Aos meus queridos,

Matheus, Maryah, Idalma & Carlitos

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EXPEDIENTE

Não tem! Tese séria não vive de expediente.

Eu mesmo a fiz de cabo a rabo, em longas madrugadas

e intermináveis jornadas, enfrentando todo tipo de

inimigos e diabos, inclusive o mofo deixado no papel pelo tempo.

Entretanto não me arrependo pelas agruras, pelo

contrário, fico feliz de mostrar para os conterrâneos e confrades que temos história. E essa memória é o que me dá a convicção de que vale à pena não ser ingrato, pois “ingratidão é apenas falta de memória”!

Viva o Barão de Itararé!

Viva o Fortuna!

Viva o Glauco!

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1837-1931

Prefácio…………………………………………………. 13

ÍNDICE

Agradecimentos………………………………………. 17

Legenda dos créditos............................................... 18

PRIMEIRA PARTE………..………………………..... 19

Design & humor no Brasil da Belle Époque......... 101

Introdução……………………………………………....21

Um aparte para falar um pouco de design e

Mea culpa..................................................................25

modernidade...........................................................103

Objeto de estudo: Barão & Guevara....................... 29

1900..........................................................................107

Guevara..................................................................... 32

Década de 1910.......................................................123

Citações & referências bibliográficas..................... 37

São Paulo.................................................................149

Objeto do conhecimento: metodologias................ 39

Método ou estratégia............................................... 40

Fontes de pesquisa...................................................45

Citações & referências bibliográficas..................... 47

TERCEIRA PARTE……….....…………………….... 157

O modernismo e a década de 1920........................158

1922-24......................................................................160

1925...........................................................................173

SEGUNDA PARTE……….....……………………..... 49

1926...........................................................................178

A herança formadora de AXL e Gue: definições

1927...........................................................................193

ontológicas .............................................................. 51

1928.......................................................................... 229

Aspectos históricos da representação cômica e

1929.......................................................................... 236

humorística das vidas pública e privada

A Manha e a parceria com “Chatô”- 1929/30....... 254

brasileiras..................................................................53

A Manha em 1930...................................................257

A situação colonial................................................... 55

O aparecimento do Barão de Itararé..................... 263

A independência e o Império: Regência e Segundo

O fim da revista Para Todos… em 1931................ 265

Reinado..................................................................... 58

Balanço do assunto: a década de 1920, o crack

Na esteira da ré-pública chegamos ao século XX 85

e a revolução de 1930............................................. 283

Balanço do assunto: século XIX............................. 91

Citações & referências bibliográficas.................... 95

APÊNDICE

EPÍLOGO……….....…………………................….... 295

Os Salões Caricaturais de Angelo Agostini .......... 97

Considerações finais: primeiro volume................ 297

Os Salões Cômicos.................................................. 98

Bibliografia & Inventário de fontes........................ 303

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PREFÁCIO

O objetivo primeiro deste trabalho foi evidenci- flexo de suas próprias naturezas. Partindo da origem dos ar a importância de dois grandes autores da imprensa bra-fenômenos que escolhi para pesquisar, estabeleci um pa-sileira, dando nova luz à uma temática bastante conheci-norama pontuado pelos aspectos que elegi como intere-da pelo lado histórico e ainda parcamente explorada pelo santes para minha exposição e, a partir disso, instituí uma lado conceitual das realizações profissionais de ambos.

dinâmica de idas vindas do geral para o particular, geran-Trata-se da obra conjunta do humorista Aparício Torelly e do uma narrativa subjacente ou resultante.

do artista gráfico paraguaio Andrés Guevara; a qual se expressa, basicamente, no jornal A Manha (1926-62). Com o A razão disso foi verificar alguns elementos da vida cotidi-rumo tomado pelas pesquisas e pela metodologia adota-ana expressos nas representações culturais focadas, ten-da, me concentrei aqui na gênese dessa parceria e nas tando pinçar nas mentalidades envolvidas a compreen-condições que propiciaram o aparecimento da “dupla” na são de mais elementos de interpretação, e as conotações imprensa brasileira, para dar seguimento ao restante do possíveis à estas em seu próprio momento histórico. Esse assunto adiante, em outro contexto. Em compensação,

terreno do subjetivo, do automatismo dos julgamentos dos para chegar aos autores, faço um breve balanço da histó-

sujeitos sociais históricos, me permitiu realizar uma série ria do design gráfico brasileiro de 1837 até 1931; procedi-de inferências que serão expressas mais nas legendas que mento que ficará claro no desenrolar do trabalho.

no texto, de maneira sutil, estimulando o leitor a raciocinar, tirar conclusões e a interagir com o assunto.

A procura por uma metodologia adequada me levou a

especulações diversas e assumi trilhar a vereda do pensa-Mesmo que pareça uma ambição desmedida, resolvi abor-mento complexo contemporâneo, buscando ampliar a área dar o tema através de três objetos de conhecimento: o dos recortes metodológicos para atingir um campo inter-design, o humor e a mentalidade. Esses campos do co-

pretativo mais largo e abrangente; sempre no afã de bus-nhecimento ensejam a arte gráfica e seus meandros e tec-car uma colaboração para o conhecimento que represen-nologias, as estéticas — tanto em si como a da recepção te uma verdadeira aproximação do objeto histórico, e que

—, a gênese e a psicogênese do riso, o aparecimento dos também elucide com mais ênfase como foi que as coisas diversos gêneros de imprensa e suas especializações conse passaram. Resolvi investigar o significado essencial de forme o público alvo, as mentalidades brasileiras no perí-

diversas manifestações: algumas por lhes conferir um odo e os fatores de formação de uma identidade e identi-outro olhar, outras por estarem escamoteadas por uma ficação nacional, que apesar de difusa e inconstante, aca-historiografia há muito cristalizada ou mesmo estigmati-bou por gerar um “acento” inconfundível e tipicamente zadas por mitos criados pela própria cultura. Seguindo esta brasileiro nas representações, apesar de todos os poréns tendência de pensamento, como deveria ser, o aporte in-e questões envolvidas; que não são poucas nem óbvias.

