Saga de uma alma - vol. 1 - O obsessor por José Gentil Meneghim - Versão HTML

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Volume 1

O obsessor

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O obsessor

J. Gentil Meneghim

FICHA CATALOGRÁFICA

Meneghim, J. Gentil.

Saga de uma alma, vol. 1, O obsessor,

2014 / J. Gentil

Meneghim – Piracicaba/SP, 2014

199f.: 14,8x21cm

Literatura – Série

Clube de Autores, 2014

1. Espiritismo. 2. Aventura. I. Título.

II. Série

CDU -

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Esta é uma obra de ficção.

Toda e qualquer responsabilidade cabe ao autor.

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Este trabalho é dedicado às mulheres da minha vida:

Iara

Nair

Sônia

(pela ordem alfabética)

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1 . P r ó l o g o

A única coisa de que me lembro foi de um baque

surdo. Aí, uma escuridão impenetrável, não sei por quanto

tempo. Se perdi a consciência é outra história. Sei que, num

dado momento, estava vendo vultos indefiníveis sobre mim, me

despertando.

Estava deitado numa cama, como de hospital, mas

não era um hospital. Não via ali nenhum equipamento, nada

que pudesse lembrar uma enfermaria ou algo assim.

Senti que colocavam sobre minha cabeça uma

espécie de capacete e, entre um estado de sonolência e vigília,

ouvi uma voz, clara, distinta. Todas as palavras ficavam

instantaneamente gravadas em minha mente.

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2 . I n í c i o d e u m c u r s o

Estou aqui, meu caro João, para instruir

devidamente a você, como espírito desencarnado, sobre o que

tange à nossa capacidade de interferir nos destinos dos que

ainda estão vivendo num corpo, para que possamos auferir os

prazeres que possuíamos quando vivos e também nos

utilizarmos de nossos inimigos para cobrança de atos

praticados contra nós.

No que se refere aos prazeres a que nós, espíritos,

não podemos mais usufruir enquanto fora do corpo, podemos

utilizar nossos poderes, disponíveis, já que estamos no plano

imaterial, tanto para entrar em sintonia com encarnados que

usufruem daquilo que gostávamos quando vivos, como para

desses encarnados nos aproximarmos sem que sintam nossa

presença.

É preciso que entenda, no entanto, que existe um

motivo para estar aqui e, com o tempo, irá perceber que não

terá necessidade alguma de retomar vícios que possivelmente

carregasse na Terra. Serão pormenores diante das suas

capacidades.

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No que se refere aos nossos confrontadores,

também através da sintonia que com eles possamos

estabelecer, poderemos utilizar diversos métodos para

conseguir a justiça merecida, promovendo meios que possam

castigar nossos inimigos de maneira que nos aquiete a mente e

que nos sintamos lavados das injustiças recebidas.

Dentre as lições também passarei os métodos mais

práticos para que as figuras de luz não lhe impeçam de atingir

seus objetivos, uma vez que, dentre as inúmeras sintonias e

níveis que existem, elas geralmente estão num nível onde

muitas vezes não podemos perceber suas presenças,

enquanto podem saber exatamente onde estamos e como nos

comportamos.

Não podemos nos esquecer, porém, que raramente

os espíritos de luz podem interferir em nossas ações. Assim,

utilizando o livre arbítrio, que é um direito de todo e qualquer

espírito, podemos agir ao nosso bel prazer, continuando em

nosso estágio de desencarnados praticamente da mesma

maneira que quando vivíamos na Terra.

Você, como aluno novato, deve entender que a

obsessão deve ser feita com muita persistência para vencer a

sua vítima. Geralmente os encarnados se apegam a

determinadas crenças e têm fé em algo que consideram santo

ou divino e isso pode prejudicar o andamento do seu trabalho

junto a eles.

Neste caso, a principal ferramenta é buscar as

falhas que cada um tem no seu caráter, a fim de atingir a vítima

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e dobrar sua vontade. Isso pode demandar algum tempo, e por

isso posso reafirmar que é necessário persistência.

Antes disso, porém, é necessário que você

aprimore algumas técnicas que já são do seu próprio potencial,

mas que não utilizava quando era encarnado, uma vez que são

qualidades do espírito.

As lições serão passadas de forma gradativa e

pessoal, para que sejam bem assimiladas, com exercícios a

serem aplicados nos encarnados, fazendo com que fiquem

totalmente subjugados e dominados para atenderem aquilo

tudo que nossa passagem para este lado nos privou.

João, seja bem vindo à nossa Escola de Obsessão!

E boa sorte nos estudos!

Seu Mentor

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3 . S i n t o n i a

João, você, que está acordando agora no plano

espiritual, deve tomar algumas providências básicas para

adaptar-se ao seu novo estado. Seu corpo ficou na Terra e a

ele você não vai retornar. Você deve perceber que agora você

é a sua mente, que você independe do corpo, que continua

existindo e assim será até que um dia retorne a um novo corpo.

Não importa agora de que forma você deixou seu

antigo corpo, se foi por alguma doença, algum acidente ou

mesmo velhice. No momento certo irá se lembrar, mas tenha

em mente que quilo tudo ficou para trás, como ficaram as

pessoas com quem você convivia. E estou lhe chamando de

João por ter sido este o último nome que você utilizou no meio

dos encarnados. Um dia você vai descobrir que teve outros

nomes em outras vidas, mas a última foi a mais próxima e você

estava acostumado com esse nome.

A mim você pode chamar simplesmente de Mentor.

Já tenho por aqui muito tempo instruindo os espíritos e todos

só me chamam por este nome.

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Saiba que agora você está no Limbo, que é como

denominamos este local, mais perto da Terra do que dos

espíritos de luz. Você não sentirá muita diferença da época em

que vivia entre os encarnados, porque estamos ainda bastante

ligados à matéria e, portanto, será mais fácil utilizar os meios

materiais para tudo que precisarmos.

Neste plano em que agora se encontra, não será

necessário um trabalho para ganhar dinheiro e sobreviver.

Você não depende mais de alimentos materiais e não precisará

juntar objetos. Com sua capacidade, tudo que é necessário

estará à sua disposição. Não é preciso utilizar ferramentas ou

mesmo as mãos para fazer qualquer coisa. Tudo é feito através

da força do seu pensamento. Sua primeira lição prática é esta:

procurar sentir o que está ao seu redor e captar ondas mentais

para sintonizar outros espíritos ou pessoas que estão ainda na

Terra.

Mas vamos começar por espíritos. Certamente

você vai primeiro se sintonizar com outros semelhantes a você,

dado que está num determinado nível que complementa a vida

que viveu na Terra.

Pense na vida que deixou e o que você era. Se

você tinha alguma religião, esqueça-a. As religiões estão lá no

planeta que você deixou para atender as esperanças mal

formuladas dos encarnados. Todas elas possuem uma série de

regras que só servem para prender os encarnados em dogmas

e preceitos que não são mais necessários.

Aqui, você está por sua própria conta e risco e o

que fizer é de sua responsabilidade. Não se preocupe se algum

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ato seu possa estar em desacordo com a religião que tinha.

Agora você está livre do peso da carne e poderá fazer muito

mais do que antes.

