Refém Do Desejo por Margo Maguire - Versão HTML

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REFÉM DO DESEJO

“The bride hunt”

Margo Maguire

Inglaterra e Escócia, 1072

Sua vida estava nas mãos de um homem que ela não ousava amar...

Na noite em que Isabel Louvet escolheria um noivo, o castelo de seu

pai é atacado e ela é raptada e entregue como escrava a um líder escocês. Ao

tentar salvar a vida de Isabel, o valente Anvrai d'Arques também é capturado,

mas graças às suas habilidades de guerreiro, ele consegue escapar, levando

consigo a jovem prisioneira. Isabel desperta em Anvrai uma ardente paixão,

mas ele não ousa esperar que uma mulher tão linda e cobiçada possa amar um

homem que traz marcas profundas das batalhas que enfrentou. No entanto, ao

se aventurarem naquela fuga arriscada, Anvrai descobre o brilho do desejo nos

olhos de Isabel. Perseguidos por inimigos implacáveis, Isabel e Anvrai têm de

enfrentar uma árdua batalha para salvar a si mesmos, seu povo e um amor que

tem o poder de libertá-los para sempre!

Margo Maguire – Refém do Desejo

(CHE 260)

Capítulo I

Nortúmbría, 1072, fim de verão. Castelo de Kettwyck

Sir Anvrai d'Arques olhava para os lados, inquieto, incapaz de

descontrair-se. Não conseguia se envolver no ambiente alegre, nem com as

músicas que eram executadas sem parar. As obras do castelo-forte não tinham

sido concluídas. Além disso, nos últimos tempos os cavaleiros de lorde

Kettwyck haviam se dedicado mais a ajudar na construção do que ao

treinamento com objetivos de defesa.

Seria muito fácil para os escoceses atacarem o castelo durante as

festividades em comemoração à chegada de Isabel e Kathryn, as duas filhas do

lorde.

Apoiado na balaustrada superior, observava lady Isabel dançando

com os incontáveis pretendentes.

— Anvrai d'Arques! — Hugh Bourdet, o auxiliar de maior confiança

de lorde Kettwyck, estendeu a mão para saudá-lo efusivamente. — Bem que

disseram que o senhor veio no lugar do barão Osbern. Fico satisfeito em

encontrá-lo. Já faz dois anos que não nos vemos?

Apesar de respeitar o cavaleiro idoso, não se encontrava com

disposição para conversar.

— Sim, se não for mais — Anvrai respondeu, com o cenho franzido.

— Noto que o senhor está muito sério. Hoje é um dia de festividades

e descontração. — Hugh riu. — Segundo me consta, o senhor não assumiu o

comando da guarnição do rei em Winchester.

Anvrai cerrou os dentes. Havia um ressentimento profundo entre ele

e o rei Guilherme. De todos os cavaleiros que estavam na corte e podiam

aproveitar a notoriedade de comandar um dos exércitos do monarca, Anvrai

d'Arques fora o que recebera menores recompensas. Pelo menos, nada de

substancial. Anvrai teria encontrado muita satisfação em possuir uma pequena

propriedade... um lar... como recompensa pelos anos em que estivera a serviço

de Guilherme. Antes e depois da batalha de Hastings.

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Mas Guilherme não tinha intenção de recompensar o homem que o

desafiara. Por esse motivo, Anvrai d'Arques vivia nas casernas de Belmere, a

serviço do barão Osbem d'Ivry, lorde de Belmere. O fato era uma permanente

fonte de irritabilidade, mas não havia solução possível. Anvrai d'Arques era tão

obstinado quanto Guilherme, o Conquistador.

Anvrai apontou para as muralhas de Kettwyck e explicou os motivos

de sua preocupação.

— Sir Hugh, as fortificações ainda não foram terminadas. Será que

lorde Henri não receia o ataque de escoceses?

— Nossos inimigos nunca demonstraram interesse em conquistar

nosso longínquo território a oeste — Hugh retrucou. — Mesmo assim, não

deixamos de tomar precauções. Temos cavaleiros patrulhando o perímetro das

muralhas que não estão terminadas e...

Anvrai escutara histórias a respeito das incursões violentas contra os

cavaleiros normandos. Os escoceses eram bárbaros. Seqüestravam mulheres e

crianças para serem escravizadas ou vendidas. O melhor seria poder contar com

muralhas altas, além de cavaleiros armados nas rondas.

— O senhor acha que isso seria o suficiente para deter um bando de

escoceses selvagens?

— Em breve esses ataques terminarão. Os arautos do rei Guilherme

estão atualmente percorrendo a Nortúmbria, arregimentando vassalos para a

luta. — Hugh observou as festividades que tinham lugar embaixo, no salão. —

O rei foi pessoalmente para o norte e reuniu legiões de cavaleiros no trajeto.

— Ir ao encontro do rei Malcolm em seu torrão natal será uma

aventura arriscada.

— Concordo com sua opinião, mas o exército de Guilherme é muito

mais numeroso. O mensageiro chegou há uma hora com ordens para que todos

os súditos fossem até a foz do rio Tees, onde se encontram reunidos inúmeros

navios normandos. O rei pretende arregimentar uma grande tropa sob seu

comando.

— Até quando?

— Até o final do mês.

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Anvrai deu um passo atrás, raciocinando com rapidez. Teria de agir

sem perda de tempo. Era preciso organizar os cavaleiros de Belmere sob seu

comando.

— Nada deverá ser feito até amanhã — Hugh segurou ami-

gavelmente o braço de Anvrai. — Por ora, concentremo-nos em apreciar a festa

no salão nobre.

Anvrai negou com um gesto de cabeça.

— Isso não é para mim.

— Duvido que lorde Osbern o tenha enviado aqui somente para

vigiar as ameias, mesmo que o senhor pretendesse fazer uma saída repentina.

— Hugh deu um sorriso triste. — O senhor é um cavaleiro bastante conhecido e

respeitado, apesar de ser tão jovem. Com certeza há uma legião de donzelas que

esperam suas atenções.

Anvrai d'Arques ignorou o comentário, certo de que não fora mal-

intencionado. Nenhum cavaleiro da Inglaterra ou da Normandia ignorava o

aspecto chocante da fisionomia de Anvrai d'Arques. Mesmo os que não o

conheciam, teriam ouvido comentários a respeito. O lado esquerdo do rosto

dele era marcado por cicatrizes, e a órbita vazia que antigamente abrigara um

olho causavam repugnância.

Fazia muito tempo que Anvrai aprendera uma lição amarga.

Nenhuma jovem, da mais simples à mais atraente, poderia se interessar por ele.

A não ser, era evidente, as que visavam uma generosa remuneração.

Qualquer homem poderia apreciar a beleza de uma jovem, sonhar em

tocá-la ou mesmo em beijá-la. Se Anvrai tomasse atitude semelhante, seria

chamado de ogro. Por esse motivo nunca lhe ocorria participar de danças ou

festas.

— O senhor não pretende ir embora, não é? Ouvi dizer que lady

Isabel escolherá um noivo esta noite — Hugh comentou. — Ainda teremos

muitos brindes para erguer.

Anvrai descontraiu-se um pouco. Hugh tinha razão. Não havia

motivo para ausentar-se naquele momento. Viera com ordens de representar

Belmere e era o que faria. Deixara a tropa de prontidão, enquanto prestigiava o

banquete em honra das filhas de lorde Kettwyck. Para o evento, até vestira uma

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túnica ricamente bordada. Nunca estivera com tão boa aparência como naquela

noite.

— Está bem. Ficarei por hoje e amanhã cedo assistirei à missa. Depois

irei embora. Tenho muitas incumbências em Belmere. Será preciso organizar

tudo para a campanha militar de Guilherme.

— Acredito que lorde Osbern deve ter recebido a mensagem do rei e

até já deve ter iniciado os preparativos.

