Química Perfeita por Simone Elkeles - Versão HTML

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Sinopse

s garotos do instituto Fairfiel, do subúrbio de Chicago, sabem que South

O Side e North Side não se misturam. Assim, quando a líder de torcida

Brittany Ellis e o marginal Alex Fuentes são obrigados a trabalhar juntos como parceiros

de laboratório na aula de química, os resultados prometem ser explosivos. Mas nenhum

deles estava pronto para a reação química mais surpreendente de todas: O amor.

Poderão romper os preconceitos e estereótipos que os separam?

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Brittany

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odos sabem que sou perfeita. Tenho uma vida perfeita. Roupas perfeitas.

T Até minha família é sinônimo de perfeição. E embora tudo seja uma

completa mentira, me esforcei muito para manter as aparências, para ser “perfeita” em

todos os sentidos. Se soubessem da real, minha imagem iria por água abaixo.

Parada em frente ao espelho do banheiro, com o som ligado no último volume,

corrijo, pela terceira vez, mais uma linha torta que tracei, sob o olho. Droga! Minhas

mãos estão tremendo. Começar o último ano do segundo grau e reencontrar meu

namorado, depois de ficarmos longe um do outro nas férias de verão, não deveria ser tão

estressante assim... Mas hoje o dia começou mal. Primeiro, o meu modelador de cachos

começou a soltar fumaça e logo parou de funcionar. Depois, o botão da minha blusa

predileta quebrou. E agora este delineador resolveu que tem vontade própria!

Se eu pudesse escolher, ficaria em minha cama, bem confortável, comendo biscoitos

com gotas de chocolate, quentinhos, o dia todo.

— Venha, Brit!

Hum... Acho que ouvi minha mãe gritar, lá do hall.

Meu primeiro impulso é ignorá-la, mas isso nunca me traz nada de bom, a não ser

bronca, dor de cabeça... E mais gritos.

— Já vou! Só um minutinho — respondo, esperando conseguir passar esse

delineador direito e acabar logo com isso.

Por fim, acerto o traço, jogo o delineador no balcão da pia, confiro minha imagem no

espelho, uma, duas, três vezes. Desligo o som e desço correndo para o hall.

Minha mãe está parada, aos pés da nossa esplêndida escadaria, analisando meu

visual. Endireito os ombros. Sim, eu sei... Tenho dezoito anos e não deveria ligar para o

que mamãe pensa... Mas não é você que mora aqui, na casa dos Ellis.

Minha mãe sofre de ansiedade... Não do tipo facilmente controlado por pequenas

pílulas azuis. E, quando está estressada, todos os que convivem com ela sofrem também.

Vai ver que é por isso que meu pai sai para trabalhar cedinho, antes que ela se levante:

para não ter que lidar com... bem... com ela.

— Odiei a calça, amei o cinto — diz minha mãe, apontando com o indicador para

cada uma das minhas peças de roupa. — E aquele barulho que você chama de música

estava me dando enxaqueca. Ainda bem que você desligou.

— Bom dia para você também, mãe — eu digo, antes de descer a escada e dar-lhe um

beijinho no rosto. Quanto mais me aproximo dela, mais meu nariz sofre com o tormento

do seu perfume forte. Minha mãe parece uma milionária, em seu uniforme de tênis Blue

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Label, da Ralph Lauren. Claro que ninguém poderia levantar sequer um dedo para criticar

suas roupas.

— Comprei o muffin que você mais gosta, para o seu primeiro dia de aula — ela

anuncia, me mostrando um saquinho que tinha escondido atrás das costas.

— Não quero, obrigada — eu digo, olhando em volta para ver se acho minha irmã.

— Cadê a Shelley?

— Na cozinha.

— A nova enfermeira já chegou?

— Seu nome é Baghda. E, não, ela só vai chegar dentro de uma hora.

— Você já contou a Baghda que a lã irrita a pele de Shelley... E que ela puxa os

cabelos de quem está por perto, quando fica nervosa?

Shelley sempre deixou claro, mesmo sem falar, que detesta o contato da lã contra a

pele. Puxar cabelos é sua nova mania que, aliás, já causou alguns desastres... E desastres,

em minha casa, são quase tão sérios quanto um acidente de carro. Portanto, evitá-los é

uma coisa crucial em nossas vidas.

— Sim... E sim — responde minha mãe. — Dei uma bronca em sua irmã, hoje cedo,

Brittany. Se ela continuar desse jeito, perderemos mais uma enfermeira.

Vou até a cozinha, pois não estou a fim de ouvir a lengalenga de minha mãe, nem

suas teorias sobre os motivos que levam Shelley a partir para aqueles repentinos ataques.