Também não se esqueça de que, agora, você é

indestrutível. Nada poderá lhe fazer mal, a não ser que você

queira. Não sinta saudades da Terra e nem das pessoas com

quem conviveu. Um dia você vai reencontrar essas pessoas,

seja no plano físico, novamente reencarnado, ou no plano

espiritual, quando para cá vierem.

Se não reencontrar alguém que queria, não se

preocupe: provavelmente esse alguém estará em outro nível e

não é companhia para você. Os seus verdadeiros

companheiros estão dentro do seu nível ou mesmo abaixo

dele. São os espíritos que você vai encontrar quando tiver

praticado bem o exercício da sintonia.

Também não se preocupe em ter alguma crise de

consciência. Tendo deixado lá seu corpo, você percebeu que a

morte não existe, que é apenas uma passagem. Isso quer dizer

que você nunca vai morrer, terá uma eternidade pela frente

para fazer o que bem entender.

E pense que, mesmo que faça hoje alguma coisa

que possa parecer errada aos pontos de vista de qualquer

religião, a eternidade que está à sua frente servirá para que

você possa sanar qualquer ato praticado contra algum

desafeto.

Então, sentiu alguma sintonia? Está sentindo uma

vibração em sua mente? Certamente trata-se de algum outro

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ser que está no seu nível e com quem você poderá ter um

relacionamento que vai lhe ajudar na prática de sua nova vida.

Concentre-se mais nessa vibração que está

sentindo e poderá reconhecer esse novo parceiro, encontrar-se

com ele. Com o tempo você poderá instantaneamente estar

junto a esse ou a outros que estejam vibrando no mesmo nível.

Muito bem, agora é hora de chamar até si o espírito

que sintonizou. Como sua passagem é muito recente, é preciso

se acostumar ao seu novo estado para poder se movimentar.

Então, o mais prático é chamar até você esse espírito.

Não se preocupe que ele o ouvirá e virá até aqui.

De hoje em diante serão companheiros de trabalho, e ele

poderá auxiliar você nos próximos passos deste curso.

Lembre-se de que este curso é totalmente direcionado a você e

às suas necessidades. Ao contrário do que ocorre na Terra,

você não participa de uma turma: trata-se de um curso

totalmente personalizado e o seu progresso é que irá direcionar

o andamento desse aprendizado.

A partir de agora, pratique melhor essa sintonia

junto com seu companheiro. Não se esqueça de que esse

método fica muito mais forte quando realizado em grupo.

Prepare um relatório do seu aprendizado e de suas

dúvidas para a próxima aula.

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4 . L i b e r d a d e

Estou particularmente satisfeito em participar deste

curso, tendo um mentor especial para minhas necessidades

neste plano. Confesso que fiquei surpreso ao acordar aqui,

depois de passar pelo medo de não saber o que iria encontrar

no pós-morte. Em minha ignorância pensava que iria encontrar

uma luz brilhante e um grupo de seres luminosos me

esperando.

Não sei se por causa de meu comportamento

nessa última vida, acordei num local totalmente diferente, sem

aquelas histórias que ouvi na Terra, sem pessoas conhecidas

que estivessem me aguardando para me levar a algum lugar

tranquilo.

No entanto, logo que acordei encontrei alguns

espíritos que não brilhavam, mas pareciam com pessoas vivas,

como se ainda estivesse também vivo. Também não me

pareceram pessoas (desculpe-me falar em pessoas, mas

preciso ainda me acostumar com a palavra espírito – foi muito

recente a minha passagem e estou me adaptando às novas

circunstâncias), como dizia, também não me pareceram

pessoas ruins, e sim normais, como eu.

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Através deles fui informado que meu estágio no

corpo que tinha havia acabado, e que agora eu deveria viver

um novo estágio, onde iria aprender coisas novas e poder

continuar na minha caminhada.

Uma voz em meu cérebro me dizia que estava para

começar uma nova etapa – e era a sua voz, Mentor, agora me

lembro.

Quando acordei, me sentindo bem melhor, até

mesmo mais forte, perguntaram-me o que pretendia, agora que

já tinha abandonado o corpo, quais eram os meus objetivos e

como eu me sentia.

Devo dizer que me sentia um tanto abobado, mas

era com a situação, sem saber exatamente onde estava e o

que fazia, mas me instruíram, depois de um bom descanso, a

procurar por esta escola, onde poderia ter um direcionamento

melhor para os meus propósitos.

Ainda não me acostumei totalmente a esta forma

espiritual, mas já pude aprender alguns fatos interessantes.

Minha memória, por exemplo, ainda traz muito do que vivi

naquele corpo que deixei, e se mostra muito mais acentuada

quando me lembro de algum fato, como se os vivenciasse

novamente. Não me lembro de tudo, no entanto. Parece que

certos fatos estão envoltos numa bruma, ainda inacessíveis ao

meu conhecimento.

Sei que não é preciso, neste relatório, contar toda

minha vida. Mas também me instruíram os que me receberam,

a me focar nos principais aspectos de minha vida pretérita,

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principalmente no comportamento que tive com determinadas

pessoas e como fui tratado por elas.

Assim, fui me lembrando de pessoas que não me

levaram a sério, outras que me desprezaram, algumas que me

prejudicaram por pura maldade, e essas lembranças me

trouxeram um forte desejo de vingança.

Comentei com os espíritos que me recepcionaram

dessa vontade de me vingar de quem me prejudicou e foi

assim que me indicaram esta escola.

Gostei de saber que agora sou praticamente

indestrutível, que não posso ser notado por aqueles que estão

ainda vivendo na Terra e que não preciso mais trabalhar, nem

me arrebentar atendendo ordens de superiores, nem me

preocupar em pagar contas. Essa liberdade me dá um prazer

imenso.

Você, meu Mentor, me disse que posso utilizar este

estágio para resgatar os males que recebi de pessoas com

quem convivia e que não preciso, pelo menos por enquanto, ter

crise de consciência. Isto não me preocupa atualmente, porque

ainda estão bem vivas as lembranças de pessoas que me

prejudicaram e de quem quero me vingar. Uma delas é a que

mais se sobressai nisso tudo, mas os motivos ainda não me

são claros.

Se eu tenho a eternidade toda para me recuperar,

este não é o momento para ter crise de consciência.

Com relação ao material que me passou na

primeira aula, tenho praticado bastante e sei que vou precisar

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utilizar esse recurso inúmeras vezes. O primeiro contato eu já

consegui no primeiro dia: trata-se de um espírito que tem muito

a ver comigo, até parece que somos irmãos.

Com mais exercícios pude perceber outras

sintonias diferentes, e algumas até me assustaram, por se

mostrarem muito fortes, pesadas. Ainda preciso descobrir de

quem são esses pensamentos, mas, para isso, creio que

preciso manter o controle sobre o que estou recebendo.

Eu não o conhecia antes, mas, em conversas,

vimos que passamos por situações bem parecidas e ele me

colocou a par do que anda fazendo para ajustar sua situação

com as pessoas que o maltrataram na vida. Está já há mais

tempo que eu por aqui e tem conhecimento de coisas que

ainda não sou capaz de fazer.

Garantiu-me, no entanto, que logo poderei utilizar

melhor meus poderes mentais e que vai me ajudar em tudo.

Ele tem alguns companheiros com quem troca

ideias e está providenciando uma reunião com todos, já que

muitos estão trabalhando na Terra, atrás dos inimigos ou

mesmo tirando alguns momentos de lazer.

