Realismo e racionalidade: o otimismo epistêmico em questão por Emerson Ferreira de Assis - Versão HTML

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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE FILOSOFIA

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM FILOSOFIA

Emerson Ferreira de Assis

Realismo e Racionalidade: o otimismo epistêmico em

questão

(exemplar revisado)

São Paulo

2013

Emerson Ferreira de Assis

Realismo e Racionalidade: o otimismo epistêmico

em questão

Tese apresentada ao programa de

Pós-Graduação em Filosofia do

Departamento

de

Filosofia

da

Faculdade de Filosofia, Letras e

Ciências Humanas da Universidade

de São Paulo, para obtenção do

título de Doutor em Filosofia sob a

orientação do Prof. Dr. Caetano

Ernesto Plastino.

De acordo:

(exemplar revisado)

São Paulo

2013

2

“Sejam quais forem o modo e os meios pelos

quais um conhecimento se possa referir a objetos,

é pela intuição que se relaciona imediatamente

com estes e ela é o fim para o qual tende, como

meio, todo o pensamento. Esta intuição , porém,

apenas se verifica na medida em que o objeto

nos for dado; o que, por sua vez, só é possível,

[pelo menos para nós homens,] se o objeto

afetar o espírito de certa maneira. A capacidade

de receber representações (receptividade ),

graças à maneira como somos afetados pelos

objetos,

denomina-se

sensibilidade.

Por

intermédio, pois, da sensibilidade são-nos dados

objetos e só ela nos fornece intuições; mas é o

entendimento que pensa esses objetos e é dele

que provêm os conceitos.Contudo, o pensamento

tem

sempre

que

referir-se,

finalmente,

a

intuições, quer diretamente (directe), quer por

rodeios (indirecte) [mediante certos caracteres]

e, por conseguinte, no que respeita a nós, por

via da sensibilidade, porque de outro modo

nenhum objeto nos pode ser dado.”

Kant: Crítica da Razão Pura;

Estética transcendental, parágrafo 1 - B33

“Pelas condições da nossa natureza a intuição

nunca pode ser senão sensível, isto é, contém

apenas a maneira pela qual somos afetados pelos

objetos, ao passo que o entendimento é a

capacidade de pensar o objeto da intuição

sensível.

Nenhuma

destas

qualidades

tem

primazia sobre a outra. Sem a sensibilidade,

nenhum

objeto

nos

seria

dado;

sem

o

entendimento,

nenhum

seria

pensado.

Pensamentos sem conteúdo são vazios ; intuições

sem conceitos são cegas. Pelo que é tão

necessário tornar sensíveis os conceitos (isto é,

acrescentar-lhes o objeto na intuição) como

tornar compreensíveis as intuições (isto é,

submetê-las aos conceitos). Estas duas

capacidades ou faculdades não podem permutar

as suas funções . O entendimento nada pode

intuir e os sentidos nada podem pensar. Só pela

sua reunião se obtém conhecimento.”

Kant: Crítica da Razão Pura; B75

3

Agradecimentos

Muito especialmente ao professor Doutor Caetano Ernesto Plastino,

pela condução rigorosa da pesquisa, grande companheirismo e paciente

compreensão de minhas limitações.

Aos professores Osvaldo Pessoa e Pablo R. Mariconda, pelas valiosas

sugestões no momento do exame de qualificação e durante os cursos que

ministraram no departamento.

Aos professores visitantes que ministraram cursos e seminários no

departamento, em especial o professor Hugh Lacey pela possibilidade de

discutir ideias, além das valiosas sugestões.

À minha esposa Ana pelo apoio constante e paciência incomum.

Aos

funcionários

do

departamento

de

pós-graduação

do

departamento de Filosofia, da secretaria e da biblioteca, pela presteza nas

inúmeras solicitações.

À Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, pela

oportunidade de realização do trabalho de doutoramento.

À Coordenação de aperfeiçoamento de pessoal de nível Superior

(CAPES), pela bolsa concedida durante o desenvolvimento do trabalho na

pós-graduação.

4

Resumo

Assis, Emerson F. Realismo e Racionalidade: o otimismo epistêmico

em questão. 2013. 286 f. Tese (Doutorado) – Faculdade de Filosofia,

Letras e Ciências Humanas. Departamento de Filosofia, Universidade

de São Paulo, São Paulo, 2013.

O realismo científico é uma concepção filosófica da ciência que

assume uma atitude epistêmica positiva em relação às melhores

teorias

científicas

disponíveis,

recomendando,

sob

algumas

circunstâncias (em geral o atendimento de princípios metodológicos

bem estabelecidos), a crença nas afirmações que estas teorias fazem

a respeito do observável e do inobservável. Hilary Putnam, um dos

nomes mais salientes no atual cenário filosófico anglofônico, é um

autor que, mesmo tendo mudado diversas vezes concepções centrais

de suas propostas filosóficas, tem no realismo científico um interesse

perene. Em sua mais recente produção, tem defendido que a

relatividade conceitual (uma marca característica de muitas

abordagens antirrealistas acerca da ciência) é compatível com o

realismo científico (Putnam: 2012; p. 63). Esse trabalho procurará

investigar a possibilidade de sustentar a proposta de Putnam,

analisando a relatividade conceitual e os pressupostos realistas no

campo que efetivamente separa as posições realistas e antirrealistas

da ciência: o entendimento do que as melhores teorias científicas

afirmam sobre o inobservável. Antirrealistas são em geral agnósticos

em relação às proposições sobre o inobservável, ou instrumentalistas

em relação a essa parte da teorização científica, ao passo que

realistas (sob as circunstancias acima evocadas) afirmam que é

epistemicamente justificável acreditar na existência dos ditos

“inobserváveis” e que a descrição científica dos mesmos “representa”

características desses eventos ou objetos. Concluímos que a proposta

de Putnam leva ao que o mesmo chama em “Ética Sem Ontologia” a

uma “Objetividade sem Objetos”, uma forma de realismo local (aqui

entendido

como

envolvimento

direto

com

o

processo

de

mensuração/interação

do

objeto

ou

evento),

de

caráter

eminentemente estrutural e cujo pronunciamento ontológico mais

significativo é de que o mundo responde e restringe nossas ações, e

esse responder (uma metáfora adequada seria ressoar) nos permite

conhecê-lo. Construímos imagens do mundo, mas uma ontologia final

assim como uma narrativa absoluta dos eventos está fora de nossas

possibilidades cognitivas.

Palavras-chave: Realismo, ontologia, realidade, dimensões de

comprometimento.

5

ABSTRACT

Assis, Emerson F. Realism and Rationality: the epistemic optimism in

question. 2013. 286f. Thesis (Doctoral) - Faculdade de Filosofia,

Letras e Ciências Humanas. Departamento de Filosofia, Universidade

de São Paulo, São Paulo, 2013.

