Sagarana: o Brasil de Guimarães Rosa por Nildo Maximo Benedetti - Versão HTML

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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE LETRAS MODERNAS

PROGRAMA DE PÓS – GRADUAÇÃO EM LITERATURA BRASILEIRA

SAGARANA: O BRASIL DE GUIMARÃES ROSA

Nildo Maximo Benedetti

Tese apresentada ao Programa de Pós–

Graduação no Departamento de Letras

Modernas da Faculdade de Filosofia, Letras

e Ciências Humanas da Universidade de São

Paulo, para obtenção do título de doutor em

Literatura Brasileira

Orientador: Prof. Dr. Luiz Dagobert de Aguirra Roncari

São Paulo

2008

A

Iran,

Clara

e

Lívia

MINHA GRATIDÃO

Ao paciente e competente Prof. Luiz Roncari, pela confiança que em

mim depositou.

Aos que me ajudaram a vencer mais esta etapa de vida.

RESUMO

O objetivo deste trabalho é o de demonstrar que o conjunto dos nove contos de

Sagarana apresenta uma unidade de conteúdo. Desenvolvendo as idéias gerais de Luiz Dagobert de Aguirra Roncari expostas em um curso de pós–graduação ministrado na

Universidade de São Paulo (USP) no segundo semestre de 2005, foi possível concluir que uma representação do Brasil da Primeira República constitui o significado central da obra.

Esta visão possibilita posicionar Guimarães Rosa entre os intelectuais que se ocuparam de um tema candente na primeira metade do século XX, o de analisar o Brasil com a

finalidade de corrigi–lo. Adicionalmente, o trabalho pretende mostrar que a determinação desse significado central é indispensável para a compreensão de Sagarana na sua totalidade.

Palavras–chave: Sagarana, Primeira República, representação do Brasil, poder público e privado, instituições brasileiras.

ABSTRACT

The objective of this work is to demonstrate that the collection of the nine Sagarana tales has a unified content. The book’s central theme is a representation of Brazil during the First Republic. I reached this conclusion after analyzing Luiz Dagobert de Aguirra Roncariś general ideas presented at a graduate course at the Universidade de São Paulo (USP) in the second semester of 2005.

This conclusion places Guimarães Rosa amongst the intellectuals who dealt with the heated issues of the first half of the twentieth century that were focused on studying Brazil with the objective to improving the country. Additionally, this work intends to show that the awareness of that central theme is indispensable for the total comprehension of Sagarana.

Key words: Sagarana, First Republic, representation of Brazil, personal and public power, Brazilian Institutions.

ÍNDICE

1. INTRODUÇÃO................................................................................................. . 1

2. DESENVOLVIMENTO

Análises dos contos de Sagarana ............................................................. 14

O burrinho pedrês ..................................................................................... 16

A volta do marido pródigo ....................................................................... 55

Sarapalha .................................................................................................. 80

Duelo ....................................................................................................... 100

Minha gente ............................................................................................. 121

São Marcos .............................................................................................. 151

Corpo fechado ......................................................................................... 193

Conversa de bois ..................................................................................... 203

A hora e vez de Augusto Matraga ........................................................... 228

3. CONCLUSÃO..................................................................................................277

4. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ............................................................ 281

1

1. INTRODUÇÃO

No segundo semestre de 2005, Luiz Dagobert de Aguirra Roncari ministrou na

Universidade de São Paulo um curso de pós–graduação que tinha por título O estado da violência e a violência do Estado em dois livros–marcos de Guimarães Rosa: Sagarana e Primeiras estórias. Os dois livros eram tidos por Roncari como pertencentes a duas fases distintas da forma de Guimarães Rosa entender e representar a violência social no Brasil. Sagarana seria a obra inaugural de uma primeira fase que se completaria com Grande sertão: veredas e Corpo de Baile. O curso, embora focalizasse a violência contida nas obras analisadas, tanto no plano da vida privada quanto no da vida político–

institucional brasileira, evidenciou que Guimarães Rosa abordou vários aspectos

inerentes ao debate que se vinha travando principalmente a partir da década de 20 no meio intelectual brasileiro, no núcleo do qual estava um projeto que tinha por meta analisar o país com a finalidade de corrigi–lo.

O trabalho que estamos propondo é o desenvolvimento das idéias gerais

expostas no curso por Roncari. Contudo, como Sagarana e Primeiras Estórias pertencem, conforme se disse, a situações sociais distintas, optamos por restringir nosso estudo à primeira obra.

*

Os contos de Sagarana possuem algumas características comuns, como

linguagem, localização geográfica, temas que se repetem, como o da viagem, e

personagens que rebatem em outras – como Manuel Timborna, de Duelo e Conversa de bois. Contudo, os argumentos das nove histórias são diferentes e, à primeira vista, não guardam nenhuma relação de interdependência; igualmente mutável de um conto para

outro é a forma da narrativa: o humor do narrador de Duelo pouco tem ver com a seriedade do de A hora e vez de Augusto Matraga, e mesmo as narrativas em primeira pessoa não seguem um padrão regular – casos de Minha gente, São Marcos e Corpo fechado.