Aliás, essa é uma novidade para mim: também

podemos tirar nossos momentos de lazer neste plano? E como

isso é feito?

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5 . T e l e p o r t a ç ã o

Pude perceber que você aproveitou bem a primeira

lição. Já encontrou um parceiro para lhe ajudar com o que

pretende fazer e consegue alguma sintonia com outros

espíritos que vibram de maneira semelhante à sua. Com

relação aos espíritos cuja vibração você sentiu pesada, por

enquanto não se aproxime muito deles. Estão muito abaixo

daquilo que você quer e é preciso aprender a separá-los de

sua convivência.

Mostre-se orgulhoso e superior a eles, já que não

merecem ainda alcançar o nível em que você está. Isso, por si

só, irá afastá-los durante o tempo necessário para que você

aprenda alguns mecanismos de defesa.

Lembre-se, e isso é importante: se você mantiver

sintonia com os inferiores, ficará no mesmo patamar que eles e

não conseguirá forças para dominar os seus inimigos.

Para seu conhecimento já treinei espíritos muito

inferiores, e o aprendizado não foi bem aproveitado. São

teimosos e irascíveis e não possuem um nível intelectual

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semelhante ao seu. Suas ligações são com marginais terríveis,

que ainda vivem no planeta, e que se prestam aos piores

crimes.

Não se esqueça de que você quer retaliação sem

precisar chegar a extremos. Só assim poderá alcançar seus

objetivos.

Esse companheiro que você encontrou já foi meu

aluno e, quando você estiver mais próximo dele, verá que

conseguiu todo seu intento. Hoje se sente vingado e está mais

aproveitando de sua condição do que propriamente

trabalhando.

Os eflúvios que ele consegue captar dos

encarnados lhe trazem tudo que necessita para manter os

hábitos que tinha na Terra, embora não goste de comentar

sobre isso. Gostava de fumar, de beber, de vez em quando

utilizava alguma droga, e isso tudo pode ser conseguido

através dos que ainda têm esses hábitos. Tudo, porém, precisa

ser feito com muito cuidado e a melhor instrução eu já lhe dei:

como espírito, você não tem necessidade dos vícios dos

encarnados.

Mas isso é assunto para outra lição, no futuro. Por

enquanto, continue praticando para aprimorar a sintonia que

tem com seu companheiro e, quando se encontrar com os

outros, poderá melhorar seu potencial.

Nosso assunto de hoje é sua movimentação. Como

percebe, você não precisa andar por aqui. Isso é um tanto

difícil para seu estado atual, mesmo porque, na realidade, você

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não tem um corpo. O que você percebe como corpo é o seu

perispírito, feito de um fluido especial que traz a sua imagem tal

e qual era na Terra. Você poderá, com o tempo, transmutar

essa imagem, se apresentando da forma que bem entender, ou

seja: poderá parecer mais jovem, poderá se mostrar diferente

do que é. Mas, não podemos apressar seu aprendizado.

Vamos tratar de sua locomoção. Onde estamos, e

já lhe falei que chamamos este lugar de Limbo, é o local onde

ficam os espíritos que não vão chegar perto dos terríveis seres

da luz. Aqui você vai encontrar locais diferentes, até mesmo

uma casa para fixar residência. Se quiser, poderá ir morar com

seu novo companheiro, e ele vai lhe mostrar todo nosso nível.

Para você chegar a algum local, bastará ter na

mente a visualização de onde pretende ir e, automaticamente,

vai estar lá, num segundo. Só é preciso, como lhe disse,

conhecer o local. Também poderá se aproximar de espíritos

conhecidos, tanto encarnados quanto desencarnados, desde

que estes estejam aqui, no Limbo. Para isso, basta se

concentrar em quem você quer encontrar.

Este é um processo que poderá demorar um pouco

mais para você dominar, e o melhor caminho é juntar-se ao seu

companheiro e juntos pensarem na locomoção para um mesmo

lugar. Nas primeiras vezes que isso ocorrer você poderá se

sentir meio perdido, o que é natural. Depois será tudo mais

fácil.

Vou insistir em que não faça sozinho nas primeiras

vezes, isso é muito importante, principalmente para não cair

nas mãos dos inferiores. Eles não são como você, não têm

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escrúpulos nenhum, e poderão mesmo mantê-lo entre eles, o

que não lhe dará a liberdade necessária para seus planos.

Gostam de trabalhar somente em grupo e não

conhecem limites para suas vontades. Não sabem pensar,

articular um plano de vingança, indo somente pelos instintos e

praticamente atacando os encarnados atrás da irradiação de

sentimentos e hábitos dos mais primitivos que ainda moram na

Terra e que, fatalmente, vão se juntar a eles quando

desencarnarem.

Pense que você é diferente e superior a esses

espíritos. Seu objetivo é tramar a vingança certa contra as

pessoas que lhe fizeram mal e, para isso, precisa estar muito

certo desses sentimentos.

Quando estiver se movimentando pelo Limbo com

seu parceiro, você conhecerá outros espíritos que se

assemelham ao seu e poderá trocar experiências com eles.

Vão lhe falar como conseguiram o que queriam e ajudá-lo a

projetar sua vingança.

No entanto, ainda não tente nada, nem procure

voltar à Terra no momento. Com o tempo aprenderá que a

Terra está a um passo de distância e num momento você

poderá estar lá e voltar.

Pode começar a treinar, e boa sorte.

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6 . A p r e n d e n d o

Posso garantir que esta segunda lição foi bem

assimilada. Estivemos treinando, eu e Pedro (que é o nome do

meu parceiro – pelo menos era esse o nome que ele usava na

última vida que teve).

Nosso treinamento, de início, baseou-se em locais

próximos, como se estivéssemos numa brincadeira, com Pedro

permanecendo em algum local que eu antes já tinha visto, me

concentrando nele e no local e, subitamente, lá aparecendo,

como num passe de mágica. Confesso que foi divertido.

Pelos locais que passamos vimos outros espíritos,

muitos deles parecidos conosco em vestimentas e modo de

agir. Não sei se isso é me adiantar no curso, mas nas

conversas que tivemos – Pedro me apresentou alguns deles –

notei que todos estão empenhados em conseguir algo dos que

ainda estão encarnados.

Um deles, que disse se chamar Marcos, contou-me

que, tendo já completado mais da metade do curso, já tinha

acesso a um encarnado que ficou lhe devendo dinheiro e ele,

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Marcos, como sempre foi muito ligado a valores materiais,

estava usando sua influência para que o encarnado gastasse

mais do que podia com coisas supérfluas.

– Aqui eu sei que não preciso do dinheiro, mas

aquele que ele utilizou era meu, e ele só não me pagou porque

não quis -, disse-me Marcos. Então, para me vingar, estou

fazendo com que gaste tudo à toa. E olha que não para aí, não.

Ele vai gastar muito mais do que ele me tomou, para pagar os

juros e correção que são devidos.

Pedro também me apresentou André, que estava

trabalhando contra outro encarnado, que tinha lhe tirado a

esposa. André disse que os dois viviam até que bem, pelo

menos enquanto esse elemento não havia aparecido em suas

vidas. Trabalhavam juntos e começaram a conviver, André e

ele se visitando, as esposas criaram amizade.

Mas, num determinado dia, André encontrou esse

pretenso amigo em sua casa, com sua própria esposa.