Scientific realism is a philosophical conception of science that

assumes a positive epistemic attitude about the best available

scientific theories, recommending, under some circumstances

(usually the meeting of some well established methodological

principles), the belief concerning what these theories claim about the

observable and unobservable. Hilary Putnam, one of the most

prominent names in the current Anglophonic philosophical scene, is

an author even having changed central conceptions in their

philosophical thought along time, keep scientific realism as an

perennial interest. In his latest production, has argued that

conceptual relativity (one hallmark of many anti-realists approaches

about science) is compatible with scientific realism (Putnam 2012, p.

63). This work will seek to investigate the possibility of supporting

what was proposed by Putnam, analyzing conceptual relativity and

realistic assumptions in the field that effectively separates realistic

and anti-realists conceptions of science: understanding what the best

scientific theories say about unobservable. Anti-realists are at large

agnostic about the unobservable or instrumentalists in relation to

that part of scientific theorizing, while scientific realists ( under the

circumstances mentioned above ) say the believe in the existence of

said "unobservable" is epistemically justified, as the scientific

description of that events or objects. We conclude the Putnam idea

leads to what they call in "Ethics Without Ontology" for a "Objectivity

without objects", a form of local realism (here understood as direct

involvement with the measurement process / interaction with the

object or event), eminently structural character and whose

ontological statement more significant is the world responds and

restricts our actions, and that answer (an apt metaphor would be

resonate) allows us to meet him. We build images of the world, but

an final ontology as well as an absolute narrative of events are out of

our cognitive possibilities.

Keywords: Realism, ontology, reality, dimensions of commitment.

6

SUMÁRIO

Resumo_______________________________________________ 5

Introdução_____________________________________________ 8

Capítulo 1: Realismos científicos e seus problemas_____________ 22

Capítulo 2: Observação, observabilidade e objetivo: Processos

epistêmicos e o status representacional das teorias e modelos____ 68

Capítulo

3:

Putnam,

relatividade

conceitual

e

elementos

epistemológicos fundamentais de uma interpretação da mecânica

quântica______________________________________________149

Capítulo 4: O epistêmico e o cognitivo: Em busca de uma noção de

realidade_____________________________________________194

Capítulo 5: Considerações finais: realismo sobre alguma coisa ou

somente um antirrealismo a escolher? _____________________245

Referências bibliográficas________________________________277

7

Introdução

Uma das características mais notáveis da ciência moderna é

que ela explica e prevê fenômenos que podemos observar

postulando entidades que não podem ser observadas. Muitas das

explicações científicas a respeito de diversos fenômenos, cotidianos e

nem tão cotidianos, apelam para entidades que são pequenas demais

para serem vistas - a TV funciona porque os elétrons estão sendo

emitidos na direção da tela fazendo-a iluminar-se em determinados

padrões, que constituem as imagens; a cor dos olhos de um sujeito

é tal qual porque o sujeito herdou dos pais o DNA que estabelece a

cor dos olhos, segundo certas regras de permutação que implicam

certas probabilidades; a febre surge porque um vírus ataca o sistema

imunológico.

Algumas explicações recorrem a entidades que são tão grandes,

ou estão tão longe – a radiação de estrelas distantes apresenta uma

frequencia ligeiramente menor do que o esperado porque o universo

(grande demais para ser visto) está em expansão; mas este não

está se expandindo tão rápido quanto se pensava dado que contém

"matéria escura" - objetos (por exemplo, planetas, mas outras coisas

ainda a serem “descritas”) que não emitem luz no espaço, por isso

não podem ser detectados por meio de observações astronômicas

normais, mas afetam o campo gravitacional. E algumas entidades

não são observáveis não por causa de seu tamanho, forma ou

distância, mas simplesmente por causa de sua natureza – objetos de

metal são atraídos para um imã devido ao campo magnético; a

massa (inercial) de um objeto faz com o mesmo resista à aceleração,

8

mas nem o campo magnético nem a própria massa podem ser

diretamente observados .

Entidades desse tipo estão presentes na maior parte das teorias

da ciência moderna. Mas o fato de que nós, seres humanos que

construímos essas teorias, não as observamos diretamente – isto é,

por meio dos sentidos desarmados - levanta a questão: sabemos, se

o sabemos, que essas entidades estão realmente “lá”? De que forma

o sabemos ou podemos saber? Estas perguntas dividem os filósofos

da ciência em dois grandes grupos: realistas científicos - que

acreditam na realidade das entidades teóricas - e antirrealistas – que

são agnósticos ou instrumentalistas acerca das entidades teóricas

inobserváveis.

A distinção entre o que é observável e o que é inobservável

está presente de longa data na filosofia e, em particular, nas

investigações filosóficas acerca da ciência. Mais ainda, tal oposição é

encarada como

fundamental

por muitas escolas filosóficas

(particularmente aquelas abertamente orientadas pelas convicções

empiristas). Seguindo Smart (1963, cap. II), coisas como mesas,

pedras, árvores e estrelas existem no mundo; são objetos físicos

macroscópicos

incontroversos.

Por

outro

lado,

entidades

microscópicas de diferentes teorias científicas como prótons,

nêutrons, elétrons, mésons, fótons, DNA, entre outros, têm

continuamente sua existência e suas respectivas descrições colocadas

em xeque. Muitos filósofos, inspirados não raro pelas declarações de

natureza epistemológica de cientistas do calibre de Niels Bohr

(1957[2008]), afirmam que conceitos desse tipo não fazem

referência ao estoque de entidades do mundo, mas são dispositivos

conceituais para prever e manipular o comportamento de objetos

macroscópicos tais como pedras e voltímetros. De certo modo, tal

abordagem entende, por exemplo, a palavra “elétron” como um

9

conceito útil pertencente a uma teoria física, que permite aos

usuários dessa teoria falar de maneira mais cômoda a respeito de

observações efetuadas de objetos macroscópicos, por exemplo, um

traço em uma câmara de nuvens (de Wilson). De modo mais preciso,

inobservável, como o termo indica, se relacionaria àquilo que não

pode ser observado. Sendo mais justo, entretanto, inobservável diz

respeito àquilo que não pode ser constado diretamente pelos sentidos

(Chakravartty, 2007; cap. 1, pág. 4). Muito do debate entre realistas

e antirrealistas pode ser dissolvido, possivelmente, se for levada em

conta essa premissa, embora não haja consenso acerca desse

posicionamento no âmbito da Filosofia da Ciência. Enquanto conceito

filosófico, “inobservável” é o sucessor do que no empirismo lógico era

chamado de “conceito teórico”.

Essa distinção entre o que é observável e o que é inobservável

passa a ser fundamental na filosofia moderna, em especial para os

empiristas, como já mencionado. Assim, seguindo van Fraassen

(1980), a postura empirista sugere a crença no que a ciência tem a

dizer somente sobre o que é observável; o que a ciência diz sobre o

inobservável, pode ou não fazer referência a coisas existentes no

mundo, mas não são dignas de crédito dado que o método de acesso

(cognitivo) a tais entidades é necessariamente indireto.

