Razão e Sensibilidade por Jane Austen - Versão HTML

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Jane Austen

Razão e Sensibilidade

Sense and Sensibility

Depois da morte do pai, as irmãs Marianne e Elinor Dashwood perdem toda a herança para um meio-irmão. Sem dote, têm poucas chances de fazer um bom casamento. Marianne (a sensibilidade) apaixona-se à primeira vista por um homem que não é tão leal quanto imagina. Elinor (a razão) gosta de alguém com quem não pode se casar.

Disponibilização: Toca da Coruja

Formatação: Gisa

CAPÍTULO I

A família dos Dashwood vivia havia muito tempo em Sussex. A propriedade deles era grande e a residência situava-se em Norland Park, no centro de suas terras, onde por muitas gerações haviam vivido de maneira tão respeitável que tinham conquistado um bom conceito entre todos os vizinhos das redondezas. O proprietário anterior era um senhor solteiro que alcançou idade bem avançada e teve em sua irmã uma dedicada companheira e governanta durante muitos longos anos de sua vida. Mas a morte dela, que aconteceu dez anos antes da dele, acarretou uma grande alteração na casa; para preencher o vazio deixado pela irmã, o velho cavalheiro convidou para morar com ele a família de seu sobrinho, o sr. Henry Dashwood, herdeiro legal da propriedade de Norland e para quem ele pretendia deixar seus bens, de qualquer maneira. Em companhia do sobrinho, da sobrinha e suas filhas, os dias do velho cavalheiro foram passando confortavelmente e o apego que se estabeleceu entre eles foi crescendo.

A constante atenção aos seus desejos por parte do sr. e da sra. Dashwood, que agiam não por mero interesse, mas sim por serem donos de corações bondosos, ofereceu ao idoso senhor o mais sólido conforto que alguém com sua idade poderia receber e a alegria das jovens acrescentou encanto à existência dele.

O sr. Henry Dashwood tinha um filho de seu primeiro casamento e três filhas da atual esposa. O filho, um inflexível e respeitável jovem senhor, contava com sólido amparo na herança deixada por sua mãe, uma enorme fortuna da qual recebera a metade quando alcançara a maioridade. Essa fortuna aumentara muito pelo casamento, que ocorrera pouco depois. Portanto, receber Norland como herança não era tão importante para ele quanto seria para suas irmãs, uma vez que as posses delas eram pequenas, sem contar com o que poderiam ter, caso seu pai herdasse a propriedade. A mãe delas nada possuía e o pai tinha apenas setecentas libras à disposição. A fortuna da primeira esposa fora destinada a passar diretamente para o filho, tendo o marido apenas direito ao usufruto.

O velho cavalheiro morreu; ao ser lido, seu testamento causou decepções e alegrias, como todos os testamentos. O velho cavalheiro não foi injusto, nem mal-agradecido; deixou a propriedade ao sobrinho, porém o fez em termos tais que anulou metade do valor da herança. O

sr. Dashwood queria herdar a propriedade mais para a segurança da atual esposa e das filhas do que para si e o filho. A propriedade ficou assegurada sim, só que para seu filho e o filho dele, seu neto de quatro anos, de um modo que não lhe oferecia nenhuma possibilidade de vir a deixá-la como herança para as quatro mulheres que lhe eram caras e nem lhe dava o direito de vender parte da excelente madeira que suas terras produziam para entregar o dinheiro a elas. A propriedade inteira e sua produção, qualquer que fosse, encontrava-se vinculada em benefício do neto do sr. Dashwood, que, durante ocasionais visitas feitas a Norland em companhia do pai e da mãe, ganhara a afeição do idoso tio. Isso não é difícil para uma criança encantadora, de dois ou três anos; o modo de falar engraçado, a audácia e o encantamento de ter o mundo inteiro a descobrir, as travessuras marotas, deliciosas, e a enorme tendência a fazer barulho sobrepuseram-se ao valor de todas as atenções que o velho proprietário havia recebido durante anos da sobrinha e das filhas dela. No entanto, ele procurou não ser injusto e deixou mil libras para cada uma.

Em princípio, a decepção do sr. Dashwood foi enorme; mas seu temperamento era alegre e corajoso, tinha a razoável esperança de viver ainda por muitos anos e, econômico como era, de ter tempo para trabalhar e ganhar algum dinheiro a fim de aumentar o dote das filhas. Mas a sorte, que tardara tanto a chegar para ele, durou apenas um ano, tempo esse que sobreviveu ao tio. Tudo que restou à viúva e às filhas perfazia dez mil libras, incluindo o que elas haviam recebido por herança.

O filho do sr. Dashwood foi chamado com urgência assim que ficou evidente a iminência do apagar-se de sua vida e ele recomendou-lhe, com todo o ímpeto e calor que o estado terminal lhe permitia, que cuidasse da madrasta e das meio-irmãs. O sr. John Dashwood não alimentava fortes sentimentos por essa parte da família, mas se sentiu tocado pelo pedido de tal natureza em um momento tão solene e prometeu fazer tudo que estivesse ao seu alcance para ampará-las. Diante da promessa, o pai entregou-se ao inevitável sem resistência e o sr. John Dashwood teve tempo de verificar prudentemente o que estava ao seu alcance para ajudar as quatro mulheres.

Ele não era uma pessoa ruim, a não ser que se considere ruim um homem de coração um tanto duro, de natureza um tanto egoísta. Mas de modo geral, era bem considerado, uma vez que cumpria com seus deveres normais de maneira irrepreensível. Caso se houvesse casado com uma mulher agradável, com certeza teria se tornado ainda mais respeitável do que era - poderia até mesmo ter se transformado também em um homem agradável, uma vez que se casara muito jovem e muito apaixonado pela esposa. No entanto, a sra. John Dashwood era uma acentuada caricatura de si mesma, com mentalidade muito mesquinha e egoísta.

Ao fazer a promessa para o pai, ele se determinara a aumentar a herança das irmãs, que no momento era de mil libras para cada uma. De fato, pretendia ser imparcial nesse ponto. A perspectiva de um acréscimo de quatro mil libras por ano na sua renda, além do que recebia da metade da fortuna deixada pela mãe, aquecia-lhe o coração e o fazia sentir-se capaz de ser generoso. Sim, daria as três mil libras para elas: seria um gesto liberal e lindo! Devia ser o suficiente para que ficassem bem. Três mil libras!... Poderia recuperar essa soma considerável com poucos inconvenientes, apenas economizando. Ele pensou nisso naquele dia, depois nos dias que se seguiram e não se arrependeu.

Nem bem encerrou-se o funeral de seu pai, a sra. John Dashwood chegou com o filho e empregados, sem dar o menor aviso à sogra. Ninguém contestava o direito dela de ir para Norland, pois a casa passara a ser de seu marido no momento em que o pai dele falecera, mas a grosseria dessa atitude era enorme e para uma mulher na situação da sra. Dashwood, pessoa de sentimentos delicados, deve ter sido altamente desagradável. Esta senhora tinha tão perfeito senso de honra e era de uma generosidade tão romântica que uma ofensa dessa espécie feita ou recebida por qualquer pessoa causava-lhe um incontrolável desgosto. A sra. John Dashwood jamais fora benquista por alguém da família do marido, contudo, até aquele momento, ela ainda não tivera oportunidade para demonstrar-lhes o pouco caso que era capaz de fazer do bem-estar e conforto das demais pessoas quando dependessem dela.

A sra. Dashwood foi atingida de modo tão profundo por essa atitude rude e sentiu tal desprezo pela nora, devido ao seu modo mal-educado de agir, que teria saído da casa no momento em que ela entrara, se sua filha mais velha não a convencesse a pensar com cuidado antes de ir embora. Pelo bem das filhas, as quais amava com ternura, a senhora decidiu ficar e evitar uma ruptura com o irmão delas.

Elinor, a filha mais velha cujo conselho fora tão acertado, tinha um poder de compreensão e uma firmeza de julgamento que a haviam tornado, apesar de ter apenas dezenove anos, conselheira da mãe e a qualificavam para contrabalançar, em proveito das quatro, a ligeireza de raciocínio da sra. Dashwood, que comumente a levava a cometer imprudências. A srta. Dashwood tinha excelente coração - era afetuosa e de sentimentos fortes, mas sabia como controlá-los. Esta era uma sabedoria que a mãe dela ainda estava por adquirir e que nenhuma de suas duas irmãs se mostrava interessada em aprender.

As habilidades de Marianne eram, em alguns aspectos, quase iguais às de Elinor. Era sensível e inteligente, mas descontrolada: suas tristezas e suas alegrias eram intensas e sem a menor moderação; generosa, amável e atenciosa, ela era tudo, menos prudente. A semelhança física entre Marianne e a irmã impressionava.

Elinor via com grande consternação o excesso de sensibilidade da irmã, porém a sra.

Dashwood valorizava e estimulava esse traço de caráter. Ambas se encorajavam quer na violência, quer na aflição. A agonia de um desgosto, que as subjugava em princípio, era em seguida renovada por vontade própria, alimentada, recriada uma vez, outra e mais outra.

Assim, entregaram-se inteiramente à tristeza, procurando aumentar a infelicidade com qualquer elemento que servisse para isso e determinaram-se a não admitir nenhuma espécie de consolo no futuro. Elinor também se afligiu com a situação, porém se mantinha disposta a lutar e a dar ânimo a si mesma. Conseguiu comunicar-se com o irmão, foi capaz de receber a cunhada quando ela chegou à propriedade e de tratá-la com a devida atenção; soube fazer com que a mãe agisse da mesma forma e encorajou a irmã a comportar-se de maneira bem-educada.

