Reymond Rolland por Mark Brunkow - Versão HTML

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markbrunkow@yahoo.com.br

Mark Brunkow

Reymond Rolland

Contra a

Ordem dos Cavaleiros do Sagrado Coração

Abril 2009

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markbrunkow@yahoo.com.br

Por que jovens gostam de rock and roll?

Ora, porque os pais não gostam, é claro!

Chuck Berry

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Um Tipo Simples de Homem

Com dificuldade, devido sua enorme barriga de

gestante, caminha até a porta de acesso ao porão. A

porta esta entre aberta deixando escapar uma melodia

que de onde está não consegue distinguir. Ao se

aproximar da maçaneta abre um largo sorriso por

reconhecer o som que tanto gosta o de seu marido

terminando de afinar mais um de seus instrumentos

musicais, suas obras de arte ou como ele gosta de

chamar, seus filhos.

Enquanto desce a escada segurando no corrimão pensa

o quanto adora aquele lugar. Sentir a madeira

escorregando por baixo de sua mão, o aroma de cedro

envelhecido, o cheiro do café feito no fogão à lenha

que seu marido comprou com tanto custo, as paredes

de pedra bruta que dão ao lugar uma incrível sensação

de segurança muito diferente dos materiais usados

atualmente. Era como se ao descer aqueles degraus

voltasse no tempo, um tempo que já não existe mais,

onde a tecnologia não superou nossa humanidade.

Onde a poesia ainda encanta e a vida não parece ser

tão fria e distante de tudo o que acreditamos ser

verdadeiro.

Fica parada alguns instantes ao pé da escada

contemplando seu marido que sentado em uma

cadeira de madeira com acento em palha, dedilha

afinando, o magnífico instrumento. Ao seu lado direito

o velho fogão e em cima a chaleira, com o café recém

passado, dando um delicioso aroma ao lugar. Em sua

frente à velha poltrona do “papai”, mais ao fundo a

bancada

de

trabalho

com

suas

ferramentas

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rudimentares que segundo ele é o que dá alma ao

instrumento. No outro canto, em prateleiras que

cobrem toda a enorme parede, muito bem arrumada

sua incrível e inestimável coleção musical com

verdadeiras raridades da música de todos os tempos,

todos devidamente separados e etiquetados por estilos

musicais, shows, apresentações ao vivo, etc.

Ele absorto em sua tarefa leva ainda alguns segundos

para perceber a presença da esposa a observá-lo.

- Querida, o que você faz aqui em baixo? Você sabe que

não deve se arriscar em descer as escadas na sua

situação!

- Deixa disso Memphis! Estou grávida, não doente, e

você sabe o quanto eu adoro este lugar, o nosso

esconderijo. – sorrindo.

- Eu sei querida. – pegando a mão da esposa e a

encaminhando a poltrona do “papai” em couro

legítimo, bem puído, mais ainda confortável, perto do

fogão a lenha para que ela se aqueça.

- Nossa este violão ficou maravilhoso!

- Viola querida, viola, e modéstia parte, esta eu

caprichei!

Memphis era um homem bonito com um metro e

oitenta e cinco, oitenta quilos, corpo atlético, longos

cabelos negros que lhe caiam sobre os ombros e olhos

castanhos claros quase esverdeados além de ser um

luthier talentosíssimo, profissão essa que herdou de

seu pai. Com ele aprendeu todos os segredos de como

construir instrumentos de forma artesanal de maneira

única. Que sua profissão, a luthieria, se referia à arte da

construção e da manutenção de instrumentos musicais

levados à perfeição. E que sua origem se confunde com

a própria evolução da música.

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- Já tem comprador Memphis?

- Já – decepcionado. - Foi feita por encomenda. É uma

pena na verdade! Uma obra de arte tão bela ir parar na

parede de um ricaço sem talento. Se tornar um objeto

de decoração, sem alma, quando poderia produzir

tanta beleza com suas notas e acordes perfeitos.

- Querido, para isso seria necessário um músico tão

talentoso quanto você para tocá-la. Mas realmente é

uma pena que a música, assim como as artes em geral

já não tenha mais seu merecido valor. As pessoas já

não se interessam pelo talento ou pela melodia e

poesia que a música encerra.

- Tempos modernos meu amor. Acho que infelizmente

este é o preço que pagamos pelo progresso. Tudo

muito rápido, muito pequeno e descartável. – com um

sorriso triste a escapar-lhe dos lábios. - As pessoas já

não têm tempo para apreciar as boas coisas da vida.

Tudo tem que ser rápido ou então fica ultrapassado.

Veja os jovens de hoje, só se interessam por essa

porcaria de música eletrônica ficam enfiados em seus

computadores como se a vida se resumisse a mundos

virtuais. Acredito que muitos deles nunca viram sequer

um violão de verdade.

- Quem diria querido, os “Nerds” – sorrindo –

dominaram o mundo e no mais nem todos têm a sorte

de ter tido um pai como o seu. Mas isso com certeza

não acontecerá com nosso filho, pois ele terá a sorte de

ter você como pai que irá ensiná-lo a dar valor à

verdadeira música e a tocá-la com alma.

Grace possuía uma beleza clássica com todos os

contornos muito bem delineados. Esguia e imponente a

primeira vista passava a impressão de fragilidade o que

era logo desmentido pela personalidade forte. Olhando

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para esposa tinha certeza que ela era à única coisa que

ainda fazia com que ele quisesse colocar uma nova vida

naquele mundo tecnológico, com suas máquinas cada

dia mais inteligentes, rápidas e insensíveis. Acreditava

fielmente que afinal de contas se seu filho fosse um

pouquinho só parecido com a mãe já seria o suficiente

para tornar esse mundo um lugar muito mais belo e

melhor. Percebendo sua esposa cismada pergunta.

- O que foi querida? Você parece preocupada?

- Nada amor. – constrangida.

- Grace Land Rolland, eu te conheço! Desembucha

logo! O que está te incomodando?

- Seu irmão telefonou hoje. – olhando para o marido

tentando avaliar sua reação.

- O que ele queria? Te converter?

- Não fale assim querido, ele só ligou para dar um alô e

perguntar do bebê.

- Com o Abbey sempre existe uma segunda intenção.

Eu sei que ele é meu irmão, mas infelizmente tenho

que admitir que ele não é uma boa pessoa. É incrível

como um fruto pode cair tão longe da árvore. O que ele

disse?

- Você sabe que ele não gosta de ser chamado mais de

Abbey. Que agora seu nome é Július. Devemos

respeitar isso. E nada de mais. Perguntou como estão

às coisas e para quando é o bebê. Ele pediu para falar

com você e eu disse que você não estava. Fiz mal?

- Não. Claro que não. E seu nome é Abbey Rolland. –

com um ar entre indignado e irritado.

- Vocês deveriam se entender, afinal com a morte de

seu pai, agora são só vocês dois.

- Querida minha relação com ele nunca foi muito boa.