Minha irmã está sentada à mesa, na cadeira de rodas, ocupada em ingerir sua

comida, que precisa ser especialmente preparada. Pois, apesar de seus vinte e um anos,

Shelley não consegue mastigar nem engolir, como fazem as pessoas que não têm as

mesmas limitações físicas que ela. Como de costume, a comida acabou grudada em seu

queixo, lábios e bochechas.

— Ei, Shell-Bell, minha Conchinha Barulhenta1 — digo, inclinando-me na direção

dela para limpar seu rosto com um guardanapo. — Hoje é o meu primeiro dia de aula.

Não vai me desejar boa sorte?

Desajeitadamente, Shelley estica os braços e sorri seu sorrisinho torto... Como amo

esse sorriso!

— Quer me dar um abraço? — pergunto, já sabendo a resposta. Os médicos sempre

nos dizem que quanto mais Shelley interagir com as pessoas, melhor ela ficará.

Shelley responde “sim”, com a cabeça. Deixo-me envolver por seu abraço, tomando

cuidado para manter suas mãos longe do meu cabelo. Quando me endireito, dou de cara

com minha mãe, que está ofegante. Até parece um juiz apitando, interrompendo minha

vida por um momento, só para dizer:

— Brit, você não pode ir à escola assim.

— Assim... como?

Ela balança a cabeça, com um suspiro de frustração:

1 Shell-Bel , o apelido de Shel ey, é um trocadilho com as palavras “shel ”, que quer dizer “concha”, e

“beIl”, que significa “sino”. (N. de T.)

5

— Olhe só para a sua blusa.

Obedeço... E vejo uma grande mancha úmida, bem na frente de minha blusa Calvin

Klein branca. Ops! Baba da Shelley. Só de olhar para o rosto tenso da minha irmã, capto a

mensagem que ela não consegue expressar facilmente, com palavras: Shelley sente muito.

Shelley não queria sujar a minha roupa.

— Não foi nada — digo a ela, apesar de saber, lá no fundo, que a mancha acabou

com meu visual “perfeito”.

Franzindo a testa, minha mãe umedece um papel-toalha, na pia, e esfrega a mancha

com ele. Quando ela faz essas coisas, eu me sinto como uma criancinha de dois anos.

— Vá trocar de roupa.

— Mãe, é só pêssego — digo, com todo cuidado, para que essa estória não vire uma

gritaria daquelas. A última coisa que eu quero na vida é deixar minha irmã se sentindo

mal.

— Pêssego mancha. Você não quer que as pessoas pensem que não se importa com

sua aparência...

— Tudo bem.

Puxa, eu gostaria que minha mãe estivesse num de seus bons dias... Dias em que ela

não me enche com essas bobagens. Dou um beijo bem no alto da cabeça da minha irmã,

para mostrar a ela que não me incomodei, de jeito nenhum, com sua baba.

— Vejo você depois da escola, Shell-Bell... — digo, tentando manter a animação

matinal — para terminar nosso jogo de damas.

Subo a escada correndo, agora de dois em dois degraus. Chego ao meu quarto e olho

o relógio... Oh, não! São sete e dez. Fiquei de dar uma carona a Sierra, minha melhor

amiga. E ela vai surtar se eu chegar atrasada. Pego um lenço azul claro, no meu armário,

e rezo para que dê certo... Se eu o prender direito, talvez ninguém veja a mancha de baba.

Volto a descer a escada e lá está minha mãe, de novo, analisando o meu visual...

— Amei o lenço.

Ufa!

Quando passo por minha mãe, ela me entrega o saquinho com o muffin:

— Para você comer no caminho.

Acabo aceitando. Enquanto caminho na direção do meu carro, vou mordendo o

muffin, distraída. Infelizmente, não é de blueberry, meu sabor preferido. É de banana com

nozes... E as bananas passaram do ponto. É, esse muffin está bem parecido comigo: por

fora, aparentemente perfeita... Mas, por dentro, um verdadeiro mingau.

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Alex

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corde, Alex.

A Faço uma careta para o meu mano caçula e cubro a cabeça com o

travesseiro. Tendo que dividir um quarto com dois irmãos, um de onze e outro de quinze

anos, não me resta outro jeito... Só mesmo o travesseiro pode me dar um pouco de

privacidade.

— Ah, me deixe em paz, Luis — eu digo. — Não enche.

— Não estou enchendo... A mãe me mandou acordar você. Se não, você vai chegar

atrasado.

Último ano do colégio. Eu deveria estar orgulhoso, já que serei o primeiro membro

da família Fuentes a ter um diploma do curso secundário. Mas, depois da formatura, a

vida real vai começar... Faculdade, só em sonhos. Para mim, este último ano será como

uma festa para um cara que vai se aposentar aos sessenta e cinco anos de idade. Ou seja:

você sabe que poderia continuar... Mas todo mundo espera que você vá embora.

