Seduzida Pelo Inimigo por Shawna Delacorte - Versão HTML

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Projeto Revisoras

Momentos ÍIntimos nº 158

Seduzida Pelo Inimigo

At the tycoon's command

Shawna Delacorte

Digitalização Joyce

Revisão Carla Valéria

Projeto Revisoras

C APÍTULO I

- Ela fez isso?! —Jared Stevens estava atordoado. Retirou as

pernas de cima da mesa e se levantou.

— Sim, rasgou a carta e a atirou em mim! Depois, antes de bater a

porta em meu nariz, ainda disse: "Não pagarei um único centavo

para nenhum membro da família Stevens!". E falou também que

qualquer reclamação sua de que o pai dela tinha um débito nas

Empresas Stevens tinha morrido junto com ele. — Grant' Collins,

em pé no outro lado da escrivaninha, mantinha uma expressão

tímida que não combinava com a postura digna de um advogado.

A raiva de Jared transpareceu em suas palavras:

— Quem ela pensa que é?! — Passou os dedos entre os grossos

cabelos escuros. Então, franziu as sobrancelhas. — Não se

preocupe, Collins. Eu mesmo lidarei com isso.

Assim que seu advogado se retirou, Jared pegou uma xícara de

café e sentou-se na enorme cadeira de couro. Apanhou uma pasta

sobre o tampo, examinou o conteúdo por alguns minutos e

reclinou-se no espaldar. Fechou os olhos. Não tinha tempo nem

paciência para lidar com antigas transações comerciais entre seu

pai e Paul Donaldson.

A rixa Stevens-Donaldson existia fazia três gerações. Jared

estava farto daquilo e não se importava mais com quem começara

ou por que chegara àquela proporção. Não tinha o menor interesse

em prosseguir o assunto com a filha de Paul Donaldson. Apenas

queria que a antiga nota promissória do vinte mil dólares fosse

quitada, de tal maneira que pudesse encerrar o assunto.

Nunca se encontrara com Soraya Donaldson, mas agora teria de

brigar com ela.

O relógio avisou-lhe que eram quatro e meia da tarde. A

residência dos Donaldson ficava a apenas três quilómetros do

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condomínio dos Stevens, onde Jared passava o verão desde que

assumira as rédeas das Empresas Stevens, apesar de morar em

San Francisco a maior parte do ano.

A imensa propriedade virava seu escritório por dois meses a cada

verão, quando ele vinha para sua cidade natal, Otter Crest, na

costa norte da Califórnia, numa tentativa de fugir do

congestionamento de San Francisco, onde as Empresas Stevens

tinham sua matriz.

Suspirou. A questão da promissória precisava ser resolvida o mais

breve possível, assim poderia deixar aquilo para trás e envolver-se

com negócios verdadeiros. E isso incluía um encontro que tinha

naquela noite com a estonteante ruiva que conhecera uma semana

atrás, numa festa.

Um sorriso curvou-lhe os lábios. Seria uma noite de prazer. Mas

antes era preciso lidar com o problema de Soraya Donaldson.

Guardando a pasta em sua maleta executiva, pegou as chaves do

carro e dirigiu-se para a saída.

Soraya Donaldson tinha se formado no segundo grau na mesma

escola do meio-irmão de Jared, Terry Stevens. A mãe de Terry

fora a segunda de uma lista de seis esposas além de numerosas

amantes, de Ron Stevens. Quando Jared deixou Otter Crest aos

dezoito anos para ir à faculdade, Terry e Soraya tinham dez anos.

Isso acontecera vinte anos atrás.

A opinião de Terry sobre Soraya não fora muito lisonjeira, mas

Jared não punha muita fé nas opiniões do irmão. Eles não haviam

sido muito próximos antes; da morte do pai, havia cinco anos, e

Terry se tornara um eterno estorvo para Jared desde que

herdara a tarefa de manter seu meio-irmão irresponsável longe de

encrencas.

Além da responsabilidade sobre a conduta de Terry, Jared

herdara tambem a presidência das Empresas Stevens. Isso fora

um balde de água fria em sua extravagante vida social, mas

também um desafio estimulante para alguém que passava a vida

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sem muitos propósitos.

Pôs-se a dirigir, sem pressa, pela rua ladeada de velhas casas,

conferindo os endereços, até que encontrou aquela em que Paul

Donaldson vivera. Estacionou bem em frente do imóvel, desligou o

motor e permaneceu sentado, olhando para a porta de entrada.

Um estranho pressentimento o assolou.

Nunca lidara com mulher alguma que tivera a ousadia de rasgar

uma demanda de pagamento e atirá-la em cima de um advogado.

Todas as garotas que conhecera eram decorativas, amantes de

diversão e sempre prontas para uma festinha. E conhecera

muitas... Mulheres que se diziam felizes em abraçar sua filosofia

de "sem laços afetivos e sem compromisso".

Vendo a cortina da janela da frente mover-se, ficou alerta.

Alguém o estaria observando?

Não poderia mais adiar o confronto. Era necessário resolver o

assunto de tal maneira que se visse livre para sua viagem a San

Francisco e para a companhia feminina daquela noite. Ao abrir a

porta do automóvel, tinha ciência de que cada movimento seu

estava sendo escrutinado.

Quando ele desceu do veículo, Soraya Donaldson continuou a

observá-lo por trás da cortina. Vira a Porsche prata estacionar e

o ocupante descer.

Uma apreensão na garganta seguida por um sentimento de medo a

assolou. Jared Stevens em pessoa! Soraya permitira que sua raiva

explodisse e dissera uma porção de barbaridades que não deveria

ter dito ao advogado. "Honestamente, Soraya, quando você vai

aprender a pensar antes de falar?!" Não tinha ideia de que sua

explosão produziria uma resposta tão rápida, e nem um pouco

almejada.

Respirou fundo. Nunca se encontrara com Jared Stevens, mas já o

vira em várias ocasiões no decorrer dos anos, quando ele ia a

Otter Crest durante o verão.

Uma das ocasiões queimava-lhe a memória. Ela estava no ginásio,

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assistindo a uma partida de vôlei, e focalizara um dos jogadores

vestido de jeans cortado na altura das canelas e uma camiseta

enorme. A atração física fora instantânea.

Soraya fora tomada pelo desejo que a visão daquele rapaz bonito

e vigoroso em seus vinte anos lhe causava, sem nem mesmo saber

de quem se tratava.

A imagem a perseguira sem cessar... as pernas longas e

musculosas, os ombros largos, os braços fortes, a pele bronzeada.

Mais tarde, descobriu que o homem de seus sonhos era ninguém

mais que Jared Stevens, o irmão mais velho de Terry... o famoso

playboy de Otter Crest.

No mesmo instante, abandonou qualquer interesse por Jared

Stevens. Suas famílias se digladiavam havia gerações, e não

existia razão para aceitar que ele fosse diferente do irmão, que

não passava de um ignorante insuportável. Mas a sedutora visão

permanecera com ela por todos aqueles anos.

Agora, o jeans, a camiseta e os ténis desfiguravam sua posição de

chefe de uma corporação multimilionária. Uma forte ansiedade se

fez presente. Deveria fingir que não tinha ninguém em casa? Não,

que absurdo...

Devia enfrentá-lo, no mínimo para reforçar os comentários que

fizera ao advogado dele. Não tinha a menor intenção de pagar a

ele o débito que seu pai sempre afirmara não existir. Além disso,

jamais poderia levantar vinte mil dólares, mesmo que quisesse

saldar.

O som da campainha causou-lhe um estremecimento. Respirando

fundo, atendeu ao chamado do indesejável visitante.

— Soraya Donaldson?

A voz sexy produziu-lhe arrepios. E ele era ainda mais bonito do

que lembrava... Amadurecera em suas feições belíssimas,

combinadas com uma atração magnética que a atingiu no mais

primitivo nível de desejo.

