Razão e sensação no Teeteto de Platão por Anderson de Paula Borges - Versão HTML

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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE FILOSOFIA

RAZÃO E SENSAÇÃO NO TEETETO DE PLATÃO

Anderson de Paula Borges

São Paulo, agosto de 2009

2

Anderson de Paula Borges

Razão e Sensação no Teeteto de Platão

Tese de Doutorado apresentada ao Departamento

de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Letras e

Ciências Humanas da Universidade de São Paulo

para a obtenção do título de Doutor.

Orientação: João Vergílio Galerani Cuter

Agência Financiadora: FAPESP/SP

São Paulo, agosto de 2009.

3

Dedicatória

À memória de minha mãe, Jurema

Tavares, pela confiança no fruto

do seu ventre e pelo amor que

sempre nutriu pelos estudos.

4

Índice

Dedicatória ......................................................................................................... 3

Índice .................................................................................................................. 4

Agradecimentos ................................................................................................. 5

Resumo .............................................................................................................. 6

Abstract .............................................................................................................. 7

Apresentação ..................................................................................................... 8

Capítulo I – Introdução ..................................................................................... 10

1.1 O significado do retorno ao espírito socrático ........................................ 10

1.2 O significado da Digressão Filosófic a ................................................... 13

Capítulo II – Razão e Sensação em Protágoras .............................................. 22

2.1 Linhas de análise do Teeteto ................................................................. 22

2.2 A interpretação do mobilismo ................................................................ 25

2.3 Platão e o mobilismo do Teeteto ........................................................... 28

2.4 O argumento mobilista de Protágoras .................................................... 30

2.5 Ousia em Protágoras ............................................................................. 31

2.6 O programa da doutrina decreta ............................................................ 39

2.7 privacidade, estabilidade e alma. ........................................................... 41

2.8 a teoria de Protágoras e os objetos estáveis . ....................................... 45

Capítulo III – Razão e Sensação em 184-6 ...................................................... 50

3.1 O argumento de 184-6 .......................................................................... 50

3.2 O sentido de aisthesis e a análise de Cooper ....................................... 55

3.3 O conceito de ousia em Platão ............................................................. 64

3.4 Ousia e Sensação ................................................................................. 67

3.5 A confiança no procedimento das definiçõe s ......................................... 70

3.6 A rejeição das espécies de conhecimento ............................................. 74

3.7 Separação entre razão e sensação no Fédon ....................................... 77

Capítulo IV – Razão e Sensação na segunda parte do Teeteto....................... 79

4.1 Identidade e Predicação: entre o Teeteto e o Sofista ............................ 79

4.2 O argumento da segunda parte do Teeteto e a tese de Russel ............ 86

4.3 Análise do argumento da segunda parte ............................................... 90

4.4 A interpretação de PF na literatura secundária ...................................... 93

4.5 Saber total, acquaintance model e saber efetivo ................................... 96

4.6 Críticas a PF ........................................................................................ 101

4.7 Solução do problema da opinião falsa ................................................. 110

Capítulo V – Razão e Sensação na terceira parte do Teeteto ....................... 111

5.1 Logos e composto na teoria do sonho ................................................. 112

5.2 A perceptibilidade dos elementos ....................................................... 122

Considerações Finais ................................................................................... 129

Bibliografia (selecionada) ............................................................................... 131

5

Agradecimentos

À FAPESP, pela bolsa de doutorado.

À minha mulher, Laudicéia, pela convivência, pelo amor e por

compreender as exigências dessa pesquisa, sobretudo no momento que estive

ausente do país.

Agradeço muitíssimo ao João Vergílio, pela orientação e confiança que

sempre depositou no meu trabalho.

Ao Marco Zingano, pelo trabalho que faz na Usp em filosofia antiga e por

ter me encaminhado para Oxford.

Aos colegas e orientandos de filosofia antiga da USP.

À professora Gail Fine, pela acolhida em Oxford e pelos comentários a

partes desse trabalho. Ao professor Paolo Crivel i, pela acolhida.

