Revanche por Carlos da Terra - Versão HTML

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cabeça da menina por ter tomado conhecimento do nosso namoro e por ciúme

doentio, pede a ela que não me deixe sair para passear com você. Ela fala isso

para a minha mãe e ambas ficam me pressionando. Querem que eu me

separe de você... Não sei o que posso fazer.

Em várias ocasiões ocorreram diálogos parecidos e a ira

de Rubens foi se acentuando de tal modo que ao ouvir o nome de Daniel ou de

Eliana, julgava estar ouvindo nomes de inimigos pessoais. A simples menção

do nome lhe causava arrepios.

As ausências de Mári nos encontros prenunciavam,

claramente, uma separação, para ele muito indesejada.

No seu alojamento, que dividia com um colega de

trabalho, Rubens passava as noites matutando; torcia para essa situação se

modificar espontaneamente ou ele teria que tomar alguma iniciativa.

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Carlos da Terra Revanche Certa vez ele manifestou o desejo de ir tirar satisfações

com Daniel, mas foi dissuadido com fingida manifestação:

- Não, querido... não quero! Ele pode lhe ferir e até matar.

É violento e perigoso. Só me preocupo com você. - E sugeriu vagamente ...-

- Mas talvez possamos tirá-lo de nosso caminho; se

conseguirmos envolvê-lo em um problema que o levasse à cadeia. Dessa

forma continuaríamos nosso namoro sem dificuldades

- Sim.. é verdade! Mas em que tipo de problemas

poderemos envolvê-lo, tão grave, que o leve à reclusão?

- Bem.. se ele espancasse Eliana e ela aparecesse

machucada eu poderia denunciá-lo, mas ele apenas a maltrata verbalmente e

ameaça cortar-lhe os presentes caso ela conte o que acontece...

E foi assim que, um dia, propositalmente ela levou um

jornal onde uma matéria discorria sobre um caso de pedofilia:

Drogado, o auxiliar de mecânica, saiu de sua cama à

noite e sem que sua mulher acordasse, foi à cama de sua filha de apenas 6

anos de idade e a estuprou; a menina acordou mas ele mandou que ficasse

quieta e tudo só foi descoberto por causa das manchas de sangue nas roupas

da menina, que a mãe estranhou levando a menina a relatar o ocorrido. A

polícia já expediu ordem de prisão ao pai estuprador e ele será preso nas

próximas horas”

Rubens se mostrou chocado com a notícia e ensaiou um

diálogo de reprovação, mas titubeou quando Mári disse que às vezes a criança

nem percebe e não teria maiores consequências.

- Sabe... a criança pode nem perceber e logo esquece!

Mas o pai sim; esse vai ter um castigo duro! – disse Mári –

Rubens ouviu essa opinião de Mári, estarrecido.

Ao ver o espanto no rosto de Rubens, Mári prosseguiu

como se fosse uma ideia de momento...

- Já pensou se isso acontecesse com a Eliana? O Daniel

estaria perdido! Ele iria pagar por tudo o que fez de mal para mim e para a

própria filha.

- É, mas será que o Daniel vai fazer isso algum dia?

23

Carlos da Terra Revanche

- Não, Rubens, ele não faria porque a Mariana tem

ciúmes e não o larga um só minuto, mas, se alguma outra pessoa fizesse e a

ele fosse imputado o ato...

- Seria loucura porque logo descobririam e depois, como

é que se encontraria a menina sozinha? No caso aí do jornal era o próprio pai,

que já estava lá; então era fácil. – comentou Rubens –

- É claro, - disse hipocritamente Mári – que não

desejaríamos isso, mas seria uma grande lição para ele que não faria mal à

mais ninguém e sabe... pensando bem eu acho que dá sim!

- Como? Se eles moram no oitavo andar do prédio?

- Você não me disse que sobe em qualquer prédio por

fora?

Rubens assentiu, pasmado, e ela continuou...

- Talvez nem precise subir pelo lado de fora; basta que

tenha a coragem -procurando instigar- de passar de um apartamento ao outro.

Ele disse que coragem não lhe faltava e então ela lhe

revelou um plano..

- Você entra no prédio em horário normal, antes da troca

do porteiro da noite e fica no apartamento oitenta e dois que é vizinho do

Daniel, no sábado que vem, quando eu vou levá-la para ficar o fim de semana

lá. Eu tenho a chave do apartamento ao lado que peguei para dar uma olhada

no apartamento, na portaria,fiz uma cópia e devolvi, mas como ele está vazio, a

porta costuma ficar aberta. Em todo o caso, leve esta chave mas não mostre a

ninguém.

- Você reparou que o apartamento de Daniel tem telas de

proteção contra quedas de crianças?