Constatou que havia algo entre eles e, tomado de uma grande

raiva, expulsou os dois de sua casa. Para o falso amigo, aquilo

não tinha sido mais do que uma mera conquista e para ele,

André, tinha sido o fim do casamento.

Enquanto vivo, nunca ficou sabendo o que tinha

ocorrido com sua esposa. Só depois de livrar-se do corpo e

estar no Limbo ficou sabendo que ela se perdera na

prostituição e nas drogas. Havia sido expulsa de casa e

confiava que o amante a manteria, mas o objetivo dele era só

obter prazer com ela e prejudicá-lo.

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– Mas esse foi o caminho que ela escolheu – me

falou – e não tenho nada com isso. Vivia bem comigo, por que

é que tinha que se meter com aquele fulano? Expulsei mesmo

e faria novamente. Eu deixei o corpo muito cedo, ela ainda está

lá. Já a visitei algumas vezes e ela ainda vai se ver comigo. Por

enquanto estou cuidando do meu “grande amigo”. Quando

acabar com tudo que ele tem, vou atrás dela.

Tudo isso fica cada vez mais interessante e me

deixa com uma vontade enorme de começar meu trabalho. Em

minha cabeça estão todos aqueles de quem quero me vingar,

principalmente algumas mulheres que me enganaram, e isso já

serviu como motivo para que eu deseje ainda mais essa

vingança.

A teleportação é um meio fascinante de se

movimentar, já senti isso. Mas, ao mesmo tempo percebo que

deixa a gente um tanto cansado. Segundo Pedro, isso é porque

no nosso estágio é mais difícil a locomoção. Falou-me que não

somos espíritos de luz, mas também atentou:

– Ou é uma coisa ou outra. Se você fosse um

espírito de luz até que poderia ser menos cansativo, mas aí

você estaria perdendo o doce sabor da vingança. Uma coisa é

se arrepender e perdoar, mas você quer isso?

– De forma alguma – respondi. Os que me fizeram

mal, vão ter que pagar!

– Então, a melhor maneira é, pelo menos por

enquanto, não se arrepender. Conseguir o seu objetivo. Não

esquece que você vai ter muitas vidas pela frente para se

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arrepender. Quando tiver uma vida que lhe seja melhor, onde

possa usufruir das coisas boas da vida, aí sim vai ter tempo de

se arrepender.

Voltando ao nosso treinamento, tanto André como

Marcos também me ajudaram nos exercícios, e até agora não

encontrei mais dificuldades. Consegui saltar da casa de um

para a de outro e creio que estou pronto para passar às

próximas lições.

Continuo sentindo, no entanto, algumas emanações

mais pesadas, vindas de um local que Pedro me mostrou de

longe, dizendo que ainda não é hora de ir até lá.

– Lá estão os piores, João. Nós estamos só

querendo o que por direito é nosso. Mas aqueles que estão lá

são da pior espécie. É um bando de assassinos e ladrões que

você não vai querer como amigos. Deixe a energia deles de

lado. Pode ter certeza que eles querem você no meio deles,

mas não vá de forma alguma.

Como não quero perder de vista meu objetivo, só

posso obedecer a esse aviso de meu amigo.

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7 . U m p a s s e i o p e l o L i m b o

Já se passou um bom tempo desde que comecei o

curso. Foram só duas lições, mas os exercícios são

demorados, é preciso aprender direito e praticar mais e mais

para chegar ao que quero.

Hoje o Mentor nos deu folga, a mim e a Pedro, para

andarmos mais pelo Limbo, e Pedro quis me mostrar um pouco

do outro lado, aquele lado ainda mais escuro do que aqui.

E isso foi o que ainda não comentei. Na Terra,

havia dias de sol brilhante, com poucas nuvens, brisa fresca e

paisagens fantásticas para se apreciar. Aqui é muito diferente.

Os dias são sempre cinzentos, a gente não vê flores, não vê

árvores. É tudo muito sombrio. Até mesmo as casas, onde

residem os espíritos, não têm qualquer cor. São sempre

cinzentas, e tudo varia do cinza claro ao cinza escuro.

Segundo Pedro, isto é por causa do nosso nível de

vibração.

– O Mentor já me disse que há locais onde existe

muita luz, mas é um lugar onde todo mundo é obrigado a

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trabalhar muito para ajudar os outros. Pode até ser que algum

dia a gente chegue lá, mas não tenho essa intenção por um

bom tempo. Ainda quero me divertir muito e quem está

encarnado é um parque de diversões para nós.

– Você vai ver – continuou – quando estiver atrás

de alguma vítima, que é diversão pura. Quando conseguir

sanar as dívidas dos seus inimigos, sempre vai ter alguém de

quem se aproveitar. Mas é preciso seguir as lições direitinho,

senão a gente pode despencar lá naquele abismo negro.

– Abismo negro?

– De onde vêm essas vibrações que a gente vive

sentindo, João. Qualquer hora levo você lá perto.

Então, hoje, cobrei essa visita de Pedro.

– Você acha que já está preparado?

– Por que não?

– É que a energia deles é bastante forte. A gente

não pode ser visto nem sentido por perto, eles podem usar até

força bruta pra nos arrastar. Sem contar que os mais fortes, os

que se julgam donos do lugar, utilizam a hipnose para prender

os espíritos mais sugestionáveis.

– Hipnose? Tem disso aqui?

– É claro. Como é que você acha que os

encarnados fazem o que a gente quer? A gente vai

sugestionando, aos poucos, insistindo no que queremos e, com

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o tempo eles ficam totalmente dominados. Não tem outro jeito

melhor de trabalhar. Mas, vamos lá, vamos!

Como nós já tínhamos treinado o suficiente de

teleportação, foi um instante até que estivéssemos num portal

bem mais sombrio. Se onde estávamos era cinza, e já

assustava, aquilo era de amedrontar. Não era exatamente um

portal, era como se fosse mesmo um abismo negro.

Parecia até que a pouca luz que havia do nosso

lado fugia para dentro do que Pedro chamara de Abismo. Não

dava para ver quase nada. Se fosse mesmo para descobrir o

que havia lá, era preciso entrar. Mas, como entrar se de dentro

saíam gemidos, uivos, gritos horríveis e palavras (ou seriam

palavrões?) em brados?

Olhei assustado para Pedro:

– É daí que vem a energia?

– Você está tão assustado com o que vê que não

percebeu a energia forte que vem de lá?

Alertado, detive-me na observação mental da

energia, era algo muito, mas muito forte mesmo, que dava a

impressão de querer me arrastar para dentro.

– Fique calmo e não se deixe envolver. Afinal, seu

nível é o daqui. Se por acaso entrar por esse portal, arrastado

pela energia, você ficará preso lá. Não se esqueça de que seu

objetivo é outro.

– E esses gritos, uivos, gemidos...?

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– São dos espíritos presos. Ali estão os piores

assassinos, a escória da raça humana. Perto deles somos

espíritos de luz. Nunca avancei mais do que este ponto, onde a

gente pode se sentir seguro. Mas sei que lá dentro é o que a

gente chamava de inferno, quando éramos vivos.