O objetivo deste trabalho é propor uma interpretação literária de Sagarana

segundo a qual a obra teria um sentido geral, e todas as partes que a compõem estariam intimamente interligadas entre si e a esse sentido nuclear. Para maior rigor

metodológico, essa demonstração será desmembrada em duas proposições. A primeira é que as novelas de Sagarana, tomadas em seu conjunto, podem ser coerentemente interpretadas como uma representação do Brasil da Primeira República. A segunda é

2

que a determinação da unidade de conteúdo de Sagarana é imprescindível para a compreensão da obra na sua totalidade, e a análise de qualquer um dos contos

separadamente, sem uma visada da obra no seu conjunto, corre o risco de cobrir apenas parcialmente os aspectos significativos do livro e do conto focalizado.

*

Este trabalho procura somar–se à tendência da crítica de analisar a unidade de

sentido de cada um dos livros do autor.1 A contribuição desse conjunto de trabalhos está em tornar mais articulada a passagem – mediada em maior ou menor grau na obra de

Guimarães Rosa – entre a realidade geográfica e humana do sertão e os grandes temas da literatura universal. No meio estaria a representação do Brasil, e é por esse caminho que este trabalho envereda, procedendo à leitura formal dos contos segundo duas

orientações: uma analítica, que utiliza referências à cultura literária e filosófica do Ocidente, à mitologia e à psicanálise, e outra que se vale do chamado “pensamento

social brasileiro”, que tem em Oliveira Vianna, Paulo Prado, Gilberto Freyre e Sérgio Buarque de Holanda seus representantes mais significativos em Sagarana.

Essas duas totalidades aparecem formalmente distintas no texto rosiano e

suscitam questões de ordem geral também diferentes. As referências à cultura literária e filosófica do ocidente aparecem como atualizações, no texto, de um repertório

intelectual vasto do autor; de fato, veremos que em Sagarana existem referências a Homero, à Bíblia, a Virgílio, a Dante, a Poe, transfigurados com muita felicidade pela arte particular de Guimarães Rosa. Por outro lado, o que norteia este trabalho é a proposição de que o livro trata do Brasil – que foi colônia no processo de constituição do capitalismo moderno e faz parte do Ocidente e de suas instituições.

De acordo com aquilo que veio a ser conhecido como marxismo “uspiano”, o

“atraso” do Brasil, grosso modo, é na verdade uma espécie de reprodução perversa do

“progresso” dos países centrais, ou seja, nossa “formação incompleta”, notada no texto de Sagarana por meio da forte presença da violência, da ausência de instituições, da baixa coesão social, é, na verdade um produto da reprodução não–linear de uma falsa totalidade, o capitalismo que foi transplantado para o Brasil a partir das idéias liberais inglesas, francesas e americanas do Norte, oriundas do Iluminismo, que transformou as antigas formas de produção e nos fez “desterrados em nossa terra”, como mencionado por Sérgio Buarque de Holanda no período que abre Raízes do Brasil. Como o processo 1 Este e os próximos cinco períodos foram elaborados a partir das considerações de Milton Ohata na ocasião da argüição deste trabalho de doutoramento.

3

civilizador não se estende linearmente do mesmo modo por todo o planeta, nosso

“atraso”, sendo “atraso”, é a conseqüência dos impasses do progresso e, em última

análise, do desenvolvimento desigual do capitalismo, cujos efeitos se mostram ainda hoje – “a combinação de latifúndio e trabalho compulsório atravessou impávida a

Colônia, Reinados e Regências, Abolição, a Primeira República, e hoje mesmo é

matéria de controvérsia e tiros.” (SCHWARZ, 2000, p. 25) –, enquanto a falta de coesão social poderia ser vista como o corolário da contradição entre as idéias racionalistas liberais ocidentais e a instituição verdadeiramente nacional, a escravidão – esta

acompanhada da prática do favor que envolvia o latifundiário e seu dependente não

escravo –, contradição apontada por Roberto Schwarz:

Em suma, se insistimos no viés que escravismo e favor introduziram nas idéias do

tempo, não foi para as descartar, mas para descrevê–las enquanto enviesadas – fora de centro em relação à exigência que elas mesmas propunham, e reconhecivelmente nossas, nessa mesma qualidade. Assim, posto de parte o raciocínio sobre as causas, resta na experiência aquele “desconcerto” que foi o nosso ponto de partida: a sensação que o Brasil dá de dualismo e factício – contrastes rebarbativos, desproporções, disparates,

anacronismos, contradições, conciliações e o que for – combinações que o Modernismo, o Tropicalismo e a Economia Política nos ensinaram a considerar. (SCHWARZ, 2000, p. 21) .

