Segundos Cantos e Sextilhas de Frei Antão por Antônio Gonçalves Dias - Versão HTML

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Segundos Cantos, de Gonçalves Dias

Fonte:

DIAS, Gonçalves. Os Timbiras : poesia completa e prosa escolhida. Rio de Janeiro : José Aguilar, 1959.

p.209-255 : Segundos Cantos. (Biblioteca Luso-brasileira - Série Brasileira).

Texto proveniente de:

A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro <http://www.bibvirt.futuro.usp.br> A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo Permitido o uso apenas para fins educacionais.

Texto-base digitalizado por:

Roberto Dauar – São Paulo/SP

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<voluntario@futuro.usp.br> SEGUNDOS CANTOS

Gonçalves Dias

CONSOLAÇÃO NAS LÁGRIMAS

Como é belo à meia noite

O azul do céu transparente,

Quando a esfera d’alva lua

Vagueia mui docemente,

Quando a terra não ruidosa

Toda se cala dormente,

Quando o mar tranqüilo e brando

Na areia chora fremente!

Como é belo este silêncio

Da terra todo harmonia,

Que aos céus a mente arrebata

Cheia de meiga poesia!

Como é bela a luz que brilha

Do mar na viva ardentia!

Este pranto como é doce,

Que entorna a melancolia!

Esta aragem como é branda

Que enruga a face do mar,

Que na terra passa e morre

Sem nas folhas sussurrar!

Os sons d’aéreo instrumento

Quisera agora escutar,

Quisera mágoas pungentes

Neste silêncio olvidar!

O azul do céu, nem da lua

A doce luz refletida,

Nem o mar beijando a praia,

Nem a terra adormecida,

Nem meigos sons, nem perfumes,

Nem a brisa mal sentida,

Nem quanto agrada e deleita,

Nem quanto embeleza a vida;

Nada é melhor que este pranto

Em silêncio gotejado,

Meigo e doce, e pouco e pouco

Do coração despegado;

Não soro de fel, mas santo

Frescor em peito chagado;

Não espremido entre dores,

Mas quase em prazer coado!

CANÇÃO

Tenho uma harpa religiosa,

Toda inteira fabricada

De madeira preciosa

Sobre o Líbano cortada.

Foi o Senhor quem ma deu,

Se santas palmas coberta,

Que as notas suas concerta

Aos sons do saltério hebreu!

Tenho alaúde polido

Em que antigos Trovadores,

Em tom de guerra atrevido,

Cantavam trovas de amores.

Mas chegando a Santa Cruz,

De volta do meu desterro,

Cortei-lhe as cordas de ferro.

Cordas de prata lhe pus.

Tenho tão bem uma lira

De festões engrinaldada,

Onde minha alma afinada

Melindres d’amor suspira.

Nas grinaldas, nos festões,

Nas rosas com que s’inflora,

Goteja o orvalho da aurora,

Ditame dos corações.

Eis o que tenho, ó Donzela,

Só harpa, alaúde e lira;

Nem vejo sorte mais bela,

Nem coisa que prefira.

Votei assim ao meu Deus

A minha harpa religiosa,

A ti a lira mimosa,

O grave alaúde aos meus!