Margaret, a irmã mais nova, era uma menina saudável e bem-humorada; mas como já absorvera uma boa quantidade do romantismo de Marianne, sem ter absorvido também sua ra zão, aos treze anos não prometia igualar-se às irmãs em um período mais adiantado de sua vida.

CAPÍTULO II

A sra. John Dashwood atribuiu-se o título de senhora de Norland relegando a sogra e as cunhadas à condição de hóspedes. Assim sendo, as quatro eram tratadas pela anfitriã com tranqüila civilidade e pelo marido dela com toda a bondade que ele era capaz de sentir por qualquer pessoa que não fosse ele próprio, sua esposa e o filho. Até mesmo as incentivava, com alguma sinceridade, a considerar Norland sua casa. Como não havia nenhuma outra escolha além de permanecer ali até ter possibilidade de mudar-se com as filhas para uma casa nos arredores, a sra. Dashwood aceitou o convite.

Permanecer em um lugar onde tudo lhe recordava os bons momentos do passado combinava perfeitamente com seu modo de ser. Em momentos de alegria, ninguém poderia ficar mais alegre do que ela ou ter, em grande escala, aquela otimista predisposição para a expectativa da felicidade, que é a própria felicidade. Mas na tristeza, ela também se deixava levar pela imaginação para muito além do consolo, do mesmo modo que na alegria deixava-se levar para além da discrição.

A sra. John Dashwood não aprovou, de modo algum, o que o marido pretendia fazer pelas irmãs. Tirar três mil libras da herança do seu pequeno e querido filho seria empobrecê-lo da maneira mais cruel e terrível. Implorou que ele pensasse bem no que iria fazer. Como poderia permitir a si mesmo roubar tão alta soma de seu filho, seu único filho? E uma vez que as srtas.

Dashwood eram parentes apenas por meia consangüinidade - o que a sra. John Dashwood não considerava parentesco algum-, como se atreviam a exigir tanto dinheiro da generosidade dele?

Era sabido por todos que não podia haver afeição entre os filhos de um homem nascidos em diferentes casamentos; então, por que ele teria de se arruinar e arruinar o pobrezinho do Harry jogando fora todo aquele dinheiro por causa de três meio-irmãs?

- Porque o último pedido de meu pai - respondeu o marido - foi que eu amparasse sua viúva e filhas.

- Ele não sabia o que estava dizendo! Posso apostar dez contra um que ele estava fora de juízo naquele momento. Se estivesse sob o domínio da razão, não pensaria nem sequer em pedir a você para dar aos outros metade da fortuna do seu próprio filho.

- Ele não estipulou soma alguma, minha querida Fanny. Apenas me pediu, em termos gerais, que as amparasse e tornasse a situação delas mais confortável do que ele poderia tornar. Talvez teria sido melhor se deixasse tudo por minha conta; afinal, dificilmente ele poderia pensar que eu as negligenciaria. De qualquer modo, fiz a promessa e ela tem de ser cumprida. Algo deve ser feito por elas, mesmo que deixem Norland para ir morar em outra casa.

- Bem, então vamos fazer alguma coisa por elas; mas essa alguma coisa não precisa ser três mil libras. Pense - acrescentou ela - que quando o dinheiro vai embora, não pode mais voltar. Suas irmãs irão se casar e o dinheiro irá embora para sempre. Se ele pudesse ser devolvido ao nosso pobre menininho...

- Com certeza - concordou o marido, muito sério, - isso faria uma grande diferença. Pode chegar o momento em que Harry lamente que tão grande soma tenha sido tirada dele. Se ele vier a ter uma família numerosa, por exemplo, esse dinheiro será muito conveniente.

- Com certeza será.

- Então, quem sabe é melhor para todos que essa soma seja reduzida à metade. Quinhentas libras significaria um aumento prodigioso da fortuna delas!

- Oh, é mais do que muito bom! Que irmão neste mundo daria metade disso às irmãs, mesmo que fossem irmãs verdadeiras? E, neste caso, há apenas meia consangüinidade, mas você tem um espírito tão generoso!

- Não quero fazer nada mesquinho - replicou ele. - Nessas ocasiões, deve-se fazer o muito, jamais o pouco. Ninguém, afinal, poderá pensar que não fiz muito por minhas irmãs e dificilmente elas poderiam esperar que eu fizesse mais. - Não é o caso de saber o que elas esperam - ponderou a senhora -, não temos que pensar nas expectativas delas. A questão é o que você pode lhes dar.

- De fato... E eu creio que posso dar quinhentas libras para cada uma. De qualquer maneira, mesmo que eu nada dê a elas, quando a mãe morrer, cada uma irá receber mais de três mil libras...

É uma fortuna considerável para qualquer moça.

- Claro que é! Aliás, parece-me que elas não podem querer mais do que isso. Vão ter dez mil libras divididas entre as três. Caso venham a casar-se, muito bem; se não, poderão levar uma vida bastante confortável com os juros dessas dez mil libras.

- É verdade. Em conseqüência, não sei se deveria, diante desse conjunto de coisas, fazer algo pela mãe delas enquanto ela for viva... Dar-lhe uma espécie de anuidade, quero dizer. Isso seria tão bom para minhas irmãs quanto para a mãe. Cem libras por ano as faria sentir-se bastante confortáveis.

No entanto, a esposa dele hesitou em aprovar esse plano. - Sem nenhuma dúvida - ponderou ela -, é melhor do que dar cento e cinqüenta libras de uma vez. Mas se a sra. Dashwood viver mais quinze anos, nós ficaremos muito prejudicados.

- Quinze anos! Minha querida Fanny, a vida dela não vai se estender nem pela metade desse tempo!

- É claro que não. Mas se você observar, bem verá que as pessoas vivem para sempre quando recebem uma anuidade. Ela é muito rija, saudável e mal chegou aos quarenta. Uma anuidade é algo muito sério: repete-se a cada ano e não há modo de livrar-se dela. Você não pensou direito no que vai fazer. Tenho uma longa experiência com problemas de anuidades, pois minha mãe ficou amarrada ao pagamento de três anuidades a antigos empregados aposentados por velhice, exigidas pelo testamento de meu pai, e é impressionante quanto isso a prejudicou. Era preciso pagar essas anuidades em duas vezes, todos os anos; havia também a grande dificuldade de levar as anuidades para eles. De vez em quando corria a notícia de que um deles havia morrido, depois não era verdade... Minha mãe ficou doente com essa incerteza. Seus rendimentos não eram dela, dizia, com essas perpétuas despesas. E isso aconteceu por falta de previsão de meu pai porque, se assim não fosse, o dinheiro estaria todo à disposição de minha mãe, sem nenhum tipo de restrição.

Isto me causou uma aversão profunda a anuidades e não pretendo ser obrigada a fazer pagamentos anuais a pessoa alguma no mundo.

- De fato, é uma circunstância muito desagradável - concordou o sr. Dashwood - ter esse tipo de diminuição anual nos rendimentos. A riqueza de uma pessoa, como sua mãe diz com muita justeza, não é apenas dela. Estar obrigado ao pagamento regular de uma determinada soma, sobre a renda de cada dia, não é coisa que se possa querer: tira toda a independência de uma pessoa.

- De fato, é isso mesmo. E no fim não se recebe agradecimento algum. Eles sentem-se seguros achando que você não faz mais do que a sua obrigação, o que não os faz sentir a menor gratidão.

Se eu fosse você, pensaria com a maior prudência no que quer que resolva fazer e não me comprometeria a dar-lhes coisa alguma anualmente. Se assim fizer, poderá ter pela frente um número inconveniente de anos com a obrigação de arcar com o prejuízo de cem ou mesmo de cinqüenta libras.

- Creio que você tem razão, meu amor. No caso, é melhor que não haja nenhuma anuidade.

Qualquer quantia que eu dê a elas de vez em quando será uma ajuda melhor do que um subsídio anual, porque poderão vir a exagerar seu estilo de vida, caso se sintam seguras com um alto recebimento e não ficariam nem mesmo meio xelim mais ricas a cada ano. Realmente, esta deve ser a melhor solução: cinqüenta libras de vez em quando evitarão que se aflijam por dinheiro e irão, eu acho, cumprir de forma ampla a promessa que fiz a meu pai.

- Pode ficar certo que sim. Aliás, para dizer a verdade, tenho a convicção de que seu pai não pretendia, de maneira alguma, que você lhes desse dinheiro. O amparo a que ele se referiu, atrevo-me a dizer, deve significar apenas atitudes razoáveis que possam ser esperadas de você. Por exemplo, procurar uma pequena e confortável casa para elas, ajudá-las na mudança para lá e enviar-lhes presentes de caça, pesca e produtos da estação de vez em quando. Aposto a minha vida que ele não se referia a nada mais do que isso. Na verdade, seria muito estranho se o fizesse.

Considere, meu caro sr. Dashwood, o exagerado conforto em que sua madrasta e meio-irmãs iriam viver com os juros de sete mil libras, além das mil que pertencem a cada uma das moças, que rendem cinqüenta libras por ano a cada uma! É claro, irão pagar uma pensão para a mãe por cuidar delas. No total, terão quinhentas libras por ano, e o que quatro mulheres podem querer mais do que isso? Elas levam um tipo de vida tão frugal! Seus gastos domésticos serão muito baixos, pois não têm carruagens, cavalos e é difícil que venham a ter criadagem; não receberão visitas e, portanto, não arcarão com nenhum tipo de despesa! Pense apenas na vida confortável que vão levar! Quinhentas libras por ano! Tenho certeza de que serei incapaz de imaginar como irão gastar metade desse dinheiro; portanto, é um absurdo você pensar em dar-lhes mais. Ao contrário, o lógico seria que elas dessem dinheiro a você!