E aqueles olhos! Soraya não tinha ideia de que fossem de um verde

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tão intenso. O tipo de olhos que podiam sondar a alma de uma

pessoa e descobrir os mais íntimos segredos. Seul coração

disparou.

Sim, Sou Soraya Donaldson.

"Calma, respire devagar", ordenou a si mesma. Sua proposição foi

desperdiçada quando Jared a fitou de cima a baixo. Não havia

engano na expressão de luxúria. O jeito dele a fez sentir-se nua,

embora ao mesmo tempo prometesse prazeres inconfessáveis.

Se soubesse que Jared viria, teria trocado a camiseta azul e o

short branco que usava e colocado um par de sapatos nos pés

descalços. Talvez então não se sentisse tão vulnerável. Uma

surpreendente excitação a atingiu...

— Sou Jared Stevens.

— Sei quem você é.

Uma centelha de espanto surgiu no semblante dele, mas logo

desapareceu.

— Você foi muito rude com meu advogado esta manhã, rasgando a

carta e atirando-a em cima dele. Lamento, mas suas ações

forçaram-me a tomar essa questão em minhas mãos.

Jared a estudou por um longo momento e então sorriu. Que

sorriso sexy e devastador, de dentes brancos e perfeitos, naquele

forte contraste com o bronzeado da face!

— Acredito que temos negócios urgentes a discutir. Esforçando-

se para manter a postura, Soraya respondeu:

— Não temos nada a discutir.

— Evidente que sim, srta. Donaldson. Posso entrar? Ela tentou

forçar algumas palavras, mas nada aconteceu.

Assim, deu um passo para o lado permitindo a entrada de Jared,

enquanto se maldizia por agir como uma adolescente tola e

aterrorizada. Ele era o inimigo, não alguém que devia mantê-la de

língua presa.

— Não vejo o que temos a falar. Você está tentando me extorquir

dinheiro por uma dívida que não existe. Meu pai foi muito enfático

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sobre isso. Também acho de muito mau gosto de sua parte cair em

cima de mim como um abutre. Não esperou nem o funeral terminar

para fazer suas exigências!

Jared coçou a cabeça e arqueou uma sobrancelha.

— Extorquir? É um termo muito forte para ser aplicado a um

débito honesto de cinco anos. Sc você estivesse cinco anos

atrasada para saldar um compromisso de vinte mil dólares a

alguém, eles a mandariam para a justiça.

— Se houvesse! um débito legítimo, seria pago agora. Jared

observou. Soraya Donaldson era, sem sombra de dúvida, uma festa

para os olhos. Desde a bela face até o corpo que fazia acelerar o

pulso de qualquer homem... incluindo o seu.

Seu olhar vagou até a maneira como o tecido macio da camiseta

moldava-lhe os seios firmes, percorreu as lindas pernas

bronzeadas expostas pelo short e parou nos pés descalços e

delicados. Jared calculou que ela teria cerca de um metro e

setenta de altura, uma boa combinação para seus próprios um e

noventa. A teimosa determinação dela e as centelhas de raiva

brilhando nas íris azuis não o dissuadiram de se entreter com os

pensamentos eróticos que povoavam sua mente desde o momento

em que Soraya abrira a porta.

— Não sei de onde você tirou que a dívida não é legítima. Paul

assinou uma nota promissória com as Empresas Stevens no valor

de vinte mil dólares, a serem pagos dois anos após a assinatura.

Em troca da promessa de saldar, ele recebeu uso exclusivo de um

de nossos armazéns pelo período daqueles dois anos. Dar uma nota

promissória quando o prazo expirou foi ideia de meu pai. Mas ele

morreu em seguida, e a cobrança acabou sendo esquecida,

enquanto a companhia mudava das mãos dele para as minhas.

Jared sentou-se numa poltrona, pôs a maleta na mesinha de

centro e, abrindo-a, retirou uma pasta de arquivo.

— Depois de assumir a companhia, estive ocupado com diversos

outros assuntos, incluindo a reestruturação da empresa e o

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desenvolvimento de novas áreas de atuação. Três anos se

passaram antes de a nota promissória vencida ser trazida até

mim. Nos últimos vinte e quatro meses, meu advogado e seu pai

discutiram sobre a quantia principal devida, mais todos os juros

envolvidos.

Soraya cruzou os braços em frente ao peito numa postura de

defesa, mas ouvindo a descrição de Jared sobre a transação de

negócio sentiu-se um pouco apreensiva.

- A versão de papai sobre os eventos difere um pouco da sua, que

julgo fantasiosa.

— O que lhe digo é verdade, e tenho toda a documentação para a

cobrança.

Mais uma vez ele deu um sorriso arrasador, que procurava

desarmá-la. Jared estava muito autoconfiante. Soraya nunca vira

papel algum relacionado àquilo. Contava apenas com as afirmações

de Paul.

Um grande medo a assaltou. E se seu querido pai devesse mesmo

para as Empresas Stevens? Ela nunca seria capaz de honrar. O

espólio de Paul era insuficiente, e os poucos bens que herdara

deveriam ser convertidos em dinheiro vivo para acertar o que

considerava dívida legítima. Suas economias não passavam de dois

mil dólares.

Soraya se aprumou. Jared estava tentando blefar, fazendo-a crer

que tinha uma prova tangível. Ela não ia cair naquela conversa. Era

assim que a todo-poderosa família Stevens vinha tratando os

Donaldson por três gerações.

— Se você tiver essa prova, então quero vê-la.

— É lógico.

Jared sorriu mais uma vez. Pior, um sorriso que dizia que não

estava blefando.

Abriu a pasta de novo e entregou-lhe cópias de um contrato

assinado e uma nota promissória, registrada em cartório, no valor

de vinte mil dólares.

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Soraya lutou para manter as mãos firmes quando viu a assinatura

de seu pai. Toda sua bravura se desvaneceu quando, com muito

cuidado, leu os documentos.

— Eu... quero que Gary Parker examine estes papéis.

— É o seu advogado?

— Sim.

— Sem problemas. — Jared se levantou, pegou a maleta e

caminhou para a saída. — Contatarei você dentro de alguns dias a

fim de finalizar os arranjos para o pagamento do débito.

Pela janela, Soraya o observou entrar no Porsche e partir.

Fora um encontro muito vago e incerto, tanto pela maneira como

ele fizera seus sentidos vibrarem como pelo tópico estressante

da conversa.

Por que seu pai insistira em afirmar que a dívida não existia,

quando assinara um contrato e uma nota promissória?

Um grande desespero a dominou quando olhou ao redor da sala de

estar da velha casa. O lar onde crescera, onde vivera até sete

anos atrás, no qual, no dia anterior, pessoas enlutadas juntaram-

se para seguir o funeral de Paul.

O repentino falecimento dele aos cinquenta e cinco anos, de

ataque cardíaco fulminante, fora um choque para Soraya. Paul

sempre gozara de ótima saúde e nunca mencionara doença

cardíaca, mas a conversa dela com o médico, no funeral, mostrou-

lhe uma história diferente. O pai soubera das condições de seu

coração, mas escolhera não seguir as ordens médicas.

Olhou ao redor de novo. Parecia ter se passado muito mais tempo

desde que se mudara de Otter Crest para aceitar o primeiro

emprego como professora de inglês em San Francisco. Na

realidade, fora apenas por sete anos, mas tinham sido bem

agitados e significativos.

Estabelecera com firmeza sua carreira e ganhara o respeito de

seus colegas pelo trabalho duro e a dedicação. Fora duas vezes

votada como a professora mais popular pelo corpo estudantil, O

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único aspecto negativo fora o desastroso noivado com Al Denton,

um homem cuja ideia de entrega absoluta a uma relação veio a ser

que Soraya seria a única a cumprir o estabelecido, e ele, o único

que podia continuar a encontrar outras.

