Resgate No Mar por Diana Gabaldon - Versão HTML

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l6 de abril de 1746

Estava morto. No entanto o nariz lhe palpitava dolorosamente, coisa que

lhe era estranha, dadas as circunstâncias. Ainda que depositava uma

considerável confiança no entendimento e a graça de seu Criador,sentia

culpa pelo que todos tememos a possibilidade do inferno. Ainda assim,

pelo que tinha ouvido falar sobre o inferno, parecia-lhe improvável que os

tormentos reservados para seus infortunados habitantes pudessem

restringir-se a uma dor de nariz.

Por outra parte, aquilo não podia ser o céu, tendo em conta várias coisas.

Para começar, ele não o merecia. Também não tinha pinta de ser. E

duvidava de que uma fratura de nariz estivesse incluso entre as

recompensas para os abençoados, e não para os condenados.

O quanto se tinha imaginado sempre o Purgatório como um lugar cinza,

as vadias luzes avermelhadas que o ocultavam tudo lhe pareciam

adequadas. Estava despejando um pouco na mente e voltava, com

lentidão, sua faculdade de raciocínio. Bastante incomodado, disse a sí que

alguém deveria atendê-lo e dizer-lhe exatamente qual era sua sentença,

até que tivesse sofrido o suficiente para purificar-se e entrar, por fim, no

Reino de Deus.

Enquanto esperava, começou a fazer inventário de qualquer outro

tormento que se lhe exigisse suportar. Tinha numerosos cortes,

machucados aqui e lá; estava quase seguro de ter sido fraturado outra vez

no dedo anular direito; era difícil protegê-lo pelo modo em que

sobressaía, com a articulação paralisada. Mas nada disso era tão mau. O

Que mais?

Claire. O nome lhe apunhalou o coração com a dor mais atroz do que seu

corpo tivesse suportado até então. Ignorava se as pessoas do Purgatório

lhe permitiam rezar, mas igualmente o tentou. «Senhor», orou, «que ela

esteja a salvo. Ela e o nosso filho.» Estava seguro de que Claire teria

chegado ao círculo; com só dois meses de gravidez, ainda era rápida nas

pernas... e teimosa como nenhuma outra mulher que conhecesse. Mas se

tinha conseguido efetuar a perigosa transição ao lugar de que tinha vindo

(deslizando-se precariamente pelos misteriosos estratos que jaziam entre

o depois e o agora, indefesa no abraço da rocha), não o saberia jamais; o

mero fato de pensá-lo bastou para fazer-lhe esquecer até o palpitar do

nariz.

Ao retomar o seu interrompido estado físico, afligiu-se mais do habitual

ao descobrir que parecia faltar-lhe a perna esquerda. A sensação se

cortava no quadril, com uma série de ferroadas que lhe faziam cócegas na

articulação.

Aquilo feriu sua vaidade. Ah, aí estava a coisa: um castigo destinado a

curá-lo do pecado de vaidade. Apertou mentalmente as mandíbulas,

decidido a aceitar o que viesse com força e com tanta humildade como

pudesse. Ainda assim não pôde evitar alongar uma mão exploratoria (ou

o que fora que estava usando como mão) para ver onde terminava agora

o membro.

A mão chocou com algo duro; os dedos se embaraçaram em um cabelo

úmido e enredado. Incorporou-se bruscamente e, com algum esforço,

rompeu a capa de sangue seco que lhe selava as pálpebras. A memória

voltou numa enxurrada, fazendo-lhe rosnar em voz alta. Tinha-se

equivocado. Estava no inferno, sim. Mas desgraçadamente James Fraser

não estava morto, depois de tudo.

Tinha o corpo de um homem cruzado sobre o seu. O peso morto lhe

achatava a perna esquerda, o qual explicava a ausência de sensibilidade.

