Rhodotorula spp.isoladas de hemocultura no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da... por Gisele Madeira Duboc de Almeida - Versão HTML

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GISELE MADEIRA DUBOC DE ALMEIDA

Rhodotorula spp. isoladas de hemocultura no Hospital

das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de

São Paulo: características clínicas e microbiológicas

Tese apresentada à Faculdade de Medicina da

Universidade de São Paulo para obtenção do título de

Doutor em Ciências

Área de Concentração: Patologia

Orientador: Prof. Dr. Marcelo Nascimento Burattini

São Paulo

2005

GISELE MADEIRA DUBOC DE ALMEIDA

Rhodotorula spp. isoladas de hemocultura no Hospital

das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de

São Paulo: características clínicas e microbiológicas

Tese apresentada à Faculdade de Medicina da

Universidade de São Paulo para obtenção do título de

Doutor em Ciências

Área de Concentração: Patologia

Orientador: Prof. Dr. Marcelo Nascimento Burattini

São Paulo

2005

DEDICATÓRIA

Aos meus queridos pais, Neuza e Paulo ( in memoriam), com carinho e gratidão.

Para Frank e Isabella, todo meu amor.

iii

SUMÁRIO

LISTA DE ABREVIATURAS ................................................................................vii

LISTA DE FIGURAS .............................................................................................viii

LISTA DE TABELAS .............................................................................................. ix

RESUMO ................................................................................................................... xi

SUMMARY ............................................................................................................... xi

1. INTRODUÇÃO ...................................................................................................... 2

1.1.Características microbiológicas de Rhodotorula spp............................................. 6

1.2. Rhodotorula e o meio ambiente ............................................................................ 9

1.3. Estudos de virulência em modelos animais ........................................................ 11

1.4. Infecções da corrente sanguínea causadas por Rhodotorula spp. ....................... 11

1.5.Teste de sensibilidade in vitro a drogas antifúngicas........................................... 17

1.6. Aplicação dos métodos moleculares na avaliação de isolados fúngicos............. 24

1.7. Justificativa ......................................................................................................... 27

2. OBJETIVOS......................................................................................................... 29

2.1. Objetivos Principais ............................................................................................ 29

2.2. Objetivos Secundários......................................................................................... 29

3. MÉTODOS ........................................................................................................... 31

3.1. Local……………………………………………………………………………31

3.2. Desenho do estudo .............................................................................................. 32

3.3. Identificação dos pacientes ................................................................................. 32

3.4. Identificação das cepas viáveis para avaliação microbiológica e molecular ...... 33

3.5. Critérios de exclusão ........................................................................................... 33

3.6. Microbiologia...................................................................................................... 34

iv

3.6.1. Coleta e processamento das hemoculturas....................................................... 34

3.6.2. Identificação das cepas .................................................................................... 34

3.6.3. Teste de sensibilidade in vitro a drogas antifúngicas....................................... 35

3.7. Tipagem Molecular ............................................................................................ 41

3.7.1. Eletroforese em campo pulsado………………………………………………41

3.8. Variáveis estudadas e definições utilizadas ........................................................ 42

3.8.1. Variáveis demográficas.................................................................................... 42

3.8.2. Variáveis relacionadas ao quadro clínico-laboratorial..................................... 42

3.8.3. Variáveis relacionadas a procedimentos invasivos.......................................... 45

3.8.4. Variáveis relacionadas à terapêutica prévia ..................................................... 46

3.8.5. Outras variáveis e definições ........................................................................... 48

3.8.6. Período de acompanhamento…………………………………………………49

3.9. Análise dos dados................................................................................................ 49

3.9.1. Coleta dos dados .............................................................................................. 49

3.9.2. Banco de dados ................................................................................................ 50

4. RESULTADOS..................................................................................................... 52

4.1. Variáveis estudadas............................................................................................ 53

4.1.1. Variáveis demográficas................................................................................... 53

4.1.2. Variáveis relacionadas ao quadro clínico-laboratorial..................................... 54

4.1.3.Variáveis relacionadas a procedimentos invasivos……................................... 60

4.1.4. Variáveis relacionadas à terapêutica prévia ..................................................... 60

4.1.5. Classificação do episódio de hemocultura positiva para Rhodotorula.. .......... 61

4.1.6. Outras infecções............................................................................................... 62

4.1.7. Hemoculturas positivas .................................................................................... 63

4.1.8. Período de acompanhamento ........................................................................... 63

v

4.1.8.1.Cateter venoso central……………………………………………………….63

4.1.8.2. Tratamento antifúngico ................................................................................. 65

4.1.8.3. Evolução clínica............................................................................................ 65

4.2. Microbiologia…………………………………………………………………...70

4.2.1. Identificação das espécies de Rhodotorula .………………………………….70

4.2.2. Teste de sensibilidade in vitro a drogas antifúngicas....................................... 73

4.3. Biologia molecular.............................................................................................. 75

4.3.1. Eletroforese em campo pulsado………………………………………..……..75

5. DISCUSSÃO......................................................................................................... 79

6. CONCLUSÕES .................................................................................................. 108

7. REFERÊNCIAS..................................................................................................112

Apêndice

vi

LISTA DE ABREVIATURAS

ATCC: “American Type Culture Collection” (Coleção Americana de Tipagem de Culturas)

APACHE : “Acute Physiology and Chronic Health Evaluation”

CDC: “Center for Disease Control and Prevention” (Centro de Controle e Prevenção de Doenças)

DNA: “Deoxyribonucleic acid” (Ácido desoxirribonucleico)

EUCAST: “European Committee for Antimicrobial Susceptibility Testing”

(Comitê Europeu para Teste de Suscetibilidade Antimicrobiana)

Mb: Megabases

MIC: “Minimal Inhibitory Concentration” (Concentração Inibitória Mínima) NCCLS:“National Committee for Clinical Laboratory Standards” (Comitê

Nacional para Padronização de Laboratórios Clínicos)

PFGE: “Pulsed Field Gel Electrophoresis” (Eletroforese em campo pulsado) PM: Peso molecular

RAPD: “Randomly Amplified Polymorphic DNA” (amplificação aleatória de

segmentos de DNA)

RPM: Rotações por minuto

vii

LISTA DE FIGURAS

FIGURA 1. Características macroscópicas de Rhodotorula sp.. ................................. 7

FIGURA 2. Características microscópicas de Rhodotorula sp.................................... 7

FIGURA 3. Esquema de distribuição das soluções de antifúngicos em placas para

teste de sensibilidade............................................................................. 37

FIGURA 4. Distribuição anual dos 25 pacientes no momento da hemocultura

positiva para Rhodotorula spp. segundo a localização nas unidades

hospitalares (enfermeira ou hospital-dia) no HC-FMUSP de janeiro de

1996 a dezembro de 2004.............................................. .......................55