A voz de Luis, cheia de orgulho, chega abafada aos meus ouvidos, pois ainda

continuo com o travesseiro na cabeça:

— Estou de roupa nova, da cabeça aos pés. As ninãs2 não vão resistir a este garanhão

latino.

— Sorte sua — eu resmungo.

— A mãe disse que, se você não acordar, eu posso virar esta jarra de água na sua

cabeça.

Um pouco de privacidade... É pedir muito? Atiro o travesseiro, que atravessa o

quarto... E acerto em cheio. A água espirra em Luis.

Seu vagabundo! — Ele grita. — Estas são as únicas roupas novas que eu tenho!

Escuto uma gargalhada. Junto à porta do quarto, Carlos, meu outro irmão, está rindo

como uma hiena surtada. Isto é, até Luis pular em cima dele. Vejo a luta ficando séria,

quase fora de controle, enquanto meus irmãos trocam socos e pontapés.

“Os meninos são bons de briga”, penso, com orgulho, vendo os dois se esmurrando.

Como o homem da casa, tenho o dever de acabar com a coisa. Pego Carlos pelo

colarinho, mas tropeço na perna de Luis e acabo caindo, com os dois.

Antes que eu possa recuperar o equilíbrio, sinto a água gelada em minhas costas.

Virando rapidamente, deparo com minha mãe, de balde em punho, dando um banho

geral em todos nós. Ela já está de uniforme. Minha mãe trabalha no supermercado do

2 No original, em Espanhol, “ninãs”: meninas. (N. de T.)

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bairro, a poucos quarteirões da nossa casa. Ganha uma mixaria, mas, também, não

precisamos de muito.

— Levantem-se — ela manda, com muita raiva e vigor.

— Pô, mãe — Carlos reclama, erguendo-se.

Ela mergulha a mão na água que ainda resta, no balde, e borrifa no rosto de Carlos.

Luis ri, antes de receber seu bocado também. Será que algum dia vão aprender?

— Mais alguma reclamação, Luis? — ela pergunta.

— Não, senhora — diz Luis, em posição de sentido, como um soldado.

— E você, Carlos... Tem mais algum palavrão querendo sair dessa boca? — ela

mergulha a mão na água, de novo, como um aviso.

— Não, senhora — repete o soldado número 2...

— E quanto a você, Alejandro? — Seus olhos são duas fendas estreitas, focadas em

mim.

— O quê? Eu só estava tentando separar esses dois — digo, inocentemente, dando-

lhe o meu melhor sorriso, como se dissesse: “Você não pode resistir a mim.”

Ela borrifa uns pingos d’água em meu rosto:

— Isso é por não ter acabado com a briga, antes. Agora, tratem de se vestir, todos

vocês. E venham tomar o café da manhã, antes de ir para a escola.

Tanto esforço com meu sorriso irresistível... para isso!

— Você nos ama... E sabe disso muito bem — eu digo, enquanto ela sai.

Depois de um banho rápido, volto para o quarto, com uma toalha na cintura. Vejo

Luis com um dos meus lenços na cabeça, fico furioso e o arranco de um puxão:

— Nunca toque nos meus lenços.

— Por que não? — ele pergunta, com ar de inocência nos profundos olhos castanhos.

Para Luis, isso é só um lenço... Para mim, é um símbolo do que é e do que jamais

será. Como explicar isso a um garoto de onze anos? Ele sabe quem sou. Não é segredo

para ninguém que o lenço traz as cores da gangue Sangue Latino. Entrei na Sangue porque

queria dar o troco, queria me vingar. E agora não há como sair. Mas nem morto eu

deixaria meu irmão entrar nessa. Enrolo o lenço no pulso e digo:

— Luis, não mexa nas minhas coisas... Especialmente nas minhas coisas da Sangue.

— Gosto de vermelho e preto.

Era só o que faltava!

— Se eu pegar você com isso, outra vez, vou deixar umas manchas azuis e pretas,

bem esportivas, pelo seu corpo... Entendeu, irmãozinho?

Ele dá de ombros:

— Tudo bem. Entendi.

Luis sai do quarto, com aquele seu jeito de andar gingando... E eu me pergunto se ele

realmente compreende. Mas resolvo não pensar mais no assunto. Abro o armário,

escolho uma camiseta preta e um velho jeans desbotado. Enquanto amarro o lenço na

cabeça, escuto minha mãe gritando, da cozinha:

8

— Alejandro, venha comer antes que esfrie. Depressa!

— Já vou — eu respondo. Nunca entenderei por que as refeições são tão importantes

para ela.

Meus irmãos estão ocupados, devorando o café da manhã, quando entro na cozinha.

Abro a geladeira e dou uma olhada no que tem...

— Sente-se.