A cabeça, pesada como uma bala de canhão, descansava de bruços sobre

seu abdomem; o cabelo endurecido caía, escuro, sobre o lenço molhado de

sua camisa. Incorporou-se bruscamente, preso do pânico; a cabeça rodou

com dificuldade até o seu colo e um olho entreaberto olhou cegamente

para acima, depois das protetoras mechas de cabelo.

Era Jack Randall; sua fina jaqueta vermelha de capitão estava tão

escurecida pela umidade que parecia quase negra.Jamie fez um lerdo

esforço por afastar-se ao cadáver, mas se descobriu assombrosamente

fraco; sua mão se esticou debilmente contra o ombro de Randall; o

cotovelo do outro braço cedeu de súbito quando tratou de apoiar-se.

Estava outra vez tombado de costas, com o céu cinza da nevasca

vertiginosamente aglomerado no alto. A cabeça de Jack Randall se movia

obscenamente em seu ventre, para acima e para baixo, ao compasso de

seu esforço.

Pressionou com as mãos o solo pantanoso (a água se elevou entre seus

dedos, fria, empapando a parte posterior de sua camisa) e se retorceu

para um lado. Enquanto se debatia no solo, lutando com os vincos

enrugados de seu cobertor escocês, chegaram-lhe sons acima do uivar do

vento de abril: gritos longínquos e gemidos, como um reclamo de

fantasmas no vento. E acima de tudo, o barilho grasnido dos corvos.

Dúzias de corvos, a julgar pelo ruído.

Aquilo era estranho, pensou difusamente. As aves não voam com

semelhante tormenta. Com um esforço final, conseguiu liberar o cobertor

de seu corpo e se cobriu com ele. Ao esticar-se para cobrir as pernas viu

que tinha a saia e a perna esquerda empapadas de sangue. O espetáculo

não o afligiu; oferecia um mal vago interesse pelo contraste das manchas

de cor vermelha escuro contra o verde acizentado do marasmo que o

rodeava. Os ecos da batalha se esfumaram de seus ouvidos e abandonou o

campo de Culloden entre o reclamo dos corvos.

Acordou muito depois ao ouvir chamar o seu nome:

—Fraser!Jamie Fraser! Está aqui?

«Não», pensou aturdido. «Não estou.» Onde quer que tivesse estado

durante sua inconsciência, era um lugar melhor do que aquele. Jazia num

pequeno declive, meio encharcado de água.

—Eu o vi descer por aqui. Cercado de um grande matagal de aliagas. —A

voz soava longe, apagando-se enquanto discutia com alguém.

Teve um sussurro em ouvido. Ao girar a cabeça viu o corvo na grama, a

trinta centímetros de distância: um borrão de plumas negras agitadas

pelo vento, que o olhava com um olho brilhante. Como se decidisse que

ele não representava ameaça alguma, moveu o pescoço com desenvoltura

e afundou o bico afiado e gordo no olho de Jack Randall.

Jamie se agitou com um grito de asco que pôs o corvo em fuga dando

grasnidos de alarme.

—Sim!Por ali!

Um chapeado no solo pantanoso, uma cara ante ele, e a bem-vinda

sensação de uma mão no ombro.

—Está vivo! Vem, MacDonald! Vem, me dê uma mão. Não poderá

caminhar sozinho.

Eram quatro. Levantaram ele com bastante esforço; seus braços

pendiam, inertes, sobre os ombros de Ewan Cameron e Iain Mac-Kinnon.

Teria preferido dizer-lhes que o deixassem; ao acordar tinha recordado

sua intenção de morrer. Mas a doçura daquela companhia era irresistível.

O descanso tinha devolvido a sensação de sua perna dormente, fazendo-

lhe compreender a gravidade da ferida. De qualquer modo morreria

cedo; graças a Deus, não teria que o fazer só, na escuridão.

—Água? —Notou a borda da xícara nos lábios. Incorporou-se o suficiente

para beber, com cuidado de não derramar a água. Uma mão lhe oprimiu

a testa durante um segundo e se retirou sem comentários.

Estava ardendo; quando fechava os olhos podia sentir as chamas por trás

deles. Os arrepios acordavam os demônios que dormiam em sua perna.