Ele é uma pessoa muito difícil de lidar. Sempre foi

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extremamente egoísta, autoritário, intransigente.

Acredita que todos ao seu redor estão ali para servi-lo.

Ele escolheu seu caminho quando entrou para aquela

religião fascista. Um bando de fanáticos religiosos

intolerantes e ditatoriais como ele. Meu pai morreu de

desgosto. Ele que sempre defendeu a liberdade em

todas suas formas não agüentou ver seu filho mais

velho virar um ditador bitolado, sem opinião, um

cachorrinho domesticado, uma ovelha de um rebanho

intolerante.

- Não exagera querido, seu pai morreu em um acidente

quando voltava da turnê de sua banda pela Europa.

Ninguém teve culpa. E sei realmente que seu irmão

pode ser bem inconveniente às vezes. Mas a culpa não

é da religião, todas conduzem ao mesmo caminho, que

é Deus. Minha mãe dizia que a verdade é como um

espelho que caiu do céu e que cada religião pegou um

pedaço desse espelho. O problema são as pessoas que

as professam em causa própria, buscando ganhos

pessoais.

- Eu sei querida, mas a partir daquele dia que ele disse

ao meu pai que iria embora para se juntar aos

“fanáticos”, meu pai nunca mais foi o mesmo. Alguma

coisa dentro dele quebrou, morreu. Nem mesmo a

música que ele tanto adorava já não lhe proporcionava

a mesma alegria.

- O seu irmão nunca entendeu seu pai, por preferir

fabricar instrumentos e tocar com sua banda a

trabalhar em uma empresa como os outros. Ele é muito

ganancioso. Sempre acreditou que se seu pai fosse

como os outros, a vida de vocês seria melhor,

financeiramente.

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- É verdade ele nunca aceitou o fato do papai não ter

um emprego normal assim como o pai dos outros

garotos. Ele tinha vergonha de dizer que papai era

músico. Ele sempre achou que a música era uma perda

de tempo. Ele dizia que meu pai vivia no passado, que

aquilo que ele e seus amigos “bêbados” faziam, um

simples computador doméstico fazia muito melhor,

mais rápido e mais barato. E que ninguém mais se

interessa por aquela porcaria feita por velhos em

instrumentos arcaicos.

- Seu irmão nunca entendeu o verdadeiro sentido da

música querido. Ele apenas escutava a música, não a

ouvia. Mas ele amava seu pai, a seu modo.

- Não querida, Abbey, ou melhor Július ama e sempre

amou somente ele e mais ninguém. Meu pai sempre

amou a vida com tanta força. Já ele sempre com medo

dela.

- Seu pai era como você, um apaixonado pela vida, pela

música, pela liberdade. Já o seu irmão...

- Para ele tudo era culpa de meu pai ou como ele dizia,

“DA MALDITA MÚSICA”! – com os braços erguidos ao

céu.

- Ele nunca perdoou seu pai por ter permitido que sua

mãe fosse embora. O fato dela ter os abandonado tão

novos só serviu para aumentar o ódio de seu irmão

pela música, amor.

- Mas meu pai nunca deixou faltar nada em casa e

sempre estava presente. Não tínhamos uma vida de

ostentações, mas éramos felizes. E em relação a minha

mãe como dizia meu pai não podemos exigir de alguém

aquilo ela não tem para nos dar. Ela fez suas escolhas.

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- Eu sei querido. – colocando a mão sobre a barriga

enorme e sorrindo para o marido desviando o rumo da

conversa. – Ele esta terrível hoje, não para de chutar.

- E como vai o meu pequeno Hendrix Rolland? –

encostando o ouvido na barriga da mulher.

- Falando nisso querido, eu andei pensando e gostaria

de dar a ele o nome de outro grande músico, se você

não se importar?

- Claro querida. Que tal Elvis Aaron Rolland ou Lennon

Rolland?

- Eu estava pensando em Reymond Rolland. – olhando

fixamente para o marido tentando decifrar sua reação.

Ele fica parado olhando para Grace durante alguns

segundo e extremamente emocionado com os olhos

marejados fala.

- O nome do meu pai?

- Como eu disse um grande músico além de um

excepcional ser humano. – sorrindo.

- Ele ficaria orgulhoso querida e eu também, obrigado.

– vai até ela e lhe dá um beijo.

Pegando a viola que estava deitada em seu colo, como

um gato dormindo, começa a dedilhar uma canção que

seu bisavô tocava para seu avô que tocava para seu pai

que ele agora tocaria para seu filho. Uma canção muito

antiga, de um tempo muito distante, onde a música

ainda tinha valor e era verdadeiramente apreciada

pelas pessoas, um tempo em que ainda se falava de

amor e as pessoas escutavam. Enquanto tocava Simple

Man do Lynyrd Skynyrd refletia o quanto a letra fazia

sentido agora no ano de 2134, e se seus autores algum

dia acreditaram que ela seria tão atual agora quanto

quando foi feita.

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Mamãe me disse quando eu era jovem

Venha sentar-se ao meu lado, meu único filho,

E escute com atenção o que eu digo.

E se você fizer isto irá lhe ajudar em algum belo dia.

Leve seu tempo... Não viva tão rápido,

Dificuldades virão e passarão.

Vá encontre uma mulher e encontrará amor,

E não esqueça filho, Há alguém lá em cima.

E seja um tipo simples de homem

Seja algo que você ame e entenda.

Seja um tipo simples de homem...

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Mostre-me o Caminho

Enquanto caminha vagarosamente pelo longo corredor

Július absorto em seus pensamentos reflete sobre a

trajetória de vida de seu Mestre. Passando pelos

enormes vitrais na parede a sua direita, que projetam

sombras coloridas em formas geométricas pelo chão,

relembra a primeira vez que teve conhecimento de

Manoel Santiago de Castro. Os fatos em sua mente se

desenrolam como um filme e são tão vívidos que era

como se ele os tivesse vivendo naquele momento.

“Era uma tarde chuvosa e como sempre acontecia

quando seu pai saia para uma turnê com sua banda,

Július com dezessete anos, se trancava no quarto para

ver televisão e ficar remoendo o quanto odiava a vida

que seu pai levava e os obrigava a levar. Não aceitava

ter que trabalhar meio expediente para ter seus

caprichos realizados. Não conseguia entender o

fascínio que a música exercia sobre as pessoas e

porque elas ficavam tão contentes quando as ouviam.”

“De personalidade fechada e intolerante não gostava

de demonstrações de carinho ou afeto em público

sempre repreendendo com olhares ou mesmo palavras

seu irmão e pai quando os via abraçados. Não entendia

como seu pai podia gostar tanto de tocar com seus

amigos ao invés de procurar um emprego descente

para lhes proporcionar uma vida mais suntuosa.

Admitia que nunca lhe faltasse nada, nem a ele nem a

seu irmão, mais porque se contentar com o suficiente

quando se pode ter mais.”