Se esse debate permanecesse nos compêndios de filosofia, a

situação seria menos problemática. No entanto, a querela

epistemológica acaba por influenciar as concepções de ciência e do

valor cognitivo do conhecimento científico, tanto do homem comum,

essa figura tão menosprezada pela filosofia (com exceção, talvez, da

escola pragmatista) quanto do cientista em formação (Pietrocola:

1999; Westphal & Pinheiro: 2004). O homem comum, por seu lado,

desde que não afetado por qualquer problema psiquiátrico ou

cerebral, crê que conhece as coisas que estão ao seu alcance: as

10

pedras, mesas e árvores incontroversas, tal como sugere Smart. Isso

significa que ele acredita que suas crenças a respeito de cadeiras,

mesas, automóveis etc. correspondem às características dos objetos

em questão. Ele sabe (ou pelo menos pensa saber) que a cadeira é

de madeira e a mesa é marrom. Cientistas (particularmente os

praticantes das ciências naturais), pelo menos alguns, em alguns

momentos, parecem crer também que os objetos ao seu alcance são

objetos do conhecimento. No entanto, para além dos objetos

cotidianos incontroversos, nossas cadeiras, mesas e árvores, o

cientista pensa estarem ao seu alcance, por meio de diferentes meios

experimentais e teóricos, elétrons, quarks, genomas, entre outras

“entidades” propostas pelas melhores teorias científicas disponíveis.

O homem comum, embora nem sempre compreenda perfeitamente

essas entidades, acredita no poder da ciência em conhecer e

manipular esses objetos, e nisso parece ser seguido pelos cientistas

(que em geral são muito mais cautelosos em suas afirmações acerca

da crença nas proposições científicas, preferindo termos como “trata-

se de um bom modelo”; “tal teoria dá conta dos resultados

experimentais”, etc.). Essa crença mais ou menos ingênua na

existência e na veracidade das descrições das entidades do mundo é

o chamado realismo de sendo comum ou ingênuo (p.ex. Giere: 2006,

pág. 4).

Em sua crença ingênua, o homem comum acredita que a

ciência, em sua busca pela verdade, produz conhecimento do mundo

(isto é, conhecimento acurado do real). Estar de posse do

conhecimento científico parece equivaler à posse da verdade.

Entretanto, as análises críticas que diferentes filósofos realizaram no

decorrer do século XX (evocadas brevemente acima) colocaram em

xeque essa imagem científica do senso comum, mostrando que o

conhecimento científico é parcial, falível, permeado de valores.

11

Admitindo, por força do hábito, que o conhecimento seja crença

verdadeira justificada, o conhecimento científico, interpretado pela

filosofia do século XX, mostrou-se como crença, mas a questão de

sua justificação ainda está em aberto, tanto quanto a questão do que

significaria dizer que o conhecimento científico seja verdadeiro.

Assim sendo, o quadro geral que se apresenta na filosofia da

ciência em relação ao valor cognitivo das teorias científicas pode ser

sumarizado como segue: de um lado (chamemos essa concepção de

“realismo”) se sustenta a crença nas teorias científicas e em sua

capacidade de descrever o modo como é constituída a realidade; tal

confiança se sustenta seja pela incrível e crescente capacidade de

construção de tecnologias cientificamente informadas, seja pela

capacidade da ciência em explicar e prever os mais diferentes

fenômenos. A ciência parece conhecer a realidade, pois tem sido bem

sucedida em dominá-la. Entretanto, seguindo diferentes trajetórias,

diferentes filósofos tentaram mostrar que a suposição de que o

controle da natureza é um indício de conhecimento da natureza não é

uma inferência tão óbvia (p. ex., Adorno e Horkheimer: 1947[2002];

Lacey: 1999). O que divide estas últimas interpretações da concepção

realista são, por assim dizer, temas de natureza extra epistêmica que

implicam a discussão ou questionamento epistêmico da ciência.

De outro lado, e mais tradicionalmente, o ceticismo seletivo

proposto pelas abordagens empiristas recusa parte fundamental da

concepção realista da ciência (que é a aceitação da descrição

proposta

acerca

do

inobservável

como

verdadeira

ou

aproximadamente verdadeira). No entanto, se entre o realismo e as

críticas de natureza sociológica da ciência o debate se dá em geral

recorrendo a termos extra epistêmicos, o debate entre realistas e

empiristas se dá essencialmente nos mesmos termos (p. ex., o valor

da observação; das previsões bem sucedidas; das teorias bem

12

testadas e aceitas pela comunidade científica; o uso de instrumentos

científicos; etc).

O que separa realistas e empiristas no campo da filosofia da

ciência é a valoração que cada um dá aos elementos metodológicos e

epistemológicos entendidos como presentes na atividade científica,

valorações tais que implicam discordância direta em relação a

amplitude possível da ontologia científica (ou melhor, da crença de

natureza ontológica aceitável baseada nas melhores teorias

científicas disponíveis). Exemplo simples: a distinção observável e

inobservável é fundamental a qualquer posição empirista; já para o

realista, ela é dispensável (Maxwell: 1962), embora compreensível no

interior de uma postura realista. A previsão de fatos novos interessa

a realistas e empiristas, mas o peso epistêmico que cada um atribui a

tal fenômeno é distinto. Nesse sentido, entre a concepção realista e

as abordagens alinhadas com o empirismo o debate se dá em um

contexto de conceitos metodológicos e epistemológicos que não estão

em questão: um debate propriamente antes que um questionamento

radical.

Assim, a ciência, como atividade humana complexa que é,

apresenta diversas faces passíveis de análises distintas. Essa

multidimensionalidade da atividade científica, sem adentrar muito na

questão, levou ao surgimento de um domínio cultural bem

determinado, hoje conhecido como Science Studies. Neste amplo

campo de possibilidades que são os Science Studies, a questão do

status cognitivo das teorias científicas poderia ser discutida a partir

de ângulos distintos, p. ex. uma interpretação sociológica do

conhecimento produzido, uma análise histórica da formação,

manutenção e reformulação do conhecimento científico efetivamente

produzido, etc. No entanto, reconhecendo e admitindo todas essas

possibilidades, esse trabalho considerará uma questão bastante

13

específica: a natureza das proposições e conceitos relacionados ao

inobservável, o que pode ser expresso nas questões sobre o que pode

ser filosoficamente inferido do que as melhores teorias científicas

disponíveis afirmam (i) sobre a existência dos ditos “inobserváveis” e

(ii)

do

status

cognitivo

das

descrições

científicas

desses

“inobserváveis”.

