Reflexões sobre a morte na visão senequiana por Alessandra Possobon de Oliveira - Versão HTML

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REFLEXÕES SOBRE A MORTE NA VISÃO SENEQUIANA

Alessandra Possobon de Oliveira1

RESUMO: Pretende-se com o presente trabalho discutir a concepção de morte em Lúcio Aneu Sêneca, filósofo do século I da era cristã . A morte era recebida como um fenômeno natural e esperado, por isso para Sêneca esta realidade definitiva não era um mal, o mal seria temê-la, pois faz parte da existência; portanto, o homem deveria estar pronto a enfrentar corajosamente essa realidade inevitável. A filosofia senequiana apresenta a sua preocupação com a formação do homem, que deveria ser preparado para a vida e também para a morte. Assim, a filosofia é tida como arte da ação humana, apresentando-se como uma espécie de medicina para as dores da alma.

PALAVRAS-CHAVE: Filosofia; Morte; Sêneca.

INTRODUÇÃO

Lúcio Aneu Sêneca é um personagem singular do Império Romano . Sua

vida esteve marcada por grandes acontecimentos. Foi político, escritor, orador e filósofo, tendo como preocupação o homem de seu tempo.

Para compreender a visão senequiana sobre as questões da existência

faz-se necessário discutir o conceito de morte no projeto pedagógico do pensador, enquanto parte integrante do conteúdo destinado à formação do homem.

O momento histórico vivido por Sêneca contribuiu para sua produção

filosófica e pedagógica - o do século I d.C. - a civilização romana passava por muitas mudanças, decorrentes da instabilidade política e social. Nesse momento histórico Sêneca coloca-se como defensor do cidadão romano. Um de seus objetivos era retirar o homem da angústia e do medo que o

aterrorizava.

Entre suas preocupações mereceu destaque a de fazer entender e

justificar a presença inevitável da morte na vida humana, preparando o homem para esse encontro fatal.

Destaque a idéia de filosofia como arte de vida e de morte, cabendo ao homem preparar-se para enfrentar essas realidades. Assim, o pensador ocupa-se com valores, sentimentos e emoções que dizem respeito à existência humana, tendo em vista formar o homem para enfrentar as dores que são intrínsecas à humanidade, como, por exemplo, as angústias perante a morte.

1 Docente do Curso de Psicologia do CESUMAR – Maringá – PR

Email: alepossobon@yahoo.com.br

PREOCUPAÇÃO COM A MORTE NA OBRA SENEQUIANA

O tema da morte está presente em toda a obra de Sêneca, constituindo-

se, para o pensador numa grande preocupação. Por isso, a maior parte de suas reflexões acaba de um modo ou de outro versando sobre o assunto da morte, seja da morte em si, como fim da existência, seja das pequenas

“mortes”, perdas, males e dores com que o ser humano vai se deparando ao longo da vida. Assim, Sêneca descreve “[...] nós, homens, não caímos na morte de repente, antes avançamos gradualmente para ela. Morremos

diariamente, já que diariamente ficamos privados de uma parte da vida [...]”.

(Cartas a Lucílio, 1991, 24, 19-20,).

O fato é que o conteúdo morte é algo que o homem sempre terá que

considerar, querendo ou não, pois essa realidade é inevitável. Deste modo, a morte se faz presente como integrante da vida, constituindo-se na dimensão mais real da existência humana, como Sêneca afirma: “[...] Por sua vez virá a morte, à qual deverás te entregar, queiras ou não” (Sobre a brevidade da vida, 1998, VIII, 5 ).

Justamente por ser a morte inevitável, cabe ao homem preparar-se para enfrentar sua inexorável realidade, pois todos irão passar por ela, e para isso basta estar vivo.

Por isso, no pensamento de Sêneca encontra-se uma filosofia da vida e também da morte. O homem deveria ser formado para essas duas realidades.

A preocupação senequiana consiste na necessidade de uma boa meditação sobre a morte e para a morte, e o homem deveria ter essa aprendizagem ao longo da vida: “[...] Deve-se aprender a viver por toda a vida, e, por mais que tu talvez te espantes, a vida toda é um aprender a morrer” (Sobre a brevidade da vida, 1998, VII, 3).

Assim, a grande lição a ser aprendida na formação do homem está em

torno do saber morrer, o que está intrinsecamente ligado ao saber viver com sentido.

O pensamento de Sêneca, que tem a sua expressão máxima na morte,

não flui para uma moral da morte, mas para uma moral relacionada às leis elementares da vida. Por isso não há angústia, desespero e medo em suas reflexões, especialmente porque a vida é entendida como um exame, uma avaliação permanente e própria da sabedoria. Nela ancora a questão da vida, do bem e do mal, dos valores morais e éticos, do supremo bem, do que é imanente e possivelmente transcendente no homem. Seu ponto de partida é o saber-viver (PEREIRA MELO, 2007).