Agradeço aos demais membros da minha família, especialmente à

Jaque, pelo apoio em vários momentos.

Aos professores Roberto Bolzani e José Carlos Estêvão.

Aos amigos Carlos Eduardo e Ricardo Luiz de Mel o.

6

Resumo

Neste trabalho argumento que o Teeteto é um diálogo sobre a relação

entre o conceito de razão, entendido como uma potência específica da alma, e

a sensação, compreendida como um processo inconsciente do corpo. No

primeiro capítulo examino a análise platônica da epistemologia protagoreana.

Tento mostrar que nesta seção Platão não está argumentando uma tese

platônica sobre o mundo sensível. Ele está explicando e criticando os princípios

fundamentais da epistemologia protagoreana. No final da seção Platão explica

a distinção entre razão e sensação. Na análise da segunda parte defendo que

a massa de argumentos dessa seção formula uma tese platônica sobre a

essência do conhecimento. Por fim, no comentário da terceira definição

examino o conceito de logos da teoria do sonho e o significado da tese de que

os elementos são perceptíveis.

7

Abstract

In this work I argue that the Theaetetu s is a dialogue about the relation

between the concept of reason, understood as a kind of power of the mind, and

perception, viewed as an unconscious process of the body. In the first chapter I

examine Plato’s analysis of Protagorean epistemology. I try to show that in this

section Plato is not arguing his own view about the sensible world. He is, rather,

explaining and criticizing the fundamental principles of the protagorean

epistemology. At the end of this section Plato explains the distinction between

reason and perception. In my analysis of the second part, I argue that the mass

of arguments of this section formulates a platonic thesis about the essence of

knowledge. Final y, in my commentary of the third definition, I examine Dream’s

concept of logos and the meaning of the thesis that the elements are

perceivable.

8

Apresentação

O presente trabalho sobre o Teeteto tem duas características óbvias na

estrutura do texto. Por um lado, procuro aproximar o diálogo de alguns

argumentos da República, especialmente 523-5. De outro, tento entender como

Platão trabalha o tema razão e sensação na estrutura do diálogo. Em linhas

gerais, o Teeteto é uma análise das razões pelas quais devemos rejeitar as

teses que manifestam alguma forma de mistura (kra'si~) entre razão e

sensação. Parece-me que o núcleo da concepção das idéias em Platão

depende dessa separação. A diferença entre o que é sensível e o que é

inteligível é fundamental, sobretudo, para a consistência do conceito platônico

de Forma. O Teeteto reafirma a separação entre razão e sensação, embora

não mencione nominalmente as Formas.

Quanto à epistemologia da República, eu não ofereço uma análise, pois

isso demandaria uma preparação mais específica. Mas vou argumentar

algumas interpretações sobre certas teses que estão no corpo da obra e cujo

significado será, aos poucos, esclarecido no presente trabalho. Uma destas

teses é a noção de Forma (ei\do~) . Outra é a noção de definição como fórmula

verbal (lovgo~) para exprimir o que é perguntado na questão tiv ejsti. Os

referentes do primeiro e do último compõem classes distintas. Provavelmente

as Formas compõem uma classe menor que a classe que engloba os itens

passíveis de definição1 e, certamente, uma Forma representa uma entidade

real, enquanto que a definição é um procedimento investigativo e lingüístico

que visa exprimir o elemento essencial da Forma ou de qualquer outro item. No

Teeteto Platão dá grande ênfase ao aspecto unitário da definição, na abertura

do diálogo, enquanto que o referente de “Forma é ignorado em todo o texto.

1 Parmênides 130c-d parece não admitir Formas para certos itens. República 596ass formula

Formas para artefatos, mas Aristóteles ( Met. I, 9) diz que artefatos não estão incluídos na

Teoria das Formas de Platão.

9

Uma menção tímida, talvez , é feita por meio do conceito que Platão cita em

184-6: os koiná (aspectos comuns).

Mas o tópico que dá corpo ao presente trabalho é a relação entre razão e

sensação no Teeteto. Considero que essa relação é o tema central do diálogo,

embora não seja o único aspecto relevante. Meu trabalho procura mostrar que

o tema aparece nas três seções principais: (1) 151-186; (2) 187-200; (3) 201-

210.