Desse modo, metodologicamente, dados os interesses deste

trabalho e suas limitações, não serão consideradas as críticas de

natureza extra epistêmicas. Por outro lado, é importante salientar

que a recusa em tratar essas questões não implica a recusa de

legitimidade de tais questionamentos, tampouco se recusará a análise

de autores fortemente associados a essa tradição crítica.

Dado que o interesse deste trabalho é a análise da natureza

epistêmica de uma classe específica de proposições no corpo de

conhecimento científico (as proposições a respeito do inobservável), o

debate realismo x antirrealismo é o lócus em que a questão tem

maior saliência, e logo a leitura dos termos básicos em que se dá

esse debate é uma decorrência natural da escolha do objeto de

pesquisa, embora a questão possa apresentar interesse para além do

debate em que ela ocorre com centralidade. O tema que divide essas

“posições” filosóficas é exatamente a crença ou não a respeito do que

é afirmado, pelas teorias científicas, sobre elementos que estão para

além da observação imediata realizada pelos sentidos desarmados1.

Realismo e de volta ao realismo

1 Note-se que o realismo é uma posição filosófica com dimensões metafísica, epistêmica e semântica

características. Qualquer concepção filosófica que recuse uma dessas dimensões pode ser encarada

como antirrealista. Essas dimensões serão discutidas no capítulo 1

14

As questões sugeridas por este trabalho estão fortemente

presentes no debate estabelecido a respeito do realismo científico. E

é na obra de Putnam que este tema possui abrigo perene, ainda que

o próprio Putnam seja um filósofo amplamente conhecido por mudar

suas opiniões, alguma vezes de maneira radical.

O percurso de Putnam na trilha do realismo começa já no início

de sua carreira. Nesse primeiro momento, Putnam defende um

realismo de amplo sentido, mas inegavelmente com uma orientação

para o realismo científico que, conforme ele mesmo diz (Putnam:

2012, cap. 4) nunca abandonou. O primeiro resultado importante

desse período, em relação ao tema, é o famoso argumento do

milagre, o qual será discutido em profusão no capítulo 1.

O ano de 1976 marca o início da primeira guinada do realismo

putniano. É nesse ano que surgem os elementos fundamentais do

que ficaria rotulado como realismo interno. Essa remodelação do que

deveria ser considerado como um realismo sustentável tem múltiplas

fontes, que vão evoluindo no tempo, a aqui esboçamos apenas os

aspectos elementares.

O primeiro desenvolvimento importante é a percepção de que

há uma forma de realismo que Putnam chama de Realismo

Metafísico. Muito dessa percepção se deve creditar às críticas

construtivistas que ganham espaço no final dos anos de 1960 e 1970,

em especial as aprofundadas discussões acerca da relatividade

conceitual, que passa a ser um dos temas da tópica de Putnam a

partir desse momento. O desenvolvimento da percepção de Putnam

envolve o questionamento da interpretação realista (agora qualificada

como metafísica) marcada pelas seguintes teses (Putnam: 1977):

(i)

Que o mundo consistiria em uma totalidade fixa de

objetos não dependentes da mente.

15

(ii)

Que há exatamente uma descrição completa e

verdadeira do modo como o mundo é.

(iii) Que verdade envolve algum gênero de relação

correspondencial entre os termos da linguagem e

coisas externas ou conjuntos de coisas externas.

(iv) Esse primeiro conjunto caracterizaria o “Ponto de

Vista do olho de Deus”, uma avaliação externalista

do conhecimento.

(v)

Que há uma distinção clara entre as propriedades das

coisas “em si mesmas” e propriedades que são

projetas por nós, sujeitos cognitivos, nas coisas.

(vi) A suposição de que as teorias, em especial a Física,

entendida como a ciência fundamental, encontra

as propriedades das coisas como elas são “em si

mesmas”.

(vii) A suposição de forte (possivelmente radical) distinção

entre fato e valor.

Baghramian: 2008; pág. 24.

O chamado do argumento do modelo teórico é aquele que

fundamentalmente coloca tais suposições em xeque. Este é, de

certo modo, um desenvolvimento do argumento quineano da

inescrutabilidade da referência. O argumento do modelo teórico

(que apresenta pelo menos três diferentes versões ao longo do

tempo) essencialmente afirma, baseado nos resultados dos

teoremas

de

Skolem,

que

qualquer

linguagem

é

semanticamente indeterminada, significando isso que a

referência dos termos de uma linguagem não pode ser

univocamente determinada. É um resultado diretamente

16

contrário ao realismo metafísico que, definido por Putnam,

afirmaria a existência de uma totalidade fixa (de objetos e

propriedades), as quais a teoria (ou teorias de partes dessa

totalidade) deveriam corresponder (univocamente).

Frente ao argumento do modelo teórico, as suposições (ii)

e (iii) são derrubadas e, ato contínuo, a precariedade das

outras suposições sem a sustentação daquelas leva Putnam a

um novo entendimento do que seria o realismo. Esse novo

entendimento, cujo rótulo é de um realismo interno é marcado

substancialmente por algumas ideias precisas. A primeira e

talvez a mais importante seja a de que o realismo interno seja

uma avaliação científica da ciência. De certo modo essa

interpretação viria, se sustentada, a coadunar-e com a leitura

original do argumento do milagre cuja vindicação, por assim

dizer, traria apoio ao realismo interno. No entanto, como os

críticos apontaram e o próprio Putnam reconhece (Putnam:

2012, cap. 4), essa pretensão não foi das mais felizes

(argumentaremos a razão pela qual essa pretensão parece

descabida no capítulo 1, quando considerarmos que o realismo

científico é melhor descrito como uma “posição” filosófica).

A segunda ideia marcante do realismo interno é o

verificacionismo semântico. O abandono da noção de que

verdade seria um gênero de correspondência leva Putnam a

afirmar que a noção de verdade deve ser entendida de modo

epistêmico, isto é, a verdade seria a assertibilidade garantida

sob condições ideais de pesquisa. É nesse sentido que o

realismo putniano pode ser considerado interno: não há um

ponto arquimediano no qual poderíamos sentar e contemplar a

verdade; a verdade assim entendida seria radicalmente não

epistêmica e ainda nossas melhores teorias, que instanciassem

17

todos

os

valores

cognitivos

bem

estabelecidos,

que

alcançassem adequação empírica fora de questão, poderiam ser

falsas. Isso se apresenta à Putnam como um contrassenso. No

entanto, o verificacionismo semântico presente no realismo

interno acaba por convertê-lo, segundo o próprio Putnam e

alguns críticos, em uma forma de antirrealismo.

