Sempre o Teu Amor por Candace Camp - Versão HTML

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Sempre o Teu Amor - CHE nº 165 Candace Camp

Sempre o Teu Amor

Candace Camp

Digitalizado e Revisado por:

Erika Santana

Um

momento

de

loucura

à

luz

do

Luar...

Inglaterra,

1815.

Sempre o Teu Amor - CHE nº 165 Candace Camp

Nicola Falcourt foi marcada pelo sofrimento da perda de seu único amor... Mas a chegada de um

famoso assaltante de estrada mudará sua vida e a fará envolver-se num mistério que a lançará em um

grande

perigo...

e

a

uma

paixão

ainda

maior!

Mas o destino trouxe esse bandido mascarado para a vida de Nicola para torná-la o pivô de uma

história que reunirá ambição, mentiras e assassinato. Para salvar aqueles a quem ela ama, Nicola terá

de confiar num homem que é tão perigoso quanto desejável. E, ao agir assim, ela não arriscará apenas

sua vida, mas também seu coração...

Sempre o Teu Amor - CHE nº 165 Candace Camp

Prólogo

1789

Helen inclinou-se sobre o menino na cama. Parecia tão pequeno e indefeso que um aperto dolorido

atingiu-lhe o cotação. As mechas de cabelos finos estavam úmidas e coladas à pequena cabeça, os

olhinhos estavam fechados, os longos cílios destacavam-se sobre o rosto avermelhado. Ele permanecia

imóvel, e o único sinal de vida que se podia perceber em seu corpinho era o movimento suave do lençol

que cobria seu peito. Momentos antes, ele dissera palavras desconexas em seu sono, movendo-se de

forma estranha devido à febre. E agora estava assim, tão quieto...

Helen tocou-lhe a pequena testa, pedia a Deus que não o deixasse morrer. Conhecia-o havia apenas

dois dias, mas já não suportava a idéia de vê-lo partir.

O Sr. Fuquay chegara à taberna havia duas noites, em um veículo dos correios e, curiosamente,

trouxera aquela criança doente. Helen conhecia Fuquay, ele já estivera na vila antes, quando Richard

Montford viera com amigos para visitar seu primo, lorde Chilton, conde de Exmoor. Dizia-se, na vila, que

o conde desprezava Richard Montford e não permitiria que ele permanecesse em Tidings, a grande

propriedade da família Montford. Mas, agora, o velho estava morto e Richard Montford era o novo

conde. Era estranho que Fuquay tivesse vindo à taberna e não seguido para Tidings.

Parecera ainda mais estranho quando Helen vira que ele trazia duas crianças consigo. Ele aparecera na

porta da taberna e lhe fizera um sinal. Helen olhara para o dono do lugar e depois seguira Fuquay. Ele

era um rapaz esquisito, bonito, mas muito magro, com um olhar quase sempre suave. Uma das outras

garotas da taberna dissera que ele era consumidor de ópio, e talvez fosse verdade. Mas ele sempre

fora gentil com ela e nem precisara ser muito persuasivo para convencê-la a aquecer sua cama

enquanto estava dormindo na taberna. Fuquay também fora muito generoso, e Helen tinha boas

recordações suas.

Lembrava-se de que ele a tomara pela mão e a levara até a carruagem dos correios, abrindo-a e

mostrando-lhe as duas crianças; uma menina, meio escondida pela capa e o chapéu, enrodilhada em

um dos cantos do veículo. E no assento da frente, o menino, embrulhado em um cobertor. O pequeno

tremia muito, e seu rostinho estava banhado em suor.

- Pode tomar conta dele, Helen? - Fuquay pediu.

- Está muito doente, e acho que nem vai durar muito ... Mas eu não posso ... Não importa o que ele

queira. - Ele interrompera seu vago discurso para olhá-la com carinho, depois retirara uma moeda de

ouro do bolso e a colocara em sua mão.

Helen, por um momento, hesitou em aceitar ou não dinheiro.

- Não vai se arrepender - prometeu. - Apenas fique com ele até que se vá. Vai fazer isso por mim, não

vai?

Sempre o Teu Amor - CHE nº 165 Candace Camp

- Mas... o que ele tem? - Ela não conseguia desviar os olhos do pobre garotinho. Ele era lindo e parecia

tão vulnerável.

- Uma febre, parece - Fuquay explicou. - E... acho que merece, pelo menos, morrer em uma cama. E

então, vai ficar com ele?

Ela concordara. Apaixonara-se pela criança assim que a vira. Jamais conseguira engravidar e sempre

quisera ter um filho. Era um desejo secreto e um tanto triste e que havia sido motivo de chacota das

outras garotas da taverna.

- Ah, você é que é feliz! - elas tinham dito. Nem precisa se preocupar com uma gravidez problemática.

E agora aquela bela criança lhe era entregue, como um presente dos céus. Aceitara o menino, sem

querer respostas para as inúmeras perguntas que borbulhavam em sua mente. Além do mais, os

homens não gostavam muito de dar explicações...

Levara o menino para a cabana de sua avó, pois não tinha a menor intenção de deixar que seu valioso

presente morresse. E se havia alguém que poderia salvá-lo, seria sua avó. Era um longo caminho, pois

vovó Rose vivia em uma cabana escondida, nas terras de Buckminster, e Helen tivera de fazer a última

parte da viagem a pé, com o menino nos braços, pois não havia uma estrada em condições de ser

trilhada por um veículo. Fuquay entregara-lhe o menino agradecendo demasiadamente, mas Helen mal

prestara atenção a suas palavras. Seus pensamentos e sua atenção estavam totalmente voltados ao

menino.

Ergueu os olhos e voltou-os para a velhinha, que estava a poucos metros. Vovó Rose, como era

conhecida pela maioria da população local, era uma senhora baixinha, gordinha e muito simpática.

Tinha olhos azuis muito vivos que pareciam querer saltar do rosto enrugado e moreno. Sua aparência

era alegre, quase cômica, e era muito sábia e respeitada. Conhecia ervas como ninguém e, quando

Helen chegara com o garoto febril, ela logo soubera o que fazer.

Havia dois dias que as duas mulheres estavam cuidando do menino, dando-lhe as infusões que vovó

Rose preparava, passando trapos molhados por seu corpinho e forçando um pouco de água e de sopa

por seus lábios ressequidos. Helen chegara a chorar, imaginando que a febre o consumiria de vez. A

cada instante parecia amá-lo mais.

E ali, olhando-o tão quieto, um pressentimento terrível a tomou.

- Ele está... ? - começou a dizer, sem coragem para terminar a frase.

Vovó Rose sorriu de leve e murmurou:

- Não, não. Ele já passou pelo pior. A febre já se quebrou.

Um tanto desconfiada, Helen tocou o rosto do menino e, surpresa, sentiu que ele já não estava tão

quente quanto alguns minutos antes.

- O que pretende fazer com ele? - vovó Rose perguntou, observando o rosto ainda aflito da neta. - Ele é

nobre, você sabe.

- Helen assentiu em silêncio. As palavras que o menino pronunciara em seus delírios traíam sua educa-

ção, bem como as roupas finas que usava, embora estivessem sujas e molhadas de suor.

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- Eu sei, mas ele é meu - murmurou. - Nós o salvamos; e ele me pertence agora. Não vou deixar que o

tirem de mim. Além do mais... - Helen se interrompeu, sem saber se deveria revelar à avó o que imagi-

nava sobre o menino.

Achava saber quem ele era, mas, se estivesse certa, temia que sua revelação colocasse a vida do

garoto em perigo. Se, estivesse enganada, bem, então não fazia idéia de quem ele poderia ser e não

seria sua culpa se não pudesse devolvê-lo à sua família.

Fosse como fosse, o melhora fazer era permanecer calada.

- Sim? - sua avó indagou, esperando pela conclusão da frase.

- Eu não sei quem ele é - Helen, respondeu. - Para onde o levaríamos? E... acho que não querem que

ele sobreviva.

- E o que vai dizer se lhe perguntarem o que aconteceu ao menino?

- Bem... vou dizer que ele morreu, é claro, como pensaram que aconteceria e que eu o enterrei na flo-

resta onde ninguém poderia ver sua sepultura.

A velha nada disse. Apenas assentiu e não mais tocou no assunto. Ela também, Helen imaginava,

apaixonara-se pelo pequeno infeliz.

Depois que a febre passou, o menino foi melhorando aos poucos, até que, por fim, abriu os olhos

castanhos para Helen.

- Quem é você? - perguntou com voz fraca.

Ela tomou-lhe as mãozinhas nas suas e sussurrou, enternecida:

- Sou sua nova mãe, Gil.

- Mamãe? - ele repetiu vagamente, os olhos ainda incertos.

- Sim, mamãe.

- Mas eu... eu não me lembro... Eu tenho medo!

Havia lágrimas nos olhos do garotinho, e Helen acariciou-lhe os cabelos para acalmá-lo.

- Eu sei, meu querido. Você ficou muito doente, mas eu estou aqui e vovó também está, e nós vamos

cuidar de você.

Ela o abraçou e recebeu o abraço de volta, bem apertado, enquanto sentia nos braços as lágrimas que

rolavam dos olhinhos do menino.

- Mamãe... - ele repetia, quase sem voz.

- Sim, meu amor. Eu estou aqui. E vou estar sempre. Sempre!

CAPÍTULO 01

1815

A carruagem já estava próxima da propriedade Exmoor, e Nicola começava a sentir medo. Não

entendia como concordara em visitar sua irmã nesse lugar. Arrependia-se agora. Preferia ter ficado em

Londres e ajudado Marianne e Penélope com seus planos de casamento. Mas Deborah lhe parecera

tão frágil e infeliz, temerosa, até, e Nicola não pudera negar um pedido seu. Afinal Deborah era sua irmã

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mais nova e amava-a do fundo do coração. Fora apenas o casamento com o conde de Exmoor que

acabara afastando as duas.

Nicola respirou fundo e ajeitou-se melhor no banco.

Não gostava de se lembrar das brigas que haviam acontecido depois que Deborah anunciara seu

casamento com Richard. Nicola a aconselhara muito, mas Deborah parecia estar cega para os defeitos

do futuro marido... E quando Nicola revelara que meses antes Richard estivera lhe fazendo a corte,

Deborah não acreditara e acusara-a de estar com inveja de sua felicidade. Depois disso, Nicola deixara

de tentar dissuadi-la da idéia do casamento. E, nos nove anos que se seguiram, ela e a irmã haviam se

visto apenas ocasionalmente. Nicola se recusara a entrar na casa do conde, e Deborah fora ficando

cada vez mais reclusa, sem nem mesmo ir a Londres.

No entanto, ao ver a irmã no mês anterior na casa de uma prima, Deborah implorara que Nicola ficasse

com ela durante sua quarta gravidez. Ela sofrera três abortos e não conseguira ainda dar um filho ao

conde e parecia estar apavorada diante da idéia de vir a perder esta criança também. Assim, Nicola fora

incapaz de recusar o pedido da irmã, embora detestasse passar alguns meses sob o mesmo teto que

Richard.

Deborah, é claro, não podia entender o que Nicola sentia por seu marido. No entanto, cada vez que era

obrigada a olhar para aquele homem, Nicola sentia-se diante de alguém que destruíra sua vida. Richard

Montford matara o único homem que ela amara.

O caminho era difícil e, de repente, a carruagem pareceu tombar um pouco para a esquerda, lançando

Nicola de seu assento, prostrando-a no chão do veículo. Culpa sua, condenou-se, porque deveriam ter

parado uma hora atrás, quando começara a escurecer e agora não estariam se aventurando por uma

estrada solitária na escuridão.

Gostava de saber que estava em Tidings, mas ainda restavam duas horas para que a carruagem

atingisse os portões de Exmoor. Mas, como já lhe haviam dito muitas vezes, paciência não era uma de

suas qualidades...

De repente, um disparo muito próximo fez seu coração se acelerar de medo.

- Parados! - gritou uma voz masculina e em poucos segundos, a carruagem já não se movia.

- Eu não o faria se fosse você - disse o homem, em tom um tanto divertido. Seu sotaque era,

curiosamente, da nobreza. - Porque você, meu amigo, tem apenas uma arma velha, e nós temos meia

dúzia de pistolas novas apontadas para seu coração.

Nicola percebia, desesperada, que a carruagem fora parada por um assaltante de estrada. Na verdade,

vários deles, pelo que pudera entender do que ouvira. Assaltos dessa espécie eram muito comuns no

passado, em especial quando se estava afastado de Londres, mas agora já não se ouvia falar tanto

nesse tipo de crime.

Houve alguns segundos de silêncio, e depois o mesmo homem continuou a falar:

- Excelente decisão! Você é esperto. Agora, sugiro que entregue sua arma a meu homem, ali, bem

devagar e, é claro, com o cano para baixo.

Com muito cuidado, Nicola afastou uma ponta da cortina da janela mais próxima e espiou. A noite

estava calma e escura, favorecendo os assaltantes. O rapaz que acompanhava o cocheiro estava

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entregando sua arma a um homem, que montava um cavalo e que guardou sua própria arma para ficar

com a recém-adquirida e apontá-la para seu antigo dono.

Vários homens rodeavam a carruagem, todos montados em cavalo e armados com pistolas. Estavam

todos vestidos de negro, parecendo misturar-se ao negrume da noite, e apenas o metal de suas armas

era refletido pelo fraco luar e pelas lanternas que estavam penduradas na carruagem. Mais tenebroso

ainda, todos os homens usavam máscaras na parte superior do rosto, que fez Nicola prender a

respiração, amedrontada.

Um dos homens voltou-se de imediato ao ouvir seu suspiro, seus olhos achando Nicola com facilidade.

Ela soltou a cortina, o coração aos pulos.

- Ora, ora! - exclamou a voz bem educada. - Um passageiro curioso... - Parecia haver satisfação em sua

voz. - Visitante do conde, suponho... Ou teria eu sido tão afortunado a ponto de ter encontrado o próprio

conde de Exmoor? Saia daí, senhor, para que possamos vê-lo!

O homem que a vira era, obviamente, o líder do grupo, e, certamente, notara o brasão com as armas da

família Montford na porta da carruagem. E devia estar satisfeito por ter parado alguém de dinheiro... Ela

esperava apenas que aquele homem não decidisse tomá-la como refém, imaginando que o conde

pagaria uma fortuna por seu retorno. Com um sussurro, Nicola amaldiçoou Richard por ter insistido em

enviar a carruagem para buscá-la. Teria sido bem melhor se tivesse vindo em um coche comum.

Respirou fundo e, tentando manter-se calma, abriu a porta da carruagem e saiu, esperando demonstrar

frieza e superioridade. Lembrou-se de sua amiga Alexandra e do hábito que ela tinha de levar uma

pequena pistola em sua bolsinha. Todos achavam tal atitude perigosa e absurda, mas este era um

momento em que ela poderia fazer bom uso de seu hábito...

Nicola parou ainda com os pés no degrau e olhou para o líder do grupo com altivez. Não queria parecer

aflita. O homem, porém, murmurou uma imprecação e pareceu empertigar-se.

- Muito bem - disse Nicola com sarcasmo.- Conseguiram capturar uma mulher desarmada.

- Nenhuma mulher é desarmada - rebateu o homem, agora com um leve sorriso nos lábios. Apeou ra-

pidamente e aproximou-se, fazendo uma mesura diante de Nicola.

Ele era alto e forte, mas suas formas estavam um tanto ocultas pela noite. Nicola sentiu um arrepio pas-

sar-lhe pela espinha, uma mistura de medo e respeito que não entendeu no momento. Podia ver

apenas parte do rosto dele e, nela, parte de um bigode e de uma barba bem cortada. Os lábios estavam

curvados em um sorriso que ela não soube identificar se era zombeteiro ou gentil.

Ele se aproximou, estendeu a mão enluvada para ajudá-la a terminar de descer, e seus dedos

fecharam-se delicadamente sobre os dela, dando-lhe segurança para o próximo passo. Mesmo quando

ela já descera, continuou segurando-a, os olhos fixos nos dela.

- Solte-me, sim? - pediu ela.

- Claro, senhora, claro...

Na escuridão da noite, os olhos dele eram incrivelmente negros. Olhos sem alma, Nicola imaginou, an-

gustiada. Mas não conseguia desviar seus olhos daquelas pupilas intensas. Sentiu que ele lhe apertava

de leve a mão para depois soltá-la.

- Mas deve pagar um pedágio antes, por passar por minhas terras - ele disse, ainda sorrindo.

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- Suas terras? - Nicola procurava conter a indignação diante daquelas palavras. - Achei que estávamos

nas terras do conde de Exmoor...

- No sentido... digamos... legal, sim.

- Oh... E existe um outro sentido?

- Sim, o do direito. A terra não pertence a quem vive nela?

- Essa é uma noção um tanto radical... E o senhor, ao que me parece, imagina ser o representante do

povo?

Ele ergueu de leve os ombros e sorriu ainda mais.

- Bem, a maioria das pessoas que conheço e que vive nestas terras não consideraria um ladrão como

seu representante - Nicola instigou.

- Oh, a senhora me fere, assim. Imaginei que pudéssemos ser... civilizados. Havia um certo tom ca-

rinhoso na voz baixa dele.

Mais uma vez, Nicola teve uma indecifrável e agradável sensação diante daquele estranho.

- É difícil agir com civilidade quando se está sendo ameaçada - rebateu.

- Ameaçada? Senhora, estou chocado com o que me diz! Não fiz ameaça alguma contra a senhora!

- A ameaça está implícita quando pára minha carruagem e exige dinheiro. - Ela parou e olhou ao redor,

significativamente, para os homens a cavalo, que ouviam sua conversa. - Por que, então, estes homens

estariam apontando armas contra mim?

Um dos assaltantes riu baixinho e comentou:

- Ela tem razão nesse ponto, meu amigo. - Também a voz desse homem carregava o acento das

classes altas do país, Nicola notou e olhou para o estranho, surpresa.

- Mas o que é isto? - perguntou desconfiada. - Um grupo de homens da cidade atacando no campo?

O sujeito que acabara de falar limitou-se a rir.

- Não, minha senhora - disse o homem que estava diante dela, subitamente sério - Estamos aqui a

negócios. Portanto, vamos ao que interessa: dê-me sua bolsa, por favor.

- É claro... - Nicola abriu a bolsinha de pano e escancarou-a diante do estranho.

Ele enfiou a mão na delicada peça e retirou dela o porta-níqueis de couro, avaliando-lhe o peso.

- Ah, que bom que não viaja desabonada - comentou. - Sorte minha.

- Imagino que queira minhas jóias também - Nicola disse, firme, retirando as luvas para mostrar os dois

anéis de prata, que adornavam seus dedos. Se lhe desse aquilo, ele não procuraria por algo mais

valioso. Nicola não podia deixá-lo levar o pingente que trazia em uma corrente, por debaixo da vestido.

Não era de grande valor, a não ser para ela, mas aquele sujeito o levaria mesmo assim, só para

aborrecê-la, avaliou.

- Sinto, mas não uso braceletes nem colares - observou. - Raramente uso jóias quando viajo.

- Entendo... mas sempre achei que jóias são muito mais transportadas em viagens do que,

propriamente, usadas ... - Ele fez um gesto em direção à carruagem, e dois de seus homens

desmontaram e pularam para a parte de cima do veículo, descendo segundos depois, satisfeitos, com a

caixa de jóias de Nicola e uma outra caixa de madeira, que se apressaram em amarrar a suas selas.

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Mesmo assim, Nicola sentia-se aliviada. O homem retirou as luvas e, tomando-lhe a mão direita, passou

a tirar os anéis. Nicola prendeu a respiração, uma vez que o contato das mãos dele,

surpreendentemente, acelerava-lhe o coração.

Ergueu os olhos para encontrar os dele, enigmáticos, e puxou a mão que ele segurava.

- Muito bem, se já terminaram, eu gostaria de prosseguir com minha viagem - disse aborrecida.

- Não, ainda não terminei - ele rebateu. - Há ainda algo que eu gostaria de roubar da senhora.

Nicola ergueu as sobrancelhas, tentando imaginar o que poderia ser, até que ele tomou-a pelos ombros

e, sem vacilar, deu-lhe um beijo nos lábios.

Nicola sentiu o corpo todo se enrijecer, enquanto os lábios dele se moviam sobre os seus, sedutores,

suaves e quentes. Depois seu corpo experimentou uma deliciosa sensação de felicidade e

relaxamento... No entanto, havia emoções fortes demais pulsando dentro de seu peito, surpreendendo e

perturbando-a tanto quanto aquela atitude insolente do saqueador.

Ela era uma bela mulher, com um corpo pequeno e curvilíneo, cabelos cor-de-mel e olhos eloqüentes,

vivazes. Estava acostumada à atração que os homens sentiam por sua beleza, e, mesmo, com seus

avanços muitas vezes inoportunos. Mas não estava acostumada a responder de maneira tão favorável

à aproximação de um deles.

Ele a soltou de forma tão abrupta quanto a tinha segurado. Seus olhos brilhavam na escuridão, e Nicola

teve certeza de que ele percebera a reação de seu corpo. Sentiu-se ultrajada e cheia de raiva e, sem

vacilar, ergueu a mão e golpeou-o no rosto.

Todos permaneceram em profundo silêncio, como se o tempo houvesse parado de passar. Nicola

encarava o saqueador, certa de que ele a puniria pelo que acabara de fazer, mas estava furiosa demais

para se importar.

O homem a fitou por um longo momento, mas sua expressão era indecifrável. Por fim, ele se inclinou,

em um gesto de despedida.

- Senhora... - E, com um gesto ágil tornou a montar seu cavalo. Assobiou de forma aguda e, de repente,

perdia-se dentro da escuridão da mata, seguido por seus homens.

Nicola viu-o partir, os lábios ainda ardentes devido ao beijo e todos os nervos à flor da pele. Estava

trêmula, mas reconhecia que era pela raiva que ainda sentia. Não sabia se estava furiosa com o

saqueador por ele ter tido a audácia de beijá-la, ou consigo mesma pela maneira como reagira àquele

beijo.

- Mas onde já se viu tamanha afronta! - exclamou o conde de Exmoor, esmurrando a superfície da

pequena mesa que tinha diante de si e que chacoalhou com o golpe. Ele era um homem alto, como

todos os Montford e aparentava ter bem menos do que seus quase cinqüenta anos. Seus cabelos eram

castanhos e estavam ficando grisalhos nas têmporas, e seus traços eram considerados bastante

atraentes. Nesse momento, porém, estavam retorcidos pela raiva.

Como era de se esperar, ele ficara furioso quando Nicola chegara e contara o que acontecera na

estrada. E, nos últimos minutos, estivera andando de um lado para o outro na grande sala de estar, o

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rosto congestionado, os punhos cerrados. Sua esposa, Deborah, observava-o, pálida e ansiosa,

enquanto Nicola procurava evitar seus olhos.

- Atacaram minha carruagem! - ele prosseguia, ainda mais enraivecido. - Quanta audácia!

- De fato, o chefe do grupo parecia ser bem audacioso - Nicola comentou, sem deixar de sentir certo

prazer por ver o cunhado tão ofendido.

- Vou mandar cortar a cabeça daquele cocheiro por isso! - Richard disse, entre dentes, ignorando-a.

- Não foi culpa dele - ela defendeu. - Os assaltantes colocaram o tronco de uma árvore na estrada, e

não havia como o pobre homem forçar os cavalos sobre ele.

- Mas e o rapaz que o acompanhava? - Richard parou de andar e voltou-se, encarando Nicola. - Eu o

mandei que ficasse alerta, e estava armado! E o molenga não só deixou de usar a arma, como acabou

por entregá-la aos criminosos!

- Havia pelo menos seis assaltantes rodeando a carruagem. Se o rapaz houvesse disparado, seria

morto, com certeza, bem como o cocheiro. E então, o que poderia ter-me acontecido? Acho que eles

cumpriram seu papel e pensaram em mim.

- Ah, que grande proteção! - o conde zombou.

- Bem, eu estou aqui e não fui ferida. Apenas perdi algumas jóias e moedas.

- É... De fato, você não me parece muito preocupada com o que houve.

- Estou feliz por estar viva. Por alguns momentos, naquela estrada, tive a impressão de que não sairia

viva.

Richard assentiu de leve, mas não pareceu convencido.

- Graças a Deus você está bem! - Deborah suspirou, estendendo as mãos para a irmã, que as aceitou

de pronto.

- Ainda bem que consegue ver o que passou com tanta... casualidade - Richard observou, muito sério. -

Mas vou tomar providências. Não vou suportar tamanho insulto.

- Ora, Richard, pare com isso! Fui eu a atacada! - Nicola argumentou.

- Mas estava viajando sob minha proteção - ele rebateu. - É como se eu tivesse recebido uma bofetada.

Esse assaltante deve ter feito isso apenas para me humilhar! Pois bem, mas, desta vez, esse sujeito vai

saber que foi longe demais! Não vou sossegar até vê-lo enforcado! Ainda bem que eu já havia

providenciado um segurança. Quando ele chegar, esse criminoso vai ver que andou mexendo com o

homem errado!

Não era de se estranhar, Nicola avaliava, que Richard estivesse mais preocupado com sua honra do

que com a segurança de sua hóspede. Olhou para a irmã, imaginando se esta ainda estaria tão cega de

amor por aquele homem, a ponto de não ver quanto ele era frio e egoísta.

No entanto, vendo o rosto triste e pálido de Deborah, logo quis encerrar aquele assunto.

- Já chega desta conversa - disse bruscamente. - Deborah deve estar cansada e precisa ir para a cama.

- Não, não, estou bem... - Deborah tentou assegurar, mas sua aparência a desmentia.

- Não teime, querida - Nicola insistiu. - É óbvio que você está exausta. Vamos, vou acompanhá-la até

seu quarto. – Richard, se nos der licença... - Ela olhou para o cunhado, o qual mal lançou um olhar de

desprezo em direção à esposa. Fazendo um sinal com a mão, observou em seguida:

Sempre o Teu Amor - CHE nº 165 Candace Camp

- Preciso ir falar com o cocheiro. Boa noite, Deborah. Nicola... - E, depois de hesitar por alguns

segundos, acrescentou: - Estamos felizes com sua visita, cunhada. Peço desculpas pelo inconveniente

que sofreu.

Nicola e Deborah seguiram em direção à escada, enquanto Richard saía da sala.

- Espero que ele não seja duro demais com o cocheiro - Deborah murmurou. - Não que ele seja rude

normalmente, sabe, mas é que esse assalto o deixou transtornado...

- É, eu percebi.

- Sabe, esse assaltante tem provocado Richard. Sei que parece estranho, mas parece que ele sente um

prazer mórbido em roubar meu marido. Rouba o pagamento dos trabalhadores da propriedade, os

carregamentos que chegam e partem das minas. Já perdi a conta de quantas vezes as carroças foram

atacadas. Até mesmo à luz do dia! É como se esse homem estivesse tentando confrontar Richard

diretamente!

- Faz sentido. Richard é o maior proprietário de terras por aqui. A maior parte do dinheiro que esse

assaltante rouba tem que ser dele...

- Ah, mas ele faz outras coisas também! Pára outras carruagens, até as do correio, às vezes. Mas é

Richard quem tem sido mais atingido. Ele tem tido grandes prejuízos com as minas de estanho. E o que

deixa Richard mais furioso é que esse tal "cavalheiro", como chamam o assaltante por aqui, nunca

consegue ser capturado! Aparece vindo do nada e desaparece da mesma forma. Richard já enviou

homens em seu encalço, para tentar descobrir onde se esconde, mas eles nada encontraram. Ele

também colocou guardas a mais nas carroças, mas não adiantou. Como hoje... E o pior é que ninguém

dá uma informaçã6 correta sobre esse criminoso. Até mesmo os mineiros e fazendeiros que trabalham

para Exmoor dizem não conhecê-lo. Acha que isso é possível?

- Não sei. Parece, de fato, estranho, que ninguém saiba nada a respeito do tal homem. - Nicola avaliou.

- As pessoas, na vila, costumam saber de tudo! Richard acha que estão zombando dele. Que escondem

o paradeiro do tal assaltante. É como se, por alguma estranha razão, o "cavalheiro" fosse uma espécie

de herói para todos daqui...

Nicola vira a raiva nos olhos de Richard e a maneira como ele culpara o cocheiro e depois seu

acompanhante. Ela podia bem imaginar que seus empregados lhe dissessem pouco do que sabiam.

Richard sempre fora arrogante, em especial com os serviçais, a quem considerava inferiores. Talvez as

pessoas daquela região sentissem até certo prazer em ver o assaltante abusar de seus ataques contra

o conde.

- O que você sabe sobre esse saqueador? - ela indagou à irmã. - Pareceu-me ser uma espécie

diferente de assaltante... Fala bem, como um nobre. E um dos homens que o acompanhavam também.

Deborah assentiu.

- É por isso que o chamam de "cavalheiro".

Elas já tinham chegado ao topo da escada, e Deborah parou de andar por momentos, recuperando o

fôlego que a subida lhe roubara.

Sempre o Teu Amor - CHE nº 165 Candace Camp

- Dizem que é muito educado, em especial com as mulheres, e nunca feriu ninguém que tenha

assaltado. Uma vez chegou a parar o vigário, à noite, quando ele estava seguindo para dar a extrema-

unção a um moribundo e o "cavalheiro" não lhe tirou nada e desculpou-se por tê-lo parado.

Nicola nada disse, imaginando que o comportamento daquele assaltante, para com ela em especial,

não poderia ser caracterizado como educado. Ele não a ferira, mas aquele beijo... fora uma afronta, no

mínimo.

- Ninguém sabe de onde ele veio - Deborah acrescentou, - Ele está praticando assaltos aqui na região

há apenas alguns meses.

- Os assaltantes normalmente atacam nos arredores de Londres, ou em estradas mais movimentadas,

não no interior... Por que acha que ele veio para cá? Acha que ele é nobre? Um filho, talvez, que tenha

desonrado sua família e que foi deserdado?

- Ou um gastador que acabou com sua fortuna... - Deborah ponderou. - Pelo menos, essa é a teoria da

esposa do vigário. Ou, talvez ainda, ele seja alguém que foi muito bem educado mas que é pobre, um

professor, tutor, alguém assim.

- Um tutor? Não acredito...

- É, parece absurdo, não? Richard diz que ele deve ser um bom ator e que engana muito bem a todos.

E acho que somos nós, afinal, que o fazemos parecer uma figura mais romântica do que, na realidade,

é.

- É verdade. - Nicola lembrou-se do beijo e sentiu um tremor passar-lhe pelo corpo.

-Oh, sinto muito, querida- Deborah disse ao sentir o tremor na mão da irmã. - Eu nem deveria estar

falando sobre esse homem depois do que você passou na estrada... deve ter sido terrível.

Nicola sorriu.

- Estou bem, não se preocupe. Você sabe que não sou muito sensível.

- Mas esteve nas mãos de um criminoso! Não vamos mais falar no assunto, está bem? - Deborah

parara diante de uma porta e agora estava com a mão na maçaneta. - Este é seu quarto - anunciou. - O

meu é o próximo, neste corredor. Espero que se sinta bem. Se precisar de alguma coisa, é só dizer.

O quarto era grande e bem mobiliado, com duas janelas na parede dos fundos, agora cobertas por

cortinas pesadas. O fogo tinha sido aceso na lareira, e uma lamparina a óleo queimava na mesa-de-

cabeceira. Uma criada estava acabando de preparar a cama quando Deborah e Nicola entraram, e ela

logo se desculpou e Saiu.

- É adorável - Nicola aprovou, olhando ao redor.

- Que bom que gostou. A vista das janelas é linda durante o dia. O jardim fica logo abaixo e verá os

campos a distância.

- Tenho certeza de que deve ser lindo.

- Venha ver meu quarto - Deborah convidou, tomando-lhe a mão e fazendo-a sair para o corredor no-

vamente.

O quarto era praticamente igual ao que ela oferecera à irmã, e Nicola reparou que tudo nele era muito

feminino. Não parecia haver o menor traço de masculinidade ali, nem mesmo um par de botas em um

canto ou uma lâmina de barbear sobre a cômoda. Não lhe pareceu estranho que o conde dormisse em

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outro quarto, era um costume muito comum à aristocracia. No entanto, ela estava certa de que ali não

havia nem o menor sinal de que Richard viesse de vez em quando, e isso era muito estranho.

Nicola olhou para a irmã, que falava alegremente sobre seus planos de colocar o berço do bebê ao lado

da cama e uma cama para a babá no quarto de vestir. Imaginava se ela ainda amaria o marido como

antes, ou se acabara, com o passar dos anos, por vê-lo como de fato era.

Deborah parara de falar agora e olhava para o local onde pretendia pôr o berço. Sua expressão

mudara, havia medo e tristeza em seus traços delicados. Devia estar pensando nos outros bebês que

também planejara colocar ali.

- Acho que vai ficar muito bom - Nicola opinou, sorrindo, para animá-la. - O bebê vai adorar!

- Acha mesmo?

- Mas é claro! Agora, não se preocupe. Isso não faz bem ao bebê, você sabe.

- É. Todo mundo diz isso. Mas é que é tão difícil quando...

- Eu sei, eu sei, minha querida. Mas fique tranqüila porque eu estou aqui e vou ajudá-la. Se houver

problemas na administração da casa, poderei resolvê-los para você. Sabe muito bem como sou

mandona, não?

Deborah riu, parecendo relaxar ao contato das mãos da irmã em seus ombros.

- É maravilhoso tê-la aqui, sabe? - Havia tamanho carinho e uma tristeza tão grande no rosto de

Deborah que Nicola ressentiu-se por ter evitado visitá-la antes. - Eu sei que nós... bem, que

discordamos no passado, sobre certas coisas... - Deborah murmurou. - Mas podemos deixar isso para

trás, não acha?

- Mas é claro que sim! Não vamos mais pensar no que aconteceu! Temos de nos preocupar agora com

sua saúde e seu bem-estar.

- Estou cansada - Deborah admitiu. - Parece que tenho tão pouca energia nestes últimos tempos... E

passo muito mal pela manhã, com náuseas terríveis. Mas o médico disse que isso é um bom sinal, que

significa que, desta vez; meu bebê é saudável, diferente dos outros.

- E ele está certo! - Nicola concordou, mas, pessoalmente, achava todos os médicos muito ignorantes

no que dizia respeito às mulheres. - E aposto que ele lhe disse também que você deve descansar

bastante, não disse?

- Disse, sim.

- Então, deixe-me tocar a sineta para que sua criada venha ajudá-la a se despir e se deitar.

- Mas eu queria que você me contasse sobre os noivados em Londres!

- Vamos ter muito tempo para isso amanhã. Prometo que vou lhe contar tudo. E sobre o noivado de

lorde Lambert também.

- Oh, ele vai se casar também? Com quem? Sempre achei que ele era um solteirão convicto!

- Acho que deve ter encontrado a mulher certa. Mas, é uma história longa demais para ser contada

agora. Vamos conversar amanhã, certo?

Mesmo a contragosto, Deborah concordou. Nicola deu-lhe um beijo no rosto, depois de chamar a

criada, e saiu do quarto. Já em seu aposento, fechou a porta e voltou-se, passando os olhos por tudo. A

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luz da lamparina podia ser aconchegante, mas não era suficiente para dissipar o temor que havia em

seu coração.

Detestava estar ali. Preferia estar em Londres, levando sua vida costumeira. Ocupava-se em seu

trabalho de caridade, com as mulheres pobres do lado leste da cidade, na cozinha em que servia

alimentos e oferecia roupas usadas aos mais necessitados. Havia também o círculo social que

freqüentava quando e se quisesse, os pequenos flertes que ninguém levava a sério, as discussões

intelectuais que promovia em jantares reservados em sua casa. Sentia-se útil e ocupada e podia

usufruir pequenos prazeres, como a ópera e o teatro, que adorava.

No entanto, ali, sentia-se inquieta. Não queria estar naquela casa com Richard. E houvera aquele

encontro com o saqueador, aquele beijo... Não devia pensar mais naquilo, aconselhou-se.

Caminhou até uma das janelas e afastou as pesadas cortinas, observando a noite lá fora. As árvores e

arbustos do jardim eram apenas sombras agora. Cerrou os olhos e recostou a testa à janela, pensando,

como sempre, em Gil.

Acontecera outras vezes. Uma dor aguda no peito, como se a ferida estivesse recém-aberta, como se já

não se houvessem passado anos. A dor que sentia por Gil... E já fazia tempo que a dor não vinha tão

forte. Afinal, acontecera dez anos antes. Lembrava de seu sorriso franco, do modo como ele andava...

Mas, agora, aquela dor inesperada a surpreendia com o poder de sua tristeza.

Pensara nele desde que deixara Londres. Lembrara-se da primeira vez em que o vira, ali, em Tidings,

quando ela e um grupo grande de pessoas voltavam de uma caçada. Ele viera em direção a seu cavalo

e a ajudara a apear. Nicola o olhara, notara seu rosto de traços gentis, seus olhos escuros, a mecha

rebelde de cabelos que avançava sobre sua testa. Perdera seu coração para Gil naquele instante,

embora ainda tivesse lutado contra tal sentimento por um bom tempo.

Era estranho, mas, ao chegar à casa de sua irmã, enquanto relatava o assalto ao cunhado, e depois,

quando conversava a sós com Deborah, a imagem de Gil não lhe saíra da mente. E agora, sozinha, não

conseguia deixar de se lembrar. Talvez fosse porque estava de volta a Tidings, porque lá o conhecera,

ou porque lá vivia Richard; que ela tentara evitar por dez anos. Fosse o que fosse, seu peito estava

apertado e dolorido, e as lembranças estavam todas ali, em sua mente, como estariam sempre.

Deixou-se vencer pelos sentimentos, e sentiu as lágrimas descerem por seu rosto, enquanto os soluços

sacudiam seu corpo. Afastou-se da janela e foi para a cama, deitando-se e encolhendo-se como um

bebê, os olhos presos às chamas da lareira e a mente divagando em recordações do homem de sua

vida.

CAPÍTULO 02

1805

Nicola estava com dezesseis anos quando se mudou para Dartmoor com sua mãe e a irmã mais nova,

Deborah. Seu pai havia morrido e as deixara muito bem financeiramente, mas a propriedade em que

viviam fora deixada como herança e passara, junto com o título, a um primo de segundo grau. O primo

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lhes oferecera, educadamente, que continuassem a viver ali com ele, sua esposa e filhos. Ele

praticamente não as conhecia, mas teria sido grosseiro de sua parte se agisse de outra forma.