terdisciplinar norteou minhas pesquisas, assim como a intenção de estar em acordo e pertinência com o estatuto Sem nenhuma pretensão de esgotar os temas, o próprio atual do saber científico (na definição de Lyotard).

esforço de aprofundamento se viu prejudicado pela extensão almejada; além da impossibilidade inerente às di-Imbuído desta estratégia, busquei definir algumas esfe-mensões de um só trabalho: isso foi avaliado com cuida-ras de especulação, todas interligadas por razões precípu-do e determinou esse justificado procedimento. Frente à as, mas que também provocam searas de trepidação, re-constatação da falta de ilustração do público leitor esta-13

belecido com o novo paradigma do ensino, que norteia o pois, será realmente necessário misturar os campos do mundo dos “experts” e privilegia apenas a formação pro-projeto e da arte? Esse nuance sutilíssimo, povoado de fissional altamente especializada, a idéia de criar um rico interferências diversas e pertinentes ao mesmo tempo, em campo de referências me pareceu mais útil do que apro-algum ponto deve ser segregado, ou dissecado.

fundar as análises ou ficar apenas no tema em si. E mais, resgates históricos tão longos há muito não se faz… a idéia Não é necessário dizer que isto é metodologia, pois a com-de reintroduzir o assunto para uma reflexão das comuni-plexidade da realidade faz tudo se manifestar de maneira dades acadêmica e leiga é em si mais um motivo.

integrada, quase indissociável, indistinto. Na arte gráfica de imprensa e no humor, esta sutileza se multiplica, pois a Dessa maneira, a narrativa que desenvolverei nas pági-efemeridade e o descompromisso com o todo revela efeinas que seguem terão essa cara de “manual”, às vezes tos intrinsecamente instantâneos. Mais uma vez cito a frateórico, às vezes jornalístico, e procurará atender à uma se de João Guimarães Rosa, tão presente na essência do necessidade de bibliografias palatáveis ao novo perfil do nosso objeto: “ A anedota é como o fósforo… riscada, de-usuário desse conhecimento, já que o ensino do design flagrada, foi-se a serventia”. Essa é a natureza essencial se ressente cada vez mais de obras de referência que te-das representações que me propus a estudar.

nham uma preocupação efetiva e bastante norteada em

relação à profissão e sua história. É a história contada com Assim, para a página impressa, a questão do projeto é os olhos do designer, do humorista e também do historia-fundamental enquanto design. Refletindo sobre seu arse-dor, com intenção explícita de cativar o público apaixona-nal criativo, sem contar os acabamentos, adereços diver-do pelo tema. O desejo de ser agradável e de suscitar a sos e informações repetitivas, para as “principais” partes curiosidade do leitor em si é outra estratégia, que deverá formadoras da página — o texto (de humor ou não), a ilus-ser igualmente didática, familiarizando o usuário com o tração, a charge, a caricatura, o cartum e a fotografia—, o assunto. As redundâncias fazem parte disso.

projeto fica relativizado, pois há margem de adaptação e adequação, dentro de um conceito e de um critério dado, A alma dessa história

que é o que dá consistência ao projeto. O que posso dizer é que os elementos constituintes da página impressa apre-A relação do design, a partir da era pós-industrial, com a sentam algumas regras específicas se comparadas com

moda, com a necessidades de renovação constante, com suas manifestações isoladas. Mas isso também não é ge-a publicidade e a propaganda e até com a própria arte, neralizável, atende à definição de “publicações de impren-gerou (in)definições imprecisas a respeito daquilo que se sa” e a cada um de seus “tipos” ou gêneros.

cria para a reprodução em série e com um objetivo, comercial ou comunicacional, plenamente estabelecido — o Nos dias de hoje, há confusão/mistura/heterogeidade de que é objeto de projeto, e que não tem como resultado linguagens, muitas vezes pautado e realizado por modis-obras de arte, primeiramente. Sua função prioritária é prag-mos insanos, manipulações, obtusidades e “egotrips” das mática e produz “coisas” para o uso ou consumo. O resto mais diversas; e, igualmente, isso atinge a arquitetura: o vem depois, e também pode e deve ser valorado.

desejo de ser o que não é e as justificativas correspondentes, geralmente falsas e ilegítimas, nos revelam “risíveis”

Mas, se a primeira função não é boa, o projeto, da mesma profissionais, “contos da carochinha” e muitas vezes risí-

maneira, o trabalho dificilmente será bom. Pode até so-veis resultados —, em prejuízo dos destinatários de seus breviver na “onda” de algum modismo, mas não terá lon-trabalhos. Essa falta de acuidade intelectual e profissio-gevidade, em si ou como fórmula: isso é estatístico! Denal, alienante e perigosa, atende muito bem aos interes-14

ses da dominação sistêmica; assim como cria uma mito-Aqui no nosso período de estudo, veremos a “decoração”

logia completamente desvinculada do social, indutora, in-Art Decó exacerbada de J.Carlos na revista Para Todos…

clusive, de muitas das patologias sociais contemporâne-com grande interesse, e com certeza os autores pós-mo-as. Sou tentado a dizer que manipulação e manipulados dernos usaram esta referência memorável. Na mesma me-se misturam sem nenhum pudor, infelizmente. E em pre-dida, “artificialmente” se fez uma conexão referencial da juízo da seriedade do design.