FIGURA 5. Eletroforese em campo pulsado de nove cepas de R. mucilaginosa

isoladas de hemocultura – HC-FMUSP – janeiro de 1996 a dezembro

2004...................................................................................... .................77

viii

LISTA DE TABELAS

TABELA 1 - Resumo dos principais resultados publicados sobre a atividade in vitro de

diferentes antifúngicos e Rhodotorula spp.................................................. 23

TABELA 2 - Total de fungos isolados de hemocultura e distribuição anual de Candida

spp., Cryptococcus neoformans, Pichia anomala, Rhodotorula spp., outras

leveduras e fungos filamentosos no HC-FMUSP de janeiro de 1996 a

dezembro de 2004 ....................................................................................... 52

TABELA 3 - Distribuição dos pacientes com hemocultura positiva para Rhodotorula spp.

segundo a idade e o sexo – HC-FMUSP – janeiro de 1996 a dezembro de

2004............................................................................................................. 54

TABELA 4 - Características demográficas, doença de base e transplante de medula óssea

dos 25 pacientes com hemocultura positiva para Rhodotorula spp. – HC-

FMUSP – janeiro de 1996 a dezembro de 2004.......................................... 57

TABELA 5 - Características clínicas dos 25 pacientes com hemocultura positiva para

Rhodotorula spp. – HC-FMUSP – janeiro de 1996 a dezembro de 2004... 59

TABELA 6 - Resumo dos 25 pacientes com hemocultura positiva para Rhodotorula spp.

HC-FMUSP – janeiro de 1996 a dezembro de 2004................................... 69

TABELA 7 - Características macromorfológicas, degradação da uréia e crescimento a

37 °C de 20 cepas de R. mucilaginosa isoladas de hemocultura – HC-

FMUSP – janeiro de 1996 a dezembro de 2004.......................................... 71

TABELA 8 - Identificação de 20 cepas de Rhodotorula isoladas de hemocultura de

acordo com método utilizado – HC-FMUSP – janeiro de 1996 a dezembro

de 2004.. ...................................................................................................... 72

ix

TABELA 9 - Atividade in vitro de drogas antifúngicas frente a 20 cepas de R.

mucilaginosa isoladas de hemocultura no HC-FMUSP de janeiro de 1996 a

dezembro de 2004 ....................................................................................... 74

TABELA 10 - Distribuição das concentrações inibitórias mínimas encontradas em 20

cepas de Rhodotorula mucilaginosa isoladas de hemocultura no HC-

FMUSP de janeiro de 1996 a dezembro de 2004........................................ 75

TABELA 11 - Distribuição do perfil genotípico de nove cepas de R. mucilaginosa isoladas

de hemocultura de acordo com paciente, unidade de internação, data do

isolamento, número da cepa e número da coluna da eletroforese em campo

pulsado - HC-FMUSP – janeiro de 1996 a dezembro de 2004................... 76

x

RESUMO

Almeida GMD. Rhodotorula spp. isoladas de hemocultura no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo:

características clínicas e microbiológicas [tese]. São Paulo: Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo, 2005.

INTRODUÇÃO: Nos últimos anos, um número crescente de infecções causadas por fungos incomuns tem sido relatado na literatura, principalmente na crescente população de pacientes imunossuprimidos. Embora infrequente, leveduras do gênero Rhodotorula podem causar infecção da corrente sanguínea (ICS), particularmente na presença de imunossupressão e/ou cateter venoso central (CVC). OBJETIVOS: Verificar a ocorrência de Rhodotorula spp.

isoladas de hemocultura na Seção de Microbiologia do HC-FMUSP no período de janeiro de 1996 a dezembro de 2004; caracterizar clinicamente os pacientes identificados e avaliar as cepas quanto a aspectos microbiológicos e moleculares. MÉTODOS: Foi realizado um estudo observacional descritivo retrospectivo. Os pacientes identificados foram caracterizados de acordo com variáveis clínicas de interesse. Comparou-se o desempenho na identificação das espécies isoladas de dois métodos comerciais, Vitek e API 20C AUX, com os resultados de método convencional de assimilação de carboidratos e nitrato. A atividade in vitro de fluconazol, itraconazol, voriconazol e anfotericina B frente a 20 cepas de Rhodotorula foi também determinada, de acordo com as recomendações do National Committee for Clinical Laboratory Standards e European Committee for Antimicrobial Susceptibility Testing, ambos baseados no método de microdiluição em caldo. O perfil genotípico dos isolados foi estudado através da eletroforese em campo pulsado.

RESULTADOS: Rhodotorula spp. foram isoladas de hemoculturas de 28 pacientes e, embora infrequente, foi um dos gêneros não -Candida não -Cryptococcus mais prevalentes.

Foram incluídos no estudo 25 pacientes, 76% do sexo masculino, com média de idade de 36,3 ± 22,0 anos. A maioria deles apresentava doença de base (96%), mais notadamente neoplasia hematológica. O transplante de medula óssea foi realizado em 40% dos pacientes, sendo do tipo autólogo em 70% dos casos. Apenas 36% dos pacientes encontravam-se internados no momento da hemocultura positiva. A maioria dos pacientes utilizava CVC

(88%), principalmente de longa permanência (91%). Aproximadamente metade dos

pacientes estava sob uso de antibioticoterapia parenteral, corticosteróides, quimioterápicos ou outras drogas imunossupressoras. Neutropenia foi observada em três pacientes e uso de fluconazol prévio em um paciente. O episódio foi classificado como ICS em 80% dos casos.

Destes, 89,5% retiraram CVC entre 1 e 37 dias após hemocultura positiva e 88% receberam antifúngico sistêmico, sendo anfotericina B a droga mais utilizada. A mortalidade geral observada foi de 21%. Das 20 cepas avaliadas, 20% e 5% foram erroneamente identificadas como R. glutinis pelos sistemas Vitek e API 20C AUX, respectivamente. O método convencional identificou todas as cepas como R. mucilaginosa. A anfotericina B

demonstrou boa atividade in vitro, enquanto, itraconazol e voriconazol demonstraram atividade in vitro variável, contrastando com os resultados uniformemente limitados observados para fluconazol. Observou-se boa concordância entre os dois métodos avaliados.

A cariotipagem eletroforética exibiu três perfis diferentes. CONCLUSÃO: Embora infrequente, Rhodotorula isolada de hemocultura representou ICS na maioria dos casos. A distribuição temporo-espacial dos casos não sugeriu a ocorrência de surto.

Anfotericina B foi o antifúngico mais utilizado, com boa atividade in vitro para todas as cepas, contrastando com a limitada atividade in vitro observada para fluconazol.

xi

SUMMARY

Almeida GMD. Rhodotorula spp. isolated from blood cultures in Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo: clinical and microbiological aspects. [thesis]. São Paulo: Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo, 2005.

