Ser clínico como educador: uma leitura fenomenológica existencial de algumas temáticas na prática... por Fernando Milton de Almeida - Versão HTML

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Fernando Milton de Almeida

SER CLÍNICO COMO EDUCADOR

UMA LEITURA FENOMENOLÓGICA EXISTENCIAL DE ALGUMAS TEMÁTICAS NA

PRÁTICA DE PROFISSIONAIS DE SAÚDE E EDUCAÇÃO

Tese apresentada ao Instituto de Psicologia da Universidade de

São Paulo para obtenção de título de Doutor em Psicologia.

São Paulo

2005

Fernando Milton de Almeida

SER CLÍNICO COMO EDUCADOR

UMA LEITURA FENOMENOLÓGICA EXISTENCIAL DE ALGUMAS TEMÁTICAS NA

PRÁTICA DE PROFISSIONAIS DE SAÚDE E EDUCAÇÃO

Tese apresentada ao Instituto de Psicologia da Universidade de

São Paulo para obtenção de título de Doutor em Psicologia.

Área de concentração: Psicologia Escolar e do

Desenvolvimento Humano

Orientadora: Profª Drª Henriette Tognetti Penha Morato

São Paulo

2005

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Ficha Catalográfica preparada pelo Serviço de Biblioteca

e Documentação do Instituto de Psicologia da USP

Almeida, F. M. de

Ser clínico como educador: uma leitura fenomenológica existencial de

algumas temáticas na prática de profissionais de saúde e educação /

Fernando Milton de Almeida – São Paulo: s.n., 2005. – 215 p.

Tese (doutorado) – Instituto de Psicologia da Universidade de São

Paulo. Departamento de Psicologia da Aprendizagem, do

Desenvolvimento e da Personalidade.

Orientadora: Henriette Tognetti Penha Morato.

1. Fenomenologia existencial 2. Aconselhamento 3. Supervisão

clínica 4. Ser 5. Tempo I. Título.

Fernando Milton de Almeida

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Ser Clínico como Educador: uma leitura fenomenológica existencial de algumas temáticas na prática de profissionais de saúde e educação

Tese apresentada ao Instituto de Psicologia da

Universidade de São Paulo para obtenção de título

de Doutor em Psicologia.

Área de concentração: Psicologia Escolar e do

Desenvolvimento Humano

Aprovado em: ____/____/______

Banca Examinadora

Prof. Dr. _______________________________________________________

Instituição: __________________________ Assinatura: ____________

Prof. Dr. ____________________________________________________________

Instituição: __________________________ Assinatura: _____________________

Prof. Dr. _____________________________________________________________

Instituição: __________________________ Assinatura: ______________

Prof. Dr. _____________________________________________________

Instituição: __________________________ Assinatura: ____________________

Prof. Dr. _________________________________________________________

Instituição: __________________________ Assinatura:

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AGRADEÇO

A meus pais, Oswaldo (in memorian) e Magdalena, pelo amor incondicional; a meus avós, pelo terreno fértil e carinhoso de origem;

a meus irmãos e sobrinhos,carne da mesma carne;

a meus amigos, carne que se tornou a mesma;

aos colegas do SAP e LEFE, pelo convívio profissional e amical;

à Henriette, por haver sido o sustentáculo tanto de minha decisão pelo doutorado quanto de sua realização;

ao Ramires, pelo sereno amparo médico;

à Dulce, pela aulas generosas e iluminadoras;

à Júlia, por ter-me amparado num momento de crise;

ao Michelazzo, por ter-me ajudado a configurar o que tacitamente se apresentava em meu trabalho;

ao Roberto, pela densa discussão de orientação;

à Malu, pela sábia orientação e profunda sensatez;

à Eda, por ter-me amparado calorosamente na vinda e ida;

à Ana Tereza, por ter-me puxado pelas mãos, iniciando a digitação do trabalho; à Heloisa e Miguel, pela torcida fraterna;

ao Matheus, pela digitação de material que não utilizei;

à Sasha, pela carinhosa digitação e delicioso sotaque;

à Helô, pelo decisivo aprontamento final do projeto e da própria tese;

à Natália, pela providencial, atenta e bem humorada revisão final;

à Matilde Alouette, pela supervisão afetiva;

à Ariadne, pela graciosa digitação de trechos do trabalho;

à Cecília, pela vizinhança presente e acolhedora;

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à Christianne, pela carinhosa amizade musical;

ao Sérgio, Célia pelo longo, construtivo e enriquecedor convívio familiar;

à Íris, pela bênção de seu nascimento;

à Thais, por ser minha querida afilhada;

ao Alexandre, pela digitação da quase totalidade do trabalho e pela crucial presença afetiva, sem a qual não teria êxito;

a meus clientes, especialmente oriundos do SAP e estagiários do curso de Psicologia, aos quais dedico esse trabalho como bálsamo para o sofrimento e possível caminho de ação clínica.

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SUMÁRIO

I. ORIGENS DE UM QUESTIONAMENTO..........................................................................10

1. PELO CAMINHO DA VIDA.....................................................................................10

2. PELO CAMINHO DO TRABALHO.........................................................................17

II. MÉTODO INTERPRETATIVO........................................................................................31

1. PRESSUPOSTOS.......................................................................................................31

2. QUESTÕES METODOLÓGICAS.................................... .......................................45

III. SITUAÇÃO COMO MANIFESTAÇÃO DA EXISTÊNCIA.........................................63

1. O PODER-SER EM SITUAÇÃO..............................................................................64

2. MUNDANIDADE......................................................................................................72

3. LINGUAGEM E INTERPRETAÇÃO.......................................................................84

IV. DANDO-SE VOZ AO EU: FACETAS DA PLURALIDADE E SINGULARIDADE..91

1. PLURALIDADE: CONDIÇÃO NECESSÁRIA........................................................91

2. SINGULARIDADE: CONDIÇÃO POSSÍVEL.......................................................105

V. A TEMPORALIDADE E HISTORICIDADE DO EU: DESTINAR-SE.......................136

1. A TEMPORALIDADE COMO SENTIDO DO CUIDADO....................................137

2. O EU COMO ACONTECIMENTO HISTÓRICO...................................................159

VI. DIZER OUVINDO DIZER-SE: SER CLÍNICO............................................................178

1. SER AFETADO........................................................................................................179

2. A COMPREENSÃO DESDOBRANDO-SE NA INTERPRETAÇÃO...................189

3. A FALA: OUVIR, DIZER, CALAR........................................................................201

VII. REFERÊNCIAS...............................................................................................................217

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RESUMO

ALMEIDA, F. M. Ser Clínico como Educador: uma leitura fenomenológica existencial de algumas temáticas na prática de profissionais de saúde e educação. 2005.

215 f . Tese (Doutorado) – Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2005.

Neste trabalho, configura-se uma pesquisa para a apresentação de uma leitura

fenomenológica existencial da prática profissional em saúde e educação. Parte-se de um questionamento que, dirigindo-se à compreensão da dimensão de ser clínico, atravessou tanto a vida quanto a profissão do pesquisador. Tal empreitada requer que se atenha em temáticas básicas pertinentes a essa prática. Tendo o horizonte delineado pela ontologia fundamental de Martin Heidegger, contida em sua obra “Ser e Tempo”, o

desenvolvimento dos temas recorre a situações da própria prática, sobretudo, em referência ao Plantão Psicológico, uma modalidade de Aconselhamento Psicológico, por ser constituinte da experiência profissional do pesquisador em instituição de ensino em Psicologia. Na exploração desses temas, buscam-se subsídios à prática profissional especificada na antropologia filosófica proposta nessa obra. Para isso, recobram-se explicitações elucidativas dentro de cada capítulo e nos capítulos, que se constituem em ensaios. Inicialmente, apresenta-se a hermenêutica interpretativa, metodologia norteadora desse trabalho, pontuando seus pressupostos e questões peculiares cruciais.