Na análise da primeira seção dou especial atenção ao exame da estratégia

de Platão no tratamento de Protágoras, sobretudo no que Platão está propondo

na passagem conhecida como Doutrina Secreta (151-6), no tema do mobilismo

e no argumento de 184-6. Uma atenção redobrada é dada à última passagem.

Envolvo-me ali com uma análise da interpretação de J. Cooper. O que tenho a

dizer é crucial para firmar a relação entre as teses de 184-6 e República 523-5,

na minha interpretação.

O tema razão e sensaçã o é estudado também na análise da segunda parte

do diálogo, onde meu exame, comparado à crítica recente, é conservador.

Durante certo período de preparação do trabalho procurei ler essa seção sob a

perspectiva sugerida pela maioria da crítica: o tópico do falso estaria atrelado

às aporias de uma definição de conhecimento como opinião verdadeira, o que

explicaria seu aspecto inconclusivo. O exame teria a função de mostrar que a

estreiteza lógica dessa definição é incompatível com uma explanação da

natureza do erro. Embora eu considere que Platão está, de fato, argumentando

a simplicidade lógica do conceito de doxa, recentemente me convenci de que

esse aspecto não representa todo o argumento de Platão. Há a possibilidade

de que a segunda parte do Teeteto manifeste em sua trama um argumento

platônico sobre as exigências do conceito de conhecimento.

Por fim, apresento um comentário da teoria do sonho. Não me dedico ao

exame de todos os aspectos da terceira seção. O que me interessa é a tese

nuclear da teoria do sonho, a chamada assimetria cognitiva. Procuro verificar

em que medida essa assimetria nos ensina algo sobre o conceito de logos que

é operativo na teoria. O tema razão e sensação aparece na análise que

proponho do aspecto sensível dos elementos na teoria do sonho.

10

Antes de entrar no exame do corpo principal de teses do diálogo, gostaria

de dizer alguma coisa sobre algumas tendências de interpretação do Teeteto.

CAPÍTULO I

INTRODUÇÃO

1.1 O significado do retorno ao espírito socrático na investigação do

conhecimento.

Quero examinar um aspecto que tem se tornado relevante na crítica

recente do Teeteto, o suposto retorno ao socratismo, a perspectiva cognitiva do

mundo que ainda não é moldada por uma metafísica platônica. A preocupação

em resolver o problema da ausência, no Teeteto, de uma metafísica dos

diálogos médios, levou alguns intérpretes a uma tentativa desesperada de

resolver a situação por meio da seguinte hipótese: Platão escreve o Teeteto

sob a influência da lógica socrática do e[legco~, por isso ele não desenvolve

teses metafísicas no diálogo.2

É importante estabelecermos a medida exata desse aspecto socrático

do Teeteto. Para tanto, examinemos alguns traços “dramáticos”. O diálogo é

uma conversa entre Sócrates e os matemáticos Teeteto e Teodoro. Quando

estamos lendo esta conversa nossa posição no diálogo já deixou para trás uma

cena preliminar do Prólogo 3: Euclides e Terpsion se encontraram em Mégara

para trocar elogios sobre Teeteto, comentar as circunstâncias de sua morte e

2 Cf. SEDLEY, D., The Midwife of Platonism. Oxford: OUP, 2004; LONG, A.A., ‘Plato’s Apologies

and Socrates’, in: GENTZLER, J., Method in Ancient Philosophy. Oxford: OUP, 1998, pp. 113-

136.