— Mãe, eu vou só pegar...

— Você não vai pegar nada, Alejandro. Somos uma família e vamos comer todos

juntos.

Com um suspiro, fecho a porta da geladeira e me sento ao lado de Carlos. Ser

membro de uma família unida às vezes tem suas desvantagens. Minha mãe coloca um

prato cheio de tortillas e ovos, diante de mim.

— Por que a senhora não me chama de Alex? — pergunto, olhando para a comida à

minha frente.

— Se eu quisesse fazer isso, não teria batizado você de Alejandro. Qual é o problema?

Você não gosta do seu nome?

A pergunta me deixa tenso. Recebi esse nome em homenagem a meu pai, que morreu

quando eu era menino, deixando-me a responsabilidade de ser o homem da casa.

Alejandro, Alejandro Jr., Junior... Para mim, tanto faz.

— Isso importa? — eu resmungo, pegando uma tortilla.

Ergo os olhos, tentando avaliar a reação de minha mãe, que está de costas para mim,

lavando louça na pia.

— Não — ela responde.

— Alex quer se fingir de branco — Carlos se intromete. — Mano, você pode mudar

seu nome, mas não tente parecer outra coisa, além de mexicano... Mesmo porque,

ninguém iria acreditar.

— Cale a boca — eu aviso. — Não quero ser branco. Mas também não quero que

pensem que sou igual a meu pai.

— Ei, por favor — pede nossa mãe. — Chega de brigas, por hoje.

Carlos cantarola “Mojado” 3 , provocando-me com uma referência aos imigrantes

ilegais.

Já aguentei o suficiente, de Carlos; agora ele foi longe demais. Levanto-me,

arrastando a cadeira. Carlos também se ergue e me encara, bloqueando minha passagem.

Ele sabe o quanto posso ser durão.

Qualquer dia, seu ego exagerado ainda vai metê-lo em apuros... E com a pessoa

errada.

— Sente-se, Carlos — minha mãe ordena.

3 Em Espanhol, no original: “Mojado”, “Molhado” — uma alusão a “Wetback”, gíria e termo pejorativo,

referente a imigrantes ilegais, mexicanos ou de outros países latino-americanos. Referia-se, originalmente,

aos mexicanos que entravam no Texas, através do Rio Grande. Daí o termo “wet” (molhado) + “back”

(costas). (N. de T.)

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— Mexicano sujo, comedor de feijão! — Carlos me xinga, forçando um profundo

sotaque. — Pior ainda: você é um bandido... Um marginal de gangue!

— Carlos! — minha mãe repreende, severamente, avançando para ele.

Mas fico entre os dois e pego meu irmão pela gola da camisa.

— Sim, isso é tudo o que as pessoas vão pensar de mim — eu digo. — Continue

falando esse monte de besteiras, e elas vão pensar isso de você, também.

— Mano, as pessoas sempre vão pensar assim, de qualquer jeito. Se eu quero, ou não,

tanto faz.

— Você está enganado, Carlos. — Eu o solto. — Você pode ser bem melhor...

— Do que você?

— Sim, melhor do que eu, e você sabe disso muito bem. Agora, peça desculpas à

nossa mãe, por falar assim na frente dela.

Carlos me olha nos olhos... E vê que não estou brincando.

— Desculpe, mãe — ele diz e volta a se sentar.

Mantenho meus olhos nos dele, enquanto seu ego vai a nocaute. Virando-se de costas

para nós, minha mãe abre a geladeira, tentando ocultar as lágrimas. Puxa, ela se

preocupa com Carlos. Ele está começando o segundo ano... Durante os próximos dois

anos, ou ele se apruma... Ou se acaba de uma vez.

Pego minha jaqueta preta, de couro; preciso dar o fora daqui. Beijo minha mãe no

rosto e peço desculpas por arruinar seu café da manhã.

Saio de casa, pensando em como farei para manter Carlos e Luis longe do meu

caminho, enquanto tento guiá-los para um caminho melhor. Ah, que ironia, tudo isso.

Na rua, rapazes usando lenços com as mesmas cores que eu fazem o sinal da gangue

Sangue Latino, batendo a mão direita duas vezes no braço esquerdo, com o dedo anular

dobrado.

Minhas veias se incendeiam quando respondo a saudação, antes de montar em

minha moto. Os caras esperam que eu seja durão e frio, um membro de gangue... E é isso

que dou a eles. Inventei um espetáculo infernal, para o mundo exterior... Tão infernal,

que às vezes até eu me surpreendo.

— Alex, espere!

Uma voz familiar me chama. Carmen Sanchez, minha vizinha e ex-namorada, corre

em minha direção.

— Oi, Carmen — eu resmungo.

— Que tal me dar uma carona até o colégio?