- Palavra - disse o sr. Dashwood -, creio que você tem absoluta razão. Certamente, quando pediu que eu cuidasse delas, meu pai se referia ao que você acaba de me dizer. Agora compreendo isso com clareza e vou cumprir minha obrigação através dos atos de assistência e bondade que você descreveu. Quando minha madrasta mudar para outra casa, vou empenhar esforços para ajudá-la a acomodar-se o melhor possível. Então, poderei pensar em dar-lhe algum pequeno presente, móveis...

- Evidente que sim - retornou a sra. Dashwood. - Entretanto, é preciso considerar uma coisa.

Quando seu pai e sua mãe mudaram-se para Norland, lembre-se, os móveis de Stanhill foram vendidos, toda a porcelana, prataria, roupas de cama e mesa vieram para cá e ficaram com a sua madrasta. A casa já estava provida de todos os móveis quando ela entrou aqui.

- Eis aí uma observação muito acertada, sem dúvida. Uma herança valiosa, é indiscutível.

Um pouco dessa prataria seria um bem-vindo acréscimo à que temos.

- Sim. E o aparelho de café de porcelana chinesa fica duas vezes mais bonito se usado nesta casa. Ele é lindo demais, na minha opinião, para qualquer casa em que elas possam ir morar. No entanto, paciência. Seu pai pensou apenas nelas. Deste modo, vejo-me obrigada a dizer isto: você não deve nenhuma gratidão especial nem atenção alguma aos desejos dele, pois sabemos perfeitamente que, se ele pudesse, teria deixado tudo no mundo para elas.

Esse argumento era irresistível e alterou as intenções de John Dashwood, fosse qual fosse a decisão que havia tomado antes. Afinal, ele resolveu que seria desnecessário do modo mais absoluto, se não altamente indecoroso, tomar em relação à viúva e às filhas de seu pai mais do que as atitudes que um bom vizinho tomaria, como sua esposa o fizera notar.

CAPÍTULO III

A sra. Dashwood permaneceu em Norland por vários meses, sem nenhuma inclinação para mudar-se dali, até que um simples olhar para lugares bem conhecidos foi aumentando a profunda emoção que vinha sentindo até então. Quando sua alma começou a reviver e sua mente tornou-se capaz de outras atividades além de fortalecer a aflição que sentia com recordações melancólicas, ela tornou-se impaciente por ir embora e demonstrou-se infatigável na busca de uma acomodação adequada nas proximidades de Norland, uma vez que lhe era impossível ir para longe dessas amadas paragens. Como não conseguia aceitar situações que não correspondessem as suas noções de conforto e bem-estar, aceitava a prudência da filha mais velha, cujo julgamento severo recusou várias casas muito acima das posses delas que a mãe, no entanto, teria aprovado.

Antes de morrer, o marido informara a sra. Dashwood da solene promessa que o filho fizera em relação a elas e que o confortara nas suas últimas reflexões terrenas. Ela não duvidou da sinceridade dessa promessa, do mesmo modo que seu marido não duvidara, e considerou-a com satisfação, se bem que pessoalmente estivesse convencida de que uma provisão muito menor do que 7.000 libras seria mais do que suficiente para sustentá-las. Para o bem do irmão de suas filhas e de seu próprio coração, regozijou-se e censurou-se por ter sido injusta em relação a ele ao julgá-

lo incapaz de ser generoso. O comportamento atencioso do sr. John em relação a ela e às irmãs convenceram-na de que ele se preocupava com o bem-estar delas e durante muito tempo a sra.

Dashwood confiou com firmeza na liberalidade das suas intenções.

O desdém que havia sentido pela nora a partir do instante em que a conhecera fora aumentando muito com o aprofundar do conhecimento do caráter dela, o que lhe foi proporcionado por meio ano de convivência sob o mesmo teto. Talvez, apesar de toda consideração, da polidez ou afeição maternal que se esforçava por demonstrar em relação a ela, as duas senhoras provavelmente achavam difícil acreditar que já vinham morando juntas havia tanto tempo e essa situação iria prolongar-se se não houvesse ocorrido um incidente especial que diminuiu a possibilidade, segundo a sra. Dashwood, da permanência de suas filhas em Norland.

Esta circunstância foi ocasionada pelo crescente apego entre sua filha mais velha e o irmão da sra. John Dashwood, um jovem cavalheiro agradável que haviam conhecido logo depois que a irmã se estabelecera em Norland e que desde então passava boa parte do tempo lá.

Algumas mães teriam encorajado essa intimidade por motivos de interesse, pois Edward Ferrars era o filho mais velho de um homem que morrera muito rico; outras a teriam res tringido por motivos de prudência, pois, a não ser por uma soma insignificante, o total da fortuna dele dependia do testamento da mãe. Mas a sra. Dashwood não se deixava influenciar, na verdade, por nenhuma das duas considerações. Era suficiente para ela que ele fosse um cavalheiro gentil, que amasse sua filha e que Elinor retribuísse esse afeto. Era contrário ao seu modo de pensar crer que uma diferença de bens tinha poder bastante para separar qualquer casal que se sentisse atraído pela semelhança de sentimentos e era impossível para ela conceber que os méritos de Elinor não fossem reconhecidos por qualquer pessoa que a conhecesse.

Edward Ferrars não tinha a recomendação da boa opinião e nem de elogios de pessoas importantes. Não era bonito e só com um relacionamento mais profundo podia-se apreciá-lo e gostar dele por suas boas maneiras. Ele próprio não era capaz de fazer justiça a si mesmo; mas depois que conseguia dominar a timidez, seu modo de agir demonstrava que tinha um coração aberto e afetuoso, que era inteligente e possuía uma educação que lhe garantira um sólido desenvolvimento. Mas não apresentava a menor habilidade nem disposição para corresponder aos desejos tanto de sua mãe quanto de sua irmã, que sonhavam vê-lo tornar-se notável e importante por... Nem mesmo elas sabiam por quê. Queriam que ele tivesse destaque no mundo, de um jeito ou de outro. A mãe gostaria que ele se interessasse por política, que ingressasse no Parlamento ou, pelo menos, que se ligasse a algum dos grandes homens do momento. A sra. John Dashwood queria a mesma coisa, porém, no meio tempo, se algumas dessas bênçãos superiores não pudessem ser recebidas, sua ambição se aplacaria um pouco se visse o irmão dirigindo uma caleche. Mas Edward não dava importância para grandes homens ou caleches. Toda sua aspiração centrava-se em conforto doméstico e em uma vida particular tranqüila. Felizmente, ele tinha um irmão mais novo que era bastante prometedor. Edward já passara várias semanas em Norland antes de chamar a atenção da sra. Dashwood porque nessa época ela se achava imersa em uma aflição tão grande que a impedia de perceber o que a rodeava. Reparara apenas que era um cavalheiro calmo, discreto e gostara dele por isso. o sr. Ferrars não perturbava a infelicidade que preenchia a mente e alma dela insistindo com conversas fúteis. Foi levada a observá-lo melhor e avaliá-lo por uma consideração que Elinor fez um dia sobre a diferença que havia entre ele e a irmã. Esse contraste tornou-se a melhor recomendação dele aos olhos da mãe de Elinor.

- Basta dizer que o sr. Ferrars é diferente de Fanny - disse ela -, o que implica qualidades agradáveis que já me fazem amá-lo.

- Creio que a senhora vai gostar dele - afirmou Elinor - quando o conhecer melhor.

- Gostar dele! - replicou a mãe, com um sorriso. - Não consigo ter sentimentos de aprovação inferiores ao amor.

- Pode estimá-lo.

- Até agora não descobri qual é a diferença entre estima e amor.

Daí por diante a sra. Dashwood passou a se esforçar para conhecê-lo melhor. As atitudes dela tornaram-se amigáveis e logo baniram a reserva a respeito de Edward Ferrars. Rapidamente compreendeu todos os méritos do rapaz; talvez a admiração de Elinor em relação a ele ajudaram-na a compreendêlos. Mas, na verdade, sentiu-se de fato segura do valor dele quando soube que o coração de Edward era cálido e seu caráter, meigo; então, não o desmereceu nem mesmo aquela tranqüilidade de maneiras que ia ao encontro a todas as suas idéias estabelecidas de como um jovem cavalheiro deve ser.

Assim que percebeu o mínimo sintoma de amor na atitude dele em relação a Elinor, considerou o relacionamento deles como certo; assim que isso se deu, olhou muito adiante e viu o casamento como o mais imediato acontecimento a seguir.

- Em poucos meses, minha querida Marianne - disse ela -, é provável que Elinor esteja amparada para a vida toda. Vamos sentir sua falta, mas ela será Feliz.

- Oh, mamã! Como faremos sem ela?

- Meu amor, não será exatamente uma separação. Vamos morar a poucos quilômetros dela e nos veremos em todos os dias das nossas vidas. Vocês ganharão um irmão, um verdadeiro e afeiçoado irmão. Tenho a mais elevada opinião do mundo sobre o coração de Edward. Mas você ficou triste, Marianne; reprova a escolha da sua irmã?