“Enquanto divagava assistia à televisão quando viu uma

reportagem que contava a história do ex-playboy

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multibilionário e agora líder religioso, Manoel Santiago

de Castro, dono de um império das telecomunicações

além de empresas nos mais variados setores

industriais, que durante uma viajem de passeio pela

floresta Amazônica fica dez dias perdido na mata e ao

ser encontrado semimorto com muita febre dizia ter

tido uma revelação. Segundo o empresário nesta

revelação, quando estava à beira da morte, uma voz

divina que o chamava dizia:

- Você foi abençoado com muito dinheiro, saúde,

beleza e poder. E o que você fez com esse presente que

lhe enviei. Gasta tudo com mulheres, bebida e farras

regada a muitas drogas. Mas seu destino é outro. Você

é o escolhido e deve conduzir meu povo a salvação.

Chega de desordem, excessos dos mais variados tipos,

libertinagem e falta de respeito a quem lhes deu a vida.

Salvarei sua vida para que você divulgue o novo

evangelho. Você deverá usar sua fortuna para divulgá-

lo. E conduzir meu povo a terra prometida. Você

fundará a Ordem dos Cavaleiros do Sagrado Coração.

Agora descanse, pois seu trabalho esta apenas

começando.”

“Neste instante ouve barulhos ao seu lado e vê a

equipe de resgate chegando, então adormece. Ao se

recuperar funda, assim como ordenado, a OCSC

(Ordem dos Cavaleiros do Sagrado Coração) constrói

um palácio para realizar as reuniões de evangelização,

divulga maciçamente sua doutrina utilizando seu

império das telecomunicações e em poucos anos tem

vários adeptos fanáticos espalhados pelos quatro

cantos do mundo.”

“Basicamente a nova religião pegou tudo o que é

considerado

pecado

no

Catolicismo,

Budismo,

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Judaísmo e no fundamentalismo Mulçumano e

englobou em sua doutrina. Proíbe qualquer e todo tipo

de excesso sendo extremamente rígida com seus

adeptos. Prega que para atingir a salvação seus

seguidores devem abster-se das alegrias mundanas do

mundo. Que música, teatro, pintura as artes em geral

nos conduzem a questionamentos que nos desviam de

nossa missão na terra que é glorificar ao Senhor. E que

para isso devemos progredir financeiramente para

atingirmos nosso potencial máximo e proporcionar ao

Senhor uma digna adoração.”

“Július mal podia acreditar no que estava ouvindo, pois

em seu íntimo ele acreditava em tudo aquilo, que

realmente a felicidade nos conduz a ilusão de alegria

que logo é destruída pela dura realidade e o que resta

é apenas sofrimento. Que a felicidade e a esperança,

na realidade são uma mal com que nos fazem acreditar

que a vida pode ser boa quando na realidade a única

maneira de atingirmos isso é através da disciplina e

autocontrole de nossas emoções.”

“No mesmo dia saiu de casa para se batizar na nova

religião. Mudou seu nome profano de Abbey para

Július. Agora quinze anos depois com muito trabalho e

dedicação a doutrina que escolheu para sua vida colhe

os frutos de seu trabalho, é o braço direito, homem de

inteira confiança de seu mestre, Manoel Santiago de

Castro.”

Parado em frente à enorme porta de carvalho maciço

toda entalhada bate levemente com os nós dos dedos e

espera pacientemente como sempre fazia. Logo houve

a resposta esperada.

- Entre.

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Apesar de já ter estado ali inúmeras outras vezes

sempre se impressionava com a beleza do escritório de

seu mestre. Era uma sala enorme toda decorada com

móveis rústicos o que dava um ar ainda mais solene,

quase sagrado ao lugar. O assoalho sempre

extremamente bem encerado brilhava como um

espelho. Ao fundo a mesa em mogno belíssima refletia

a luz das enormes janelas de onde se via o jardim

exuberante. Nas paredes laterais prateleiras repletas

de livros.

Parado em frente a uma delas Manoel Santiago de

Castro, seu mestre lê um livro com extremo interesse.

Olha durante alguns segundos para ele e sem saber se

deve interrompê-lo somente pigarreia. O homem de

cerca de sessenta anos, corpo atlético, um metro e

oitenta, cabelos grisalhos, ombros largos de estrema

elegância o que lhe impunha ainda mais respeito como

que se despertasse de um transe vira a cabeça na

direção de onde veio o som. Olhando para Július, sorri.

- Olá Július.

- Olá Mestre. – com uma leve reverência.

- Você não deve saber Július, mas foi basicamente

graças a este livro que tenho nas mãos que me tornei o

que sou hoje. – balançando o livro no ar.

- A Bíblia, Mestre?

- Não Július. A Bíblia foi um dos livros, assim como o

Torá, os Vedas e os Upanixades, o Alcorão entre outros

todos estes me deram a direção. Mas este aqui foi o

que fez com que eu descobrisse como realizar minha

verdadeira missão na terra. Foi o que abriu minha

mente.

- Se o senhor me permite saber, que livro é este

Mestre?

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- Na realidade é um conto Július. Um simples conto.

Com poucas, mas reveladoras verdades sobre a alma

do ser humano meu rapaz. De autoria de um

extraordinário escritor antigo, Machado de Assis. O

nome deste conto é A Igreja do Diabo.

Percebendo o espanto do rapaz o senhor sorridente

logo trata de explicar.

- Calma meu amigo. Sente aqui que vou explicar. –

apontando uma cadeira em frente a sua mesa.

- Quando eu tinha mais ou menos a sua idade, cerca de

trinta anos e procurava uma maneira de cumprir minha

missão, me presentearam com este livro. Nele o conto

“A Igreja do Diabo” que narrarei para você. Espero que

eu consiga reproduzir e lhe transmitir toda a beleza e

genialidade de Machado de Assis. Se você não se

importar é claro? – olhando de canto e com um leve

sorriso a lhe escapar dos lábios.

- Claro que não Mestre, será uma honra, afinal um

conto que lhe serviu de inspiração para nos mostrar a

verdade sempre será bem vindo.

- Então vamos lá.

“Conta um velho manuscrito beneditino que um dia o

Diabo cansado de viver em segundo plano sempre

dependendo dos favores daqueles que se rebelavam

contra as ordens de Deus e esperando que lhe dessem

alguma coisa resolve fundar uma igreja. Apesar de ter

bastantes adeptos e seguidores e os lucros serem altos

sentia-se humilhado por estar em segundo plano. Sem

ordem, organização, regras, sem nada. Então uma

igreja era a solução. A Igreja do Diabo.”

“Cego por seu orgulho imaginava sua igreja belíssima,

imponente cheia de seguidores fiéis a final não haveria

quem pudesse com a Igreja do Diabo onde tudo o que

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é pecado nas demais igrejas na sua seria permitido e

tudo que é permitido nas outras na sua seria pecado.