Meses antes do casamento, Al mudara. Tornara-se insuportável,

exigente e controlador, a ponto de tornar a vida dela um inferno.

Soraya terminara o compromisso, deixara a infeliz experiência

para trás e seguira adiante.

E agora o passado, na forma de Jared Stevens, se introduzira

naquela vida bem organizada e fluente.

Na cozinha, preparou uma xícara de chá. Como poderia saldar o

que devia? Nem sabia a importância exata. Naqueles sinos todos,

os juros sobre vinte mil dólares piorariam tudo ainda mais.

Voltando para a sala, acomodou-se no sofá, saboreando o chá

gelado. O nível de estresse já fora enorme devido à morte do pai,

e agora Jared Stevens conseguira elevá-lo.

Recostando-se, cerrou as pálpebras. Uma imagem vívida de Jared

surgiu diante dela. As feições bonitas, o sorriso sexy, a

intensidade do olhar. O irresistível charme dele ainda pulsava,

embora Jared não estivesse mais ali.

O coração bateu um pouco mais rápido.

Soraya não gostava do efeito desconcertante que ele lhe causava.

Como poderia se sentir atraída por aquele homem? Suas famílias

viviam em desacordo por três gerações. Jared era a última pessoa

do mundo que deveria despertar-lhe pensamentos eróticos.

— Ora, quem precisa de Jared Stevens?!

Jared passara dois dias lutando contra a impressão que Soraya

Donaldson lhe causara. Devaneios com ela conseguiram

intrometer-se no encontro que tivera logo após deixá-la, a ponto

de mantê-lo distraído da companhia da ruiva, tão desejada até

então.

Soraya era diferente do que ele previra. Depois do que seu

advogado lhe contará, Jared esperara encontrar uma megera

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desagradável. Porém, para sua surpresa, deparara com uma moça

linda e desejável, que o seduzira de uma maneira que nenhuma

outra havia feito antes. Fizera o pulso dele disparar e mexera

com sua libido.

Mas havia algo mais nela, algo que Jared não podia identificar. E

era aquela qualidade desconhecida que mais o perturbava.

Considerara que o débito podia estar além das posses de Soraya.

Se a casa de Paul Donaldson fosse alguma indicação do status

financeiro deles, então Jared duvidava que houvesse dinheiro

suficiente no espólio para quitar o que lhe era devido.

A casinha era simples, e seus móveis e objetos de decoração não

possuíam muito valor no mercado. E, como professora, Soraya

Donaldson decerto não tinha renda para assumir uma dívida de tal

magnitude.

Com um suspiro resignado e sentindo-se confuso sobre como

proceder, Jared juntou a documentação apropriada e caminhou

para o carro.

Telefonara informando-a de que iria vê-la às cinco horas. Sabia

que devia faze-la ir até seu escritório de verão, no complexo dos

Stevens. Aquilo teria um aspecto comercial, mais apropriado para

a situação. Porém, não fizera tal sugestão. Optara por dirigir o

Porsche até a residência de Paul, mesmo que isso colocasse o

encontro em um nível mais pessoal. E não estava bem certo do

porquê de ter tomado tal decisão.

Quando subiu os degraus para a varanda, Soraya abriu a porta. Em

mais de uma ocasião, nos últimos dois dias, visualizara-a descalça,

de short e camiseta, os cabelos desalinhados, conferindo-lhe uma

aparência natural. E então aqueles lábios carnudos e sensuais, bem

como um brilho de emoção nos olhos azuis, mesmo que fosse de

zanga.

Uma pontada de decepção o assolou quando viu o modo

conservador como Soraya escolhera vestir-se naquela ocasião.

Pusera uma blusa branca, calça cor de grafite e sapatos de salto

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baixo.

A percepção do próprio desapontamento disse-lhe mais do que

desejava saber. No único encontro, Soraya conseguira capturar-

lhe a atenção total. Era uma mulher enigmática e fascinante, e

muito mais complexa do que aquelas com as quais ele costumava se

envolver.

Soraya deu-lhe passagem para que ele entrasse. Naquele

momento, Jared lamentou sua decisão de marcar o compromisso

longe do escritório. Aquela era uma reunião de negócios que queria

ver terminada o mais rápido possível.

Um pequeno tremor subiu-lhe pela espinha. Tinha uma estranha

sensação de revolta, quase como uma premonição, de que sua vida

estava prestes a se desviar do curso preestabelecido.

Sentando-se no sofá, hesitou em como proceder. Mas então

decidiu-se. A dívida não era um assunto pessoal, e sim uniu

transação financeira da empresa, e como tal precisava ser

resolvida.

— Seu advogado examinou os documentos?

Soraya sentou-se numa poltrona diante dele. Ensaiara o que dizer

quando Jared chegasse, mas agora a segurança começava a

abandoná-la. Ele parecia tão calmo e controlado, como se não

tivesse uma única preocupação no mundo.

— Estive com Jary ontem.

—E?

— Meu advogado me disse que a documentação é legítima. Soraya

olhou para o chão, incapaz de encará-lo. Fora a coisa mais difícil

que já dissera.

— Nesse caso, presumo que você esteja preparada para saldar o

débito.

— Não... eu não pagarei. Isso foi uma transação comercial de meu

pai, não minha. Você não tem direitos sobre mim ou sobre algo que

eu possua.

-— Acha mesmo que não?

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Ela o observou pegar o papel e guardá-lo na pasta. Em seguida, se

ergueu e voltou-se para ela. Cada movimento, cada gesto enviando

uma onda de tremor para o corpo dela.

— Não pagar a dívida... esse é o conselho de seu advogado?

— Não o consultei além do exame de documentos. Mas é assim que

será.

— Percebe que não está me dando outra escolha senão propor

uma demanda em juízo contra o espólio de Paul, a qual a impedirá

de vender ou dispor de qualquer um dos bens dele, tais como esta

casa e seus pertences?

A respiração de Soraya ficou bloqueada na garganta. Ouvira

direito? Como seria capaz de lutar contra uma corporação

multimilionária, sobre um tema que seu advogado afirmara ser

uma obrigação legal?

Uma ira imensa ameaçou irromper. Jared não era nada mais que

um predador, rodeando sua presa. Escolhera a hora em que Soraya

se via mais vulnerável e aproveitara-se da oportunidade. Do

mesmo jeito como a família Stevens vinha fazendo aos Donaldson

havia tantas décadas.

Tentou adquirir coragem e aplacar a ira.

— Consultarei meu advogado sobre isso.

— Tenho um departamento jurídico na empresa. Contratar um

advogado na certa lhe custará mais do que apenas pagar o que; seu

pai devia.

O tom de voz dele a fez lembrar-se da maneira insuportável do

ex-noivo, e Soraya teve de lutar contra a necessidade de acusá-lo

de estar tentando manipulá-la.

E nesse instante algo lhe ocorreu. Com qual deles estava

conversando? Era seu ex-noivo ou Jared Stevens quem ganhara

sua recriminação?

Readquirindo a compostura, tentou ver a situação sob um prisma

lógico e imparcial. Jared apenas tentava cobrar um débito justo,

assumido pelo pai dela. Soraya tentou convencer-se de que aquilo

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não tinha nada a ver com a rixa Stevens-Donaldson. Jared não

estava querendo controlá-la ou causar-lhe transtornos. A oferta

não passava de um arranjo comercial.

Mas o que fazer? Vinte mil dólares era dinheiro demais, e Gary

Parker lhe dissera que as Empresas Stevens tinham todo o direito

de fazer a cobrança. Soraya se encontrava em uma situação muito

precária. Desafiar não ia ajudar em nada. Tinha de encontrar

alguma forma de resolver a situação com Jared Stevens com o

menor prejuízo possível.