3 Há alguma discussão sobre o Prólogo do Teeteto em CORNFORD, F.M., Plato’s Theory of

Knowledge. London: Routledge & Kegan Paul, 1951 [1935], p. 15; STERN, P., Knowledge and

Politics in Plato’s Theaetetus. New York: CUP, 2008, pp. 12-31; SEDLEY, 2004, pp. 15-19;

11

mencionar o encontro entre o jovem matemático e Sócrates, em algum

momento de 399 a.C. Apesar do aspecto fictício da cena, há detalhes

importantes aí. O texto principal da obra, escrito por Euclides, é na verdade um

relato escrito da conversa entre Teeteto, Teodoro e Sócrates, conversa esta

que forma o corpo principal do diálogo. Conforme o Prólogo nos conta, esse

texto foi supervisionado diretamente por Sócrates. Muitas vezes se costuma

lembrar que há uma instância disso no Banquete, pois Apolodoro também

consulta Sócrates para averiguar a exatidão do relato de Aristodemo sobre o

encontro de Sócrates com os participantes do Banquete (cf. 173b). Contudo, no

Banquete Apolodoro parece ter consultado Sócrates somente uma vez,

enquanto que, no Teeteto, a redação de Euclides é retomada com Sócrates em

mais de uma ocasião.

Há uma conexão “moral” entre esse trabalho de revisão e o contexto da

condenação de Sócrates. Embora o diálogo não informe quando Euclides

esteve com Sócrates, limitando-se a dizer que foi pouco tempo antes de sua

morte (142c7-8), há evidências de que os encontros poderiam ter ocorrido no

cenário da prisão, tanto dentro da cela como nos arredores, em algum

momento não muito distante dos procedimentos da acusação. Tudo isso pode

ser fruto da imaginação de Platão, é verdade, mas lembremos que Platão é

conhecido por dominar a arte de misturar dados históricos da vida de Sócrates

com a trama fictícia de seus diálogos. Há sempre algo a se notar aí.

Há duas datas dramáticas no diálogo que nos permitem retirar alguma

informação. A primeira é a data da conversa entre Euclides e Terpsion,

provavelmente ocorrida cerca de 30 anos após os eventos narrados, em algum

momento próximo à época da composição. Podemos estabelecer isso do

seguinte modo. Euclides menciona que viu Teeteto sendo carregado, de

Corinto para Atenas, com um ferimento de guerra (142b). Isso revela que o

Teeteto que está ali já não é mais aquele jovem com menos de 18 anos que

participa do diálogo, mas deve ser uma pessoa madura. Quanto à segunda

data, trata-se do momento em que o diálogo efetivamente se desenvolve: no

12

ginásio de Atenas em 399. Ao contrário da data de composição,4 admitida em

torno de 369, mas sem evidências definitivas, temos certeza da segunda data

dramática por causa de duas circunstâncias citadas no texto: (i) na cena inicial

Euclides conta que Sócrates conheceu Teeteto “ainda adolescente” (142c); (i )

depois, no desfecho do diálogo, Sócrates diz que precisa ir ao pórtico do rei

para tratar da acusação de Meleto (210d).5 Tomando estas duas informações

como pontos distintos num tempo cronológico, ainda que o corpo que as

contenha seja um diálogo imaginário, o fato é que os dois momentos indicam

que a conversa entre Sócrates e Teeteto ocorre às portas do julgamento,

quando Teeteto ainda é um adolescente.

Imaginemos que Platão está organizando em sua mente a ordem

cronológica das duas cenas dramáticas. Ele precisa vincular a correção de

Sócrates às visitas de Euclides a Atenas de um modo que não viole, nem a

seqüência dos acontecimentos de 399, tampouco a data na qual ele está

situando a conversa dos megáricos. O problema é que, entre o momento que

4 A maior parte dos comentadores situa a composição do Teeteto em torno a 369 a.C. As

razões são as seguintes. O Teeteto abre com a cena em que o jovem matemático é levado de