- Sim.. reparei

- Acha que dá para entrar mesmo com a tela?

- Sim.. dá. É até mais fácil porque posso me segurar

nela. É só fazer um corte e passar por ela; entrar será fácil, mas e depois como

vou sair?

- Depois que você entrar, fica escondido no quarto de

Eliana e quando eles dormirem você a ataca e a deixa de modo a desmaiar,

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Carlos da Terra Revanche procurando asfixiá-la. Sai vagarosamente e entra no mesmo apartamento ao

lado. Ao ver os ferimentos característicos dirão que o Daniel tentou violentar a

menina porque ele é o único homem presente e que fez o corte na tela, por

onde você entrou, para simular a entrada de mais alguém. A polícia jamais

imaginará que alguém subiu oito andares e entrou no apartamento; menos

ainda que o estuprador tenha vindo do apartamento ao lado porque o guarda

da noite dirá que ninguém entrou lá. Você deverá usar roupas pretas e ir

calçando apenas meias. Depois, quando sair, vai ao apartamento do lado e

calça os sapatos e troca de roupas.

- Mas e para sair? Perguntou Rubens -

- Quando Eliana começar a gritar e chamar pelo pai, o

porteiro deverá subir ao prédio; a esta altura você já estará na escada de saída

e no meio da confusão você desce e deverá encontrar a portaria vazia. Você

tem que sair do apartamento enquanto ela ainda estiver estarrecida,

abobalhada, antes de chamar pelo Daniel ou Mariana.

O plano louco começou a ganhar contornos de realidade.

Dizem os especialistas que é o ciúme, um dos mais

fortes propulsores de vingança, mas que na verdade ele não pode explicar uma

ação; as pessoas usam o termo ciúme para descrever uma série de

comportamentos levados a cabo pela pessoa ciumenta, mas não é uma

explicação. Na verdade, segundo esses mesmos especialistas, a mola

propulsora da ação neste caso seria, e tudo indica ter sido mesmo, a

humilhação pela qual Mári passou nas sucessivas e malogradas tentativas de

atingir Daniel, associada à ladainha proferida diariamente por sua mãe. Essa é,

para eles, a fonte motivadora da vingança.

E foi naquele sábado que Mári convidou a amiga,

Luciene, aquela que mora nas proximidades da casa de Daniel para

acompanhá-la a um restaurante do outro lado da cidade; embora fosse distante

ficava na outra extremidade de uma via de acesso rápido e fácil àquele lugar.

Foram ao jantar com amigos.

Esse seria o álibi de Mári, caso precisasse.

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Carlos da Terra Revanche Enquanto isso, naquela noite, Daniel, Mariana e as

crianças foram passear em um grande supermercado e fizeram apenas

algumas poucas compras.

Simultaneamente, lá no prédio, Rubens seguia direitinho

o plano macabro de Mári.

Assim que entrou no apartamento oitenta e um

escondeu-se e ficou à espreita.

Viu pela janela frontal quando Daniel entrava no prédio;

pode ver apenas o carro onde deveriam estar Mariana, Eliana, e as outras duas

crianças, todas irmãs, por parte de pai.

Calculou o tempo e escondeu-se atrás de um biombo.

Eles deveriam subir logo.- calculou -

Mas uma coisa imprevista aconteceu.

Como as crianças já estavam dormindo no carro, não

poderiam subir todos juntos e então Daniel resolveu levar Eliana em primeiro

lugar, porque era a mais pesada e depois voltaria para ajudar a levar as outras

duas crianças e as bolsas com algumas compras.

Daniel subiu com Eliana nos braços, entrou em seu

apartamento e a colocou na cama, no quarto recém mobiliado.

Saindo de seu apartamento ele teve o cuidado de fechar

a porta e apagar a luz para que a menina não fosse perturbada em seu sono.

Voltou rapidamente para a garagem do prédio, onde sua esposa o aguardava

observando as outras crianças que também dormiam.

Diante dessa situação inesperada – de ficar só com a

menina no quarto – o bandido considerou uma excelente oportunidade para

realizar o plano diabólico e partiu imediatamente para a ação.

Ao tocar em Eliana, esta acordou assustada e reagiu

com todas as suas forças, chegando até a morder o braço do criminoso,

conseguindo escapar, correndo em direção à porta, clamando desesperada por

seu pai.

Rubens correu e a pegou perto da porta de saída,

quando ela novamente escapou correndo para dentro, desta vez; e ele tornou a

alcançá-la, atirando-a no chão perto do sofá.

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Carlos da Terra Revanche Eliana estava morta ou desmaiada agora, e ele então iria

realizar a segunda parte violentando a menina sexualmente, como nas notícias

dos jornais, para incriminar Daniel.