- Talvez - confessou Marianne - eu tenha recebido essa notícia com alguma surpresa. Edward é muito querido e eu o amo Com ternura. No entanto... ele não é o tipo do jovem... Há alguma coisa que lhe falta... Sua aparência não é impressionante; ele não tem aquele encanto que eu esperava no homem destinado a ligar-se seriamente a minha irmã. Falta em seus olhos todo aquele espírito, aquele fogo que ao mesmo tempo revela virtude e inteligência. E, além de tudo isto, tenho medo, mamã, que ele não tenha bom gosto. A música parece exercer pouca atração sobre Edward e, se bem que ele admire muito os desenhos de Elinor, não se trata da admiração de uma pessoa que pode entender seu valor. É evidente que, na verdade, ele não entende nada do assunto, apesar da constante atenção que lhe dá enquanto ela desenha. Edward a admira como quem ama, não como um connoisseur. Para me satisfazer, estas qualidades precisam estar juntas.

Eu não poderia ser feliz com um homem cujo gosto não coincidisse com o meu em todos os pontos; ele precisará participar dos meus sentimentos; os mesmos livros e as mesmas músicas deverão encantar a nós dois. Oh, mamã, como foi sem vida a leitura que Edward fez para nós na noite anterior! Sinto muito por minha irmã. Mesmo que ela tenha se aborrecido com tanta austeridade, não deu demonstrações de notá-la. Mas eu mal podia ficar quieta em minha cadeira.

Ouvir aquelas lindas frases que sempre me deixam transtornada de emoção ditas com tão impenetrável calma, com tão assustadora indiferença!...

- Com certeza ele aprecia mais uma prosa simples e elegante. Pensei nisso, também, naquele momento. Vocês deveriam dar-lhe Cowper.

- Não, mamã! E se ele não se animar nem mesmo com Cowper? Mas devemos reconhecer que há gostos diferentes. Elinor não reage da mesma maneira que eu e, portanto, na certa ela irá passar por cima disso e ser feliz com ele. Mas o meu coração se partiria se eu o amasse e o ouvisse ler com tão pouca sensibilidade. Mamã, quanto mais conheço o mundo, mais me convenço de que nunca encontrarei um homem a quem possa de fato amar. Eu exijo tanto! Ele deveria ter todas as virtudes de Edward, porém a personalidade e as atitudes teriam de ornamentar sua bondade com todos os demais e possíveis encantos.

- Lembre-se, meu amor, que você tem apenas dezessete anos. Ainda é cedo para desistir de encontrar a felicidade. Por que você teria de ter menos sorte do que sua mãe? Em apenas uma circunstância, minha Marianne, o seu destino deveria ser diferente do dela!

CAPÍTULO IV

- É uma pena, Elinor - disse Marianne -, que Edward não tenha gosto por desenho.

- Edward não tem gosto por desenho? - surpreendeu-se Elinor. - Por que você pensa assim?

Ele não desenha, é verdade, mas sente grande prazer em admirar o trabalho dos outros e garanto que não lhe falta bom gosto natural, apesar de não ter muitas oportunidades para demonstrá-lo. Se tivesse tido possibilidade de aprender, penso que desenharia muito bem.

Acontece que ele não confia no próprio julgamento a respeito dessa arte a tal ponto que sempre se recusa a dar opinião sobre qualquer quadro, mas possui um bom gosto profundo e natural que dirige perfeitamente sua avaliação.

Marianne ficou com medo de ofendê-la e não falou mais no assunto; no entanto, o tipo de capacidade para avaliar os desenhos de outras pessoas que Elinor garantia com tanta animação que existia em Edward ficava muito distante daquele arrebatador entusiasmo que, na opinião de Marianne, só podia ser denominado bom gosto. Todavia, se bem que rindo por dentro, admirava a irmã pela cega parcialidade em relação a Edward que a induzia a esse engano.

- Espero, Marianne - continuou Elinor -, que você não o considere um deficiente em bom gosto. Até mesmo acredito que posso ter certeza de que não o faz, uma vez que seu comportamento com Edward é perfeitamente cordial e, se fosse essa a sua opinião, sei que você não conseguiria ser gentil com ele. Marianne ficou sem saber o que dizer. Não queria magoar os sentimentos da irmã de maneira alguma, contudo achava impossível afirmar algo que não pensava de fato. Deste modo, replicou:

- Não se ofenda, Elinor, se minha apreciação a respeito dos méritos de Edward não é igual à que você faz. Eu não tive muitas oportunidades para avaliar as mínimas propensões da mente dele, suas inclinações e gostos, como você teve. Porém, tenho a mais alta opinião do mundo sobre a bondade e a inteligência dele e o considero digno e amável em todos os pontos de vista.

- Não tenho a menor dúvida - observou Elinor, com um sorriso - de que os mais queridos amigos de Edward só poderiam ficar satisfeitos com um louvor como esse. Não vejo como você poderia ter se expressado com mais calor do que o fez.

Marianne regozijou-se por ter agradado à irmã com tanta facilidade.

- A inteligência e a bondade dele - prosseguiu Elinor -, penso eu, não podem ser colocadas em dúvida por quem veja Edward as vezes suficientes para ter com ele uma conversa sem reservas. A alta qualidade de sua inteligência e de seus princípios só pode ser escondida pela timidez que muitas vezes o induz ao silêncio. Você o conhece o bastante para fazer justiça ao seu elevado valor. Mas, devido às circunstâncias, é bem possível que conheça menos do que eu as suas mínimas propensões, como você as chamou. Temos passado bastante tempo juntos, enquanto você tem se dedicado a mamãe com grande afeto e de um modo quase exclusivo. Assim, tive a possibilidade de conhecêlo bem, de estudar seus sentimentos, ouvir suas opiniões sobre literatura e avaliar seu gosto. E aventuro-me a afirmar que, no conjunto, Edward tem um intelecto muito bem formado, aprecia livros enormemente, tem uma imaginação muito viva, um senso de observação justo e correto, um gosto refinado e puro. As muitas aptidões que ele possui enriquecem seus conhecimentos, seu caráter e sua personalidade em todos os aspectos. A primeira vista ele não impressiona e é muito difícil afirmar que é bonito, apesar de ser possível perceber a expressão de extraordinária bondade em seus olhos e a suavidade no seu modo de agir. Agora eu já o conheço tão bem que o considero de fato bonito ou quase. O que você me diz, Marianne?

- Que logo irei achá-lo bonito, Elinor, se é que já não acho. Se você me diz que devo amá-lo como um irmão, não posso ver nenhuma imperfeição no rosto e nem no coração dele.

Elinor sobressaltou-se diante desta declaração e ficou embaraçada com o entusiasmo que deixara transparecer ao falar de Edward, só então percebendo que possuía uma opinião muito elevada sobre ele. Esperava que esse sentimento fosse recíproco, porém precisava ter mais certeza disso para poder dizer a Marianne que considerava a ligação deles agradável. Sabia que para Marianne e sua mãe, o que imaginavam em um momento tornava-se certeza no momento seguinte, que para elas querer era ter esperança, e ter esperança era conseguir. Tentou explicar a verdadeira situação para a irmã:

- Não vou querer negar que o tenho em alto conceito... em alta estima, que gosto dele.

A essa altura Marianne explodiu, indignada:

- Você o estima! Gosta dele! Insensível Elinor! Oh, pior do que insensível! Envergonhada por ser diferente. Use essas palavras outra vez e sairei desta sala no mesmo instante.

Elinor não pôde deixar de rir.

- Desculpe-me - disse ela - e acredite que não pretendia ofendê-la falando com tanta tranqüilidade dos meus sentimentos íntimos. Acredite que eles são mais fortes do que eu declarei e acredite que, em suma, estão à altura dos méritos de Edward e da suspeita... ou seja, da esperança de que a afeição dele por mim poderá ser garantida sem imprudéncia ou loucura. Mas você não deve acreditar em mais do que isto. Nem eu mesma estou segura quanto à consideração dele por mim. Há momentos em que sua validade parece-me duvidosa; mesmo que os sentimentos dele sejam totalmente conhecídos, você não pode imaginar minha determinação em evitar qualquer encorajamento da minha própria parcialidade ao acreditar ou esperar que sejam mais profundos do que de fato são. Bem dentro do meu coração sinto uma pequena... uma dúvida quase inexistente da preferência de Edward. Contudo, há outros pontos a serem considerados, além de sua inclinação. Ele está muito longe de ser independente. Não podemos saber como a mãe dele de fato é; mas, se nos basearmos nas ocasionais menções de Fanny sobre as atitudes e opiniões dela, não poderemos nem sequer esperar que seja amigável. Muito me engano se Edward não estiver sabendo que encontrará enorme dificuldade em seu caminho, caso queira se casar com uma mulher que não tenha grandes posses ou elevado nível social.

Marianne estava atônita por descobrir quanto a imaginação dela e da mãe havia ultrapassado a verdade.

- Então, você ainda não está de fato comprometida com ele - constatou. - Acredito que, com certeza, isso vai acabar acontecendo. Entretanto, existem duas vantagens nessa demora: eu não o perderei tão cedo e Edward terá mais tempo e oportunidade para desenvolver o gosto pelas suas preferências favoritas, pois isto é absolutamente necessário para a futura felicidade de vocês. Oh!

Se a sua genialidade em desenhar, Elinor, o estimulasse a também fazê-lo, seria maravilhoso!