No ensaio seguinte, abordando-se a situação como manifestação da existência, discorre-se sobre questões relevantes, tais como poder-ser, facticidade, realidade, mundanidade, linguagem, interpretação. A seguir, explicitam-se as facetas da pluralidade e singularidade do eu, reportando-se à impropriedade, propriedade, solicitude, angústia, cuidado, sentido, finitude e consciência. Após, fala-se do eu como tempo e história, acontecendo em destinação. Num último ensaio, traz-se em cena a dimensão de ser clínico como educador, a qual se sustenta na determinação ontológica de ser-em do eu, expondo sua condição de ser afetado, compreender e falar; novamente, são retomados, entre outros, os assuntos da angústia, interpretação, sentido e linguagem. Espera-se que o principal resultado a ser realçado haja sido a consecução de uma nova perspectiva que integra clínica e educação.

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ABSTRACT

ALMEIDA, F. M. Clinical being as an educator: an existential and phenomenological reading of the founding thematic concerned with the health and education

practices by the practicing professionals. 2005. 215 f . Thesis (Doctoral) –

Instituto de Psicologia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2005.

In this work one presents a research and a particular reading of an existential and phenomenological view of the practicing professionals in the health and education activities. One departed from a questioning that, aimed at the comprehension of what is to be a clinical professional, broke through both, the personal life and the profession of the researcher. This undertaking required sticking to the basic thematic related to this particular professional practice. With the surrounding horizon delineated by Martin Heidegger’s fundamental ontology, out of his work “Being and Time”, the development of the themes goes after situations of the practice itself, moreover related to the Psychological Emergency Attendance, a form of Psychological Counseling, a part of the professional experience of the researcher in a teaching institution of Psychology. In the exploration of these themes, relevant elements are sought for the professional practicing as specified in the philosophical anthropology proposed at his work. For this, explanations are requested, again and again, within each chapter and at each of the chapters which are themselves essays. In the beginning, the interpretative hermeneutics is presented, to be the guidance of the work, pointing to the assumptions underlying it, and to crucial decurrently questioning as well. In the essay that follows, focusing the situation under the point of view of a manifestation of the existence, one speaks on relevant topics, such as potentiality-for-being, facticity, realness, worldliness, language and interpretation. Following suit are made explicit the facets of the plurality and of the singularity of the “I”, in respect to the impropriety, propriety, solicitude, anxiety, care, meaning, finiteness and consciousness. Afterward one speaks on the “I” as time and history, happening in its destination. In a last essay, the dimensions of the clinical being as an educator is brought into the stage, which are supported by the ontological determination of being-in of the “I”, exposing its condition as subject to be affected, of understanding and discourse, again retaking the topics of anxiety, interpretation, meaning and language, among others. Perhaps, the major result to emphasize is a new integrated comprehension of clinic and education.

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I. ORIGENS DE UM QUESTIONAMENTO

1. Pelo caminho da vida

Minha aproximação da clínica vem de longa data. Academicamente, aconteceu

através do curso de Medicina. No entanto, experiencialmente, já se havia anunciado em minhas relações pessoais, nas quais, muitas vezes, me debruçava espontaneamente sobre questões e dilemas relatados por amigos e conhecidos. Buscava, conjuntamente com meu interlocutor, apreender o sentido de seus relatos e suas vivências, para que ele pudesse encontrar saídas e dar conta da vida.

Na verdade, fazer Medicina foi um acidente de percurso. Quando terminei o

Curso Clássico, que hoje corresponde ao Ensino Médio, no Colégio de Aplicação da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, a última coisa que eu queria fazer era Medicina. Na época, meu interesse dirigia-se para o âmbito das Ciências Humanas, marcadamente, Ciências Sociais e Filosofia, que gozavam de uma evidência intelectual no meio acadêmico; porém, não eram bem vistas socialmente devido à situação político-repressiva do país. Estudar Ciências Humanas na Maria Antônia era sinônimo de ser revolucionário, o que determinava uma fonte dupla de pressão: ter que enfrentar a ditadura e, no limite, a tortura, por um lado, como também o assédio universitário, por outro, que não admitia outra opção.

No último ano do Clássico, apresentei-me atrasado ao CPOR, ao qual havia sido designado. Em dezembro desse mesmo ano, fui, em conseqüência disso, determinado para assumir a tropa de choque em janeiro. Nas primeiras duas semanas, ia e voltava diariamente ao quartel; durante esse período, exercia atividades que visavam a uma seleção dos que iriam servir ao Exército. Minhas viagens matinais de trem ao quartel de Quitaúna eram tenebrosas: a possibilidade de eu ser escolhido era grande, o que não só 10

me assustava, como me apavorava desperdiçar um ano de minha vida num lugar

absolutamente inóspito, lastrado de autoritarismo.

Pensei no que poderia fazer para escapar disso. Recorri ao único vestibular que estava com inscrições abertas, que era o do curso de Economia da USP. No dia em que haveria a escolha dos que permaneceriam de quarentena no quartel, apresentei meu recibo de inscrição ao sargento, o qual confabulou com o tenente responsável, que me deu dispensa de corporação. Viajei de férias para o interior de São Paulo, na casa de um tio paterno e perdi a inscrição de vestibular para os cursos que me interessavam.

Quando voltei, não tive outra alternativa a não ser fazer um Curso de pré-vestibular.

Paradoxal e inesperadamente, escolhi o vestibular de Medicina. Tiveram peso meu encantamento com a imponência da Santa Casa, o clima de seriedade da Dr. Arnaldo e, intimamente, a assunção do desejo de meu pai ser médico.

Entrei no curso de Medicina na Faculdade de Ciências Médicas de Santos e

também no curso de Filosofia da Maria Antônia, contemplando, assim, meu desejo dúbio. Tranquei a matrícula na Filosofia e cursei Medicina, obtendo uma ótima performance acadêmica.

Fiz Residência em Clínica Médica no Hospital das Clínicas da Faculdade de

Medicina da USP. Foi um concurso difícil para quem não tinha concluído o curso na USP; eram onze vagas para candidatos do Brasil inteiro. Passei em quarto lugar. Tentei retomar a Filosofia, que então já estava na Cidade Universitária; porém, não consegui dar conta em função das atividades da Residência: plantões diurnos e noturnos, visitas aos pacientes das Enfermarias, Ambulatório, aulas, grupos de estudos e seminários.

Assim, foi-me propiciado o contato com uma grande variedade de situações

clínicas, dentre as quais o trabalho em Pronto Socorro e Unidade de Terapia Intensiva, que me marcou profundamente. Em UTI, minha atividade médica era intensamente

instrumentada por procedimentos técnicos, em que teorias complexas, sofisticadas e 11

explicativas, aliadas a aparelhos específicos e de alta precisão, forneciam subsídios fundamentais para meu trabalho. O fato do comportamento clínico em UTI estar

profundamente submetido ao viés técnico me mostrava exacerbada, porém tacitamente, o caminho que a medicina trilhava. E isso começou paulatinamente a ficar-me cada vez mais claro através de minha experiência de acompanhamento, em meus plantões, da morte de meus pacientes.