A partir dos anos de 1990, Putnam revisa novamente

suas posições fundamentais e, reencontrando os filósofos

pragmatistas e Wittgenstein à sua maneira, passa a defender

uma forma de realismo que é chamada de realismo direto ou

realismo natural. Tal como sugere, essa nova abordagem

pretende ser um meio termo entre as fantasias do realismo

metafísico e as tendências idealistas do realismo interno. Essa

nova abordagem pode ser caracterizada como abandonando a

visão epistêmica da verdade em benefício de uma visão

minimalista, o resgate do realismo do senso comum via

dissolução da noção de “dados sensoriais”, afirmando que a

percepção se dá a respeito dos objetos e não de “irritações das

terminações nervosas” depois “interpretados como” sendo a

respeito de objetos. Outra importante tese, e essa

aparentemente controversa, é a sustentação de que a

relatividade conceitual – também o pluralismo conceitual,

distinção feita a partir do seu “Ética Sem Ontologia” – seja

compatível com as pretensões realistas fundamentais. Um

adendo que é preciso frisar: seja qual for o rótulo que Putnam

associa a suas pesquisas, o realismo científico em sentido geral

– entendido como a crença de que as teorias científicas

produzem conhecimento sobre o mundo – está presente em

toda a obra de Putnam. O realismo direto não abandona o

científico nem se opõe a ele, mas constitui um quadro que, se

18

se pode notar que ainda incompleto, nos permite divisar o que

deve ser tomado em consideração na busca de uma visão

humana do que seja a realidade (Monroy et ALL: 2008, pág.

241).

São as propostas dessa mais recente fase da produção

filosófica putniana que pretendemos ter como guias no caminho

reflexivo instanciado por esse trabalho. Para tanto, no capítulo

1 apresentaremos uma breve revisão da literatura em torno do

realismo científico, os principais argumentos em sua defesa

como as críticas mais severas e contumazes. No capítulo

discutiremos a dicotomia observável x inobservável, tentando

entender seu papel no debate realismo x antirrealismo e

procurando encaminhar elementos fundamentais do realismo

direto sugerido por Putnam. No capítulo 3 avançaremos a

aproximação da proposta putniana com a interpretação

relacional da mecânica quântica, procurando encontrar a

passagem do realismo direto ou natural ao realismo científico

orientado pelos mesmos princípios, essencialmente uma visão

direta de percepção (que se realiza por meio da ideia de que o

ser humano é ao cabo um “aparato” de detecção).

No capítulo 4 discutiremos as implicações da posição

advogada, em especial o forte viés naturalizado apresentado,

tendo em conta a forte oposição de Putnam a esse tipo de

abordagem epistemológica. A questão da relatividade conceitual

e do pluralismo conceitual serão discutidos mais detidamente, e

a questão da relatividade cognitiva colocada sob esse pano de

fundo. Será sugerida uma forma fraca de relatividade cognitiva,

derivada da particular interpretação do acesso cognitivo que é

sugerida ao longo dos capítulos 2 e 3, compatível com as

19

formas de relatividade e pluralismo conceitual advogadas por

Putnam.

Por fim, no capítulo 5 tentaremos responder à questão

crucial: se somos realistas, somos realistas sobre o que? Será

sugerido que o realismo direto de Putnam apresenta-se como

uma forma de realismo local (aqui entendido como

envolvimento direto com o processo de mensuração/interação

do objeto ou evento), de caráter eminentemente estrutural e

cujo pronunciamento ontológico mais significativo é de que o

mundo responde e restringe nossas ações, e esse responder

(uma metáfora adequada seria ressoar) nos permite conhecê-

lo. Construímos imagens do mundo, mas uma ontologia final

assim como uma narrativa absoluta dos eventos está fora de

nossas possibilidades cognitivas. Em contrapartida, uma nova

objetividade “sem objetos” passa a ser inteligível, assim como

parece garantida a independência metafísica do mundo em

relação à mente. Se esta é uma forma de realismo que merece

o rótulo é uma questão a ser debatida, embora os insights que

ela permite divisar a respeito da prática científica nos pareçam

significativos.

20

Capítulo 1

Realismos científicos e seus problemas

O realismo científico pode ser definido como uma interpretação

filosófica da atividade científica e seu produto característico, as

teorias científicas. Embora essa definição elementar seja mais ou

menos trivial, precisar exatamente o conteúdo da mesma não é

tarefa simples: se 5 realistas forem reunidos em uma sala,

possivelmente de lá saiam 6 teorias realistas distintas (Chakravartty,

2011). Uma visão panorâmica da literatura a respeito do tema

demonstra que há uma infinidade de caracterizações do realismo,

além de pequenos matizes que cada autor associa ao tema, matiz

que acaba por dar nascimento a uma compreensão particular do que

seja o realismo científico. Por outro lado, pode-se ver, nas diferentes

variantes dessa posição, um conjunto de ideias comuns, em especial

a atitude epistêmica positiva em relação aos resultados da

investigação científica, não importando se as proposições científicas

fazem referencia ao observável ou ao inobservável (Hacking: 1983,

parte A, cap. 1; Chakravartty: 2007, cap. 1; Chakravartty: 2011).

Bas van Fraassen assim define o realismo:

“A ciência objetiva nos dar, em suas teorias, uma história

literalmente verdadeira de como o mundo é, e a aceitação de

21

uma teoria científica envolve a crença de que ela é

verdadeira. Esse é o enunciado correto do realismo

científico.”

van Fraassen: 1980; p. 8 [tradução nossa]

Por outro lado Boyd sugere uma definição mais refinada:

“Por ‘realismo científico’ filósofos tipicamente entendem uma

doutrina que podemos pensar como incorporando quatro

teses centrais:

(i)

“Termos teóricos” nas teorias científicas (isto é, termos

não observáveis) deveriam ser pensados como

expressões que referem putativamente; teorias

científicas

deveriam

ser

interpretadas

“realisticamente”.

(ii) Teorias científicas, interpretadas realisticamente, são

confirmáveis

e

de

fato

frequentemente

confirmadas como aproximadamente verdadeiras

pela

evidência

científica

ordinária

em

conformidade

com

padrões

metodológicos

ordinários.

(iii) O progresso histórico da ciência madura é em grande

parte

uma

matéria

de

aproximações

sucessivamente mais acuradas da verdade a

respeito

de

fenômenos

observáveis

e

inobserváveis (ambos). Teorias mais recentes

tipicamente são construídas sobre o conhecimento

(observacional e teórico) incorporado em teorias

prévias.

(iv) A realidade que as teorias científicas descrevem é em

grande

parte

independente

de

nossos

pensamentos ou comprometimentos teóricos.”