Elinor havia dito à irmã o que na verdade pensava. Parecia não considerar a própria parcialidade ao julgar Edward tão monstruosa quanto Marianne considerava. Às vezes ele mergulhava em tal desânimo que, se não fosse demonstração de indiferença, devia ser indício de algo pouco auspicioso. A inquietação de Elinor não seria maior, caso ele tivesse alguma dúvida em relação a ela; pelo menos, julgava que isso não causaria uma tristeza tão intensa como a que o dominava durante a maior parte do tempo. Um motivo mais razoável para essa tristeza poderia residir na situação dependente em que Edward se encontrava e que o proibia de ser indulgente para com as próprias afeições. Ela sabia que a mãe dele naquele momento não agiria de maneira a tornar o ambiente agradável para o filho, nem a dar-lhe segurança necessária para formar seu próprio lar, a não ser que Edward atendesse a todas as altas aspirações dela. Estando a par disto, era impossível para Elinor sentir-se à vontade ao falar nesse assunto. Encontrava-se longe de encaixar-se nas aspirações e exigências da mãe de Edward, por mais que sua mãe e sua irmã tivessem certeza de que as preenchia todas. Não. Quanto mais eles ficavam juntos, maiores dúvidas surgiam sobre a natureza dos sentimentos dele a seu respeito; às vezes, por dolorosos minutos, ela acreditava não passar de simples amizade.

Mas, fossem quais fossem de fato seus limites, eles foram percebidos pela irmã de Edward, que os considerou amplos o bastante para deixá-la preocupada e ao mesmo tempo (o que era ainda mais comum) para torná-la rude. Então, Fanny aproveitou a primeira ocasião que teve, ao ver-se sozinha com a sogra, e lhe falou de maneira tão expressiva sobre as altas aspirações do irmão, sobre a determinação da sra. Ferrars de que seus dois filhos se casariam bem e do perigo que ameaçava qualquer jovem mulher que tentasse seduzi-los, que a sra. Dashwood não pôde fingir que não sabia de nada, nem fazer de conta que estava calma. Deu-lhe uma resposta que demonstrou seu mal-estar e saiu no mesmo instante da sala, decidindo que fossem quais fossem os inconvenientes ou despesas causados por uma mudança imediata, sua amada Elinor não seria exposta mais uma vez a tais insinuações.

Encontrava-se nesse estado de espírito quando o carteiro entregou-lhe uma carta que continha uma proposta que chegava no momento exato. Era o oferecimento de uma pequena casa em Devonshire, em condições muito fáceis e que pertencia a um parente dela, cavalheiro de posses e importância. A carta era do punho do próprio cavalheiro e fora escrita com verdadeiro espírito de amigável entendimento. Ele ficara sabendo que ela precisava mudar-se e, se bem que a casa que lhe oferecia fosse apenas uma casa de campo, assegurava que poderia fazer todas as modificações que considerasse necessárias, caso a proposta lhe agradasse. Depois de dar informações pormenorizadas sobre a casa e o jardim, quase a intimou que fosse com as filhas a Barton Park, onde ele residia, para que pudessem julgar de perto o Chalé Barton, pois as duas residências localizavam-se na mesma paróquia e, com alguma alteração, a que oferecia poderia tornar-se confortável para elas. De fato, ele parecia ansioso por acomodálas e a carta estava escrita em estilo tão amigável que seria impossível deixar de aceitar o oferecimento do primo, principalmente no momento em que a sra. Dashwood sofria com a atitude fria e indiferente de seus parentes mais próximos. A situação de Barton em um condado tão distante de Sussex, como Devonshire, até poucas horas antes teria sido motivo suficiente para anular qualquer vantagem que apresentasse sobre o lugar onde morava. Mas, agora, sua localização era o detalhe que mais o recomendava. Ir embora das proximidades de Norland não mais era um mal; ao contrário, era uma condição desejável, era uma bênção diante da possibilidade de continuar como hóspede de sua nora; mudar-se para bem longe daquele amado lugar seria menos doloroso do que morar nele ou visitá-lo enquanto aquela mulher fosse a dona.

No mesmo instante escreveu para sir John Middleton expressando seu agradecimento por tanta bondade e aceitando a proposta dele; em seguida, apressou-se a mostrar ambas as cartas para suas filhas, a fim de assegurar-se da aprovação delas antes de enviar a resposta.

Elinor sempre achara mais prudente que fossem morar a alguma distância de Norland do que ficar por perto dos conhecidos. A este respeito, portanto, nada tinha a opor à intenção da mãe de mudar para Devonshire. Além disso, a casa, como sir John a descrevia, era de nível simples e o aluguel tão incrivelmente moderado que se tornava impossível basear qualquer objeção neste ponto; por outro lado, uma vez que não havia nenhum indício da realização dos seus sonhos, se bem que morar longe de Norland não fosse atraente para ela, nada fez para dissuadir a mãe de mandar a carta de aceitação.

CAPÍTULO V

Assim que despachou a resposta, a sra. Dashwood deu a si mesma a satisfação de anunciar ao enteado e a sua esposa que já havia encontrado uma casa e que, assim que ela estivesse em condições, iria poupá-los do incômodo de tê-la como hóspede. Eles a escutaram surpresos. A sra.

John Dashwood nada disse, mas seu marido desejou, civilizadamente, que essa casa não ficasse longe de Norland, e ela teve a alegria de responder que iria mudar-se para Devonshire. Ao ouvir isso, Edward voltou-se para a sra. Dashwood e, com voz cheia de espanto e tristeza que não precisavam de explicação, repetiu:

- Devonshire! A senhora vai, de fato, mudar-se para lá? Fica tão longe daqui! Em que parte do condado?

A sra. Dashwood explicou onde ficava a casa: cerca de seis quilômetros e meio ao norte de Exeter.

- É apenas um chalé - continuou ela -, mas espero receber muitos dos meus amigos lá. Pode-se acrescentar facilmente um ou dois quartos e se meus amigos não tiverem dificuldade de viajar para tão longe a fim de me ver, tenho certeza de que também não terei nenhuma em acomodá-los.

Concluiu com um amável convite para que o Sr. e a sra. John Dashwood a visitassem em Barton e o convite para Edward foi feito com um afeto ainda maior. Se bem que a últi ma conversa com a nora a tivesse feito resolver que permaneceria em Norland apenas o tempo que fosse absolutamente necessário, não havia na atitude dela a menor intenção de ir ao encontro dos desejos da dona de Norland. Não pretendia separar Edward e Elinor de maneira alguma e com aquele caloroso convite ao irmão da sra. John Dashwood quis demonstrar a ela que não dava a menor importância a sua desaprovação ao casamento deles.

O sr. John Dashwood disse à madrasta uma porção de vezes quanto sentia por ela ter arranjado uma casa tão distante de Norland, assim como por recusar sua ajuda na mudança. De fato, ele sentia uma profunda contrariedade porque essa resolução tornara impraticável qualquer esforço de sua parte para cumprir a promessa feita ao pai. Os pertences delas foram enviados por via fluvial e consistiam em roupas de cama, mesa e banho, prataria, porcelanas, livros e um bonito piano que pertencia a Marianne. A sra. John Dashwood viu a mudança ir embora com um suspiro e não pôde deixar de pensar com despeito em como era possível a sra. Dashwood ter coisas tão lindas quando o rendimento dela era tão insignificante em comparação com o seu.

A sra. Dashwood alugou a casa por um ano; achava-se completamente mobiliada e pronta para ser ocupada. Não surgiu dificuldade alguma de ambos os lados para fazer o acordo. Antes de partir rumo ao oeste, ela teria de esperar apenas o tempo necessário para dispor do mínimo que ainda possuía em Norland e para determinar o que era preciso para o uso imediato da casa, o que foi resolvido de forma muito rápida, uma vez que ela era extremamente ágil ao lidar com os próprios interesses.

Os cavalos deixados por seu marido já haviam sido vendidos logo depois da morte dele e naquelas circunstâncias oferecera-se a ocasião de dispor também da carruagem, que ela concordara em vender graças aos conselhos sábios da filha mais velha. Assim agira, então, para satisfazer a vontade das filhas, pois se fosse seguir apenas seu desejo, teria ficado com a carruagem. No entanto, a discrição de Elinor prevalecera.

O reinado da sra. Dashwood seria tão restrito que ela podia limitar a criadagem a três pessoas: duas criadas e um homem, que escolheram rapidamente entre os que haviam trabalhado para elas em Norland.

Esse homem e uma das criadas foram enviados de imediato para Devonshire, a fim de preparar a casa para a chegada da senhora, pois, uma vez que não conhecia lady Middleton, a sra.

Dashwood preferia ir diretamente para o chalé, em vez de se hospedar em Barton Park; confiava tanto na descrição que sir John havia feito da casa que não considerava necessário vêla antes de instalar-se nela em definitivo.

A pressa de ir embora de Norland não correu nem sequer perigo de diminuir graças à evidente satisfação de sua nora diante da certeza da mudança; uma satisfação que se sobrepôs à frágil tentativa de ser disfarçada por uma fria sugestão de que adiasse a partida. Era o momento apropriado para que seu enteado tomasse alguma atitude para cumprir a promessa feíta ao pai.

Uma vez que as negligenciara desde que se estabelecera na propriedade, a retirada delas da casa que fora seu lar era a oportunidade, talvez derradeira, para cumpri-la. Contudo, a sra. Dashwood já começara a perder o resto de esperança de que John Dashwood o fizesse e a se convencer, graças aos discursos que ele fazia todos os dias, de que o seu amparo iria se restringir àqueles seis meses que elas haviam permanecído em Norland. E, coisa que nenhum homem de importância deste mundo exporia aos outros, ele vivia dizendo que as despesas com a manutenção da casa cresciam cada dia mais e, comentando as perpétuas perdas causadas a sua bolsa, de tal maneira que se tinha a impressão de que era o sr. Dashwood quem precisava que lhe dessem dinheiro e não que se encontrava em condições de dá-lo a quem quer que fosse.