— Não tenho condições de saldar o que devo. Será necessária a

renda do espólio para arcar com diversas outras obrigações de

papai.

A forte determinação desaparecera, e em seu lugar, Jared viu

uma mulher vulnerável. Viera preparado para uma intensa

resistência de Soraya. Podia manejar a raiva dela. E sabia como

proceder em qualquer negociação comercial. Mas aquilo o

sensibilizara em um nível pessoal, e não sabia direito como lidar

com isso.

Fitando o rosto dela, um aperto no peito lhe causou desconforto.

Sim, na verdade... ela era uma garota muitíssimo desejável, que

mexera com sua libido.

As palavras escaparam de sua boca antes que pudesse estimar de

onde vinham:

— Talvez possamos fazer um acordo. Segundo meu advogado, você

é professora. — Esboçou um sorriso sedutor. — Eu irei deixá-la

trabalhar, para pagar a dívida.

C APÍTULO I I

A turdida, Soraya sentiu uma intensa raiva, ao observar a

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expressão desafiadora de Jared. — O que você está querendo?

— Proponho que você trabalhe durante suas férias de ve

rão a fim de liquidar o débito, o que seria melhor do que tentar

conseguir o dinheiro por meio de outra fonte.

Um sorriso leve surgiu na boca de Jared, que ele tentava conter.

A ira de Soraya aumentou. Aquele homem a estava insultando. O

significado de tal proposta estava explícito naquele olhar

malicioso.

— Esse tipo de conduta pode funcionar para muitas mulheres que

frequentam sua cama, mas não sou uma delas.

— Não sei como está interpretando, srta. Donaldson, mas o que

lhe ofereço é uma maneira legítima de resolver a questão. Preciso

de uma pessoa para o verão enquanto estou aqui. E ofereço o

cargo a você. Em troca... — Jared observava, bem devagar, o

corpo dela. Depois voltou para o rosto.

— Em troca disso, o quê? Vai perdoar vinte mil dólares mais os

juros? É muito dinheiro para apenas três meses de trabalho

legítimo.

Ele a encarou. Os olhos verdes pareciam enxergar através dela.

Um tremor substituiu a zanga de momentos atrás. Teria ido longe

demais? Soraya se perguntava.

Teria se precipitado na interpretação do que ele dissera?

Entendera mal? Não tinha condições de enfrentar uma ação

judicial. Não podia permitir que Jared abrisse uma demanda

contra o espólio do pai.

— Seria muito dinheiro, sem dúvida. Mas estou considerando o

custo para mim, se trouxesse alguém de nossos escritórios de San

Francisco. Eu não somente teria de pagar um salário extra por

afastar o funcionário de seus deveres habituais, mas também

teria de providenciar-lhe hospedagem aqui.

Aquilo fazia sentido, mas Soraya poderia confiar no que Jared

dizia? Ele era um Stevens, afinal. Sentia-se encurralada numa

armadilha insustentável. Ele a manipulara até o ponto em que ela

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se via sem escolhas.

Tentou uma atitude bem distante de seu estado de espírito

daquele momento:

— Pedirei que meu advogado redija um documento declarando os

parâmetros desse acordo. Isto é, se eu decidir aceitar o emprego.

Jared esboçou um sorriso tão sexy que fez o coração dela

disparar.

— Eu não faria isso de maneira diferente... tudo transparente e

dentro da legalidade.

Soraya engoliu em seco, e diversos pensamentos povoaram sua

imaginação. Não tinha de ser tudo de um lado só, em que ela cedia,

e ele exigia. Não haveria nada no combinado que a obrigasse a ser

agradável. Poderia fazer daquilo os três meses mais terríveis da

vida dele, contanto que não lhe desse a oportunidade de reclamar

que ela não estava cumprindo sua parte.

Mas isso seria prático? O que queria mesmo fazer era solucionar o

assunto da dívida e depois se afastar de Otter Crest e de

qualquer conexão com a família Stevens.

Por um momento, chegou a se indagar se não estaria fugindo do

magnetismo sexual de Jared Stevens. Então, tentou descartar a

ideia como ridícula, mas a verdade era que uma forte excitação

continuava circulando por suas veias.

A voz macia de Jared interrompeu-lhe as conjecturas per-

turbadoras.

Qual é sua resposta? — Uma centelha de triunfo cintilou no

semblante dele. — Quer quitar esse débito com facilidade ou será

preciso que meu advogado entre na justiça contra o espólio de

Donaldson?

Jared a encostara na parede. Manipulara-a em benefício próprio.

Sendo assim, não tinha escolha.

— Está bem... contanto que meu advogado redija um acordo que

ambos achemos aceitável.

Jared abriu a maleta executiva e tirou um bloco de notas e

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caneta. Então, sentou-se no sofá.

— Certo. Que tópicos quer registrados no documento? Mais meia

hora se passou antes que Jared se preparasse para deixar a casa

dos Donaldson. Ambos tinham uma lista de quesitos com que

haviam concordado. Ele oferecera que seu advogado redigisse a

declaração, mas Soraya insistira que queria que o advogado dela o

fizesse.

O documento seria assinado na segunda-feira. Isso daria a Jared

quatro dias para planejar um programa de trabalho e calcular tudo

o que iria querer que Soraya fizesse.

Uma espécie de deleite acompanhou-o quando se dirigiu para o

carro. O advogado de Soraya poderia redigir o contrato, mas

mesmo assim ele seria capaz de dar a ela uma lista de tarefas

servis e pequenos serviços mundanos.

Satisfeito, entrou no veículo e partiu.

Tinha muitos projetos legítimos nos quais poderia usar a ajuda de

uma boa assistente durante o verão, sendo o mais importante a

obra do prédio para a comunidade, que estava em construção.

Mas poderia confiar nela para lidar com temas confidenciais?

Desejaria poder, mas Soraya já deixara claro que a rixa Stevens-

Donaldson era proeminente em seu modo de pensar. Sendo assim,

Jared resolvera lhe atribuir tarefas sem importância que não

pudessem prejudicar seus projetos especiais.

Soraya olhou as roupas que trouxera de seu apartamento em San

Francisco. Tentou determinar o que seria apropriado usar em seu

primeiro dia de trabalho.

Consultou o relógio... seis e meia da manhã. Um toque de irritação

a dominou. Restavam apenas duas horas de liberdade, e depois o

serviço contratado a privaria do verão.

Passara os três últimos dias desfazendo-se dos pertences do pai,

doando as roupas para um abrigo de pessoas carentes, examinando

os registros financeiros com mais cuidado e contatando os

credores. Determinou o que queria conservar e o que queria

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vender, obtendo uma avaliação dos pertences e entregando a casa

a um corretor de imóveis.

A única coisa que não inspecionou foram diversas pastas de

arquivos contendo uma miscelânea de papéis. Apenas juntou tudo

numa caixa e programou dar atenção àquilo numa outra

oportunidade.

Seu advogado, Gary Parker, apresentara-lhe a declaração do

acordo conforme os termos que ela e Jared haviam previamente

estabelecido e enviara a documentação para que Jared a

assinasse. Agora não havia mais nada a fazer, senão aparecer no

escritório, no complexo da família Stevens. Embora se sentisse

ansiosa, era muito tarde para voltar atrás, ainda mais com a

enorme dívida pesando em sua cabeça.

Por fim, optou por uma calça esporte, uma blusa simples e

sandálias. Tomando apenas uma xícara de café, percorreu de

carro a pequena distância até o escritório de Jared.

Parando na frente da imensa propriedade, permaneceu no

automóvel, olhando para a casa sólida de dois andares que se via

através dos portões de ferro, abertos para um caminho asfaltado

e tortuoso ladeado de árvores.