estética construtivista russa do início do século XX com a arquitetura deconstrutivista dos anos de 1990; o que os A morte de “tudo” da cultura pós-moderna virou “vale próprios arquitetos negam com alguma veemência. En-tudo” e exalta a frivolidade e o individualismo hedonista, tendo que somente o resultado em termos de eficiência muitas vezes elitista e excludente, onde afirma sua consi-ou eficácia nos trará uma avaliação mais razoável a res-deração e apreciação através de publicidade e assessoria peito da qualidade do design e da arquitetura, embora de imprensa. Não tenho como ter críticas à isso — é uma nesse contexto de manipulação generalizada que vivemos realidade cultural dada, uma constatação rasa e imutável outras questões têm que ser explicitadas, e, a meu ver,

—, mas a postura mais honesta seria assumir que existem muito bem esclarecidas. Outrossim…

preocupações que não interessam e, portanto, não serão levadas em conta (ao invés de justificá-la artificialmente), Nesse sentido exato, a questão ética aflora e o atendimento como o fizeram os pioneiros da contracultura no final dos único e exclusivo dos interesses do sistema coloca o pro-anos de 1960: não se buscava a criação de mitos artificiais fissional do design e da arquitetura numa verdadeira “si-e comerciais em 1970, mas tratava-se de negar a cultura nuca de bico”. A morte completa de toda ideologia bur-anterior ou estabelecida, fundando um novo paradigma: guesa que se materializa na mercantilização de todas as falo de movimentos de protesto reais e não do “protesto-esferas da existência — e que substituiu a sociedade produto”, o qual é inventado por devaneios egóicos, fo-rigorístico-disciplinar pela sociedade moda —, com seu cado exclusivamente na fama, no indivíduo e no lucro.

empirismo apressado, e sua sedução e movimento cons-

tantes, desemboca em patologias intensas e inéditas, sob Parece que as artes plásticas o fizeram muito bem — re-as quais não somos invulneráveis ou incólumes.

solveram sua questão pós-moderna com clareza: instalaram-se, a despeito da incompreensão geral —, mas o de-Não existem mais formas de enquadramento do sujeito

sign e a arquitetura não são exatamente artes. Como pro-social e isso nos fragiliza no plano emocional. Somente fissão, devem ater-se a certos parâmetros, penso eu. Como esta consciência de que não estamos ilesos poderá nos peças de comunicação, projeto de produtos ou projetos livrar de continuar trilhando caminhos equivocados, con-do espaço, devem realizar sua função pragmática em pri-quanto nadar contra a enxurrada no meio do temporal

mero lugar… ou não?

também me parece suicídio. Entendo que é momento de

parar e refletir, tomar novos rumos.

A fantástico designer Alexandre Wollner, por quem teço a mais profunda admiração e respeito, sendo um autor fun-Os tempos hiper-modernos vem resgatar algumas preo-

cionalista, critica os colegas mais jovens da atualidade, cupações humanistas, onde a civilização do efêmero coli-rotulando-os de “decoradores de páginas”; crítica justa e de com o tom emocional presentista da cultura pós-mo-precisa sob sua ótica. Entretanto encontramos trabalhos derna: a hiper-competição néo-liberal, a precariedade, a de autores atuais de ótimo nível conceitual: temos nas democracia de opinião, a globalização, a internet e a cons-mãos um celêuma de difícil digestão, sem dúvida.

tatação de que tudo é descartável, acirra o individualismo 15

hedonista e presentista, e desesperadamente busca ali-O primeiro impulso foi o de dar outro olhar à própria in-cerces num social que já inexiste, nos mostrando um de-terdisciplinaridade, criando um diálogo, um movimento clínio do “carpe diem” anterior: o clamor pela responsa-dialético do particular dentro do particular, sem me preo-bilidade de todos ainda é vão por ser completamente fal-cupar muito com as grandes categorias sociológicas na so. Fugir dessa realidade é fugir de si mesmo, por que determinação dos fenômenos, o que não é nenhuma no-não assumí-la e lidar com ela de frente, olhos nos olhos?

vidade e somente endossa a questão crucial a respeito da possibilidade de se criar um conhecimento dialético sem A sustentabilidade, em primeiro lugar, busca defender o uma lógica igual e puramente dialética… acho que tere-valor relativo do capital; as preocupações ecológicas das mos que aprender, ou abandonar.

indústrias de motores à combustão é apenas publicidade: essa manipulação inescrupulosa aumenta e multiplica o A constatação de que os três focos do trabalho, design, caos social global e adoece o ser humano pela ilegitimi-humor e mentalidade, tem um fio condutor indissociável dade absoluta de tudo que se vive. Ainda não vi um teóri-

— o cotidiano —, mesmo que subjetivo e superficial na co da sustentabilidade falar em planificação, ou um eco-aparência, foi me mostrando que cativar o interesse do nomista constatar, pura e simplesmente, que os planeta é designer poderia ser um novo ponto de partida. Memória finito e não podemos crescer constante e indefinidamen-e referência sempre enriquecem a malha interpretativa e te… como, então, vamos pedir coerência para designers melhoram as ferramentas de criação. Quanto à isso, pare-e arquitetos? Salve-se quem puder e “que Deus nos sacu-ce que não existem dúvidas, apesar dos esquecimentos da!”, como publicou o Barão uma vez. Até quando?

premeditados ou não.

A folclorização da cultura através do “tudo comemoratiA falta de linearidade, também é um mote. Isto é, a provo” e do “tudo patrimônio histórico” a banaliza através posta de cooptar novas colaborações que vão completan-da superficialidade total e absoluta, pois esta, a cultura, do o assunto, que vão se integrando num mesmo pensa-passa a povoar a esfera do lazer e do entretenimento como mento também é uma proposta, e tem a intenção de ligar produto comercializável, prioritariamente. Queiram ou não, e conectar cada vez mais esses conjuntos de conhecimen-

é para este público que se produz a cultura de hoje, den-tos através duma interatividade indicada, mas não plena.

tro e fora da academia. No mundo todo, salvo raras exce-Já falei de resgate, agora me refiro à leitura crítica de fon-

ções. Fora desse âmbito, o destino é a extinção.

tes secundárias contrapostas a material original. A esperança é surjam estudos de caso, e o assunto cresça em Aqui, no contexto desse trabalho, frente às constatações poder explicativo.

a respeito da situação cultural e acadêmica da atualidade, resolvi ir fazendo esse trabalho de reflexão sobre a essên-No mais, espero, sinceramente, que o leitor se divirta com cia da produção científica, sem me refugiar nas ferramen-as páginas que virão.

tas ou desistir da busca por um conhecimento mais completo sobre os temas propostos. Mais do que uma busca, São Paulo, abril de 2010

isso é uma proposta.