INTRODUCTION: The emergence of less common but medically important fungal

pathogens has been increasingly reported in the last decade. Although infrequent, bloodstream infections (BSI) due to Rhodotorula species might occur, especially in the presence of immunosupression and/or central venous catheters. PURPOSE: To describe the occurrence of Rhodotorula species isolated from blood cultures from January 1996 to December 2004, clinically characterizing affected patients. The strains were subjected to microbiological and molecular studies. METHODS: A retrospective observational study was conducted. Records from the microbiology laboratory served to identify patients with positive blood cultures. Medical charts of all patients identified were reviewed for selected clinical parameters. The strains were identified using two commercially available systems (Vitek and API 20C AUX), and by conventional methods. The in vitro activity of fluconazole, itraconazole, voriconazole and amphotericin B against 20 strains of Rhodotorula were determined according to the recommendations of the National Committee for Clinical Laboratory Standards and the European Committee for Antimicrobial Susceptibility Testing for broth microdilution method. Genotypic profiles were evaluated by pulsed-field gel electrophoresis. RESULTS: During the study period Rhodotorula spp. were isolated from 28 patients. Although infrequent, it was one of the most common non -Candida non -Cryptococcus yeasts isolated from blood cultures. Twenty five patients were included in this study, 76% were male and the median age was 36,3 +/- 22,0 years. A large majority (96%) of patients had underlying diseases, most prominently hematological cancer. Ten (40%) patients had undergone bone marrow transplants, 70% of these transplants were autologous. Only 36% of the patients were hospitalized in different units at the time of index blood culture. The majority of patients (88%) had a central venous catheter, mainly long-term type. (91%). Approximately half of the patients were receiving parenteral antibiotic therapy, corticosteroids, chemotherapy or immunosuppressive therapy. Neutropenia was observed in only tree patients. Only one patient was undergoing prior treatment with fluconazole. BSI was identified in 80% of the cases. Of these patients 89.5% had removed their CVC 1 to 37 days after index blood culture and 88% had received systemic antifungal therapy. Amphotericin B was the most commonly used drug. General mortality was observed in 21% of the cases. All 20 strains were identified as R. mucilaginosa by conventional methods and misidentification of the species as R. glutinis was observed in 20% and 5% with the Vitek and the API 20C AUX, respectively. Amphotericin B

demonstrated good in vitro activity against Rhodotorula. Itraconazole and voriconazole showed variable activity, whereas fluconazole displayed uniformly limited activity . We observed good agreement with results obtained with two independent methods.

Electrophoretic karyotyping demonstrated three different genetic profiles. CONCLUSION.

Although infrequent, Rhodotorula isolated from blood cultures represent BSI in the majority of the cases. The distinct temporal distribution of the affected patients was not suggestive of an outbreak. Amphotericin B was the most commonly used antifungal. It demonstrated good in vitro activity against all strains, whereas fluconazole had limited in vitro activity.

xii

INTRODUÇÃO

2

1. INTRODUÇÃO

Os fungos habitam o planeta há pelo menos 300 milhões de anos e representam

exemplos de organismos bem sucedidos na cadeia evolutiva dos seres vivos, com ampla distribuição na natureza onde desempenham importante papel como decompositores de matéria orgânica.

Das mais de 200.000 espécies de fungos descritas, cerca de 200 foram

comprovadamente associadas a infecções em humanos causando desde quadros

cutâneos superficiais localizados até infecções sistêmicas potencialmente fatais (Schell, 1995; Lacaz et al., 2002).

Até recentemente, o homem moderno esteve mais familiarizado com os aspectos

positivos dos fungos tais como a utilização de leveduras na fabricação de pães, cerveja e champanhe, além da sintetização do primeiro antibiótico a partir do fungo filamentoso Penicillium notatum (Greenberg, 2001).

Os textos de livros de Patologia dedicavam pouco espaço a infecções fúngicas até a primeira metade do século XX, restringindo as discussões a infecções adquiridas no ambiente e infecções superficiais de pele e membranas mucosas (Greenberg, 2001). Nas décadas de 50 e 60, nos relatos da literatura predominavam artigos sobre infecções cutâneas e micoses sistêmicas, particularmente causadas por fungos dimórficos. Já na década de 70, um número maior de artigos sobre infecções fúngicas invasivas,

principalmente causadas por Aspegillus spp., foi publicado (Prystowsky et al., 1976; Winston et al., 1977; Edwards et al., Winston et al.,1979).

Entretanto, a partir de 1980 observou-se um aumento significativo na incidência das infecções fúngicas tanto adquiridas na comunidade como no ambiente hospitalar 3

renovando o interesse e a importância da Micologia Médica. A morbidade e mortalidade associada a estas infecções podem ser substanciais (Beck-Sague et al., 1993; Fridkin e Jarvis, 1996; Patel e Paya, 1997; Krcmery et al., 1999; Kontoyannis e Bodey, 2002; Gudlaugsson et al., 2003; Pfaller e Wenzel, 2003).

Inúmeros fatores contribuíram para o aumento da incidência das infecções fúngicas, como: a) aumento da população de pacientes imunossuprimidos tais como pacientes com aids, oncológicos e diabéticos entre outros; b) avanços diagnósticos e terapêuticos da prática médica moderna, com a utilização de novas e agressivas estratégias no cuidado clínico e cirúrgico de pacientes, incluindo sistemas de suporte de vida, quimioterapia citotóxica e uso de antimicrobianos de amplo espectro; c) o advento do transplante de órgãos e medula óssea; e, d) o aumento da população de idosos (Anaisse et al., 1989; Diamond, 1991; Beck-Sague et al., 1993; Morrisson et al., 1994; Fridkin e Jarvis, 1996; Pfaller e Wenzel, 2003).

Embora a maioria das infecções fúngicas associadas à assistência à saúde sejam causadas por espécies de Candida e Aspergillu s, um número significativo de infecções causadas por fungos menos freqüentes tem sido relatado na literatura, muitos deles tradicionalmente considerados de baixa virulência e, cujo isolamento em materiais clínicos era freqüentemente interpretado como contaminação ambiental ou colonização inócua. Estes fungos têm recebido a denominação de “emergentes” (Vartivarian et al., 1993, Hazen, 1995; Perfect e Schell, 1996; Groll e Walsh, 2001; Fleming et al., 2002; Walsh et al., 2004; Pfaller e Diekema; 2004).

