Realismo e racionalidade: o otimismo epistêmico em questão por Emerson Ferreira de Assis - Versão HTML

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aproximações, com a criação de uma semântica

adequada não só para a noção de verdade – mais

precisamente, para esta noção de verdade por

correspondência que subjaz a essa orientação filosófica -

mas uma concepção de verdade aproximada, já que,

segundo o realista científico, sob certas circunstâncias as

afirmações científicas são não verdadeiras mas (pelo

menos) aproximadamente verdadeiras.

Esse pacote de teses sublinha dois aspectos gerais do realismo

que são centrais a essa postura filosófica, que podem ser ilustrados.

Qualquer postura realista e, em especial o realismo científico, faz

afirmações sobre a existência de certas entidades. O realista do

senso comum, em face de impressões sensoriais que lhe indicam

mesas, pedras, a Lua etc., afirma a existência desses objetos e, mais

ainda, que esses objetos possuem características alcançáveis pela

cognição humana: a mesa é quadrada ou redonda, de madeira,

granito ou outro material; a Lua é (aproximadamente) esférica etc. O

segundo aspecto essencial a uma postura realista relaciona-se à

34

afirmação de independência. O fato de que um determinado objeto

existe e têm determinadas propriedades não depende da mente

humana ou dos referenciais conceituais utilizados em sua análise.

Nesse sentido, para o realista, o mundo é o que é, e o fato de a Lua

ser esférica não depende do que se diga a seu respeito6. É patente

que os princípios de realidade e existência abrigam muitos tipos de

realismo, e posturas tipicamente antirrealistas podem, em alguma

medida, admitir esses princípios (p. ex. Worrall: 1989, pp. 153-154;

Psillos: 1999, pp. 105–108)

A presença desses princípios, que podem ser divisados em boa

parte da tradição de reflexões enquadráveis sob o rótulo de

metafísica, é um indício de que o realismo científico é herdeiro, em

alguma medida, das preocupações da metafísica tradicional, e logo

dos dilemas fundamentais que ela abarca. Assim sendo, realismo

científico é uma postura filosófica em relação à atividade científica e o

status cognitivo da teorização científica, sendo impossível caracterizá-

lo por meio de uma única proposição tida como “O Princípio” realista.

Essa postura se substancializa por meio de compromissos em

diversos âmbitos que podem ser organizadas em subconjuntos de

proposições de caráter semântico, epistêmico e ontológico (em

conjunto, as proposições epistêmicas e ontológicas formam o que se

pode chamar metafísica realista, seguindo de certo modo a

concepção tradicional de metafísica). Os compromissos centrais

endossados pelos partidários do realismo científico – na maioria dos

casos pelo menos – caracterizam as teses do pacote realista, como

acima evocamos. Essas teses são capturadas facilmente na

6 Evidentemente objetos como faróis ou mesas têm sua existência e propriedades dependentes da mente

humana, pois são criações humanas. Mas essa dependência enquanto objeto de conceito não aflige o realista, pois, também é óbvio, mesmo que realizando uma ideia humana, que depende deste ou daquele

referencial conceitual, deste ou daquele objetivo pragmático, o objeto farol, mesa, etc. passa a existir e ser independente de qualquer mente humana. No âmbito dos objetos naturais e suas relações, as afirmações

de existência e independência parecem ser ainda mais óbvias e plausíveis.

35

formulação de Boyd do realismo científico, tal como a apresentamos

na página 23 acima.

Argumentos pró-realismo científico7

O Argumento do milagre ou da ausência do milagre

O principal argumento elencado na sustentação das pretensões

do realismo científico, bastante plausível a primeira vista, é que ou as

teorias científicas descrevem apropriadamente o mundo (ainda que

apenas aproximadamente), ou o seu incrível sucesso preditivo só

poderia ser obra de um milagre (Putnam: 1975, p.73; Boyd: 1983, p.

49). Trata-se do famoso argumento do milagre.

O primeiro passo na construção do argumento passa pela

afirmação de que a inferência da melhor explicação (IBE; conf. p. ex.

Lipton:1991[2004]) é uma ferramenta epistêmica padrão do

cientista, e deve estar disponível como método inferencial para o

filósofo. Assim, notemos: história das ciências maduras foi constituída

por uma sequência de teorias reconhecidamente bem sucedidas no

nível observacional. Qual seria, então, uma condição suficiente para

explicar esse sucesso? Qual ou quais características as teorias de

Einstein as fizeram mais capazes de fazer previsões de sucesso em

relação à de Newton? A melhor explicação, segundo o realista, seria a

de que essas teorias tinham capturado mais verdade sobre o mundo.

Dado que essas teorias bem sucedidas fazem afirmações a respeito

de entidades e processos considerados inobserváveis, afirmações que

sustentam as previsões e observações efetuadas no âmbito do

7 As duas seções seguintes foram baseadas em Chakravartty: 2011. Entretanto, muitos autores discutem

essa tópica tendo em vista a construção de seus próprios argumentos. Sugerimos também Psillos:1999,

cap. 1 e 2; Leplin: 1997.

36

observável, seria um mistério total se teorias tão bem sucedidas no

nível observacional não fossem pelo menos aproximadamente

verdadeiras naquilo que dizem a respeito do inobservável, de que o

que elas dizem sobre as estruturas subjacentes da realidade não

fosse mais do que uma “ficção útil”. Assim sendo, na consagrada

expressão de Putnam, o realismo seria “a única filosofia que não faz o

sucesso da ciência um milagre".

O realismo científico, portanto, sob essa perspectiva,

apresenta-se como uma teoria explicativa da ciência. Essa teoria

trata as proposições científicas, a respeito de observáveis e

inobserváveis, literalmente: elas são verdadeiras ou falsas

dependendo

da

sua

correspondência

com

os

fatos.

Está

evidentemente inscrito no realismo científico, segundo essa

caracterização, a suposição epistemológica de que os métodos

científicos são adequados para produzir uma descrição acurada da

realidade. Em suma, seria possível descobrir quais sentenças seriam

verdadeiras e, de maneira suplementar, visto que a ciência acumula

conhecimento e domínio sobre o real, se afirmaria que ela progride

rapidamente em direção a uma descrição completa e verdadeira da

realidade.

Entretanto, como mostrou Laudan, teorias científicas parecem

apresentar um histórico ruim se o critério utilizado na avaliação for a

veracidade de suas proposições ou, equivalentemente, sua

estabilidade referencial: a famosa indução pessimista. O que teorias

antigas bem sucedidas afirmavam existir – como o calórico – à luz de

nosso atual conhecimento, não existe. Assim, o que poderia garantir

que no futuro nossas “entidades” ainda vigorem no estoque de

entidades aceitas pelas futuras melhores teorias científicas? Em face

deste argumento tornou-se corrente entre realistas uma meta mais

modesta para a ciência, qual seja, a produção de teorias

37

aproximadamente verdadeiras. Contudo, pode-se perguntar como

isso se relaciona com a realidade objetivada pelo realismo? Como

uma descrição aproximada pode levar ao conhecimento do real? Mais

ainda, a crítica de Laudan, como se pode depreender, atinge da

mesma forma a pretensão de verdade aproximada (se basearmos a

verdade, ainda que aproximada, em sucesso instrumental ou

explicativo, a suposta indução persiste pois o sucesso instrumental ou

explicativo não parece garantir estabilidade referencial).

O argumento do milagre sustenta que se deve, dado o

fantástico sucesso na manipulação do mundo, preditiva e

explicativamente, crer que essas entidades inobserváveis supostas ou

postuladas (a) realmente existem e (b) são aproximadamente tais

como as descrevem as teorias científicas maduras. Como já

mencionado, é em relação aos inobserváveis que as principais

argumentações — e objeções — têm lugar no debate entre realistas e

antirrealistas. Analisemos o argumento detidamente.

O cerne do argumento do milagre é uma intuição poderosa: o

argumento parte da premissa aparentemente bem estabelecida de

que

as

melhores

teorias

científicas

disponíveis

são

extraordinariamente bem-sucedidas. Por meio destas teorias são

realizadas previsões, retrodições e explicações nos domínios de

investigação científica os mais diversos, no mais das vezes com uma

precisão impressionante. Essas previsões não raro envolvem

intrincadas manipulações causais de fenômenos (que fundamentam,

não raro, o domínio tecnológico). O que explicaria esse sucesso? Uma

explicação, intuitivamente plausível e elencada no rol de argumentos

realistas, é que as melhores teorias são verdadeiras (ou

aproximadamente verdadeiras, ou descrevem corretamente um

mundo

de

entidades,

propriedades,

leis,

estruturas,

etc.,

independente da mente).

38

O adjetivo “milagre”, atribuído ao argumento (ou sua negativa)

se dá pela inferência que ele viabiliza: sendo a explicação realista

para o sucesso da ciência uma explicação, ou se a admite, ou se

admite outra explicação para o fenômeno do sucesso da ciência

(instancia do terceiro excluído). Como não haveria (pretensamente)

outra explicação, então ou se admite o argumento realista ou o

sucesso da ciência passa a ser um milagre (só por meio de um

milagre o sucesso instrumental das teorias não estaria associado a

alguma forma de referência às entidades que postulam). Aceitando a

questão de que o sucesso da atividade científica deva ser explicado –

e nem sempre essa questão é aceita, por exemplo van Fraassen a

recusa -, a escolha parece se dever dar entre uma explicação clara do

sucesso científico ou a afirmação de uma capacidade milagrosa das

teorias. O agente racional deve preferir a explicação ao milagre, isto

é, que as melhores teorias científicas são aproximadamente

verdadeiras (Boyd: 1989; Lipton: 1994; Psillos: 1999, cap. 4).

Embora intuitivamente poderoso, o argumento do milagre é

contestável. Uma resposta cética natural é questionar a própria

necessidade de uma explicação do sucesso da ciência. Por exemplo,

van Fraassen (1980, p. 40) sugere que as teorias bem sucedidas são

análogas dos organismos bem adaptados. Uma vez que apenas as

teorias de sucesso (organismos) sobrevivem, não é de surpreender

que as atuais teorias científicas sejam bem sucedidas, e, portanto,

não se pode exigir uma explicação de seu sucesso ou,

alternativamente, é redundante explicar o sucesso se o sucesso é a

condição necessária de permanência/existência.

Por outro lado, não parece forçosamente necessário aceitar

essa linha de argumentação. A analogia evolutiva não constrange

suficientemente a intuição por trás do argumento milagre, a ponto de

miná-la definitivamente. Por exemplo, ainda parece legítima a

39

pergunta de por que uma teoria particular é bem sucedida, e uma

explicação parece requerer a apresentação de características

específicas da teoria em si, incluindo suas descrições de

inobserváveis e suas decisões metodológicas. Por exemplo, pensemos

nos automóveis atuais. Parece um fato fora de questão que todos

eles se movimentam por meio de um motor à combustão e algum

combustível. Claro está que existem muitas companhias diferentes

que produzem diferentes automóveis que competem no mercado

automotivo por clientes. Uma condição necessária para que um

cliente racional compre um carro é que ele se movimente (por

suposição, por meio de um motor que queima alguma forma de

combustível). Uma explicação para tal o fenômeno observado de que

os diferentes carros das diferentes companhias todos se movimentem

é sugerir que se uma companhia produzisse carros que não se

movimentassem, então ela não encontraria nenhum cliente, indo

rapidamente à falência e ao esquecimento. Obviamente, não deixa de

ser uma explicação para o sucesso das montadoras de automóveis

em produzir automóveis que se movimentem, mas isso não dissolve a

legitimidade da pergunta pelas reações termoquímicas que ocorrem

no motor, ou pelos avanços na engenharia que tornam um modelo

mais econômico que outro. Se as teorias, como parecem, não são

produtos naturais, mas da cultura, a metáfora relevante em relação à

questão do seu sucesso não deve ser buscada na natureza, mas nas

construções culturais humanas.

Se é possível conceder que explicações do sucesso científico

não precisem se comprometer com o realismo científico - o que

originalmente o argumento pretendia, pelo menos tal como Putnam o

entendia em 19758 - é difícil recusar essa demanda de explicação.

8 É preciso notar que Putnam revisa suas posições a esse respeito em mais de uma ocasião, mantendo

posteriormente o argumento do milagre somente no interior da prática científica, negando o

movimento meta-explicativo do argumento (Putnam: 2012 ; capítulo 4; originalmente uma leitura para

40

Qualquer epistemologia da ciência que não aceitar uma ou mais das

três dimensões do realismo científico - compromisso com a existência

de um mundo independente da mente, semântica literal das

proposições científicas e acesso cognitivo dos inobserváveis, deve

apresentar uma razão forte para negar aceitação ao argumento

milagre, principalmente quando ele se limita a explicar o sucesso

científico per si, não pretendendo justificar o realismo científico meta-

teoricamente.

Talvez a crítica contemporânea mais poderosa ao argumento do

milagre seja a afirmação de que o argumento é uma instância da

falácia da taxa de base (Howson: 2000, cap. 3; Lipton: 2004, pp.

196-198; Psillos:2009, pp 56-61). Por definição, trata-se da utilização

de evidência fraca para fazer um julgamento de probabilidade sem

levar em consideração estatísticas empíricas conhecidas sobre a

probabilidade do evento sendo analisado. É, portanto, considerada

uma falácia de relevância.

No desenvolvimento dos métodos da estatística moderna, as

primeiras técnicas de inferência que apareceram foram as que faziam

diversas hipóteses sobre a natureza da população da qual se

extraíram os dados. Como os valores relacionados com a população

são denominados “parâmetros”, tais técnicas estatísticas foram

denominadas de paramétricas. Formulada uma determinada hipótese

particular é necessário coletar dados empíricos e com base nestes

dados decide-se então sobre a validade ou não da hipótese. Esses

aspectos são compatíveis com a pretensão realista de que a hipótese

de que o sucesso da ciência implica sua verdade possui corroboração

empírica (advinda da ciência concreta e seu sucesso no domínio da

natureza). De modo geral, a decisão sobre a hipótese pode levar a

rejeição, revisão ou aceitação da teoria que a originou.

o 50º Anniversary Celebration of Boston Colloquium for Philosophy of Science).

41

Para se chegar à conclusão que uma determinada hipótese

deverá ser aceita ou rejeitada, baseando-se em um particular

conjunto de dados, é necessário dispor de um processo objetivo que

permita decidir sobre a veracidade ou falsidade de tal hipótese. A

objetividade deste processo deve ser fundada na informação

proporcionada pelos dados, e como estes dados, em geral, envolvem

apenas parte da população que se pretende atingir, tem-se que ter

em mente o risco que se está disposto a correr de que a decisão

tomada não esteja correta.

A metodologia para a decisão sobre a veracidade ou falsidade

de uma determinada hipótese envolve algumas etapas.

1. Definir a hipótese de nulidade, ou de igualdade (H0): que é

a hipótese que está sendo investigada, e em geral é a que se quer

refutar (no caso que nos interessa, H0 seria “o sucesso da ciência não

implica a sua verdade”).

2. Escolher a prova estatística (com o modelo estatístico

associado) para tentar rejeitar H0.

3. Definir o nível de significância (α) e um tamanho de amostra

(n).

4. Determinar (ou supor determinada) a distribuição amostral

da prova estatística sob a hipótese de nulidade.

5. Definir a região de rejeição.

6. Calcular o valor da prova estatística, utilizando os valores

obtidos na(s) amostra(s). Se tal valor estiver na região de rejeição,

rejeitar então a hipótese nula, senão a decisão será que a hipótese

nula não poderá ser rejeitada ao nível de significância determinado.

Uma vez determinados a natureza da população e o método de

amostragem, ficará estabelecido o modelo estatístico. Associado a

cada teste estatístico tem-se um modelo estatístico e condições de

mensuração, o teste é válido sob as condições especificadas no

42

modelo e pelo nível da escala de mensuração. Nem sempre é possível

verificar se todas as condições do modelo foram satisfeitas e neste

caso tem-se que admitir que estas condições foram satisfeitas. Estas

condições do modelo estatístico são denominadas suposições ou

hipóteses do teste. Qualquer decisão tomada por meio de um teste

estatístico somente terá validade se as condições do modelo forem

válidas.

É óbvio que quanto mais fracas forem as suposições do modelo,

mais gerais serão as conclusões. No entanto, as provas mais

poderosas, isto é, as que apresentam maior probabilidade de rejeitar

H0 quando for falsa, são as que exigem as suposições mais fortes ou

mais amplas9.

Considere-se o exemplo apresentado por Worrall (2009;

http://philpapers.org/rec/WORMPA). Existe um teste para uma

doença para a qual a taxa de falsos negativos (resultados negativos

nos casos em que a doença está presente) é igual a zero, e a taxa de

falsos positivos (resultados positivos nos casos em que a doença está

ausente) é uma em 10 (isto é, o teste resulta positivo em 10% dos

casos em que os examinados não estão doentes). Dado que um

determinado teste resulta positivo, quais são as chances de que a

pessoa tenha a doença?

Seria um erro concluir que, com base na taxa de falsos

positivos (lembrando que o teste é bastante seguro nos casos em que

o paciente realmente possui a doença; mais precisamente, estando

certo que o paciente possui a doença, o teste seguramente indicará o

caráter do paciente) que a probabilidade é de 90%. Para encontrar a

probabilidade real é necessário mais informações, tais como a taxa

básica da doença na população (a proporção de pessoas que podem

9 Conf. o tema do teste de hipóteses, por exemplo, em Bussab, W. O.;

Morettin, P. A. Estatística Básica. 5ª edição. São Paulo. Editora Saraiva, 2002.

43

ter a doença). A menor incidência da doença na população, em geral,

implicará em uma menor probabilidade que um particular resultado

positivo indique a presença da doença no paciente testado.

Por analogia, aceitando como hipótese testável que o sucesso

de uma teoria científica seja um indicador de sua verdade

aproximada (assumindo uma baixa taxa de falsos positivos, isto é,

casos em que as teorias muito longe da verdade são, todavia, bem

sucedidas), por si só não fica garantido que é provável que esta

teoria seja aproximadamente verdadeira sem mais dados. O

argumento do milagre parte da suposição de que o sucesso da ciência

esteja fora de questão, mas mesmo aceitando o sucesso, a análise da

probabilidade

da

hipótese

realista

deve

ser

avaliada

condicionalmente: qual a probabilidade de a teoria ser verdadeira

dado que ela é bem-sucedida? Assim, não é o sucesso da teoria o

dado necessário à análise (pode-se, inclusive, admitir a certeza de tal

proposição); o que se demanda é a probabilidade a priori (taxa base)

de que determinada teoria seja verdadeira (o que se deriva

naturalmente do teorema de Bayes). Tal dado poderia ser estimado

se pudéssemos avaliar essa taxa em uma amostra da população, o

que não poderia ser feito a menos que pudéssemos nos assentar no

“olho de Deus”. Por outro lado, assumir qualquer valor a priori para a

veracidade das teorias não parece ser uma estratégia legítima.

Assim, não há forma independente de saber a taxa básica de teorias

aproximadamente verdadeiras no âmbito das teorias disponíveis.

Portanto, a probabilidade de que uma particular teoria seja

aproximadamente verdadeira não pode ser avaliada. Worrall (2009),

por outro lado, sustenta que esta linha de argumentação não implica

a recusa total contra o argumento do milagre porque parte de uma

formalização do problema equivocada em termos de probabilidade,

tendo em vista que o argumento do milagre sustenta-se, antes, em

44

uma avaliação metodológica da prática científica bem sucedida, além

do que a noção do que seria a verdade no interior da prática científica

não está clara. Por exemplo, pode-se seguir Plastino (1995,

conclusão), afirmando que nenhuma noção substancial de verdade é

necessária para o realismo. A afirmação do sucesso e da adequação

empíricas, significativos indícios de conhecimento efetivo do mundo,

estão entrelaçados com aspectos metodológicos da prática científica

que transcendem aspectos lógicos restritivos. Fato é que, embora

plausível – em especial à luz de uma abordagem epistemológica

bayesiana, por exemplo - a análise da hipótese realista de que o

sucesso científico implica a verdade das teorias (ou verdade

aproximada) por meio dos elementos do teste de hipóteses fica

comprometida por não ser a hipótese uma afirmação paramétrica,

implicando a violação de aspectos metodológicos fundamentais do

procedimento estatístico sugerido. Mais ainda, ainda conforme

Worrall (2009) resalta, a indução pessimista, por razões análogas,

também parece constituir uma instância da falácia da taxa base,

sendo que a probabilidade a ser descoberta como a priori seria a de

que uma teoria bem sucedida, sendo falsa, é bem sucedida.

Corroboração/comprovação múltipla

Outro

argumento

em

favor

do

realismo

científico,

particularmente visando sustentar a legitimidade na crença nas

entidades inobserváveis sugeridas pelas melhores teorias cientificas

pode ser formulado da seguinte maneira: pelo menos alguns

inobserváveis

descritos

por

teorias

científicas

podem

ser

comprovados por meio de experimentos controlados e, mais ainda,

pelo desenvolvimento de aplicações tecnológicas. Se uma entidade

45

não observável ou propriedade desta é supostamente capaz de ser

detectada por meio de um instrumento científico ou experimento, é

razoável supor que o inobservável tem alguma validade científica

para além do mero “dispositivo de cálculo” e estaria, assim,

corroborada a crença na sua existência e em sua descrição científica.

Mas se a mesma entidade ou propriedade é supostamente capaz de

ser detectada não apenas por um, mas dois ou mais diferentes meios

de detecção – garantido que as formas de detecção são distintas no

que diz respeito aos aparelhos que empregam e os mecanismos

causais e processos que são descritos como os veículos de exploração

/ detecção (a determinação da constante de Avogadro parece

instanciar tal caso); então parece razoável afirmar que a entidade

“inobservável” existe, mesmo que se parta do princípio de que sua

descrição pode ser parcial ou falha, ou que outros modos de interação

sejam possíveis (e, portanto, outras descrições), sugerindo a

viabilidade do comprometimento ontológico sugerido pelo realismo.

Peirce ressalta esta ideia nos seguintes termos:

“De outro lado, todos os seguidores da ciência são animados

por uma alegre esperança de que o processo de investigação,

se for levado adiante suficientemente, dará uma certa

solução para cada questão ao qual ele se aplicar. Um homem

pode investigar a velocidade da luz estudando os trânsitos de

Vênus e a aberração das estrelas; outro pela oposição de

Marte e os eclipses dos satélites de Júpiter; um terceiro pelo

método de Fizeau; um quarto pelo de Foucault; um quinto

pelo movimento das curvas de Lissajoux; um sexto, um

sétimo, um oitavo, e um nono, podem seguir os diferentes

métodos de comparar as medidas da eletricidade estática e

dinâmica.

Eles

podem

inicialmente

obter

resultados

diferentes, porém, conforme cada um aperfeiçoa seu método

e seus processos, os resultados constantemente se movem

conjuntamente em direção a um centro destinado. Assim é

46

com toda a pesquisa científica. Mentes diferentes podem se

estabelecer com as mais antagônicas visões, porém o

progresso das investigações os leva por meio de uma força

externa a eles mesmos a uma e mesma conclusão.[...]Esse é

o modo como eu poderia explicar realidade.

Peirce: 1955, pág.38 [“How to make our ideas

clear”; tradução nossa]

Hacking (1983, p. 201; Hacking: 1985, pp 146-147) fornece

como exemplos a detecção de plaquetas sanguíneas vermelhas, que

podem

ser

visualizadas

utilizando-se

diferentes

formas

de

microscopia, sendo que estas fazem uso de muito diferente tipos de

processos físicos, implicando que essas operações são descritas em

termos teoricamente diferentes, via mecanismos causais distintos. No

entanto, por hipótese, uma mesma entidade é descrita (outro caso

relevante é encontrado no famoso experimento de dupla fenda, em

que uma mesma entidade – elétron – apresenta em uma

circunstância [uma única fenda aberta] comportamento discreto

[como uma partícula] e, em outra [duas fendas abertas],

comportamento ondulatório. No entanto, por hipótese, trata-se da

mesma entidade: o elétron).

Assim, o argumento da corroboração/comprovação pode ser

formulado da seguinte forma: o fato de que um único e mesmo

evento/entidade é aparentemente revelado por modos distintos de

detecção sugere que seria uma extraordinária coincidência se o alvo

dos supostos processos de detecção, de fato, não existisse. Quanto

maior for o número de meios distintos em que as detecções podem

ser realizadas, mais razões têm-se para sustentar pelo menos a

crença na existência de tais entidades. O argumento pode ser visto

como repousando sobre uma intuição semelhante àquela subjacente

47

ao argumento do milagre: a crença nas entidades inobserváveis

baseada na detecção cientificamente orientada é intuitivamente

convincente, mas se diferentes processos de detecção indicam uma

mesma entidade, isto é, meios teoricamente independentes de

detecção produzindo o mesmo resultado, fica sugerida a existência de

um único e mesmo inobservável, independente da mente e das suas

possíveis teorizações.

Mais ainda, a aceitação das dimensões de comprometimento

realista (mais precisamente, a dimensão epistêmica e ontológica do

realismo científico) providencia uma boa explicação da evidência

múltipla, em contraste com o estado de milagre que poderia ser

suposto, tendo em vista a ideia de que técnicas independentes

poderiam produzir o mesmo resultado na ausência de um alvo

compartilhado. Por outro lado, a ideia de que as técnicas de detecção

são muitas vezes construídas ou calibradas precisamente com a

intenção de reproduzir os resultados compatíveis com os paradigmas

correntes pode indicar dificuldades com relação ao argumento da

corroboração/comprovação. Entretanto, o ônus de mostrar a

razoabilidade e validade desse particular gênero de subdeterminação

fica por conta dos adversários do argumento da corroboração

múltipla, e não nos parece uma tarefa fácil realizar tal crítica tendo

como fundamento não só a razoabilidade lógica de tal afirmação, mas

informações oriundas do campo da análise efetiva dos procedimentos

experimentais da ciência concreta. Cabe frisar que, embora não seja

do interesse deste trabalho realizar tal tarefa, ela parece factível (p.

ex. Bueno: 2011).

Otimismo seletivo

48

Chakravartty (2007) e Jones (1991) afirmam que a noção de

seletividade é uma estratégia geral importante para maximizar a

plausibilidade do realismo científico, particularmente com relação a

entidades científicas inobserváveis. De modo mais preciso, é admitir

que não se trata de acreditar em qualquer proposição, desde que

qualificada como científica: o atendimento a certas normas,

epistêmicas e metodológicas, não pode ser tangenciado.

Esta estratégia deve ser adotada pelo realismo, em vista do

fato amplamente aceito de que a maioria das teorias propostas acaba

por se mostrarem falsas, e mesmo teorias bem sucedidas apoiam-se

em elementos construtivos e conceituais questionáveis, não raro,

sem suporte empírico algum (pense-se, por exemplo, na sugestão do

antipróton, em torno de 1928, obtendo confirmação experimental

somente a partir de 1932). Se for possível admitir que o sucesso das

teorias seja um indício possível de aspectos que são verdadeiros (ou

aproximadamente verdadeiros) nas suas descrições, coloca-se a

questão de se é possível identificar esses particulares aspectos, e

então sustentar que a atitude epistemicamente positiva que o realista

devota às teorias científicas se liga a esses particulares aspectos,

esses sim dignos de compromisso epistêmico e ontológico.

As variantes que adotam mais claramente esse tipo de

estratégia são o explicacionismo, realismo de entidades e o realismo

estrutural. Explicacionistas sustentam que a atitude realista pode ser

justificada em relação aos inobserváveis descritos pelas melhores

teorias quando essas entidades são indispensáveis ou muito

importantes para explicar por que essas teorias são bem-sucedidas.

Por exemplo, uma previsão inesperada e nova é realizada tendo como

explanans as entidades inobserváveis postuladas pela teoria em

teste, e a previsão é bem sucedida. O sucesso obtido no processo de

observar o que foi previsto sugere que a entidade inobservável

49

postulada é um aspecto essencial da teoria, sendo provável que esse

aspecto seja importante ou essencial para a derivação de novas

predições e, portanto, constituem uma parte da teoria bastante digna

de compromisso ontológico. Em suma, se uma entidade, processo ou

conceito é uma parte ativa do desenvolvimento teórico e leva a novas

e bem sucedidas previsões, ou é uma parte relevante da teoria

proposta, utilizado ativamente para realizar as explicações

demandadas, então há fundadas razões para acreditar na existência

(e do ponto de vista epistemológico, referencialidade) dessas

entidades/processos.

Outra versão de realismo que adota a estratégia de seletividade

é o realismo de entidades. Como indicado pelo próprio rótulo

associado a essa posição, o compromisso aqui se relaciona às

entidades inobserváveis postuladas, à capacidade que as teorias

possuem de manipular causalmente entidades inobserváveis (como

elétrons ou sequencias de genes). A capacidade de intervir em

fenômenos de modo a produzir efeitos previamente calculados parece

indicar o conhecimento causal de algo. Essa manipulação é muitas

vezes extraordinariamente precisa, fortalecendo a intuição de que a

capacidade de controlar está associada a uma forma de conhecimento

profundo (Hacking:1983; Cartwright: 1983, cap. 5).

A crença nos inobserváveis não dissolve o ceticismo sobre as

teorias científicas em geral, e está ligada sempre à questão: somos

realistas a respeito do que? No caso do realista de entidades, de

modo geral se acredita nas entidades manipuladas em detrimento

das teorias que os descrevem. Por outro lado, essa é uma

combinação coerente? Sem dúvida é um ponto a ser debatido

(Chakravartty: 2007).

O realismo de entidades é especialmente compatível com a

teoria causal da referência, associada com Kripke (1980) e Putnam

50

(1975, cap. 4, mas evocado o tema em vários artigos), segundo a

qual o êxito ao se referir a uma entidade, apesar das mudanças

significativas ou mesmo radicais em descrições teóricas de suas

propriedades, só é possível dada uma relação diretamente causal

entre o termo/conceito e o objeto, e somente isso possibilita a

estabilidade

epistêmica

das

teorias

científicas.

Se

supõe,

necessariamente, que temos as capacidades cognitivas suficientes

para ter algum acesso causal aos objetos descritos. Em alguns casos,

como em elementos de construção humana (faróis ou pontes) isso é

relativamente incontroverso, mas com relação a elétrons e outras

entidades inobserváveis isso é menos óbvio, principalmente

considerando o argumento de Quine da inescrutabilidade da

referência, aprofundado, de certo modo, pelo argumento do “modelo

teórico” de Putnam. Novamente, esse é um assunto controverso

(Psillos:1999, cap.12; Chakravartty: 2007, cap. 2)

O realismo estrutural é outra abordagem centrada na

seletividade, mas nesse caso é a natureza das entidades não

observáveis que é vista com ceticismo. O compromisso realista deve

ficar reservado para a estrutura do domínio não observável, conforme

representado por certas relações descritas pelas teorias bem

sucedidas. Há neste ponto duas versões de “estruturalismo”: ou se

enfatiza o aspecto metodológico do compromisso realista, e se afirma

desse modo que seja lá o que a natureza for, nossas capacidades

cognitivas nos limitam à conhecer relações estruturais entre as

entidades e processos cuja natureza última nos escapa, ou se

enfatiza a tese ontológica de que o que as teorias científicas

descrevem é a estrutura subjacente ao mundo. O ponto de vista

epistemológico sustenta que as melhores teorias científicas

disponíveis provavelmente não descrevem corretamente a natureza

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das entidades não observáveis, mas o fazem no que diz respeito às

relações (ou pelo menos algumas relações) entre elas.

Já o ponto de vista ontológico é um tanto mais complexo. Essa

abordagem sugere que o que há para conhecer são estruturas e,

portanto, a postura realista deve indicar como alvo epistêmico apenas

o conhecimento das estruturas. O conceito de entidade seria derivado

do conhecimento das relações (a relação implicaria o relacionado).

Mais ainda, a noção de entidade é metafisicamente problemática, pois

não se poderiam destacar – ou pelo menos do ponto de vista

científico não há razões suficientes para sustentar tal pretensão - as

entidades dos processos em que elas ocorrem, e, portanto, o que se

descreve teoricamente são as estruturas. De certo modo, não há

razões para crer que as entidades existem “em si mesmas”, elas são,

em certo sentido, emergentes ou dependentes das relações em que

participam.

Nos dois casos, a primeira crítica corrente passa pela afirmação