Sua minissaia preta mostra pernas incríveis; a blusa é justa, realçando os seios

pequenos e firmes. Houve um tempo em que eu faria qualquer coisa por essa garota. Mas

isso foi no verão, antes de eu pegá-la com outro cara, na cama... Ou melhor: no carro,

como de fato foi.

— Vamos, Alex. Prometo que não mordo... A não ser que você me peça.

10

Carmen é minha parceira, na Sangue Latino. Se somos um casal, ou não, já não

importa. Ainda nos apoiamos mutuamente. Este é nosso código de honra.

— Venha — eu digo.

Carmen monta na garupa e, deliberadamente, segura em minhas coxas enquanto se

gruda ao meu traseiro... O que não causa o efeito que ela provavelmente esperava. Se

Carmen pensa que vou esquecer o passado... Que nada! De jeito nenhum. Minha história

me define.

Tento me concentrar no aqui e agora: o ano letivo que começa, meu último no

Colégio Fairfield. É difícil porque, após a formatura, meu futuro provavelmente será tão

miserável quanto o passado.

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Brittany

3

irigindo meu novo conversível prateado pela Vine Street, rumo ao Colégio

D Fairfield, comento com Sierra, minha melhor amiga:

— Sempre que desço a capota deste carro, meu cabelo fica todo arrepiado... Como se

eu tivesse passado pelo centro de um ciclone!

“Aparência é tudo”: meus pais me ensinaram esse lema, que rege minha vida. Foi só

por isso que não comentei nada sobre o BMW, este extravagante presente de aniversário

que meu pai me deu, duas semanas atrás.

— Moramos a meia hora de distância de “Windy City”4 — diz Sierra, mantendo a

mão contra o vento, enquanto nos deslocamos. — Chicago não é exatamente famosa por

seu clima ameno. Além do mais, Brit, você parece uma deusa grega, loura, de cabelos

rebeldes... Só está um pouco nervosa, porque vai rever Colin.

Meu olhar passeia pelo painel do carro, até um porta-retratos em forma de coração,

com minha foto e a de Colin.

— Um verão inteiro à distância faz as pessoas mudarem.

— A distância torna a paixão mais intensa — Sierra replica. — Você é a líder da

torcida e, ele, o capitão do principal time de futebol do colégio. Vocês dois têm que dar

certo... Senão, os planetas do sistema solar vão acabar se desalinhando.

Durante o verão, Colin me ligou algumas vezes, da cabana de sua família, onde foi

passar férias com os amigos. Mas não sei em que pé está, agora, o nosso relacionamento.

Colin só voltou ontem à noite.

— Adoro esses jeans — diz Sierra, olhando minha calça desbotada, made in Brasil. —

Vou pedir emprestado, bem antes do que você imagina.

— Minha mãe detesta jeans, principalmente este — respondo, parando num

semáforo e ajeitando os cabelos, tentando domar meus cachos louros. — Ela acha que

parece roupa comprada em brechó.

— E você não contou a ela que vintage está na moda?

— Contei, mas você acha que ela ouviu? Mal prestou atenção quando perguntei

sobre a nova enfermeira de Shelley...

Ninguém entende como são as coisas, lá em casa. Felizmente, posso contar com

Sierra. Ela pode até não entender, mas tem paciência para me ouvir e sabe manter

4 Chicago é também conhecida como “Windy City”, que significa “Cidade dos Ventos”, devido aos ventos

frios que sopram do Lago Michigan, provenientes do pólo norte. (N. de T.)

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segredo sobre minha vida familiar. Além de Colin, Sierra é a única pessoa que conhece

minha irmã.

— O que aconteceu com a outra enfermeira? — ela pergunta, abrindo minha caixa de

CDs.

— Shelley arrancou um punhado de cabelos dela.

— Uiii!

Entro numa vaga, no estacionamento do colégio, com a mente mais concentrada em

minha irmã do que no local onde estou. Dou de cara com um rapaz e uma garota, numa

motocicleta. Freio bruscamente e os pneus “cantam”. Pensei que a vaga estivesse vazia.

— Ei, você não enxerga por onde anda, sua cadela?! — grita Carmen Sanchez, a

garota na garupa da moto, com a mão direita fechada e só o dedo médio erguido.

Obviamente, ela perdeu a palestra sobre a boa educação no trânsito.

— Desculpe — eu digo, elevando a voz para ser ouvida, apesar do rugido da moto.

— Pensei que o lugar estivesse vago.

Só então percebo de quem é essa moto em que quase bati. O piloto se vira... Olhos

escuros, furiosos. Lenço vermelho e preto na cabeça. Eu me afundo atrás do volante,

tanto quanto posso.

— Droga! — digo, estremecendo. — É Alex Fuentes!