Toda esta brutalidade não durou mais do que quatro ou

cinco minutos. A menina foi ferida, mesmo desacordada.

Ouviu, o monstro, que o elevador fazia o barulho

característico de quando pára no andar.

- E agora? O que fazer? – pensou ele-

Entrou em pânico. O plano de fuga era agora

impraticável; havia falhado.

Daniel apareceu primeiro, com sacolas e uma menina

nos braços. Um pouco mais atrás vinha Mariana com a outra menina, também

dormindo em seus braços.

Ao bandido só restava um meio de escapar e seria

fazendo Daniel e todas as outras pessoas saírem dali correndo e dando-lhe

passagem. Ele teria que evitar o confronto, porque os outros moradores,

fatalmente, apareceriam para detê-lo.

Quando Daniel entrou viu o vulto vestido de negro com

Eliana nos braços e ficou paralisado; ensimesmado.

Tentando desviar a atenção dos que chegavam,

imediatamente o monstro foi em direção à janela e atirou a menina pelo buraco

por onde ele mesmo havia entrado no apartamento.

Sob seu olhar horrorizado Daniel não pode impedir

aquele demônio, de roupas pretas. de defenestrar sua filha.

Desesperado, colocou sua outra filha, que estava em

seus braços, no chão e correu escada abaixo em direção à Eliana que jazia

morta defronte ao prédio.

Uma multidão se aglomerou, gritando e lastimando a

horripilante visão, sem compreender absolutamente nada; aturdida.

Enquanto isso o bandido, rapidamente foi ao

apartamento vizinho, trocou suas roupas e saiu por detrás das pessoas

aglomeradas em volta do corpo da menina e outras que corriam para dentro e

para fora do prédio.

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Carlos da Terra Revanche Foi um alvoroço e todos ligavam para a polícia, sem

prestar a menor atenção umas às outras pessoas.

Assim Rubens conseguiu safar-se, sem que sequer

tenha sido visto.

Estranhamente Mári, estava chegando ao prédio

imediatamente após a queda.

Viu a movimentação e quando lhe contaram, não

demonstrou espanto.

- Estava feito! Não pensávamos em matar a menina, mas

foi um acidente de percurso... fazer o que? – pensava Mári –

A vingança... doce vingança foi concluída! Passou a

sentir-se poderosa.

Mostrou a si mesma que tinha forças para fazer o que

queria e que era muito mais inteligente do que as pessoas imaginavam.

Naturalmente, a reputação de Daniel ficou seriamente

abalada e lhe foi imputada a autoria do crime, destruindo por completo aquela

família inteira.

Foi julgado e condenado, junto com sua mulher pelo

bárbaro crime e morte de sua filha.

A vingança foi completa.

Mas o vingador não sente prazer se o alvo de sua

vingança não souber quem foi que lhe causou a desgraça.

Até mesmo desconfiar dela, seria difícil para Daniel, mas

mesmo que desconfiasse, jamais poderia fazer qualquer acusação, por falta

absoluta de qualquer lógica do episódio.

E todos iriam pensar:

“Imagine se uma mãe faria uma coisa dessas”, caso essa

possibilidade fosse admitida

Na hora certa ele saberia quem lhe fez a desgraça.

E a vida continuou para Mári que agora tinha um outro

problema...

Já não suportava mais a presença de Rubens, que se

tornou desnecessário.

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Carlos da Terra Revanche Não havia mais qualquer razão para, sequer, conversar

com ele.

Agora ele a convidava para sair, mas ela não ia, como

antes mas sem poder atribuir a Eliana esse desânimo, ela alegava sucessivas

e estranhas dores de cabeça.

O assassino foi se tornando agressivo e incômodo! Não

saia de seu encalço e sugeriu que, continuando a ser maltratado, poderia lhe

extorquir dinheiro, sob pena de revelar a autoria do crime à polícia, caso

quisesse. Este problema ganhou prioridade diante do desejo de Mári em

revelar ao Daniel que fora ela a autora. Primeiro ela teria que se livrar de

Rubens.

Depois disso, nada mais poderia atrapalhar essa

revelação ao Daniel porque seu sofrimento ainda não havia atingido o que ele

merecia, junto a aquela vagabunda da Mariana, segundo ela, que mais ainda

lhe irritava quando ela pensava que mesmo sofrendo atrás das grades, sob

intensa pressão, jamais ela acusou ou abandonou o Daniel.

Em um final de semana Mári não foi ao baile, como

costumava e avisou Rubens que, estando indisposta, não sairia de casa.

Mas saiu...

Usando maquiagem bastante diferente, peruca e todo o

tipo de disfarce ela foi a um bar, frequentado por vagabundos da pior espécie;

todos viciados em drogas, ladrões, assassinos e charlatões.