Nos Estados Unidos, cerca de 11% das infecções fúngicas nosocomiais foram

causadas por espécies não- Candida não- Aspergillus entre 1980 e 1990 (Beck-Sague et al., 1993; Fridkin e Jarvis, 1996). Kremcry (1999) mencionou uma prevalência de 20%

4

de leveduras não- Candida associadas à fungemia em pacientes com leucemia. Entre 1993 e 1998, Kovacicová et al. (2001) reportaram um aumento na incidência de

leveduras não- Candida isoladas de hemocultura de ≈ 5% para 20%.

Mais recentemente, um estudo populacional multicêntrico de vigilância das

infecções fúngicas invasivas em pacientes transplantados, mostrou que 30% das infecções observadas em transplantados de medula óssea e 11% em transplantados de órgãos sólidos foram causadas por outros fungos não -Candida não- Aspergillus, excluindo-se casos de criptococose e micoses endêmicas nos pacientes transplantados de órgãos sólidos (Pappas et al., 2003).

Os fatores associados às infecções causadas pelos fungos ditos “emergentes”

incluem o aumento do número de pacientes sob risco para infecções fúngicas como pacientes oncológicos, transplantados e prematuros entre outros, maior sobrevida de pacientes graves, além de uma maior preocupação por parte dos microbiologistas clínicos e dos médicos assistentes na valorização do isolamento destes fungos (Vartivarian et al., 1993; Pfaller e Diekema, 2004). A utilização de fluconazol em esquema terapêutico ou profilático também foi aventada como um possível fator de risco para algumas destas infecções (Goldani et al., 1995; Krcmery et al.,1998; Kovacicová et al., 2001; Kontoyannis et al., 2004).

Entre os fungos considerados “emergentes” destacam-se os fungos filamentosos

pigmentados (feo-hifomicetos), os não pigmentados (hialo-hifomicetos), dentre os quais, particularmente as espécies de Fusarium, Acremonium e Scedosporium; os zigomicetos e leveduras não- Candida não -Cryptococcus tais como , Trichosporon spp ., Malassezia spp ., Pichia anomala e Rhodotorula spp. (Hazen, 1995; Perfect e Schell, 1996; Pfaller e Diekema, 2004).

5

Entretanto, dado o alto comprometimento do sistema imunológico verificado

atualmente em inúmeros pacientes, é possível afirmar que não existe uma espécie fúngica uniformemente “não patogênica” e que estamos testemunhando o que Ajello*

(1971) apud Schell (1996) descreveu há mais de 30 anos como “a ponta do iceberg da micologia médica”.

As infecções causadas por estes fungos variam desde quadros mais localizados

envolvendo a pele, seios paranasais, pulmões a infecções disseminadas e, dada a baixa freqüência com que ocorrem, têm suas características clínicas, terapêuticas e epidemiológicas ainda pouco conhecidas.

As espécies de Rhodotorula têm sido raramente associadas a infecções em humanos, com poucos casos documentados de endocardite, meningite, ventriculite, peritonite, infecção de prótese, infecções oculares e da corrente sanguínea (Eisemberg et al., 1983; Donald et al., 1988; Marinova et al., 1994; Gyaurgieva et al., 1996; Ahmed et al., 1998; Cutrona et al., 2002; Bawazeer et al., 2003; Maeder et al., 2003).

Infecção da corrente sanguínea é a forma mais freqüentemente descrita na

literatura. Nos últimos 40 anos, cerca de 60 casos - a maioria nos anos 90 - de infecção da corrente sangüínea por Rhodotorula spp. foram descritos, tendo 23 deles ocorrido em uma única instituição. A ocorrência desta infecção tem sido associada a pacientes imunossuprimidos, presença de cateter venoso central e neutropenia, embora seja importante ressaltar que não há até o momento estudo adequado à elucidação dos fatores de riscos para fungemia por Rhodotorula (Kiehn et al., 1992; Samonis et al., 2001; Anatoliotaki et al., 2003; Zaas et al., 2003; Pasquallotto et al., 2005).

* Ajello L: The medical mycology iceberg. HSMA, Health Reports. 1971; 86:437.

6

A seguir estão descritas as principais características do gênero Rhodotorula e maiores detalhes podem ser consultados em livros de referência (Kwon-Chung e Bennet, 1992; Kurtzman e Fell, 2000; de Hoog et al., 2000; Lacaz et al., 2002).

1.1. Características microbiológicas de Rhodotorula spp.

As leveduras do gênero Rhodotorula constituem um grupo heterogêneo de fungos pertencentes à família Sporidiobolaceae, ordem Sporidiales. As colônias são detectáveis visualmente após 24 a 48 horas de incubação, geralmente exibindo aspecto liso e/ou mucoso, e pigmento carotenóide típico, variando de cor amarelada a avermelhada (FIGURA 1). A temperatura máxima de crescimento varia de 25 °C a 37 °C (Kwon-Chung e Bennett, 1992; Fell e Statzell-Tallman, 2000; de Hoog et al., 2000).

Do ponto de vista bioquímico, não fermentam carboidratos e produzem a enzima

urease. O gênero Rhodotorula partilha ainda algumas características com o gênero Cryptocococcus, diferindo-se deste por não assimilar inositol, além da pigmentação característica (Fell e Statzell-Tallman, 2000).

As características microscópicas do gênero incluem: células leveduriformes ovais, esferoidais ou alongadas com brotamento polar ou multilateral; ausência ou formação rudimentar de pseudo-hifa ou hifa e ausência de balistoconídio. Esta última

característica a diferencia de outras leveduras do gênero Sporobolomyces que exibem pigmentação avermelhada . Algumas espécies podem ainda apresentar-se capsuladas (FIGURA 2).

index-19_1.jpg

index-19_2.jpg

7

FIGURA 1. Características macroscópicas de Rhodotorula sp.

FIGURA 2. Características microscópicas de Rhodotorula sp.

O gênero Rhodotorula inclui trinta e quatro espécies sendo que apenas três têm sido relacionadas a infecções no homem: R. mucilaginosa, R. glutinis e R. minuta. A diferença entre estas espécies reside no perfil de assimilação de carboidratos e nitrato (Warren e Hazen, 1999; Fell e Statzell-Tallman, 2000).

8

R. mucilaginosa, nomenclatura atual de espécies previamente designadas R. rubra (Fell e Statzell-Tallman, 2000) é a espécie mais freqüentemente implicada nas diferentes infecções descritas no homem, seguida de R. glutinis. Além da diferença no perfil de assimilação de carboidratos, o teste de assimilação de nitrato auxilia na distinção entre estas espécies sendo positivo apenas para R. glutinis.

R. mucilaginosa possui uma longa lista de sinônimos provavelmente devido a variabilidade entre as cepas na utilização de carboidratos. Algumas destas variações podem representar espécies diferentes, uma possibilidade que os estudos de

sequenciamento de nucleotídeos devem responder nos próximos anos, possivelmente eliminando alguns dos problemas taxonômicos do gênero Rhodotorula.