Pelo que pudemos alcançar, o texto de Sagarana não contém elementos que

possibilitem estabelecer o nexo seguro entre a bem–sucedida assimilação das obras de grandes pensadores da humanidade com a problemática assimilação das idéias liberais ocidentais no Brasil. O que nos pareceu mais apropriado – e isto veremos quando

analisarmos São Marcos – foi estabelecer as conexões entre o pensamento universal com a cultura popular brasileira e expor a posição de Guimarães Rosa e dos modernistas sobre tais conexões; e que estas carreiam a noção de que no sertão brasileiro as ações intuitivas das personagens e suas formas de integração com o meio reproduzem os

arquétipos oriundos das manifestações do pensamento universal.

Na análise de A hora e vez de Augusto Matraga veremos que, como a obra se fecha cronologicamente com a revolução de 1930, não é possível deduzir se o texto

sustentaria a asserção de que o governo getulista autoritário seria uma saída para o Brasil ou a de que estamos fadados a permanecer aquém de qualquer processo

civilizador nos moldes ocidentais. Para a maior parte dos analistas do Brasil, algo em nossa formação pareceu nos colocar aquém da civilização, ou seja, falta alguma coisa ao país. Essa “falta” ora foi encarada como positiva – pelos modernistas e por Gilberto Freyre, por exemplo –, ora como negativa, casos de Euclides da Cunha e outros;

4

Oliveira Vianna, referência importante deste nosso trabalho, como se verá, também

pode ser entendido como autor pertencente a esta segunda categoria, porque justifica a necessidade do Estado autoritário com o argumento de que a lógica do poder privado característica da formação brasileira não é capaz de criar uma nação verdadeiramente civilizada. Esse raciocínio esteve presente até recentemente em nosso pensamento social e político, e Oliveira Vianna era “autor de cabeceira” do General Golbery.

Embora os aspectos acima considerados sejam significativos para o

enriquecimento da interpretação da obra e da sociedade brasileira, este trabalho não terá por escopo aprofundar–se num estudo sociológico, de acordo com o qual Sagarana seria tomado como fonte para o estabelecimento de leis gerais, isto é, em que a obra seria considerada como a manifestação de leis que lhe são exteriores e que dizem

respeito à sociedade (TODOROV, 1976, p. 14). Tal estudo – cujo objetivo seria,

primordialmente, a lei sociológica que Sagarana ilustraria – seria de indiscutível interesse, porque poderia dar resposta mais completa do que a apresentada na nossa análise de São Marcos sobre aquilo que a apropriação da cultura universal pode nos dizer sobre o Brasil, além de indicar o que a singularidade sócio–histórica do Brasil, apontada em Sagarana, pode nos dizer sobre a totalidade do capitalismo. Nossa tarefa, no entanto, será menos ampla: dar um passo anterior, contudo essencial, para a

compreensão da obra e interpretá–la a partir de indagações sobre o que o texto significa, o que ele nos diz, executando, portanto, uma tarefa que incita à análise hermenêutica; mas, na linha de Culler, ao fazermos uma interpretação nos moldes da hermenêutica, também lançamos questões sobre o funcionamento da literatura, procurando descobrir como é obtido, do ponto de vista da linguagem, o sentido que estamos atribuindo ao texto ou como são obtidos certos efeitos nele presentes (CULLER, 1999, p. 64–6).

*

Em nossa interpretação, a representação do Brasil levada a efeito em Sagarana é uma elaboração ficcional da realidade, e não um retrato estático e perfeitamente

definido do Brasil. Retrato se nos afigura um termo inapropriado para o discurso que podemos visualizar no livro, porque incompatível com suas características: emprego de complicados enigmas, para cuja solução o autor põe ao alcance do leitor apenas

vestígios escassos, camuflados e carregados de figuras retóricas; fornecimento de falsas pistas para a solução desses enigmas; insistência eventual em aspectos pouco relevantes e passagem sorrateira pelo que é realmente significativo; emprego simultâneo de

recursos populares – linguagem e crenças, por exemplo e eruditos, com aspectos de

5

literatura, filosofia, religiões, política, história, etc.; fragmentação da narrativa; liberdade ou flexibilidade do foco narrativo; subversão da linguagem, a ponto tornar a leitura hermética; “A gramática e a chamada filologia ciência lingüística, foram

inventadas pelos inimigos da poesia”, diria Rosa (COUTINHO, 1991, p. 71).

Além dos aspectos enumerados acima, caberia acrescentar características

discursivas e narrativas sobre as quais discorreremos brevemente. No nível discursivo, a linguagem de Rosa tem forte cunho poético, dotada que é de ritmo e sonoridade

peculiar, quando não se serve de recursos métricos tradicionais, que tanto podem

mostrar–se nas formas gráficas que usualmente lhes são destinadas quanto

entremostrar–se disfarçados no corpo de um texto aparentemente prosaico. Ademais, o texto rosiano lança mão freqüentemente da oposição de planos isotópicos, criando jogos de contradição entre planos de significados opostos, o que faz surgir uma série de figuras de linguagem e pensamento que ora norteiam, ora desnorteiam o leitor. Quando, por exemplo, lemos em A hora e vez de Augusto Matrag a que “E assim se passaram pelo menos seis ou seis anos e meio, direitinho deste jeito, sem tirar e nem pôr, sem mentira nenhuma, porque esta aqui é uma estória inventada, e não é um caso

acontecido, não senhor” (p. 343)2, estamos diante de um jogo de contradição entre

planos de significados opostos que equipara o plano de significado “verdade” ao plano de significado “invenção” (= ficção, irrealidade, inverdade). Logo, verdade = inverdade, o que leva o leitor a procurar “corrigir” a contradição através de uma interpretação, introduzindo um recurso típico da poesia e da prosa poética. Em Sezão, versão original de Sagarana, de 1937, a passagem acima era redigida de outra forma: “porque esta não é uma história, mas sim um caso–acontecido, sim senhor.” (ROSA, J. G., 1937, p.