Anvrai concordou. Conhecia lorde Osbern. Quando retornasse a

Belmere, tudo estaria encaminhado.

— Lady Isabel, a mais velha das irmãs, é encantadora — Hugh

comentou, mudando de assunto. — Talvez ela escolha sir Roger para marido,

ou então sir Etienne Taillebois. Ambos são rapazes dignos e bem relacionados.

Anvrai deu de ombros. Ouvira dizer que lady Isabel teria permissão

de fazer a escolha entre a multidão de nobres que o pai reunira no salão nobre.

Por considerar-se um noivo inadequado para qualquer jovem, especialmente

uma dama tão adorável como Isabel, tivera sorte por ter escapado das atenções

de lorde Kettwyck. De qualquer forma, pouco lhe importavam os atos das

grandes famílias do reino.

Interessava-se muito mais pelas eminentes operações militares do rei

Guilherme contra os escoceses. Embora ultimamente não houvesse participado

de nenhuma das batalhas do monarca, sabia que há muito o rei empenhava-se

contra os ataques bárbaros dos habitantes do norte.

Anvrai avaliou o céu através da janela. Pareceu-lhe bastante provável

contar com boas condições atmosféricas até a manha seguinte, quando

empreenderia a volta a Belmere. Se tivesse sorte, o tempo continuaria estável

por mais dois dias. Tempo necessário para chegar em casa e partir ao encontro

do exército do rei Guilherme no rio Tees.

— Lady Isabel é muito atraente e fará um belo casamento — Hugh

considerou. — O senhor estava no salão esta manhã quando ela contava

histórias?

— Ah, sim — Anvrai d'Arques respondeu casualmente. E presenciara

o interesse com que muitas crianças e um sem-número de adultos haviam

acompanhado a história de um herói grego que Anvrai desconhecia. Isabel

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mudava a inflexão de voz para cada personagem da narrativa e mantivera os

ouvintes encantados.

Durante os trechos engraçados, os olhos cor de mel faiscavam e os

cabelos negros e brilhantes ganhavam vida sob a luz da manhã. Anvrai admitiu

ter ficado cativo pela maneira envolvente com que a formosa lady Isabel

encadeara as palavras. Deixara-se levar pelo timbre suave daquela voz e

chegara ao absurdo de imaginar que Isabel falava só para ele. Os aplausos

entusiasmados haviam quebrado o encantamento. O que fora excelente. Ele não

era daqueles que perdiam tempo com frivolidades.

— Milady iguala-se ao mais festejado dos bardos — Hugh alegou. —

Se não for mais inventiva de que qualquer um dos poetas heróicos celtas. Ela

contou histórias que eu nunca...

De repente, gritos estridentes abafaram a voz de Hugh e também a

música. Anvrai desembainhou a espada e correu, lamentando não estar com a

cota de malha nem com o escudo.

— Vamos! — Anvrai chamou Hugh.

Eles desceram de dois em dois os degraus de pedra e no patamar

intermediário defrontaram-se com cinco escoceses munidos de espadas e

escudos. Sem demora, Anvrai atravessou o peito do primeiro com a lâmina de

folha larga, enquanto Hugh lutava com o segundo. Os três outros atacaram ao

mesmo tempo. Anvrai atirou um banco de madeira na direção deles e atingiu

dois. O terceiro foi logo tirado de combate. Quando os dois desfalecidos se

recuperaram e investiram contra Anvrai, Hugh veio em seu auxilio. Juntos,

mataram os dois remanescentes e desceram o outro lance de escada rumo ao

salão.

— Por onde eles entraram? — Anvrai quis saber.

— Deve ter sido pela muralha meridional, a única que realmente não

oferece resistência.

Anvrai murmurou uma imprecação. Eles viraram à esquerda e

tiveram de enfrentar mais dois escoceses. Aquela não era a única passagem

vulnerável. A fortaleza e varias construções externas encontravam-se

inacabadas. Ele e Hugh combateram os dois guerreiros. Anvrai estava aflito

para alcançar o salão nobre. Era ali que os bárbaros estavam cometendo as

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maiores calamidades. Matavam quem ousasse defender-se e levavam os que

poderiam aproveitar como escravos.

Anvrai e Hugh percorreram uma galeria lateral antes de chegar ao

salão. Ali estavam crianças, mulheres aterrorizadas e as pessoas idosas demais

para lutar. Gritos estridentes cortavam o ar por todos os lados. O caos se

instalara.

— É preciso ir até o pátio — gritou Hugh. — Não vejo lady Isabel e

sir Roger por aqui. Eles estão desprotegidos.

Anvrai teria de abrir caminho entre a multidão que se concentrava no

salão nobre, reunir o maior número possível de cavaleiros e rumar para o pátio.

E no momento que lá chegasse, seria bem provável que os agressores já

houvessem matado Roger e levado Isabel.

Os invasores, inclementes, haviam chegado às ameias do anteparo do

torreão, de onde atiravam flechas para atingir os cavaleiros normandos que

lutavam para defender o castelo-forte. Anvrai viu o pai de Roger cair. Porém,

cercado por todos os lados, nada pôde fazer para ajudar o homem.

— Ao pátio! — Hugh insistiu.

Anvrai deu um golpe fatal no abdômen de um dos oponentes

dianteiros, mas foi atacado por trás. Sentiu no ombro desprotegido a ponta de

uma espada escocesa. Experimentou uma dor lancinante, mas não se deteve.

Virou-se e combateu o mais novo agressor, enquanto recuava em direção ao

pátio.

Quanto mais demorasse, pior seria. Os escoceses não hesitariam em

capturar um prêmio tão encantador quanto lady Isabel. Vira várias jovens, a

maioria delas servas, serem levadas pelos desvairados.

Anvrai conseguiu impedir o rapto de muitas mulheres e deu-lhes a

oportunidade de fugir, porém os cavaleiros normandos estavam em menor

número e tinham sido apanhados de surpresa. A patrulha de lorde Kettwyck

falhara. Os convidados não usavam armadura e tinham sido feridos. Os

escoceses venciam a batalha de Kettwyck e retiravam-se com todos os itens de

valor que podiam carregar. Ateavam fogo no que deixavam para trás,

acrescentando ainda mais pânico à confusão reinante. Ferido e sangrando,

Anvrai deixou o salão e foi combater do lado de fora do castelo. Os escoceses

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retardatários riam e provocavam os normandos derrotados. Embora o linguajar

deles fosse ininteligível, o tom de ameaça era bem claro. Os invasores

proclamavam a vitória e caçoavam dos opositores normandos.

A ofensiva final foi o incêndio da estrebaria, com muitos cavalos

presos no seu interior. Os escoceses haviam roubado tudo o que lhes interessava

e destruído o restante.

Anvrai não viu sinal de Isabel nem de Roger. Por um instante,

considerou o que poderia acontecer àquela formosa donzela. Seria um destino

terrível para qualquer jovem inocente, independentemente de ser bela ou não.

Suspirou, arrasado. Nada mais poderia ser feito. Isabel sumira.

— Eles foram para as colinas, sir! — um dos cavalariços gritou. — Os

desgraçados atearam fogo em tudo e debandaram como ladrões miseráveis que

na verdade são!

Anvrai não perdeu tempo. Em meio a cavalos apavorados pelas

chamas e cavalariços que as combatiam com baldes de água, selou um garanhão

de bom aspecto. Ordenou a vinte cavaleiros que fizessem o mesmo e liderou a

comitiva que galopou atrás dos atacantes. Determinado, jurou a si mesmo que

faria o que estivesse a seu alcance para resgatar a noiva de outro homem.

Isabel Louvet, a moça criada no convento de St. Marie, foi atirada no

chão sem a menor cerimônia, como se fosse u saco de grãos. Rastejou até onde

se encontrava Roger. O rapaz fora amarrado e deitado de costas em uma

carroça, em meio a mercadorias roubadas pelos vitoriosos. Isabel reconheceu

que, nem nos recônditos mais férteis de sua imaginação criativa, poderia ter

inventado uma história tão selvagem de matança e crueldade. Agressores

escoceses haviam invadido o castelo de seu pai, vindos de todos os lados,

matando quem ousasse fazer-lhes oposição. Perdera o fôlego diante de tamanha

carnificina.