Entretanto, lady Falcourt, que também não simpatizara muito com o herdeiro, agradeceu e, também

educadamente, recusou a oferta, preferindo mudar-se com as filhas para a casa de sua irmã, lady

Buckminster.

Lorde Buckminster, seu sobrinho, conhecido na família por Bucky, era um rapaz alegre e muito simpá-

tico, que demonstrou grande satisfação por tê-las em sua casa. Nicola, por sua vez, viu-se muito mais

feliz em Buckminster do que jamais fora em sua própria casa. Sentia a morte do pai, mas ele sempre

fora uma pessoa muito ocupada com assuntos políticos, enquanto sua mãe, uma mulher

constantemente doente, pouca atenção lhe dava. Assim, quase todos os assuntos mais sérios da

família acabavam por cair sobre as costas de Nicola assim que ela teve idade para poder lidar com eles.

E em Buckminster, como não tinha problemas com os quais lidar e como a dona da casa estivesse

sempre mais atenta a seus cavalos de raça do que ao que acontecia ali, Nicola viu-se livre para agir

como lhe aprouvesse.

Assim, ela passava grande parte do tempo cavalgando pelas redondezas, conhecendo pessoas que ali

moravam. Desde pequena se sentira à vontade entre os criados da propriedade de seu pai. Sua mãe

sempre se dizia cansada para acompanhá-la em seus folguedos e Nicola acabara por apegar-se a sua

babá primeiro e depois aos outros criados, a quem via como membros da família. Adorava a todos, em

especial à cozinheira que, mesmo sempre muito diligente e austera, cedia a seu carinho.

Fora ela, apelidada docemente de Cook, que criara o interesse de Nicola pelas ervas, explicando-lhe

suas propriedades tanto na culinária quanto no trato de doenças, e ela ficou fascinada pelo poder de

cura das plantas. Sabia diferenciá-las, cultivá-las e utilizá-las porque Cook tivera tempo e paciência para

lhe ensinar tudo a respeito. Mais tarde, quando estava mais velha, Nicola aprendera mais sobre ervas

em livros e enciclopédias especializadas no assunto e, aos catorze anos, muita gente já a chamava

para que preparasse suas ervas para curar algumas enfermidades.

Nicola sofrera ao ter que deixar a casa e os criados para trás, quando fora obrigada a mudar-se para

Buckminster. No entanto, uma vez lá, começou logo a fazer amigos. Seu único e grande problema na

nova vida que levava era o conde de Exmoor. Como único outro membro da aristocracia daquela

região, ele sempre estava presente em todas as ocasiões especiais. Nicola também participava das

festas e eventos do lugar embora ainda fosse muito jovem. Era considerada a bela da região,

perseguida pelo filho do vigário, que acabara de chegar de Oxford, bem como pelo filho do juiz e seus

sempre numerosos amigos. Mas Nicola não se importava com as investidas quase sempre cômicas

daqueles rapazes. O conde, no entanto, preocupava-a. Maduro e sofisticado, ele a cortejava com toda a

sutileza de um perito na arte de galantear. Não parecia audacioso diante dos olhos da mãe de Nicola ou

de sua tia ou de qualquer outra senhora presente, mas conseguia encontrar diversas oportunidades

para tocá-la de alguma forma e falava-lhe em voz baixa, aveludada, carregada de paixão, que alarmava

e irritava Nicola por completo.

Aquele homem não lhe interessava, mas sua mãe considerava-o um excelente partido. Quando Nicola

protestava por ela tê-lo convidado para alguma reunião, sua mãe respondia apenas que deveria sentir-

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se lisonjeada com sua atenção porque era de uma excelente família e tinha posição, um título, fortuna...

E, afinal, Nicola era amiga da prima dele, Penélope.

- Mamãe, eu gosto de Penélope - Nicola explicava. - E gosto da avó dela também, mas isso não tem

nada a ver com Exmoor! Não gosto dele! Não gosto do jeito como fala comigo nem como me olha!

- Bobagem! - sua mãe rebatia. - Você está acostumada com esses rapagões tolos!

- Mas eu os prefiro a um velho!

- O conde não é velho, Nicola. Está no vigor da idade!

- Deve ter uns quarenta anos. E eu estou só com dezessete, caso tenha esquecido!

- Não há necessidade de ser rude, minha filha! O conde deve estar com uns trinta e poucos anos, e

essa é uma excelente idade para se casar! Muitos homens são bem mais velhos do que suas esposas.

Seu pai, por exemplo, era dezesseis anos mais velho do que eu.

Nicola precisou se controlar para não responder de maneira grosseira. Todos sabiam que seu pai se

casara com sua mãe porque ela era linda, mas, quando descobrira que era extremamente entediante,

deixara praticamente de lhe dirigir a palavra. Por isso ficava sempre longe de casa, cuidando de

negócios.

- Não importa. Não quero me casar com ninguém. E só vou me casar quando encontrar um homem a

quem eu ame. Vovó me deixou bastante dinheiro para que eu não tenha de me casar se não quiser.

- Oh, Deus, não sei de onde você tira idéias tão radicais! - Lady Falcourt suspirou chocada.

- Herdei-as de vovó.

De fato, sua avó fora uma mulher independente, que sempre falara o que quisera e que sempre agira

por conta de suas próprias idéias. Fora forçada pela família a se casar sem amor e jurara que não agiria

da mesma forma com nenhuma de suas três filhas. Sempre fora muito franca com Nicola e, ao falecer,

deixara para ela e para Deborah dinheiro suficiente para que pudessem viver sem se casarem, se assim

quisessem.

- Você também se deixou influenciar pelas idéias de sua tia Drusil a - sua mãe se resignou.

Sua irmã Drusil a nunca se casara, preferindo morar com a mãe e manter um salão para eventos

culturais que era muito bem freqüentado. E lady Falcourt a entendia ainda menos do que à louca por

cavalos Adelaide, lady Buckminster.

- Sua tia não é um bom modelo para você, Nicola. Não tem um marido do qual cuidar, nem filhos para

iluminarem seus dias.

Nicola suspirou. Aquele era o assunto preferido de sua mãe, embora ela mesma nunca tivesse erguido

um dedo para organizar uma casa, cuidar de um marido ou dos filhos.

- Eu não disse que nunca vou me casar, mamãe. - ela esclareceu. - Mas vai ser quando e com quem eu

quiser. E, com certeza, não vai ser agora e muito menos com o conde de Exmoor.

No entanto, não havia como evitá-lo, a não ser que se tornasse uma reclusa. Ele estava em toda festa

ou jantar local, era considerado uma honra ter um conde em casa, e todos o convidavam para tudo! E

sua mãe não era uma exceção, aceitando os convites dele e convidando-o para qualquer evento social

que promovesse.

Assim, Nicola acabou participando da caçada organizada em Tidings, propriedade do conde.

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Naquela tarde, ela voltava ainda sentindo os efeitos da cavalgada, os cabelos soltos, revoltos, a

respiração acelerada e o rosto afogueado. Os rapazes que cuidavam dos cavalos correram para ajudar

os participantes da caçada a apear, e foi um deles, o que veio na direção de Nicola, que a fez prestar

atenção ao mais belo rosto masculino que jamais vira.

O rapaz era mais alto e mais forte do que os outros. Seus cabelos eram escuros, seus olhos brilhantes

e a pele era levemente bronzeada. Uma mecha de cabelos que lhe caía sobre a testa tornava-o

incrivelmente atraente. E ele lhe sorria...

Nicola não conseguiu desviar seus olhos dos dele, nem conseguiu entender a sensação impressionante

que a tomou naquele momento.

Ele ergueu as mãos para ela e, sorrindo, indagou:

- Quer ajuda para apear, senhorita?

Nicola não conseguiu responder. Deixou-se escorregar da sela e caiu nos braços dele. Podia sentir o

calor de seu corpo através do tecido da camisa e sentir os músculos que se distendiam sob o contato

de suas mãos. Por um breve segundo estiveram bem próximos, o rosto do rapaz junto ao dela, seus

cílios espessos emoldurando aquele olhar: firme e franco. E, no instante seguinte, a presença do conde

estragara tudo. Ele viera e, ignorando o rapaz, tomara-a com gentileza pelo braço para conduzi-la para

dentro de casa.

Nicola não ouviu uma palavra do que ele dizia. Na verdade, não ouviu nada que alguém pudesse estar

dizendo. Seus pensamentos estavam centrados naquele rapaz. Queria saber seu nome, mas sabia que

não podia perguntar diretamente a ele. Pior ainda era saber que não podia perguntar a alguém da casa

porque nem o conde que o empregara devia saber como se chamava. Para ele, os criados e quase

todas as pessoas de seu círculo social eram como peças de mobília, lembrou-se entristecida. Sabia-se

apenas o nome dos criados mais importantes da casa: o mordomo, a governanta, a criada de quarto ou

o valete... Mas era raro que algum nobre soubesse o nome dos jardineiros, dos auxiliares, dos

cavalariços e rapazes encarregados de serviços menores. Assim, ela partiu, naquele dia, sem saber o

nome do rapaz.

Depois disso, sua mãe nunca mais teve problemas em persuadi-la a ir até Tidings para alguma

recepção, festa ou evento social. Lady Falcourt estranhou, mas nada disse.

Na semana seguinte, Nicola concordou em ir a um almoço na propriedade do conde e, quando ele

sugeriu um passeio pelo campo, ela sorriu e aceitou de imediato. Entretanto, seus esforços para estar

em Tidings foram infrutíferos, pois não viu o rapaz. Imaginou, então, que ele devia ser um quase

ninguém ali, e que só ajudava quando havia um grupo muito grande de visitantes, como no dia da

caçada.

Avaliou, consigo mesma, que era tolice estar tão interessada. Vira-o por um breve momento e, embora

houvesse se sentido tão ,diferente nos braços dele, não significava que devesse esperar que ele fosse

especial de alguma forma. No entanto, a vontade revê-lo persistia. E cada vez mais forte.

Foi muito estranho, mas não foi em Tidings que Nicola o viu outra vez, duas semanas depois, mas sim

na cabana de vovó Rose.

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Pouco depois de ter se mudado para Buckminster, Nicola dera um chá de ervas a uma criada que

estava com um forte resfriado e ajudara o jardineiro a se curar de uma tosse ao lhe oferecer uma

infusão. Esses dois fatos levaram as pessoas da região a lhe falar sobre uma velha que morava por ali.

Todos a chamavam de vovó Rose, embora Nicola viesse a saber que ninguém era, de fato, seu

parente. A fama de seus remédios miraculosos corria aquelas paragens e dizia-se que conhecia plantas

e seus poderes medicinais como ninguém, e muita gente acreditava em tudo que ela receitava, fosse

para aliviar dores de parto ou para evitar infecções em ferimentos. O próprio velho lorde Buckminster

tomara muitos dos remédios de vovó Rose.

Nicola quis conhecê-la de imediato e, depois de muito insistir, conseguiu que uma das criadas a

levasse, pela floresta, até a cabana da mulher, que ficava em um local agradável, mas reservado. A

casinha era encantadora, coberta de hera a ponto de chegar a confundir-se com as árvores e o verde

ao redor quando era primavera. Havia um belo jardim de ervas plantado ao lado dela, onde cresciam

muitas plantas que Nicola conhecia e que sabia serem medicinais.

Vovó Rose parecia ser tão antiga quanto à casa que habitava, com a pele intensamente enrugada e os

cabelos totalmente brancos. Mas seus olhos eram alegres e pareciam cheios de vida e juventude, e seu

sorriso, embora sem dentes, era tão simpático, que era respondido por qualquer um de pronto.

Nicola identificou-se com a velha mulher assim que a viu. Passou a visitá-la com freqüência e, nessas

visitas, aprendeu muito mais sobre ervas do que já sabia. Ajudou-a muitas vezes no cuidado com o

jardim e fez longas caminhadas a seu lado pela floresta, durante as quais a mulher apontava plantas e

ervas e discursava sobre seus efeitos de forma agradável e atraente. Com vovó Rose, Nicola aprendeu

a secar ervas, prepará-las para o uso terapêutico, reconhecer as venenosas, e preparar receitas, que

foram anotadas com esmero em um caderninho. E como disse que sua própria filha nunca se

interessara pelas ervas, à velhinha ficou feliz em poder passar adiante seus conhecimentos para

alguém que se mostrava tão gentil com ela.

Vovó Rose era sábia, e Nicola adorava ficar conversando com ela enquanto saboreavam um delicioso

chá aromático. Contou-lhe sobre a morte de seu pai, sobre as freqüentes enfermidades de sua mãe e

até sobre a perseguição do conde de Exmoor. Ao mencionar o nome dele, percebeu que o rosto da

velhinha se enrugava ainda mais.

- Esse homem é muito mau - ela disse. - É melhor ficar longe dele.

- Ele é mau? - Nicola se surpreendera pela franqueza. Não gostava do homem, mas não imaginara que

ele pudesse ser mau. - Mas ninguém nunca disse que ele tenha feito algo de errado...

- Talvez porque ninguém saiba. Talvez porque ele saiba esconder o que faz... Mas os que trabalham

para ele vêem e sabem! Não há bondade alguma naquele coração.

- Bem, eu não vou me casar com ele! - Nicola garantiu. – Não importa o que minha mãe pense.

Depois dessa conversa, Nicola se sentira embaraçada em revelar à velhinha que estivera em Tidings

por várias vezes. E sentia-se relutante em revelar a vontade que tinha de rever aquele rapaz. Vovó

Rose acharia seu desejo estranho, as moças não deviam perseguir os rapazes. Além do mais, ela não

queria partilhar com ninguém as sensações que a atormentavam naquelas duas semanas.

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Conforme tomavam seu chá, Nicola percebeu que vovó Rose olhava para a janela com certa freqüência

e, finalmente, entendeu que sua mentora estava à espera de alguém. Ao terminar de beber, Nicola

levantou-se, na intenção de ir embora, e viu que a velhinha se animou com a idéia. Chegou a sentir-se

um tanto magoada por notar que a senhora parecia alegre com sua partida. Imaginou, então, que o

visitante deveria ser alguém que não desejava ser visto ali, talvez algum nobre da região que não

quisesse ser reconhecido, mas que procurava as ervas da bondosa senhora.

Depois de se despedir, Nicola começou a caminhar pelo caminho que levava a seu cavalo, mas parou

abruptamente quando percebeu que um homem estava parado ao lado dele, acariciando-lhe o pescoço

e falando com ele em voz bem baixa. Ao perceber a presença de Nicola, ele se voltou, e suas

sobrancelhas ergueram-se de leve, em uma expressão de surpresa.

Nicola estava parada, a respiração presa. O homem que a olhava era o rapaz que a ajudara a

desmontar na propriedade do conde. Estava mais bem vestido e trazia ao ombro um paletó preto. A

camisa era branca e estava aberta no colarinho e as mangas estavam arregaçadas, devido ao calor.

Ele sorriu de maneira cativante como lhe sorrira no outro dia e deu alguns passos em sua direção.

- Ora, ora, se não é aquela senhorita - comentou alegre. - E o que estaria alguém tão nobre fazendo na

cabana de vovó Rose?

Ele parou, muito próximo, olhando-a e ainda sorrindo. Seus olhos eram tão escuros quanto ela podia se

lembrar, e seu rosto parecia ainda mais atraente. Nicola mal conseguia respirar. No entanto, estava

disposta a não deixar que ele percebesse o efeito que tinha sobre seus sentidos.

- E por que eu não deveria estar aqui? - perguntou.

- Porque os nobres quase sempre mandam seus criados, em especial as damas, a não ser que estejam

com algum problema de saúde que ninguém deva saber...

Nicola compreendeu de imediato a que ele se referia e ergueu mais o queixo diante da audácia de tal

comentário. Estava a ponto de dar-lhe uma resposta malcriada quando o rapaz sorriu mais docemente e

se inclinou, em uma mesura.

- Mas é claro que esse não é o problema de uma dama tão jovem, inocente e bela quanto a senhorita. É

claro que não precisa de loções de beleza ou de poções de amor. Metade dos homens de Dartmoor

deve estar a seus pés.

- E você, com certeza, não precisa de mais nenhum charme... –Ela já sorria. -Já é bastante galanteador.

- Ainda bem que pensa assim sobre mim. Minha avó não iria gostar se eu houvesse ofendido uma de

suas clientes.

- Sua avó? Vovó Rose é, de fato, sua avó? Ele assentiu.

- Na verdade, ela é avó de minha mãe.

- Estou surpresa por nunca tê-lo visto antes aqui.

- É porque vivo nos estábulos, em Tidings, onde trabalho. Mas visito minha avó aos domingos, quando

estou de licença.

- Entendo...

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Houve um instante de incômodo silêncio entre os dois, e Nicola percebeu que não deveria estar ali

falando com ele. Procurava algo, desesperadamente, para poder continuar a conversa sem parecer

tola.

- Eu vivia com minha mãe em Twyndel - disse o rapaz de repente. - Mas, no ano passado, quando ela

morreu, voltei para ficar mais perto de minha avó.

- É, eu também não sou daqui... Estamos morando na casa de minha tia, lady Buckminster.

- Sei, sei. Bem, tivemos uma conversa interessante, eu e lady Buckminster, no outro dia, sobre uma de

suas éguas.

- Ah, só poderiam ter falado sobre isso, mesmo! Minha tia adora cavalos. Mas... o que houve? Você não

cuidou direito da égua?

- Não, não! O animal estava com um problema em uma das patas dianteiras, e sua tia levou-o até os

estábulos porque lá era mais próximo do que Buckminster, e ela não queria forçar a égua. Passei um

dos ungüentos que vovó prepara na pata do animal, e ela estava ótima no dia seguinte quando lady

Buckminster veio pegá-la. Ela quis saber sobre o remédio que eu havia utilizado...

Nicola assentiu, entendendo a explicação e, mais uma vez, o assunto desapareceu. No entanto, queria

ficar ali conversando com ele por mais tempo.

- Bem, acho que já vou... - acabou por dizer.

- Claro... - Ele não pareceu muito feliz.

E, quando ela seguia para pegar as rédeas do cavalo, ele a acompanhou, indagando:

- Costuma vir sempre aqui?

Ela se voltou. Não havia nada de casual no intenso brilho que via nos olhos dele.

- Sim, estou interessada em ervas e remédios - respondeu. - E sua avó tem gentilmente me ensinado

muitas coisas. Até deixou que eu cuidasse de uma parte de seu jardim como se fosse meu.

Ele pareceu se surpreender:

- Você está cultivando as ervas?

- Sim. E eu as seco e misturo também. Imagino que deva me achar uma garota tola e inútil, mas tenho

outros interesses além de minhas roupas e meus cabelos, sabe?

Ele sorriu muito educadamente e comentou:

- Não, eu não imaginei que fosse tola ou inútil, senhorita. Mas é incomum ver uma moça de sua classe

agir assim.

- Se me conhecesse melhor, veria que sou, de fato, incomum.

- Já percebi isso. Poucas moças ficariam conversando com um rapaz como estamos fazendo agora.

Nicola sorriu.

- Bem, acho que devo ir agora. Foi... bom vê-lo outra vez.

- Obrigado. - Ele fez uma breve pausa e depois acrescentou depressa: - Venho visitar minha avó todos

os domingos.

- Verdade? - Nicola- sentiu que seu coração batia bem mais forte. Ele estava lhe dizendo que queria vê-

la novamente... – Então, talvez nos vejamos de novo aqui.

O rapaz sorriu abertamente.

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- Está bem. Deixe-me ajudá-la a montar.

Ele colocou ambas as mãos em sua cintura e deu-lhe um forte impulso. Quando Nicola já estava na

sela, afastou-se dois passos e olhou-a. Nicola estava trêmula, sentindo o calor dos dedos dele em seu

corpo.

- Eu... não sei seu nome - murmurou.

- Gil, senhorita. Gil Martin.

- Não me chame de "senhorita".

- Então, como devo chamá-la?

- Meu nome é Nicola Falcourt.

Ele continuava sorrindo, e ela se sentiu aquecer por dentro.

- Está certo, Nicola.

Ele já estava na casa da avó, no domingo seguinte, quando Nicola chegou. Ela percebeu a leve

preocupação no rosto de vovó Rose quando esta lhe abriu a porta. Embora as duas conversassem com

animação, como iguais, sempre que a visitava, imaginava que a velhinha se preocupasse pelo fato de

Nicola não estar em companhia de um criado.

Gil levantou-se assim que a viu, e seus olhares se encontraram. O calor que invadiu Nicola foi ainda

mais forte dessa vez.

Sentaram-se os três à mesa, e vovó Rose ofereceu uma xícara de chá a Nicola. Ficaram ali, bebendo e

conversando, mas a conversa estava um tanto truncada, estranha... Mais tarde, porém, Nicola e Gil

saíram e caminharam um pouco, enquanto ela levava o cavalo pelas rédeas. Falaram sobre tudo, sobre

vovó Rose e seus remédios, sobre o pai de Nicola, sobre um potrinho que nascera naquela semana nos

estábulos de Tidings. Nicola contou a ele coisas que jamais contara a alguém, nem mesmo a sua irmã.

Sentia que podia revelar seus pensamentos e sentimentos a ele, sem restrições. E, quando chegaram

ao ponto de onde ele voltaria para Tidings, o assunto morreu e, mais uma vez, um pesado silêncio os

atingiu.

- Você vai a Tidings nesta sexta-feira? - ele perguntou de repente. - Para o baile do conde?

Ela o estava observando, notando seus cabelos ondulados, desejando poder acariciá-los.

- O quê? Ah, o baile... Sim, eu vou. - Mas fez uma careta. Não queria mais ir a Tidings agora que sabia

que podia encontrar Gil em outro lugar, mas não podia dizê-lo a sua mãe e tinha de acompanhá-la até

lá.

Gil não pareceu animado. Olhou para uma rocha que ficava ao longe e comentou:

- Dizem que ele se interessa por você.

- Exmoor?

Ele assentiu.

- É o que se diz pela casa - acrescentou.

- É, parece que ele está interessado, sim.

- E você? - Gil encarou-a, os intensos olhos escuros brilhando - O que sente pelo homem?

- Por ele? Bem, nada ... O que eu poderia sentir?

- É que há criados comentando que você estaria disposta a aceitá-lo...

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- Nunca!

Gil pareceu relaxar um pouco.

- Bem, está certo, então.

- O que disse?

- Nada... Já vou indo. - Ele a encarou por breves instantes, os olhos presos a seus lábios, e Nicola teve

a impressão de que ele queria beijá-la.

Mas Gil virou-se e seguiu pelo caminho de volta a Tidings, voltando-se apenas uma vez para erguer o

braço e acenar-lhe um adeus. Nicola observava-o, o corpo todo alerta. Ele quisera beijá-la? indagava-

se. E ela? Quisera também? Quando ele falara no baile, chegara a imaginar-se nos braços de Gil,

dançando uma valsa, mas logo percebera que a idéia era absurda. Se o visse por lá, não seria no salão

de baile, mas diante da porta, atendendo quem chegava, segurando as rédeas das carruagens... E isso