415).3 A modificação do texto em Sagarana pode ter sido feita com a intenção de criar uma contradição capaz de aguçar a curiosidade do leitor e levá–lo a pensar nas

ambigüidades contidas no texto, nas personagens e na própria natureza da ficção

literária.

Por outro lado, no nível narrativo, Rosa lança mão de uma atitude retórica que se

aproxima muito da usada na parábola, porque leva o leitor a estabelecer correlações entre um texto “plano”, “chão”, e algum outro tipo de realidade supratextual, por meio 2 Sempre que aludirmos a Sagarana, tomaremos por referência sua 15ª edição, da Livraria José Olympio Editora, de 1972; somente no caso desta edição adotaremos o procedimento simplificador de manter entre parêntesis apenas o número de página, excluindo, portanto, a citação de autor e data. Com exceção dos nomes próprios, a acentuação ortográfica será sempre atualizada.

3 Nas citações de Sezão atualizamos a ortografia.

6

de indícios que vão sendo deixados ao longo do texto. Desse modo, a escrita é,

aparentemente, uma seqüência linear, mas que deve ser lida em paralelo com um

supratexto; entre ambos, de vez em quando ele traça uma reta que intercomunica os dois planos, mas o desvendamento do nível supratextual fica a cargo da perspicácia do leitor.

Assim, como a construção poética, as relações entre o homem e o mundo, o anthropos e o cosmos nem sempre são muito discerníveis, havendo momentos em que um parece reflexo do outro, em que ambos formam uma integridade. 4 Esta característica narrativa é mostrada de forma menos ou mais acentuada nos contos .

As características formais aqui apontadas levam–nos a pensar que em Sagarana

se pode falar em crise do conceito tradicional de representação – que envolveria

pressupostos como mimese tradicional e unidade formal.5 A representação elaborada

por Guimarães Rosa em Sagarana mais sugere do que afirma e, portanto, está muito longe de uma técnica que ofereça a realidade em moldes figurativos muito bem

definidos e contornados. Pelas mesmas razões formais, o texto também não tem a

conotação científica de um diagnóstico.

*

Que Sagarana tem uma unidade podemos captar na carta de Guimarães Rosa a

João Condé, transcrita nas edições do Sagarana da Editora Nova Fronteira, na qual ele se referia a A hora e vez de Augusto Matraga como uma “História mais séria, de certo modo síntese e chave de todas as outras” (ROSA, J. G., 1984, p. 11). Tal unidade é reforçada em outro trecho da mesma carta, no qual Guimarães Rosa explica por que, na edição de Sagarana, eliminou Bicho mau, uma das doze histórias que compunham Sezão: “Deixou de figurar no “Sagarana”, porque não tem parentesco profundo com as nove histórias deste, com as quais se amadrinhara, apenas por pertencer à mesma época e à mesma zona. Seu sentido é outro.” (ROSA, J. G., 1984, p. 10). Franklin de Oliveira, em A dança das letras, constatou a unidade de Sagarana, afirmando que “cada novela 4 Pensamos que essas considerações são concordantes com as noções de Garbuglio sobre a narrativa de Grande sertão: veredas:

Num ensaio pioneiro e de excelente qualidade como tudo o que realizou, Manuel de

Cavalcanti Proença, falando a respeito dos planos narrativos de Grande Sertão: Veredas refere-se à existência dum plano objetivo ao lado dum plano subjetivo, que se discernem e se implicam mutuamente. No plano objetivo transcorrem os acontecimentos e fatos de que participa o narrador. É a história, na terminologia de Emílio Benveniste, a sucessão de fatos em que se envolve a personagem-narrador, como jagunço. No plano subjetivo estão as indagações formuladas pelo personagem-narrador, à busca duma ordenação do mundo para atingir um grau possível de percepção e reconstrução da realidade vivida pelo narrador com incomum intensidade.(GARBUGLIO, 2005, p. 9-10)

5 Essa observação foi feita pelo Professor Jaime Ginzburg na reunião de 2 de julho de 2007 de análise do Projeto de Qualificação deste trabalho.