– Além desses que você está ouvindo – continuou –

que são os presos, estão ali as piores bestas que pode

imaginar. Segundo o que o Mentor me contou, nem aparência

de gente eles têm. Alguns são verdadeiros monstros, uma

mistura de animais horripilantes. Aliás, acho que nenhum deles

carrega mais a forma humana... Eles deixaram brotar de dentro

os animais que foram quando começaram a evoluir. Mas ainda

mantém a consciência que conseguiram, e por isso uivam

assim...

– Será que isso é arrependimento?

– Acho que deve ser, João. Eles exageraram na

dose... Em vez de ficarem assim como estamos, só querendo

justiça, foram fundo na vingança. Depois de algumas

encarnações, que não souberam aproveitar direito, vieram

direto pra esse lugar, e aí vão ficar até que algum dos espíritos

de luz se lembre deles e leve pra algum lugar mais calmo.

– Tem disso também, é?

– Não esquenta com isso agora, João. Você está

aqui com espíritos iguais a você, que querem fazer justiça. Se

a gente for esperar a justiça que vem lá de cima, olha lá... Vai

ser uma eternidade e você talvez nem saiba que quem te fez

mal pagou alguma coisa.

32

O obsessor

J. Gentil Meneghim

– Olha, eu já estou ficando preocupado... Será que

vale a pena me vingar?

– Já falei, não esquenta com isso agora. Vingança

tem pra todo lado e eu não vou dar o perdão a quem me fez

mal. Fez mal pra mim, vai fazer pra mais gente. Então, tem que

sofrer pra ver que fez errado. E, olha bem, se não for eu a

castigar, quem me fez mal tem que pagar de qualquer jeito. Aí

vem outro espírito e vai fazer o sujeito sofrer. Então, melhor

que seja eu mesmo, assim, tiro as minhas satisfações.

– Pedro, será que é isso mesmo?

– Olha só, meu caro, até mesmo os mais

fervorosos dos velhos tempos se vingaram. Você ainda vai

entender isso. Os que viveram no começo da igreja sofreram o

martírio nas mãos dos romanos, porque não queriam

abandonar a crença. Foram queimados, torturados, perderam a

cabeça e atirados aos animais selvagens. Acha que ficou por

isso mesmo? Você estudou história? Já ouviu falar da

Inquisição? Então, fique sabendo, a maior parte dos que

morreram na época da inquisição foram mortos por quem eles

mataram na época do martírio dos cristãos. Se até eles se

vingaram, por que é que a gente não pode se vingar?

– Bom, vendo por esse lado...

– É claro que é assim, meu caro. É claro que é

assim. Agora, você acha justo sofrer na pele uma série de

ataques e deixar por isso mesmo? Eu não acho. E, se quer

saber, não estou nem um pouco preocupado se vou pagar por

isso. Mas aí a gente tem que ser meio sacana, entende? Tem

33

O obsessor

J. Gentil Meneghim

que provocar sem se envolver demais. A gente tira o proveito

necessário e não fica com tanta dívida.

– Não complica pro meu lado, Pedro.

– Tenha calma que você vai aprender... Mas,

vamos voltar. Não é muito bom sentir essas energias tão

baixas. A gente pode ficar contaminado.

Tudo isso me deixou um pouco preocupado. Não

disse nada a ele, mas deu pra perceber que sua vontade de

vingança ficou maior ali na entrada no abismo. Será que só o

fato de chegar perto daquele lugar já fazia com que a gente

sentisse mais raiva dos inimigos?

Interessante: eu me dei conta que também estava

com mais raiva. A proximidade do abismo também incentivou

dentro de mim a vontade de me vingar. Só queria, naquele

momento, continuar o que estava aprendendo para por em

prática minha vingança. E, lá no fundo, já me começaram a

surgir algumas ideias para isso...

Pensamos em nossas casas e no mesmo instante

já estávamos de novo perto delas. Até que respirei aliviado. O

cinzento dali até parecia um céu azul, se comparado ao que eu

tinha visto. Agora, é aguardar a próxima aula. Vou ter muito

que perguntar ao Mentor.

34

O obsessor

J. Gentil Meneghim

8 . S u g e s t ã o e h i p n o s e

Tenho acompanhado seus passos e sei que Pedro

lhe levou até a porta do abismo. Ele seguiu minhas

recomendações para lhe mostrar em que nível você precisa

permanecer. Aquele lugar está muito mais populoso que o

nosso, e a grande maioria dos seus ocupantes são espíritos

que passaram por aqui e acabaram caindo numa tentação

maior. Como consequência, os espíritos de luz os puniram e os

deixaram no patamar mais degradado do espiritualismo.

Agora, João, pelo que você me mostrou, já está

dominando bem a técnica de teleportação. Esse passo é muito

importante, você sabe, já que é seu meio de locomoção, tanto

aqui no Limbo quanto quando for visitar os encarnados.

Vamos então aprender mais um passo, que

também será de muita importância para os seus planos:

trabalhar com a mente dos encarnados. O primeiro ponto que

você deve tomar consciência é que eles não podem ver você, a

não ser um ou outro médium que tenha a capacidade de ver

espíritos. E desses é melhor você não se aproximar, eles

35

O obsessor

J. Gentil Meneghim

podem utilizar em você os poderes dos espíritos de luz e

acabar com seu trabalho.

Também há algumas pessoas que podem sentir a

presença de algum espírito, mas isso eles demonstram na hora

ou até mesmo falam. O encarnado, na maior parte das vezes,

precisa demonstrar ter algum “poder” e o primeiro deles é sentir

a presença de alguém invisível.

Mas não se preocupe com isso. Para colocar em

prática seus planos só é necessário que você esteja por perto

de sua vítima a sós, principalmente à noite, até mesmo

entrando nos sonhos dela. E isso é fácil fazer. Quando a

pessoa dorme, o espírito dela sai do corpo por um tempo e o

sonho geralmente é o encontro com algum desencarnado,

principalmente se a pessoa tem a consciência culpada.

É dessa consciência culpada que você precisa se

aproveitar. Com o tempo você vai aprender melhor como

utilizar o fluxo de energia que você recebe de sua vítima, fluxo

que pode ser visto nos chacras, os centros de energia que

todos têm. Mas isso é para as aulas futuras.

Como vamos trabalhar primeiro com um deles, e

você precisa saber quem é essa vítima: tem que ser bastante

conhecida sua, você tem que conhecer suas falhas de caráter,

de moral, os defeitos que os encarnados e nós também todos

temos. Veja que, para nós, não vamos considerar isso como

falhas de caráter, porque elas é que são nossas armas.

Precisamos ter essas armas prontas para poder utilizar em

nossas vítimas.

36

O obsessor

J. Gentil Meneghim

Escolhendo sua primeira vítima, que será também a

sua primeira experiência como obsessor, é preciso ter

paciência para entrar em sua mente. Acompanhe-a durante um

certo tempo, sem se envolver com ela, e veja o que está

fazendo. O fluxo de energia que virá dela vai lhe demonstrar o

que está sentindo, como está seu espírito. E aí é que vai estar

o seu ponto focal: na falha.

Aos poucos você irá sugestionando sua vítima,

envolvendo-a com sua aura, abraçando-a espiritualmente. E

poderá falar no seu ouvido, sempre repetindo as mesmas

palavras. Isso vai fazer sua vítima pensar que são seus

próprios pensamentos, e irá se acostumar com eles, pensando

que são a sua vontade.