Seu credo seria único enquanto todas as outras se

digladiariam com visões diferentes do mesmo tema e a

sua seria única. Afinal existem muitas maneiras de

afirmar, mas só uma de negar tudo.”

“Então cheio de orgulho segue para ter com Deus e

contar suas intenções. Não por respeito ou apreço, mas

para poder se vangloriar sobre seu antigo mestre, ou

em sua visão agora, antigo mestre vencido. Chegando

lá Nosso Senhor recolhe um velho ancião. O Diabo olha

para Ele e fala.”

- Cuida bem deste ancião Senhor, colocá-lo no melhor

lugar que tem, pois com certeza será o último que

recolherá. - sorrindo zombeteiro.

- Que queres tu aqui? E conhece este homem? Sabe o

que ele fez?

- Não, mas hoje venho comunicar que estou fundando

minha igreja. A Igreja do Diabo. Uma hospedagem

muito mais em conta, digamos assim, que os altos

preços que o senhor prega para entrar em seu reino.

- E por que veio até aqui comunicar isso. Não é do seu

feitio já que sempre age de maneira mesquinha e falsa.

- Exatamente. Hoje venho comunicar que vou a terra

para anunciar a boa nova aos homens. Se o senhor não

se importar é claro. – sinicamente.

- Vai criatura tola. Funda sua Igreja. Recolhe aqueles

que assim desejarem.

“Já na terra o Diabo não perdeu tempo. Prometia a

seus discípulos e fiéis as delícias da terra, todas as

glórias e riquezas o céu era o limite sem restrições

morais de qualquer forma. Confessava que era o Diabo.

Mas o verdadeiro, que durante milênios foi

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espezinhado, difamado por todos. Que era afinal

Lúcifer, ou seja, o emissário da Luz. Falava de maneira

gentil dizendo lhes darei tudo, tudo, absolutamente

tudo, enquanto sorria satisfeito. Conclamava que a

soberba, a luxuria, a gula, a inveja, a preguiça, a

avareza, e a ira não passavam de condições inerentes

ao ser humano e que por isso mesmo não poderiam ser

negadas. As pessoas corriam atrás do Diabo se

deleitando em suas palavras. E logo tinha a seus pés

milhões de fiéis ávidos por seus ensinamentos.”

“As previsões do Diabo se concretizaram em

pouquíssimo tempo não havia uma única religião no

mundo que não conhecesse a Igreja do Diabo, uma

língua que não a traduzisse, uma raça que não a

amasse. Sua doutrina se propagou como fogo em

palha.”

“Um dia, porém, muitos anos após a fundação de sua

igreja notou o Diabo que muitos de seus fiéis pecavam,

praticando

antigas

virtudes.

Pessoas

ajudando

estranhos, sendo educadas, fiéis aos seus parceiros,

praticando tudo o que era proibido em sua crença. As

filas em seus confessionários todos os dias mais cheias.

Não teve dúvida e a julgar por suas ações acreditou

logo que isso não passava de uma artimanha de Deus e

segue furioso para ter com Ele.”

“Diante de Deus despejou tudo o que estava

acontecendo contando fatos ocorridos de pessoas

praticando boas ações e que a culpa deveria ser de

alguma artimanha de Deus. Este, calmo e tranqüilo,

apenas olha para o pobre Diabo e sorrindo fala.”

- E o que você queria, pobre Diabo? Está é a eterna,

contradição humana. Nunca estarem satisfeitos. Dê

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escolha e eles experimentarão! É assim que eles

aprendem, com seus erros. – sorrindo complacente.

Ao terminar o texto olha atentamente para seu pupilo

preferido tentando identificar sua reação.

- Então Július o que achou?

- Fantástico senhor, mas desculpe minha ignorância

como este conto pôde influenciar o senhor em sua

missão?

O velho sorrindo olhando atentamente para o rapaz

diz:

- Meu caro discípulo, durante milênios apareceram

diversos profetas, líderes espirituais, as mais diversas

vertentes religiosas e doutrinárias e todas fracassaram

em sua real finalidade que é conduzir o ser humano a

salvação de sua alma. E sabe por quê? – sem deixar que

o outro respondesse. – É por que todas estas religiões

possibilitam inúmeras interpretações de suas doutrinas

o que causa uma grande confusão entre seus

seguidores. Afinal como saber qual está correta se para

cada religião existe uma interpretação diferente do

mesmo texto.

O ser humano anseia por ser conduzido, ele necessita

que lhes digam o caminho a seguir. Não é a toa que

somos as ovelhas do Pai, seu rebanho. As pessoas

dizem que querem variedade possibilidades para seguir

o que acham correto, mas na realidade elas necessitam

é de orientação. Eu percebi este simples detalhe lendo

este magnífico conto.

A contradição humana existe porque existem muitas

possibilidades de mudanças. Muitos caminhos a

escolher. Todos os dias somos bombardeados com

informações das mais variadas possíveis. É só ligar a

televisão ou o rádio, folhear uma revista e só o que

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teremos são sugestões para sermos mais felizes. Seja

mais magro ou o mundo não lhe aceitará. Seja mais

bonito, tenha dinheiro, compre um carro mais

possante, seja isso, seja aquilo.

As pessoas estão perdidas meu caro. Buscam uma

felicidade que não existe e assim ficam frustradas e

com isso vem a sensação de incapacidade e

incompetência e uma eterna insatisfação e logo a

depressão.

- O senhor esta coberto de razão Mestre e é por isso

que aqueles que se unirem a nossa causa estarão

salvos. Nós podemos providenciar tudo o que eles

necessitam. Mas as tentações do mundo são muito

fortes para alguns. Eles vivem na ilusão de achar a

felicidade nesse mundo mundano e profano. Como

iremos poder mudar isso?

- Exato Július, esta é a questão e foi por isso que lhe

chamei aqui hoje. Finalmente depois de anos em

batalhas jurídicas finalmente esta pronta Július!

Conseguimos a autorização para iniciarmos a

construção da nova terra prometida. A Torre da Vigília

sairá do papel.

Para podermos salvar nossos fiéis precisamos afastá-los

das influências malignas do mundo. Por isso comprei

uma vasta extensão de terras no mesmo lugar onde

tive a minha primeira visão, a floresta amazônica, e

construiremos uma cidade que poderá abrigar milhões

de nossos seguidores com toda infraestrutura

necessária para que não tenhamos que depender do

resto do mundo.

Será um farol a iluminar os caminhos dos escolhidos

em meio às trevas. Um norte a guiar os passos para

uma nova ordem mundial. – com os olhos fixos no nada

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como se estivesse tendo uma visão. - Amanhã mesmo

começaremos a construção da Torre da Vigília. E se

tudo correr como o esperado, creio que dentro de dez

anos poderemos iniciar uma nova era. Será uma das

maiores obras arquitetônicas já construídas pela

humanidade e que durara mil anos antes que consigam

ultrapassá-la.