Vivia tudo isso de modo não temático, imerso num fazer cotidiano legitimado

pelo caráter científico e especialista da Medicina. Porém, isso não me impedia de inquietar-me, sobremaneira, com a morte que, imprevista, embora não

surpreendentemente, transgredia toda a pretensa estabilização que os aparelhos promoviam e a segurança que as teorias explicativas me ofereciam. A morte era, dessa maneira, entendida como algo natural, isto é, fim esperado de um processo de vida. Era de praxe ouvir-se: “morreu o AVC, o trauma craniano ou o infarto”; ou seja, a pessoa desaparecia, dando vez à doença. Vislumbrava que esse caráter de objetividade e impessoalidade, estrategicamente, servia de filtro para o médico não se aproximar e ser afetado pelo sofrimento de seu paciente. Todavia, isso não me protegia e acredito que, ilusoriamente, só nos enganava de entrar em contato com a dor, a fragilidade e a impotência pertinentes ao humano. Ao mesmo tempo, tudo isso era angustiante e desafiador para mim. Entrei em desespero quando meu primeiro paciente morreu, sentindo que o amparo afetivo de meus superiores era muito pouco. Em decorrência, passei a estudar com muito afinco.

Como UTI fosse um plantão mais rentável, passei a ministrá-los fora da

Residência para ganhar mais dinheiro (dei plantões na Beneficência Portuguesa, Oswaldo Cruz, Unicor, etc.). O cotidiano contato com a morte abriu-me a perspectiva de não me ater somente a procedimentos técnicos em seu enfrentamento. Passei a colocar-me como alguém que testemunhava o morrer de uma pessoa sob meus cuidados 12

médicos. Na verdade, compreendi que nem eu nem meu paciente tínhamos controle sobre o que estava acontecendo e, desse modo, não mais me furtava a estar

acompanhando-o de perto, quando o técnico nada mais podia fazer. A naturalidade, com a qual a Medicina encara a morte, passou a ser, então, questionada em minha própria ação médica. A morte tornou-se um acontecimento para mim e, nessa medida, algo que devesse ser partilhado principalmente com aquele que ministrava cuidados médicos.

Embora não tivesse subsídios filosóficos, já diferenciava a morte entendida

como um processo natural biológico de uma compreensão que a encarasse como um acontecimento, ou seja, a realização de uma possibilidade humana que

inextirpavelmente se atualiza, embora não saibamos quando, onde e como ocorrerá.

Essa foi minha experiência mais marcante, há algum tempo já detectada, como

possibilitadora de interrogação sobre o conhecimento médico enquanto depositário de uma verdade absoluta e poder de controle sobre o homem.

Comecei a entender que a técnica era limitada e, entrementes, com o

amadurecimento, vagarosamente, pude ir-me libertando dela, não no sentido de deixar de aplicá-la, mas de não restringir minha atuação como mero aplicador de

procedimentos e conhecimentos técnicos. Pude, então, embora de maneira tácita, entender a existência humana como um acontecimento, isto é, uma história, que corresponde ao desdobrar-se do interregno entre o nascer e o morrer de alguém.

Quando terminei a Residência, fui convidado para ficar mais um ano como

“adido” no serviço de Clínica Médica; nesta ocasião, meu preceptor convidou-me para assumir, após o término do estágio, a direção clínica de uma especialidade dentro da Clínica Médica em seu hospital, com o compromisso de entrar no Mestrado da USP.

Disse que lhe responderia ao final do estágio. Quando isto ocorreu, fui procurá-lo em sua sala e recusei seu convite. Nesse momento, também deixei todos os outros

empregos de Medicina que tinha; já decidira que não queria mais ser médico. A partir 13

de então, passei a trabalhar com Medicina de grupo para sustentar-me, sofrendo muito com as pressões advindas de uma maneira diferente de encarar a Medicina, marcada pelo mercantilismo e não pela excelência do conhecimento e do atendimento ao

paciente, como num hospital-escola.

No fim desse ano, pedi demissão e sondei os programas de mestrado em

Neurofisiologia e Farmacologia. No início do ano seguinte, fui convidado por um amigo a dar o curso de Neuroanatomia no curso de Psicologia da PUC-SP. Gostei muito da experiência e comecei a inteirar-me de assuntos psicológicos. Resolvi fazer mestrado em Psicologia Clínica; porém, como me sentisse muito “cru”, freqüentei como ouvinte muitos cursos da graduação de Psicologia. Assim, conheci a professora Maria Fernanda Beirão que me iniciou em Fenomenologia. Pude, então, encontrar respostas

esclarecedoras para minhas velhas questões sobre o conhecimento, a relatividade da verdade e a morte. Imergindo no mundo fenomenológico, participei do Centro de Estudos Fenomenológicos, dirigido por essa professora. Fiz cursos na Associação Brasileira de Análise e Psicoterapia Existencial. Complementando minha formação, fui fazer psicoterapia com o Dr. Sólon Spanoudis, então presidente desta associação. Nas sessões, desocultou-se, de novo, meu interesse pela Filosofia e sua possibilidade de subsidiar minha prática clínica. Abandonando meu projeto de mestrado em Psicologia Clínica, resolvi fazer estágio em Psiquiatria, que me abriria a possibilidade de retomar a prática da Medicina.

Nesse percurso, Dr. Sólon faleceu e eu me senti órfão. Lembro-me de minha

última sessão, numa quarta-feira, quando lhe disse que não queria deitar no divã por querer discorrer sobre questões práticas e, sobretudo, olhá-lo. Essa foi nossa despedida; no domingo, ele faleceu. Procurei, algum tempo após, outro psicoterapeuta para prosseguir, terminei meus estágios em Psiquiatria e abri meu consultório particular.

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Neste ínterim, entrei no mestrado em Filosofia das Ciências Humanas na PUC-

SP. Tive muito medo de não dar conta. Entrei também na graduação em Filosofia.

Esperava decidir pelo que me sentisse melhor. Tranquei um tempo o mestrado até concluir a graduação, autorizando-me, assim, a terminar a pós. Acabei terminando as duas.

Fui, então, levado pela professora Maria Luísa Sandoval Schmidt a participar de uma reunião da equipe da disciplina de Aconselhamento Psicológico do Instituto de Psicologia da USP, na qual ficou acertado

meu

ingresso.

No segundo semestre de

1995, iniciei meu trabalho com atividade docente e supervisão, juntamente com a professora Henriette T. P. Morato, na disciplina Aconselhamento Centrado no Cliente.

Comecei também a participar do Plantão Psicológico às quartas-feiras à tarde, no qual atuava como supervisor e como psiquiatra nos casos em que houvesse necessidade.

Minha experiência no Plantão Psicológico possibilitou-me uma retomada da

clínica sob um viés em que estivesse despido de teorias e técnicas no enfrentamento do cliente. O Plantão, de imediato, ofereceu-se para mim como um espaço privilegiado de escuta do sofrimento humano. Nesse tipo de atendimento, não se trata de fazer-se uma triagem com intuito de encaminhamento dos pacientes para um trabalho de

psicodiagnóstico e posterior psicoterapia. O Plantão é já um atendimento psicológico no qual o conselheiro se debruça sobre a narração da história do cliente com propósito de, perpassando as queixas, deixar aflorar uma demanda da existência. As queixas estão no âmbito do manifesto, constituindo-se no que aparece e emerge na fala; já a demanda é latente, situando-se no âmbito do velado, urgindo desvelamento por uma compreensão testemunhada.

Nesse sentido, o Plantão Psicológico apresenta-se como o espaço de acolhimento para o sujeito que se abre a seu destinar-se; é o acolhimento de uma demanda não clara que indica um caminho a ser seguido; é o acolhimento de um grito que não sabe para 15

onde ir. O Plantão é a escuta silenciosa dos possíveis rumos de uma existência, que claudica em sua trajetória terrena.

O Serviço do Aconselhamento Psicológico (SAP) contempla três modalidades

de prática psicológica: o Plantão Psicológico, a Supervisão de Apoio Psicológico e as Oficinas de Recursos Expressivos. Assim, o SAP realiza duas tarefas básicas, que também se constituem como pesquisas: atendimento psicológico à população e

formação do psicólogo. O Aconselhamento Psicológico, desse modo, acha-se numa região fronteiriça entre saúde e educação, desenvolvendo atividades clínicas e pedagógicas uma vez que contempla tanto prestação de serviços psicológicos à

comunidade, quanto formação permanente de profissionais.