Essa sugestão é seu primeiro passo para hipnotizar

sua vítima, fazendo-a achar que ela própria é quem está

pensando e irá agir segundo esses pensamentos.

Não preciso lhe dizer que as palavras que você

disser deverão ser voltadas ao objetivo que você tem em

mente. Se, por exemplo, você quiser que ela entre em conflito

com alguma outra pessoa, deve sempre falar contra essa

determinada pessoa, fazendo-a sentir raiva, inveja ou qualquer

outro sentimento que possa criar o conflito.

Pode ser que você encontre junto com sua vítima

um outro obsessor, que já se apoderou dela e a comanda. Se

isso ocorrer, sua primeira providência é se tornar parceiro

desse obsessor, fazendo-o ver porque está interessado nessa

vítima em particular. Junto a ele, com certeza, encontrará a

ajuda necessária, principalmente se falar em meu nome. Não

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O obsessor

J. Gentil Meneghim

se esqueça de que seu obsessor foi treinado aqui, no Limbo, e

deve ter sido aprendiz ou meu ou de meus iguais, instrutores

de outras equipes.

Sobre um fato você precisa ser cuidadoso: se quer

atingir seu objetivo de vingança, não poderá sugestionar ou

hipnotizar demais sua vítima. Uma vez que esteja a situação

sobre seu controle, afrouxe um pouco, não tenha pressa. Se

esse encarnado cair totalmente sob seu poder, perderá a

razão, a capacidade de pensar por si próprio, e dependerá

única e exclusivamente da sua vontade. Em vez de uma

obsessão, haverá uma possessão. Você é quem estará

pensando por ele. Aí, fatalmente, toda a culpa recairá sobre

você, o que não é bom.

Não se esqueça do que lhe disse no início desta

lição: o patamar do Abismo está repleto de espíritos que não

seguiram essa recomendação e acabaram destruindo suas

vítimas, no afã de vingança.

Sua atividade deverá sempre ser assim: um

envolvimento substancial, que trará o encarnado sob seu

comando, e um afastamento seu, quando ele terá ainda todas

as sugestões que lhe foram dadas, pensando que são ideias

próprias.

Poderá acontecer de sua vítima apresentar alguma

consciência culpada, depois de algum ato cometido, e você

precisa estar alerta, precisa estar próximo, para fazê-la voltar a

pensar como antes. Essa consciência culpada poderá fazer

com que pressinta que não é próprio de seu caráter agir

38

O obsessor

J. Gentil Meneghim

daquela forma e repensar o que fez, até mesmo se arrepender

e voltar atrás.

Aí, todo seu trabalho terá que ser recomeçado.

Mas, não se preocupe. Seguindo os passos direito,

você conseguirá sucesso nesse trabalho. Agora, vá. Procure

Pedro, que é meu discípulo há muito tempo, e com ele você

poderá tirar dúvidas e outras informações necessárias.

Antes de retornar à Terra será interessante

participar da reunião com outros obsessores, para que lhe

contem as próprias experiências.

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O obsessor

J. Gentil Meneghim

9 . A r e u n i ã o

Naquela noite – noite, parecia ser noite, já que tudo

sempre era tão cinzento. A diferença é que o cinzento da

“noite” era mais escuro – Pedro me levou para minha primeira

reunião com os espíritos de nossa turma. Isso acredito que

ainda não tenha comentado: os espíritos vingadores, que é

como somos chamados, são divididos em turmas que ficam

alojadas em locais diferentes, em grupos que não ultrapassam

vinte espíritos cada.

Segundo o que me disse Pedro, isso era para que o

Mentor pudesse ter um controle maior sobre as atividades de

cada grupo e também para criar equipes de trabalho, quando

necessário.

– Equipes de trabalho?

– É, quando fica muito difícil para algum espírito

vingador conseguir seus objetivos, é necessário criar uma

equipe. Assim, com todos buzinando na consciência do

encarnado, fica mais fácil conseguir o domínio dele.

40

O obsessor

J. Gentil Meneghim

As reuniões eram marcadas sempre no período

“noturno”, num salão especial para isso: mesa posta com

petiscos e bebidas para todos. Isso me surpreendeu. Ainda não

tinha visto alimentos e bebidas no Limbo. Nós, espíritos,

também precisamos comer?

– De certa forma, não – disse Pedro. – A gente se

alimenta de fluídos, principalmente quando estamos no

trabalho. E os fluídos a gente pode conseguir através dos

encarnados. Tudo que eles comem e bebem exala um fluído

que podemos usar como alimento. Pense que a gente só

precisa alimentar nossos sentimentos. O alimento daqui

também é feito de uma espécie de fluído, um ectoplasma

moldado de acordo com os pensamentos que temos.

Estávamos chegando junto com outros, alguns que

estavam mais ou menos no mesmo estágio que eu, ainda

aprendendo, e outros que vinham da Terra, onde já estavam

trabalhando.

Estranhei não ver nenhum espírito aparentando ser

mulher entre eles. Só havia espíritos masculinos.

– Isto é importante para que tenhamos resultado no

nosso trabalho – esclareceu Pedro. – Os espíritos femininos

ficam em outro local, também separados em equipes. Aqui

estamos muito próximos de nossos desejos carnais, e

precisamos direcionar esses desejos para os encarnados. Se

ficarmos aqui, usufruindo deles, e é uma coisa que podemos

fazer, não teremos a força necessária na hora do trabalho.

41

O obsessor

J. Gentil Meneghim

Pedro me apresentou aos que já estavam lá. Em

todos eles eu via a expressão amargurada e surrada de

pessoas que sofreram na pele os atos mais estranhos e

mórbidos, enquanto estavam vivos, e ali só apresentavam a

nítida vontade da vingança.

Era uma reunião estranha: nada de todo mundo

sentado, ouvindo uma apresentação ou coisa assim.

Formavam-se grupos e as pessoas conversavam. Tudo apenas

com a finalidade de passar experiências e melhorar o

aprendizado. Foi aí que percebei que o objetivo maior era que

nós, novatos, pudéssemos nos integrar.

Ficamos conversando, eu e Pedro, com Marcos e

André, que eu já conhecia desde meu treinamento de

teleportação. Marcos estava trabalhando com seu inimigo da

última vida, a quem tinha fornecido muito dinheiro e que lhe

deu um golpe, em consequência do qual acabou falido e

depressivo, depois caiu doente, desencarnando de maneira

muito sofrida, sozinho, sem atendimento médico ou de

qualquer outra pessoa.

– Quando a gente tem dinheiro, na Terra, todos

bajulam, todos são amigos. Aí, quando se perde tudo é que a

gente fica sabendo quem são mesmo os verdadeiros. E, olha,

João, eu não tinha nenhum amigo verdadeiro. Tomei um golpe

enorme desse que era um sócio e que acabou me roubando

tudo. Quando se sentiu dono da situação, me expulsou como

um cachorro da empresa, ficando com tudo que era meu.

– Burro fui em acreditar nele – continuou. – Eu

pensava que estava investindo para que tivéssemos um futuro

42

O obsessor

J. Gentil Meneghim

tranquilo. E não foi nada disso. Deixei que cuidasse dos

assuntos administrativos da empresa e, quando percebi, já

tinha tudo sob controle. Eu não podia apitar mais nada.

Colocou um amigo no meu lugar e simplesmente me expulsou.