Corinto para Atenas. Ele está ferido e doente devido à “guerra”, mas o diálogo não diz qual. Se

pudermos identificar a batalha na qual Teeteto participou, podemos obter alguma informação

sobre a data de composição. Diés (1926, Notice) relata que os intérpretes se dividem entre dois

episódios: a batalha de Neméia, ocorrida em 394, e os combates no istmo, quando Atenas se

alia a Esparta contra Tebas, por volta de 369. O problema de aceitar a primeira data é que

haveria um espaço de tempo muito estreito entre a morte de Sócrates – data dramática da

conversação que constitui a essência do diálogo – e o relato de Euclides, que é um relato

escrito, preparado por Euclides e lido por seu escravo. É essa leitura que forma o texto

principal do Teeteto. O problema da exigüidade das duas datas não é tão grave, pois Euclides

poderia muito bem retratar o que Sócrates lhe contou em pouco tempo, bastando para tanto

recordar-se de um conteúdo que em 394 ainda seria relativamente recente. Mas Diès

argumenta que, neste caso, o recurso fictício à composição feita por Euclides seria inútil, pois a

função dessa composição é, precisamente, permitir a conexão entre os acontecimentos de 399

e um tempo distante, este no qual estão Euclides e Terpsion. Diès opta, então, pela data de

369. Essa data é hoje aceita pela maior parte dos intérpretes, entre os quais Burnyeat

(BURNYEAT, M. F., The Theaetetus of Plato. Indianapolis/Cambridge: Hackett ,1990) e Cornford

(1935). Mas há discordâncias. Ver Sedley, 2004, p. 1, n. 1.

5Cf. LONG, 1998, p. 121.

13

se dá o encontro de Sócrates com os matemáticos e o dia da morte do

primeiro, há um espaço de tempo muito curto para que Euclides possa visitar

Sócrates e corrigir o material do diálogo. Como Euclides teria feito seu trabalho

nestas circunstâncias?

Há três possibilidades. As correções teriam acontecido: (1) na cela; (2)

em algum momento durante o processo de acusação ou 3) em momentos

complementares que envolvem (1) e (2). Para decidir temos dois dados

relevantes. Primeiro, de acordo com o Fédon Euclides e Terpsion estavam

entre os que assistiam Sócrates no leito de morte (cf. Fédon 59c). É bem

plausível que Platão imagine que Euclides possa realizar o trabalho de revisão

neste momento. O segundo ponto é que Sócrates esperou um mês pelo

cumprimento da sentença, pois, ainda segundo o Fédon, sua condenação

coincide com o período no qual Atenas festeja o êxito de Teseu em Creta.

Durante estes festejos as execuções são interrompidas até que o navio

ateniense retorne da ilha. Portanto, trata-se de um período de tempo mais do

que suficiente para Euclides corrigir com Sócrates seu relato do Teeteto.

Tenho inclinação pela terceira opção. Penso que Platão prevê que

Euclides trabalhe o texto com Sócrates principalmente na cela, embora nada

impeça que parte da correção fosse feita momentos antes da prisão. Seja

como for, esse trabalho não poderia ser realizado num momento muito distante

da acusação, pois Sócrates termina o diálogo se dirigindo ao pórtico do rei. É a

partir desse momento, quando a conversa já se concretizou, que ele poderia ter

encontrado Euclides.

Nestas circunstâncias, temos: (i) um diálogo sobre o conhecimento; (i )

corrigido diretamente por Sócrates e (i i) no contexto de sua morte. Há algum

significado nisso para a interpretação do diálogo? A resposta talvez esteja na

Digressão Filosófica.

1.2 O significado da Digressão Filosófica.

A diferença entre o conhecimento socrático e os conhecimentos parciais

ou domésticos da vida de Atenas constitui a atmosfera da chamada Digressão

14

Filosófica. (172c-177b, daqui para frente apenas Digressão). Há um interesse

todo especial de parcela da crítica do Teeteto na Digressão. É compreensível,

pois se trata do único momento do diálogo em que, supõe-se, o espírito da

doutrin a das Formas parece entrar, sorrateiramente, na massa de argumentos

que examina a epistemologia protagoreana. Entre vários aspectos, a Digressão

menciona a importância de nos assemelharmos a deus em conhecimento.