Poucas semanas depois do dia em que a primeira carta de sir John Middleton havia chegado a Norland, tudo se achava resolvido sobre o futuro delas, de maneira que a sra. Dashwood e as filhas podiam iniciar a viagem.

Muitas foram as lágrimas derramadas por elas no último adeus ao lugar que tanto amavam.

- Querida, querida Norland - lamentava-se Marianne, enquanto vagueava sozinha pela casa, na última noite que iriam passar ali -, quando deixarei de ter saudade de você? Quando vou aprender a me sentir na minha casa em outro lugar? Oh, casa feliz, se você pudesse saber o que sofro olhando-a de uma perspectiva que indica que talvez nunca mais voltarei a vê-la! E vocês, minhas amigas árvores! Mesmo assim, vocês continuarão as mesmas. Nenhuma de suas folhas irá cair porque vamos embora, nenhum galho deixará de movimentar-se só porque não poderemos mais vê-lo! Não. Vocês continuarão as mesmas, inconscientes da felicidade ou da tristeza que nos causam, insensíveis à mudança das pessoas que descansarão sob sua sombra! Mas quem será capaz de gostar de vocês como nós gostamos?

CAPÍTULO VI

A primeira parte da viagem foi feita em um clima de profunda melancolia, o que a impediu de ser menos do que tediosa e desagradável. Mas à medida que se aproximavam do destino, um crescente interesse pelo aspecto do condado onde iriam morar sobrepujou o abatimento delas e, quando chegaram ao Vale Barton, a paisagem alegrou-as. Era um lugar bonito, fértil, rico em árvores e pastagens. Depois de percorrer mais de dois quilômetros pelo campo, chegaram á casa que seria seu lar daí por diante. Um pequeno jardim verde a rodeava e entrava-se nesse jardinzinho por um velho e pequeno portão.

O Chalé Barton era confortável e compacto como moradia, se bem que pequeno; mas, como casa de campo, era imperfeito, pois sua forma era simétrica e a cobertura exterior, de telhas, os postigos das janelas não eram pintados de verde, não havia muros ou paredes cobertos de madressilva. Um estreito caminho ao lado da casa levava diretamente ao jardim dos fundos. À

entrada, de um lado e do outro havia uma sala com cerca de cinco metros quadrados cada; além delas, localizavam-se os aposentos da criadagem e a escada. Em cima, quatro quartos e dois sótãos completavam a casa. Não fora construída havia muitos anos e encontrava-se em bom estado. Em comparação com Norland, era pobre e pequena, sem dúvida, mas as lágrimas provocadas pelas lembranças secaram assim que as quatro mulheres entraram. Suas almas aqueceram-se diante da alegria que os criados demonstraram com sua chegada e cada qual resolveu mostrar-se feliz para não entristecer as demais. Era início de setembro, o tempo estava firme e ver pela primeira vez o lugar com a vantagem de um dia lindo deu-lhes a boa impressão de que se tratava de uma atitude premeditada, com o propósito de conseguir a aprovação delas.

A localização do chalé era boa. Altas colinas elevavam-se logo atrás dele e dos lados também, a uma distância não muito grande; algumas eram cobertas por vegetação rasteira, outras por árvores e outras, ainda, eram cultivadas. O vilarejo de Barton ficava ao pé de uma dessas colinas e se descortinava às janelas do chalé como uma linda paisagem. O horizonte em frente apresentava-se muito mais amplo, pois via-se o vale inteiro, que se perdia ao longe. As colinas que rodeavam a casa limitavam o vale nessa direção, porém ele se prolongava, com outro nome e outro formato, entre duas das colinas mais escarpadas.

Em conjunto, a sra. Dashwood ficou satisfeita com o tamanho dos móveis e da casa; o estilo de vida que haviam levado até então teria de passar por algumas alterações e o chalé precisaria de mudanças, mas isso não era problema porque ela adorava reformar e aperfeiçoar; desta vez tinha dinheiro suficiente para fazer tudo que quisesse a fim de acrescentar mais elegância aos vários cômodos.

- Quanto à casa em si, na verdade - disse ela -, é pequena demais para a nossa família, mas por enquanto vamos dar um jeito para nos acomodarmos o melhor possível, assim mesmo como ela está, porque o ano já vai avançado demais para reformas. Talvez na primavera, se eu tiver dinheiro bastante como me atrevo a acreditar que terei, pensaremos em construir. Estas duas salas são cada qual pequena demais para festas e para acolher nossos amigos, que espero receber freqüentemente. Estou imaginando utilizar parte de uma delas para ampliar a outra e deixar o que sobrar como hall de entrada. Poderemos, então, construir uma outra sala e um quarto com sótão em cima dela. Aí, sim, teremos um pequeno, mas confortável chalé. Gostaria que a escada fosse mais bonita. No entanto, não se pode querer tudo... De qualquer modo, creio que não será difícil alargá-la. Vou ver quanto poderei dispor na primavera e planejaremos a reforma de acordo com o que pudermos gastar.

Todavia, se bem que essas alterações pudessem ser feitas com as economias de um rendimento de quinhentas libras ao ano por uma mulher que jamais economizara na vida, elas eram ajuizadas o bastante para no momento se contentarem com a casa como estava. Cada qual ocupou-se em arrumar suas coisas dispondo livros e outros objetos de maneira a transformá-la em um lar. O piano de Marianne foi retirado do engradado e destinaram-lhe um lugar privilegiado; os quadros de Elinor foram pendurados nas paredes da sala de estar.

Dedicavam-se a essas ocupações quando, na manhã seguinte, foram interrompidas pela chegada de seu senhorio, que queria dar-lhes as boas-vindas a Barton e oferecer-lhes acomodação na residência dele enquanto a delas não estivesse em ordem.

Sir John Middleton era um homem com cerca de quarenta anos, de aparência agradável. Já visitara os Dashwood em Stanhill, mas isso acontecera havia anos demais para que as jovens primas se lembrassem dele. Tinha natureza bemhumorada e suas maneiras eram tão amigáveis quanto o estilo de sua carta. A chegada delas parecia dar-lhe verdadeira satisfação e era com a maior solicitude que se preocupava com seu conforto. Falou sobre um antigo e profundo desejo de manter relações estreitas com a família e insistiu cordialmente que fossem jantar em Barton Park todos os dias, até que o chalé estivesse definitivamente organizado. Apesar da insistência dele beirar os limites da incivilidade, não podiam ofender-se.

A bondade de sir Middleton não ficou apenas em palavras; uma hora depois de ele ter ido embora, uma enorme cesta cheia de verduras e frutas chegou de Barton Park, seguida ao fim do dia por outra com carne de caça. Além disso, ele insistiu em levar as cartas delas para o correio e trazer-lhes as que chegassem, rogando-lhes que não o impedissem de ter o prazer de mandar-lhes o jornal todos os dias.

Lady Middleton havia lhes mandado um gentil recado por ele, declarando sua intenção de receber a sra. Dashwood assim que ela achasse que podia ir visitá-la sem inconvenientes; como recebeu uma resposta que encerrava em si um convite igualmente polido, a Lady foi apresentada a elas no dia seguinte. Naturalmente, estavam ansiosas por conhecer a pessoa de quem boa parte do seu conforto em Barton iria depender e a elegância de sua figura mostrou-se de acordo com as expectativas. Lady Middleton não contava mais de vinte e seis ou vinte e sete anos; seu rosto era lindo, o corpo esguio e bem-feito, o porte gracioso. Suas maneiras tinham toda a delicadeza que faltava às do marido, o que era recompensado pela franqueza e afabilidade dele. A visita da Lady foi longa o bastante para esfriar um pouco o primeiro impulso de admiração porque, apesar de perfeitamente bem-educada, ela era reservada, fria e nada tinha a falar a não ser para formular as perguntas e observações sociais mais comuns.

Contudo, não foi preciso nenhum esforço para manter a conversa, pois sir John falava bastante e lady Middleton havia tido a precaução de levar seu filho mais velho, um bonito meni no de uns seis anos. (guando o assunto morria, sempre havia um recurso ao qual as senhoras podiam agarrar-se, indagando o nome dele, sua idade, louvando-lhe a beleza e fazendo-lhes perguntas que na maioria das vezes eram _respondidas pela mãe porque o menino manteve-se o tempo todo agarrado a ela, de cabeça baixa; a lady demonstrou profunda surpresa com tal comportamento, admirando-se muito pelo fato do filho estar se demonstrando tão tímido quando costumava correr desabaladamente e fazer muita gritaria em casa. Em toda visita formal, uma criança tem o papel de fornecer assunto de conversa. No presente caso, levou apenas dez minutos para que determinassem se o pequeno era parecido com a mãe ou com o pai e em que detalhes era semelhante a um ou ao outro; é claro que a opinião de todas elas diferiu e cada qual ficou muito perplexa com a opinião das outras.

Logo haveria mais uma oportunidade para as Dashwood debaterem detalhes sobre as demais crianças, pois sir John não deixou o chalé sem arrancar delas a promessa de irem jantar em Barton Park no dia seguinte.