Um pensamento fugaz lhe ocorreu. Aquela era a terra com a qual o

avô de Jared, Victor Stevens, trapaceara seu avô, George

Donaldson, num desonesto jogo de pôquer. Esse fora o primeiro

incidente que houvera entre seu avô e o de Jared, e que dera

início à inimizade entre as famílias. Um forte tremor deixou-a

insegura.

Nunca estivera naquele lugar, jamais atravessara aqueles portões.

O terreno de cem acres que dava frente para o mar fora a única

possessão valiosa que George. A perda da terra abateu-o em

todos os sentidos. Fizera tantos planos que lhe dariam lucro para

o terreno... E então Victor Stevens usara a terra adquirida de

maneira desonesta para aumentar a já significativa fortuna da

família. Ficara com dez acres daqueles cem, construíra a bela

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residência, um ancoradouro para barcos e vendera o resto por

milhões de dólares. Dólares que deveriam estar na família dela.

Toda sua vida, Soraya ouvira sobre aquela propriedade e sobre

como Victor arruinara seu avô. E como o filho, Ron, continuara com

a tradição em tentar enganar os Donaldson.

Nunca entendera por que o pai continuara a ter negócios com Ron

Stevens. Sua mãe não fora conivente, mas Paul se recusara a

permitir que o assunto morresse. Soraya convivera com toda a ira

e ressentimento que o pai nutria e com o estresse que as atitudes

dele traziam para dentro do lar.

E, depois de tudo, agora via-se na desconfortável posição de

trabalhar para Jared Stevens.

Empinou o queixo num gesto determinado. Certo, precisava honrar

os termos do compromisso e quitar a obrigação financeira do pai,

mas não havia nada que dissesse que teria de ser amistosa com

Jared.

Ligando o motor, atravessou o portão e percorreu o longo caminho

de cimento.

Quanto mais se aproximava da imponente casa, mais insegura e

ansiosa se sentia.

Ao estacionar diante das imensas portas duplas, desceu do

veículo. Respirou fundo e subiu os três degraus para a varanda.

A mão tremia quando tocou a campainha.

Um instante depois, vieram atendê-la. Um senhor uniformizado

cumprimentou-a.

— Srta. Donaldson?

— Sim.

— Entre, por favor. Sou Fred Kemper, o mordomo. Jared está a

sua espera.

Ao seguir Fred, Soraya observava o hall de entrada em forma de

arco, que dava para uma grande sala de estar ricamente decorada,

com um teto em ogiva de catedral.

Uma imensa lareira destacava-se junto à parede. Depois da sala

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de estar, havia uma sala de jantar sofisticada, com um suntuoso

lustre de cristal. Ela logo contou as cadeiras em volta da mesa:

vinte. Jamais vira uma mesa de jantar (laqueio 'tamanho numa

casa particular.

Tudo transpirava riqueza, elegância e prestígio. Um quê do

ressentimento a tocou, seguido pela sempre presente raiva. Aquilo

deveria pertencer a sua família. Primeiro a seu avô, e depois a seu

pai.

Isso teria dado a sua mãe uma vida mais fácil, e decerto

permitido que Paul vivesse mais que seus cinquenta e cinco anos.

Porém, Victor Stevens tirara aquela opção deles quando fraudara

George.

— Por aqui — disse Fred.

Soraya o seguiu pelo corredor interno e depois através de uma

porta, para uma área muito mais moderna do que o restante da

residência. De repente, viu-se dentro de um belíssimo complexo

de escritórios, e então na sala de recepção de um deles.

— Jared estará aqui em um minuto.

Tão logo Fred desapareceu, Soraya sentou-se num sofá e

examinou ao redor. Todos aqueles equipamentos de última geração

na certa permitiam que Jared conduzisse a maioria dos negócios

dali mesmo.

A casa dele... Cerrou os dentes para conter a fúria que mais uma

vez ameaçava tirar-lhe a calma. Nunca dera muita atenção ao

complexo dos Stevens até que o advogado de Jared a contatara

com a nota promissória. Até aquele momento, considerara a

história da terra trapaceada algo que causara um sério impacto na

existência de seu pai, mas que não a envolvia. Agora, no entanto,

via-se atirada no meio da rixa da velha geração.

O olhar tornou a percorrer a recepção. Era opinião da maioria das

pessoas na cidade que Jared era apenas um play-boy esbanjando a

fortuna que herdara, uma espécie de testa-de-ferro, promovido

pelos membros da família como presidente da corporação. O

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verdadeiro serviço era feito sem dúvida por pessoas qualificadas

e dedicadas a seus empregos.

Se era assim, por que ele construíra uma obra tão cara como

aquele complexo de escritórios fora da matriz, e que espécie de

tarefas podia ter para ela fazer?

Um pressentimento de que talvez tivesse feito um mau negócio

aceitando trabalhar em troca da quitação da dívida a assaltou.

Cerrou as pálpebras, e uma imagem mental de Jared logo apareceu

em sua mente. Mais uma vez, a intensidade dos olhos verdes e o

sorriso sexy assaltaram-lhe os sentidos.

Um pequeno calafrio de excitação lhe dizia que Jared Stevens era

a causa da apreensão, e não a rixa Stevens-Donaldson, como

queria acreditar.

A voz suave de Jared interrompeu-lhe os devaneios:

— Estou feliz em constatar sua pontualidade.

Ele estava parado à soleira. Aquela visão a pegou de surpresa.

Como era atraente! Com a cabeça inclinada para um lado, os

braços cruzados sobre o peito e o quadril encostado no batente,

parecia alguém que ela gostaria de conhecer melhor.

Soraya respirou fundo e deixou tudo isso de lado. Afinal, Jared

Stevens era o último homem por quem gostaria de ter

pensamentos eróticos. A família dele era responsável pela ruína

de seu avô e pela amargura que acompanhara seu pai por toda a

vida. Jared Stevens era o inimigo. Jamais deveria se esquecer

disso.

— Tento sempre ser pontual, sr. Stevens. — Soraya se levantou.

— Chame-me de Jared. Sr. Stevens era meu pai.

Ele cruzou o ambiente e sentou-se na ponta da mesa, sem desviar-

se dela. Esperara que, de alguma maneira, Soraya tivesse mudado

desde que a vira pela última vez, pois assim a presença feminina

não continuaria a mexer com sua sensibilidade, mas não teve essa

sorte. O pulso estava acelerado, e a respiração entrecortada.

Soraya estava tão bonita quanto ele a imaginara durante os

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últimos dias, tão desejável quanto temera que poderia estar. Era

uma tentação de mulher, essa era a realidade.

Suspirou. Tinha um dia de trabalho duro pela frente, e precisava

manter a cabeça no lugar.

Jared apontou uma cafeteira numa mesinha de canto.

— Pegue uma xícara de café, se quiser. Depois a levarei para um

rápido giro pelo complexo de escritórios, antes que comecemos a

trabalhar.

Soraya se serviu de café. Jared esperou que terminasse. Em

seguida, deu alguns passos e abriu uma porta que dava para fora.

— Aqui é a entrada comercial dos escritórios. É a que você usará

de agora em diante, em vez da porta principal da casa. Como pode

ver, há um acesso até aqui pela rua lateral. — Entregou-lhe um

cartão magnético. — Isto abrirá o portão de serviço.

Soraya esticou a cabeça para fora da porta e deu uma rápida

olhada. Jared tornou a fechá-la e voltou à sala de espera.

— Este lugar é a área de recepção, onde minha assistente de

verão trabalha. — Acenou com o braço quando entrou numa sala

menor, contendo uma mesa e seis cadeiras. — Esta é a sala de

reuniões. — Continuou avante. — Este é meu escritório.

Soraya estudava cada detalhe. Aquela era uma sala grande, com

portas duplas em estilo inglês, e dava para um pátio externo,

permitindo que Jared entrasse e saísse sem ser visto por alguém

que estivesse na sala de reuniões ou na recepção.