A Supervisão apresenta-se como uma atividade que garante a consecução da

prática clínica, já que propicia o trânsito entre os eixos vertical e transversal da compreensão dos fenômenos de intersubjetividade ocorridos no atendimento. Trata-se da explicitação da situação contextualizada emergida na relação conselheiro-cliente para que o profissional do encontro, como diria Figueiredo (1993), se resgate como alguém que possa possuir dúvidas e estranhamentos em seu contato com os clientes,

colaborando em seu redimensionamento e encaminhamento. Antes de ser uma atividade que se dedique à discussão de teorias pertinentes ao caso clínico apresentado bem como ao ensino e manejo de técnicas requeridas na situação, manifesta-se como um fazer que, pela decifração e criação de sentido, visa que o conselheiro se habilite a fazer sugestões iluminadoras a uma história que testemunha.

A criação do Laboratório de Estudos e Prática em Psicologia Fenomenológica e

Existencial (LEFE), coordenado pela professora Henriette Morato, alargou-me os horizontes referentes a pesquisas que se dirijam tanto para novas modalidades de atendimento institucional à comunidade, quanto para a formação de profissionais habilitados. O LEFE abriga vários projetos de Plantão Psicológico, inseridos em 16

diversas instituições tais como a FEBEM Tatuapé e Raposo Tavares, Polícia Militar, Polícia Civil e instituições judiciárias. Assim, essa ampliação da prática do Plantão Psicológico oferece-se como um terreno fértil para a criação das modalidades citadas de prática psicológica, que garantam um atendimento efetivo aos usuários das respectivas comunidades.

Finalizando, percebo que minha trajetória profissional se delineou percorrendo diversas práticas e áreas de estudo, ensejando-me que meu trabalho no SAP e no LEFE

contemple as atividades de psiquiatra, plantonista, supervisor e pesquisador. Assim, tenho-me deparado em situações nas quais encontro, juntamente com os estagiários, necessidade de compreender, sob nova ótica, a prática de Aconselhamento Psicológico.

É, nesse sentido, que um trabalho de pesquisa, para refletir a possibilidade dessa compreensão, se configurou como necessário e imprescindível ao exercício de minha própria profissão, na qual a ação de atenção e cuidado pudesse contemplar os domínios da clínica e educação, pela ótica fenomenológica existencial.

2. Pelo caminho do trabalho

O Aconselhamento Psicológico constitui-se numa prática institucional de

atendimento psicológico à comunidade, voltada, também, para a formação de

psicólogos. Enquanto espaço de acolhimento psicológico, as primeiras experiências de Aconselhamento Psicológico ocorreram em São Paulo, no Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (IPUSP), por iniciativa de profissionais ligados à Terapia Centrada no Cliente, de Carl Rogers. Desde o início de sua implantação como Serviço de Aconselhamento Psicológico vinculado ao Departamento de Psicologia da

Aprendizagem, do Desenvolvimento e da Personalidade (PSA) desse Instituto,

desenvolve-se como ação clínica pela modalidade do Plantão Psicológico.

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Não por acaso, esta origem remete ao PSA, pois se trata da histórica relação

entre as práticas inaugurais do Aconselhamento Psicológico e a área da educação. Nos Estados Unidos, onde surgiu o Aconselhamento Psicológico, suas práticas estiveram fundamentadas em teorias da aprendizagem, desenvolvimento e personalidade, que articulavam as técnicas psicométricas às orientações educacional, vocacional e profissional. Essa área foi, portanto, perspectivada na esfera educacional e não clínica, inserindo-se, assim, em instituições de ensino e empresariais. (PATTERSON, 1978) A perspectiva epistemológica, que embasava tais formulações teóricas, apoiava-se em dois pilares fundamentais. O primeiro refere-se ao postulado de que cada indivíduo possui um conjunto de capacidades susceptíveis de medição objetiva. Essas capacidades, por sua vez, são conectadas a habilidades e características referentes a profissões diversas. O segundo pilar reporta-se à unidade estabelecida entre organismo e ambiente, o que propicia a influência tanto do ambiente quanto da sociedade no indivíduo. Nessa medida, referenda-se a função de ajustamento do aconselhamento: o conselheiro coloca-se como modelo com função de transmitir ao aconselhando, diretiva e persuasivamente, normas de conduta avalizadas por valores socioculturais vigentes, visando a “boa adaptação”. (SCHMIDT, 1999, p. 93)

Desse modo, a base psicométrica imprimiu um caráter “cientificista” às práticas de aconselhamento assim respaldadas. As necessidades do modelo cientificista de controle, previsibilidade e reprodução dos fenômenos produziam diretividade e autoritarismo na condução da atividade de aconselhamento. Ideologicamente, por outro lado, esta atividade, em sua diretividade, enfatizava valores da sociedade norte-americana, tais como sucesso, produtividade e adaptação sociocultural, entre outros.

(MORATO, 1999)

Nessa perspectiva, essa prática focalizava, ao invés das pessoas/clientela, os testes, que podiam ser tomados como instrumental de avaliação por serem passíveis de 18

um trato científico, objetivamente legitimado. Seu foco de atuação direcionava-se, nessa medida, aos problemas emergentes de conduta e não aos indivíduos que os traziam.

Seus objetivos eram pautados pelas tarefas educacionais que visavam o resultado de adaptar, disciplinar e normalizar. Desde seu surgimento, ao redor dos anos 30, até meados de 1950, o Aconselhamento Psicológico norteou-se por essa ótica de orientação para ajustamento, diferenciando-se, por isso, da psicoterapia, que era encarada como tratamento para aqueles que estavam “mentalmente doentes”.

Carl Rogers começa a desenvolver suas idéias neste contexto, realizando

deslocamentos nas concepções correntes de aconselhamento e psicoterapia. Centrando a atenção nas pessoas e não nos problemas, na relação cliente-conselheiro e não no instrumental de avaliação, no processo e não nos resultados, Rogers acaba por aproximar a prática de aconselhamento e de psicoterapia. Encontra no fenômeno da aprendizagem a possibilidade de compreensão para a ocorrência de mudanças na

personalidade em ambas as práticas. Tal aprendizagem ocorre na relação cliente-conselheiro de modo experiencial, produzindo um alargamento da compreensão com apreensão de significados, o que promove mudanças de atitudes e de comportamentos.

(SCHMIDT, 1999)

Em seu livro “Psicoterapia centrada en el cliente” (ROGERS, 1966), a

psicoterapia é compreendida por Rogers pelo viés de um processo de aprendizagem. A psicoterapia passa a ter uma importância maior para a obtenção da aprendizagem, a qual compreende, assim, aspectos cognitivos e afetivos, uma vez que se dá na experiência do encontro psicoterapêutico. Nessa medida, essas descobertas realizadas na esfera clínica, tornam-se relevantes para o âmbito da educação, da medicina e de grupos de natureza terapêutica ou que se interessem por conflitos interculturais, inter-raciais e gerenciais.

(SCHMIDT, 1999)

19

O então tradicional entendimento tanto do aconselhamento na perspectiva da

adaptação social, açambarcando objetivos educacionais, quanto da psicoterapia voltada à sanidade mental, indo ao encalço de objetivos curativos, sofre um desvanecimento.