— Sir Roger! — Isabel gritou e foi puxada pelos cabelos.

Levou uma bofetada do atacante. Sentiu a vibração nos dentes e seus

lábios ficaram inchados. Engoliu em seco e escutou o homem vociferar palavras

estranhas e violentas. Aturdida com a rudeza do tratamento, encolheu-se e

protegeu a cabeça com as mãos. Não fora preparada para acontecimentos dessa

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espécie, durante os anos em que permanecera na abadia de St. Marie. Os

escoceses a matariam se ela lhes causasse problemas. A seu redor, escutava sons

abafados de gemidos, mas naquela escuridão pouco se podia enxergar. Apenas

alguns olhares apavorados que certamente eram semelhantes ao dela.

O pobre Roger fora duramente atingido na cabeça. Nem tivera a

oportunidade de puxar a espada da bainha. Desacordado, fora arrastado em

direção à muralha do castelo-forte. Um dos atacantes a atirara sobre o ombro e a

jogara sobre o lombo de um cavalo, antes de disparar rumo às colinas.

Isabel não se entregava com facilidade. Lutara, desesperada, para

libertar-se. Socara as costas de seu captor e berrara sem parar. Em vão. Sem lhe

dar a menor importância, os bandidos empreenderam desabalada carreira por

cerca de uma hora, antes de fazer uma parada em um pequeno matagal no alto

de um cômoro, ao norte do castelo de seu pai. Era ali que continuavam

esperando.

No silêncio, Isabel escutou o tropel dos cavalos nos caminhos abaixo

deles. Abriu a boca para gritar um aviso, mas foi atirada ao chão, onde lhe

puseram uma mordaça. Enquanto lhe amarrava o trapo sujo na boca, o homem

sussurrava palavras estrangeiras, mas de sentido inconfundível. Isabel estre-

meceu, enojada.

O imbecil se deitou sobre ela, impedindo-a de mover-se. Respirar

ficava cada vez mais difícil. E Isabel nada podia fazer, enquanto os outros

esperavam, emboscados, pelos normandos que vinham resgatá-la.

Capítulo II

Algum lugar da Escócia, Uma semana depois

Anvrai não desperdiçou forças com ataques de ira ou com

imprecações. Nem com preces.

Tinha uma tarefa para cumprir e seu futuro dependia do sucesso

dessa realização. Virou a cabeça para a direita. A algema pesada de ferro que

lhe segurava o pulso estava amarrada a uma corrente grossa. Esta, por sua vez,

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era presa em um toco de ferro robusto enfiado bem fundo no chão. O outro

braço e as duas pernas estavam presos da mesma maneira.

Assim mesmo, teria de escapar. De qualquer jeito. Era o único

pensamento que o mantinha alerta.

Sentia frio. O sal do suor fazia arder os ferimentos conseqüentes aos

maus-tratos que lhe haviam impingido. Não conseguia lembrar-se de quando

fora torturado pela última vez, nem há quantos dias era prisioneiro desses

bárbaros do norte.

Sacudiu as correntes que o amarravam. O ato simples de revolta

resultou em um pontapé violento nas costelas por parte de um de seus captores.

Anvrai achou melhor ficar imóvel e continuar impedindo a irritação. Nunca se

sentira tão impotente, tão derrotado.

Nem mesmo sabia onde se encontrava. Se não houvesse sido

designado para ir ao castelo de Kettwyck...

Se houvesse ido diretamente ao encontro do exército do rei

Guilherme no rio Tees...

Se...

Há quantos dias, ou semanas, acontecera a comemoração pela

chegada das filhas de lorde Kettwyck ao castelo? O número de cavaleiros de

Kettwyck mortos durante o ataque à fortaleza fora muito grande. Por isso

coubera a Anvrai d'Arques, um visitante, a incumbência de liderar a

perseguição aos escoceses que haviam seqüestrado Isabel e seu pretendente, sir

Roger.

Os cavaleiros de Kettwyck haviam seguido a pista com muito

cuidado e sem fazer ruído. Providências inúteis. Os escoceses esperavam às

escondidas no meio de uma mata cerrada e caíram sobre os normandos de

todos os lados. Pularam até mesmo de cima das árvores. Anvrai e seus homens,

em minoria, foram dominados com facilidade.

Anvrai nem mesmo sabia se algum dos cavaleiros de sua pequena

tropa estava vivo. A única lembrança era ter caído em uma emboscada e ter sido

aprisionado em seguida.

Sentia dores por todo o corpo, mas acreditava que estivesse com

apenas uma costela quebrada. Dos vários ferimentos resultantes da agressão

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violenta a que fora submetido, o do ombro parecia-lhe em pior estado.

Infeccionara e causava-lhe febre intermitente. Recordava-se vagamente de ter

sido arremessado dentro de uma carroça de madeira tosca e em seguida

acorrentado. Mas ignorava para onde fora levado e o que acontecera com Isabel

e os demais prisioneiros.

O fato de não ter sido assassinado pelos escoceses, e oportunidades

para isso não haviam faltado, tinha um significado provável. Eles pretendiam

vendê-lo para algum chefe de clã que precisasse de braços fortes. Anvrai

contava apenas com uma vista, mas tinha tamanho e força superiores à maioria

dos homens. Os agressores deviam ter decidido que o trabalho de capturá-lo

teria de ser recompensado pelo preço que obteriam pelo prisioneiro. Ou talvez

apenas quisessem exibir um troféu da grande vitória contra os normandos.

Com muito custo, Anvrai levantou a cabeça e olhou de soslaio para os

arredores. Tentou adivinhar onde se encontrava e se aquele seria o destino final

do trajeto. Ou se continuariam a viagem ao amanhecer. Por causa da febre e dos

calafrios, tivera períodos de insônia desde o ataque a Kettwyck. Mesmo assim,

não tinha certeza do que acontecera após sua captura. Tinha uma vaga idéia de

uma travessia por mar.

Teria sido um sonho? Estariam ainda na Grã-Bretanha? Ou teriam ido

para a costa irlandesa?

Não havia como saber se Isabel ou Roger se encontravam com ele.

Tinha esperança de que não estivessem. O máximo que Anvrai podia almejar

era escapar dali. Não desejava ser responsável pela donzela nem pelo jovem

cavaleiro.

Era provável que Isabel de St. Marie já houvesse sido vendida. Era,

sem comparação, a jovem mais atraente que Anvrai já conhecera. Tinha cabelos

negros e brilhantes, olhos cor de mel emoldurados por cílios espessos e escuros.

Tivera a gentileza de fitá-lo de passagem, sem se mostrar chocada pelo rosto

deformado por cicatrizes. Quem o via pela primeira vez demonstrava, pelo

menos, assombro. Apesar da familiaridade da reação que causava nas pessoas,

Anvrai nunca se acostumara. De qualquer forma, nada poderia fazer por Isabel.

Cada um deles teria de sobreviver como pudesse.

Havia escurecido quase por completo. Um dos guardas soltou a mão

esquerda de Anvrai para que o prisioneiro pudesse comer uma côdea de pão

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que fora jogada a seu lado e beber água de uma caneca de barro deixada no

chão imundo. Era apenas o suficiente para manter vivo um homem do porte de

Anvrai d'Arques.

Quando mudou de posição para comer, a dor da costela partida e do

ombro ferido espalhou-se pelo peito como se fosse causada por uma lança

incandescente. Porém Anvrai já suportara sofrimentos maiores. Treinara

exaustivamente para ignorar tais desconfortos e aquelas chagas não constituíam

uma exceção. Com uma das mãos soltas, seria capaz de soltar as outras algemas

e libertar-se. Mas o sentinela mantinha vigilância estreita. Assim que Anvrai

começou a puxar a corrente, o escocês pisou-lhe no pulso e imobilizou-o.