Estando em uma mesa, tomando uma bebida, não tardou

para que um deles se aproximasse...

- Está sozinha?

- Sim... por que não se senta aí um pouco?

Enquanto isso os amigos desse bandido riam em outra

mesa e olhavam de soslaio, tentando, mas sem identificar aquela estranha

mulher.

- Estou aqui – disse Mári – para contratar alguém para

me fazer um “servicinho” sujo. Sabe de alguém?

- Depende!

- Depende de que?

29

Carlos da Terra Revanche

- Se paga bem ou não, e quem é que vai ser morto.

- É meu ex marido. E pago cinco mil.

- É pouco! Costumam pagar mais pela morte de ex

maridos! Sabe dona.. o sindicato vai me multar se eu cobrar mais barato!

Temos uma tabela – ironizou -

- Quanto é a tabela? Perguntou Mári, sorrindo e

desconfiada.

- Dez mil é o mínimo e quero garantias de pagamento.

- Pago cinco mil agora e cinco depois de feito, mas não

quero falhas e ninguém pode descobrir nada. Deve parecer que o crime foi por

acerto de contas, por causa de drogas, ou coisa parecida.

Mostrou ao bandido uma foto onde ela aparecia

abraçada ao Rubens.

Ele olhou fixamente e...

- Pode deixar comigo! O serviço será limpo. Ele já é um

cara morto! Você vai atraí-lo a uma armadilha e eu vou fuzilar várias pessoas

juntas, assim a polícia não poderá saber qual era o alvo.

Mári ficou assustada, mas gostou do plano.

Agora, em todos os encontros, Mári se dedicava

inteiramente à consecução do novo objetivo...

Todos os dias, falava para o Rubens que estava sendo

alvo de assédio para justificar o fato – fingido - de ela estar meio estranha,

como ele próprio já havia reparado e se queixado.

Recebia cartas – ela dizia – e bilhetes ameaçadores de

alguma pessoa absolutamente desconhecida! Devia tratar-se de algum lunático

que a queria como namorada.

Mostrou alguns papéis com letra alterada onde se podia

ler:

“Você será minha, custe o que custar”

Rubens mordeu os lábios e fechou os punhos...

- Ainda vou descobrir quem é esse cara e vou acertar as

contas. Ele me pagará por isso!

30

Carlos da Terra Revanche

- Deixa pra lá amor... de repente ele se esquece. –

simulando preocupação -

Mas novos bilhetes iam chegando, até que um deles

tinha um texto ameaçador e mais definido.

Dizia o bilhete:

“ Estarei hoje, na mesa 5 da lanchonete Araújo.

Encontre-me lá as 8 horas”

Rubens ficou irritado e disse:

- Eu vou em seu lugar.. vou me sentar na mesa 5 e

descobrir quem é o canalha!

- É perigoso – fingiu Mári – deixe que eu vá e dê um jeito

de ele não me perturbar mais. Vou dizer que estou namorando.

- Não... não vai adiantar; deixe; eu irei sozinho – Falou

Rubens enfaticamente –

Colocou um revólver na cinta, por baixo da jaqueta e

saiu.

Extremamente nervoso, e olhando muito para a periferia,

lá estava ele, no lugar de Mári, na hora prescrita pelo bilhete.

A mesa cinco ficava bem à frente das demais e já estava

ocupada por alguns beberrões de cerveja. Rubens puxou uma cadeira e pediu-

lhes licença sentar-se e tomar uma cerveja.

Consentiram olhando fixamente para ele e estranhando

seu comportamento preocupado e com o olhar esparso. Olhava para todos os

lados.

Uma das coisas que Rubens supunha é que o próprio

autor dos bilhetes, poderia ser um daqueles que ali estavam bebendo, e por

isso os olhava intermitentemente, também.

Mas como saber?

Já passava das oito horas e nenhum daqueles ocupantes

da mesa apresentou qualquer atitude suspeita.

-Talvez o conquistador não venha – pensou-! Pode ter

sido um blefe. É possível também que, percebendo a ausência de Mári, o

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Carlos da Terra Revanche charlatão não tenha se apresentado. Se me reconheceu, de alguma forma,

poderá deixar Mári em paz daqui por diante.

-Tanto melhor para ele, que ia se dar muito mal. Agora

posso ir embora – pensou!

Já ia se levantando quando uma motocicleta avançou

abruptamente e parou à frente do grupo; o motoqueiro apoiou a perna

esquerda no chão, sacou uma pistola automática e disparou vários tiros na

direção de todos daquela mesa.

Todos foram atingidos e Rubens morreu!