- Que maravilha Mestre, e o senhor quer que eu cuide

de todas as providências?

- Sim meu discípulo. Mas seu trabalho meu amigo será

muito mais importante do que isto. Quero que você

seja o regente supremo da Torre da Vigília. O mentor

da nova ordem mundial.

Július não podia acreditar no que estava ouvindo. Ser o

regente supremo da terra prometida. A Torre da Vigília

foi criada para desenvolver uma nova ordem mundial.

Seus moradores estariam totalmente alheios ao resto

do planeta livres de todas as tentações e impurezas do

mundo corrupto e impuro. Seria o terreno fértil pronto

para semear a nova ordem.

Ninguém seria forçado a entrar, mas aqueles que ali

entrassem nunca mais poderiam sair. Deveriam seguir

todos os ensinamentos do Mestre ao pé da letra. Se

entregar totalmente de corpo e alma a Ordem dos

Cavaleiros do Sagrado Coração. E o regente seria

considerado um Deus para seus moradores. Ainda

aturdido com a revelação Július pergunta:

- Mestre, mas este posto é seu por direito.

Como que sobre ele tivesse se abatido um cansaço

enorme o velho olhando fixamente para o nada fala:

- Eu nunca revelei isso a ninguém Július, mas aquele dia

na mata quando tive minha conversa com o criador Ele

disse que eu deveria conduzir o seu povo para a terra

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prometida, mas não poderia entrar nela, assim como

Arão, por meus pecados anteriores. E é você meu

amigo que deve conduzi-los nesta jornada em busca da

luz.

Július com a boca aberta de espanto não consegue

dizer nada. O velho percebendo a surpresa do rapaz

fala.

- Não se preocupe Július você é mais do que qualificado

para esta missão. Seu caráter firme e severo será muito

importante principalmente nos primeiros anos da Torre

da Vigília. Nossos fiéis necessitarão de pulso firme e foi

por isso que Nosso Senhor o colocou em meu caminho.

Você será um grande líder.

Acostumado a nunca questionar seu Mestre Július

apenas abaixa a cabeça e cai de joelhos chorando

agradecendo a honra de ser o novo messias.

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Nasce um “Rey”

Sentado na sala de espera do Hospital Geral da Capital,

um cubículo em cor pastel sem janelas com um sofá

pouco confortável e algumas revistas velhas, Memphis

balança a perna freneticamente aguardando notícias

de sua mulher que entrou em trabalho de parto a mais

de seis horas.

Cada vez que alguém saía pela porta, que dava acesso à

sala de cirurgia, o coração de Memphis quase saía pela

boca. Por várias vezes agarrou o braço de uma

enfermeira que passava por ali perguntando como

estava sua esposa. E por mais de uma vez foi avisado

que estava tudo bem e que a demora era normal e que

logo ele poderia ver sua esposa e filho.

Quando já não agüentava mais de apreensão e estava

prestes a invadir a sala de cirurgia, aparece em sua

frente à enfermeira dizendo que tudo esta bem e que

ele já poderia encontra sua esposa e filho que

repousavam no quarto.

Ao entrar no quarto, Memphis com os olhos marejados

abraça sua esposa e lhe dá um beijo na testa.

- Shiii! Cuidado querido ele esta dormindo.

Foi só então que Memphis percebe a pequena

trouxinha nos braços da esposa. Com cuidado puxa um

pouco do pano que cobria o rosto do pequenino

Reymond Rolland. Apesar de todo enrugado parecendo

um joelho Memphis achou o bebê mais lindo do

mundo. Muito cabeludo e com quase três quilos e

quatrocentas gramas era um bebê muito saudável.

- Ele é lindo querida. Puxou a mãe. – com a visão

embargada pelas lágrimas.

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- Coitadinho estava apertado. Quando nasceu fez xixi

no colo da enfermeira. – rindo.

- Olá amiguinho eu sou seu pai, Memphis Rolland e

prometo que você será muito amado e se Deus quiser

um grande músico e um ser humano extraordinário

como seu avô.

- Disso não tenho a menor dúvida amor. – sorrindo.

A criança como percebendo a presença do pai agarra

firme com sua pequenina mão o dedo do pai.

- Como ele é forte querida. Olhe esses dedos querida.

Como são compridos. São dedos de músico. –

admirado.

- Você sabe que dia é hoje querido?

- Claro querida, o dia mais feliz de minha vida!

- Além disso, querido. – sorrindo. - Hoje é dia 8 de

Janeiro de 2135. – sorrindo.

- Não pode ser. Você tem certeza? – olhando para

esposa incrédulo.

- Sim querido. Hoje faz exatamente duzentos anos que

Elvis Aaron Presley nasceu. Nosso filho nasceu no

mesmo dia e mês que o rei do Rock and Roll. Não é

uma coincidência incrível!

- Coincidências não existem querida. Isto é um sinal.

Um presságio. Exatamente duzentos anos depois nasce

um novo “Rey”. – sorrindo.

Sua esposa como os olhos cheios de lágrimas vendo as

duas pessoas que mais ama no mundo em sua frente

começa a cantarolar suavemente ninando aos dois.

Lua azul, você me viu na maior solidão

Sem um sonho no coração

Sem um amor pra ser a minha paixão

Lua azul, você sabe bem porque eu estava ali

Você me ouviu pedindo aos céus

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Por alguém por quem eu sentisse algo

E do nada, apareceu na minha frente

A única que meus braços poderiam querer abraçar

Eu ouvi alguém sussurrar por favor, me ame

Mas quando procurei só vi que a lua azul tinha ficado

dourada

Lua azul, agora não estou mais sozinho

Sem um sonho no coração

Sem um amor pra ser a minha paixão

Lua azul

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Eu Coloquei um Feitiço em Você

Ainda atordoado com a notícia Július não podia

acreditar. Seus mais íntimos sonhos estavam se

tornando realidade. Ser o regente supremo de uma

nação inteira. Seria adorado por milhões. Enquanto

caminhava pelo enorme corredor em direção aos seus

aposentos relembra a insólita conversa que teve com

uma cigana poucos dias antes de sair de casa e juntar

se a Ordem dos Cavaleiros do Sagrado Coração. Mais

uma vez em sua mente os fatos se desenrolam como

em um filme.

Aguardava pacientemente o ônibus como fazia todo

santo dia depois de trabalhar em um emprego

medíocre que relutava em largar mesmo sabendo que

isto iria matá-lo. Olhava ao redor a procura de um

pouco de esperança, mas só conseguia ver rostos

cansados que assim como ele, já não acreditavam nos

sonhos que tiveram em quanto jovens.

Pessoas que também já não percebiam as singulares

maravilhas do dia-a-dia, como uma pequena flor que

bravamente brotava entre as pedras da calçada ou o

carrossel de cores produzido pelo por do sol entre o

cinza dos prédios da metrópole. Pessoas para as quais a

vida não passa de um tormento, dor e desesperança.