Anvrai recusava-se a acreditar que nada poderia ser feito. Embora

sua energia normal estivesse diminuída por causa dos ferimentos, haveria de

aparecer uma oportunidade para agir. Anvrai a aproveitaria sem hesitar, assim

que seus captores diminuíssem os cuidados em algum momento. Tinha certeza

de que teria força para arrancar as correntes do chão e libertar as mãos. Uma

vez soltas as algemas de metal, os escoceses sanguinários não o venceriam.

Lady Isabel de St. Marie recusava-se a ceder ao medo. Não

sobrevivera àqueles últimos sete dias para depois entregar-se.

Ela e Kathryn haviam deixado a abadia de St. Marie e Rouen e

enfrentado os rigores da viagem para chegar à propriedade do pai na Grã-

Bretanha. Haviam suportado um sem número de dificuldades para rever os

pais. Mas nada se comparava aos tormentos que tiveram de confrontar depois

do ataque ao castelo de Kettwyck. Inúmeras pessoas haviam morrido e Isabel

nem queria pensar no que teria acontecido com sua irmã e com seus pais.

Jurou a si mesma que não deixaria nenhum bárbaro violentá-la.

Haveria de encontrar uma maneira de libertar-se das garras desses escoceses

miseráveis e fugir para bem longe. Os agressores brutais haviam se

desentendido a respeito dela. Depois de agarrá-la, haviam lhe rasgado as

roupas. Mas Isabel tivera a sorte de contar com a intervenção do líder deles, um

gigante de barba ruiva. Gritando, impediu-os de infligirem maiores sofrimentos

à prisioneira. O chefe nem mesmo tentara se aproveitar dela.

Nem chegara a abordá-la com atrevimento. Apenas dissera palavras

ríspidas, ao perceber seus movimentos mais lentos, devido à exaustão, que

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condenavam o excesso de mimos, e ordenara para ela continuar a marcha

interminável rumo a norte. Era evidente que a salvaguardava com um

propósito em mente.

Isabel receava até supor quais seriam esses objetivos.

Prestara bastante atenção ao trajeto que haviam feito e sabia em que

direção se encontrava o castelo de Kettwyck. Roger não fora gravemente ferido,

pois nem mesmo tivera oportunidade de lutar quando fora capturado. Os

agressores não o torturaram em excesso. Ao contrário do que haviam feito com

Anvrai d'Arques, que fora acorrentado no meio do cercado para animais.

Isabel estava certa de que o infeliz cavaleiro sofria com algumas

costelas quebradas. Não podia imaginar a extensão dos ferimentos de Anvrai,

porém notara a roupa manchada de sangue. Na cabeça havia um corte horrível

de onde partia uma trilha de sangue coagulado e sujo de terra, cobrindo o olho

cego. Os lábios estavam rachados e descascados. Notava-se que os atacantes

pretendiam enfraquecê-lo fazendo-o passar fome.

Apesar das condições precárias da saúde de Anvrai, não havia como

duvidar que os algozes o temiam. Ela e Roger tinham sido atados a uma cerca

de madeira com fitas de couro. Anvrai fora preso com correntes, os braços e as

pernas seguros no chão com escoras. Isso tudo apesar da debilidade de suas

condições físicas e de ele estar desarmado. Somente um milagre poderia fazer

com que Anvrai d'Arques causasse algum malefício aos escoceses.

Seis outros prisioneiros os acompanharam de início. Felizmente nem

Kathryn nem seus pais se encontravam entre eles. Amarrados uns aos outros

com cordas, haviam tropeçado muitas vezes no solo irregular por onde

andavam descalços. Hostilizados e castigados de maneira ininterrupta durante

vários dias, chegaram a um grande lago, ocasião em que os cativos tinham sido

separados.

Lady Isabel, sir Roger e sir Anvrai tinham sido jogados em um barco

que os trouxera até onde se encontravam no momento. Os demais foram

levados para longe, rumo a um destino desconhecido.

Ovelhas pastavam nas colinas que rodeavam a aldeia que se avistava

ao longe. Pequenos barcos de vime recobertos de couro estavam ancorados na

praia. Seria um belo cenário de pôr-do-sol, se não fosse a multidão de homens e

mulheres que haviam deixado as choupanas para zombar deles pelas fendas

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das jaulas de madeira onde tinham sido presos. Quando olhavam para Anvrai,

os comentários se intensificavam, como se soubessem da luta feroz que ele

empreendera contra os captores.

Fora impressionante. Isabel nunca vira nada que se comparasse à

intrepidez de sir Anvrai em uma batalha. Com uma espada, ele derrotara tantos

agressores que Isabel perdera a conta. Anvrai d'Arques apenas sucumbira

quando tivera de enfrentar quatro de uma só vez e um deles conseguira laçar-

lhe as pernas com uma corda. Caíra como um tronco vigoroso de carvalho e

levara dois atacantes junto com ele. Fora espancado brutalmente até o líder de

barba ruiva resolver interrompê-los. Apesar da surpresa de não o terem

matado, Isabel entendeu, que Anvrai fora poupado com algum propósito

definido.

Assim como acontecera com ela. O estômago se contraía ao pensar no

que viria a seguir. Ouvira falar de muitas mulheres que haviam preferido a

morte, a perder a virgindade em mãos de carniceiros. Isabel nem mesmo sabia

se encontraria coragem para morrer por sua virtude. Não se imaginava pulando

na correnteza de um rio, de um precipício, ou enterrando uma arma no peito.

Aliás, os escoceses não a deixariam nem chegar perto de uma faca de cozinha.

Estava encurralada e não havia escolha. Teria de submeter-se. Não

entendia por que Hugh não viera resgatá-la.

Ele comandava os cavaleiros de Kettwyck. E fora sir Anvrai quem os

liderara no combate. Piscou para afastar as lágrimas ao pensar no que poderia

ter acontecido ao principal auxiliar de seu pai. Procurou nem imaginar qual o

destino de sua irmã mais nova e de seus pais. Passava os dias rezando para que

pudessem ter escapado do inimigo, hipótese pouco provável.

Seria preciso um milagre ou um plano mirabolante para ela mesma

poder fugir dos atacantes e voltar a Kettwyck.

Desesperada, soluçou. O que entendia de estratégias e planos? Ela

apenas pretendera tornar-se uma freira, desejo que fora proibido por seu pai.

Sem filhos do sexo masculino, sir Henri deixara claro que desejava herdeiros

através das filhas.

Ele próprio escolhera um marido para Isabel. Um nobre com grande

influência na corte do rei Guilherme. Lorde Bernard de Maubenc era um

homem poderoso e rico, mas inteiramente inaceitável sob o ponto de vista de

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Isabel. Ela jamais suportaria um brutamontes grosseiro que tinha a idade para

ser seu pai. Se fosse obrigada a casar-se, o marido teria de ser gentil e jovem. E

mais. Seria preciso que soubesse valorizar-lhe a alma sensível. Afinal, vivera

num mosteiro desde a infância. Até por isso a chamavam de Isabel de St. Marie.

Para ela os homens eram uma incógnita.

Após muita insistência, o pai concordara em permitir-lhe a escolha do

marido.

Naquela altura, nada mais importava. Era improvável que ela e o belo

sir Roger voltassem a Kettwyck, a menos que um deles conseguisse elaborar um

belo estratagema de fuga.

Se estivesse no castelo, sentada diante da enorme lareira e entretendo

os familiares com uma história a respeito de um ataque escocês onde uma

donzela normanda fora capturada, qual seria o final? O atraente sir Roger seria

o herói que a salvaria do destino nefando que a aguardava? Praticamente

impossível. Roger jazia inconsciente no chão, com os punhos amarrados em

uma estaca.