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AGRADECIMENTOS

Devo agradecer a tantas pessoas que influíram, aju-

empreendido, devo agradecer, primeiramente, ao meu

daram e apoiaram este trabalho de maneira proveito-

fiel parceiro, amigo e irmão Sergio Papi, assim como sa e decisiva, direta e indiretamente, que, antecipa-ao Mouzar Benedito, Luis Gê, Jaguar, Luis Fernando

damente, me desculpo pelas omissões e esquecimen-

Veríssimo, Paulo Caruso, Carlos Matuck, Bertrand

tos; assim como pela impossibilidade de citar todos

Costilhes, Gualberto e muitos e muitos outros com-

aqui. Muito obrigado!

panheiros de jornada que partilham esta idéia e le-

vantam suas espadas para encarar esta batalha; in-

Na FAU, cabe agradecer as colaborações de vários co-

cluindo também aqueles que não estão mais entre

legas e professores, alguns dos quais nem aluno fui; nós, mas que sempre me apoiaram: Otávio (pai do

mas, que foram muito importantes para que o traba-

Novaes), Fortuna, Mendez, Nássara, Glauco.

lho fosse reformulado, repensado e realizado. Me re-

firo, especialmente, aos Professores Murillo Marx, Ra-Ao pessoal da pesquisa não tenho nem palavras para

fael Perrone, Carlos Faggin, Artur Lara, Carlos Zibel e agradecer, pois todos tiveram igual e fundamental im-Minoru Naruto — pelo incentivo e pela seriedade que

portância, com agradecimentos especiais para o que-

impuseram ao meu esforço.

rido Sergio Papi, mais uma vez, e ao Cláudio Macha-

do: valeu galera!

No IEB e na Biblioteca Nacional, a todo pessoal, sem exceção — e em especial a Maria Helena, Maria Izilda, Agradeço à FAPESP - Fundação de Amparo à Pesqui-Beth, Lucia Thomé e Bianca no IEB; e a Rosane Nunes

sa do Estado de São Paulo, que possibilitou a realiza-do Dinf, na Biblioteca Nacional; pelo carinho e pela ção deste trabalho me concedendo bolsa de doutora-atenção prestimosa; nas secretarias do campus e da

do para que eu pudesse me dedicar à esta íngreme

FAU Maranhão e nas respectivas bibliotecas, devo

tarefa. Em especial, agradeço ao Dr. CarLos Henrique agradecer a paciência inesgotável dos funcionários e de Brito Cruz, Diretor Científico da FAPESP, pela boa a camaradagem ao me atender: devo esta a vocês!

vontade e prestatividade no atendimento de minhas

solcitações. Ainda aqui, não poderia deixar de agra-

Ainda no campo acadêmico, eternos agradecimentos,

decer aos funcionários e atendentes pela forma efici-vão para a Profª. Dra. Marlene Yurgel, minha orienta-ente e carinhosa com que sempre fui tratado: meu

dora, e para o Prof. Dr. Fernando Antonio Novais:

muito obrigado!

mestres, mentores e amigos, que, com incrível zêlo e propriedade, fizeram generosas apreciações e me

Ainda aqui, agradeço à minha família, meus pais e

deram preciosos conselhos. Gostaria de manisfestar-

meus filhos, pelo apoio incondicional nos momentos

lhes aqui, a minha mais profunda gratidão.

mais delicados, acrescido do pedido de desculpas

pelas horas subtraídas de nossa convivência, para que No âmbito do Projeto Barão, razão de tudo o que foi este trabalho pudesse ser concluído.

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Legenda dos créditos

(textos, desenhos e fotos)

AH

Haluch, Aline. A Maçã e a renovação do design editorial na década de 1920 in O design brasileiro antes do design, org.

Rafael Cardoso, São Paulo: CosacNaify, 2005.

AL

Barão de Itararé & Guevara. Almanhaques, (1949, 1955-1º e 1955-2º). São Paulo: Studioma & Edusp, 2002.

AM

Zezim & Papi. Antologias d’A Manha, vol. I (1926) e vol.II (1927). São Paulo: Studioma & Artprinter, 1995.

BN

Biblioteca Nacional, acervo de periódicos, Rio de Janeiro.

CL

Loredano, Cássio. Guevara e Figueroa, caricatura no Brasil nos anos 20. Rio de Janeiro: Funarte, 1988.

Herman Lima por J.Carlos, 1940.

ES

Saliba, Elias Thomé. Raízes do Riso. São Paulo: Cia. das Letras, 2002.

HL

Lima, Herman. História da Caricatura no Brasil. Rio de Janeiro: José Olímpio Editora, 1963.

JA

André, José Mendes. Elementos para uma leitura da obra de Aparício Torelly, o Barão de Itararé. São Paulo: Dissertação de Mestrado, FAU-USP, 2004.

JS

Sobral, Julieta Costa. J.Carlos, Designer in O design brasileiro antes do design, org. Rafael Cardoso, São Paulo: CosacNaify, 2005.

IEB

Instituto de Estudos Brasileiros da USP - Fundo Barão de Itararé e acervo geral, campus USP, São Paulo.

RC

Denis, Rafael Cardoso. Uma introdução à história do design.

São Paulo: Edgard Blucher, 2000.