Ele passou pelas portas inglesas. Um imenso jardim os recebeu.

Uma casinha de cachorro indicava que era um lugar no qual um

animal de estimação podia ter um belo espaço sem interferir no

restante da propriedade.

Dali o terreno descia até um muro com portões que davam acesso

ao ancoradouro e à praia particular. Atracado, via-se um veleiro

cujas velas brancas lampejavam ao sol. Tudo irradiava dinheiro e

prestígio, uma vida plena de ócio e conforto.

E tudo fora roubado de seu avô pelo avô de Jared.

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— Tudo é muito bonito e luxuoso.

— Obrigado. Gostaria de poder passar mais tempo aqui, em vez de

em minha casa em San Francisco, mas é lá que fica a sede da

empresa, e onde preciso estar o mais possível.

Quando voltaram para a recepção, Jared guardou rápido diversos

documentos que estavam fora de uma pasta de arquivo sobre a

escrivaninha da secretária. Um detalhe que não escapou à atenção

de Soraya. Seriam os papéis mais uma das sombrias lidas

comerciais em que os Stevens se envolveram no decorrer dos

anos? Tentou reforçar sua determinação. Uma coisa era certa: de

modo algum faria parte de nenhuma conduta oculta dele. Se Jared

soubesse...

— Você gosta de animais?

— Como? Animais?

— Sim. Esta é a primeira das tarefas que deverá desempenhar

hoje. — Entregou-lhe uma lista. — Não espero que use seu próprio

carro para levar Lurch para um banho. A loja Ford é aquela em que

ele se sente mais à vontade.

— Lurch? Banho?

Soraya franziu o cenho quando olhou para a lista, e então escutou

Jared assobiar. Levantando a cabeça, viu um cachorro enorme

entrar pelas portas inglesas. Pior, o animal correu na direção dela.

Soraya procurou sair do caminho, mas duas imensas patas se

apoiaram em seus ombros. Um segundo depois, estava

esparramada no chão, com um vigoroso são bernardo lambendo-lhe

a face. Tentava afastar o animal, mas, quanto mais se esforçava,

mais Lurch parecia achar que aquilo era brincadeira.

Jared agarrou a coleira do cão. Um inconfundível tom de

divertimento acompanhou as palavras dele:

— Sossegue, Lurch! Deixe Soraya se erguer! Arrastou o cachorro,

com toda a gentileza, e estendeu a mão para ajudá-la. No

momento em que as mãos se tocaram, uma incrível sensualidade

tomou conta de todo o corpo dela.

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Jared a colocou de pé. Soraya tentou soltar-se, mas ele não

permitiu. Em vez disso, puxou-a para mais perto, até que seus

corpos quase se encostassem.

Ela o encarou e, uma vez mais, a intensidade das íris verdes a

tocou fundo.

Jared continuava a segurar a mão de Soraya e pensou que, por

mais que quisesse beijar aquela boca deliciosa, sabia que não

ousaria.

— Você está bem? Lurch não a feriu, não é?

Soraya se libertou, tentando livrar-se da indesejável onda de

desejo que a percorria. Por um momento, acreditou que Jared iria

beijá-la, algo que, para sua surpresa, não era uma ideia

desagradável.

Ajeitou a roupa amarrotada.

— Desculpe-me por Lurch. Ele às vezes é um pouco turbulento. E

parece que gostou de você.

— Então Lurch é isso aí? E espera que eu leve essa fera enorme

para tomar banho?

— Cuidado com o que diz. — Jared simulou uma expressão

preocupada. — Lurch é muito sensível.

Soraya lhe endereçou um olhar zangado, pegou do chão a lista de

tarefas que Jared lhe dera e começou a ler em voz alta:

— Levar Lurch para tomar banho na loja Ford. Apanhar roupa na

lavanderia da esquina. Levar o Porsche para a revisão".

O momento de desejo que a assaltara um pouco antes desapareceu

como que por encanto, dando lugar à irritação.

— É este tipo de serviço que espera de mim? Pensei que quisesse

uma secretária, alguém para fazer trabalho de escritório, não

para desempenhar servicinhos mundanos para você.

— Não creio que haja algo em nosso acordo que limite seus

deveres de secretária. — Jared colocou um jogo de chaves na mão

dela. — Lurch nunca se sentiria confortável nessa coisinha que

você dirige. Leve o Explorer. Está estacionado bem ao lado da

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porta.

— Espere um minuto! Nós precisamos conversar...

— Seria melhor se apressar, Soraya. O banho está marcado para

as nove.

Com isso, Jared deu-lhe as costas e foi para sua sala, deixando-a

em pé, na recepção, atónita. Jamais lhe ocorrera especificar no

acordo que seu trabalho ficasse restrito às tarefas de escritório.

Sentiu-se amargurada, de mau humor. Jared planejara aquelo

cenário todo apenas para embaraçá-la. Isso era o que ele tinha em

mente desde o início. A situação requeria uma conversa com Gary

Parker sobre tal ocorrência inesperada.

Olhando para as chaves que segurava, examinou a lista mais uma

vez. No verso do papel, constavam os respectivos endereços.

Mirou o cachorro, agora sentado junto à mesa. Lurch fitava-a com

seus enormes olhos castanhos, abanando a cauda.

Um pouco do nervoso que sentira começou a se desvanecer. Visto

que superara o susto por causa do enorme são bernardo em cima

dela, tinha de admitir que era um animal magnífico.

— Bem, Lurch, parece que vamos passear.

Ao ouvir a palavra "passear", Lurch se pôs a balançar mais forte a

cauda e adentrou o escritório de Jared, derrubando um cesto de

lixo no caminho.

Soraya olhou para suas roupas, agora sujas e amassadas. Se as

coisas continuassem do jeito que estavam, calça jeans e camiseta

seria decerto o traje perfeito para o restante do verão. Estava

claro que não precisaria se preocupar em manter uma imagem

perante os clientes de Jared ou dos associados comerciais.

Uma estranha sensação a invadiu. Metade dela era ressentimento

por ele tê-la enganado sobre seus deveres, relegado-a a tão

insignificante posição, mas a outra metade era alívio.

Tentou ver tudo de uma maneira lógica. O que devia fazer era

tirar o melhor de uma má situação. Talvez Jared só quisesse

provar que estava no comando. E talvez fosse melhor assim. Ela o

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deixaria crer que ele mandava. Se o emprego oferecido envolvesse

apenas tarefas domésticas, então assim seria.

Sem dúvida tratava-se de uma maneira fácil de quitar o débito do

pai e resolver o problema sem envolver um advogado e despesas.

Uma fase que poderia muito bem ser vivida pelos três meses que

duraria o acordo.

Lurch voltou correndo, arrastando a guia de sua coleira na boca.

Largou a guia aos pés dela e latiu, feliz. Agia mais como um,

filhote brincalhão do que como o imenso animal que era.

Soraya pegou a guia e a prendeu na coleira de Lurch. O cão, no

mesmo instante, saiu em direção à porta, puxando Soraya.

— Calma, Lurch!

Ela não pôde evitar uma risada espontânea pela excitação do bicho

por saber que ia passear. Precisou de toda sua força para

controlá-lo e evitar que ele a arrastasse através do assoalho.

O som da gargalhada de Soraya chegou até Jared. Ele ficou

parado à porta, observando-a tentar conter o cão, enquanto Lurch

corria para o estacionamento, indo para o Explorer verde.

Gostava daquele som, mas não podia ver as feições dela. Imaginou

como seria seu sorriso. Estivera face a face com Soraya três

vezes, e em todas as ocasiões nem a sombra de um sorriso

apontara em seu belo rosto.