Lutei como pude para provar que ele tinha me dado o golpe,

mas não adiantou nada. Até a justiça lhe foi favorável. Acabei

na miséria, com uma depressão terrível, sem condições de me

levantar novamente. Depois, caí de cama com uma doença

que nem sabia o que era, não me alimentava, fui definhando e

morri sozinho, num quartinho isolado, sem uma alma pra me

ajudar. Quando acordei, com aquela raiva surda que sentia

dentro do peito, me encontrei aqui.

– Agora – prosseguiu – já estou conseguindo minha

vingança.

– Como é que você conseguiu se aproximar dele? –

perguntei.

– Bom, chegar no encarnado é fácil. Basta a gente

se lembrar dele, invocar no pensamento e voltar a ter os

mesmo sentimentos que a gente tinha quando vivos.

Automaticamente estamos ali, encostados no fulano. E foi fácil

me aproximar: ele estava num dos momentos de raiva e dando

bronca em seus subordinados, e sempre por causa de lucro, de

dinheiro fácil. Deu pra ver um fluxo saindo do coração dele,

gosmento, de uma cor amarelo-sujo, e aquele fluxo se

estendia, cercando tudo que ele acha que é seu.

– Nós enxergamos esse fluído que sai das

pessoas? Aqui eu não vejo nada.

43

O obsessor

J. Gentil Meneghim

– Isso porque você ainda não se concentrou. Se

você se concentrar, vai enxergar, tantos dos vivos quanto dos

desencarnados. Mas dos encarnados é mais fácil. Como a

gente está no plano espiritual, e o fluxo é formado de matéria

do plano espiritual, nós conseguimos ver facilmente. O fluxo

dele, então, nem se fala. Aquilo toma conta da empresa toda.

Ele procura saber o que acontece do mais baixo até o mais

alto, quer tudo nos mínimos detalhes, não perde nada. E

sempre fica pisando duro nos empregados, nunca tem uma

palavra de elogio. Pelo contrário: sempre que pode, está

humilhando.

– Chefe sempre é assim... – comentou Pedro.

– Não, Pedro, nem sempre. Eu mesmo fui chefe de

muita gente e nunca agi desse jeito.

– Vai ver foi por isso que ele roubou tudo que era

seu.

– É, acho que foi por isso. Eu confiei demais nele. E

ele nunca se mostrava esse tirano, sempre se fazia de amigo,

camarada, com uma educação de dar inveja. Quando

conseguiu o poder na mão, mostrou a face verdadeira. Quando

eu cheguei, vi que ele estava conseguindo tudo que queria:

dinheiro, poder, essas coisas que a gente só aprende que

ficam na Terra quando morremos. Aqui não tem nada disso.

– Como é que você conseguiu entrar na cabeça

dele? – perguntei, já curioso com o desfecho da história.

– Nada complicado. Foi só me sintonizar com

aquele fluxo... Aquilo era o pensamento dele todo montado. A

44

O obsessor

J. Gentil Meneghim

única coisa que o interessava era ganhar dinheiro, ganhar

dinheiro, juntar mais e mais poder. Uma pessoa assim, egoísta

e avarenta, é fácil dominar. Fiquei um bom tempo reforçando

nele a ideia de querer mais e mais. Quando senti que

dominava completamente o pensamento dele, comecei a

implantar nele as dúvidas. Aí contei com uma excelente ajuda.

– Algum espírito daqui? – questionou Pedro.

– Não, de um grupo de fora, mas que estava por lá,

já trabalhando com o encarnado. Você sabe, um sujeito assim

nunca fez mal só pra uma pessoa, sempre tem outra vítima. E

esse espírito tinha sido também uma vítima dele, em tempos

anteriores, outra encarnação. Era esse espírito vingador que

colocava na mente dele a cobiça. E, como nós tínhamos o

mesmo objetivo, trabalhamos juntos. De um lado, ele obrigava

o encarnado a querer mais e, de outro, eu ficava colocando as

dúvidas na mente dele.

– Que tipo de dúvidas? – eu quis saber.

– “Tem alguém me roubando...” “Eu não tenho

empregados confiáveis...” “Preciso descobrir quem está me

roubando...” Isso funciona de uma maneira fantástica. Quem é

avarento, sempre tem medo de perder. E aí que entra a grande

arma: vai mesmo perder. Com essa dúvida, ele acabou

desconfiando do melhor e mais dedicado empregado que tinha,

e o mandou embora. O encarnado que substituiu esse demitido

não entendia nada de assuntos financeiros, e por esse motivo,

era a pessoa certa para começar a afundar o negócio.

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O obsessor

J. Gentil Meneghim

– Mas, assim, fácil desse jeito? – eu duvidei de

plano tão simples.

– Não, isso foi só o primeiro passo. Depois disso

coloquei, com a ajuda de um outro espírito vingador, uma

mulher, uma prostituta no caminho dele. Uma dessas capaz de

tirar até o último centavo de um homem. Ele foi ficando cada

vez mais apaixonado, mesmo a contragosto dava a ela

presentes caros, dinheiro, joias... Quando percebeu, já estava

mais que comprometido financeiramente.

– E a empresa dele, como ficou? – quis saber

Pedro.

– Por enquanto, quase falida. Eu lhe disse, estou

quase acabando com ele. Mas, conforme mesmo ensina o

Mentor, não posso deixar que chegue ao ponto de um suicídio

ou qualquer outra coisa que o leve à morte. Posso me vingar

dele, sim, e – quer saber – estou é ajudando o miserável na

sua regeneração espiritual. Se não fosse eu a fazer isso, claro

que teria outro, mas eu não teria minha satisfação e meu

descanso espiritual. Então, estou até ajudando os espíritos de

luz. Vou deixá-lo na miséria. Ele vai acabar a vida em algum

quartinho sujo e fétido, como eu, mas não vou chegar ao ponto

de matá-lo. Vai ter que sofrer, vivendo de esmolas. É isso que

ele merece!

– É, Marcos, você tem razão – argumentou Pedro.

– Nós estamos aqui por dois motivos: o primeiro é que não

estamos ainda perfeitos para entrar naquele clubinho exclusivo

dos espíritos de luz. Eles exigem que perdoemos tudo, que

aceitemos tudo, dizendo que o Todo Poderoso vai nos dar a

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O obsessor

J. Gentil Meneghim

recompensa. E o segundo motivo é este que você disse:

querendo ou não, nós acabamos é mais por ajudar os

encarnados a pagar por seus erros. Se não fôssemos nós a

usar de nosso espírito vingador para que eles possam

aprender alguma coisa, quem seria?

– Mas isso não vai pesar sobre nós um dia, Pedro?

– era meu lado bom entrando em cena.

– Olha aqui, João: querendo ou não, nós todos

temos pecados, erros cometidos durante as vidas que tivemos

na Terra. Mas, também, veja que não encarnamos em bons

lugares, não tivemos a oportunidade de progredir, muitas vezes

tivemos que usar de golpes baixos contra os outros para

sobreviver, em algumas vidas até mesmo chegamos a matar

pessoas... E isso tudo faz parte da evolução espiritual de todo

ser criado por aquele Todo Poderoso.