Esse apagamento de fronteiras implica no distanciamento da proposta rogeriana tanto do modelo educativo-adaptativo, quanto médico-curativo: Rogers não considera seus clientes nem do ponto de vista psicopatológico, nem como pessoas portadoras de problemas a serem resolvidos adaptativamente. Sua perspectiva mira a natureza e a direção do processo psicoterapêutico instalado, o que implica em considerar a relevância da aprendizagem significativa. (SCHMIDT, 1999)

Há, dessa maneira, uma ampliação da participação de profissionais provindos

das diferentes áreas de Ciências Humanas, bem como a participação de “leigos” no exercício de práticas voltadas à aprendizagem significativa. Isso propicia um abalo no poder do especialista. Tanto no Aconselhamento Psicológico fundamentado em teorias da aprendizagem, desenvolvimento e personalidade, quanto na psicoterapia orientada pela psicopatologia, há uma autoridade do saber do especialista sobre o cliente; já, na visão rogeriana, o especialista não mais está preocupado, autorizado e apto a orientar, nem curar distúrbios ou doenças mentais do outro.

Nesse sentido, o conselheiro/psicoterapeuta torna-se um facilitador dos

processos de clarificação, crescimento e amadurecimento do cliente, já que seu trabalho consiste na transposição em gestos e palavras de uma postura apoiada nas atitudes básicas já mencionadas. Conseqüentemente, o facilitador desloca-se num plano no qual não há a preeminência de poder e controle na tomada de decisão do cliente;

politicamente, o pensamento rogeriano atém-se às relações interpessoais e, assim, o facilitador procura aquinhoar o poder vivenciado nessas relações.

Essa postura política combate o autoritarismo advindo das práticas psicológicas fundadas na psicometria, que postula teorias sistêmicas científicas dando suporte à 20

aplicação de técnicas coercitivas, dirigidas à adaptação sociocultural da clientela. Do mesmo modo, questionando a tiranização dos saberes especializados sobre as práticas psicológicas, aponta para a legitimidade dos saberes “leigos”, produzidos em âmbitos culturais diversos. Há o propósito de apoiar-se nas situações concretas emergentes na cotidianidade, em detrimento da adoção de posições teóricas explicativas da realidade.

Segundo Schmidt (2005), em texto ainda inédito, graciosamente cedido a mim,

com permissão verbal de citá-lo, ao invés de considerar a posição rogeriana através da ruptura com o Aconselhamento Psicológico então vigente e suas práticas, pode-se indicar sua pertinência “ao projeto de uma psicologia científica”. A autora refere-se a três temas presentes em ambas as orientações: uma concepção de homem que admite uma natureza humana dotada de potencialidades, as quais necessitam um ambiente adequado para sua atualização; o binômio indivíduo/ambiente, cuja interação deve ser considerada nas teorias e práticas psicológicas e o aspecto institucional das práticas de aconselhamento.

A idéia de potencialidade indica uma reunião de características e habilidades específicas e padronizadas intrínsecas ao indivíduo, configurando seu comportamento.

Ideologicamente, essa concepção legitima o estabelecimento de uma ciência psicológica que pretenda prever, manipular e controlar a conduta humana, autorizando uma

intervenção autoritária do psicólogo/conselheiro. Na posição rogeriana, essa noção é transladada como tendência atualizante, na qual a socialização adequada, obtida pelo encaminhamento das potencialidades em função de valores culturais vigentes, é substituída pela atualização de tendências naturais dos organismos a uma maior integração e complexidade.

A posição rogeriana também menciona a necessidade de um contexto

psicossocial favorável ao desenvolvimento “natural” do homem, ensejando uma

investigação de condições plausíveis para sua ocorrência. A admissão de uma natureza 21

humana já aponta a uma oposição indivíduo/sociedade, fato que requer um contexto social adequado ao desenvolvimento do indivíduo, configurando uma possível

necessidade de assistência para sua adaptação ou crescimento. A postura adaptativa, vinculada ao Aconselhamento Psicológico embasado em teorias da aprendizagem,

desenvolvimento e personalidade, intenta dirigir as potencialidades em consonância a conteúdos oriundos do status quo; já a postura rogeriana, vinculada ao crescimento humano, endereça-se à promoção de um lugar no qual o indivíduo experiencie uma proteção indispensável para sua expressão e consecução do que “realmente é”.

Ambas posições admitem que o indivíduo busca ajuda na medida em que sofre

ou se sente desadaptado e que o ambiente familiar, escolar ou de trabalho pode ser

“facilitador/ameaçador” ou “formador/deformador” (SCHMIDT, 2005). Essa visão, situando as doenças mentais no âmbito individual e as circunstâncias adversas na esfera sociocultural, de um lado, instaura o âmbito da normalidade psíquica e de outro, o da doença mental, que deve ser abordada pela psicoterapia. Também indica um trabalho de assistência social e de intervenção ambiental para lidar com as adversidades sociais.

Isso abre a perspectiva de que somente o indivíduo, que não apresente graves problemas emocionais ou em suas potencialidades e que está inserido num ambiente que possa propiciar sua adaptação, pode ser passível de ajuda psicológica.

Tanto o Aconselhamento Psicológico tradicional quanto a teoria da Abordagem

Centrada na Pessoa de Rogers entendem a sociedade como “um organismo em

funcionamento harmônico”, que pode conter “ambientes adversos” (SCHMIDT, 2005) para indivíduos. A cisão indivíduo/sociedade propicia que se estabeleçam relações entre ambos em conformidade com teorias e dispositivos de intervenção psicológicos. Cito Schmidt (2005, p. 65):

O desemprego, o ambiente familiar hostil ou a pobreza só dizem respeito à

psicologia na medida em que aparecem num indivíduo que, devido às suas

inabilidades, precisa de ajuda para enfrentá-los. Não se trata de compreender as 22

raízes societárias do desemprego, da hostilidade familiar ou da pobreza, mas de intervir localmente no ambiente ou de deslocar o indivíduo de seu ambiente,

visando a mudança do indivíduo.

Por conseguinte, localizando as disfunções no indivíduo ou em ambientes

restritos, o Aconselhamento Psicológico, quer o tradicional, quer rogeriano, afirma a sociedade, no caso norte-americana, como modelar e incute à Psicologia um caráter conformista, a qual deve atentar ao indivíduo dotado de potencialidades e sintomas.

Nesses termos, essa vertente ideológica de ambas essas orientações do Aconselhamento Psicológico se erige apoiada numa concepção científica da Psicologia, a qual, para o redirecionamento de uma compreensão de Aconselhamento Psicológico, deve ser

questionada; para ser radical, requer-se que esse questionamento perfure o plano da epistemologia e atinja a dimensão ontológica.

Tomando-se o Aconselhamento Psicológico como prática específica do fazer do

psicólogo (MORATO, 1999), pela via da atenção e cuidado no acolhimento ao

sofrimento existencial, pode-se empreender uma discussão de suas modalidades1. No caso do Plantão Psicológico no IPUSP2, embora se haja, inicialmente, inspirado na 1 A prática psicológica específica é Aconselhamento Psicológico. Entretanto, podem-se compreender algumas atuações psicológicas como modalidades dessa prática: Plantão Psicológico, Psicoterapia, Supervisão de Apoio, Oficinas de Recursos Expressivos e trabalho com grupos. Como prática psicológica, o Aconselhamento Psicológico apresenta-se por um modo clínico e/ou educativo.

2 Já que estamos trabalhando os fundamentos que norteiam o Plantão Psicológico, é necessário que se explicitem, à guisa de esclarecimento, os procedimentos adotados em sua prática. O Plantão Psicológico no IPUSP ocorre tradicionalmente às quartas-feiras nos períodos matutino e vespertino. As inscrições para o atendimento devem ser feitas nos períodos das 09:00 às 11:00 horas e das 14:00 às 16:00 horas. Os inscritos são atendidos pela ordem de chegada. No entanto, a inscrição aos atendimentos está subordinada ao número de estagiários/conselheiros disponíveis no Plantão. Caso não seja possível a inscrição de todas as pessoas que no momento buscam atendimento, o plantonista/conselheiro costuma fazer um grupo com a sala de espera, no qual são discutidas as condições e limitações do trabalho, possibilitando que o próprio grupo eleja aqueles que necessitam com mais urgência de atendimento nesse Plantão. A entrevista de Plantão não se constitui numa triagem tanto psicodiagnóstica prévia, quanto burocrática; trata-se, antes, de um atendimento psicológico em que se trabalha na elucidação da demanda emergente. Caso a entrevista não seja suficiente para essa tarefa, o estagiário agenda com o cliente um horário para uma nova entrevista, o que pode ser repetido as vezes que se tornarem necessárias. Desses encontros, patenteia-se o encaminhamento desse cliente em função de suas necessidades e dos recursos institucionais disponíveis. Algumas vezes, uma única entrevista de Plantão é suficiente para o cliente, que passa a disponibilizar seus recursos no enfrentamento de sua vida. Do Plantão também consta supervisão de Plantão, na qual o supervisor/conselheiro acolhe o estagiário após ou mesmo durante o atendimento, no sentido tanto de clarear o impacto do atendimento e a compreensão do cliente, quanto de cooperar em seu encaminhamento. Além dessa supervisão de Plantão, o estagiário conta com uma supervisão de grupo ministrada semanalmente por um psicólogo/conselheiro fixo.

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visão rogeriana, constituindo-se numa prática psicológica que já de imediato não se fundamentou em teorias psicológicas, houve, no início da década de noventa, uma maior exigência para que se abrisse à diversidade, pluralidade e singularidade da crescente demanda da clientela. Esse apelo motivou uma nova contextualização do entendimento de Plantão Psicológico, que se passou a pautar radicalmente na realidade experiencial da clientela, incorporando um olhar que contemplasse seus âmbitos antropológico, sociológico e político. Ao invés de pensar-se o Aconselhamento Psicológico como prática psicológica que não se diferenciasse da psicoterapia, passou-se a concebê-lo como “prática de fronteira”, expressão cunhada por Morato (1999), da qual o Plantão passou a ser compreendido como uma modalidade dessa prática

psicológica, assim como a psicoterapia. Essa concepção implica que o Aconselhamento Psicológico praticado no SAP se alicerça tanto num estudo interdisciplinar, visando a interpretação dos fenômenos socioculturais que emergem nos atendimentos, quanto na interlocução com os saberes peculiares à clientela.

Esse tipo de aconselhamento psicológico se constitui num campo de invenção de prática que favorece o acolhimento das experiências singulares relatadas; o facilitador busca estar com o cliente em seu movimento experiencial de percepções, sentimentos, interpretações, mudanças, escolhas e decisões. Requer-se, assim, uma junção de diferentes áreas do saber acadêmico com o saber popular, propiciando que o

estagiário/conselheiro possa experimentar um estilo próprio profissional nessa região de fronteira, não se atendo a saberes oriundos de matrizes teórico-práticas modelares pertencentes a especialistas.

Estruturando-se a partir da escuta, o Plantão Psicológico praticado no SAP

acolhe as narrativas trazidas pela clientela, as quais falam de uma experiência e de uma história que clamam por uma compreensão mais ampla. Estribando o sofrimento na história, galgam-se novos modos de seu enfrentamento pelo cuidado psicológico, que 24

não se refere a um procedimento de triagem amparado no psicodiagnóstico tradicional ou na psicopatologia, mas que emerge no encontro entre o cliente e o

psicólogo/conselheiro. Nesse sentido, o psicólogo/conselheiro constitui-se em testemunha que autoriza e legitima uma continuação da construção da história desse cliente numa dimensão em que possam ocorrer crescimento, bem estar e autenticidade.

O Plantão sempre se vincula a uma situação, que tem tanto uma vertente

institucional referida à pertença do profissional, quanto uma vertente vinculada à realidade sociocultural e existencial do cliente. Desse modo, é importante que o conselheiro busque uma compreensão da realidade do cliente para cotejá-la com o que a instituição pode oferecer. Isto o caracteriza como uma prática psicossocial. Nele, vale mais a demanda do cliente do que uma explicação que se possa ter dele e vale mais a relação estabelecida do que uma “interioridade” a ser perscrutada, já que a situação inclui a relação. Nesse sentido, a “interioridade” é manifestada na relação e não tomada como um “em-si”: a relação é o campo de aparência, tanto dessa “interioridade” quanto de uma realidade sócio-econômica, uma vez que é nela que a experiência do cliente encontra lugar para ser compreendida e clareada. Trata-se de contextos originários em que se dá a experiência, na qual o indivíduo não fica fora do social, nem o social fica fora do indivíduo; está-se diante de uma perspectiva fáctica, que é histórica e concreta.

É, também, na relação, constituída como um âmbito de intimidade, que emerge a formação de modos de cuidar, os quais, não ficando adstritos a meros indivíduos, se estendem a um mundo trazido pela apresentação que cada cliente faz de si próprio: o cuidar-se de si requer a explicitação da teia de relações estabelecidas na sociedade, a qual sustenta representações que, ideologicamente, vinculam o sofrimento psíquico a fatores individuais, velando suas determinações sócio-culturais.

A dimensão psicossocial não desvincula a pessoa de sua proveniência para, a posteriori, estabelecer as possíveis relações explicativas de um sofrimento. Ao 25

contrário, parte desse contexto psico-sócio-existencial para, a partir dele, alcançar uma visão compreensiva de um sofrimento embutido na narração de uma história, a qual, não obstante singular, inclui inúmeras outras pessoas em vários contextos. Assim, o cuidado do conselheiro/psicólogo considera as questões de quem se é, como se é, com quem se está e onde se está. Busca-se a modelagem de modos de cuidado, apoiados na

experiência do encontro conselheiro/cliente, os quais apreciam a situação existencial do cliente, o que inclui a esfera sociocultural.

Numa perspectiva fenomenológica existencial3, o sofrimento psíquico não é algo de patológico que determina uma história, mas é algo que aparece nessa história, trazendo à tona aspectos de um destinar-se conturbado enraizado no mundo do narrador, incluindo, portanto, todas suas situações de vida e relações interpessoais. Nesses termos, enraizando-se na história do eu, o sofrimento psíquico, ao invés de ser considerado como vivência proveniente de doença mental, é um acontecimento vinculado a seu modo de ser.

Assim concebido o Plantão como uma modalidade de prática clínica em

Aconselhamento Psicológico, pode-se, também, apresentá-lo, agora, como prática educativa voltada para a formação profissional de psicólogos, contemplando, assim, a dimensão educacional também implicada na prática de Aconselhamento Psicológico.

Nas entrevistas de Plantão, o estudante/estagiário tem a oportunidade de entrar em contato com as mais diversas realidades trazidas pela clientela, induzindo-o a recuperar o sentido originário da clínica, que é debruçar-se, no caso, sobre a experiência narrada, 3 Faz-se necessário diferenciar entre três formas de nomeação do imbricamento dos termos fenomenológico e existencial, correntemente empregados por psicólogos, geralmente de orientação humanista em Psicologia, a saber:

a) fenomenológico-existencial: refere-se a componentes da fenomenologia em geral e do existencialismo, havendo uma tentativa de aproximação entre ambos. Os autores referentes são Husserl, Nietzsche, Sartre, Buber, Kieerkegaard;

b) fenomenológico e existencial: refere-se à distinção, dentro da fenomenologia, entre uma forma mais transcendental e uma mais existencial;

c) fenomenológica existencial: refere-se à perspectiva da fenomenologia existencial de Heidegger com aportes em Merleau-Ponty, naquilo em que se baseia em Heidegger.

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que expõe sofrimento, solidão, desilusão, mas também coragem, determinação e

compaixão, entre outras coisas. Nesse sentido, o aluno é convidado a valorizar não o entendimento de uma doença, seus mecanismos e sua repercussão na mente e na

conduta de um “doente”, mas o modo de ser do qual emergem as experiências

existenciais que lastram todas as atividades da pessoa que está a sua frente. Na abordagem existencial, não se concebe a experiência humana como conseqüência de um processo de desenvolvimento da sexualidade, da cognição e da volição. Antes, a condição historial4 do homem é que fundamenta a constituição seja da sexualidade, da cognição ou da volição, na medida em que, experiencialmente, nos movemos nestas esferas.

As entrevistas do Plantão não visam uma continuidade do atendimento segundo

o modelo psicoterápico; em cada uma, focam-se os desdobramentos possíveis para questões patenteadas na elucidação de demandas, considerando-se, no diálogo com o cliente, intervenções de práticas especializadas ou populares, contando com recursos institucionais, comunitários ou familiares. Assim, cliente e conselheiro examinam e apreciam aquilo que melhor responde, nesse momento, aos pedidos manifestados na ocasião.

Esse comprometimento, em várias oportunidades, árduo e pungente, aponta a

direção que se trilha na atividade do aconselhamento: ao invés de circunscrever-se a aspectos referentes a alterações de personalidade e presença de doenças psíquicas, trata-se de, decisivamente, atentar à possibilidade de um redestinar-se da existência no que plausivelmente se anuncia. Por esse viés, a história pessoal, emergindo da história coletiva, é narrada ao conselheiro/ouvinte, o qual, aconselhando, passa também a ser narrador.

4 Historial, aqui, remete-se à dimensão ontológica humana, especificamente explanada no capítulo V.

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Enquanto uma atividade com sentido educativo na formação profissional de

psicólogo, o Plantão contempla a supervisão do trabalho clínico realizado pelos estudantes/estagiários, como outra modalidade da prática de Aconselhamento

Psicológico, em sua dimensão clínico-pedagógica. Essa supervisão é feita pelo psicólogo/plantonista logo após o atendimento feito pelo estagiário, podendo, inclusive, ser mesmo realizada durante a sessão. A especificidade dessa supervisão é dada pelo caráter de acolhimento ao estagiário, visando à elaboração de sua experiência de testemunha de uma história que, de algum modo, o impactou. Valoriza, também, a relação que se estabelece entre o supervisor e o estagiário, na medida em que o supervisor atenta ao modo como o estagiário foi tocado, compreensivamente, no trato com o cliente, suspendendo as pré-concepções que, normalmente, um aluno de

psicologia tem sobre psicoterapia e entendimento do sofrimento. Muitas vezes, a supervisão atém-se a dimensões bem concretas do atendimento. No entanto, isso não significa pautar-se por uma visão pragmática do ser humano e da atividade clínica.

Trata-se, mais uma vez, de partir da situação para nela encontrar saídas concretas, plausíveis de postura e conduta, considerando-se a singularidade de cada encontro.

A própria entrevista de Plantão constitui-se numa situação de passagem, na qual se avaliam e decidem os possíveis encaminhamentos5 disponíveis para o enfrentamento de um sofrimento emergente de uma pessoa que clama por cuidados. Assim, o Plantão é uma modalidade de prática que, em seu exercício, requer recursos institucionais e comunitários que possam acolher o caminhar de uma existência, que requeira uma específica paragem prenhe de recursos necessários ao desdobramento mais harmônico e próspero de sua história, erradicando, minorando ou tornando tolerável um sofrimento asfixiante.

5 Por encaminhamento, neste momento, compreendo o encaminhar-se do próprio cliente em direção ao que sua demanda lhe desvendou durante o Plantão.

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Nesse sentido, o Plantão demanda uma rede de apoio social que possa atender às várias modalidades de cuidados clínicos e/ou pedagógicos de que a clientela possa necessitar. Em suma, essa rede de apoio social constitui-se num “organismo”, em relação mútua, que possibilita a prática da solicitude inerente ao trabalho do Plantão, na medida em que viabiliza a seqüência de atendimentos que se configurem necessários na realidade emergente.

Sendo realizada dentro da Universidade, a ela servindo para o exercício das

responsabilidades civis de ensino, pesquisa e extensão universitária, compete que os desdobramentos solicitados por esse Serviço dirijam-se por esses mesmos objetivos. A Universidade não se deve constituir em apenas ser um banco de dados e informações de interesse da comunidade; é sua tarefa poder ser um centro de referência para os profissionais, possibilitando a circulação de colaboração, como trabalho de co-autoria.

Nesse contexto, uma de suas funções é poder subsidiar pesquisas que concorram na efetivação de modalidades de prática, propiciadoras de tal trabalho.

Nossa pesquisa terá, assim, o propósito de apresentar a possibilidade de uma

leitura da prática de profissionais de saúde e educação através de uma compreensão fenomenológica existencial, que subsidie sua propriedade de ação humana entre homens. Nesse sentido, configura-se a necessidade de refletir temáticas pertinentes à prática profissional destinada à demanda de humanidade do homem contemporâneo.

Percorrer tais temáticas implica conduzi-la a pensar sua legitimação de prática comprometida a interpor os bons ofícios, ou seja, intervenção, de profissionais de saúde e educação, recorrendo a um pensamento diferente daquele implícito na

compreensão que alicerça questões fundantes a essa prática, como os significados de 29

“homem, existência e história” 6. Nossa contribuição consistirá em trabalhar tais temas básicos segundo uma ótica fenomenológica existencial. Nessa direção, como capítulos e sub-capítulos, serão abordados os seguintes tópicos: método interpretativo, em seus pressupostos, aportando algumas questões metodológicas; situação como manifestação da existência, em que se discutem o poder-ser em situação, mundanidade, linguagem e interpretação; dando-se voz ao eu: facetas da pluralidade e singularidade;

temporalidade e historicidade do eu: destinar-se; dizer ouvindo dizer-se: ser clínico, ressaltando o ser afetado, a compreensão desdobrando-se em interpretação e falar: ouvir, dizer, calar.

Assim, o desenvolvimento de tais temáticas perfaz um esforço para uma leitura de prática em saúde e educação através da ontologia fundamental de Martin Heidegger, contida em sua obra “El ser y el tiempo” (1927/1984), recorrendo, sobretudo, a situações dessa prática, em suas várias modalidades. Particularmente, as remissões dirão respeito ao Plantão, uma modalidade de Aconselhamento Psicológico, por ele ser constituinte dessas reflexões a partir de minha experiência como profissional de saúde e educação em instituição de ensino em Psicologia7. Enfim, nessa pesquisa, a interrogação que se leva adiante na explanação de tais temáticas é a busca de subsídios para a prática profissional especificada na antropologia filosófica proposta nessa obra, na qual se apresenta uma compreensão do humano respaldada na aproximação da

pergunta pelo ser.

Faz-se mister assinalar que o desenvolvimento mesmo do trabalho não ocorre

através de uma construção seqüencial, logicamente estruturada por definições; antes, 6 O entendimento desses termos na visão fenomenológica existencial será elucidado no desenrolar dos capítulos alistados. Por exemplo, não se trata de compreender a existência segundo o critério de uma concretude aparente; mas, de compreendê-la como um modo humano de ser.

7 É oportuno que se mencione que essa mesma ontologia já foi trazida na compreensão da Psicoterapia por Medard Boss, psiquiatra suíço que fundou a Daseinsanalyse; embora haja verossimilhanças, nossa fonte interpretativa provém diretamente de Heidegger.