A identificação correta do gênero e espécie de um fungo é requisito importante para o conhecimento epidemiológico das diferentes infecções fúngicas além de auxiliar na escolha terapêutica, uma vez que alguns fungos apresentam resistência intrínseca aos diferentes antifúngicos disponíveis.

As leveduras são identificadas pelas características macroscópicas e microscópicas da colônia além do perfil bioquímico. O método convencional de assimilação de carboidratos é considerado como referência na identificação das leveduras. Entretanto, é um método trabalhoso com tempo longo de liberação de resultados, inadequado para a rotina de laboratórios de micologia clínica. A miniaturização de testes bioquímicos contendo açúcares-chave e outras provas de identificação representou um avanço para laboratórios de microbiologia clínica, permitindo a identificação das diferentes leveduras em tempos menores (Warren e Hazen, 1999; Freydiere et al., 2001).

9

Atualmente, inúmeros sistemas comerciais alternativos estão disponíveis para

utilização na rotina, tanto métodos manuais como sistemas semi-automatizados, substituindo a utilização do método clássico de rotina.

Cada sistema tem desempenho distinto dos demais e nenhum deles tem 100% de

concordância com o método clássico. O banco de dados contendo o perfil de assimilação dos sistemas comerciais difere eventualmente daqueles publicados em livros de referência.

O método manual API 20C AUX e o sistema semi-automatizado Vitek, ambos da

bioMérieux (França), constituem exemplos de sistemas comerciais comumente

utilizados. O primeiro contém 20 galerias com diferentes carboidratos e os resultados são interpretados visualmente após 48 e 72 horas de incubação, comparando-se a turbidez do crescimento observado com o controle negativo. O segundo utiliza um cartão de identificação contendo 30 poços. Destes, 26 correspondem a diferentes caldos bioquímicos, sendo que quatro poços são utilizados como controle negativo. A mudança de cor é detectada espectrofotometricamente após 24-48 horas de incubação.

1.2. Rhodotorula e o meio ambiente

As espécies de Rhodotorula são freqüentemente isoladas do solo, água, ar, suco de frutas, laticínios e outros substratos comumente encontrados no ambiente humano tais como cortinas de chuveiro e escovas de dente (Kwon-Chung e Bennett, 1992; Warren e Hazen, 1999).

Vários autores descrevem o isolamento deste fungo em diferentes ecossistemas

incluindo locais com condições pouco favoráveis, tais como as profundezas do Mar 10

Báltico (Ekendahl et al., 2003), lago da Patagônia de alta altitude (Libkind et al., 2004), solo e vegetação da Antártica (Pavlova, 2001) e ambientes aquáticos hipersalinos de alta temperatura como Mar Morto (Israel), Lago Enriquillo (Republica Dominicana) e Great Salt Lake (Estados Unidos) (Butinar et al., 2003).

Em relação ao ambiente hospitalar, Rhodotorula foi a levedura mais isolada em diferentes áreas de hospital venezuelano, particularmente na Unidade de Terapia Intensiva (Centeno e Machado, 2004). Casos de pseudo-surto envolvendo a

contaminação de equipamento broncoscópico foram relatados na literatura (Hoffman et al., 1989; Withlock et al., 1992; Hagan et al., 1995). Outros relatos incluem contaminação de soluções, quimioterápicos e possível fonte comum de casos de

peritonite em pacientes sob diálise peritoneal (Louria et al., 1967; Pien et al., 1980; Eisemberg et al., 1983). Também foi isolada de reservatório de água de ambiente hospitalar e da comunidade (Arvanitidou et al., 1999).

No Brasil, estudos ambientais documentaram a presença de Rhodotorula em frutas tropicais (Trindade et al., 2002), plantação de cana de açúcar (de Azeredo et al., 1998) solo amazônico (Mok et al., 1984), em camarões e nas águas da baía de Sepetiba no Rio de Janeiro (Pagnocca et al., 1989). Também foi isolada em ambiente hospitalar na cidade de Recife (de Barros et al., 1990).

No homem, pode colonizar a pele, unha, trato respiratório, genito-urinário e

gastrintestinal (Jennings e Benett, 1972; Rose et al., 1977; Ahearn et al., 1966; Khatib et al., 2001; Oyeka e Ugwu , 2002; Nowakowska et al., 2004).

Mais recentemente, em estudo de prevalência de fungos isolados das mãos de

estudantes de medicina no Chile, Rhodotorula mucilaginosa foi a levedura mais freqüentemente isolada seguida de Candida parapsilosis (Silva et al., 2003).

11

1.3. Estudos de virulência em modelos animais

Estudos realizados em modelos animais demonstraram que leveduras do gênero

Rhodotorula têm baixa capacidade de persistir e se multiplicar em tecidos de camundongos infectados, mesmo naqueles tratados com corticosteróides, quando

comparadas a Candida spp. (Louria et al., 1967). Outro estudo demonstrou ainda que, na presença de disseminação, a levedura é prontamente digerida e inativada pelos leucócitos polimorfonucleares (Louria et al., 1960).

1.4. Infecções da corrente sanguínea causadas por Rhodotorula spp.

Apenas 13 casos de fungemia por Rhodotorula spp. foram relatados entre 1960 e 1990, com um desfecho fatal comprovado em paciente com endocardite bacteriana que evoluiu a óbito sem utilização prévia de antifúngico. Em todos os casos, exceto um, os pacientes apresentavam doenças de base, incluindo câncer, endocardite, doença pulmonar e aids, assim como presença de cateter vascular. A espécie mais prevalente foi R. mucilaginosa e a fonte provável da fungemia foi relacionada ao cateter (Louria et al.,1960; Kiehn et al.,1992; Goldani et al.,1995).

Em 1991, Leibovitz et al. relatam mais um caso de fungemia por R. minuta em criança de 6 anos com aids e presença de cateter venoso central, que foi a óbito sem recebimento de terapêutica antifúngica e sem remoção de cateter central. O óbito foi considerado como provavelmente relacionado à infecção fúngica.