Seria um sinal de que o Teeteto não está distante do centro de gravidade da

metafísica platônica?6

Para David Sedley o Sócrates do Teeteto é um arauto da metafísica

platônica que ainda não se entregou totalmente a ela porque permanece ligado

ao programa do e[legco~, com sua filosofia terapêutica, voltada ao

esclarecimento dos interlocutores. Por causa desse programa, o texto do

Teeteto mantém-se relativamente comedido no aspecto ontológico e nas

referências às teses da República. Mas na Digressão, lembra Sedley, o autor

do Teeteto recorda a distinção entre o conhecimento divino e o conhecimento

humano que está na base de sua metafísica. 7

Essa menção à metafísica platônica precisa ser qualificada, mas não

vou discuti-la. A interpretação de Sedley é um dos poucos tratamentos justos

dados à Digressão. Geralmente essa passagem é ignorada pelos

comentadores, sobretudo na interpretação analítica. Contudo, tenho uma

divergência com a análise de Sedley. Nela está subentendida uma tese por

meio da qual Sedley lê todo o diálogo: o Teeteto presta homenagem a um

Sócrates não-metafísico que conduz a investigação sobre o conhecimento sem

se envolver com teses positivas. Não creio que Platão tenha exercido esse

difícil despojamento de suas teses da República, e de outros diálogos, para

escrever o Teeteto. Conforme o interpreto, o espírito socrático não é uma “fase”

6 Ver Sobretudo 176a-b: “precisamos escapar (feugei'n) daqui para lá (...) e escapar é tornar-se

semelhante a deus na medida do possível [fughv de; oJmoivwsi~ qewó kata; to; dunato;n ], e se tornar

semelhante [a deus] é se tornar justo e santo com entendimento [oJmoivwsi~ de; divkaoin kai; o{sion

meta; fronhvsew~ genevsqai]

7 Cf. Sedley, 2004, pp. 62-86.

15

do autor dos diálogos que, na velhice8, lhe provoca saudosismo e o faz moldar

o Teeteto sob o impacto dessa experiência. Entendo que o espírito socrático é

um aspecto sempre atual em Platão. A monumental obra de Gregory Vlastos

sobre a epistemologia socrática não desautoriza essa conclusão, pois um

filósofo pode progredir dogmaticamente – pode incrementar seu manancial de

convicções – e ainda assim manter uma fé no método terapêutico do exame de

teses. No caso de Platão, mesmo que aceitemos, como a maior parte da

crítica, que o Mênon é o texto onde Platão começa a acrescentar novas

colunas ao edifício do e[legco~, nem todos os aspectos que se vinculam de

modo histórico a Sócrates são incompatíveis com parte desse programa.

D. Sedley e F. Cornford acham que a Digressão menciona

implicitamente as teses da República. Mas eu não concordo. O programa da

República não precisa ser invocado – mais do que qualquer outro diálogo –

sempre que um texto platônico sugere distinções ontológicas ou níveis de

entendimento no campo moral ou político.

A Digressão pode ser lida como uma passagem na qual o autor do

Teeteto está argumentando, contra Protágoras, a partir de uma perspectiva

moral. Essa perspectiva tem um forte apelo unitário na medida em que rejeita a

disjunção entre aspectos corretos do ponto de vista legal (ta; divkaia) e o que é

objetivamente vantajoso (sumfevron). Essa disjunção é o elemento-chave do

argumento, como veremos adiante. De outro lado, se é o caso de lermos o

Teeteto a partir do programa da República, o diálogo como um todo pode ser

interpretado a partir de alguns pontos nucleares dessa doutrina, mas isso

demandaria demonstrações que não posso apresentar aqui.

Eu concordo, porém, com Cornford quando ele diz que o tema central da

Digressão é contraste entre uma perspectiva filosófica que se ampara numa

ontologia unitária e o discurso forense ou político, que se adapta às

circunstâncias.9 Na Digressão Platão mostra que uma forma de

8 Se Platão (428-347) escreveu o Teeteto por volta de 369 a.C. (ver nota 02), ele está próximo

dos 60 anos e já tem umas 20 obras escritas.

9 CORNFORD, 1935, p. 89.

16

protagoreanismo permite justificar isso . Essa diferença se revela no contraste

entre o filósofo e o orador, um contraste bastante explorado pela Digressão. O

efeito mais terrível desse contraste foi a morte de Sócrates.