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deve ser lida como capítulo de um romance, e não apenas tomada isoladamente como

história autônoma inserida num livro de contos.” (OLIVEIRA, 1991, p. 57 ) 6; e Álvaro Lins assim escreveu sobre os contos na ocasião do lançamento do livro:

Cada um deles constitui sem dúvida uma novela independente, com um enredo

particular, mas se articulam em bloco como se simbolizassem o panorama de uma região. E

Sagarana vem a ser precisamente isto: o retrato físico, psicológico e sociológico de uma região do interior de Minas Gerais, através de histórias, personagens costumes e paisagens, vistos ou recriados sob a forma da arte de ficção. (COUTINHO, 1991, p. 238)

As razões que levaram Guimarães Rosa a retirar de Sezão o conto Bicho mau permitem inferir que todos os contos pertencem a uma época definida, e que, se

conseguirmos situar alguns no tempo, todos os demais poderão ser situados no mesmo momento. Como veremos a seguir, esse momento é o da Primeira República.

Minha gente claramente se passa na República Velha, quando o que hoje

chamamos de governador era designado por Presidente do Estado: “Política sutilíssima, pois ele faz oposição à Presidência da Câmara no seu Município (n.o 1), ao mesmo

tempo que apóia, devotamente, o Presidente do Estado” (p. 188). O mesmo ocorre com

A volta do marido pródigo:

Major Anacleto relia – pela vigésima–terceira vez – um telegrama do Compadre

Vieira, Prefeito do Município, com transcrições de um outro telegrama, do Secretário do Interior, por sua vez inspirado nas anotações que o Presidente do Estado fizera num anteprimeiro telegrama, de um Ministro conterrâneo. (p. 108).

O burrinho pedrês também pode ser situado na Primeira República porque Badú canta uma dança do tempo da escravatura, que já havia sido abolida quando a passagem ocorre, mas não há muito tempo, pois a personagem é jovem e ainda tem a música na

memória: “Ao fim de um tempo, o cavaleiro acordou. Bradou nomes feios, e começou a cantar um ferra–fogo – dança velha, que os negros tinham de entoar em coro, fazendo de orquestra para o baile dos senhores, no tempo da escravidão.” (p. 68).

A hora e vez de Augusto Matraga transcorre pouco antes da revolução de 1930; em Sezão, Joãozinho Bem–Bem afirma: “E agora estou indo para me juntar ao resto do pessoal, porque estão dizendo que vai ter revolução, e compadre Horácio de Mattos é 6 É possível pensar que Guimarães Rosa considerava pertinente essa e outras opiniões de Franklin de Oliveira sobre Sagarana, porque enviou a Harriet de Onís, tradutora americana do livro, um artigo daquele crítico, “As epígrafes”, que, segundo Verlangieri, foi publicado no jornal Correio da Manhã, do Rio de Janeiro, aos 25/10/1958. (VERLANGIERI, 1993, p. 168). Em carta de 09/08/63, a tradutora sugeriu a Rosa que o artigo fosse incorporado como introdução na tradução inglesa e a idéia foi aceita por Rosa em carta de 02/11/63: “Também acho ótima a idéia de tomar para introdução da edição em inglês, o artigo de Franklin de Oliveira - que, realmente, revela o tom de sentido, as tendências do livro.” (IEB-USP).

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capaz de precisar de mim...” (ROSA, J. G., 1937, p. 441); em Sagarana, esse período foi substituído por “porque tive recado de que a política se apostemou, do lado de lá das divisas, e estou indo de rota batida para o Pilão Arcado, que o meu amigo Franquilim de Albuquerque é capaz de precisar de mim ... ” (p. 363). A revolução a que Joãozinho Bem–Bem se refere em Sezão é a 1930, pois Horácio de Matos e Franklin Albuquerque, dois afamados coronéis do sertão da Bahia foram presos após a revolução, e o primeiro foi assassinado em 1931.

Corpo fechado se situa alguns anos depois do episódio de Canudos: “Meu pai viu isso... João Brandão vinha vindo p’ra o norte, com os seus homens, diz–se que ia levando armas p’ra o povo de Antônio Conselheiro.” (p. 259); em Sezão, o Presidente do Estado é também mencionado: “Assinou o telegrama coletivo do Diretório político ao Presidente do Estado, encabeçado pelo coronel Mingote.” (ROSA, J. G., 1937, p.

237).

Os acontecimentos narrados em São Marcos podem ser datados com relativa

segurança pela menção da guerra do Paraguai, de 1864–1870, da qual participou

Mangolô, que é velho e negro liberto: “João Mangolô velho–de–guerra, voluntário do mato nos tempos do Paraguai, remanescente do “ano da fumaça” (p. 225).