Braun e Kaufman (1992) reportaram outro caso de fungemia por R. mucilaginosa associada à presença de cateter venoso central em uma criança de 2 anos, portadora de 12

leucemia linfoblástica aguda, que foi submetida apenas a remoção do cateter venoso central, sem uso de antifúngico sistêmico e com boa evolução. Ainda em 1992, Kiehn et al. publicaram 23 de casos de infecção relacionada a cateter central por Rhodotorula spp. ocorridos em um grande centro oncológico americano de 1985 a 1989 - a maior casuística da literatura até o momento - relatando um aumento substancial do isolamento desta levedura quando comparado a controles históricos. A grande maioria dos pacientes apresentava doença de base, sendo neoplasia a mais prevalente, além de aids e síndrome do intestino curto. Dois pacientes estavam neutropênicos no momento do isolamento fúngico. O tempo médio de inserção do cateter antes da ocorrência de fungemia foi de 9.3 meses, variando de 1 a 22 meses. Neste estudo, 13 pacientes receberam antifúngicos sistêmicos associados à remoção de cateter, cinco receberam apenas terapêutica antifúngica e cinco pacientes tiveram somente o cateter central removido. Apenas um caso apresentou hemocultura periférica positiva concomitantemente a hemocultura coletada via cateter. A espécie mais prevalente foi R. mucilaginosa, isolada em 96%

dos casos. Nenhum paciente morreu e nenhum experimentou recorrência de infecção.

Em 1994, Marinova et al. reportaram um caso de fungemia por Rhodotorula sp . em um garoto de 13 anos com sinusite complicada com empiema e meningite bacteriana, submetido a procedimento neurocirúrgico para drenagem de empiema subdural,

evoluindo com fungemia no décimo dia pós-operatório. A presença de cateter central, cirurgia e uso de imunossupressor foram os principais fatores associados ao

desenvolvimento da infecção. O paciente foi inicialmente tratado com miconazol além da retirada de cateter central. O antifúngico foi posteriormente substituído por flucitosina, duas gramas ao dia por três semanas. Não houve relato de recaída durante o período de seguimento realizado por 5 meses.

13

Ainda neste ano, Sheu et al. (1994) relatam caso de fungemia por R. glutinis em paciente com leucemia mielóide aguda não neutropênico, com cateter venoso central e recorrência de infecção, com isolamento fúngico em hemocultura após 5 dias de terapêutica com fluconazol endovenoso, sendo necessário substituição por anfotericina B deoxicolato e retirada de cateter central.

Em 1995, Goldani et al. alertaram para a possibilidade de ocorrência de fungos incomuns em pacientes imunossuprimidos com cateter central, sob utilização de doses terapêuticas ou profiláticas de fluconazol. Descreveram um caso de infecção relacionada a cateter central, inserido 6 meses antes da ocorrência de fungemia por Rhodotorula minuta em paciente com aids e doença renal avançada, em uso há trinta dias de 100 mg de fluconazol por dia, devido a episódio de candidíase esofágica. O paciente foi tratado com anfotericina B deoxicolato, 455 mg de dose total, sem remoção de cateter e sem nenhum sinal de recaída após 3 meses de seguimento.

Nos dois anos seguintes, mais dois casos foram publicados: um paciente com

leucemia aguda, neutropênico, e outro paciente com aids, com contagem de linfócitos CD4=157 células/mm³. Ambos possuíam cateter venoso central de longa duração e foram submetidos à terapêutica antifúngica com anfotericina B deoxicolato e

anfotericina B complexo lipídico, respectivamente. Somente o paciente com aids teve o cateter central removido após 3 dias de uso sistêmico de antifúngico e persistência de febre com hemocultura periférica positiva. Nenhum paciente apresentou recaída ou evoluiu para óbito (Fanci et al., 1997; Lui et al., 1998).

No ano de 2000, Kiraz publica ocorrência de fungemia por R. mucilaginosa em paciente com linfoma não-Hodgkin sob quimioterapia, com cateter de longa duração, que evoluiu com neutropenia febril severa e utilização apenas de fluconazol profilático.

14

Após 7 dias houve clareamento da infecção de corrente sanguínea, concomitante a resolução da neutropenia, sem relato de retirada do dispositivo intravascular ou mudança da terapêutica antifúngica.

O primeiro relato de fungemia transitória por R. mucilaginosa em paciente com tumor sólido foi descrito por Samonis et al. em 2001. Tratava-se de paciente com adenocarcinoma avançado de cólon, sob quimioterapia, sem utilização de cateter central, em uso de antibiótico oral duas semanas antes da detecção de fungemia, por

exacerbação de doença pulmonar crônica. Evoluiu com neutropenia febril e mucosite severa, resolvidos após 48 horas de admissão hospitalar. Não foi instituída nenhuma terapêutica antifúngica e o trato gastrintestinal foi considerado como fonte provável da fungemia.

Ainda em 2001, Petrocheilou-Paschou et al. relataram outro caso de fungemia por R. mucilaginosa em paciente com linfoma não-Hodgkin, sob utilização de fluconazol profilático (200 mg por dia) e ciprofloxacina. No primeiro dia pós-transplante de medula óssea o paciente evoluiu com neutropenia e febril após três dias. Foi iniciado anfotericina B lipossomal após hemocultura positiva para levedura. Após 72 horas de terapêutica, o paciente persistiu febril a despeito de resolução de neutropenia. O cateter venoso central foi então removido e o paciente evoluiu afebril, sem outras

intercorrências.

Hsueh et al. (2003) descrevem outro caso de fungemia por R. glutinis em paciente com carcinoma de nasofaringe, não neutropênico, após realização de “flush” em cateter central de longa duração. Inicialmente não foi valorizado isolamento fúngico. Somente após recorrência de febre e múltiplos isolamentos em hemocultura foi iniciado tratamento com fluconazol 200 mg por dia. Foi aumentada a dose do antifúngico 15

utilizado devido à persistência da febre, tendo o paciente evoluído afebril. O cateter venoso central foi removido após 17 dias do início do tratamento.

Ainda em 2003, a segunda maior série de casos foi publicada por Zaas et al., com 10 casos de fungemia por Rhodotorula spp. ocorridos em hospital terciário norte-americano no período de 1992 a 2001. Entretanto, não há uma descrição mais detalhada sobre variáveis clínicas de interesse e tratamento como no estudo publicado por Kiehn et al. em 1992. As espécies isoladas foram R. mucilaginosa e R. glutinis, em oito e dois casos respectivamente. Todos os pacientes, exceto um, apresentavam alguma doença de base como cardiopatia congênita, aids, neoplasia e doença intestinal crônica, um caso de transplante pulmonar e outro de medula óssea. Todos também utilizavam cateter venoso central e apenas dois estavam neutropênicos. Cinco pacientes estavam em uso de nutrição parenteral. Informação sobre a retirada de cateter venoso central foi obtida em nove pacientes, sendo que apenas três não retiraram cateter, mas receberam antifúngico sistêmico: fluconazol seguido de anfotericina B deoxicolato (um caso) e anfotericina B

deoxicolato (dois casos). Dentre os seis pacientes que retiraram cateter central, três foram tratados com fluconazol endovenoso; um com anfotericina B complexo

lipossomal e outro com anfotericina B deoxicolato e apenas um não recebeu terapêutica antifúngica. Não há dados sobre tempo de tratamento ou dose. Não houve relato de recorrência ou óbito.