CAPÍTULO VII

Barton Park ficava a cerca de oitocentos metros do chalé. A sra. Dashwood e as filhas haviam passado perto dele ao atravessar o vale na chegada, mas se encontrava fora de seu campo de visão pela projeção de uma colina. A casa era grande, bonita, e os Middleton viviam em um estilo de hospitalidade e elegância do mesmo nível. A primeira, para satisfação própria de sir John; a segunda, para a de sua lady. Era difícil que não houvesse amigos hospedados na casa, e eles recebiam mais do que qualquer outra família dos arredores. O que, aliás, era necessário para a felicidade de ambos; por mais que fossem diferentes por temperamento e personalidade, eles se pareciam muito na necessidade de ter contato com gente de talento e bom gosto que partilhasse suas preferências, desligados como eram dos ditames da sociedade à qual acompanhavam com passo muito lento. Sir John era esportista, lady Middleton era mãe. Ele: caçava e atirava, ela dedicava-se aos filhos e estes eram seus maiores interesses na vida. A lady tinha a vantagem de poder mimar os filhos durante o ano inteiro, ao passo que as ocupações independentes de sir John só eram possíveis durante metade desse tempo. No entanto, compromissos contínuos em casa e com os vizinhos supriam as diferenças da natureza e da educação, mantinham o bom humor do cavalheiro e davam oportunidade à esposa dele para demonstrar sua fina educação.

Lady Middleton cuidava pessoalmente da elegância da mesa, da administração doméstica, e este tipo de vaidade era seu maior prazer em todas as festas que organizava. No entanto, a satisfação de sir John no contato social era muito mais ampla e verdadeira: ele adorava reunir o maior número de jovens que sua casa podia abrigar e o barulho que eles faziam era o que mais o agradava. Era querido pelos jovens da vizinhança; todos os verões organizava festas em que se comia presunto e frango ao ar livre; no decorrer dos invernos seus bailes fechados eram numerosos o bastante para satisfazer a ansiedade de todos os rapazes e moças que sofressem da animação insaciável dos quinze anos.

A chegada de uma nova família no condado era sempre motivo de alegria para ele; por isso estava encantado, em todos os pontos de vista, com as inquilinas que ocupavam seu chalé em Barton. As srtas. Dashwood eram jovens, bonitas e simples. Isto era o suficiente para que tivesse boa opinião sobre elas, pois ser simples era tudo que uma moça precisava para ter uma personalidade tão atraente quanto uma aparência bonita. O natural espírito amigável das jovens fez com que ele ficasse contente por ter-lhes alugado a casa, apesar da situação delas ter-se tornado inferior, comparada com a vida que levavam antes. Ter ajudado as primas proporcionava um grande prazer ao seu coração e ao abrigar uma família de mulheres em seu chalé, ele sentia a satisfação negada ao esportista; pois um esportista, se bem que estime muito os companheiros do mesmo sexo, que também são esportistas como ele, nem sempre lhes dá e tem o gosto de recebê-

los em sua residência.

A sra. Dashwood e as filhas foram recebidas à porta da mansão por sir John, que lhes deu as boas-vindas a Barton Park com profunda sinceridade e, enquanto as levava para a sala de estar, revelou-lhes a preocupação que o incomodava desde o dia anterior: não pudera convidar nenhum jovem simpático para fazer-lhes companhia. Iriam conhecer, explicou, apenas um cavalheiro contemporâneo dele; um grande amigo que estava hospedado em sua casa e que, porém, nada tinha de jovem, nem de alegre. Esperava que lhes perdoassem a pequenez dessa reunião e podia garantir-lhes que isso não aconteceria de novo. Consultara várias famílias naquela manhã, na esperança de aumentar o número de convidados, mas era tempo de luar e todos estavam cheios de compromissos. Felizmente, a mãe de lady Middleton havia chegado a Barton na última hora; era uma senhora muito agradável e esperava que as jovens senhoritas não achassem tudo tão aborrecido quanto ele temia. Contudo, as jovens senhoritas, assim como a mãe delas, estavam perfeitamente satisfeitas por encontrar apenas dois desconhecidos no jantar e não desejavam nada mais do que isso.

A sra. Jennings, mãe de lady Middleton, era uma bemhumorada, simpática e gorda senhora de meia-idade que falava sem parar, parecia muito feliz e tinha atitudes um tanto vulgares. Era cheia de anedotas, de risos e antes do jantar já havia feito uma porção de observações picantes a respeito de amantes e de maridos, havia expressado o desejo de que elas não tivessem deixado seus corações em Sussex e as moças ficaram coradas ao ouvir isso, tivessem ou não deixado os corações para trás. Marianne sentiu-se embaraçada por causa da irmã e observou-a com tanta ansiedade para ver como ela reagia a esses ataques, que Elinor ficou constrangida mais pela aflição da irmã do que pelas brincadeiras vulgares da sra. Jennings.

O coronel Brandon, amigo de sir John, parecia por suas maneiras tão pouco adaptado a ser amigo dele quanto lady Middleton a ser sua esposa ou a sra. Jenninga a ser a mãe de lady Middleton. Era silencioso e sério, porém não tínha aparência desagradável apesar de, na opinião de Marianne e de Margaret, ser um completo velho solteirão, uma vez que já havia passado para o

"lado errado" com seus trinta e cinco anos. Seu rosto não era bonito, mas sua natureza era claramente sensível e seus modos, muito cavalheirescos.

Não havia nada nos participantes da reunião que a recomendasse para ser companhia das jovens Dashwood, mas a fria insipidez de lady Middleton repelia as pessoas de maneira tão forte que em comparação com ela a seriedade do coronel Brandon, a ruidosa alegria de sir John e até mesmo as atitudes vulgares de sua sogra eram interessantes. Apenas depois do jantar, lady Middleton pareceu despertar da letargia que lhe era natural para demonstrar alguma vida com a entrada de seus quatro barulhentos filhos, que saltavam em cima dela e puxavam-lhe as roupas, impedindo todo e qualquer tipo de conversa que não se referisse a eles.

Nessa noite, como alguém comentasse que Marianne estudara música, ela foi convidada a tocar. O piano foi aberto, todos se prepararam para ficar encantados e Marianne, que cantava muito bem, foi solicitada a tocar e cantar as músicas que lady Middleton havia trazido para aquela casa ao se casar e cujas partituras tinham permanecido na mesma posição em que as colocara no instrumento, pois a anfitriã celebrara o casamento abandonando a música; no entanto, de acordo com as afirmativas de sua mãe, ela tocava muito bem e, segundo a própria lady, gostava muito de tocar.

A performance de Marianne foi aplaudida com entusiasmo. Sir John expressava sua admiração em altos brados cada vez que uma canção terminava e conversava em voz bem alta durante a execução de cada uma. Lady Middleton o repreendia a todo instante, comentando não entender como a atenção de alguém podia desligar-se da música por um momento que fosse e pedia a Marianne que cantasse determinada canção quando ela acabara de cantá-la. Apenas o coronel Brandon ouvia atento o tempo todo, sem demonstrações exageradas, e oferecia a Marianne o cumprimento da atenção, fazendo com que ela o respeitasse em meio aos outros, que evidenciavam uma vergonhosa falta de bom gosto. O prazer que ele demonstrava ao ouvir música, se bem que não fosse aquele êxtase encantado que pertencia apenas a ela, tornava-se precioso em contraste com a horrível insensibilidade dos outros, e Marianne era razoável o bastante para reconhecer que um homem com trinta e cinco anos podia ainda ter sentimentos profundos e admirar coisas lindas a ponto de se emocionar. Ela sentia-se perfeitamente disposta a fazer toda concessão que o senso de humanidade conferia à idade avançada do coronel.

CAPÍTULO VIII

A sra. Jennings era uma viúva com grandes posses. Possuía apenas duas filhas e vivera para ver ambas respeitavelmente casadas; agora, nada mais tinha a fazer a não ser casar todo o resto do mundo. Desempenhava esta importante missão com zelo e empenho profundos, realizando-a da melhor maneira que suas habilidades permitiam e não perdia chance de arquitetar casamentos entre os jovens que conhecia. Era de uma rapidez impressionante para descobrir afinidades e levava a vantagem de provocar rubores e vaidades em muitas jovens damas ao insinuar o poder que elas tinham sobre determinados jovens cavalheiros. Logo depois de sua chegada a Barton, este tipo de discernimento habilitou-a a determinar sem a menor sombra de dúvida que o coronel Brandon estava apaixonado por Marianne Dashwood. Na noite em que os dois se haviam conhecido, desconfiara desse fato ao observar a maneira embevecida com que ele ouvia a moça cantar e tivera absoluta certeza de que acertara quando o convite dos Middleton fora retribuído por um jantar no chalé, ocasião em que a haviam ouvido cantar outra vez. Tinha que ser. Estava absolutamente convencida disso. Seria um excelente casamento, pois ele era rico e ela era linda.

Desde que o encontrara pela primeira vez, logo depois de ter conhecido sir John, a sra. Jennings vivera ansiosa por ver o coronel Brandon bem casado. Além disso, estava sempre ansiosa por arranjar um bom marido para cada moça bonita que conhecia.

A imediata vantagem que tinha com esses arranjos era considerável, pois forneciam-lhe uma quantidade infinita de anedotas sobre os casais que unia. Em Barton Park, ela sondara o coronel e no chalé, Marianne. Para esta última, as insinuações que fizera haviam sido indiferentes por completo, ao menos pelo que pudera perceber; para o primeiro, em princípio haviam sido incompreensíveis e depois, quando sua intenção foi compreendida, ela percebeu que o coronel não sabia se devia rir de tal absurdo ou censurar a impertinência dela. Então, considerara a reação dele resultado de uma insensibilidade própria da idade avançada e da triste vida de solteirão.