Murtagh. Tinha uma sensação horrível com respeito a seu padrinho, mas

nenhuma recordação que lhe desse forma. Murtagh tinha morrido; sabia

que assim foi, mas ignorava como ou por que o sabia. A metade do

exército das Terras Altas tinha morrido, massacrado; ao menos, isso

deduzia pelo que conversavam os homens no estábulo, ainda que por sua

vez não recordava a batalha. Não era a primeira vez que combatia com

um exército e sabia que essa perda de memória não era estranha entre os

soldados, ainda que nunca a tivesse experimentado pessoalmente.

—Tudo vai bem, Jamie? —Ewan, ao seu lado, incorporou-se sobre um

cotovelo, pálida a cara preocupada à luz da aurora. Uma bandagem

manchado de sangue lhe rodeava a cabeça; tinha marcas enferrujadas na

gola da camisa, pelo atrito de uma bala no couro cabeludo.

—Sim, eu me arranjo. —lançou uma mão para tocar Ewan no ombro, em

sinal de gratidão. Ewan lhe deu umas palmadas e voltou acostar-se.

Quatro dos homens falavam baixinho ao lado da única janela.

—Tratar de correr? —disse um, assinalando para fora com uma

cabeçada—. Por Deus, homem, o que melhor está mal pode andar. E seis

de nós não estão em condições de dar um passo.

—Se podes fugir, faça —disse um homem do fundo. Assinalou com uma

careta sua própria perna, envolvida nos restos de uma colcha maltrapilha

— Não fique por nós.

Duncan MacDonald se afastou da janela com um sorriso lúgubre,

mexendo a cabeça. A luz da janela recortava os rasgos rudes de seu rosto,

acentuando as rugas da fadiga.

—Não, esperaremos —disse — Para começar, os ingleses multiplicam-se

como piolhos por aqui; da janela se vê em bandos. Neste momento

ninguém poderia escapar inteiro de Drumossie.

—Nem sequer os que fugiram ontem do campo de batalha poderão

chegar longe —interveio MacKinnon com suavidade — Não ouviu as

tropas inglesas que passavam pela noite, a marcha forçada? Acredita que

lhes custariam muito derrubar o nosso miserável grupo?

Ante isso não teve resposta; todos a conheciam demasiado bem. Antes da

batalha já eram muitos os escoceses que mal podiam manter-se em pé,

debilitados como estavam pelo frio, a fadiga e a fome.

Jamie voltou a cara à parede, rezando para que seus homens tivessem

partido com tempo suficiente. Lallybroch estava muito longe; se

conseguiam distanciar-se bastante de Culloden era improvável que os

pegassem. No entanto, Claire lhe tinha dito que as tropas de Cumberland

assolariam as Terras Altas, adentrando-se muito por sua sede de

vingança.

Esta vez, ao pensar nela só sentiu uma onda de terrível nostalgia.Deus, tê-

la aqui, sentir suas mãos curando minhas feridas, acolhendo-me a cabeça

em seu colo! Mas ela se foi; estava a duzentos anos de distância... Graças

ao Senhor! As lágrimas lhe gotejaram lentamente entre as pálpebras

fechadas.

«Senhor, que esteja a salvo», rezou. «Ela e o nosso filho.»

A meia tarde, o ar se carregou subitamente de cheiro a queimado;

entrava pela janela sem vidros, mais denso do que a fumaça de pólvora

negra, picante, com um cheiro vagamente horrível, por sua lembrança a

carne assada.

—Estão queimando os mortos —disse MacDonald. No tempo todo que

ficavam na cabana ele mal se tinha afastado de seu assento junto à janela.

Ele mesmo parecia uma caveira, com o cabelo negro pelo carvão e

amassado como a terra, recolhido para atrás para descobrir um rosto

entre os que assomavam todos os ossos.