AVISO IMPORTANTE

No decorrer do texto, o leitor notará que muitos créditos citarão apenas a fonte, conforme a legenda acima, sem o número das respectivas páginas onde foram publicados. Não é uma omissão: minha intenção premeditada é convidar o usuário deste trabalho a visitar os originais utilizados, para sua avaliação e deleite.

Herman Lima por Mendez, sem data.

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Primeira Parte

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Introdução

O ponto de finalização para este trabalho não poderia ser outro senão que o exame de qualificação. Deixando de lado percalços organizacionais que não convém aqui es-miuçar ou mesmo comentar, vou direto ao ponto. Unanimidade na banca, a apresentação de um exame sobre

design gráfico e humor na imprensa sem uma única imagem criou um certo espanto. Na verdade não era minha intenção original fazê-lo, mas traduziu plenamente o teor da busca que pretendo implementar. Por mais insólito ou paralógico que possa parecer, a intenção sincera é, além de trabalhar o assunto da pesquisa em si, provocar um exercício reflexivo, teórico, a respeito do tema e de sua área de conhecimento.

Esse input, oriundo do contato recente com o pensamen-to complexo, especialmente com as obras de Deleuze,

Lyotard e Lipovetski, me levou a formular o conceito de desmitificação, mais à frente descrito e definido. Na minha visão, o mito na sociedade contemporânea, objeto dileto para a manipulação sistêmica, está para a sociedade-moda (segundo a definição de Lipovestsky)(1) assim como a mais-valia está para o sistema econômico capitalista. Isto é, é o fenômeno essencial que movimenta a moda: este, o mito, migrou das esferas da cultura popular ancestral e passou a ser criado nas esferas da publicidade e do design para alimentar a necessidade constante de O Barão de Itararé por Augusto Rodrigues, A Manha, anos 40. IEB

moda que o sistema e a vida cotidiana requer… o “sempre mais” de um consumismo hedonista e exagerado que há muito substituiu o supérfluo pelo necessário.

Neste campo de estudo, dentro do período histórico estudado, temos o início do desenvolvimento deste processo de desmitificação da cultura. Este aspecto, ainda não muito explorado na historiografia e na teoria do design, se impõe como necessidade sobre as sociedades capitalistas durante e após a segunda revolução industrial, e é o germe que destruirá toda mentalidade burguesa na sociedade hiper-moderna; onde todas as esferas da existência foram mer-cantilizadas e dominadas por um hiper-individualismo distanciado. Nesse contexto da atualidade, a publicidade, a propaganda e o design são assuntos de primeira grandeza para a vida e a morte dos negócios, para a manutenção e reprodução da vida cotidiana, e, sobre esta constatação, subjaz uma mentalidade hiper-moderna.

21

Aqui no nosso caso, o modernismo e a implantação plena rações burguesas de democratização da cultura, da infor-dos valores burgueses (*), é que são a tônica dos movi-mação e da tecnologia, irá desenvolver-se de maneira cres-mentos culturais e sociais daquele momento histórico de cente e em progressão geométrica durante todo século reafirmação de distâncias e pontuação de diferenças ide-XX. Intuo que esta necessidade de informação seja vincu-ológicas. Na medida em que a mentalidade mostra o aulada e inseparável da necessidade de moda dentro desse tomatismo do juízo dos sujeitos sociais a cada estrato so-contexto complexo do desenvolvimento das sociedades

cial sem que estes tenham consciência imediata disso, ou capitalistas modernas.

seja, se manifesta através do plano do inconsciente; os conceitos relacionados à esta serão o mito, o preconceito Historicamente, outras influências são passíveis de ma-e todos critérios de competência criados e discursados pela peamento, sem dúvida: Guevara não foi o primeiro es-narrativa popular — em seu nível mais basal, isto é dado trangeiro a instalar-se no design gráfico brasileiro e pro-pela oralidade… os contos e estórias populares passados vocar mudança generalizada nos assuntos e técnicas de de geração a geração. A partir daí temos as formas de criação, mas estes vetores — aqui citaria, em linhas ge-representação mais elaboradas para o estudo da mentali-rais, Angelo Agostini, Rafael Bordalo Pinheiro e Julião dade, as quais trazem a bagagem mítica da cultura e tam-Machado — mantiveram o Brasil sempre atualizado com

bém a especificidade do momento histórico e de seu con-as mais recentes tendências do design gráfico mundial texto sócio-cultural. Assim, as representações não só en-durante o século XIX e nas primeiras décadas do século gendram as manifestações culturais dentro do campo so-XX. Isso apenas reafirma a idéia de Richard Hollis (3) de cial, mas estabelecem formas diversas de expressão, cri-que, historicamente, o design gráfico se modifica através térios de distância e aproximação que geram a oposição de pioneiros isolados, preferindo, supreendentemente, ali-entre alta cultura e cultura popular, denotando o conjunto mentar-se de suas próprias tradições. Endossa também a de visões de mundo dentro da sociedade estudada. Com máxima de Bob Gill…” nessa arte nada se cria, tudo se isso, a conexão entre mentalidade e vida cotidiana, por copia” (4).

pertinência, torna-se imprescindível para este estudo.