Cassiano, de Duelo era “ex–anspeçada do 1.° pelotão da 2.a companhia do 5.°

Batalhão de Infantaria da Força Pública” (p. 159). A Força Pública do Estado de Minas Gerais foi criada após a proclamação da República, o que nos dá o limite inferior da data em que o conto se desenvolve. Por outro lado, anspeçada era uma patente que no Império se situava entre soldado e cabo e foi extinta ainda no início da Primeira

República, mas o termo continuou a ser empregado depois de 1889; em Os sertões, cuja primeira edição é de 1902, lemos: “Afrontou–se com o adversário mais próximo, um

anspeçada” (CUNHA, 1940, p. 386). Não podemos, portanto, situar o desenrolar de

Duelo exatamente na Primeira República, mas também não existem elementos no conto para supor que ele se desenvolva depois de 1930. Conversa de bois se desenvolve na mesma época, pois nos dois contos está presente a personagem de Manuel Timborna, na página 158 de Duelo e na 287 de Conversa de bois. A maleita no rio Pará torna contemporâneos os acontecimentos narrados em Sarapalha e Duelo: o primeiro se passa

“na beira do rio Pará” (p. 119), onde a maleita se abateu sobre as dois protagonistas, e o rio e a maleita são referidos também em Duelo: “– É o Pará... Pois então?!...Mas, vam’

passar p’ra o outro lado, que aqui tá braba a maleita!” (p.175).

9

Em vários contos de Sagarana existem outros elementos que poderiam ajudar a reforçar a afirmação de que o livro transcorre naquele período da história do Brasil, como a datação de construção das ferrovias e rodovias, por exemplo, que dariam, em alguns casos, a data mínima em que a narrativa transcorre, mas pensamos que as

informações expostas acima sejam suficientes para nosso propósito.

Além do fato de os contos se desenvolverem em um período definido da história

do Brasil e da presença dos aspectos formais e temáticos apontados, a unidade de

Sagarana se evidencia principalmente em torno de alguns tópicos inerentes à sociedade brasileira que, direta ou indiretamente, eram tratados nas obras dos pensadores que se empenharam em traçar um diagnóstico do Brasil nas quatro décadas iniciais do século XX: a relação entre o exercício do poder privado e do estatal, o nível de coesão social, o predomínio da família patriarcal, a diversidade de práticas religiosas, os traços de caráter como tendência à melancolia, à tristeza e ao romantismo, a prática da violência e as formas de escapar–lhe na ausência de um aparato legal que deveria funcionar acima dos interesses particulares, a formação racial híbrida, o exercício da política partidária, a cordialidade no âmbito das relações na esfera pública, como definida por Holanda etc.

Esses tópicos estão distribuídos entre os contos de tal modo que cada um se aprofunda em maior ou menor grau em alguns deles, e nenhum aborda todos ao mesmo tempo em

profundidade.

De modo resumido e mencionando apenas os aspectos prioritários, podemos

dizer que O burrinho pedrês discorre sobre dois temas principais. Primeiro, as características do que podemos chamar do bom governante, representado pelo Major

Saulo, aquele que se empenha em instalar o progresso econômico e a ordem social sem emprego da violência arbitrária. Segundo, as forças que reagem ao progresso: ausência de ânimo empreendedor; saudosismo e propensão ao retrocesso, provocados pela

melancolia que anima o brasileiro, apontada por Paulo Prado em Retrato do Brasil; e tendência à violência e à desordem, que, ao que tudo indica, Sagarana sustenta ser imanente no ser humano, que deve ser contida por meio do contrato social. Por tratar das forças que impedem o desenvolvimento e tendem à desordem que se origina da

violência, o conto dá descrição pormenorizada do estado de natureza; uma primeira

visão sobre o tema das raças na obra também está presente na nossa análise.

Já em A volta do marido pródigo são discutidas a prática da cordialidade

brasileira e as formas pelas quais os interesses privados se relacionam dialeticamente com o exercício da política partidária. O conto estabelece uma relação coesa da prática 10

política com o amor, casos exemplares das práticas humanas na esfera pública e na

esfera privada, respectivamente; a questão racial e as relações familiares de Sagarana são também abordadas na nossa análise do conto.

Sarapalha mostra a desolação de um lugar que teve certo progresso, mas está em ruínas. Ali se vive do passado, de nostalgia, de lembranças; é onde habita e reina soberano o espírito que sintetiza a melancolia brasileira – aspecto desenvolvido por Paulo Prado – e emperra o progresso social e econômico; com ele coexiste a doença, fruto da ausência do poder público protetor. O estado psicológico das personagens, a doença, a tristeza, a saudade e o retrocesso estão de tal forma entrelaçados no conto, que cada um desses fatores é causa e efeito dos demais, e todo o seu conjunto vai

gradualmente conduzindo as personagens ao aniquilamento.

Duelo trata da necessidade de o indivíduo arbitrar e fazer valer pela força seu conceito próprio de justiça diante da fraqueza do poder do Estado que deveria ter a função inalienável de arbitrar os conflitos de interesses entre os indivíduos. A escolha de um ex–militar, Cassiano Gomes, como a personagem que imporá sua justiça

particular pela violência é sintomática da ausência das instituições oficiais com

autoridade para criar leis que imponham limites ao indivíduo e às ações do próprio Estado.

Minha gente desenvolve as idéias que haviam sido expostas em A volta do marido pródigo, porém de maneira mais conceitual. É também abordado neste conto o desdobramento da união marital entre primos, união que assume caráter incestuoso

quando tratada como forma do isolamento social ao qual se referiu Freud; como

acontece em A volta do marido pródigo, o jogo amoroso se desenvolve paralelamente ao jogo político, e o social determina o conteúdo do conto. Por estar relacionado à discussão de questões teóricas sobre o exercício do poder e sobre isolamento social, que por sua vez se relacionam à formação do Estado, o conto retoma e completa a descrição do estado de natureza de O burrinho pedrês.