Em meio à aglomeração que se formou logo a seguir,

Mari apareceu bem à frente da mesa cinco da lanchonete, querendo se

assegurar da morte de Rubens, imiscuindo-se .

- Pronto! - pensou – tudo perfeito! Não há mais nada

contra mim. O segredo está protegido.

E agora, sem mais nenhum obstáculo, só restava a

Daniel, saber quem era ela. Ele saberia agora do seu poder!

- Ela não era – ele ia saber – “uma qualquer” ; não

merecia, isso ia ficar claro, ser trocada por aquela pessoa insignificante que

tomou o seu lugar. Tivesse ele ficado comigo e hoje ele estaria com sua filha

viva, em uma família muito feliz, como sempre sonhei – pensava-

Agora, vendo-se livre de tudo, muita coisa já mudou na

vida de Mári.

O diálogo de Mári com sua mãe também mudou; Ela já

não aceitava as pechas passivamente e agora era ela, Mári, quem aplicava

palavras ofensivas..

Todos os dias, ela arrumava qualquer pretexto para dizer:

- Viu bem, agora, com quem você queria que eu me

casasse? Você é igual a ele e por isso meu pai lhe largou.

A mãe se calava, percebendo certa transformação no

semblante de Mári... parecia doentio, enlouquecido!

A polícia trabalhava diligentemente no caso da chacina

da lanchonete, sem conseguir montar ou resolver o quebra cabeças. Por que

atiraram contra aquele grupo? Quem seria o alvo?

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Carlos da Terra Revanche Investigando a cada uma das vítimas da chacina, pouco

ou quase nada se podia descobrir. Todos tinham ficha limpa e a vida de todos

era regular, sem muitas novidades, exceto Rubens, que despertou curiosidade

porque segundo seu amigo, que morava com ele nos alojamentos da

construção, Rubens estava namorando uma grã fina! Uma mulher da

sociedade, porem, ele – o informante – jamais a tinha visto.

Segundo Edgar, o Rubens não lhe disse abertamente

que namorava com ela, dizia apenas que era uma amiga e que apesar de não

ser muito bonita, era simpática e tinha posses; ele falava sempre as mesmas

coisas... - completava-.

Não foi difícil ao companheiro concluir que ele e aquela

mulher tinham um relacionamento um pouco além do mero conhecimento

decorrente da profissão de Rubens.

A polícia então resolveu se deter na investigação do

Rubens para descobrir se teria alguma relação ou se poderia explicar a

motivação e autoria da chacina da porta da lanchonete.

Como o local do crime era nas imediações da casa de

Eliana, a mesma delegacia cuidava de ambos os casos e um dos

investigadores, de nome Osvaldo, que por coincidência fez parte da equipe que

trabalhou no caso da morte de Eliana, foi designado.

Sendo uma designação aleatória, nem Osvaldo e nem a

chefatura supunha qualquer relação entre ambos os casos.

Qualquer coisa ou objeto de qualquer natureza, fosse um

som ou uma carta , qualquer coisa deveria ser cuidadosamente observada na

tentativa de explicar a chacina.

No alojamento que Rubens dividia com outro pedreiro o

policial, encontrou alguns bilhetes escritos por uma mulher, que não assinava o

nome e se dizia apaixonada por ele.

Pela escrita se verificava que tinha cultura mediana,

Notava-se certa facilidade em escrever e nos bilhetes ela afirmava sempre que

amava ao Rubens com todas as forças e que estava disposta a “qualquer

loucura” para ficar com ele e acrescentava que os empecilhos seriam retirados

do caminho.

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Carlos da Terra Revanche Edgar informou que aquelas cartas vinham da mulher a

quem ele se referiu como grã fina.

O trabalho desenvolvido por qualquer pessoa tende a

moldá-lo de maneira muito característica, assim, o médico tem “jeito de médico’

o advogado de advogado e assim por diante; os investigadores desenvolvem

um aguçado senso de observação e conseguem perceber detalhes mínimos

em um objeto ou situação, justamente porque, dessas minúcias, pode

depender sua integridade física, ou a própria vida.

Todos os investigadores olharam para os bilhetes

aparentemente como todos olham, entre muitos objetos pessoais e outros

papelotes sem importância.

Não encontraram nada, em princípio, que os levasse a

qualquer suspeita sobre o autor ou os motivos da chacina na lanchonete.

Mas Osvaldo, o investigador designado, prestou maior

atenção a todos os objetos e em especial aos bilhetes. Como vinham de uma

mulher grã fina, a situação era inusitada e esse detalhe pareceu merecer um

pouco mais de atenção.

Com o passar dos dias, a investigação da chacina

desapareceu dos jornais, como sempre acontece, tomando um ritmo muito

lento. As manchetes dos jornais, agora estampavam outros crimes.