Pedro mostrava uma irritação estranha, um tom de

voz magoado:

– Se Ele quisesse, poderia ter feito a gente

perfeitos, mas não fez. E também não deixa a gente com

nenhuma opção. Aquela história de “livre arbítrio”, para mim, é

uma conversa mole. Diz que nós temos a opção e podemos

escolher o caminho. Mas só podemos evoluir se seguir o

caminho do Todo Poderoso, não existe outro. Para mim, não

existe livre arbítrio. Ou é o caminho que Ele quer ou não é

caminho nenhum!

– Você, pelo jeito, é revoltado contra o Todo

Poderoso!

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O obsessor

J. Gentil Meneghim

– E sou mesmo! Meu lugar era pra ser num nível

muito melhor e, no entanto, estou aqui, ainda nessa história de

reencarnar, sofrer outra vida, voltar para o Limbo, servir para

os espíritos de luz para que alguém sofra na Terra... Já estou

ficando cansado disso.

– Bem, então precisa ver como é que você quebra

esse círculo vicioso... – argumentei.

– E você pensa que eu não sei como? O que os

espíritos de luz querem é que eu me arrependa do que fiz.

Como é que vou me arrepender, se o que fiz foi o correto? Se

alguém fez alguma coisa contra mim, tem que pagar! Ou estou

errado em pensar isso?

– Olha, Pedro, eu não sei muito sobre isso... Estou

há muito pouco tempo aqui, nem consigo ainda me lembrar de

encarnações passadas, só da última. Mas eu penso que tenho

de me vingar de quem me fez mal, não vou perdoar assim tão

fácil! – decretei.

Assim, a conversa ainda foi se estendendo por

algum tempo, mas sempre se voltando ao tema da vingança. A

bebida, que fluía à vontade, foi deixando alguns espíritos mais

alegres. Num determinado momento, alguns começaram a sair,

já que o outro dia prometia trabalho para alguns, escola para

outros...

48

O obsessor

J. Gentil Meneghim

1 0 . I n t e r l ú d i o

– E então, Pedro, como está o nosso novo

aprendiz?

– Está se adaptando, Mentor. Algumas vezes

parece ter algum resquício de bondade, de arrependimento,

mas acho que isso é até bom. Assim ele se mantém dentro dos

nossos níveis.

– Isso é porque ele passou por poucas e boas na

última vida. E foi necessário. Ele já se questionou a respeito

das vidas anteriores?

– Não, ainda não. Só comentou que se lembrava de

alguma coisa de sua última, mas não de tudo... Alguns

assuntos ainda estão nublados...

– Bom isso. Ainda não é o momento. Se ele souber

o que fez nas vidas anteriores acabará decaindo. E já foi muito

difícil tirá-lo do Abismo. Vamos mantê-lo ocupado com o curso

e com seu plano de vingança. Desta forma ele não terá tempo

de ficar se perguntando a respeito do passado.

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O obsessor

J. Gentil Meneghim

– É, quando o levei ao portal do Abismo ele sentiu

alguma coisa, como se estivesse sendo arrastado para dentro.

Mas isso foi momentâneo, logo mudamos de conversa e ele se

recuperou.

– Continue seu trabalho, Pedro. Ele deve começar

a agir.

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O obsessor

J. Gentil Meneghim

1 1 . O p r i m e i r o r e t o r n o

Retornei à Terra com Pedro, passamos o dia lá. Foi

muito estranho estar novamente no meio dos vivos, vou ter que

me acostumar com isso. A teleportação, acho que por ser mais

distante, foi um tanto estranha, foi preciso que me

acostumasse de novo no meu corpo... Quero dizer, no meu

perispírito...

Encontrei a rua em que vivia, o apartamento onde

morava. Pedro me disse que eu tenho acesso livre a todo e

qualquer lugar, exceto naqueles onde existe a luz dos espíritos,

já que podem me aprisionar. Entrei no apartamento, há gente

nova morando lá, pessoas que não conheço. Certamente

compraram de meus irmãos. Como não deixei filhos, o

apartamento naturalmente ficou para eles.

Mas, foi entrando ali que me dei conta de alguns

fatos que me esquecera. Meus pais, por exemplo,

desencarnaram antes de mim, e não sei deles até agora. Minha

mãe, certamente, está num nível diferente do meu, sempre

sofreu muito nas mãos de meu pai. E ele, aquele velho

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O obsessor

J. Gentil Meneghim

alcoólatra, imagino que deva estar no Abismo. Morreu de tanto

beber...

Ele também maltratou muito esposa e filhos durante

a vida, nunca teve um gesto qualquer de carinho e atenção.

Vivia do trabalho para o bar, do bar para casa, já chegava

bêbado e brigando com todos, batendo em minha mãe. Meus

irmãos mais velhos saíram de casa logo que puderam, cada

um para seu canto. Eu acabei ficando até que minha mãe

morresse. Ele, no entanto, desencarnou antes. Para ser franco,

nem sentimos quando morreu. Ou até nos sentimos aliviados:

finalmente ele tinha ido embora!

Ali no apartamento as lembranças voltaram mais

fortes, me lembrei perfeitamente da maneira como vivia.

Depois do falecimento de minha mãe, vendi a casa (naquelas

alturas nem sabia onde andavam meus irmãos) e me mudei.

Depois, trabalhando, consegui comprar esse apartamento.

Claro, não tinha todo o dinheiro, mas os meus “negócios” me

trouxeram o lucro suficiente. Eu não me casei, vivia era

trazendo mulheres para casa, na maioria prostitutas. Era

assim, uma transa e ponto final, tome seu dinheiro e está tudo

certo.

Nenhuma delas queria compromisso, e isso era o

mais importante para mim. Queria minha vida livre de qualquer

compromisso, e assim foi. Só não tinha ideia que ia

desencarnar tão cedo. E nem me lembrava, até aquele

momento, como tinha sido:

– Foi Paulo! – quase gritei, e Pedro me olhou

assustado. – Foi Paulo! Eu me lembro de tudo, agora me

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O obsessor

J. Gentil Meneghim

lembro! Eu estava bem aqui, perto da janela, a gente

conversava sobre o trabalho. Eu tinha feito um negócio aonde

ia levar uma grana preta, e ele descobriu.

– Isso é roubo, João! É um desfalque na empresa!

Como é que você pode fazer isso? – ele me intimava sobre o

desfalque.

– Rapaz, nosso patrão está mais do que rico, esse

dinheiro não vai fazer falta nenhuma e, aliás, não está saindo

do bolso dele, e sim do cliente.

– Mas ele vai descobrir, e você pode ir preso!

– Só vai descobrir se você contar! Já fiz isso antes

e sempre deu certo. Acha que tenho essa vida tranquila só com

a mixaria que recebo? Veja bem, apartamento novo, carro

zero, as mulheres que eu quiser... O salário que recebo não ia

me dar essa boa vida, não!

– Ah, tá! Então não é a primeira vez? Olha bem pra

mim: você vai ter que dividir comigo! Se eu não levar algum

nesse negócio, vou abrir o bico!

– Não brinca comigo, Paulo, não brinca... Eu

arrisquei minha pele sozinho e vou levar vantagem sozinho.

Como é que você quer botar a mão na grana, se não fez nada?

– Pois bem! Se não levar uma parte, amanhã

mesmo falo com o chefe!

A discussão foi ficando acalorada, chegamos a nos

pegar e, de repente, me vi saindo pela janela. Estávamos no

53