Aqui e lá, no marasmo, soavam estalos leves. Disparos de pistola. Os tiros

de graça, administrados pelos oficiais ingleses dotados de alguma

compaixão, antes de que um pobre diabo vestido de tartán xadrez fosse

jogado à pira, com seus camaradas mais afortunados. Quando Jamie

levantou os olhos, Duncan MacDonald continuava sentado junto à janela,

mas tinha os olhos fechados.

A seu lado, Ewan Cameron se benzeu.

—Queira Deus que nós recebamos a mesma misericórdia —sussurrou.

Assim foi. Mal passado o meio dia da segunda jornada, uns pés calçados

com botas se aproximaram à casa; a porta se abriu.

—Por Deus. —Foi uma exclamação sufocada ante a cena que se via

dentro da casa. A corrente de ar que entrou pela porta agitou o ar

fedorento dos corpos, esfarrapados e cobertos de sangue, estendidos ou

encurvados no solo de terra aplainada.

Ninguém tinha mencionado a possibilidade de uma resistência armada;

não tinham ânimos e seria inútil. Os jacobitas ficaram sentados,

esperando conhecer a vontade do visitante.

Era um comandante, limpo e reluzente com seu uniforme passado e suas

botas lustradas. Depois de um momento de vacilação para vistoriar os

habitantes, entrou seguido de perto por seu tenente.

—Sou lorde Melton —disse olhando ao seu arredor, como se procurasse o

líder daqueles homens, a quem seria mais correto dirigir seus

comentários.

Duncan MacDonald, depois de devolver-lhe a olhada, levantou-se com

lentidão e inclinou a cabeça.

—Duncan MacDonald, de Glen Richie —disse—. E os outros —fizeram

um aceno com a mão—, que faziam parte das forças de Sua Majestade, o

rei Jacobo.

—Isso eu imaginava —disse o inglês seco. Era jovem, de uns trinta anos,

mas tinha o porte e a segurança de um militar avezado. Olhou

deliberadamente aos homens, de um a um; depois afundou a mão em sua

jaqueta para pegar um papel enrolado— Aqui tenho uma ordem de Sua

Excelencia, o duque de Cumberlad —disse— Autorizando a execução

imediata de qualquer homem que tenha participado da traidora rebelião

que acaba de terminar. —Percorreu uma vez mais com a vista aos confíns

da cabana — Há aqui algum que se proclame inocente da traição?

Teve um levíssimo seguro de riso entre os escoceses. Inocentes, com a

fumaça da batalha ainda enegrecendo-lhes a cara? Ali, à beira do

matadouro?

—Não,milord —disse MacDonald com um ligeiro sorriso nos lábios—.

Traidores, todos. Vai ter que nos enforcar, não?

Melton contraiu a cara numa pequena careta de desgosto; depois voltou a

sua impasividade. Era um homem leviano, de ossos finos, apesar que

levava bem a autoridade.

—Vamos fuzilar —disse— Voces tem uma hora para prepara-los. —

Vacilando, olhou ao seu tenente, como se temesse parecer muito generoso

ante o subordinado, mas continuou_: Se algum de vocês deseja escrever

uma carta, virá o escrevente de minha Companhia.

Depois de saudar brevemente ao MacDonald com a cabeça, girou sobre

seus calcanhares e se retirou.

Foi uma hora lúgubre. Uns poucos aproveitaram do oferecimento de

pluma e tinta. Outros oravam em silêncio ou se limitavam a esperar, sem

levantar-se.

MacDonald tinha implorado misericórdia para Giles McMar-tin e

Frederick Murray, argumentando que mal tinham dezessete anos e que

não podiam ser castigados igual aos seus maiores.

A solicitação foi negada; os moços permaneciam sentados com as costas

contra a parede, pálidos e tomados pelas mãos.

Jamie sentiu um profundo pesar por eles... e pelos outros que estavam ali,

amigos leais e soldados valentes. Por ele só experimentava alívio. Essa

miséria física estava a ponto de terminar.