Em São Marcos são conceitualmente desenvolvidos alguns tópicos relativos à noção de identidade nacional, por meio da abordagem de temas como religião, amor,

literatura e filosofia, a relação do local com o universal e o poder da linguagem.

De certa forma Corpo fechado retoma a discussão iniciada em Duelo sobre a necessidade em que se vê o indivíduo de empregar a violência para defender a própria vida no caso em que as instituições oficiais fracassam nas funções que lhe são

pertinentes; e quando até mesmo a alternativa de aplicar a violência em defesa própria 11

se torna inviável por qualquer motivo, resta o recurso ao misticismo, condição que configura a forma extrema de abandono do ser humano à própria sorte.

Conversa de bois trata de um tema teórico sobre o estado de direito, o da determinação do limite da vingança justa. O conto mostra ate que ponto a cordialidade pode interferir no juízo que fazemos da violência, induzindo–nos a julgar mais com o sentimento do que com base nas leis que deveriam compor um contrato social.

Finalmente, A hora e vez de Augusto Matraga encerra o livro com a

apresentação da saga de uma entidade mitológica tipicamente brasileira, Matraga; essa saga se fecha com a luta apocalíptica do protagonista contra Joãozinho Bem–Bem, mas o apocalipse da saga brasileira não é revestido pela fúria que se verifica entre as entidades mitológicas da saga nórdica, por exemplo, mas ocorre com os dois

contendores trocando demonstrações de cordialidade, amizade profunda, prazer no

extermínio do outro e na própria morte: é a alegoria da violência no seu estado mais puro e encerra de forma apropriada um livro em que a violência se manifesta do começo ao fim.

A constatação da existência desses motivos espalhados por todos os contos nos

levou a concluir que Sagarana é uma obra com um sentido global que só se tornará perceptível se sua análise for levada a efeito com a preocupação de abarcá–lo como um todo. Por essa razão, ao invés de optar pelo emprego do método interpretativo seletivo, que consistiria em concentrar esforços nos contos que julgássemos mais significativos ou em fragmentos de vários contos que pudessem ser tomados como representativos da unidade da obra, optamos pela adoção de um método extensivo, o de partir da

interpretação de todos os contos e chegar a um sentido nuclear da obra por

aproximações sucessivas.

O critério extensivo apresenta o problema de como enfrentar as passagens

subsidiárias não imediatamente conciliáveis com o sentido geral da obra; como afirma Todorov, nem todos os círculos hermenêuticos se equivalem, porque “obrigam a omitir um número maior ou menor de seus elementos.” (TODOROV, 1976, p. 13); Wayne C.

Booth, em A Retórica da ficção, afirma que a busca do significado de um romance exprime “a necessidade do leitor de saber onde se encontra na esfera de valores, ou seja, de saber onde o autor quer que ele se encontre.”; e completa:

Mas muitas das obras que valem a pena ler têm tantos “temas possíveis”, tantas

analogias mitológicas, metafóricas ou simbolicamente possíveis, que encontrar só uma e anunciá–la como objectivo da obra é, na melhor das hipóteses, uma fracção mínima da 12

tarefa crítica. O sentido que temos do autor implícito inclui não só os significados que podem ser extraídos como também o conteúdo emocional ou moral de cada parcela de

acção e sofrimento de todos os personagens. Inclui, em poucas palavras, a percepção intuitiva de um todo artístico completo; o principal valor para com o qual este autor implícito se comprometeu, independentemente do partido a que pertence na vida real – isto é, o que a forma total exprime. (BOOTH, 1980, p. 91).

As noções de Todorov e Booth, bem como as ambigüidades e contradições

inerentes ao texto de Sagarana e a qualquer texto da melhor literatura, acarretam e justificam a sua multiplicidade de leituras. E a idéia de Booth de que emoções do autor implícito, manifestada por meio da individualidade do autor, devem ser consideradas na interpretação da obra para melhor compreendê–la está contida no credo do próprio

Guimarães Rosa: “Legítima literatura deve ser vida. Não há nada mais terrível que uma literatura de papel, pois acredito que a literatura só pode nascer da vida, que ela tem de ser a voz daquilo que eu chamo “compromisso do coração”. A literatura tem de ser

vida! O escritor deve ser o que ele escreve.” (COUTINHO, 1991, p. 84).

Embora a maior parte do texto de Sagarana nos pareça ter sido coberta por nossa interpretação, de maneira razoavelmente pertinente, algumas passagens, como

seria esperado a partir do que dissemos acima, guardam relações imediatas menos

evidentes com o sentido nuclear que estamos propondo. Para esses casos adotamos

procedimentos que dependem do contexto em que a passagem ocorre: o da figura

retórica – somente nas situações que ela se mostrar adequada de maneira convincente –, ou o da formulação de hipóteses de relações sem a força que seria desejável e situadas mais apropriadamente no campo das possibilidades.