Vendo-se absolutamente segura, era a hora de Mári dar

o golpe final... a desforra total; um castigo para Daniel, totalmente merecido.

Ela seria impiedosa, como ele próprio o foi, tantas vezes.

Escreveu de próprio punho, um bilhete no qual ela

gostaria de despertar em Daniel o sentimento de culpa pela morte de Eliana.

Ele teria que sentir... sofrer agora muito mais do que

pelas dores do cárcere a que agora estava confinado. O sofrimento do

confinamento era ainda pouca coisa, pela humilhação que ele lhe impingiu.

- Desgraçado! Vai ver uma coisa! – murmurava -

No presídio Daniel recebeu uma breve carta, que abriu

sem maiores interesses, lentamente...

Mas quando começou ler, seus olhos arregalaram e sua

respiração aumentou....

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Carlos da Terra Revanche Dizia a carta:

“ Eu sei e só nós dois sabemos, que não foi você! Mas o

que você fez a mim causou a morte dela.De nada adianta você saber agora,

porque todas as provas de qualquer tipo, já foram destruídas. Arda isso em sua

cabeça e no fundo do seu espírito, canalha ! Se você tivesse ficado comigo e

não com aquela vagabunda, tudo teria dado certo e sua filha estaria viva”

Daniel sentou-se no chão da cela, enrolou a carta e

colocou no bolso enquanto refletia sobre o bilhete.

“Arda isso em sua cabeça e no fundo do seu espírito”

Mas por que – pensava – se eu tivesse ficado com ela

( Mári) minha filha estaria viva? E por que “minha” filha e não “nossa” filha?

- Talvez o impacto doloroso da morte de Eliana tivesse

lhe provocado alguma insanidade. Ela não deve estar bem! – pensou -

Enquanto refletia sobre os absurdos do bilhete,

chegaram alguns arruaceiros e marginais que foram presos nas imediações da

lanchonete onde ocorreu a chacina, presos por falta de documentos, ou

qualquer outro motivo também como uma tentativa desesperada empreendida

pela polícia de prender alguém, ou pelo menos um indivíduo que pudesse dar

alguma informação sobre a chacina.

A polícia continuava tentando decifrar o enigma da

chacina, um crime sem motivo e com autor completamente alheio a qualquer

uma das vítimas.

O departamento de Narcóticos verificou que nenhum

daqueles elementos tinha passagem como traficante e nem mesmo como

usuário. Nenhum esteve envolvido em assaltos, roubos... nada.

Osvaldo, que era da equipe que investigou a morte de

Eliana, – aquele mesmo que concentrou a atenção nos bilhetes do Rubens-,

foi à cela conversar com um dos arruaceiros presos nas proximidades de onde

ocorreu a chacina da lanchonete.

Daniel estava sentando no chão, fumando e à sua direita

estava um maço de cigarros um pouco amarrotado, e em baixo do maço a

carta de Mári, também amassada, ficando aparente um pouco mais da metade

escrita.

35

Carlos da Terra Revanche O investigador se deteve sobre a carta e, em pé, ficou

olhando fixamente para ela. Alguma coisa lhe era familiar, ali.

Daniel, não entendeu e ofereceu um cigarro do maço.

- Se quer um cigarro, fique à vontade! Aqui a gente não

precisa se preocupar com a saúde! – ironizou -

- Não... não quero fumar! Estou olhando outra coisa...

Posso ver essa carta?

Daniel riu e comentou:

- Não é ilegal olhar a correspondência dos outros?

- Sim... e por isso estou lhe pedindo. Permite?

- É de uma louca – disse Daniel -, uma que cismou que

tinha que ser minha mulher – e sorriu complementando – pode olhar à vontade,

se gosta de novelinhas de ciúme. – e sorriu novamente –

Estendeu a mão e entregou a carta ao investigador, que

a tomou nas mãos e ficou olhando fixamente para ela, ainda dobrada.

- Posso abrir e ler o conteúdo? – perguntou e advertiu

logo em seguida – é importante!

- Pode sim, mas lhe garanto que não tenho nada a ver

com essa chacina. Estou mofando aqui há quase um ano.

- Eu sei disso! – disse lacônico o investigador –

Leu e releu a carta com interesse redobrado e sua

ansiedade era tanta que ele esqueceu-se de interrogar os marginais pelos

quais ele veio a aquela cela.

- Daniel... é o seguinte... – parou e respirou fundo o

investigador – eu não sei exatamente do que se trata, mas sei que já vi esta

letra em algum lugar. Tenho certeza que é a mesma letra. Pode não ser

absolutamente nada mas, pode ser tudo.

Daniel ouvia indiferente..

- Você pode me emprestar esta carta?