“Em sua frente uma senhora bem acima do peso ideal,

com cerca de sessenta anos, ombros caídos e olhar

estático

sugava

vorazmente

uma

mexerica

e

repetidamente

cuspia

as

sementes

no

chão

impregnando o ar com aroma de final de feira livre.

Ao seu lado um rapaz magrelo com calças dois

números maiores que ele, cueca aparecendo, masca

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chiclete e nos ouvidos um pequenino fone que

produzia um chiado muito forte.”

Logo

atrás

um

senhor

estressado

fumava

compulsivamente dando pequenos passos de um lado

para o outro agitando os braços e reclamando consigo

mesmo da demora do lotação. Apenas mais um final de

tarde como tantos outros que já tivera e que tinha a

certeza de que não seriam os únicos.

Apesar de jovem, com os anos desenvolveu a arte da

indiferença o que permitia que se desligasse dos

demais seres humanos. Para tanto só precisava fixar os

olhos em um ponto qualquer e logo entrava em seu

mundinho particular tornando-se quase um autista.

Esta foi à maneira que encontrou para suportar as

horas, dias e anos de monotonia falta de perspectiva e

desilusão que tanto o afligiam.

Já emerso em seu “mundo de indiferença” começa a

ouvir um ruído muito distante. Prestando mais atenção

percebe que era uma voz que vinha de muito longe

dizendo palavras que não conseguia compreender,

algum tipo de dialeto ou algo parecido. Aos poucos o

som foi ficando mais alto. Percebendo então que o som

é real e vem de algum lugar próximo. Desperta de seu

“transe” olha ao redor a procura da origem daquela voz

misteriosa que mais parecia um encantamento.

Poucos metros à frente, sentada próxima a uma banca

de jornal, estava uma senhora de cabelos negros

longos encaracolados, que não via água há muito

tempo, se é que algum dia já vira, presos por fitas

coloridas. Tinha um rosto bonito apesar da idade já

avançada, denunciada pelas marcas de expressão

causadas pelo tempo e pela vida nas ruas, o que

indicava que na juventude fora uma mulher muito bela.

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Vestia uma blusa vermelha enfeitada com babados e

uma saia que originalmente deveria ter sido branca

toda rendada. Em seus dentes, pescoço, pulsos e dedos

adereços em ouro puro. Ficou fascinado com a

estranha figura e perplexo por não ter percebido sua

presença até aquele momento. Era como se ela tivesse

surgido do nada ou de uma dimensão paralela onde à

vida é cheia de magia e beleza.” “Este fato só veio a

comprovar o que lera em um livro que dizia que

criamos uma redoma invisível de cerca de um metro ao

nosso redor e só prestamos atenção ao que entra no

perímetro dela. Não conseguia tirar os olhos da cigana

que por hora ou outra parava de falar para vasculhar

dentro de uma das várias sacolas que carregava. Em

uma destas buscas retirou um pequeno objeto

arredondado, que lembrava uma pedra de rio, preso a

uma fita vermelha. Pronunciou algumas palavras em

um dialeto á muito esquecido e levantou-se. Ajeitou

suas vestimentas e começou a caminhar.

Um caminhar altivo, como uma rainha cigana, que foi

abandonada por seus súditos e era obrigada a carregar

suas tralhas.

Julius olhava ainda fascinado para a cigana quando de

repente percebe que ela estava vindo em sua direção.

Mais do que rápido desviou seu olhar ficando de

costas, pois não queria ser incomodado por este tipo

de pessoa. Quanto mais próximo sentia a presença da

exótica mulher mais nervoso ficava. Pensava mesmo

em sair da fila para não ter que passar pelo

constrangimento de ser abordado por tal figura.

Quase em desespero, quando estava prestes a se

mover em direção à banca de jornal vê a cigana passar

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por ele sem lhe dar muita atenção. A sensação de alívio

que sentiu foi indescritível.

Passado o susto, mais relaxado, tentou voltar a sua

habitual indiferença procurando um objeto qualquer

para voltar ao seu estado de alienação.

Já quase em “transe” sentiu em suas costas um toque

que fez com que seu corpo estremecesse. Olhou

assustado para trás e para sua surpresa diante de seus

olhos, parada sorrindo com seus poucos dentes, a velha

cigana.

- Olá filho não quer saber seu futuro?

Com a agilidade de quem já fez isto muitas vezes, antes

que o rapaz pudesse responder qualquer coisa ela

agarra e puxa sua mão. Ele sem reação diante da

inesperada situação fica como que paralisado olhando

atônito para a cigana.

- Vejo um grande futuro em sua mão e caberá apenas a

você escolher o caminho a tomar. Suas decisões

afetarão não só a sua vida, mas a de milhões. E mesmo

daqui a mil anos seu nome ainda será venerado.

O rapaz tentou puxar a mão, mas a cigana segurando

firme continua a falar como se estivesse possuída.

- Apesar de sua pouca fé, a vida não é preta e branca

meu filho, não existe a divisão entre o bem e o mal.

Existem sim, atos bons e maus. É a quantidade destes

atos que praticamos que indica quem somos. Ainda há

esperança para você. E conseqüentemente para nós

também. Lute contra o seu orgulho e abra seu coração.

Você poderá fazer um enorme bem a toda a

humanidade, mas esta decisão será só sua, assim como

as consequências por suas decisões.

Com um puxão firme o rapaz consegue soltar a mão.

- Não acredito nestas bobagens velha.

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- O fato de você acreditar ou não acreditar em algo não

faz dela verdade ou mentira. A verdade é uma só, você

queira ou não.

- Suma daqui velha louca e me deixe em paz.

- Quando ele vier te procurar diga que não aceita. Não

é ele que conseguira preencher o vazio que você sente.

Mande-o embora. O que você procura é o amor.

Quando você encontrar o amor verdadeiro, este

sentimento

de

vazio

e

toda

esta

angústia

desaparecerão.

- Do que é que você esta falando velha? Esta louca? –

com uma mistura de medo e surpresa.

Neste momento escuta-se um estrondo violento. Todos

olham assustados para esquina para ver o que

aconteceu. Um ônibus fura o sinal vermelho e bate em

um caminhão que passava, mas felizmente ninguém

ficou ferido.

Július volta-se para falar com a cigana, mas ela havia

desaparecido. Procura por todos os lados e nada. Era

como se ela nunca tivesse estado ali. Olha para o

senhor atrás de si e pergunta:

- O senhor viu para onde foi àquela cigana que estava

aqui conversando comigo?

O senhor com olhar de espanto.

- Parece que não foram apenas as pessoas que estavam

no ônibus que bateram a cabeça. Não havia ninguém

conversando com você. Você estava parado aí sozinho

com esta mesma cara de bobo desde que eu cheguei

aqui.

Agora já segurando a maçaneta da porta de seu quarto,

sorri e apenas sussurra.

- Quem diria...