— Meu Deus, Brit! — diz Sierra, em voz baixa. — Eu quero estar viva, para ver a

nossa formatura. Vamos dar o fora daqui, antes que ele resolva matar nós duas.

Alex me lança um olhar diabólico, enquanto desce o descanso da moto, com o pé.

Será que ele vai me encarar? Tento engatar a ré, movendo freneticamente a haste do

câmbio, para trás e para frente. Não é nenhuma surpresa que meu pai tenha me

comprado um carro de transmissão manual, sem ter tempo de me ensinar como funciona

a coisa. Alex avança. O instinto me diz para abandonar o carro e fugir, como se ele

estivesse preso nos trilhos e um trem viesse em minha direção. Olho rápido para Sierra,

que remexe na bolsa desesperadamente, como se procurasse alguma coisa. Ela só pode

estar brincando!

— Não consigo achar a ré na droga deste carro. Preciso de ajuda. O que você está

procurando? — pergunto.

— Eu? Nada... Estou só tentando evitar um contato visual com um cara da Sangue

Latino — diz Sierra, entre os dentes. — Vamos, mexa-se, garota. Além do mais, eu só sei

dirigir carros com transmissão automática.

Finalmente consigo engatar a ré e recuo, com os pneus cantando alto, enquanto

procuro outra vaga para estacionar. Depois de deixar o carro no setor oeste, bem longe

de um certo membro de uma certa gangue, cuja reputação assustaria até o mais violento

jogador de futebol de Fairfield, Sierra e eu começamos a subir a escadaria que leva à

entrada principal do colégio. Para nosso azar, Alex Fuentes e seus amigos da gangue

estão bem ali, junto à porta.

— Passe direto — diz Sierra, baixinho. — E, principalmente, não olhe nos olhos deles.

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Mas é bem difícil fazer isso, quando Alex Fuentes se aproxima, bloqueando meu

caminho.

Que oração se deve rezar, no momento em que a gente sabe que vai morrer?

— Você é uma péssima motorista — diz Alex, com seu leve sotaque latino, a voz

grave e a postura típica de quem diz: “Eu Sou o Cara.”

Alex até pode parecer um modelo da Abercrombie, com esse corpo espetacular e esse

rosto perfeito. Mas, pelo seu jeito e sua pose, parece antes ter saído de um arquivo da

polícia.

Meninos e meninas da zona norte não se misturam com meninos e meninas da zona

sul. Não pense que nos achamos melhores do que eles... Apenas, somos diferentes.

Crescemos na mesma cidade, mas em lados totalmente opostos. Vivemos em grandes

casas, à margem do Lago Michigan, enquanto eles vivem à margem dos trilhos de trem.

Nós somos, parecemos, falamos, agimos e nos vestimos de modo distinto. Não digo

que isso seja bom ou mau... É apenas a maneira como as coisas são, em Fairfield. E,

sinceramente, a maioria das meninas da zona sul me tratam como Carmen Sanchez fez,

me odeiam por ser quem sou... Ou melhor: quem elas pensam que sou.

O olhar de Alex passeia lentamente por meu corpo, percorrendo-me inteira, antes de

voltar ao meu rosto. Não é a primeira vez que um garoto me observa de cima a baixo. Só

que nunca vi alguém fazer isso, tão descaradamente, como Alex. E, assim, tão de perto...

Posso até sentir meu rosto corando.

— Na próxima vez, tente guiar de olhos abertos — diz ele, numa voz fria e

controlada. — É bom a gente olhar por onde anda, entende?

Alex Fuentes está tentando me intimidar. É um verdadeiro profissional, nisso. Mas

não vou deixar que me vença, nesse joguinho de intimidação. Não vou, mesmo me

sentindo assim, petrificada de medo. Dando de ombros, olho para ele com desdém, o

mesmo desdém que uso para afastar pessoas indesejáveis, e respondo:

— Agradeço a dica.

— Se estiver precisando de um verdadeiro homem, para ensiná-la a dirigir, posso lhe

dar umas lições.

As vaias e assovios dos parceiros de Alex fazem meu sangue ferver.

— Se você fosse um homem de verdade, abriria a porta para mim, em vez de

bloquear meu caminho — digo, admirada com minha resposta ferina, embora meus

joelhos ameacem dobrar-se.

Alex recua alguns passos, abre a porta e se inclina, como se fosse meu mordomo. Está

zombando de mim... Ele sabe disso, eu sei disso, todos sabem disso. Olho de relance para

Sierra, que continua remexendo desesperadamente na bolsa, à procura de nada. Sierra é

totalmente sem noção.

— Vá cuidar da sua vida — eu digo a Alex.

— Assim como você cuida da sua? — ele reage, asperamente. — Pois vou lhe contar

uma coisa, otária: sua vida não é real, é falsa... Assim como você.