A Digressão mostra que a complexidade da questão sobre o

conhecimento tem implicações num programa moral. Esse programa, no

entanto, não pode ser plenamente desenvolvido no Teeteto, pois o diálogo já

está engajado no tema epistemológico. A Digressão está ali para lembrar que o

exame do conhecimento em Protágoras não é sem conseqüências para as

questões éticas. Note-se, a esse respeito, que a epistemologia protagoreana

referenda o ponto de vista de que os valores são relativos. A Digressão

argumenta que essa linha não se limitará a justificar os predicados sensíveis

sobre as propriedades da experiência comum com as coisas. Ela também será

considerada válida no campo moral e político. A Digressão, nesse sentido,

deve ser lida junto com a Apologia de Sócrates. Desse modo seriam lembradas

as conseqüências do vínculo, aparentemente inocente, entre relativismo e

política.

A Digressão pode ser lida sob a perspectiva da Apologia em vários

aspectos. O Teeteto retrata um Sócrates que não tem propriamente uma

definição formal de conhecimento, mas percebe uma série de equívocos e

inconsistências em várias definições correntes. Especialmente no tipo de

postura que se esperava dele ao se dirigir aos juízes ou às pessoas que

assistiam a seu julgamento, Sócrates percebeu a inevitabilidade desse

conhecimento negativo. A Digressão mostra que o saber filosófico se opõe a

algumas atitudes típicas nos tribunais, entre as quais a fala marcada por

tempo, a adulação dos juízes e a resposta precisa aos artigos da acusação (cf.

172d-173b).

Rachel Rue nota que na Digressão Sócrates retrata o filósofo sob o

signo na inabilidade política: “é particularmente apropriado Sócrates escolher o

tribunal como cenário da ‘aparência ridícula’ do filósofo, já que, como sabemos

pelo prólogo, ele está prestes a entrar na sala de audiência.” 10 A Digressão

10 RUE, R., ‘The Philosopher in Flight: the Digression (172c-177c) in Plato’s Theaetetus’, Oxford

Studies in Ancient Philosophy, 11 (1993), pp. 71-100, aqui p. 75.

17

mostra que o filósofo é inábil no tribunal porque não reconhece os rituais do

jogo político. É provável que Platão não aprove o retrato do filósofo que o

Teeteto oferece, uma caricatura do pensador idealista que desconhece as

questões da vida da cidade, mas o texto da Digressão é muito claro sobre o

abismo intelectual que separa “os dois coros” (173b): o dos filósofos e o dos

oradores.

Examinemos como essa diferença é mais uma das conseqüências da

tese de Protágoras. Do ponto de vista da ordem dos argumentos, a Digressão

está inserida num conjunto de 12 objeções à tese protagoreana. Estas

objeções se iniciam em 161b, com a referência à anphidromia da tese. Antes

da Digressão, são 9 argumentos: (1) objeção da percepção dos animais

(160e2-161d2); (2) objeção da pesquisa filosófica (161d3-162a2); (3) objeção

da percepção dos deuses (162a4-162d2); as respostas de Protágoras às três

primeiras (162d3-163a6); (4) objeção da linguagem e do alfabeto (163a7-c5);

(5) objeção da memória (163c5-165a3); (6) objeção do olho coberto (165a4-

165d2); (7) objeção dos advérbios (165d2-e4); segue a Defesa de Protágoras

(165e4-168c2) onde o sofista responde aos argumentos anteriores nesta

ordem: 5, 6, 1, 2, e 7; (8) objeção chamada peritropē (168c2-171c7) ou auto-

refutação; (9) objeção sobre o divórcio entre benefício e justiça (171c7-172b9);

a Digressão (172c1-177b8); (10) objeção das especialidades (177b8-179b9);

(11) objeção do mobilismo (179c1-183c2) e a refutação final sobre a distinção

entre percepção e conhecimento (183c3-187a9).