Mais por salvar as formas que por necessidade, fechou os olhos para

rezar o Ato de Contrição em francês, como sempre o fazia:

«Mon Dieu, je regrette...» Mas não se arrependia de nada. Era demasiado

tarde para arrependimentos.

Perguntou se ao morrer se encontraria imediatamente com Claire. Ou

talvez, como esperava, estaria condenado por um tempo à separação.

Esquecendo a oração, começou a conjurar seu rosto depois das pálpebras:

a curva da bochecha e a têmpora, essa frente larga e despejada que

sempre o incitava a beijá-la, justo ali, nesse ponto suave entre as

sobrancelhas, entre os claros olhos ambarinos.

Mais tarde regressou Melton, desta vez seguido por seis soldados, além do

tenente e o escrevente. Uma vez mais se deteve na soleira da porta, mas

MacDonald se levantou antes de que pudesse dizer.

—Eu serei o primeiro —disse. E cruzou a cabana com passo firme. No

entanto, quando inclinou a cabeça para cruzar a porta, lorde Melton lhe

apoiou uma mão na manga.

—Me dê o seu nome completo, senhor? Meu empregado tomará nota.

MacDonald deu uma olhada ao escrivente, com um sorriso amargo

tratando de aparecer em sua boca.

—Uma lista de troféus, não? Bem. —Encolheu-se de ombros erguendo as

costas— Duncan William MacLeod MacDonald, de Glen Richie. —Fez

uma cortês reverência a lorde Melton— A seu serviço... senhor.

Cruzou a porta. Pouco depois se ouviu um disparo a curta distância.

Aos moços permitiu irem juntos, pegados com força nas mãos. Os demais

foram tirados de um a um; a cada qual se perguntou o nome para que o

escrivente pudesse registrá-lo.

Quando chegou a vez de Ewan, Jamie esforçou-se para incorporar-se

sobre os cotovelos e lhe estreitou a mão com tanta força como pôde.

—Cedo voltaremos a nos ver —sussurrou.

Ewan Cameron tremia a mão mas se limitou a sorrir. Depois se inclinou

para beijar a mão de Jamie na boca e saiu.

Ficavam os seis que não podiam caminhar.

—James Alexander Malcolm MacKenzie Fraser —disse ele com lentidão

para que o escrivente tivesse tempo de anotá-lo bem— Senhor de Broch

Tuarach. —Soletrou com paciência; depois levantou os olhos para

Melton.

—Devo pedir milord, a cortesia de me ajudar a pôr-me em pé.

Melton, em vez de responder-lhe, olhava-o fixamente; sua expressão de

remoto desgosto tinha dado passo a uma mistura de assombro e de algo

parecido ao horror.

—Fraser? —repetiu— De Broch Tuarach?

—Esse sou eu —confirmou Jamie com paciência. Não se daria um pouco

de pressa aquele homem? Uma coisa era resignar-se a ser fuzilado e outra

muito diferente era escutar matando aos teus amigos; aquilo não

acalmava os nervos, precisamente.

—Por todos os diabos —murmurou o inglês. Inclinou-se para olhar bem a

Jamie, que jazia à sombra da parede. Depois fez uma sinal ao seu tenente.

—Ajuda-me a levá-lo à luz —ordenou.

Não o fizeram com suavidade; Jamie grunhiu durante o trajeto, que lhe

provocou um raio de dor desde a perna esquerda até a coronilha.

Aturdido, não escutou o que Melton lhe estava dizendo.

— Voce é o jacobita que chamam de Jamie o Ruivo? —perguntou outra

vez, com impaciência.

Aquilo provocou um relâmpago de medo em Jamie; que se tomassem

conhecimento de que era o conhecido Jamie o Ruivo não o fuzilariam. O

levariam A Londres para julgá-lo, encadeado, como botim de guerra.

Depois, com a corda do carrasco à jazer no cadafalso, até que lhe

abrissem o ventre e lhe arrancassem as entranhas. Suas barrigas expeliu

outro estrondo longo e ressonante; a elas também não lhe agradava a

idéia.