ORIENTAÇÕES PARA ENFRENTAR A REALIDADE DA MORTE

Sêneca apresenta direcionamentos para o homem ao deparar-se com a

realidade da morte.

O filósofo, ao considerar a morte como um legado comum à humanidade,

conseqüência natural do nascimento, aponta reflexões a todos que se sintam temerosos por sua presença. Assim, apresenta-se como um pedagogo

consolador, procurando direcionar, oferecer subsídios àqueles que se angustiam diante dessa realidade.

Entre os direcionamentos apresentados por Sêneca encontra-se a

reflexão sobre a sua universalidade. O fato de analisar a realidade de que outros homens morreram pode ajudar a moderar as lágrimas: “A natureza a ninguém declarou que isentaria de sua lei fatal. [...] por toda a vida, nos é anunciado que há de acontecer” ( Consolação a Políbio, 1992, XI, 1).

Aproveitar o tempo, ter uma vida digna, bem vivida, valorizando a

qualidade da vida e não a sua duração, essa é uma das maneiras de se ficar menos temeroso diante da morte. O importante, segundo Sêneca, é que o homem empregue bem os seus dias, tenha uma vida em plenitude.

Como consolo àqueles que sofrem com o medo da morte Sêneca

apresenta -se como um “médico” que oferece “medicamentos” àqueles que estão doentes.

O “remédio” contra toda insegurança diante da morte é não temê-la.

Dessa maneira, o assentimento diante da morte pode convertê -la, de terror, em realidade indiferente. Aí reside a grande libertação do homem: libertar-se daquilo que o aprisiona. E assim argumenta: “[...] O remédio que eu, por minha parte, te receito é valido não apenas para a tua doença, mas para toda a tua vida: despreza a morte. Nenhum motivo de tristeza pode haver quando nos libertamos do medo de morrer” (Cartas a Lucílio, 1991, 78, 5).

Sêneca assinala mais um “remédio” para lidar com a dor da perda: o

tempo. Escreve: “[...] remédio natural, o tempo, que acalma até as maiores aflições [...]” ( Consolação a Márcia, 1992, I, 6). Assim, com o passar do tempo, a dor da perda poderia ser aliviada.

Para o pensamento senequiano, outra maneira de abrandar a dor é

recordar-se dos momentos bons desfrutados na companhia da pessoa amada que se perdeu. Retomar esses momentos é uma das maneiras de diminuir o sofrimento.

De acordo com Sêneca seria a filosofia a responsável por fornecer essa formação para o homem e seria por meio dela que ele se afastaria dos vícios e dos males que o atormentam, dentre eles, o medo da morte.

A filosofia deveria ser vivida, não se limitando a uma acumulação de

conhecimentos desprovidos de valor moral. Sêneca destaca a praticidade da filosofia e a preponderância das atitudes sobre as palavras.

A partir desse entendimento, a filosofia, para Sêneca, é uma arte da

ação humana, uma pedagogia que tem como preocupação formar os homens

para o exercício da virtude e da sabedoria.

Em rigor, o que Sêneca pretende é restituir ao homem sua própria

consciência de homem, diante do seu próprio destino, sua própria vida e sua própria morte.

CONCLUSÃO

A compreensão da morte em Sêneca está relacionada a consideração

de que o caminho contra toda a insegurança diante da morte é não temê-la.

Sêneca evidenciou que o primeiro princípio de seu pensamento moral era a necessária aceitação da realidade da morte: o homem era um ser mortal, cujo fim estava predeterminado. A aceitação conseqüente dessa verdade absoluta e intransferível era uma das bases da liberdade humana, que levava à superação dos muitos medos que atormentavam sua existência.

A filosofia senequiana se investe da condição de “terapia”, destinando-se a regenerar o homem, particularmente o romano do seu tempo, que Sêneca considerava marcado pela falta de objetivos superiores.

A educação para a morte proposta por Sêneca ensinava o homem a

morrer dignamente, aproveitar bem a vida que usufruía, não temer diante dessa realidade. Ao ajudar o homem, apontando-lhe o caminho para viver autenticamente, indicava a passagem para uma vida feliz.

REFERÊNCIAS

PEREIRA MELO, José Joaquim. O sábio senequiano: um educador atemporal.

Assis: UNESP, 2007 (PÓS-DOUTORADO).

SÊNECA, Lúcio Aneu. Cartas a Lucílio. Madrid: Fundação Calouste Gulbenkian, 1991.

SÊNECA, Lúcio Aneu. Consolação a Márcia. Campinas, São Paulo: Pontes, 1992.

SÊNECA, Lúcio Aneu. Sobre a brevidade da vida. São Paulo: Nova Alexandria, 1998.

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