Não é possível, obviamente, tratarmos dos detalhes destes

argumentos.11 Mas a descrição da estrutura da crítica permite perceber que a

Digressão se segue à nona objeção: a proposição do divórcio entre justiça e

benefíci o. A crítica a esta posição principia de modo indireto, sendo explícita

somente na Digressão. Inicialmente, a crítica se apresenta sob a forma de uma

nova defesa de Protágoras. Tendo concluído a análise da oitava objeção, o

argumento da auto-refutação, Sócrates diz que o ataque a Protágoras foi muito

violento (171c7). É preciso retomar o dito a partir de uma base “mais sólida”.

11 Para uma análise de todas as objeções na ordem que aparecem no texto ver CHAPPELL, T.,

Reading Plato’s Theaetetus. Indianapolis/Cambridge: Hackett, 2005, sobretudo pp. 86-149.

18

Reelaborando os elementos da Defesa de Protágoras (166d-167a), Sócrates

divide o dito em dois níveis: em matéria de sensações, o que percebemos é o

que define o ser de cada objeto. Chamemos essa posição de (a). De outro

lado, se Protágoras admitir que existem casos nos quais alguns homens são

superiores a outros, ele deve estar preparado para conceder isso em assuntos

como saúde ou política. Chamemos a última posição de (b).

Sócrates argumenta os dois níveis do dito da seguinte forma. Primeiro,

na esfera política temas como justo e injusto, o que é aceitável religiosamente

ou não, honra, etc., são valores que as cidades podem conceber segundo os

parâmetros do relativismo sensível que temos em (a). É um relativismo dentro

de um regime político. Sobre tais temas não há critérios objetivos e as cidades

ou os indivíduos julgam conforme suas inclinações (cf. 171e-172). Mas

suponha que se trata de decidir acerca do que é vantajoso (sunfevron ) no

interesse da cidade. Neste caso estamos no terreno de (b), isto é, não é correto

proceder da mesma forma que na situação anterior, onde os valores são

relativos. Isso significa que Sócrates reclama que haja pelo menos uma classe

de valores que as cidades precisam considerar conforme um critério objetivo de

verdade. Sócrates, evidentemente, não aceita essa visão porque ele não limita

desse modo os valores, mas ele não critica diretamente isso nesta parte do

diálogo. O que então o teria levado a conceder uma plausibilidade provisória ao

protagoreanismo no campo político?

Penso que a concessão se justifica porque a intenção de Sócrates é

mostrar as conseqüências desta posição na Digressão e no que a segue.

Antes da Digressão ele trabalha com o dito naqueles dois níveis que

mencionei. O primeiro nível é o núcleo da tese protagoreana, núcleo este que

tem por essência uma tese cognitiva baseada na sensação como critério. No

texto Sócrates passa dos predicados sensíveis quente, seco, doce para os

predicados justo e injusto num único passo, propondo que os últimos sigam a

mesma lógica dos primeiros no âmbito da cidade. Todavia, quando cita o tema

do que é vantajoso, Sócrates retém a perspectiva da objetividade.

A linha geral dessa análise da Digressão está propondo o seguinte.

Sócrates concede aos sujeitos da epistemologia protagoreana a possibilidade

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de sustentarem suas convicções conforme a demanda particular ou social nas

cidades, ao mesmo tempo que procura garantir para o Estado uma esfera

mínima de valores em torno do que é benéfico e prejudicial. É esse o sentido

do “vantajoso”. Temos aqui, explicitamente, um divórcio entre justiça e

benefício que, como afirma Chappel 12, não é muito diferente da distinção entre

prudência política e moral na sociedade moderna.

Alguns comentadores notam que não é clara a posição de Sócrates

sobre esse divórcio. Contudo, penso que a Digressão indica que Sócrates se

mantém numa defesa da perspectiva cognitiva para os temas da vida política,

sem dar detalhes dessa posição. Na Digressão Sócrates defende que é mais

apropriado pensar aqueles temas (justiça e bem) num processo de

investigação que aproveita o tempo de estudo, do que concebê-los no ritmo

agitado e rigidamente controlado da cena política. É por isso que o primeiro

assunto da Digressão é a diferença entre o tempo de que dispõem os filósofos