Para a caricatura e para desenho de página do período Em relação aos autores colocados em primeiro plano,

1900-1930, o significado estético mais marcante está no Aporelly e Guevara, pode-se mapear algumas influências alto grau de abstração que a representação gráfica vai dentro de seu processo criativo e Cassio Loredano (2) cita assumindo no final dos anos 20, superando as estéticas os livros a preços módicos com estampas que incluíam a art nouveau e art decó, apontando para o que viria nas nova pintura modernista européia que circulavam nas re-décadas seguintes. O que pareceria levar as fórmulas da dações dos jornais nos anos de 1920, especialmente nas Belle Epoque ao exagero, na verdade, continham apreen-mãos de Guevara e Figueroa entre 1926-30. No nosso caso, sões modernistas bastante engajadas, apesar de incons-isso ainda pode ser creditado à herança da Belle Epoque e cientes, inconstantes e esporádicas, que “boiavam” nas de sua ânsia por modernização que invadiu o Rio de Ja-aspirações dos designers. O próprio J.Carlos, em alguns neiro na virada do século, mas soma-se à isso a difusão e trabalhos vai muito além das estéticas correntes na épo-explosão dos meios de comunicação trazida pela segun-ca, mostrando não apenas novos caminhos, mas indican-da revolução industrial. Esta tendência, dada pela neces-do uma intuição premonitória dada por uma criatividade sidade de informação diária para melhorar e otimizar as rara, como o exemplo muito bem garimpado por Rafael

decisões nos negócios, de publicidade de produtos, em-Cardoso em duas capas d’O Malho de 1919 (5). Tudo isso presas e estabelecimentos, e também de realizar as aspi-que brota do inconsciente e se expressa como criação inovadora — a intuição, a premonição, a antecipação de fórmulas —, está ligado ao automatismo dos julgamentos

(*) Aqui faço um aparte para esclarecer que, à maneira lusitana, tratarei os dos sujeitos sociais; o que envolve tanto a malha interpre-conceitos de maneira literal, i.e., quando falo em mentalidade burguesa tativa do artista como também suas aspirações criativas me refiro àquela trazida pela revolução francesa de 1789 e que estava em mais íntimas e profundas. Portanto, a questão e o concei-plena implantação nas sociedades capitalistas e pré-capitalistas antes, durante e após a segunda revolução industrial; e não às concepções pejo-to de mentalidade serão sempre recorrentes e fundamen-rativas dos filósofos niilistas e de esquerda.

tais para este trabalho.

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No plano do conhecimento científico, a hiper-modernidade se caracteriza pela quebra de todos paradigmas e dog-mas da cultura moderna com o advento da cultura pós-

moderna e posteriormente hiper-moderna, e coloca sob severa suspeição nosso sistema de pensamento lógico linear e o próprio método científico, pois, a cada dia, fica mais evidente que este pensamento também é um mito

regado de enxurradas de subjetividades e preconceitos.

Agregado a isso, reforçando a questão, coloca-se a insóli-ta oposição entre verdade e vendável dada pela troca do valor de uso por valor de troca que o conhecimento científico assume a partir da sociedade pós-industrial ou cultura pós-moderna; que o deslegitima (o conhecimento científico) e o insere no foco do discurso da dominação como relação principal de poder. O risco de escandalizar que Lyotard esclarece n’A condição pós-moderna em 1978 (6), muito bem manipulado nas estruturas das burocracias

acadêmicas e estatais, na comunicação de massa e na publicidade, nos dias de hoje já é o escândalo em si, e não me furtarei de explorar este aspecto, buscando identificar a origem desse processo, e para trazer esta reflexão, a meu ver de extrema importância, aos colegas.

O fulcro desta problemática é a superação de toda dicotomia ideológica na atualidade, expresso como assunto não-pertinente para o conhecimento científico e profissional.

O colorário principal desse fato é que aspectos éticos e morais também deixam de ser pertinentes ou relevantes para a melhora das performances do sistema (como frisa Lyotard, op.cit.); o que se apresenta como um indício ex-cessivamente perigoso para a sociedade como um todo.

A formação acadêmica dos dias de hoje implica cidadãos sem ilustração, nivelados pelo mínimo para cumprir suas especialidades profissionais, portanto com capacidade crítica igualmente mínima, embora não nula. Com isso, viso o esclarecimento epistemológico para fugir da manipulação sistêmica e colaborar para elucidação, um tanto esquecida, do alcance dos métodos e das formas de pensar a realidade.

Nessa avalanche de contradições, o resgate humanista trazido pela hiper-modernidade não revaloriza apenas aspectos da cultura moderna quando consideramos que o

determinismo clássico é o limite “execessivamente caro”

Acima a capa de Di Cavalcanti. Na semana seguinte, a para o conhecer o sistema (Lyotard, op.cit., cap.13), mas, premonição estética na capa de J.Carlos utilizando expedientes num sentido mais nobre, ultrapassa suas limitações sec-da linguagem pós-moderna: fragmentação e citação.

tárias sob dois aspectos importantes, a saber.

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O primeiro é dar-se conta de que uma cultura somente cional e infundada, arbitrária —, se encaixa melhor a defi-poderá ser criticada a partir de dentro, seguindo seus pró-

nição de Richard Hollis (op.cit., pp 1-5) que caracteriza o prios parâmetros e critérios de competência para não ser design por tudo aquilo que se reproduz em série, contem-contaminada por etnocentrismo e nos levar a interpreta-plando em suas raízes tanto a observação de Rafael Car-

ções e ações equivocadas. Isso se opõe a todo e qualquer doso (op.cit.) sobre as fôrmas para reprodução em série sistema político vigente em todos os países do planeta e de vasos na antiguidade grega, quanto as de Philip Meggs representa um grande avanço para o ser humano: é o re-

(8) sobre os desenhos e caracteres para identificação de conhecimento do outro como igual na diferença. Isso está fabricantes de vinhos e queijos desde a idade média. Ou nos dando a base de uma consciência da degeneração e seja, o design está sempre ligado a tudo que se reproduz decadência de uma civilização que produz a guerra e a em série e que é destinado para a atividade comercial: miséria e aponta para um colapso profundo num momen-isso o diferencia das artes, apesar de incorporar diversas to futuro não muito distante. Voltando à especulação le-técnicas destas para realizar o seu trabalho.

vantada na minha dissertação de mestrado (7), nesse

momento histórico, a questão antropológica virá à tona No contexto Barão-Guevara, tudo isso me levou a dar uma de maneira realmente relevante sob este prisma. Lembran-guinada em termos de definição de objeto de conhecimen-do a crítica do Luiz Gê durante o exame de qualificação, to e objeto de estudo, mas não tão radical quanto foi su-repudiando em certa medida a análise de Lipovetsky so-posto, se contemplarmos as questões que já esbocei na bre a sociedade hiper-moderna (por já estar ultrapassada) minha dissertação de mestrado. Aqui, mais do que um fio ao citar a foto da rainha da Inglaterra com o Presidente da meada, já estou produzindo um tecido, reflexo do ama-Lula recentemente, temos que convir que as coisas estão durecimento dos assuntos e da temática.

se modificando… o parâmetro civilizatório está em plena mudança e reajuste, embora não saibamos bem para onde.