14

— Antes isso, do que viver como um perdedor — eu rebato, esperando que minhas

palavras firam Alex tanto quanto as dele me feriram.

Puxo Sierra pelo braço, empurrando-a em direção à porta aberta. Vaias e comentários

nos acompanham, enquanto entramos no colégio. Finalmente, solto a respiração que

estava presa... E então me viro para Sierra.

— Brit! — Minha melhor amiga me encara com os olhos arregalados. — Você está

querendo morrer, ou algo assim?

— Por que Alex Fuentes se dá o direito de intimidar todo mundo?

— Bem... Talvez por causa da arma que ele traz escondida, nas calças... Ou das cores

da Sangue Latino — diz Sierra, destilando sarcasmo em cada palavra.

— Alex não é tão estúpido, a ponto de trazer uma arma para a escola — eu

argumento. — E me recuso a ser intimidada por ele, ou por qualquer outra pessoa...

Ao menos aqui, no colégio, o único lugar onde posso manter minha fachada de

“perfeição”... E todo mundo acredita.

De repente, excitada pelo fato de estar iniciando meu último ano em Fairfield, seguro

Sierra pelos ombros:

— Estamos no último ano do segundo grau! — digo, com o mesmo entusiasmo que

uso quando comando a torcida, durante os jogos de futebol.

— E daí?

— Daí que, a partir de agora, tudo vai ser per-fei-to.

O sinal toca... E não é exatamente o som convencional, desde que os estudantes

votaram, no ano passado, pela substituição do sinal comum por trechos de músicas, nos

intervalos entre as aulas. Agora, está tocando Summer Lovin’, da trilha sonora de Grease.

Sierra começa a caminhar pelo corredor.

— Vou cuidar para que você tenha um funeral per-fei-to, Brit, com flores e tudo o

mais.

— Quem morreu? — pergunta alguém, atrás de mim.

Eu me viro... E ali está Colin, com os cabelos louros ainda mais claros, por conta do

sol de verão, e um sorriso tão largo, que ocupa quase todo o seu rosto. Eu gostaria de ter

um espelho para ver o estado da minha maquiagem. Mas com certeza Colin vai me

convidar para sair, mesmo se ela estiver borrada, não é mesmo? Corro para lhe dar o

maior abraço do mundo...

Ele me envolve em seus braços, me beija suavemente, nos lábios. Então se afasta um

pouquinho e torna a perguntar:

— Quem morreu?

— Ninguém — eu respondo. — Esqueça isso. Esqueça tudo, lembre-se apenas de que

estamos juntos.

— Isso é fácil... Ainda mais quando você está assim, tão gata.

Colin volta a me beijar.

15

— Peço desculpas por não ter ligado ontem, Brit. Foi uma loucura, havia muita

bagagem para descarregar e tudo o mais... Você sabe.

Eu sorrio, feliz, porque apesar de termos passado o verão separados, nosso

relacionamento não mudou. O sistema solar está seguro, ao menos por enquanto.

Colin me enlaça pelos ombros e a porta da frente se abre. Alex e seus amigos

irrompem por ela, como se estivessem ali para cometer um assalto.

— Por que eles insistem em vir ao colégio? — Colin murmura, para que somente eu

escute. — De qualquer jeito, metade deles provavelmente vai cair fora, antes que o ano

termine.

Meus olhos rapidamente encontram os de Alex... E um calafrio me percorre a

espinha.

— Quase bati na moto de Alex Fuentes, nesta manhã — eu conto a Colin, já que Alex

não pode nos ouvir.

— Quase? Pena que você não acertou.

— Colin! — eu o repreendo.

— Ao menos nosso primeiro dia de aula teria alguma emoção. Este colégio é

terrivelmente entediante.

Entediante?

Quase sofri um acidente, uma garota da zona sul me fez um gesto obsceno, um

membro de uma gangue perigosa me desafiou... Se isso foi uma amostra do que me

espera, neste último ano, bem... Eu diria que o Colégio Fairfield pode ser tudo, menos

entediante.

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Alex

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u sabia que seria chamado à sala do novo diretor, em algum momento,

E durante o ano letivo. Mas não esperava que isso acontecesse logo no

primeiro dia de aula.

Ouvi dizer que o Dr. Aguirre foi contratado graças à mão-de-ferro que demonstrou,

na direção de uma escola em Milwaukee. Alguém deve ter dito a ele que fui eu quem

começou tudo...

E, agora, aqui estou, depois de ter sido praticamente arrancado do ginásio de

esportes, para que Aguirre possa estufar o peito e recitar todas as regras sobre a minha

condição de estudante. Sinto que ele está me sondando, tentando prever minhas reações,

enquanto me ameaça:

— Contratei dois seguranças armados para trabalhar neste colégio, em tempo

integral, Alejandro.