Um ligeiro movimento do outro lado chamou-lhe a atenção. Uma das

mãos de Anvrai estava livre. Ele puxou devagar as correntes que o atavam. Em

vão. Isabel suspirou. A salvação também não viria dali. Ela mesma teria de

libertar-se.

Tinham sido trazidos para o norte, atravessando várzeas e colinas

íngremes. Isabel tinha certeza de que poderia encontrar o caminho de volta,

caso conseguisse escapar. Escurecera. Fitou as amarras de couro que a prendiam

no pilar de madeira. Já ferira os pulsos em conseqüência das inúmeras

tentativas de tirá-los do que os prendia.

De repente, fez-se um silêncio ameaçador. Os aldeões calaram-se com

a aproximação do líder ruivo e barbado. Isabel ergueu-se sobre os joelhos. O

chefe viera com outro homem, este com cabelos negros. Ela sentiu a pele

arrepiada ao ver como os dois a miravam.

O segundo também usava barba e tinha um olhar penetrante que

pareceu despi-la. Ele vestia calça justa de lã e uma túnica de pele que lhe

deixava o peito e a barriga protuberante descobertos. Nos braços grossos, trazia

pulseiras de aço trabalhado.

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Margo Maguire – Refém do Desejo

(CHE 260)

Isabel se enganara. O chefe do clã ou da aldeia era o moreno. Ele

transpirava confiança e poder.

As mulheres que não paravam de rir haviam sumido, à entrada dos

dois homens no recinto cercado. Isabel ergueu o queixo e endireitou os ombros.

Afinal de contas, era a filha do barão Henri Louvet e afilhada da rainha

Mathilda. Não seria acuada por aqueles bárbaros.

O homem moreno segurou-lhe os cabelos e dobrou-lhe o pescoço

para trás. Isabel não conseguiu evitar um grito. O camarada falou com o

homem ruivo que sacudiu a cabeça e respondeu no idioma deles.

Os olhos de Isabel lacrimejaram por causa da dor no couro cabeludo.

O homem a segurava com muita força. Se ela se movesse, ele poderia arrancar-

lhe os cabelos pela raiz. Ele acariciou-lhe o pescoço e os ombros. Em seguida

apertou-lhe os seios. Isabel cerrou os dentes e suportou a indignidade em

silêncio. Mas quando ele levantou-lhe as saias, Isabel atingiu-o com um

pontapé.

O bárbaro atirou a cabeça para trás e gargalhou, deixando à mostra

dentes escuros e corroídos. Ele a soltou de repente e Isabel caiu para trás. Ela

ignorou a dor dos pulsos e da cabeça e fitou Roger à procura de ajuda. Ele

continuava inconsciente do outro lado do cercado.

Anvrai voltara a ficar imóvel. Isabel perguntou-se se o ato fora

intencional para não chamar atenção. Ou Anvrai poderia estar morto. Oh, Deus!

Lágrimas lhe toldaram a visão e o queixo começou a tremer. Não posso chorar!

Isabel piscou várias vezes, inspirou fundo, tornou a sentar-se e não deu maior

atenção aos dois homens que discutiam a seu respeito.

O ruivo curvou-se para cortar as tiras que a prendiam, mas o moreno

impediu-o de executar a tarefa. Aparentemente concordara com o preço do

ruivo e deixou várias moedas na mão engordurada do outro.

Lady Isabel Louvet, de St. Marie, compreendeu que acabava de ser

vendida como escrava.

Mordeu o lábio para conter a humilhação. Conseguiu manter-se

impassível enquanto o homem ruivo se afastava, depois de enfiar na algibeira

as moedas recém-ganhas.

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Margo Maguire – Refém do Desejo

(CHE 260)

Em seguida avaliou todas as possibilidades que teria para matar o

Barba Negra, como o chamaria agora.

Anvrai tentou virar a algema para os lados, apesar da dor e do

sangramento nos pulsos. Procurava esticar a mão para a frente ao máximo.

Empenhava-se na tentativa de segurar a corrente que o mantinha preso no chão.

A distância era muito curta e o efeito alavanca, pequeno. Mas era preciso tentar

qualquer coisa.

Os malfeitores haviam levado Isabel com eles e o mais ignorante dos

soldados conhecia o significado de tal atitude.

Quando ela fora retirada do cercado, pela primeira vez Anvrai a

observara com atenção. Nem mesmo sabia por que ficara tão chocado com a

aparência da jovem nobre e bela.

Ela se encontrava desarrumada e suja. Os cabelos negros caíam pelas

costas em grumos desordenados. A saia externa de seda fora arrancada. A

jovem permanecera vestida apenas com o camisão tênue e a anágua rota. Os

poucos detalhes não visíveis do corpo esbelto eram facilmente imagináveis.

Descalça e com as mãos amarradas para trás, tropeçou no piso

irregular enquanto era empurrada para a frente pelos escoceses. E Anvrai nada

pudera fazer.

Também não lhe agradaria responsabilizar-se por Isabel. Uma coisa

era lutar, homem contra homem, em defesa da pátria ou de uma propriedade.

Essa outra se tomaria uma batalha particular e poderia causar-lhe sofrimento

moral. O dever para com ela era muito semelhante à incumbência que o pai lhe

dera antes de morrer, há muitos anos.

Anvrai não fora capaz de proteger a mãe e a irmã que tiveram morte

horrível. Os escandinavos haviam destruído a propriedade de sua família.

Assassinaram seu pai e todos os que se opuseram à pilhagem. À beira da morte,

Alain d'Arques mandara o jovem Anvrai levar a mãe e a irmã para um escon-

derijo. Os três foram apanhados pelos assassinos bárbaros.

Seria melhor esquecer aquelas lembranças. Ele sobrevivera. E

escaparia dos atacantes mais uma vez. Com ou sem Isabel. Frustrado, puxou a

corrente com toda a força que conseguiu imprimir ao pulso que latejava por

causa dos ferimentos. No entanto, era preciso maior cautela para não fazer

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Margo Maguire – Refém do Desejo

(CHE 260)

ruído e não alertar os sentinelas que haviam permanecido de guarda. Fechou a

mão sobre a corrente para evitar que os elos chocalhassem e puxou com a

energia que lhe restava.

A peça foi movida ligeiramente. Se conseguisse arrancá-la do chão,

seria mais fácil fazer o mesmo com a outra mão. Mas também seria possível que

os soldados notassem os movimentos estranhos.

Se pudesse usar as correntes soltas dos braços como armas, teria uma

boa vantagem sobre os guardas.

A pouca luz do entardecer favoreceu Anvrai. Precisava libertar-se

antes de que os guardas acendessem as tochas e percebessem o que se passava.

Ainda não vira Roger, mas era bastante provável que o cavaleiro estivesse por

perto. O mancebo poderia estar inconsciente, deitado a uma certa distância. Por

causa do olho cego, Anvrai poderia não tê-lo visto.

As pedras grosseiras do chão feriam os pés descalços de Isabel. O

algoz a empurrava com brutalidade, enquanto deixavam para trás várias

cabanas de madeira. Para evitar que o pavor a paralisasse, Isabel observava

cada choça e tomava nota dos menores detalhes. Baldes, carroças, animais e

montes de peles.

Ninguém viria em seu socorro. Roger e Anvrai não se encontravam

fisicamente aptos, além de estarem muito bem amarrados. Não adiantaria

esperar por nenhum herói que viesse resgatá-la. A situação delicada não fazia

parte de uma história fantasiosa contada no solário de sua mãe ou no salão

nobre do pai. Isabel estremeceu com a idéia do que lhe fora destinado. Suportar

todas as iniqüidades que o tirano resolvesse impingir-lhe.

A maior habitação da aldeia era uma grande cabana de madeira com

duas janelas fechadas, telhado de colmo e uma porta de madeira reforçada.

Isabel desconfiou que era onde o chefe do clã, o Barba Negra, a esperava.

