Saramago

AS PALAVRAS DE SARAMAGOCatálogo de reflexões pessoais, literárias e
políticasElaborado a partir de declarações do autor recolhidas na
imprensa escritaOrganização e seleção deFERNANDO G‘MEZ AGUILERA
Eu sou uma pessoa pacífica, sem demagogia nem estratégia. Digo
exatamente o que penso. E o faço de forma simples, sem retórica. As
pessoas que se reúnem para me ouvir, e com sua independência concordam
ou não com o que penso, sabem que sou honesto, que não procuro
conquistar nem convencer ninguém. Parece que a honestidade não é muito
usada nos tempos atuais. Elas vêm, ouvem e se vão contentes como quem
tem necessidade de um copo de água fresca e o encontra ali. Eu não
tenho nenhuma ideia do que vou dizer quando estou diante das pessoas.
Mas sempre digo o que penso. Ninguém nunca poderá dizer que eu o
enganei. As pessoas têm a necessidade de que se fale com elas com
honestidade.José Saramago, 2003Eu sei o que é, sei o que digo, sei por
que o digo e prevejo, normalmente, as consequências daquilo que digo.
Mas não é por um desejo gratuito de provocar as pessoas ou as
instituições. Pode ser que se sintam provocadas, mas aí o problema já
é delas. A pergunta que faço é por que é que eu me hei de calar quando
acontece alguma coisa que mereceria um comentário mais ou menos ácido
ou mais ou menos violento. Se andássemos por aí a dizer exatamente o
que pensamos — quando valesse a pena —, teríamos outra forma de viver.
Estamos numa apatia que parece que se tornou congênita e sinto-me
obrigado a dizer o que penso sobre aquilo que me parece
importante.José Saramago, 2008Dizem-me que as entrevistas valeram a
pena. Eu, como de costume, duvido, talvez porque esteja cansado de me
ouvir. O que para outros ainda pode ser novidade, para mim se
transformou, com o passar do tempo, em comida requentada. Ou coisa
pior, amarga-me a boca a certeza de que umas tantas coisas sensatas
que pude dizer durante a vida não terão, no fim das contas, nenhuma
importância. E por que haveriam de ter? Que significado tem o zumbido
das abelhas dentro da colmeia? Acaso lhes serve para se comunicarem
umas com as outras?José Saramago, 2008Creio que me fizeram todas as
perguntas possíveis. Eu próprio, se fosse jornalista, não saberia o
que perguntar-me. O mal está nas inúmeras entrevistas que tenho dado.
Em todo o caso, tenho o cuidado de responder seriamente ao que se me
pergunta, o que me dá o direito de protestar contra a frivolidade de
certos jornalistas a quem só interessa o escândalo ou a polêmica
gratuita.José Saramago, 2009
A José, in memoriam, razão de vida. E a Pilar, abraçando o porvir.A
Marga, Carla e Alonso, que respiraram este livro e são a respiração
dos dias.