Boyd: 1983; p. 45 [tradução nossa]

22

Antirrealistas como van Fraassen, embora concordem que todas

as proposições científicas sejam verdadeiras ou falsas, defendem que

as teorias científicas descrevem o mundo apropriadamente somente

em seus aspectos observáveis. É preciso frisar que no contexto

filosófico, a observação diz respeito à percepção com os sentidos

desarmados (Shapere: 1982). Nesse contexto, parece haver um

consenso generalizado no que diz respeito às proposições acerca de

observáveis: estas possuem valor de verdade determináveis, e

portanto menos problemático é o status cognitivo das proposições

cujo conteúdo é passível de observação (evidentemente, trata-se de

uma aparência, como ressalta, entre outros, Popper, 1934[1993];

Kuhn, 1962[2003]). Logo, fica evidente que realismo em filosofia da

ciência (ou realismo científico) é fundamentalmente uma tese mais

forte: afirma-se, segundo essa orientação filosófica, que (i) entidades

inobserváveis propostas pelas teorias empiricamente bem sucedidas

existem, e (ii) a descrição científica de tais entidades corresponde,

pelo menos aproximadamente, a como essas entidades e processos

se comportam no mundo, e no limite podem ser avaliadas em relação

à sua verdade ou falsidade.

Conforme ressalta Maxwell (1962), a distinção entre observável

e inobservável é fundamental às posturas empiristas, mas

dispensável para realistas, em especial os científicos, dado que estes

aceitam proposições de ambos os domínios. O cerne de seu

argumento encontra-se na dificuldade em traçar uma linha de

distinção clara entre o que seria a observação com os sentidos

desarmados em oposição aos sentidos auxiliados, uma distinção que

fosse adequada aos desenvolvimentos da ciência contemporânea, que

não está em questão. Dado todo o conhecimento disponível hoje a

respeito das complexas operações neurofisiológicas envolvidas na

percepção sensorial humana, e levando em conta como esse

23

conhecimento foi desdobrado recentemente nos campos da filosofia e

da compreensão da percepção (Bonjour: 2007), o tipo de

argumentação proposto por Maxwell pode ser fortalecido. Não se

trata de afirmar que a observação (tal como acima entendida) não

faz sentido à ciência contemporânea, mas o ato perceptivo já é um

ato mediado por processos neurofisiológicos complexos, emulados,

em certo sentido, pelos aparatos desenvolvidos para a observação

científica (Shapere: 1982).

Evocando muito brevemente a orientação corrente em relação

ao conceito de observacionalidade, podemos assumir a caracterização

do mesmo tal como proposta por van Fraassen, que pensa

‘observacionalidade’ como um conceito ‘fuzzy’. Isso significa que,

como conceito ‘vago’, nenhuma definição explícita poderá captar o

sentido (ou pelos menos todos os sentidos, ou os sentidos mais

relevantes), sem impor torções incompatíveis com a prática científica

ou com os comprometimentos empiristas.

Entretanto, como apontou Maxwell, persiste o problema para o

programa do empirismo construtivo que advoga Bas van Fraassen (e

para qualquer orientação empirista em filosofia da ciência):

caracterizar o observável. No livro “A imagem científica” (1980)

afirma o autor holandês, a título de caracterização, que o observável

é uma questão antropocêntrica (observável é observável para a

comunidade epistêmica em questão); deve ser determinado pelas

melhores teorias (científicas) disponíveis. Algumas afirmações

associadas a essa concepção são:

“X é observável se há condições que são tais que, se

X nos estiver presente nessas condições, então vamos

observá-lo.”

“(...) sendo em parte função dos limites que a ciência

revela sobre a observação humana, a distinção é

antropocêntrica. Mas uma vez que a ciência coloca os

observadores humanos entre os sistemas físicos que ela

24

pretende descrever, ela mesma também se confere a tarefa

de descrever distinções antropocêntricas. É desta maneira

que mesmo o realista científico deve respeitar a distinção

entre os fenômenos e o transfenomenal no retrato científico

do mundo.”

“Dar uma olhada nas luas de Júpiter através de um

telescópio me parece ser um caso claro de observação, uma

vez que, sem dúvida, os astronautas vão ser capazes de vê-

las também de perto. (...) Mas a suposta observação de

micropartículas em uma câmara de vapor me parece um

caso claramente diferente – se estiver correta nossa teoria

sobre o que ali acontece. (...) Assim, apesar de ser a

partícula detectada por meio da câmara de vapor, e essa

detecção estar baseada em observação, claramente, esse

não é um caso de estar a partícula sendo observada.”

“teorias

diferentes

podem

nos

fornecer

caracterizações diferentes do que é observável”; os limites

da observabilidade, por conseguinte, “não podem ser

descritos uma vez por todas”

van Fraassen: 1980 [2007], p. 40, 113, 41,

110, respectivamente2 da tradução

brasileira.

O problema da observabilidade é tratado por van Fraassen

tomando como critério fundamental a adequação empírica de uma

classe de submodelos. As teorias científicas são modelos e, internos a

estes,

subsistem

submodelos

ou

subestruturas

empíricas

(consistentes com o modelo mais geral) que se referem

especificamente aos elementos observáveis do domínio científico em

questão.

A caracterização da noção de observabilidade é, no mínimo,

internamente confusa na economia da obra. Define-se o que é

observável por meio dos modelos científicos, mas o que é observável

está contemplado de antemão pelas teorias científicas. Cabe à

ciência, segundo o empirismo construtivo, determinar em sua

evolução os modelos que vão caracterizar os elementos observáveis.

2 É preciso dizer que tais observações são desenvolvidas e refinadas em outras obras, tais como “The Empirical Stance” e “Scientific Representation”. Para iniciar a discussão, focaremos a atenção nessas

proposições iniciais apresentadas na obra de 1980 [2007].

25

A adequação empírica, único critério legítimo para a aceitação de

uma teoria científica segundo o empirismo (em especial o empirismo

construtivo, como é apresentado por van Fraassen), é determinada

pela teoria. “Para delinear o que é observável, contudo, devemos

olhar para a ciência – e possivelmente para aquela mesma teoria – já

que isso é também é uma questão empírica.” (van Fraassen, 1980

[2007], p. 57).

Outro aspecto central da posição de van Fraassen em relação à

observabilidade é a de que a mesma é uma distinção antropocêntrica.

Os limites da observação humana são os critérios base para tal

distinção. “O organismo humano é, do ponto de vista da física, certo

tipo de aparato de medição. Como tal, ele tem certas limitações

inerentes – que serão descritas em detalhes em estágios avançados

da física e da biologia” (van Fraassen, 1980 [2007], p. 17). Enfim, o

que é observável é aquilo que, tendo presente a comunidade

epistêmica adequada (indivíduos com sentidos normais para os

padrões científicos vigentes), é visível a olho nu. Se de fato devemos

concordar com a aproximação do organismo humano com um aparato

– científico – de medição, a imposição de sua centralidade – ou

melhor, do seu papel “definicional” no que diz repeito ao que é

observável ou não, sem mais, parece precária.

Observação, tal como evocado acima em linhas gerais, é poder

visualizar algo sem a utilização de instrumentos, é poder “ver”

objetos por meio dos sentidos desarmados. O exemplo da observação

(e da observabilidade) das luas de Júpiter (van Fraassen:1980;

pp.16-17) em oposição à ‘observação’ de micropartículas em uma

câmara de vapor é bastante significativa a respeito desse ponto na

obra do holandês.

Em termos gerais o que foi delineado é a reafirmação da

impossibilidade de uma distinção linguística (que se colocava, como

26

veremos no capítulo 2, sob o rótulo de termos teóricos em oposição

aos termos observacionais), sem apresentar uma alternativa criterial

suficientemente adequada para o problema da distinção observável x

inobservável. A questão dirigida ao empirismo é uma distinção entre

observável e inobservável. Dizer que essa distinção depende das

teorias, que não pode ser dada de uma vez por todas, não resolve o

problema, transfere a questão para a prática científica que em geral

não reflete sobre o conceito e, quando o usa, se distancia

radicalmente daquilo que os empiristas chamam de observação

(Shapere: 1982).

No interior do projeto empirista parece ser insatisfatória a

caracterização de van Fraassen, entretanto, aponta em uma direção

interessante: a noção de observabilidade, sendo fuzzy (portanto,

admite uma maior ou menor pertinência de cada proposição

particular sob escrutínio) e dependente das melhores teorias

científicas disponíveis (que produzem, por assim dizer, dispositivos

que ampliam a capacidade humana de interação com entidades e

processos, muitos dos quais inacessíveis por meio dos sentidos

‘desarmados’),

abre

espaço

para

uma

caracterização

da

observabilidade como um conjunto de propriedades disposicionais do

objeto ou processo sob investigação e as possibilidades de interação

(manipulação) de uma determinada comunidade epistêmica com

estas particulares propriedades. Esta seria, sem dúvida, uma

interpretação do conceito mais próxima daquela corrente na prática

científica que, não atendendo rigorosamente ao empirismo “do

filosófico” pode, sem dúvida, lançar luz à discussão e, em especial,

ajudar na compreensão da noção de observação no interior da

postura

antirrealista,

e

mesmo

para

o

realista,

embora

conceitualmente não seja indispensável uma nítida separação entre

observável e inobservável para este último, assumir uma assimetria

27

cognitiva entre detectável e indetectável é algo muito presente para a

ciência prática e deve, portanto, importar à uma concepção filosófica

da prática científica, tal como o realismo científico.

Hacking (1983) faz uma defesa do realismo científico (em seu

caso, “realismo de entidades”) por meio de um tipo de estratégia que

frisa a manipulação das entidades e processos que é sustentada pelas

teorias científicas, e parece apresentar, como um efeito colateral

benéfico, uma estratégia interessante na conceitualização da noção

de observabilidade. Mais recentemente, e no âmbito de uma

concepção empirista construtiva da ciência, Bueno (2011) avança

nessa direção, tentando tratar, sob uma ótica empirista, o problema

da evidência visual obtida por meio de instrumentos como

microscópios (que é introduzir a mediação na observação, embora

uma mediação que vai de encontro ao sentido da visão, que seria

aquele que, na visão tradicional do empirismo, é o proto tipo modelar

da observação).

Por outro lado, parece razoável e bastante reconhecido

(Maxwell: 1962; Hacking: 1983; Churchland: 1979 [1986]) que a

observabilidade não deve estar ligada à questão ontológica, ou seja,

se a extensão das categorias observável e inobservável depende do

contexto, da conveniência ou das melhores teorias disponíveis, o

mesmo, evidentemente, não pode ser dito a propósito das categorias

existente e inexistente. O mesmo diga-se a propósito do chamado

argumento do continuum: “Embora haja, certamente, uma transição

contínua da observabilidade à inobservabilidade, qualquer discurso

acerca de uma continuidade da existência tout court à não existência

é, obviamente, destituído de sentido.” (Maxwell: 1962). É evidente a

intenção de Maxwell de mostrar que a atitude de negar a existência

de referentes para os termos não observacionais é, essencialmente,

destituída de sentido, salvo sob uma prova forte de impossibilidade

28

referencial

para

estes

elementos

das

teorias

científicas.

Essencialmente, isso envolveria mostrar que todos os métodos

inferenciais (eventualmente indiretos, como a abdução) possíveis

necessariamente não levariam, sob qualquer condição, a descrições

adequadas sob o inobservável. Por outro lado, o desenvolvimento

concreto da ciência parece indicar que essa suposição é

demasiadamente forte (o que é exemplificado nas descobertas de

toda a galeria de partículas “anti”, em especial os pósitrons,

sugeridos por Dirac em 1928. Cf. Caruso: 1997). Não por outra

razão, devemos supor, van Fraassen escapa a esse tipo de crítica,

sustentando que a atitude em relação ao inobservável deve ser o

agnosticismo.

Com efeito, se o desenvolvimento de instrumentos de potência

e definição cada vez maiores desloca a linha que separa observáveis

de inobserváveis cada vez mais para o ‘lado observável’ do espectro,

não faria sentido o argumento paralelo de que algumas entidades

existem em um contexto e não em um outro, ou que hoje em dia elas

são atuais e antigamente, por exemplo, antes da invenção do

microscópio, eram destituídas de realidade3.

Traçar uma linha distintiva entre observacional e teórico é

acidental e, acima de tudo, função da fisiologia humana e do estado

de desenvolvimento do conhecimento e da tecnologia. Pessoa (2011)

sugere, de maneira muito interessante, a necessidade de teorias a

respeito dos sentidos tanto quanto dos instrumentos de medição

usados nas ciências para validar as observações provindas de

qualquer das fontes, indo de encontro aos problemas colocados pelas

reflexões filosóficas acerca do problema da percepção (como

apresentados, p. ex., por Bonjour: 2007).

3 É preciso notar que o professor Otávio Bueno publicou (2011) na revista Scientia Studia um interessante

artigo onde esse tema é desenvolvido no interior do empirismo construtivo.

29

Isto parece levar justificadamente a uma convicção: mesmo a

percepção consiste (pelo menos parcialmente) na exploração

conceitual da informação natural contida nas sensações ou estados

sensoriais (Churchland: 1979 [1986]). Por seu turno isso sugere uma

intrigante

questão:

quão

“eficiente”

o

ser

humano,

instrumentalmente desarmado, pode ser como instrumento na

exploração dessa informação? A resposta provável (e Quine já frisou

isso em mais de uma ocasião) é de que não muito eficiente ou, antes,

não tão eficiente quanto seria necessário para o estabelecimento de

uma prática científica madura, e logo, por que insistir em um

privilégio antropocêntrico na determinação daquilo que é ou não

observável? Retornaremos a esse ponto posteriormente.

Dimensões do realismo científico

Seguindo van Fraassen, certas posições filosóficas, tratando

antes de atitudes, comprometimentos, perspectivas de aproximação,

etc, do que em crenças como o mundo é, devem ser encaradas como

“posições” (van Fraaseen: 2002). Assim, se o empirismo construtivo

é uma posição antes que uma teoria filosófica (ou científica), o

realismo científico parece se qualificar também como uma posição

filosófica (usando outra conceituação, tal posicionamento parece

poder ser inferido de Searle: 1995, cap. 7 e 8).

A posição do realismo científico envolve prioritariamente o

comprometimento com o objetivo de descrever o mundo

apropriadamente, nos âmbitos do observável e do inobservável. Esse

compromisso é, contudo, derivado de um compromisso anterior, que

parece ser o cerne das concepções realistas da ciência, a saber, a

afirmação da existência de um mundo independente da mente, de

qualquer capacidade cognitiva para conhecê-lo (Putnam: 1975; 1981;

30

Hacking: 1983, cap. 1; Chakravartty: 2007, cap. 1 e 2; Searle: 1995,

cap. 8).

É do comprometimento com esta tese que deriva o imperativo

axiológico do realista, a afirmação de que o objetivo da teorização é a

descrição adequada de um mundo independente da mente. Admitida

a existência do mundo e o propósito de descrevê-lo adequadamente,

coloca-se naturalmente a questão de sua cognoscibilidade,

especialmente por meio da razão e, por derivação segunda, o

significado epistemológico do conhecimento obtido (suposto que ele

seja obtido).

O realismo científico sustenta como sua tese epistemológica

que os métodos desenvolvidos pelas melhores teorias científicas - as

empiricamente mais adequadas, precisas, capazes preditiva e

explicativamente - levam ao conhecimento do mundo tal como ele é.

Mais precisamente, as teorias maduras- aquelas que apresentam as

características acima elencadas – são bem sucedidas em manipular e

prever fenômenos; esse tipo de sucesso é um indício de que as

teorias em questão representam adequadamente a realidade,

segundo o realista. Naturalmente, por implicação indireta da tese

epistemológica, tradicionalmente admitiu-se como um dos pilares da

posição do realismo científico que a ciência ambiciona a verdade e

que tem tido sucesso em sua busca, se entendermos verdade como

representação da realidade e sucesso como capacidade preditiva e de

manipulação (veja-se, por exemplo, como van Fraassen define o

realismo, pág. 23, acima).

Como já mencionado, a questão crucial no debate realismo versus

antirrealismo na filosofia da ciência parece repousar, por um lado,

sobre o questionamento do status cognitivo que se pode atribuir às

31

descrições das entidades inobserváveis4 propostas pelas teorias

científicas, e por outro, a possibilidade de justificar a crença em sua

existência. A discussão concentra-se sobre a possibilidade de se

afirmar a “existência” das mencionadas entidades, por meio dos

métodos científicos de justificação teórica. Em linhas gerais, o

realismo científico pretende comprometer-se com a crença de que as

entidades inobserváveis utilizadas pelas teorias científicas em seu

cabedal explicativo (das teorias bem sucedidas, naturalmente)

merecem o status de “existentes” e, mais ainda, que a descrição das

mesmas é pelo menos aproximadamente verdadeira.

Pode-se sumarizar esse ponto dizendo que o realismo científico

se caracteriza por um ‘pacote’ de teses (embora, seguindo a sugestão

de van Fraassen, se o realismo cientifico for encarado como uma

posição, seus comprometimentos não seriam propriamente teses,

mas orientações, valores, etc. e portanto mais adequado seria

afirmar

que

o

realismo

científico

teria

dimensões

de

comprometimento) que compõem uma postura ou visão filosófica

geral a respeito da realidade, do status cognitivo e por implicação dos

métodos adequados à atividade científica (estas últimas as duas

questões nucleares da filosofia da ciência). Em primeiro lugar

podemos afirmar o componente metafísico desse pacote:

• Ontologicamente, o realismo científico compromete-se

com a existência de um mundo ou realidade que não

dependente da mente (não raro isto se diz: uma

totalidade fixa de objetos independentes da mente). Isso

significa que a existência da realidade não está vinculada

4 Nossa proposta é descartar a idéia de entidade inobservável por meio da resignificação de observável. Em

seu lugar aparecerá a idéia de inobservado, em relação ao qual o ceticismo é legitimo. Essa resignificação

não está discutida no texto até o momento, logo ainda se considera inobservável como um conceito legítimo cujo sentido é o original de “impossível de ser observado por meios empiricamente adequados”.

32

à capacidade humana de conceitualizá-la. O realista

(científico em particular) admite a possibilidade da

existência de entidades ditas inobserváveis, logo recusa a

observabilidade como critério de existência.

A tese epistemológica do realismo científico pode ser assim

formulada:

• Alegações teóricas da atividade científica, principalmente

aquelas oriundas de ciências maduras, constituem

conhecimento sobre o mundo, em todos os seus aspectos

(observáveis e inobserváveis). Teorias preditivamente

bem sucedidas (ou seja, maduras e não ad-hoc)

descrevem, pelo menos aproximadamente, como a

realidade independente da mente é, quais são seus

objetos fundamentais, suas relações e interações. Em

especial, as entidades teóricas inobserváveis5 utilizadas

na explicação dos fenômenos observáveis, sob certas

circunstâncias, devem ser admitidas como existentes e

sua

descrição

entendida

como

pelo

menos

aproximadamente verdadeira.

Por fim, a tese ontológica e a epistemológica (ou simplesmente

metafísica do realismo científico) parecem demandar o conteúdo da

tese semântica, que pode assim ser formulado:

5 Seguindo a semântica tradicional do termo “observável”, um meio passo interessante na resignificação do

conceito é admitir como inobservável aquilo que não pode ser percebido com os sentidos ‘desarmados’

(sem ajuda de algum instrumento). Isso implica uma subdivisão da categoria de entidades inobserváveis:

uma primeira, de inobserváveis que não são detectados a menos que instrumentos sejam utilizados para

ampliar a capacidade de observação humana (radiotelescópios na observação de quasares, por exemplo) e

outros que são teoricamente inobserváveis (espaço absoluto na mecânica racional newtoniana, por

exemplo). A distinção é importante quando do tratamento dos comprometimentos ontológicos do

realismo e, além disso, pretende-se que a segunda classe deve ser dissolvida, enquanto a primeira incorporada no escopo dos observáveis.

33

• Proposições (alegações) teóricas da atividade científica

têm valor de verdade intrínseco, isto é, elas devem ser

interpretadas

literalmente.

Se

as

teorias

fazem

afirmações sobre um mundo independente da mente, e o

mundo é uma totalidade fixa, então somente uma

descrição correta desse mundo é possível. As proposições

ou alegações das teorias científicas possuem valor de

verdade (são verdadeiras ou falsas). Entretanto, admitida

a tese epistemológica e o falibilismo, o programa realista

acaba se comprometendo, pelo menos em algumas