Ao lado da porta, dois escoceses espadaúdos montavam guarda,

munidos de lanças. Eles sorriram com malícia e teceram comentários em voz

baixa. Quando os dois começaram a rir alto, Isabel não hesitou mais. Virou-se e

correu.

Isabel tentou despistá-los, com a vantagem da surpresa. Disparou

para o lado e rodeou a moradia. Teve esperança de que a velocidade impedisse

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Margo Maguire – Refém do Desejo

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os captores de a alcançarem. Uma outra hipótese seria distrair todos para que

Roger e Anvrai tivessem oportunidade de escapar.

Mas aquela era um suposição irracional e Isabel teve de abandoná-la.

Deteve-se no único pensamento que lhe importava no momento: fugir. Sentiu-se

nauseada ao recordar a imagem daquele bárbaro estendendo os dedos gordos

para tocá-la. Isabel, correndo com as mãos amarradas às costas, não ouviu os

gritos atrás de si, nem sentiu dor nos pés feridos. Continuou o trajeto

desesperado para a frente, em direção às colinas, onde as ovelhas pastavam

pacificamente no lusco-fusco do entardecer. Não pensava para onde iria. Só

queria afastar-se daquela aldeia... e do destino que a aguardava.

De repente uma dor aguda na planta do pé a fez desequilibrar-se e

cair. Tentou levantar-se. Uma tarefa muito difícil para quem estava com as mão

atadas. Rolou para o lado e procurou ficar em pé. Mas foi agarrada com rudeza

e levantada de uma só vez.

Um homem jogou-a no ombro e Isabel gritou, desesperada. A posição

impedia-a de respirar e machucava-lhe os braços. Alguém lhe deu um soco.

Isabel mordeu os lábios para não gritar de novo. Ninguém a ajudaria e ela

mesma nada podia fazer.

O grandalhão carregou-a para a moradia do chefe do clã e jogou-a

sobre um monte de peles ao lado do fogo. Os homens conversaram com o líder

e usaram palavras ásperas. Na certa revelavam a ousadia da prisioneira que

tentara fugir. Isabel conseguiu ficar de joelhos e avaliou o grande recinto. A ilu-

minação era feita com velas de sebo e o cheiro delas espalhava-se pelo

ambiente. Restos de uma refeição gordurosa estavam sobre uma mesa situada

em um dos cantos. Ao lado dos ossos descartados, uma pequena faca.

Isabel afastou o olhar da lâmina e abaixou a cabeça. Os cabelos

caíram para a frente e cobriram as laterais do rosto. Se ela não fitasse o objeto, o

sujeito poderia esquecer que deixara ali a faca. Seria fácil apossar-se do objeto

que poderia servir de arma, se conseguisse distrair o Barba Negra por alguns

minutos.

Antes de mais nada, teria de fazer com que ele cortasse as cordas que

lhe prendiam os pulsos. Ele teria um punhal no cinto? Isabel observou-o de

maneira disfarçada e a resposta foi positiva. O homem tirou a espada da bainha

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depois de despedir os sujeitos que a haviam trazido e fechar a porta. Isabel

engoliu em seco. Haviam ficado a sós. Ele se voltou e falou com ela.

Isabel procurou virar-se e ficar em pé. Mexeu os braços e os pulsos

atados.

— Solte minhas mãos — ela pediu.

Apesar da voz trêmula — o que a desgostou — e de saber que ele não

a entendia, Isabel teve certeza de que ele compreenderia sua pretensão. Barba

Negra deu alguns passos em sua direção e Isabel esforçou-se para não tremer. O

sujeito, um gigante, deteve-se, soltou o cinto e deixou a calça cair no chão.

Isabel cerrou os lábios para não gritar diante da exuberância da

masculinidade que ele exibia, orgulhoso. Apesar de ingênua em muitos

aspectos, tinha certeza do que aconteceria naquele recinto, se não tomasse

alguma providência.

Inspirou fundo e desviou o olhar do que a ameaçava. Precisava

manter a compostura, se desejava vencer o chefe escocês pela astúcia e

apoderar-se da faca.

Passou a língua nos lábios e percebeu que ele se inflamava ainda

mais, como se isso fosse viável.

— Eu não lutarei mais e procurarei colaborar no que for possível —

Isabel assegurou, como se ele pudesse entendê-la. Seu objetivo era manter uma

calma aparente, sem demonstrar medo nem repulsa. Se não o enfrentasse com

rebeldia, talvez ele a libertasse das cordas. Era preciso não perder a esperança

de que ele ficasse desprotegido por alguns instantes. O suficiente para ela

agarrar a faca.

Isabel sentiu as pernas trêmulas, quando ele chegou mais perto. O

escocês tirou o punhal do cinto. Isabel prendeu a respiração. Barba Negra

segurou as cordas e cortou-as de um só golpe.

As mãos inertes penderam dos braços doloridos. De imediato foi

impossível mexer um só dedo.

Isabel virou-se e sorriu, trêmula.

— Obrigada.

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Margo Maguire – Refém do Desejo

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Ela não era versada na arte da sedução, mas teria de imitar os flertes

que presenciara em Kettwyck entre criadas e cavalariços, entre damas e

cavaleiros. Testemunhara várias vezes o cortejar que envolvia rituais com que

homens e mulheres procuravam atrair o interesse do futuro parceiro. Apesar

disso nunca imaginara o que se escondia sob o calção dos rapazes nem que

aquilo pudesse ser empregado como arma.

Isabel recuou alguns centímetros rumo à mesa. O Barba Negra

seguiu-a. Ele tornou a falar, mas ela se concentrou em seu objetivo. A custo de

um grande esforço para não vomitar, levantou uma das mãos e afastou-lhe os

cabelos da testa, à guisa de carícia. Precisou de toda a sua força de vontade para

não retroceder. O juba do sujeito era áspera e imunda. Isabel passou a palma

nos cabelos enrolados.

Era imprescindível encantá-lo. Fazê-lo esquecer tudo, exceto que a

desejava.

Lentamente, Isabel tocou no decote do próprio camisão e segurou o

cordão fino que mantinha a peça no lugar. Mais um passo para trás e

conseguiria alcançar a beira da mesa.

— Espero que não tenhamos de levar isso a extremos — ela

sussurrou, ao agarrar a faca com a mão livre.

Desamarrou a corda delgada com vagar. Antes de o corpete cair, o

Barba Negra investiu.

Capítulo III

Já era quase noite fechada. Anvrai sentou-se e puxou a última estaca

que o mantinha preso ao chão. Não deu a menor importância à dor no peito

nem ao latejar pungente de sua cabeça. Com as mãos e pés soltos, não teria

dificuldade em dominar os guardas escoceses. Só havia um deles de prontidão.

O guerreiro inimigo puxou a espada e atacou-o de imediato. Anvrai

rolou de lado e ficou de joelhos. Não parava de girar as correntes ainda

amarradas nas algemas. Os anéis de ferro chocaram-se com a espada e a

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Margo Maguire – Refém do Desejo

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arrancaram da mão do homem. Sem perda de tempo, Anvrai d'Arques acertou

o camarada entre o tórax e o abdômen com uma das correntes, derrubando-o.

Antes que o sentinela se erguesse, Anvrai levantou-o pela túnica e, segurando

os elos pesados de ferro no punho fechado, socou-o. O homem não conseguiu

defender-se dos golpes desferidos por Anvrai.

A dor de cabeça tornara-se insuportável. Anvrai teve de fazer um

esforço para ficar em pé no meio do cercado. Fixou o olhar na aldeia. Teve a

impressão de que um tumulto estava em andamento. Talvez essa tivesse sido a

razão de terem deixado apenas um guarda para vigiar Roger e a si próprio.