Fechou os olhos e reavivou a fresca lembrança da mão dela na sua,

quando a ajudou a se levantar do solo. Sentiu um aperto no peito,

que demonstrava o quanto Soraya Donaldson se introduzira em

seus pensamentos e em seus anseios.

E não gostou disso. Pelo menos pensou que não...

Negócios ou prazer? Cada confronto punha-o mais na dúvida de

suas intenções no que dizia respeito a ela. Algo lhe avisava de que

deveria ter destruído a nota promissória e encerrado o caso. Se

apenas tivesse feito isso em vez de obrigá-la a trabalhar para

pagar a dívida...

Mas quisera irritar uma Donaldson. Fora uma ideia estúpida, mas

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agora era tarde demais.

Tentou se acalmar. Soraya era inteligente e podia ser de grande

ajuda. Mas seria capaz de confiar numa Donaldson o suficiente

para compartilhar os assuntos comerciais das Empresas Stevens?

Haveria um fim para a ridícula rixa das duas famílias?

Uma coisa era certa: teria de mantê-la ocupada e longe de seu

escritório, para poder concentrar-se em suas obrigações.

Esforçou-se em trabalhar, mas não podia esquecer a visão de

Soraya, nem apagar a sensação da mão dela na sua.

Uma intuição lhe dizia que os dias que tinha pela frente seriam

qualquer coisa, menos normais.

Soraya Donaldson cheirava a problema com P maiúsculo, e ele não

podia culpar ninguém, exceto a si mesmo.

C APÍTULO I II

Ao se sentar ao volante do Porsche de Jared, . Soraya não podia

controlar os nervos.

Era um belo carro, poderoso como o dono. Ficara surpresa quando,

mais cedo, Jared lhe pedira para levar o automóvel para a revisão

e lhe entregara as chaves, com total displicência, perguntando-lhe

apenas se sabia dirigir um carro automático.

Durante o dia, Soraya se entreteve pensando em que tipo de

homem Jared era, na realidade. E tinha uma resposta diferente

para cada vez que se perguntava.

Consultou o relógio quando deu partida no motor. Quase cinco da

tarde. Tudo o que tinha a fazer agora era devolver o Porsche a

Jared, e daria o expediente por encerrado. No geral, não fora tão

ruim. Fizera amizade com Lurch, que não passava de um filhote

brincalhão.

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Mas o grande dono do filhote era outra história.

Toda vez que Soraya voltava para o complexo, a energia que surgia

no ar quase a oprimia, deixando-a com sensações muito

inquietantes. O magnetismo sexual de Jared era quase tangível.

Ele lhe dera algumas tarefas de escritório para fazer, como

redigir cartas sobre assuntos rotineiros da corporação, sobre a

participação dos empregados para levantar fundos, pedidos para

organizações beneméritas e alguns memorandos para a matriz.

Mas era óbvio que a mantinha afastada de qualquer detalhe que

pudesse comprometer os interesses comerciais dele.

Era evidente que não confiava nela, mas Soraya tinha de admitir

que entendia por quê. Se os papéis fossem invertidos, na certa

não confiaria nele.

A maioria das tarefas ordinárias se referia a assuntos pessoais,

mais que a funções da empresa. Jared lhe dera uma lista de

chamadas telefónicas a fazer, tais como providenciar a limpeza da

piscina, orçar a compra da mesa de bilhar, pedir vinhos ao

depósito de bebidas e marcar a limpeza dos carpetes. Afazeres

que ela pensava que Fred Kemper, o mordomo, poderia executar.

Mesmo quando se achava de costas para Jared, podia senti-lo a

observá-la.

O que a punha muito desconfortável e excitada ao mesmo tempo.

Que espécie de homem era Jared Stevens? Até então, apesar de

tê-la ludibriado sobre a natureza das funções que desempenharia,

ele não parecia ser do mesmo tipo tolo que o irmão.

Terry fora cruel com seus comentários ferinos. Engrandecera a

posição dos Stevens para todo o mundo, em especial Soraya.

Fizera o possível para humilhá-la, e ela nunca o perdoara por isso.

Jared, por outro lado, deixava-a sozinha o dia inteiro, à vontade

para agir como bem entendesse.

Dirigiu o Porsche através do portão de serviço e estacionou na

garagem, entrando no escritório pela porta lateral.

Passou pela recepção e parou à soleira da sala de Jared. Ele

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estava recostado contra o espaldar da grande cadeira de couro,

com os pés sobre o tampo, mas apesar da postura relaxada

parecia tenso. Sua total atenção se concentrava no documento que

segurava. Parecia um tipo de contrato.

Soraya hesitou, sem saber se devia interrompê-lo.

Talvez pudesse deixar as chaves do Porsche sobre a escrivaninha

e sair sem que Jared percebesse que estivera lá. Mas, quando

estava prestes a se virar, ele levantou a cabeça e a viu.

— Trouxe meu carro de volta?

— Sim. — Entregou-lhe as chaves. — Acho que vou para casa,

agora.

— Não tão depressa, Soraya. — Os dedos deles se tocaram

quando pegou o chaveiro, arrepiando a pele dela. — Ainda não

terminamos por hoje.

Soraya olhou para o relógio.

— São quase cinco e meia. Estou aqui desde as oito da manhã. Há

alguma outra tarefa insignificante que queira me dar? Devo ir

comprar o jornal? Checar sua caixa de correspondência? Levar o

cachorro para passear? Arrumar a despensa e etiquetar os itens

em ordem alfabética? — O olhar dela era desafiador. — E então?

Jared a encarou, resoluto. A irritação de Soraya transformou-se

em embaraço. Mais uma vez, ele parecia estar lendo seus

pensamentos mais íntimos. E o que pensava, naquele instante, não

era muito lisonjeiro em relação a Jared, embora envolvido por uma

elevada porção de sensualidade.

O silêncio dele a perturbou em demasia, e ela teve de desviar o

olhar. No entanto, tentou manter a determinação.

— Bem, o que há ainda a ser feito?

— Fred trouxe a correspondência, eu já li o jornal, a despensa

está organizada e Lurch tem terreno suficiente para se exercitar

à vontade.

Soraya se irritou com o tom condescendente, sobretudo porque

merecia aquilo. Talvez tivesse ido longe demais. Mesmo tendo

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planejado tornar a situação desconfortável para ele, não fora

capaz de ir em frente com o plano que concebera. Não eram de

sua natureza confrontos pessoais, mas cada vez que Jared abria a

boca ela se punha na defensiva.

Pareceu se passar uma eternidade antes que ele falasse outra

vez:

— O que tinha em mente era ver o que há na geladeira e preparar

algo para comermos. Achei que talvez eu pudesse pôr uns filés

para grelhar enquanto você faria a salada. — Coçou a cabeça e lhe

dirigiu um olhar inquisitivo. — A menos que tenha outros planos

para o jantar.

Será que ouvira direito? Jantar? Não dava para acreditar! Fazia

tempo que não se sentia tão aparvalhada. De novo o magnetismo

sexual de Jared mexeu com sua realidade. Estariam sozinhos na

mansão ou Fred jantaria com eles? Quais eram os motivos de

Jared? Podia confiar nele em nível pessoal?

Talvez a melhor pergunta seria se ela podia confiar em si mesma

num encontro social com aquele homem tão atraente... que

pertencia à família que vinha brigando com a sua por três

gerações.

Soraya hesitou. Como responder o inesperado convite?

— Eu... bem... não tenho outros planos. Comer alguma coisa seria

muito bom. — E agora? Aceitara ficar.

Uma agitação interna lhe dizia que poderia ser uma decisão de que

logo se lamentaria.

— Ótimo! Vá dar uma olhada na geladeira. Trarei uma garrafa de

vinho da adega, e enquanto isso você pode dar comida para Lurch.

Soraya permaneceu ali, aturdida. Por que ele acrescentara uma

tarefa insignificante após um convite amistoso?