Também em 2003, um caso de fungemia recorrente associada a cateter em um

período de um ano, foi relatado em paciente com artrite reumatóide juvenil e síndrome do intestino curto, sob utilização prolongada de nutrição parenteral. No primeiro episódio, o cateter central foi removido e o paciente tratado com fluconazol endovenoso 400 mg/dia, por duas semanas, sendo inserido novo cateter de longa duração. Após 11

16

meses, houve novo episódio de fungemia, sem evidência de endocardite e o cateter central foi retirado. O paciente foi tratado com sucesso com anfotericina lipossomal por duas semanas (Lo Re et al., 2003).

Na América Latina, Silva et al.* (1989) apud Colombo et al. (1997), relataram cinco casos de fungemia por Rhodotorula.

No Brasil, Nucci et al. (1995) em estudo prospectivo de infecções fúngicas em pacientes neutropênicos, mencionaram a ocorrência de um caso de infecção por R.

mucilaginosa. Colombo et al. (1997) descreveram o primeiro caso de fungemia por R.

glutinis em um paciente de 11 anos com recaída de leucemia linfóide aguda, neutropênico febril e com cateter de longa duração inserido há seis meses da admissão hospitalar, sob quimioterapia e antibioticoterapia de amplo espectro. O paciente evoluiu a óbito, a despeito da utilização de anfotericina B deoxicolato 0,5-1 mg/kg com isolamento de outros patógenos em hemocultura, sangramento e choque cardiogênico.

Em 2000, Costa et al. citaram dois casos de fungemia por Rhodotorula sp . em estudo prospectivo de fungemia nosocomial no HC-FMUSP. Em 2005, Pasqualloto et al.

descreveram mais três casos de fungemia por Rhodotorula sp. em crianças com câncer e neutropenia pós-quimioterapia. Todas receberam tratamento com anfotericina B, apenas uma não removeu cateter central e todas sobreviveram ao episódio.

* Silva J, Laborda RR, Almedro G, Salim R. Rhodotorula glutinis y Rodotorula rubra: Agestes de micosis oportunistas en el hombre . Boletin Micológico. 1989; 4: 171.

17

Pode-se observar nos diferentes estudos publicados, uma grande diversidade quanto à modalidade terapêutica utilizada, uso de antifúngico sistêmico (dose total e duração) e remoção ou não de cateter central com desfechos variados em termos de clareamento de infecção.

Não há até o momento uma recomendação definitiva para tratamento destas

infecções, mas a utilização de anfotericina B associada à remoção de cateter venoso é recomendada por alguns autores para prevenir ocorrência de infecção mais grave (Samonis et al., 2001; Petrocheilou-Paschou et al., 2001; Lo Re et al., 2003).

1.5. Teste de sensibilidade in vitro a drogas antifúngicas O aumento na incidência das infecções fúngicas, a expansão do arsenal terapêutico antifúngico e a possibilidade de emergência de resistência a diferentes drogas reforçaram a necessidade de desenvolvimento de um teste de sensibilidade aos

antifúngicos que tivesse aplicabilidade clínica (Pfaller et al.,1997; Rex et al., 2001).

Estudos prévios demonstraram uma variação de até 512 vezes nos resultados das concentrações inibitórias mínimas quando os laboratórios empregaram um protocolo único não padronizado e de até 50.000 vezes quando utilizaram metodologia arbitrária para o teste (Calhoun et al., 1986; Galgiani et al., 1987).

Esforços foram realizados para superar os problemas de variabilidade

intralaboratorial e interlaboratorial e, após quase duas décadas de pesquisa, o National Committee for Clinical Laboratory Standards (NCCLS) aprovou em 1997,

padronização para teste de sensibilidade a antifúngicos pelo método de diluição em caldo para leveduras Candida spp. e Cryptococcus neoformans, documento M27-A. Em 18

2002, com o documento M27-A2 (NCCLS, 2002), sugestões para implementações no

procedimento do teste foram incluídas, além de interpretações dos resultados e intervalos de concentrações para novas drogas antifúngicas, como voriconazol e caspofungina.

Embora tenha representado avanço considerável, algumas limitações relacionadas às condições do teste e às correlações in vivo - in vitro dos pontos de corte sugeridos para diferentes combinações de droga-microrganismo ainda persistem. Neste momento, a combinação droga-levedura com maior correlação in vivo - in vitro é fluconazol e Candida (Rex et al., 2001; Rex e Pfaller, 2002).

Apesar das limitações, a padronização proposta pelo NCCLS é considerada o

método de referência para os testes de sensibilidade aos antifúngicos, devido à boa reprodutibilidade intralaboratorial e interlaboratorial (Rex et al., 2001; Cuenca-Estrella e Rodriguez-Tudela, 2001).

O grupo europeu para teste de sensibilidade aos antifúngicos, European Committee for Antimicrobial Testing (EUCAST) propôs algumas modificações no teste de sensibilidade aos antifúngicos para leveduras em relação ao método de referência do NCCLS, como a adição de 2% de glicose ao meio de cultura utilizado, um inóculo maior e determinação das concentrações inibitórias mínimas com uso de

espectrofotômetro (Cuenca-Estrella et al., 2001; Rodriguez –Tudela et al., 2001).

Cuenca-Estrella et al. (2001, 2002) demonstraram uma boa concordância entre os métodos NCCLS (1997, 2002) e EUCAST (2002), variando entre 92% e 96,8%,

dependendo da combinação droga-levedura, além de reprodutibilidade interlaboratorial (Cuenca-Estrella et al., 2003).

19

Atualmente existem dois testes disponíveis comercialmente para avaliação da

sensibilidade aos antifúngicos, com boa correlação geral com o método de referência: o Etest® (AB Biodisk, Suécia) e o Sensititre® YeastOne® (Trek Diagnostic Systems, EUA). O primeiro é um método de gradiente de difusão de concentração de droga em meio sólido e o segundo, um método de microdiluição colorimétrico. Estes métodos são mais adequados para a rotina de laboratórios clínicos devido a facilidade de execução, embora dificuldades para determinação das concentrações inibitórias mínimas também tenham sido observadas (Colombo et al.,1995; Espinel-Ingroff et al., 1999;

Chryssanthou, 2001; Morace et al., 2002).

Os resultados obtidos nos testes de sensibilidade in vitro, caracterizando padrões de concentrações inibitórias mínimas aos diferentes antifúngicos, também constituem uma informação valiosa para a caracterização microbiológica de fungos menos comuns.

Não há padronização específica do teste de sensibilidade para leveduras do gênero Rhodotorula, mas devido a características partilhadas com o gênero Cryptococcus, ambos heterobasidiomicetos, têm sido testadas através do protocolo proposto pelo NCCLS para Cryptococcus neoformans (Espinel-Ingroff, 1998; Barchiesi et al., 2000; Zaas et al., 2003; Diekema et al., 2005).