Roger estava inconsciente, ou quem sabe adormecido, e suas mãos

tinham sido amarradas a um mourão da cerca. Anvrai aproximou-se dele e

cutucou-o com o pé. O rapaz não reagiu. Anvrai agachou-se e cortou as amarras

de couro que o prendiam ao toco, mas o repentino som de gritos vindos da

aldeia fez com que se levantasse de imediato. Eram de Isabel.

Anvrai esqueceu as pontadas na cabeça e a tontura. Largou Roger e

pulou sobre a cerca alta, carregando a espada que tirara do guarda. O caminho

era escuro, mas algumas tochas iluminavam a aldeia. Ele foi naquela direção,

usando as árvores e as touceiras para esconder-se. Caminhou o mais depressa

que pôde, evitando expor-se. Ao chegar perto da primeira cabana, o cheiro

penetrante de fumaça queimou-lhe a garganta. Uma das construções estava em

chamas. Anvrai apressou-se até o centro do povoado e andou colado às cabanas

e qualquer outra estrutura que servisse para escondê-lo. Não foi difícil ficar fora

da vista de todos em meio à confusão que fora instalada no vilarejo. O incêndio

era em uma cabana grande que ocupava a parte central do lugar. Homens e

mulheres corriam com baldes e jogavam água sobre as chamas.

Anvrai estreitou o olho sadio e procurou sinais da presença de Isabel

em meio à balbúrdia. Ela poderia estar presa dentro da cabana...

Uma das venezianas de madeira dos fundos da construção foi aberta

e uma nuvem de fumaça escapou pela janela. Alguns instantes depois, Anvrai

viu um rosto... o de Isabel.

Ela tossia, engasgada pela falta de ar. Atirou para fora um monte de

peles de animais e pôs as pernas sobre o parapeito.

Anvrai segurou-a, antes que ela atingisse o solo.

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— Sir Anvrai! — Isabel gritou, surpreendida. — O senhor está...

— Conversaremos mais tarde — ele a interrompeu. — Milady está

bem?

Isabel, pálida e parecendo perturbada, fitou-o com olhar arregalado e

anuiu com um gesto de cabeça. No rosto, um grande hematoma. O lábio

inferior estava descolorido e inchado, o camisão fino, sujo e rasgado. Anvrai

conteve o desejo intenso de entrar na cabana e agredir a socos quem a

maltratara. Teve esperança de que o homem do lado de dentro morresse quei-

mado ali mesmo, antes de arder nas chamas do inferno.

Anvrai cerrou os dentes e virou Isabel para a direção de onde ele

viera. Gostaria de fugir de imediato, mas era preciso voltar, aproveitando a

vantagem de todos estarem azafamados por causa do incêndio. Depois de pegar

Roger, teriam de encontrar um esconderijo.

— Vamos! Não podemos perder tempo.

— Espere. — Isabel abaixou-se para reunir os objetos que haviam

caído das peles. Deu a ele uma faca e uma panela, e pegou o resto.

— Deixe isso — Anvrai aconselhou-a. A faca poderia ser útil, mas a

panela e os demais pertences somente atrapalhariam a velocidade da fuga.

— Nós... poderemos precisar disso...

Anvrai não perdeu tempo com discussões. Saiu à frente. Era

responsável por Isabel, mas se ela não se apressasse, não poderia garantir-lhe a

segurança.

Isabel mancava bastante, mas não se queixou durante a corrida até o

local onde Roger estava deitado. Entraram no cercado por um portão de

madeira. Isabel apressou-se até perto do jovem cavaleiro e ajoelhou-se a seu

lado.

— Ele está... ele está vivo?

— Pelo menos estava, quando o deixei.

Isabel sacudiu o futuro marido levemente pelos ombros, mas não

obteve resposta.

— Sir Roger! Roger! — Isabel chamou-o, insistente. — Sir Roger,

precisamos sair daqui!

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O único sentinela que ficara para cuidar dos presos ainda estava

desmaiado por causa dos golpes que recebera de Anvrai. O tempo urgia. O

homem logo acordaria e daria o alarme. Para sorte deles, o fogo se alastrava.

Isso aumentava as possibilidades de fuga enquanto os aldeões lutavam contra

as chamas.

Um gemido débil escapou pelos lábios do cavaleiro inconsciente.

Anvrai abaixou-se sobre um dos joelhos, levantou o rapaz nos braços e jogou-o

sobre o ombro. Estremeceu com a dor do lado, mas concluiu que não se tratava

de uma costela quebrada. Embora o ferimento do ombro ardesse em brasa.

— O senhor não pode carregá-lo!

— Claro que posso! E por que não poderia fazê-lo?

— As suas costelas! Eu vi a maneira como eles lhe bateram! Anvrai

espantou-se com a preocupação de Isabel, mas logo refletiu que os cuidados

eram dirigidos a seu pretendente. Na

certa milady temia que Anvrai, por estar machucado, derrubasse o

rapaz.

— Estou bem, lady Isabel.

Anvrai saiu do cercado e foi em frente, na direção das colinas. Isabel

segurou-o pelo braço e o deteve.

— Temos de ir até os barcos — ela disse, com firmeza.

— Onde? Quais barcos?

— Por aqui. — Isabel apontou o lado oposto à aldeia. — Ontem à

noite, atravessamos de barco um lago extenso. É por ali que devemos voltar.

Cômoros não muito altos obscureciam a visão do lago citado. Anvrai

compreendeu que não se enganara totalmente a respeito da impressão de ter

viajado de navio. Fugir pela água era um plano muito melhor de que tentar

escapar pelas colinas. Estariam a quilômetros de distância, antes que os

escoceses dessem pela falta deles.

O melhor de tudo seria não ter de carregar Roger por uma distância

muito grande. O jovem cavaleiro poderia continuar a dormir em paz no casco

de um bote.

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Margo Maguire – Refém do Desejo

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Anvrai seguiu Isabel e, apesar da silhueta escura, reparou na

esbelteza de seu corpo. Era impossível não se sentir atraído pelo meneio dos

quadris bem-feitos.

Apesar do pé machucado, Isabel se movia com graça e feminilidade.

Anvrai agradeceu a Deus a escuridão que não lhe permitia distinguir as curvas

dos seios ou a parte interna das coxas. Rezou para que não chovesse. A água

tomaria transparente o tecido da camisa.

— Sir Anvrai, o senhor sabe conduzir um barco? — Isabel lembrou-se

da questão crucial.

— Creio que poderei dar um jeito.

Roger gemeu e começou a se mexer. Anvrai segurou-o com firmeza e

continuou a caminhar. Concentrou-se na tarefa de seguir Isabel e manter o

equilíbrio apesar do corpo largado do rapaz sobre o ombro. Isabel andava

depressa. Não parecia dar importância ao que a fazia mancar cada vez mais.

Anvrai não sabia o que acontecera na cabana, nem como Isabel conseguira

escapar do que a constrangia. Nada lhe perguntaria. O assunto não lhe dizia

respeito. Aquele era um problema que se referia única e exclusivamente a

Isabel.

A obrigação de Anvrai d'Arques era libertá-la dos agressores.

O lago apareceu na frente deles e Anvrai escutou o barulho suave do

movimento da água.

— Ali existe um cais acostável onde estão ancorados vários barcos de

pesca. Nenhum deles é muito grande. Não tenho certeza em qual deveríamos

embarcar.

Anvrai conhecia pouco a respeito de embarcações. Seria um desafio

roubar um daqueles e navegar no escuro. Determinado, decidiu que nada seria

um empecilho.

— Será melhor pegarmos o que estiver mais afastado. — Daquela

maneira não teriam de rodear os outros e sairiam com maior rapidez.

Subiram no atracadouro de madeira onde se encontravam amarrados

vários barcos de vime cobertos de couro. Eram botes pequenos. Anvrai teve

esperança de que um dos últimos tivesse tamanho suficiente para levar os três e

não afundar.

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Foi para a frente e deixou Roger no chão.

— Agora está na hora de acordar, meu rapaz — falou Anvrai e deu

alguns tapas leves no rosto de Roger. — Vamos lá. Temos de subir no barco.

Roger inspirou fundo, gemeu e abriu os olhos, espantado.

— Lady Isabel?

— Temos de sair daqui depressa, sir Roger — explicou Isabel. — Logo

estarão atrás de nós. Anvrai ajudou o outro a sentar-se.

— O que houve? — Roger indagou, aturdido. — Como chegamos até

aqui?

— Deixemos as perguntas para depois — respondeu Anvrai,

enérgico. — O senhor se sente capaz de subir no barco?

— Minha cabeça...

Inseguro, o jovem procurou levantar-se. Anvrai e Isabel seguraram-

no, um de cada lado, e conseguiram fazê-lo entrar na pequena embarcação.

Isabel seguiu-o e depois Anvrai pulou para dentro.

Anvrai cortou com a espada a corda de amarração e empurrou o

barco para fora do molhe. Os remos estavam no fundo do barco. Anvrai

segurou-os, sentou-se e começou a remar em direção do centro do lago.

— O sul é para lá — Isabel apontou para a margem mais afastada.

Anvrai dirigiu-os na direção correta e Isabel inclinou-se para o lado

de Roger. O bote começou a balançar em conseqüência de tantos movimentos.

— Por favor, fique quieta, lady Isabel. Poderemos afundar desse jeito.

Seria uma sorte se eles não naufragassem. O bote comportava três, no

máximo quatro pessoas. Além deles, havia redes e outros equipamentos de

pesca no fundo. A pequena embarcação navegava com grande parte do casco na

água.

— Sir Roger está ferido — Isabel justificou-se, abaixada atrás de

Anvrai.

Anvrai sentiu nas costas a respiração quente e vibrante de Isabel.

— Fique sentada e não discuta comigo. Apenas responda às minhas

perguntas.

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Seguiu-se um silêncio prolongado, enquanto as questões se

amontoavam na mente de Anvrai. De repente, não o interessou mais o que

acontecera com Isabel. Não queria escutar a respeito de nenhum abuso ou

sofrimento que Isabel pudesse ter sofrido. Ela não era sua irmã nem sua mãe.

Muito menos sua esposa. Isabel teria de suportar os problemas sozinha. Anvrai

d'Arques não era nenhum guardião de mulheres.

Anvrai continuou a remar. O movimento contínuo das pás na água

acompanhavam a fumaça da aldeia que começava a cobrir o lago.

Isabel estremeceu e suspirou. Anvrai sentiu o corpo cálido encostado

no seu, quando Isabel largou-se de encontro a ele.

— Eu o matei — Isabel afirmou. — Matei o chefe com sua própria

faca.

Isabel teve esperança de que não estivesse com um cheiro tão

pronunciado quanto o de Anvrai. Tremendo, afastou-se das costas largas e

tornou a fitar a fumaça e as chamas que tragavam o pequeno povoado.

— Eu não pretendia causar devastação naquela aldeia — Isabel

murmurou.

Eu matei um homem. Por tudo o que era mais sagrado, Isabel Louvet

não fora educada para conhecer as maneiras rudes dos homens. Muito menos

tivera informações de que deveria se proteger contra a vileza dos bárbaros. Seu

pai na certa pretendera evitar que ela tivesse contato com qualquer infortúnio, e

falhara. Existia até a possibilidade de lorde Henri ter perdido a vida no ataque a

Kettwyck.

Nem queria pensar em tais horrores. Necessitaria de toda a sua

energia para superar aquela noite.

— Ele caiu — Isabel sussurrou para si mesma, como se procurasse

uma nova explicação para o que ocorrera. — Depois que eu o apunhalei, o chefe

do clã cambaleou para trás e caiu. A mão dele bateu em um castiçal. A vela caiu

e começou a incendiar tudo...

Anvrai continuou a remar, como se não escutasse. Isso de certa forma

era conveniente. Ela não pensava em desabafar com um cavaleiro circunspecto e

forte que provavelmente não entenderia sua urgência em narrar as atrocidades

daquela noite. A própria Isabel não compreendia o que se passara. Não con-

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Margo Maguire – Refém do Desejo

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seguia ordenar os pensamentos de maneira lógica. E aquele sangue que secara

em suas mãos... Com cuidado para não movimentar o barco, Isabel pôs as mãos

na água e esfregou-as. Suspeitou que seria preciso várias lavagens para remover

as manchas externas. Ela mesma jamais esqueceria o que acontecera. Secou as

mãos em uma das peles que estavam a seus pés. Refletiu sobre o que roubara

do Barba Negra. O homem que ela matara.

Lembrava-se de ter ficado paralisada, olhando para o gigante e para o

ferimento profundo do abdômen de onde o sangue escorria em golfadas,

enquanto as chamas devoravam a moradia.

— Fui eu mesma quem fez aquilo? — perguntou-se em um fio de voz.

Isabel juntou as pontas do decote do camisão. O Barba Negra rasgara

o cordão, e a peça se abrira de modo indecoroso. A bela túnica que vestira na

comemoração para sua chegada lhe fora roubada dias antes. Por isso fora

obrigada a enfrentar os rigores do clima escocês usando apenas uma camisa

fina de cambraia que outrora fora muito bonita. Naquela altura, suja e rasgada,

nem mesmo se assemelhava às roupas modestas que usara na abadia.

Isabel tremeu de frio e de pavor. Com a graça de Deus, haveriam de

escapar. Embora rezasse pela libertação, suas esperanças encontravam a

barreira da realidade. Anvrai estava ferido e sem condições físicas de remar até

que estivessem em segurança. Roger continuava deitado, gemendo, incapaci-

tado de ajudá-los.

A noite era muito escura para permitir uma navegabilidade precisa.

Seria um milagre sobreviver à travessia do lago e alcançar a outra margem.

— Sir Anvrai... o senhor está enxergando o outro lado? Ele hesitou

alguns instantes.

— Não, lady Isabel. Não consigo ver nada — ele respondeu, mal-

humorado.

A escuridão era inquietante. E ainda mais para um homem cego de

um olho.

— Estranho que Não haja luar nem estrelas no céu esta noite.

— As nuvens devem estar mais densas. É possível que chova. E aí

ficaremos ensopados.

28

Margo Maguire – Refém do Desejo

(CHE 260)

— Acha que eles estão atrás de nós? — Isabel virou-se para espiar a

escuridão que deixavam na retaguarda. Mal distinguiu as colinas que rodeavam

a aldeia.

— Se estivessem no lago, iluminariam o caminho com tochas.

— É verdade. Não havia pensado nisso.

Ninguém cometeria a tolice de cruzar uma extensão tão grande de

água no escuro. Além do mais, os perseguidores precisariam de claridade para

encontrar os fugitivos. Não havia nenhuma luz. Isabel nada escutava além do

som das palavras que diziam, do marulhar suave das ondas de encontro ao

barco e do padejar dos remos na água.

A chuva conservou-se a distância, o que permitiu aos fugitivos

continuar o trajeto por um certo período. Isabel notou que a respiração de

Anvrai ficava mais difícil à medida que ele movia os remos para impelir o bote.

Ele estava exausto e ferido. Não suportaria por muito mais tempo o esforço.

Mas qual outra alternativa lhes restava? Roger estava semiconsciente e ela não

possuía a menor noção de habilidade náutica. Admitiu que nem mesmo teria

idéia por onde começar.

Seria conduzir o barco algo tão difícil? Isabel franziu a testa.

Distinguindo a silhueta de Anvrai, observava a maneira como segurava os

remos e impulsionava o barco pela água. Era uma atividade que certamente não

requeria a menor inteligência. Apenas força bruta.

— Sir Anvrai, o senhor deve descansar um pouco — Isabel afirmou,

disposta a executar a sua parte. — Não pode continuar a sacrificar-se dessa

maneira.

— Bobagem. Posso remar muito bem.