Seus olhos me focam, tentando me intimidar. Sim, tudo bem. Percebo de imediato

que Aguirre, mesmo sendo latino, não sabe nada sobre o que acontece nas ruas...

Agora ele começa a me contar que também foi um garoto pobre, como eu. Mas

provavelmente nem conhece o outro lado da cidade, onde moro. Talvez eu devesse

convidá-lo para dar uma volta por lá.

— Prometi ao superintendente de ensino, bem como ao pessoal do conselho

educativo, que me encarregaria de erradicar a violência que tem infestado este colégio,

por tantos anos. — Ele para bem diante de mim. — Não hesitarei em dar uma suspensão

a quem desobedecer as regras.

Não fiz nada, além de me divertir um pouco com aquela patricinha... E esse cara já

está falando em suspensão. Talvez ele tenha ouvido alguma coisa sobre a minha

suspensão, no ano passado... Um pequeno incidente que me deixou fora das aulas, por

três dias. Não foi culpa minha... Não totalmente. É que o meu amigo Paco tinha uma

teoria maluca sobre a água fria que, supostamente, afetaria os brancos de um modo

diferente dos latinos. Nós estávamos conversando sobre isso, na sala das caldeiras,

depois dele ter desligado os aquecedores, quando fomos pegos.

Eu não tinha nada a ver com aquilo, mas levei a culpa do mesmo jeito. Paco tentou

contar a verdade, mas o nosso antigo diretor não quis escutar. Se eu insistisse mais,

talvez ele me ouvisse. Mas do que adianta lutar por uma causa perdida?

Claro que Brittany Ellis é a responsável por eu estar aqui, hoje. Ou você acha que

aquele idiota do namorado dela já foi chamado à sala do Aguirre, alguma vez? De jeito

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nenhum. O cara é o ídolo do futebol aqui do colégio. Ele pode matar aula e brigar o

quanto quiser, que provavelmente continuará a ser bajulado pelo Aguirre.

Colin Adams vive me provocando, sabendo que pode fazer isso à vontade. Todas as

vezes em que estive prestes a revidar, ele encontrou um jeito de fugir ou correr para

perto dos professores... Que, aliás, estavam apenas esperando pela oportunidade de me

ferrar. Qualquer dia desses...

Olho para Aguirre:

— Não fui eu quem começou a briga.

Posso até terminar uma briga, mas não sou de provocar.

— Isso é bom — diz Aguirre. — Mas fiquei sabendo que você desacatou uma aluna,

no estacionamento.

Quase fui atropelado pelo reluzente BMW novo de Brittany Ellis... E a culpa é minha?

Nos últimos três anos, consegui evitar aquela cadelinha rica. No ano passado, ouvi dizer

que havia uma nota “C” no boletim dela. Mas bastou um telefonema de seus pais e a

nota mudou para “A”.

Um “C” prejudicaria sua chance de entrar numa boa faculdade.

Que droga. Se eu tirasse um “C” minha mãe me daria uns tabefes na cabeça e me

faria estudar duas vezes mais. Tenho trabalhado duro para tirar notas boas, embora

tenha sido questionado muitas vezes sobre os recursos que uso para conseguir as

respostas, nas provas. Para mim, a questão não é entrar na faculdade. A questão é provar

que eu poderia entrar... Se meu mundo fosse diferente.

Nós, da zona sul, podemos até ser considerados mais idiotas que os caras da zona

norte... Mas isso é conversa. Não somos tão ricos ou obcecados com bens materiais, nem

com a perspectiva de entrar nas universidades mais caras e prestigiadas do país. Durante

a maior parte do tempo, estamos apenas tentando sobreviver e salvar a pele.

Provavelmente o problema mais difícil, na vida de Brittany Ellis, é decidir em que

restaurante jantar, a cada noite. A garota usa seu corpo estonteante para manipular todo

mundo que se aproxima dela.

— Você se importaria de me contar o que aconteceu, no estacionamento? — diz

Aguirre. — Gostaria de ouvir a sua versão.

Isso não quer dizer nada. Aprendi, há muito tempo, que o meu lado não importa.

— O que aconteceu hoje de manhã... — eu digo — foi um grande mal-entendido.

Brittany Ellis não entendeu que dois veículos não podem ocupar o mesmo espaço.

Aguirre inclina-se sobre sua mesa polida, impecável:

— Vamos tentar não fazer dos mal-entendidos um hábito. Certo, Alejandro?

— Alex.

— Hum?

— Pode me chamar de Alex — eu digo. Tudo o que ele sabe a meu respeito está no

meu prontuário escolar, que provavelmente é tão extenso, que deve ter uns vinte

centímetros de grossura.

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Aguirre responde com um aceno de cabeça: