Reencontro com meus versos esquecidos por Jorge de Palma - Versão HTML

ATENÇÃO: Esta é apenas uma visualização em HTML e alguns elementos como links e números de página podem estar incorretos.
Faça o download do livro em PDF, ePub, Kindle para obter uma versão completa.

index-1_1.jpg

index-2_1.jpg

2

O autor

Jorge de Palma é filho de Carmo de Palma e de Adelina Candian de Palma. Nasceu em Iracemápolis-SP, em 20 de dezembro de 1952.

Trabalhou muitos anos como jornalista, atuando nos jornais Diário de Limeira, Diário de Pernambuco, Diário de Americana, O Liberal (Americana) e Tododia (Americana), entre outros.

Reside em Americana-SP.

Contato pelo e-mail:

jorgepalma@bol.com.br

Reencontro com meus versos esquecidos 3

Explicação

Comecei a fazer poesia com 15 anos ainda no tempo do antigo ginasial, Escrevia meus versos em um caderno. Com o passar dos anos, ingressei no jornalismo e fui esquecendo do caderno e da poesia. Dia destes, reencontrei aqueles escritos da juventude e não tive coragem de jogar fora. Daí o nome deste livro digital..

O leitor verá que as poesias podem ser consideradas infantis e algumas são uma tentativa de humor, com exceção de algumas mais recentes, mas eu as publico de forma aleatória.

Por isso suplico que não sejam muito rigorosos, na crítica a esta publicação.

J.P.

Reencontro com meus versos esquecidos 4

Encruzilhada da vida

O norte sempre foi meu rumo

E amei demais uma mulher

Até que a vida mudou

Surgiu a dúvida, o desejo

E amei mulheres demais

Pisando em mais canoas

Afundei na curva do rio

Descontrolado,

Trombei na esquina da vida

E perdi o meu amor

O próprio,

Na encruzilhada do mundo

Reencontro com meus versos esquecidos 5

E os anjos morreram

No princípio eram as crianças

E as crianças eram anjos

Depois veio a escola

E o mundo multiplicou:

Tarzan pulou dos livros

Marco Polo viajou

Cabral descobriu o Brasil

E as crianças, o mundo;

Super homem, o Universo

Então o computador falou:

"Deus criou os átomos dizendo: Combinai e multiplicai.

Adão era um macaco

Jesus Cristo um astronauta"

E a história do ajo-da-guarda

Virou conto de fadas.

Reencontro com meus versos esquecidos 6

Os malditos

Vereis a taça e a fumaça

E nada mais

Até que da taça estraçalhada

E do maço findo amassado

Transpareça

Da maldição, o que restou.

Ele pode ser

Um Vam Gogh com orelhas

Ou um Lautrec pernas longas

Mas não sentireis a sua angústia

Nem vereis a igual profundidade

Dos sentimentos avançados

Nem também sereis culpados

Da maldição que o acompanha

E o deixareis à margem do caminho E chorareis sua morte aos trinta e dois.

Depois comer-lhe-eis os miolos

Reencontro com meus versos esquecidos 7

E dareis seu nome às ruas

Para orgulho do prefeito

Publicareis livros e mais livros

Para o bolso do editor

E alguém levará flores

Num local estatuado

Já não vereis taça, nem fumaça

Mas sim nuvens legendárias.

Reencontro com meus versos esquecidos 8

Brincado de trás pra frente

Vinho ja John IV

A dama é amada

A vida, a diva

É

Reviver Roma o amor reviver

Aroma e de pé de amora

Vinho ja John IV

Reencontro com meus versos esquecidos 9

Poesia aiseop

O vovo

Sartel ama letras

Adora a roda

Brinca : acnirb

aiseop zaf, faz poesia

Reencontro com meus versos esquecidos 10

Ficou...

Ficou o doce sabor dos beijos

Que agora vai

Se arrastando com o tempo

Ficou a sua imagem metafísica

O seu modo desligado

O seu trejeito engraçado

Ficou pouco

Ficou muito

Muito pouco de você.

Reencontro com meus versos esquecidos 11

Conselho

Se na erma noite andares só

Sem nada para ocupar o espírito

Sem amante para acariciar

Sem vontade de beber

Se sentires inveja

Ao tropeçar no carinho alheio

Se perceberes que até um diálogo

Consigo mesmo é chato e inútil

Se não tiveres nada para fazer

Nem mesmo um defunto para velar

Manda tudo às favas e vai dormir. .

Reencontro com meus versos esquecidos

index-12_1.jpg

12

A importância do meio

Andromeda (1869) Edward Poynter

Se olho para o fim

Tudo me parece inútil

Mas é preciso ressaltar

A importância do meio

Deixemos o princípio

Para os filósofos

E historiadores

E o fim para os computadores

Que ontem não voltará

O depois será amanhã

Reencontro com meus versos esquecidos 13

E não se sabe se haverá

É bom girar o calidoscópio

dos poemas multicores

Pois também as flores

Têm vida curta

E não deixam de florir

É preciso brincar

Com a criança de hoje

Que amanhã será adulto

E não se sabe o que será

É preciso vida viva

No prazer, no fazer, no querer

Já que Andrômeda virá

E bem sabemos que ela é

A amante eterna, amiga que aconchega No leito coberto de sete palmos Reencontro com meus versos esquecidos 14

Fábula moderna

Um homem fala de sua angústia

E do seu mundo pessimista

O gravador escuta com atenção

É um bom ouvinte o gravador

Grava a dor

O homem aperta um botão

E o gravador fala

Fala bem o gravador

Agrava a dor

Clic - E o homem o interrompe

Porque descobre que exagerou.

Reencontro com meus versos esquecidos 15

Errante

Virá num por de sol

De um céu qualquer

Quando quiser

Pousará seu corpo errante

Sem roupas e diamantes

Num leito uma noite só

Seguirá na manhã próxima

Seu rumo diário-contrário

Mas na magia palpitante

Provará que é a deusa amante

De um leito uma noite só

Ficará num coração

Numa canção, talvez. .

Reencontro com meus versos esquecidos 16

Garota da praia

Garota que do bronze roubou a cor Que rola na areia seu corpo de muitos E vive na rua sob o luar

Você endeusa o noturno e o veloz metal Mas não pense que tudo é seu

Você rouba da praia

Os beijos do mar

Você vende o prazer

A quem pode pagar

E imita o sorriso

Do sol matinal

Mas é ponto final

Quando falam de amor

Reencontro com meus versos esquecidos 17

Indo

Longo é o caminho

De quem caminha só

A estrada se prolonga

E o fim

Do infinito

Se aproxima

Reencontro com meus versos esquecidos 18

Pensamento

Hoje não há mais

Aquele mundo escondido

Nos canaviais

E a virgem dos lábios de mel

Tirou o véu da ingenuidade

Ontem, quando voltei

Descobri a necrópole dos meus sonhos Hoje não há mais o recanto

Onde conheci Afrodite e outras deusas E os dois mundos de Demian

Marcaram-se com nitidez.

Feliz aniversário

Feliz aniversário?

É tudo muito ao contrário

Quanto mais se vai em frente

Mais se fica deprimente!

E a vida, que coisa linda,

Cada vez fica mais finda!

Reencontro com meus versos esquecidos 19

Meu canto

Se hoje meu canto é

Um tanto quanto absorto

É que minha alma se inspira

Na fisionomia de um morto

Se hoje meu canto é

Um tanto quanto sublime

Em que nada se inspire

É que há entre o nada e tudo

Uma diferença que oprime

Se hoje meu canto é

Mais fraco que de costume

É porque eu deduzi

Que a mesma matéria faz

O perfume e o estrume.

Reencontro com meus versos esquecidos 20

Só hoje morri cinco vezes

Tem gente tonta, ou nem tanto

que acha que o que presencia

vale um livro , ou um canto

O outro descreve um momento

sofrido, magoado,

perdido ou destrambelhado!.

.

Ontem, em plena fobia,

vi o Estado acuado

todo mundo desesperado

se escondendo, na anarquia.

PCC condenado isso sim

fez de conta que não era assim

Reencontro com meus versos esquecidos 21

assustou todo mundo enfim

usando plim por plim

Foi tanta a correria e o medo

que o que mais se usou foi o dedo, todo mundo desesperado

apertando um pontinho molhado

do suor descontrolado

à procura do celular,

insistindo para ligar!

As portas se via aos poucos

a fechar, a fechar e a fechar

não foi homenagem nem honra

aos soldados valentes

traídos a tombar!

Foi medo, muito cedo!

Antes da batalha começar!

Reencontro com meus versos esquecidos 22

Foi tanta a fobia e a mentira

que o boato correu solto

aqui e ali gente morria,

mas gente morre todo dia!

Só que era tanta a covardia

que aquele que morria

nem percebia

porque sua vida se ia!

A tragédia se ampliou

a boataria se amplificou

mas um policial de comunicação

com humor se encorajou

e quando alguém desesperado

lhe telefonava afobado,

como aquele meu avô,

ele dizia animado:

O diabo não é tão feio como você pinta!

Reencontro com meus versos esquecidos 23

Sobre PCC ou outra coisa se que minta A verdade, por horas ou por meses, É que somente no dia de hoje

Já me mataram cinco vezes!

Reencontro com meus versos esquecidos 24

Insônia

Deitado, não consigo dormir

Cai a chuva no telhado

E eu penso em te ouvir

Vejo teus lábios movendo-se

Vejo te a sorrir

Estou assim neste transe

Quando uma gota em meu rosto

Vem meu coração ferir

Pois sua geleza lembra

O teu frio coração

Então eu penso:

Ah! se tu me desses

Uma gotinha de amor

Meu infeliz coração

Não teria tanta dor.

Reencontro com meus versos esquecidos 25

O Engano

O coração gemeu de tristeza

Tão grande foi a malvadeza

Que alguém lhe praticou

Encontrar o alguém amado

Com um outro namorado

O coração desenganou

E aquele sonho de tempo longo

Deixou um tom amargo

No coração de quem amou.

Reencontro com meus versos esquecidos 26

O poeta e o amor

Tão logo nasceu o amor

Já então nasceu o poeta

O mundo inteiro é uma flor

Cantou o poeta em festa

Mas veio a desilusão

Chorou então o poeta

Tenho a dor no coração

Cabelos brancos na testa

Sorriu novamente o sol

Floriu novamente o amor

E nunca mais o poeta

Citou a a palavra dor

E assim viveram para sempre

Entre o sol e a flor

Reencontro com meus versos esquecidos 27

Para sempre, para sempre

O poeta e o amor.

Reencontro com meus versos esquecidos 28

Ironia à técnica

O sol em certa vez

Na noite penetrou

E a luz com polidez

A ele pergunto:

Oh Sol, que acontece

E ele lhe replicou:

Lua, pelo que parece

Meu relógio adiantou.

Reencontro com meus versos esquecidos 29

Minha inspiração

Sempre vagando pela vida

Jamais eu tive a esperança

De poder dizer: "Oh querida, Do amor não tenho ignorância"

Eu sempre fui um solitário

O amor eu nunca compreendia

Aos poetas eu fui contrário

Seus versos eu não entendia

Mas como tudo tem um fim

Terminou minha solidão

Quando você trouxe para mim

Do amor a pura compreensão

Quão belo é o amor me explicou

Nenhuma palavra nos lábios

Reencontro com meus versos esquecidos 30

Com olhos grandes me ensinou

Que todos os poetas são sábios

E assim, por você eu mudei

Você é minha inspiração

Por você me transformei

Sou poeta de coração!

Reencontro com meus versos esquecidos 31

O verde

Verde apagado:

Céu estrelado

Verde claro:

Cantar do pássaro

Verde vivo

Céu iluminado

Verde claro:

Por de sol

Verde apagado:

Céu estrelado

E um dia se extinguiu

Nas florestas do Brasil.

Reencontro com meus versos esquecidos 32

Casa amarela

O tempo não escondeu

O passado em que viveu

Alguém na casa amarela

Tinha vida, tinha vida

Aquela casa amarela

Quando alguém morava nela

E minha mente doente

Revive a cada instante

O passado já distante

Os tempos da casa amarela!

Quem habitou aquela casa

Nos tempos que já não vem

Habitou minha alma também

Reencontro com meus versos esquecidos 33

E está firme a velha casa

Como eu já não estou

Esperando a menina

Que em dois lugares habitou

Mas a casa ruirá

Como também tombarei

Pois jamais voltará

A menina que eu amei.

Reencontro com meus versos esquecidos 34

Instante de chuva

Mil patinhos a pular

No chão da rua

Eu lá dentro a sonhar

No mundo da lusa

E um homem a voltar

Com a vara de pescar

Mil patinhos a pular

No chão da rua

Uma criança a brincar

Na chuva, nua

Com os patinhos da chuva

Rochinha como uma uva

Mil patinhos a pular

No chão da rua

É o asfalto a se lavar

Reencontro com meus versos esquecidos 35

Com as lágrimas da chuva

E o céu chora num instante

Porque o instante é da chuva.

Reencontro com meus versos esquecidos 36

Momento eterno

Gente que ia,

Gente que vinha

Eu não fui

Ela não veio

Estávamos

Uns se apresentavam

Outros diziam: prazer

Eu não me apresentei

Ela tampouco assim fez

Éramos

Mais um morria

mais outro nascia

Eu não a vi morrer

Ela não me viu nascer

Vivíamos

Reencontro com meus versos esquecidos 37

Alguém se lembrara

Do amor que nascera

Alguém se lembrava

Do amor que morrera

Amávamos

Reencontro com meus versos esquecidos 38

Ilusão

Eu que queria ser

Um rei no seu coração

Nem cheguei a ser barão

Fiquei como bobo da corte

No castelo da ilusão

Reencontro com meus versos esquecidos 39

Soneto do sonhador

Vivendo de eterno sonhar

O destino assim decidiu

Passando a vida a se lembrar

O amor que um dia existiu

Olhos fechados a cada instante

Sorriso triste no semblante

Fazendo esforço com a mente

Para ver um rosto sorridente

Sorri então de alegria

De quem venceu no mais querido

Retorna a um mundo de poesia

Abre os olhos esperançado

Retorna a ser amargurado

E fecha os olhos assustado.

Reencontro com meus versos esquecidos 40

O foguista

Trabalha o pobre vidreiro

Há muito que o suor derrama

Mas o que paga o empreiteiro

Não mata sua fome insana.

Sofre muito com calor

Trabalha à beira do forno

Tem momento de humor

Para esquecer o transtorno

E diz então a brincar:

Já estou acostumado

Com tal vida egoísta

Quando a morte me levar

Pedirei ao endiabrado

Um emprego de foguista

Reencontro com meus versos esquecidos 41

A tristeza matou

A tristeza mata

Alguém disse: não

Porém nesta data

Morreu um coração

Caiu de repente

De bela altura

E uma alma contente

Ficou fria e dura

Sobrou na pessoa

Somente a ação

No íntimo não soa

Mais um coração.

Reencontro com meus versos esquecidos 42

Trovas

Essa vida é um buraco

Dizia alguém cabisbaixo

Mas o que seria do ponto alto

Se não houvesse o ponto baixo?

Ah se a cada suspiro dela

Um doce suspiro em ganhasse

Talvez lá na minha janela

Uma doçaria em montasse.

Quantas saudades da escola

Ah trises férias que maldigo

Pois fica naquela gaiola

Bonito pássaro comigo.

Reencontro com meus versos esquecidos 43

Fantoche

Jogando na vida

Por ela arrastado

Precisa chorar

Precisa sofrer

Precisa amar

Precisa viver

Precisa?

Mas vive e sorri

Às vezes amargo

Mas sofre e chora

Às vezes de alegria

Ou cai prostrado

Num sonho loquaz

Aprende a amar

Aprende a odiar

Se torna capaz

Até de tirar

Reencontro com meus versos esquecidos 44

A vida de outro

No mundo jogada

E vai assustado

O fantoche do amor

Fantoche dos deuses

Fantoche da vida.

Reencontro com meus versos esquecidos 45

Engenho

Um vem, outro vai

Nos canaviais

Da minha terra que encerra

Um encanto sem fim

Talvez só pra mim.

Um vai, outro vem

Há sempre alguém

Na estrada empoeirada

Com cana a beirar

Até o engenho chegar

Engenho que é vida

Que é luta renhida

É toda uma história

De um povo que cresce

De quem não esmorece

Reencontro com meus versos esquecidos 46

Pra vida vencer

Vencer para outros

Que a vida trará

para lutar e para amar

Enfim, para trabalhar

No engenho que não pode parar.

Reencontro com meus versos esquecidos 47

Confusão de olhares

Não me olhe feio

Namorado ciumento

Pois a sua namorada

Não me olha um só momento

Às vezes eu penso

Ciumento namorado

No que aconteceria

Se a sua namorado

Olhasse para meu lado

Mas ela não olha pra mim

E lá se vai meu devaneio

Continuo olhando-a triste

E você me olha feio.

Reencontro com meus versos esquecidos 48

Oculto prazer

Garrafa vazia

Rolando na mesa

Oculto prazer

De vê-la cair

De vê-la quebrar

Mui corpos vazios

Pulando, dançando,

Dançando, pulando

Oculto prazer

De vê-los girando

Oculto prazer

De ver o mundo vazio

De vê-lo findar

-Tudo se transforma

Pra ver no que vai dar

Reencontro com meus versos esquecidos 49

Oculto prazer

De vê-la com outro

Pulando, dançando,

Dançando, pulando

Oculto prazer

De ver-se sozinho

Ocultando o prazer

Que sinto e que não sinto

De vê-la com outro

De vê-la feliz.

Reencontro com meus versos esquecidos 50

Acróstico para Rita

Retenho-me aqui Rita

Inspirado em teu sorriso

Terei que descrever-te-agora

Agora que sei que amor é isso

Riso que não é vendido

Inda mesmo não comprado

Tão puro é este sorriso

Ah!, é um sorriso dado.

Róseo rosto de pureza

Indizível prazer eu sinto

Tê-lo assim tão perto ao meu

Ao meu me dá nobreza

Ricos olhos pequeninos

Incomuns, é admirável

Reencontro com meus versos esquecidos 51

Terão tirado da estrela

Aquele brilho invejável?

Renuncio a todos, Rita

Impunes gozos do mundo

Ter-te assim junto a mim

Agrada-me mais que tudo.

Reencontro com meus versos esquecidos 52

Sonho

Mais solidão

Que a madrugada

Cadê a amada?

Fugiu com o vendo

Partiu para o nada

Foi só um momento

Saudade surgida

Da ausência do falso

Surgida do nada

Ao nada voltada

E a mente que cria

Exprime demais

Uma dor sem sentido.

Reencontro com meus versos esquecidos 53

Vida é arte

Viver é criar problemas

Ideias e soluções

Desprezar o feio, amar o belo

Amar o belo é viver

É viver amar o bom.

Ainda que o bom seu feio

Realçando no feio o bom

Torna-se o feio velo

E viver é criar beleza!

Reencontro com meus versos esquecidos 54

Quando o poeta cansa

São fenômenos cansados

Por mil vezes repetidos

Que ainda se repetirão

Para que destacá-los

Se ele próprios são a vida

E a vida é uma só?

Não há porque cantá-los

Se cantados eles já foram

E seus poetas já morreram.

Reencontro com meus versos esquecidos 55

Velho boêmio

O céu sorri num instante

Quando um raio luzente

Ilumina a boca da noite

Sorrindo também se chora

E a noite assim pode ser

Sorri e chora quando chove

Mas não se importa o boêmio

Suas noite foram tantas

Que não terá mais um decênio

De anos de noite assim.

Reencontro com meus versos esquecidos 56

Calmaria

É um dia sorridente

Enfeitado pela brisa

E um sol ameno.

Eis que um rosto moreno

Se irisa na minha alma

Acalentando a minha calma

E eu sorrio então

Para alguém que na rua passa

Pois a vida é cheia de graça

Para quem sabe o que é o amor.

Reencontro com meus versos esquecidos 57

Meu pai

Ver o ultimo sorriso

Da rosa para o sol poente

É o que torna contente

Meu pais, à volta do serviço

Meu pai é um poeta

Não de verso, nem de prosa

É o poeta da rosa

Que vive para bem tratá-las

Que luta para conservá-las

Tratando-as com carinho

E nem dia que uma é mais bela

Para não desprezar as demais

Chega tarde do serviço

Cansado, mas nem por isso

Deixa de banhar suas roseiras

Antes de lavar-se a sei próprio

Reencontro com meus versos esquecidos 58

E sorri de contentamento

Ao ver que naquele momento

As rosas parecem sorrir.

Reencontro com meus versos esquecidos 59

Vampiros

Bate o lúgubre sino

Da tétrica meia noite

Inexiste algo divino

Apenas o voar silencioso

Eclipsando a lua

Do mamífero maldoso

Mensageiro do terror.

Beija a amada neste instante

O personagem triunfante

Da película de horror

Porém, que encontram seus lábios?

Um corpo inanimado e frio

Cuja vida e calor

A morte roubou.

E o espanto estampa-se no rosto

Reencontro com meus versos esquecidos 60

Do assombrado jovem hesitante

Ao ver transforma-se em cena ligeira O rosto querido e adorado

Simplesmente, em caveira.

E este epílogo fatal

Ronda-nos a cada instante

Sem que dele percebamos

Quando apenas procuramos

A beleza banal e faceira

Que esconde não mais que a caveira.

Reencontro com meus versos esquecidos 61

Ribeirão

Ah! pequeno ribeirão

Tu não és o Lete

Porém assim mesmo suplico

Traze a mim o esquecimento

Já que o amor não é possível

Torna-me outro neste momento

Pois o malando do cupido

Não me quer como amigo.

Reencontro com meus versos esquecidos 62

Pós apocalipse

O infinito repousa no segundo

Da existência dúbia e tediosa

Do maribondo

Do moribundo

Do mar e bonde

A glória é o suspiro que arrasta

O hálito sem calor na obra desprezada E nem o lume de um fósforo

Brilhará jamais

Quebraram-se os acratófaros

Nem Baco, nem bacanais.

É o prazer de ver terminada

O incógnita obra depreciada

Que era gentleman

Era gentalha

Reencontro com meus versos esquecidos 63

Era gente e imã

Era gente nada.

Nada na fobia

Do primitivo fulgir dos tempos

Nada no triângulo

Nada em Max

Não há ângulo

Nem êmbolo

Já não engole

Não há gole

Nem tudo

Nem tudo de ensaio

Nem janeiro, nem maio

Mas havia até um Sampaio

Que gritava: Ai que eu caio

E um outro: Cai que eu vaio

Mas há resto?

Não há vala que já valha

Reencontro com meus versos esquecidos 64

Nem faca, nem navalha

Nem papagaio, nem gralha

Só inconsciente escuridão

Sem dar a mão

Sem ter cordão

Sem reflexo, sem sexo, sem nexo

Talvez, perdão

Reencontro com meus versos esquecidos

index-65_1.jpg

65

Lampião

Brilhava por fora

E agora por dentro

Uma chama o devora

Saudade de um tempo

Que aceso e altivo

Sabia o motivo

De todas as rusgas

Entre os namorados

E ouvia segredos

Até de Estado

Reencontro com meus versos esquecidos 66

Agora no lixo

Jogado, esquecido

Vê que de ferrugem

Já está enegrecido.

Assim são os homens.

Reencontro com meus versos esquecidos 67

Filosofia da pedra

A estrada é cheia de pedras

E elas devem ser quebradas

Para vermos como é

Para levarmos na lembrança

Seus melhores fragmentos

A pedra às vezes é grande

Mas a força constante

Vence a pedra exuberante

Dando ao pedreiro mais força

De quebrar pedras maiores

Todavia que acontece

Quando a pedra é mais que pedra

Quando a pedra é quase aço?

E vence a força do pedreiro

E lhe imprime o cansaço?

A estrada é cheia de pedras

Porém uma pedra é mais forte

Reencontro com meus versos esquecidos 68

O pedreiro já não carrega

Apenas seus fragmentos

Carrega uma pedra toda

E a pedra nada sente

Pois a pedra apenas sabe

Ser pesada e ser bonita

E se um dia irá quebrar

É por mão de outro pedreiro

Mais fraco, ou talvez mais forte

Mas que tenha melhor sorte

Pois a vida é quebrar pedras

Do nascimento à morte

Ou então carregar aquela

Que quebrar não conseguiu.

Reencontro com meus versos esquecidos 69

Convite

Andrômeda há de chegar

A amante eterna

A amiga que aconchega

No leito coberto de sete palmos.

Vamos então filosofar

Que isso é apenas esperar

A minha, a sua Andrômeda

Vencedora dos homens

Que não há de demorar.

Reencontro com meus versos esquecidos

index-70_1.jpg

70

A briga

Foi aquela uma briga danada

A do cupido e a moça assanhada

Pois um dia o anjinho arqueiro

Não estava lá muito certeiro

E, se não falha a narração

A rusga assim foi oriunda

Cupido mirou no coração

Mas acertou a flecha na bunda.

Reencontro com meus versos esquecidos 71

Flor do campo

Estava ali,

Mas você foi

A rosa que não colhi

A flor que deixei no campo

Hoje a vejo em cada canto

Nas lembranças e passagens

De um mundo de desencantos

Constato assoberbado

Perdido neste deserto

Quanto se ilude quem não faz

A colheita no tempo certo!

Reencontro com meus versos esquecidos

Você pode estar interessado...

  • Poesia
    Poesia Poesia por Florbela Espanca
    Poesia
    Poesia

    Downloads:
    26

    Publicado:
    Feb 2021

    Poesia de Florbela Espanca

    Formatos: PDF, Epub, Kindle

  • Obra Completa de Fernando Pessoa - Oito volumes
    Obra Completa de Fernando Pessoa - Oito volumes Poesia por Fernando Pessoa
    Obra Completa de Fernando Pessoa - Oito volumes
    Obra Completa de Fernando Pessoa - Oito volumes

    Downloads:
    43

    Publicado:
    Jan 2021

    Obra Completa de Fernando Pessoa I: Poesia de Fernando Pessoa. Inclui "Mensagem", "Cancioneiro", a poesia inédita e mais (Edição Definitiva)

    Formatos: PDF, Epub, Kindle

  • TODOS OS POEMAS SÃO DE AMOR
    TODOS OS POEMAS SÃO DE AMOR Poesia por riley_de_oliveira@yahoo.com.br
    TODOS OS POEMAS SÃO DE AMOR
    TODOS OS POEMAS SÃO DE AMOR

    Downloads:
    31

    Publicado:
    Aug 2020

    Em TODOS OS POEMAS SÃO DE AMOR, o autor demonstra que as coisas mais simples da vida e a consciência da mortalidade são as maiores dádivas da vida. São os mom...

    Formatos: PDF, Epub, Kindle