- Pode levar a carta! –disse- para que eu vou querer

isso? Faça um bom proveito dela! - e sorriu –

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Carlos da Terra Revanche Lá no departamento o investigador deixou a carta sobre

sua mesa e chamou os outros membros de diversos casos para ver se alguém

reconhecia aquela letra, que tinha algumas características peculiares.

O pingo do “i” era uma bolinha, bem redonda. O acento

era um triângulo, aberto em cima... a letra “o” dava duas voltas....

Não eram comuns esses detalhes...

Mas ninguém reconheceu nada.

Olhando os pertences de Rubens, o investigador

percebeu estranhas coincidências com a escrita do bilhete que teria sido usado

para levar uma mulher ao encontro de um suposto apaixonado e que teria

resultado no assassinato de Rubens.

Seria Mári a misteriosa mulher citada pelo colega de

alojamento de Rubens? E que tipo de relacionamento eles tinham? E se o

conhecia, por que não revelou à polícia?

Olhou atenciosamente todos os outros pertences

encontrados no bolso de Rubens e se deparou com isqueiros, algumas fotos

sem importância, revistas e algumas chaves em um chaveiro

De onde seriam estas chaves?

Uma delas poderia ser da casa de Mári.

Foi à casa de Mári e tocou a campainha, mas antes que

ela viesse atender, tentou enfiar a chave na fechadura, mas não obteve êxito. A

chave não era dali.

Quando ela o atendeu, disse apenas que estava

passando por ali para ver se estava tudo bem, porque se lembrou da morte da

menina.

Mári ficou assustada e quando fechou a porta, encostou-

se nela e suspirou.

-Por que estariam mexendo nisso agora? Já estava tudo

terminado... – pensou- . Bem... mas eles não podem provar nada contra mim.

Para Osvaldo uma coisa já estava clara: a letra do bilhete

encontrado nos bolsos de Rubens mostrava inequívoca relação com a letra na

carta recebida por Daniel.

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Carlos da Terra Revanche Havia também alguns depoimentos assinados por Mári

que apresentavam muita semelhança entre as letras.

E era muito estranho! Teria ela alguma participação na

morte do pedreiro? Se tinha, por que?

As coisas ao que parece, começavam a fazer sentido e o

investigador foi olhar novamente todos os pertences de Rubens.

- Pegou novamente o molho de chaves.

- Chaves são sempre importantes. Se não são da casa

de Mári, de onde seriam?

Poderiam ser do alojamento de Rubens.

Foi ao alojamento experimentar a chave que também não

serviu em nenhuma porta, mas o parceiro de Rubens que morava lá, disse que

conhecia aquela chave e que Rubens lhe havia dito que ela pertencia à sua

namorada rica; que ela havia entregado para tivesse livre acesso à uma casa

ou apartamento onde teria, talvez, que executar algum serviço algum serviço

de pedreiro, como estavam habituados.

Percorreu então, Osvaldo, todos os lugares por onde

Rubens havia passado a trabalho e, por último, chegou ao prédio onde Eliana

havia sido morta.

No oitavo andar, experimentou a chave na porta do

apartamento de Daniel e a chave não serviu; não era de lá, mas era do mesmo

tipo, da mesma marca das fechaduras de quase todos os apartamentos

daquele edifício.

Experimentou no apartamento oitenta e a chave entrou,

mas não virou. Foi ao oitenta e dois que estava vazio, e a chave serviu; virou,

mas a porta já estava aberta.

Dentro do apartamento, próximo ao alpendre, viu roupas

pretas no chão, jogadas. Saiu no terraço e verificou que dava para passar,

abraçando-se a pilastra e segurando-se na rede, para o apartamento de

Mariana.

Então Rubens havia estado ali e Mári o conhecia ; mas,

por que teria mentido? Será que ela sabia que Rubens tinha uma chave do

apartamento ao lado? Se soubesse, então era ela, mesmo, a dama misteriosa.

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Carlos da Terra Revanche e teria fornecido a chave que o zelador lembrou-se de ter lhe entregado para

que observasse o apartamento ao lado do seu apenas a titulo de comparação.

Lembra-se o zelador, também, que a chave só lhe foi devolvida no entardecer

do dia seguinte.

Poderia, então, ser feita uma cópia. Mas para que?

Então – deduziu - ela entregou a chave para ele. Ele

entrou por lá e matou Eliana; ela não denunciou e nega que o conhece. Se

provarmos que ela sabe da chave poderemos ligá-la ao crime.

O investigador voltou à cadeia para falar com Daniel, que

após sucessivas respostas, demonstrou claramente, nunca ter tido qualquer

contato com o pedreiro Rubens confirmando apenas, baseado nas descrições

físicas, que o tinha visto pelos corredores em dias normais de trabalho. Nada

mais podia dizer, nem ao menos que sabia o nome do referido pedreiro.

Osvaldo foi novamente ao alojamento e colocou à par de

todos os progressos da investigação o parceiro de Rubens, Edgar, solicitando-

lhe ajuda no que foi rapidamente assentido.

Passados alguns dias Edgar foi à casa de Mári tocou a

campainha e se identificou dizendo que Rubens havia dito que era seu

namorado, coisa que ela negou imediatamente.

- É que o Rubens deixou um pouco de dinheiro, algumas

cartas, fotos de parentes, e alguns outros objetos na minha gaveta e eu vim

para que a senhora veja o que é dele e os pegue, senão terei que entregar

tudo à polícia, porque não me pertencem.

Mári logo se lembrou da chave! Essa chave era a única

coisa que poderia ligá-la a Rubens e ao crime. Ficou apavorada e disse:

- Não conheço nenhum Rubens, mas se eu encontrar

alguém que o conheça aqui no prédio mandarei que procurem por você em sua

casa. Onde você mora?

- Não adianta me procurar em casa senhora, porque

estarei viajando a serviço amanhã e só voltarei dentro de dois dias e lá não

haverá ninguém para atender. Se a senhora quiser eu trago os pertences aqui

para que veja.

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Carlos da Terra Revanche

- Não! – enfatizou Mári – estou certa que nada tenho a

ver com essa pessoa ou com os pertences. Porém, como eu disse, se alguém

reclamá-los, mandarei a pessoa à sua casa. Onde é?

Edgar entregou a ela um papel com o endereço.

Naquele mesmo dia Mári foi passear de carro e passou

diversas vezes em frente ao alojamento que estaria deserto no dia seguinte,

porque ali moravam apenas o falecido Rubens e Edgar que estaria viajando.

Notou um portão de madeira parcialmente fechado. Era fácil entrar.

No dia seguinte, vestiu um conjunto escuro, parou seu

carro à uma distância considerável da casa de Edgar e foi cuidadosamente em

sua direção. Chegando ao portão empurrou-o, entrou, e tornou a encostá-lo,

como estava.

Viu que tudo estava escuro lá dentro. Bateu levemente à

porta para ver se vinha alguém... nada! Tudo vazio; deserto, como ela esperava

que estivesse.

A porta do alojamento estava trancada, mas por sorte

uma janela baixa estava com a vidraça levantada uns dez centímetros, mais ou

menos, permitindo que se enfiasse a mão por baixo.

- Tudo estava dando certo... – pensou satisfeita -

Ela fez um pouco de força e levantou a vidraça pulando

para o interior da casa.

De lanterna na mão, começou a vasculhar todos os

móveis, começando pela cozinha pouco arrumada. Olhava atentamente sobre

a mesa e algumas gavetas de um velho armário de madeira.

Ao chegar no quarto, também todo desarrumado, abriu a

gaveta de um criado mudo e se deparou com as cartas que ela mesma

escreveu. Deteve-se ali!

As cartas não poderiam ligá-la ao crime, porque não

havia identificação!

Viu também isqueiro, cigarreira, carteira, uma agenda

telefônica de bolso que tinha o seu telefone celular anotado com outro nome.

Arrancou essa folha e colocou no bolso de sua jaqueta. Em baixo de alguns

papéis viu o molho de chaves de Rubens...

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Carlos da Terra Revanche Rapidamente reconheceu a chave que viera buscar,

tirou-a do chaveiro rapidamente, ansiosamente, mas imediatamente ao colocar

a chave em seu bolso a luz repentinamente acendeu e Osvaldo deu-lhe voz de

prisão.

- A senhora está presa pela morte de sua filha Eliana e

do pedreiro Rubens, seu namorado!

Ao ouvir isso Mári sorriu de modo doentio, alucinado!

- Meu namorado? Está louco? Uma dama como eu, linda,

namorar com uma pessoa qualquer, assim? Meu namorado é o Daniel, dizia

com um sorriso escarnecido. Os olhos de Mári brilhavam como se estivesse

embriagada e ela assumiu uma conduta paranoica.

Mari atingiu os limites da sanidade e ingressara nos

meandros da loucura.

Percebendo o estado delicado de Mári, Osvaldo

assentiu...

- É verdade... A senhora é mesmo uma dama... desculpe

a minha distração! Que tal irmos dar uma volta? A senhora aceita um café?

Prontamente Mári meneou a cabeça com um sim

estilizado, dobrou o braço em posição de dama e deu-lhe o braço para ser

conduzida.

Osvaldo a levou pelo braço, delicadamente até o seu

carro, com destino à Delegacia de Homicídios.

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