—Não —disse com tanta firmeza como pôde reunir— Vamos terminar de

uma vez?

Melton, sem prestar atenção, deixou ele cair sobre os joelhos para rasgar

a gola da camisa. Depois pegou o Jamie pelo cabelo e lhe jogou a cabeça

para atrás.

—Maldição! —disse, fincando-lhe um dedo acima da clavícula. Ali tinha

uma pequena cicatriz triangular, que parecia ser a causa da preocupação

de seu interrogador.

—James Fraser, de Broch Tuarach; cabelo ruivo e uma cicatriz de três

centímetros no pescoço. —Melton lhe soltou o cabelo e se sentou sobre os

calcanhares, esfregando o queixo com ar distraído. Depois, já tomada a

decisão, voltou-se para o tenente e fez sinal com um gesto aos cinco

homens que restavam na cabana.

—Levem os demais —ordenou. Tinha as loiras sobrancelhas unidas numa

profunda ruga. Se ergueu ante Jamie enquanto levavam os outros

prisioneiros escoceses.

—Tenho que pensar —murmurou— Maldita seja tenho que pensar!

—Faça se podes —disse Jamie— Por minha parte, preciso encostar-me.

—Tinham o erguido e tinha as costas apoiadas na parede mais afastada e

as pernas esticadas, mas aquela posição era mais do que podia suportar

depois de ter estado dois dias estendido de costas. Inclinou-se para um

lado para deslizar-se para o solo.

Melton murmurava baixo e Jamie não chegou a distinguir as palavras; de

todas formas, não lhe interessavam muito. Assim, sentado à luz do sol,

tinha-se visto a perna com clareza pela primeira vez; estava quase seguro

de que não viveria o suficiente para que o enforcassem.

O vermelho intenso da inflamação se estendia desde a metade da coxa

para acima, bem mais visível do que as manchas de sangue seco. A ferida

em si estava purulenta; como já tinha diminuído o fedor dos outros

homens, era-lhe possível perceber o cheiro enjoativo do pus. De qualquer

modo, uma rápida bala na cabeça parecia mil vezes preferível à dor e ao

delírio da morte causada pela infecção. Adormeceu, com a terra fresca

sob a bochecha ardente, fresca e reconfortante como o peito de uma mãe.

Não estava realmente dormindo, senão sonolento pela febre, mas a voz de

Melton em seu ouvido lhe despertou bruscamente.

—Grey —disse a voz— John William Grey! Recordas esse nome?

—Não —disse ele, desorientado pelo sonho e a febre— Olha,vai me matar

ou não? Estou enfermo.

—Perto de Carryarrick. —A voz de Melton o incitava com impaciência—

Um jovenzinho, um moço loiro de uns dezesseis anos. Encontrou ele no

bosque. Jamie olhou para o seu torturador. A febre lhe distorcia a visão,

mas lhe pareceu ver algo vagamente familiar naquele rosto de finos ossos

e olhos grandes, quase de menina.

—Ah —disse resgatando uma cara de entre as torrentes imagens que se

aglomerava erraticamente em seu cérebro— o mocinho que queria me

matar. Sim, eu recordo.

Fechou os olhos outra vez. Devido à febre, uma sensação parecia fundir-

se com outra. Uma vez tinha quebrado o braço de John William Grey; a

recordação do delicado osso sob sua mão se converteu no antebraço de

Claire, ao arrancá-la entre as pedras. A brisa fresca e brumosa lhe

acariciou a cara como os dedos de Claire.

— Desperta, maldito sejas! — A cabeça lhe balançou sobre o pescoço.

Melton o sacudia com impaciência.-Escuta-me!

Jamie abriu os olhos, fatigado.

—Sim?

—John William Grey é meu irmão —disse Melton—. Ele me falou de seu

encontro contigo. Voce perdou-lhe a vida e ele te fez uma promessa. É

verdadeiro?