O emprego do critério seletivo originaria leituras de interesse sobre vários

aspectos importantes – coronelismo, violência, religião, etc. –, mas teria de enfrentar problemas ainda maiores do que os do método extensivo. Em um livro com nove

histórias tão diferentes umas das outras, seria necessário orientar as escolhas dos contos ou dos fragmentos que trariam as conclusões que irradiariam para toda obra. Um desses critérios poderia ser o da representatividade do conto na obra, mas teríamos então de especificar com clareza o que nos levou a escolher alguns contos e a abandonar outros.

Com o mesmo raciocínio, poderíamos escolher fragmentos do livro para demonstrar

nossa interpretação. Mas passagens não analisadas podem conter informações

significativas que completem a leitura da obra ou, pior, que a contrarie. A aplicação desse método mais indutivo, tal como empregado por Auerbach de modo tão brilhante

em Mimesis, possibilitaria que eliminássemos, se fosse de nosso interesse, as passagens 13

que não se conformassem a uma representação do Brasil – o que é, na verdade, o defeito do método e não sua virtude, porque, com uma escolha oportuna, pode–se demonstrar

qualquer coisa, sem ter de enfrentar o incômodo de interpretar os motivos subsidiários, as ambigüidades e as contradições de que falamos acima.

O método extensivo, que optamos por empregar neste trabalho, foi o adotado por

Luís Bueno para estudar o romance brasileiro da década de 30. A análise da maior parte dos romances daquele período possibilitou ao autor alcançar resultados de qualidade e chegar a conclusões diferentes daqueles que estudaram o período por meio de uma

seleção de obras segundo um critério específico (BUENO, 2006).

*

Alguns autores, dentre eles Walnice Nogueira Galvão (1986), Heloísa Starling (1999), Roncari (2004), e Willi Bolle (2004), associam a obra de Guimarães Rosa a aspectos relativos à sociedade brasileira. Como demonstrou Luís Bueno, Guimarães Rosa não é um demiurgo de si mesmo, “meteoro” caído “sobre nós para extinguir velhos

dinossauros e iniciar uma era povoada de outros animais.” (BUENO, 2006, p. 18); pelo contrário, sua obra está posicionada em uma linha de autores dedicados à elaboração de um panorama da sociedade brasileira que se inicia “oficialmente” com A bagaceira e continua nas obras de Graciliano, Jorge Amado e outros da década de 30. Portanto, a afirmativa contida na nossa primeira proposição acima enunciada não constitui

exatamente uma novidade, mas necessita de ser demonstrada para a totalidade de

Sagarana.

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2. DESENVOLVIMENTO

ANÁLISES DOS CONTOS DE SAGARANA

Nesta segunda parte de nosso trabalho analisaremos os nove contos de

Sagarana. Não tivemos a pretensão de fazer uma análise completa de cada conto, visto que, ao longo de seus mais de sessenta anos de vida, a obra já foi objeto de estudo de críticos competentes e perspicazes. Nosso esforço será dirigido para uma missão menos arrojada, a de ressaltar a unidade do livro e a de levantar alguns aspectos que poderão ser úteis a quem, futuramente, se propuser interpretá–lo sob a mesma ótica .

Para Franklin de Oliveira, as duas epígrafes que abrem Sagarana e as que estão presentes nos nove contos são fórmulas algébricas das histórias; sinalizam ao leitor, de forma cifrada e sintética, o que virá no texto, condensando sua dimensão metafísica:

“As epígrafes descobrem ou indicam o ideário do autor astuciosamente oculto na trama da narrativa.” (OLIVEIRA, 1991, p. 56).

Ao lado das epígrafes que encimam os contos, há outras, internas ao texto –

cantigas e toadas, geralmente com função elucidativa e restrita ao âmbito do momento narrado. Encontramos também nos contos de Sagarana muitas histórias e casos que entram na narrativa como historietas autônomas ou noveletas intercaladas no texto, fato que corresponde, como afirma Franklin de Oliveira, à autêntica e velha maneira de

narrar.7 Algumas vezes elas servem para interligar os contos. Oliveira refere–se ao pretinho de O burrinho pedrês que, de certo modo, se relaciona com o moleque Nicanor, de Minha gente. Essas historietas têm relação com o conteúdo temático da obra e direcionam o leitor na interpretação do texto e, por essa razão, serão sempre analisadas com muita atenção – tarefa em alguns casos complexa e perigosa, porque o caráter freqüentemente figurativo dessas passagens já contém o germe da multiplicidade de leituras e traz o risco da interpretação pouco consistente.

As duas epígrafes que abrem o livro pertencem à categoria das que sintetizam,

de modo cifrado, o que acontecerá na obra. A primeira é uma quadra de desafio

brasileira,

Lá em cima daquela serra,

passa boi, passa boiada,

7 Guimarães Rosa anotou no seu caderno sobre Homero: “(p. 217 – As longas intercalações/ = maneira autêntica e primitiva de contar)” (IEB–USP, documento E17).

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