A sra. Dashwood, que não podia deixar de perceber que a imaginação de sua jovem filha via como excepcionalmente velho um homem com apenas cinco anos menos do que ela própria, aventurou-se a defender a sra. Jennings de ser classificada de ridícula por ter tido essa idéia, considerando-se as idades díspares. - Afinal de contas, mamã, a senhora não pode negar o absurdo da intenção dela, apesar de reconhecermos que não é mal-intencionada. Com certeza, o coronel Brandon é mais moço do que a senhora Jennings, mas é velho o bastante para ser meu pai, e se ainda fosse animado a ponto de se apaixonar, dificilmente sobreviveria a uma emoção dessa espécie. É também uma idéia ridícula! Quando um homem estará a salvo dessa ameaça, a não ser no momento em que a idade e a doença o protejam dela?

- Doença! - interferiu Elinor. - Chama o coronel Brandon de doente? Não me é difícil compreender que para você a idade dele pareça muito mais avançada do que para minha mãe, porém é obrigada a admitir que ele faz pleno uso de suas pernas e braços!

- Não o escutou se queixando de reumatismo? Não é esta a doença mais comum do fim da vida?

- Minha filha querida - disse a mãe delas, rindo -, neste caso você deve viver em terror contínuo com a minha decadência e com certeza acha um milagre a minha vida ter se prolongado até a idade de quarenta anos.

- Mamã, não está sendo justa comigo. Sei muitíssimo bem que o coronel Brandon não é velho o bastante para que seus amigos vivam apreensivos com a possibilidade de perdê-lo devido ao curso natural da vida. Ele pode viver vinte anos mais. Porém, trinta e cinco não é idade para se casar.

- Talvez - considerou Elinor - trinta e cinco e dezessete anos não tenham a ver com casamento entre si. Mas se houvesse alguma chance de uma mulher estar solteira aos vinte e sete anos, não acredito que o coronel, com seus trinta e cinco, fizesse qualquer objeção a casar-se com ela.

- Uma mulher com vinte e sete anos - afirmou Marianne, depois de pensar por um momento

- jamais pode ter esperança de inspirar afeto. Se sua casa for desconfortável e sua fortu na pequena, suponho que deva se submeter a desempenhar as funções de enfermeira do marido a fim de garantir a manutenção e segurança de sua vida como esposa. Casar-se com uma mulher nestas condições nada teria de impróprio, mas seria um pacto de conveniência e o mundo ficaria satisfeito. Aos meus olhos, no entanto, este não seria um casamento, de maneira alguma. Para mim, significaria apenas um contrato comercial em que cada qual se beneficiaria à custa do outro.

- Seria impossível, eu sei - replicou Elinor -, convencer você de que uma mulher de vinte e sete anos pode sentir por um homem de trinta e cinco algo muito parecido com amor e que isso o torna um companheiro desejável para ela. Mas devo me opor a que você relegue o coronel Brandon e sua esposa ao confinamento constante em um quarto de doente, apenas porque ele se queixou ontem, um dia realmente muito frio e úmido, de uma pontada reumática em um dos ombros.

- Ele também falou em colete de flanela - retrucou Marianne - e, para mim, coletes de flanela estão ligados de maneira indissolúvel a dores, cãibras, reumatismos e toda espécie de doenças que podem afligir os velhos e fracos.

- Se ele estivesse com uma febre violenta, você não o desprezaria a metade do que despreza.

Confesse, Marianne! Será que se interessa pelos rostos vermelhos e quentes, olhos brilhantes e pulsação rápida de uma pessoa febril'?

Assim que acabou de falar, Elinor saiu da sala.

- Mamã - disse então Marianne -, ando com uma preocupação a respeito de doença que não posso partilhar com ninguém a não ser com a senhora. Tenho certeza de que Edward Ferrars não está bem. Chegamos aqui há quinze dias e ele não apareceu. Nada, a não ser uma séria indisposição poderia explicar essa ausência. O que mais o reteria em Norland?

- Você achava que ele viria logo? - indagou a sra. Dashwood. - Eu não. Ao contrário, se cheguei a sentir alguma ansiedade a esse respeito, foi quando me lembrei de que ele demonstrou falta de entusiasmo e de boa vontade ao aceitar meu convite para vir a Barton. Será que Elinor ainda espera que ele venha?

- Não falei com ela a esse respeito, mas creio ser evidente que espera.

- Pois eu acho que você está enganada, porque ontem, quando conversava com Elinor sobre colocar um guarda-fogo novo no quarto de hóspedes, ela respondeu que não havia pressa em fazê-lo porque esse quarto não será usado tão cedo.

- Esquisito! O que será que isso significa? O comportamento deles um com o outro era mais do que claro! Mas como foi frio e distante o último adeus deles! Como era lânguida a conversa entre os dois na última noite em que estiveram juntos! Na atitude de Edward não havia a menor diferença quando se dirigia a mim ou a Elinor: expressou os bons votos de um afetuoso irmão para nós duas. Tentei deixá-los sozinhos duas vezes, de propósito, no decorrer da última manhã que passamos lá, e em ambas ele apressou-se a sair da sala comigo. E Elinor não chorou como eu ao deixar Norland e Edward. Mesmo agora, o autocontrole dela é invariável. Em que momento demonstrou-se triste ou melancólica? Alguma vez tentou ficar sozinha, demonstrou estar cansada ou descontente com os que a rodeiam?

CAPÍTULO IX

As damas Dashwood já se achavam instaladas em Barton com tolerável conforto. Tinham-se familiarizado com a casa e o jardim, da mesma maneira que com todos os objetos que as rodeavam, e as ocupações normais que haviam conferido a Norland a metade do encanto que lhe atribuíam voltaram a fazer parte de seus dias, oferecendo-lhes maior satisfação do que lhes oferecia lá depois da perda do pai. Sir John Middleton, que as visitara todos os dias durante a primeira quinzena e que nunca tinha percebido até então que uma casa exigia tantos cuidados, não pudera esconder seu espanto por encontrá-las sempre ocupadas.

Não recebiam muitas visitas, a não ser as que provinham de Barton Park, pois, apesar das preleções de sir John sobre que deveriam ter maior relacionamento com os vizinhos e de repetir várias vezes que sua carruagem encontrava-se à disposição delas, o espírito independente da sra.

Dashwood sobrepujava o desejo de integrar as filhas na sociedade, então recusava-se resolutamente a visitar qualquer família que morasse a uma distância maior do que um passeio a pé. Havia poucas nessas condições e a maioria das casas da região encontrava-se fora de seu alcance. A cerca de dois quilômetros do chalé, ao longo do estreito e sinuoso vale de Allenham, que se seguia ao de Barton, como já foi dito, em um dos primeiros passeios as moças haviam descoberto uma antiga e respeitável mansão que despertara a imaginação delas e as fizera querer conhecê-la melhor porque lembrava um pouco a casa de Norland. Ao se informar, ficaram sabendo que a proprietária, uma idosa senhora de ótimo caráter, encontrava-se infelizmente muito enferma para dar atenção ao mundo e nunca saía de casa.

O condado inteiro oferecia-lhes passeios lindos. As altas colinas que as convidavam, de quase todas as janelas do chalé, a respirar o delicioso ar de seus topos eram uma agradável alternativa quando a sujeira dos vales mais abaixo as impeliam a procurar as belezas superiores.

Foi para uma dessas colinas que Marianne e Margaret, em uma memorável manhã, dirigiram seus passos atraídas pelo sol parcial em um céu chuvoso; não suportavam mais o confinamento a que as havia obrigado dois dias inteiros de chuva. O tempo não se mostrava tentador o bastante para fazer com que as outras duas largassem uma seu pincel, a outra seu livro, apesar da afirmativa de Marianne de que o dia iria ficar bonito, que todas as nuvens ameaçadoras seriam levadas para longe de suas colinas. Então, as duas moças haviam saído sozinhas.

Subiam a encosta alegremente, regozijando-se a cada nesga azul que surgia no céu. Enquanto sentiam no rosto as reanimadoras rajadas de um vento de sudoeste, lamentaram o medo que impedira a mãe e Elinor de partilhar com elas tão deliciosas sensações.

- Existe no mundo felicidade maior do que esta? - perguntou Marianne. - Margaret, vamos passear por aqui pelo menos por duas horas.

Margaret concordou e as duas continuaram a caminhar contra o vento, resistindo à força dele, rindo deliciadas por cerca de vinte minutos quando, de repente, as nuvens reuniram-se sobre suas cabeças e despejaram a chuva bem em seus rostos. Surpreendidas e magoadas, viram-se obrigadas, muito contra a vontade, a voltar, pois não havia refúgio algum mais próximo do que a casa delas. No entanto, restou-lhes um consolo ao qual a exigência do momento conferiu ainda maior intensidade: bastaria descer a encosta da colina correndo com a maior velocidade possível para chegar imediatamente ao portão do jardim de sua casa.

Assim fizeram. Marianne estava bastante à frente quando um passo em falso a fez cair e Margaret, incapaz de se deter na descida para ajudá-la, continuou correndo sem querer e chegou lá embaixo sã e salva.

Um cavalheiro que carregava uma espingarda, com dois pointeres saltando ao seu redor, passava pela colina a poucos metros de Marianne quando o incidente ocorreu. Ele largou a arma no chão e correu para socorrê-la. Ela já se erguera, mas torcera um tornozelo na queda e mal conseguia ficar de pé. O cavalheiro ofereceu-lhe seus préstimos e, percebendo que a modéstia dela a faria recusar o que a situação exigia, nada perguntou e a ergueu nos braços sem demora, carregando-a colina abaixo. Entrou no jardim do chalé pelo portão que Margaret deixara aberto e levou-a diretamente para dentro de casa, onde a irmã mais nova acabara de chegar, e só a largou depois de têla acomodado em uma cadeira na sala de visitas.