Com grande esforço, Jamie deixou seus pensamentos para trás. Tinha

encontrado o menino dois dias antes da primeira batalha da rebelião, a

vitória escocesa de Prestonpans. Os seis meses decorridos desde então

pareciam um vasto abismo, pelas muitas coisas que tinham sucedido

naquele tempo.

—Me Recordo, sim. Prometeu matar-me. Não me incomodaria que o

fizesses por ele.

Estavam caindo as pálpebras. Tinha que permanecer desperto para que o

fuzilassem?

—Disse que tinha uma dívida de honra contigo. E é verdadeiro. —Melton

se levantou, sacudindo as joelheiras das calças de montar, e se voltou para

o tenente que observava o interrogatório com evidente desconcerto.

—Que situação desgraçada, Wallace. Este... este jacobita é famoso. Não

ouviu falar de Jamie o Ruivo? A figura nos cartazes?

O tenente assentiu, olhando com curiosidade a silhueta desalinhada que

jazia sobre o pó, a seus pés. Melton sorriu com amargura.

—Não, agora não parece tão perigoso, não é? Mas ainda assim é o Ruivo

Jamie Fraser. A sua pessoa lhe causaria bons gozos, informando de que

temos um prisioneiro tão ilustre. Ainda não acharam o Carlos Stuart,

mas quantos jacobitas conhecidos serão igualmente gratos para as

multidões de Tower Hill.

—Devo enviar uma mensagem a seu respeito? —O tenente alongou a mão

para a caixa das mensagens.

— Não! – Melton virou de costas fulminando com o olhar seu prisioneiro

– Aí está o problema! Apesar de ser excelente carne de prisão, esta ruína

malcheirosa é também o homem que capturou o menor de meus irmãos,

preto de Preston, e em vês de matá-lo, que ra o que ele merecia, lhe

poupou a vida e o devolveu a seus companheiros. Desse modo – falou

entre dentes – minha família contraiu uma maldita dívida de honra.

- Meu deus – disse o tenente – Assim, não podeis entregá-lo a Sua Alteza,

depois de tudo.

-Não, maldito seja! Não posso sequer fuzilar a esse cretino sem faltar ao

juramento de meu irmão!

O prisioneiro abriu um olho.

-Pode faltar com ele; não lhe direi nada – sugeriu. E voltou a fechá-lo

rapidamente.

-Cale-se! – Já tendo perdido completamente a calma, Melton chutou o

prisioneiro, que lançou um gemido diante do impacto, porém não disse

mais nada.

-Poderíamos fuzilá-lo com um nome falso – sugeriu o tenente numa

tentativa de ajudar.

Lord Melton lançou ao seu assistente um olhar fulminante de desdém.

Logo deu uma olhada pela janela para calcular a hora.

-Dentro de três horas terá escurecido. Supervisionarei o enterro dos

outros executados. Busca-me uma carroça pequena e cheia de feno.

Consegue um carroceiro. Escolhe uma pessoa discreta, Wallace,

e...subornável. Quero que esteja aqui com o veículo enquanto escurece.

-Sim, senhor. Eh.... Senhor? Que faremos com o prisioneiro? – O tenente

sinalizou com timidez o corpo estendido no chão.

- Carroça? – O prisioneiro mostrava sinais de vida. De fato, diante do

estímulo da agitação havia conseguido apoiar-se sobre um cotovelo – Para

onde me envias?

Melton se virou diante da porta com um profundo olhar de desgosto.

-És o senhor de Broch Tuarach, não? Bom, pois pra lá te envio.

-Mas eu não quero ir para casa! Quero que me fuzile!

Os ingleses se entreolharam.

-Delira – disse o subordinado.

Melton assentiu.

-Duvido que sobreviva à viajem, porém ao menos sua morte não cairá

sobre a minha consciência.

A porta se fechou com firmeza atrás dos ingleses, deixando a Jamie

Fraser muito só... e com vida.

SE INICIA A BUSCA

CAPÍTULO 2

Invemess