O segundo, fruto da demolição da mentalidade progressista, foi começar a ver a cultura do ocidente como um todo e em todos os tempos, propiciando uma releitura das idéias ou de todas as idéias, desde a antiguidade. Para o conhecimento, a constatação de que apenas existem “ilhas de determininismo”, conjunturais e relativas — tão bem expresso nas conexões do rizoma de Deleuze —, nos mostra a natureza impermanente e em constante mutação da realidade, o que nos dá e reforça a necessidade irredutí-

vel de história para a produção do conhecimento científi-co, por um lado. Do outro, nos dá a dimensão da quantidade de coisas que já se produziu, sem sucesso, ao tentar estabelecer um conhecimento dialético a partir de um sistema formal (lógica) não compatível com esta concepção (dialética) da realidade e do universo. Com certeza, esta compreensão elucidada pelo pensamento complexo nos

levará a novas formas de conhecer e abordar os objetos de estudo da ciência, como a física já o vem realizando com notáveis resultados.

Em termos do design e suas definições mais completas —

esquecendo aqueles que definem o design como tal so-

mente a partir dos anos de 1950, o que considero um

modismo, sendo portanto uma definição superficial irra-O Barão de Itararé e Andrés Guevara, em São Paulo, 1949. IEB

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Mea culpa

Não posso negar que, de certa forma, retornei ao ponto que me foi elucidado pela querida Ciça (Dra. Maria Cecília França Lourenço) em 1997, antes de ingressar no mestrado, durante um curso na FAU-USP como aluno especial.

Ou seja, a maior dificuldade ao estabelecer a pesquisa é fazer o recorte necessário para que não tratemos de “Deus O exagero carinhoso de minha orientadora — que dimi-e sua criação”. Realmente fiquei impactado com o conta-nuiu meu tempo de trabalho, justificado aliás, mas sem to com o pensamento complexo da atualidade e isso me comentar as mazelas pessoais dadas por problemas de

fez abrir demais as possibilidades de trabalho; o que é in-saúde e problemas familiares terríveis —, e que fez o Luiz compatível com as restrições de prazo dadas, entre ou-Gê arregalar os olhos, tem sua razão. A primeira delas, tros fatores mais relevantes.

me parece que é a longa extensão de minha dissertação de mestrado, considerada por alguns quatro em uma.

Também foi identificado pelo Dr. Perrone que tenho três focos de trabalho:

Contudo, estou seguindo um caminho que parece estra-

1 - o Humor moderno como fenômeno cultural;

nho, pois renego a idéia de que a menor distância em dois 2 - o modernismo funcionalista no design gráfico brasilei-pontos é uma reta. O curso do Dr. Faggin através do ba-ro da primeira metade do século XX;

lanço apresentado por Kate Nesbitt da arquitetura contem-3 - a modernização da mentalidade da sociedade brasilei-porânea e as justificativas teóricas de seus criadores; a ra neste período. E que eu deveria escolher apenas um experiência prática na assistência ao Dr. Artur Lara em di-deles para realizar este trabalho.

dática através do curso de Produção Gráfica para a graduação em Design da FAU-USP; e, finalmente, o contato com Pois bem, minha decisão é por abarcar os três aspectos o pensamento contemporâneo no curso dos Drs. Carlos

na sua relação suficiente e necessária — no plano mais Zibel e Minoru Naruto representaram um esforço que apa-essencial —, onde o Design e o Humor encontram-se ex-rentemente desvia da meta, mas que, na verdade, me de-pressos na obra gráfica de imprensa, por suas caracterís-ram a chance de repensar as questões e, mais do que isso, ticas móres de constituírem mensagens efêmeras, de cur-amadurecer a forma de pensar o assunto. Não posso dei-ta duração; e, especialmente, onde a questão da mentali-xar de fazer um balanço altamente positivo desse proces-dade determina em grande parte o significado destas

so, pois percebo que subi mais um degrau nessa longa mensagens, assim como a composição destas num mes-escada. E agradeço efusivamente a banca da qualificação mo suporte comunicacional.

por isso, apesar dos citados percalços.

Na minha dissertação de mestrado fiz uma analogia com As observações trazidas pela banca foram preciosas e as as concepções de Luis Tatit na sua Semiótica da Canção.

comentarei aqui para fazer jus ao benéfico efeito que tive-Ali, Tatit desenvolve uma teoria onde mostra que música ram sobre este trabalho. Começo com o querido Dr. Rafae letra combinados na canção geram a entoação, e é o el Perrone, que mais uma vez, teve a paciência e a acuida-que dá o verdadeiro significado à canção e não suas par-de de me mostrar um bom caminho.

tes isoladas, letra e música. Analogamente, na arte gráfi-ca, a combinação de texto e imagem no suporte gráfico é Suas críticas: a falta de imagens, algumas afirmações cate-o que lhe dá, em última instância, o significado geral; além góricas equivocadas e algumas hipóteses que bem pode-dos significados individuais (texto e imagem) trazidos por riam ser apenas grifos ou assuntos especialmente desta-suas partes constituintes. Num trabalho como o de Bob cados e, algumas citações um pouco demodê. Não posso Gill isso é bastante evidente, mas na imprensa nem tanto; deixar de reconhecer as razões do Mestre e adiante as é preciso um esforço maior para identificar estes signifi-corrijo com humildade e prazer. Contudo, o ponto princi-cados.

pal de suas observações giram em torno das definições do objeto de estudo, objeto do conhecimento e objeto do Visto dessa forma, a análise da obra gráfica, do ponto de trabalho.

vista estritamente formal (semiótico), poderia ser desmem-25

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brada em texto, imagem, e combinação de texto e ima-

dos…, O Globo, etc, etc. Gue publicava em quase toda gem no mesmo suporte (que também tem acabamentos,

imprensa carioca daquele período, e tem influência mar-composição e estética definida); e cada uma destas partes cante sobre tudo o que foi ao prelo de 1924 até 1955 com têm suas regras próprias, mas que buscam se integrar de seus portrait-charges e projetos gráficos modernistas.

maneira harmônica para dar completude ao significado Entretanto, nos anos 20, vemos J.Carlos deixar de ser ex-da mensagem da peça gráfica; onde texto e imagem tem clusivamente o “rei dos calungas” para tornar-se um dos regras específicas para o suporte gráfico segundo o cu-maiores designers gráficos brasileiros de todos os tem-nho e o tipo de publicação. Contudo, a questão do conhe-pos, coisa que somente hoje começamos a notar.

cimento, do objeto do conhecimento, fica carente e incompleta se não contemplarmos as questões sociais e históri-A vanguarda da arte gráfica não é, nem poderia ser o nos-cas, as quais revelam a grande maior parte do significado so foco ou parâmetro indicial, mas sim, repito, a imprensa destas mensagens, ainda mais no caso do nosso tema.

diária, as revistas semanais, mensais, almanaques e pu-Ora, se a natureza desse tipo de mensagem é dada pela efemeridade — humor, design e imprensa —, onde a questão do estudo da mentalidade é fundamental, isso, além de trazer para nosso estudo os componentes desprezados pela ferramenta formalista, introduz a análise social e histórica na geração do significado da obra, aquilo que a situa no tempo cotidiano, e lhe completa o sentido.

O primeiro ponto forte — agora já entrando nas observa-

ções feitas pelo Dr. Luis Gê — para criar o parâmetro indicial, esclarecer morfologias e taxonomias que situem nosso objeto de estudo no contexto geral da produção cultural, sem dúvida é a natureza paródica da obra conjunta de Barão & Guevara expressa no jornal A Manha. E, mais do que a inserção desta obra na história da arte gráfica brasileira, a identificação de como a releitura paródica introduz elementos da mentalidade burguesa nos será mais pro-veitosa do que a análise formal em si, mesmo não a des-cartando de todo, pois o assunto o requer.

Isso posto, nosso campo de prova estará nas publicações de imprensa, incluindo os arautos da vanguarda (para enriquecer o escopo de elementos gráficos), os quais serão sempre visitados para criar um contraponto de elevado contraste; e destacar o principal objeto de conhecimento deste trabalho: o design gráfico. O objeto principal da pa-ródia n’A Manha é a grande imprensa, que, publicada ainda na dureza das técnicas tipográficas, carece de elementos de design mais arrojados para uma análise esclarece-dora. Por exemplo, a obra de J. Carlos nos anos de 1920

está incomparavelmente mais dentro do contexto da vanguarda da arte gráfica do que A Manha e a ela nos reme-teremos sempre que possível; ainda reforçando esta es-colha pela participação de Guevara n’O Malho, Para To-Guevara. O Papagaio, 12/6/1928. HL

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blicações afins, como também as publicações voltadas para o humor e a crítica social e política. Isso enseja o estudo de uma estética própria, a da paródia, e o estudo do conteúdo editorial (pautas, temas e seções) de maneira mais detalhada. Quero dizer que os aspectos de espelho, de alterego, de metalinguagem que a paródia evoca terão que ser ressaltados, obrigatoriamente. Por outro lado, isso recoloca a vanguarda no fulcro da pesquisa indicial, uma vez que é mais claro lidar com os extremos.

O segundo ponto importante, que liga nosso objeto de estudo à questão da mentalidade no quesito humor, asso-ciado ao conceito de mentalidade, acima expresso, é a idéia de trucagem mecânica na anatomia do riso feita por Berg-son. Ou seja, conteúdos inconscientes, aqueles que povoam o automatismo dos julgamentos, é que propiciarão a criação do truque, aquilo que pega o sujeito de surpresa e o faz rir. Entre outras, estamos falando da seara do ridícu-lo: é no arquiconhecido que o humor paródico funda suas raízes para revelar uma verdade hilária. A associação com o conceito de mentalidade é quase óbvia.

Como decorrência, a ligação que Freud faz do formato onírico do chiste, da sublimação das competências de exclusão como o sadismo, o preconceito e a repressão se-Manoel Bandeira por Guevara. Revista Para Todos…, 9/6/1928. HL

xual, também estarão neste campo explicativo do riso. Para o nosso caso, talvez o mais relevante seja estabelecer as definição que Deleuze formula para o humor na sua Lógi-oposições entre alta cultura e cultura popular no âmbito ca dos sentidos (9). A imprensa diária alimenta suas pau-da cultura brasileira do período, verificando as utensilha-tas continuamente com tragédias e fait-divers (como defi-gens mentais disponíveis para cada classe social para en-nido por Roland Barthes em A estrutura da notícia)(10): tender como aquela obra significa aqui e ali dentro das esse é seu mote principal, pois é o que cativa com mais camadas sociais.

intensidade o público geral, que, ao que parece, se apraz em ficar chocado, revelando o cunho curioso e sado-ma-Em linguagem semiológica, seria o equivalente a verificar soquista da sociedade moderna, especialmente nas clas-como se formam os significados de um mesmo signifi-

ses sociais mais baixas; as mais numerosas e com utensi-cante segundo as diversas malhas interpretativas dentro lhagens mentais mais restritas em relação ao escopo ge-da mesma estrutura social. Nesse sentido, o humor paró-