Não queria se descontrolar e piorar tudo, mas fazia questão de

deixar sua posição muito clara. Empinando o queixo, disse, muito

calma:

— Dar comida para o cachorro? Isso é alguma técnica sua? Fazer

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um convite cortês e logo depois me atingir com sua verdadeira

intenção? Bem, não vai funcionar dessa vez. Só agora me lembrei

de que tenho um compromisso esta noite. Se me permite...

A campainha tocou, seguida pelo som de alguém esmurrando a

porta. Um homem com cabelos escuros irrompeu pelo hall de

entrada. Olhou em volta e dirigiu a palavra apenas para Jared.

— Preciso de um favor.

Soraya logo reconheceu o intruso. Terry Stevens, que a

atormentara durante os anos escolares.

-— Você sempre precisa de um favor, Terry. De que se trata?

Terry olhou para Soraya como se tivesse acabado de perceber a

presença dela.

— O que ela está fazendo aqui? É dia de fazer uma boa ação aos

Donaldson?

— O que Soraya faz aqui não é de sua conta — respondeu Jared,

zangado.

Terry virou-se para Soraya e indicou a porta da frente.

— Vá andando, moça. Jared e eu temos um assunto particular a

discutir.

Jared evitou que ela replicasse.

— Soraya e eu vamos jantar. Uma vez que não está convidado,

tudo indica que é você quem precisa ir andando.

Ela estava confusa. Jared tinha ficado a seu lado, defendendo-a

contra a agressão verbal do irmão. Estivera zangada com ele

alguns minutos antes da chegada inesperada de Terry, mas agora

não sabia o que pensar.

Terry lançou um olhar furioso para Soraya, deu-lhe as costas e

baixou a voz, mas não tanto que ela não pudesse ouvir:

— Temos um assunto pessoal para discutir, e isso não pode

esperar até que você alimente essa mulher.

— Sim, claro que pode esperar. Negócios devem ser resolvidos

em horário comercial. Terei algum tempo livre às dez horas,

amanhã. Pode passar no escritório, se quiser.

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A atitude exigente de Terry arrefeceu um pouco.

— Mas você não entende que o problema...

— Sei muito bem do que se trata. Acabei de examinar o contrato

que Tony Williams me encaminhou esta tarde. Aquele prometendo

pagamento em trinta dias. Aquele que você não tinha autoridade

para assinar e que obriga as Empresas Stevens a pagar cem mil

dólares por algo que a companhia nunca verá, porque isso se

tornará mais um de seus brinquedos. Não é esse o problema?

— Isso deveria ser discutido em particular, não perante uma

Donaldson.

— Como já lhe disse, dez horas, amanhã. E chegue no horário,

pois estou com a agenda lotada.

Jared pegou o braço de Soraya e a conduziu na direção da

cozinha, deixando Terry parado no hall. Soraya precisava falar

alguma coisa.

— Quando você disse a seu irmão...

— Terry é meu meio-irmão, não meu irmão. Ele é o resultado do

segundo casamento mais caro de meu pai... ou talvez, terceiro, não

lembro direito. Costumo perder a conta do número de mulheres

que foram sra. Ron Stevens. Papai teve seis mulheres. Sem

mencionar os numerosos casos entre os casamentos. Bem, antes

de termos sido tão rudemente interrompidos, acredito que você

estava tentando me convencer...

A batida violenta da porta da rua anunciou a saída de Terry.

— ...de que tem um outro compromisso para esta noite. Presumo

que seja para mais tarde, depois que jantarmos.

— Suponho que sim.

Soraya permitiu sem resistência que ele a conduzisse para a

grande cozinha. Jared mais uma vez a coagira a fazer algo que não

tinha intenção de fazer. Por que sempre terminava concordando

com Jared? Por que não o enfrentava?

— Vou pegar o vinho na adega e volto já. A comida de Lurch está

logo ali. — Sorrindo, apontou para o quartinho de ferramentas

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acoplado à cozinha. — E a tigela está no canto, perto da porta de

saída da cozinha.

Jared desapareceu antes que ela pudesse protestar.

Soraya, imóvel, pensava em suas opções.

Justo quando se preparara para brigar com Jared por causa da

atribuição de alimentar o cachorro, Jared a defendera do ataque

de Terry. Estava um pouco agitada pelo confronto de Jared com o

meio-irmão e confusa pelo modo como a protegera.

Havia também o tom afiado dele ao fazer questão de esclarecer

que Terry era seu irmão só por parte de pai.

Era a última coisa que pudera imaginar, ainda mais de um membro

da família Stevens.

Um sentimento gratificante a aqueceu quando rememorou que

Jared não a desconcertara perante o irmão, dizendo que ela

estava trabalhando em troca da dívida do pai. Apenas falara para

Terry que a presença dela não lhe dizia respeito.

Soraya pensou em ignorar a ordem de alimentar Lurch, mas o

pobre animal não tinha culpa de nada. Desse modo, suspirou,

resignada. Pensaria a respeito quando chegasse em casa.

Pegou a ração no quartinho de ferramentas e, quando abaixou-se

para pegar a tigela, reparou em algo ridículo. Lá estava a maior

portinhola para cães que já vira. Era uma abertura tão grande na

porta que até um homem corpulento poderia entrar e sair

engatinhando através dela. O absurdo a fez dar uma sonora

gargalhada.

Jared apareceu trazendo uma garrafa de vinho naquele exato

momento. O som da risada o surpreendeu e ao mesmo tempo o

cativou.

Era a mesma que ouvira horas antes, tão espontânea que chegava

a excitá-lo. Um momento depois, viu que o sorriso de Soraya era

tão encantador quanto imaginara. Sentiu o peito apertado e o

pulso acelerado. Aquela sensação já conhecida que experimentava

cada vez que estava perto dela.

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Sabia bem a razão de ter insistido para que ela ficasse e jantasse

em sua companhia. Era o mesmo tipo de decisão impetuosa que o

fizera oferecer o emprego em pagamento da dívida. Algo em

Soraya o fazia querê-la por perto.

Seria um erro? Lamentaria mais tarde? Era provável que sim, mas

isso era uma preocupação racional, e ele parecia estar agindo por

pura emoção. Primeiro, pela força da libido, depois, por algo que

não podia identificar. Talvez conhecê-la melhor fosse o motivo.

— Qual foi a graça?

Soraya arregalou os olhos e enrubesceu.

— Você me assustou. Não o ouvi chegar... Jared lhe deu um

sorriso franco.

— Do que estava rindo?

Ela reprimiu outra risadinha e apontou para a portinhola.

— Independente do sistema de segurança que você tem aqui, essa

passagem é grande o bastante para que qualquer assaltante entre.

— Bem... presumo que qualquer pessoa que tentasse entrar

pensaria também que o animal que exigisse tão grande entrada era

algo que não gostariam de encontrar pela frente.

— Faz sentido. — Sorriu, tímida.

— Além do mais... — Num gesto involuntário, Jared esticou a mão

livre e tocou de leve o rosto dela. — ...o sistema de alarmes cobre

as outras portas que levam para dentro da mansão.

Jared pôs a garrafa de vinho sobre o balcão. Sabia que estava

pisando em terreno perigoso, mas naquele momento não se

importava.

Deslizou os dedos pela face dela e foi descendo-os pelo braço.

Enfim, segurou-lhe a mão. As palavras escaparam de seus lábios

sem que ele, conscientemente, as quisesse proferir:

— Tem um sorriso lindo. Deveria sorrir mais vezes. Puxou-a para

mais perto, da mesma maneira de quando a ajudara a erguer-se do

chão, naquela manhã. Só que dessa vez não se conteve. Inclinou-

se, roçou os lábios nos dela e deu-lhe um beijo suave.

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Jared sentiu que ela hesitou por um momento, como se estivesse