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Continue Meu Filho Desobediente

A infância de Reymond Rolland corria como esperado.

Era um garoto muito ativo, esperto e terrivelmente

curioso não dava um minuto sequer de descanso para

os pais, ao menor descuido o menino logo aprontava

alguma. Mas o mais importante é que era

extremamente amado e feliz. Tudo corria normalmente

pelo menos até ele completar quatro anos de idade.

Em uma tarde tranqüila, sentada bordando uma camisa

para Memphis, um de seus passa tempo preferidos,

Grace percebe algo estranho em Rey. O garoto que

brincava com uma revista, rabiscando, começa ler as

manchetes que estavam na página. Grace no começo

achou que estava ficando louca, mas o garoto

continuou lendo freneticamente. Admirada chama

Memphis que sobe do porão apavorado.

- O que foi? – esbaforido.

- Querido acho que tem algo “diferente” com Rey.

- O quê? Do que você esta falando Grace?

- Rey. Nosso pequeno Reymond. Ele está lendo! –

sorrindo.

Memphis olha intrigado para o garoto que sorri para

ele.

- Lendo? Mas ele só tem quatro anos. Ele mal sabe falar

direito.

- Eu sei, não é fantástico! Ele deve ser superdotado. Eu

li sobre isso.

- Será querida. – ainda sem tirar os olhos do filho.

- Como você explica isso?

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Grace pega a revista e mostra outras manchetes para o

garoto que lê todas. Vai até a estante apanha alguns

livros e o menino lê seus títulos.

- Viu, eu não falei querido!

- Espera um pouco querida. – e sai correndo em

direção ao porão.

Alguns minutos depois retorna trazendo um violão e

um teclado.

- O que você vai fazer com isso Memphis?

- Eu quero tirar uma dúvida.

- Que dúvida?

- Há alguns dias atrás eu estava com Rey no porão

enquanto fabricava um violão e ele brincava perto

deste teclado. Eu não conseguia concertar uma peça e

aquilo estava me deixando irritado. Então começa a

tocar uma música linda, apenas no piano, no rádio e

você sabe querida como a música me acalma. Ouvindo

aquela música maravilhosa eu consegui terminar o

violão rapidinho. Feliz da vida peguei Rey no colo e foi

só então que percebi que o rádio estava desligado,

estava até fora da tomada e no porão estávamos

apenas eu e Rey. Então de onde veio aquela música?

- Você não acha que Rey... – sorrindo.

- Vamos ver.

Ele coloca o teclado perto de Reymond e os dois ficam

olhando esperando para ver o que acontece. Esperam

algum tempo e nada.

- Acho que devemos chamar a atenção dele querido.

Memphis batendo em algumas teclas do teclado chama

pelo filho.

- Rey... Aqui filho, olha o que o papai trouxe para você.

E nada. O garoto continua entretido com seus

brinquedos.

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Depois de várias tentativas de fazer com que o menino

tocasse no teclado eles acabam desistindo.

- Não fique assim querido ele aprenderá a tocar do

método normal, com seu pai.

- Eu sei querida. – sentado no canto da sala com o vilão

na mão meio desapontado enquanto dedilha

alheatoriamente o violão.

Reymond olhando o pai dedilhar o violão sorri e bate

palminhas de alegria.

- Você gosta disso não é sapeca. – com voz de bebe.

Então para surpresa de Memphis, Rey começa a

acompanhá-lo no teclado. Memphis toca uma nota e

Rey toca a mesma nota. Todos os pelos do braço de

Memphis se arrepiam vendo seu filho acompanhá-lo

em quanto dedilha o violão. Grace com os olha

marejados de lágrimas não acredita no que esta

ouvindo e vendo. Memphis empolgado começa a tocar

uma melodia e logo, ele e Rey, estão fazendo um dueto

de teclado e violão.

Com o passar dos anos os Rolland foram descobrindo

muitos outros talentos de seu filho assim como as

dificuldades de se criar uma criança tão especial. Como

muitos dos superdotados, Reymond não conseguiu se

adaptar as escolas tradicionais, pois era considerado

desobediente e desatento e foi educado em casa por

Grace com o apoio de especialistas, o que na realidade

não foi uma tarefa assim tão difícil.

Reymond aos doze anos foi considerado por

pesquisadores como um prodígio das inteligências

múltiplas. Teoria desenvolvida na década de 90, por

uma equipe de pesquisadores da Universidade de

Harvard liderada pelo psicólogo Howard Gardner.

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Basicamente essa teoria identificou e descreveu sete

tipos de inteligências nos seres humanos que são: a

lógica-matemática, que é a capacidade de analisar

problemas e operações matemáticas e questões

científicas, a lingüística que caracteriza-se pela maior

sensibilidade para a língua falada e escrita, a espacial

que é a capacidade de compreender o mundo visual de

modo minucioso, a físico-cinestética que é a

capacidade de utilizar mais facilmente o corpo para a

dança e os esportes, a intrapessoal que é a capacidade

de se conhecer, a interpessoal que é a habilidade de

entender as intenções, motivações e desejos dos

outros, a naturalista que é a sensibilidade para

compreender os fenômenos e padrões da natureza, a

existencial que é capacidade de refletir sobre questões

fundamentais da existência, e a que Reymond mais se

destacava a musical que é a habilidade para tocar,

compor e apreciar padrões musicais de qualquer tipo.

Bastava para Reymond ouvir apenas uma vez uma

melodia ou música e nunca mais a esquecia e podia

reproduzi-la minuciosamente e com extrema perfeição.

A vida não poderia ser melhor para Rey. Crescia feliz e

saudável. Quando não estava na rua com outros

garotos, de sua idade, estava ouvindo ou tocando

músicas, na maioria das vezes clássicos do rock como

Carry on Wayward Son do Kansas, Kashmir do Led

Zeppelin, entre outras. Sua paixão pela música era

tanta, que aos treze anos era uma verdadeira

enciclopédia do rock graças à magnífica coleção

musical de seu pai.

Aprendeu o ofício do pai ajudando-o a fabricar

instrumentos musicais e com dezesseis anos já era um

multi-instrumentista talentoso capaz de fabricar e tocar

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qualquer tipo de instrumento. Mas o que ele mais

gostava era no fim de tarde depois de um dia de

intenso de trabalho na oficina de seu pai sentar junto a

ele para poderem tocar uma canção. Mas se existe uma

certeza nesta vida é que as coisas mudam. Elas sempre

mudam e como diria Bob Dylan a resposta esta

soprando ao vento...

Quantas estradas um homem precisará andar

Antes que possam chamá-lo de homem?

Quantos mares uma pomba branca precisará sobrevoar

Antes que ela possa dormir na areia?

Sim, e quantas balas de canhão precisarão voar

Até serem para sempre banidas?

A resposta, meu amigo, está soprando ao vento

A resposta está soprando ao vento

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Mantenha o Rock em um Mundo Livre

Reymond se tornou um rapaz muito bonito afinal

somou os traços marcantes de seu pai com a beleza

clássica de sua mãe. Com um metro e noventa, cabelos

castanhos dourados lisos e longos e olhos verdes,

corpo atlético não havia como não notá-lo. Fazia muito

sucesso com as garotas, mas até aquele momento sua

única paixão verdadeira era a música.

Entretidos no porão Memphis e Reymond terminam de

dar os últimos ajustes em uma guitarra, uma cópia

perfeita de uma Gibson Les Paul.

- Reymond o que você achou. – mostrando com

orgulho sua obra de arte.

- Magnífica pai. – sorrindo.

- Sabe Reymond a guitarra, ou violão, convencional de

seis cordas teve origem na Itália por volta de 1780. Já a

guitarra elétrica uma derivação desse violão surgiu em

1930, mas o som era suave e baixo então para

melhorar isto e dar maior potência ao instrumento,

para poder ser tocado para um grande público, foram

adaptados captadores eletrônicos. O problema é que

estes captadores faziam o corpo da guitarra vibrar

criando o temido feedback. Foi então que Lester

William Polfus mais conhecido como Les Paul, criou “O

Pedaço de Madeira” que era exatamente isso, um

pedaço de madeira maciço com captadores. Com isto

ele resolveu o problema do feedback e da sustentação

pois o som produzido pela vibração das cordas

desaparecia com menos facilidade. Depois de fazer

algumas modificações para dar uma aparência melhor,

de uma guitarra, ele tentou vender seu invento para

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Gibson, mas eles não acreditaram no potencial do

instrumento. Mas então surgiu um californiano

chamado Leonidas Fender pioneiro na produção em

massa da guitarra elétrica além é claro criador da

cultuada Fender Stratocaster, e a Gibson não teve

escolha e teve que se render a genialidade do nosso

amigo Les Paul surgindo assim a Gibson Les Paul usada

por grandes nomes da música como Eric Clapton,

Jimmy Page, Kirk Hammett, Peter Townshend, Slash,

Zakk Wylde, entre outros.

- Sério pai? O vovô lhe contou isso?

- Entre outras coisas meu filho, o Rock tem muita

história. Jimmi Hendriz, por exemplo, era canhoto

então para poder tocar usava uma guitarra Fender

Stratocaster com as cordas invertidas.

Reymond adorava ouvir as histórias de seu pai sempre

tão cheias de vida e contadas com tanta paixão e

emoção. Como quando ele tinha oito anos e seu pai

contou como Jimmi Hendrix jogou fluido de isqueiro

sobre uma guitarra, um modelo Fender Stratocaster de

1965, e colocou fogo durante um show no Finsbury

Astoria, em Londres, em março de 1967. A imagem de

seu pai de joelhos imitando Hendrix com seus dedos

para cima como que instigando o fogo a queimar, até

hoje o faziam sorrir.

Conversavam animados quando ouvem Grace chamar.

- Querido venha, vai começar!

- Começar o que pai? – pergunta Reymond.

- Venha vamos rápido filho. - sem dar atenção a

pergunta de Rey.

Os dois sobem correndo as escadas e encontram Grace

sentada no sofá da sala em frente à televisão.

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- Aqui querido. – indicando o lugar ao seu lado para

Memphis.

Reymond ainda curioso senta ao lado do pai.

- Vai começar o que?

- A entrevista do seu tio Július, querido. – fala Grace

sorrindo.

De um pequenino aparelho na parede surge uma

imagem extremamente nítida, era como se eles

tivessem sido transportados para o local da coletiva.

Mostrava uma enorme mesa coberta por uma tolha

muito branca e na frente, no centro, saltando aos

olhos, bordado em vermelho vivo as letras OCSC. Em

cima dela inúmeros microfones e ao fundo a imagem

de uma enorme muralha branca com cerca de seis

metros de altura com seguranças fortemente armados

patrulhando o lugar.

Apesar da enorme quantidade de repórteres no local o

silêncio era impressionante exigência essa de Július que

afirmou que se houvesse baderna e desordem a

coletiva seria imediatamente encerrada. De repente o

silêncio é quebrado pela abertura da porta por onde

passa Július com sua habitual altivez, como se um rei

estivesse entrando na sala.

Reymond simplesmente não acredita no que esta

vendo, de boca aberta olha espantado para seus pais

que riem muito. E com dificuldade balbucia.

- Mas é você papai! – apontando para Július.

- Sim querido seu pai e seu tio são gêmeos idênticos.

- Idênticos é pouco, a não ser pelo cabelo eles são

absolutamente iguais! Vocês não diziam que o papai

era o mais novo?

- Sim. Eu sou dois minutos mais novo.

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- Mas não se engane com as aparências filho, não

poderiam existir duas pessoas tão diferentes quanto

seu pai e seu tio. É como a imagem no espelho

absolutamente igual, mas invertida.

- Olha querida vai começar. – apontando para tela.

Július se posiciona no meio da mesa na frente dos

inúmeros microfones e olhando diretamente para

frente fala.

- Boa tarde, harmonia e ordem a todos. Estou hoje aqui

diante de vocês para responder as perguntas

pertinentes à inauguração da Torre da Vigília que

dentro de poucos meses estará recebendo os eleitos os

primeiros e privilegiados moradores. Com isto

estaremos dando início a um novo estágio na evolução

da raça humana. Uma humanidade mais justa e

equilibrada onde os males deste mundo corrupto e

devasso ficarão para traz. Criaremos uma sociedade

onde não existirá a criminalidade, a fome, as diferenças

sociais e todas as mazelas que nos afligem desde o

princípio dos tempos. Um lugar onde a ordem, a

harmonia, a disciplina e o temor a Deus nosso criador

serão respeitados e levados ao estremo. Um lugar onde

os eleitos poderão cumprir seu verdadeiro destino

neste planeta que é preparar sua alma para poder

encarar o criador sem máculas. Um lugar de

aprendizado e profunda reflexão de seus atos e ações.

Onde todas as tentações e distrações ficarão para traz.

Agora de maneira ORDENADA responderei uma

pergunta de cada vez. Começaremos por esta mocinha.

– apontando com o dedo indicador.

- Boa tarde. Sou Aretha Louise do jornal estrela da

manhã. Como o senhor gostaria que lhe chamássemos?

Július ou Regente?

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- Como melhor lhe convir. – com um sorriso quase

imperceptível mais parecendo um espasmo.

- Ok. Senhor Július como o senhor mesmo disse no

início, não serão todos que terão o privilégio de

ingressar na Torre da Vigília. Que somente os “eleitos”

poderão entrar. Bom, pelo que sabemos até agora

somente os membros mais abastados, digamos assim,

estão recebendo estes convites. O senhor poderia

explicar por quê?

- Como a senhorita mesmo disse isto é o que vocês

estão sabendo. Posso lhe assegurar que todos aqueles

que forem dignos de participar desta nova fase da