Embora existam poucos trabalhos publicados sobre o perfil de sensibilidade aos antifúngicos para espécies de Rhodotorula utilizando metodologia padronizada, concentração inibitória mínima elevada para fluconazol já foi observada por diferentes autores, mesmo aqueles que utilizaram outras metodologias (Kiehn et al., 1992; Goldani et al., 1995; Kiraz et al., 2000).

Espinel-Ingroff (1998) avaliou cinco cepas de R. mucilaginosa através do método de microdiluição em caldo de acordo com as recomendações do NCCLS de 1997. As 20

concentrações mínimas que inibiram 50% (MIC50) dos isolados e os correspondentes intervalos de variação foram de 2 µg/mL (0,25 - 4 µg/mL) para itraconazol, 4 µg/mL

(0,25 - 4 µg/mL) para voriconazol e > 64 µg/mL (0,5 - > 64 µg/mL) para fluconazol, respectivamente.

Galan-Sanchez et al. (1999) estudaram 35 cepas de Rhodotorula spp. isoladas de pele, cabelo, unhas, urina e escarro. O teste de sensibilidade utilizado foi o sistema comercial colorimétrico Sensititre® YeastOne® (Trek Diagnostic Systems, EUA) com determinação da concentração inibitória mínima após 72 horas de incubação a 35 °C.

Para flucitosina, o intervalo de concentração inibitória mínima obtido foi de 0,064 -0,25

µg/mL, para anfotericina de 0,125 - 0,5 µg/mL, para itraconazol de 0,25-1 µg/mL e para fluconazol de 32 - > 256 µg/mL.

Barchiesi et al. (2000) avaliaram a atividade in vitro de diferentes antifúngicos frente a sete cepas de R. mucilaginosa isoladas de diferentes amostras clínicas. Foi utilizado o método de microdiluição em caldo de acordo com o NCCLS (1997), com determinação de concentração inibitória mínima após 72 horas de incubação a 35 °C, considerando a diluição que inibiu 80% do crescimento em relação ao controle. Os valores encontrados foram 2 - > 4 µg/mL (MIC50 1µg/mL) para itraconazol, 2 - > 4

µg/mL (MIC50 2 µg/mL) para voriconazol, e ≥ 64 µg/mL (MIC50 > 64 µg/mL) para fluconazol.

Petrocheilou-Pachou et al. (2001) encontraram os seguintes valores de concentração inibitória mínima para cepa de R. mucilaginosa isolada de sangue: anfotericina B – 0,25

µg/mL, flucitosina – 0,06 µg/mL, itraconazol – 1 µg/mL e fluconazol > 256 µg/mL. Foi utilizado o sistema comercial Sensititre® YeastOne® (Trek Diagnostic Systems, EUA) com determinação da concentração inibitória mínima após 72 horas de incubação a 21

37°C. Ainda neste ano e utilizando este sistema comercial, Garcia-Martos et al. (2001) avaliaram seis cepas de Rhodotorula spp. isoladas de amostras clínicas, com determinação da concentração inibitória mínima após 24-48 horas de incubação a 35 °C, cujos resultados foram os seguintes: anfotericina B = 0,125 – 0,5 µg/mL, fluconazol =

64 - > 256 µg/mL, itraconazol = 0,03 - 0,5 µg/mL e flucitosina = 0,06 - 0,25 µg/mL.

Zaas et al. (2003) avaliaram 10 cepas de Rhodotorula spp . (duas R. glutinis e oito R. mucilaginosa) isoladas de sangue utilizando metodologia padronizada (macrodiluição em caldo) de acordo com as recomendações do NCCLS M27-A (NCCLS, 1997). O

seguinte perfil de sensibilidade aos diferentes antifúngicos foi encontrado, considerando 100% de inibição para anfotericina B e 80% para as outras drogas: anfotericina B = 0,25

- 1 µg/mL; flucitosina = 0,125 - 0,25 µg/mL; fluconazole = 32 - > 64 µg/mL; itraconazole = 0,5 - 4,0 µg/mL; voriconazole = 1 - > 8 µg/mL; posaconazole = 0,5-2

µg/mL; caspofungina = 16 - > 16 µg/mL e micafungina > 16 µg/mL. Não houve variação maior ou menor do que uma diluição nos resultados obtidos entre as duas espécies para as drogas testadas.

Ainda em 2003, Hsueh et al. relataram um caso de fungemia recorrente por R.

glutinis e realizaram teste de sensibilidade aos antifúngicos utilizando metodologia recomendada pelo NCCLS (1997) e Etest® (AB Biodisk, Suécia), com determinação da concentração inibitória mínima após 48 horas de incubação a 37 °C. Os valores encontrados foram 0,125 µg/mL para anfotericina, 8 µg/mL para itraconazol e > 256

µg/mL para fluconazol, sendo os resultados idênticos em ambas as metodologias.

Nos últimos dois anos foram publicados outros trabalhos sobre a atividade in vitro de drogas antifúngicas e leveduras do gênero Rhodotorula, com maior número de cepas 22

avaliadas (Preney et al., 2003; Serena et al., 2004, Gomez-Lopez et al., 2005, Diekema et al., 2005).

Preney et al. (2003) e Serena et al. (2004) não especificaram o sítio de isolamento da levedura e não precisaram o tempo de incubação utilizado para determinação de concentração inibitória mínima.

Gomez-Lopez et al. (2005) utilizaram as recomendações sugeridas pelo EUCAST

(2002), entretanto com incubação a 30 ºC, agitação de placas e determinação de concentração inibitória mínima após 48 horas de incubação. Foram avaliadas 29 cepas isoladas de diferentes materiais clínicos, sendo 12 provenientes de sangue. Apenas quatro cepas foram identificadas como R. glutinis.

Diekema et al. (2005) avaliaram 69 cepas de Rhodotorula spp., a maioria proveniente de amostras clínicas, sendo 28 isoladas de sangue, a maior casuística da literatura até o momento. O método utilizado foi microdiluição em caldo de acordo com o documento M27-A2 (NCCLS, 2002) e as concentrações inibitórias mínimas

determinadas visualmente após 72 horas de incubação, sem agitação das placas.

Os principais resultados destes estudos estão ilustrados na TABELA 1, além dos dois maiores trabalhos publicados previamente.

23

TABELA 1 - Resumo dos principais resultados publicados sobre a atividade in vitro de

diferentes antifúngicos e Rhodotorula spp.

MIC

Referência Método Espécie

(n) Antifúngico

(μg/mL)

Galan –Sanchez Sensititre®

R. mucilaginosa (14)

Anfotericina B

0,125-0,5

et al., 1999

YeastOne®