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busca-se, por meio de um movimento circular e reflexivo, ir ampliando, também com exemplos da própria prática, a compreensão das questões emergentes a serem

esclarecidas, procurando sempre conservar, ao alcance dos olhos, um todo que pudesse paulatinamente crescer e, concomitantemente, oferecer sua exibição elucidativa. Nessa medida, várias explicitações são retomadas no interior de cada capítulo e nos diversos capítulos, que se constituem em ensaios. Neles, essas explicitações são repassadas segundo a perspectiva adotada, o que não suprime uma linha de continuidade em sua apresentação. O que se almeja é que essa retomada em perspectiva possa abrir novos horizontes para uma aproximação existencial da clínica, saúde e educação.

II. MÉTODO INTERPRETATIVO

1. Pressupostos

A presente pesquisa da possibilidade de uma leitura fenomenológica existencial da prática de profissionais de saúde e educação manifesta-se como um colorário de minha atividade profissional clínica e pedagógica em Aconselhamento Psicológico.

Contudo, esse terreno já se preparara no exercício da psicoterapia, que se tornou um locus, em que pude engajar uma prática clínica com uma postura filosófica explícita, base para as mais variadas reflexões relativas às questões pertinentes ao humano.

É importante que se frise que essas reflexões não se cingem apenas a minha

atuação psicoterápica; de fato, estendem-se ao âmbito da existência, abrindo a possibilidade de articulações necessárias e implícitas em suas mais variadas

manifestações. Na verdade, o contato íntimo com a morte propiciado por minha

experiência médica, particularmente em UTI, como já discorrido na apresentação do presente trabalho, propiciou, na ocasião, embora não tematicamente, desgarrar-me do modelo técnico-científico abalizado como solo de tais reflexões.

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Em sua obra fundamental “El ser y el tiempo” (1927/1984), Heidegger faz um

questionamento da maneira como desde Platão o pensamento ocidental tem

compreendido o ser e identifica-o, em sua estrutura, como metafísica, vendo a ciência e a técnica modernas como suas manifestações mais imediatamente reconhecíveis. Na introdução dessa obra, Heidegger repõe à Filosofia a questão do ser, a qual, segundo ele, está esquecida desde a época dos gregos antigos, já que Aristóteles sistematizou a ontologia ainda vigente em nossa visão ocidental. Nesse sentido, valho-me da

argumentação de Critelli (1996), contida em seu livro “Analítica do Sentido”: uma aproximação e interpretação do real de orientação fenomenológica, para delinear as diferenças fundamentais entre o pensamento metafísico e o fenomenológico.

Fundando a metafísica, Platão referenda o conceito como a única possibilidade de manifestação da verdade daquilo que é, em virtude de suas características de

“unicidade, eternidade e incorruptibilidade” (CRITELLI,1996). Aristóteles, seu discípulo, determina o intelecto como detentor da função de conhecimento. Inaugurando a filosofia moderna, Descartes instaura o cogito, fundamentando-se no intelecto aristotélico e atribuindo-lhe, como procedimento fundamental, o cálculo e o controle da realidade apanhada como res extensa, ou seja, no aspecto de objeto empírico. Assim, o pensamento ocidental, estruturando-se nesse percurso, admite uma única perspectiva de obtenção da verdade do real, a qual se configura como una, absoluta e imutável, apresentando-se como “precisão metodológica do conceito” (CRITELLI,1996) e

afiançando a possibilidade do conhecimento.

Com o cogito cartesiano, a validez e a fidedignidade do conhecimento dá-se através de conceitos logicamente articulados, o que exclui qualquer outro tipo de experiência, por exemplo, espiritual, afetiva, etc, que o homem mantenha com seu mundo, o qual, sendo posto como res extensa, se converte em objeto empírico descarnado e asséptico, tornando-se plausível, assim, de cálculo. É esse objeto empírico, 32

posto pelo cogito, que se torna matéria, digamos assim, do conhecer, eliminando a fluidez e a insegurança do aparecer dos entes aos homens.

Já a fenomenologia não sustenta que essa insegurança e fluidez sejam falha do aparecer dos entes, levando a um equívoco no pensar. Em verdade, como, logo mais, explanaremos, tais características se constituem nos modos originários do mostrar-se daquilo que é. Por conseguinte, sustenta que a possibilidade do conhecimento não deve eliminar, sim aceitar esses aspectos, alicerçando-se na angústia, ao invés de na segurança da precisão metodológica do conceito.

Dessa maneira, no tocante à fundação da possibilidade do conhecimento,

vislumbra-se a seguinte diferença fundamental: a metafísica apóia-se na relação sujeito-objeto, reduzindo o sujeito ao aspecto epistêmico, o qual instaura seu objeto, através da representação da realidade; já a fenomenologia elege o próprio modo de ser humano como sua base. Enquanto a metafísica se atém à logicidade do ser, a fenomenologia considera modos de ser, tendo o tempo e não o intelecto como horizonte, no qual tudo o que é está num contínuo movimento de patentear-se e esconder-se. Um aspecto

importante a ser ressaltado é que, sob a ótica fenomenológica, a relatividade, deixando de ser um problema, torna-se a própria circunstância de aparição dos entes, implicando na provisoriedade daquilo que vem a ser e que está sendo.

Retirando a questão do ser e da verdade do âmbito da epistemologia e

realocando-a na existência, a fenomenologia existencial considera que uma metodologia de conhecimento deve apoiar-se na maneira humana de ser-no-mundo8, deslocando-se de uma perspectiva que valorize o aspecto instrumental à consideração do molde e ajuste do olhar do investigador.

Ao inquirir de novo pelo ser, Heidegger promove um redirecionamento na

própria estrutura formal da questão. No âmago do perguntar, além de suas dimensões do 8 A compreensão dessa expressão será elucidada no cap III.

33

por que, de que e a que ou a quem, há o perguntador mesmo, o que impede a possibilidade da neutralidade do investigador, que sempre parte de uma prévia interpretação referente ao contexto daquilo que quer conhecer.

Essa prévia interpretação provém da trama significativa de relações, tecida pelos homens, em seu convívio e sempre presente entre eles e tudo àquilo que se dirigem; de fato, permeando os modos da lida cotidiana humana, já há sempre uma prévia

interpretação constituída pela e expressa na própria fala entre os homens sobretudo que lhes diz respeito. Essa trama, como veremos mais adiante detalhadamente, sendo habitação dos homens, constituindo, assim, seu mundo, caracteriza-se, por um lado, por uma solidez, prestando-se como meio e abrigo ao modo humano de ser e, por outro, por uma fluidez, uma vez que se desvanece quando o sentido de ser se dilui.

Por conseguinte, não há uma pertença do homem ao mundo, que sempre se pode

apresentar-lhe como inóspito. Essa não-pertença manifesta-se como uma experiência de desabrigo e abandono, expressa, segundo Heidegger (1927/1984), como angústia, a qual coloca o homem ante suas próprias possibilidades de ser, isto é, ante sua liberdade.

Portanto, a inospitalidade do mundo e a liberdade, sendo condições ontológicas do homem, possibilitam-lhe um distanciamento de sua vivência, instaurando uma ruptura que se funda como o lugar do conhecimento.

Na perspectiva fenomenológica existencial, o conhecimento apóia-se na própria experiência humana do existir, a qual, configurando-se na inospitalidade do mundo, na liberdade e como uma fluidez constante, exime-o do caráter da segurança. Já na ótica metafísica, o conhecimento alavanca-se de um pretenso bloqueio da fluidez do existir com o propósito de obter a garantia de uma certificação pela postura de domínio, o que é plenamente consumado na modernidade da civilização ocidental, através da criação cartesiana da representação.

34

Na filosofia cartesiana, a representação constitui-se como fundamento para sua metodologia do conhecimento, a qual cria uma realidade calcada na estabilidade. Pela res cogitans, tudo que é no mundo passa a ser reapresentado de uma maneira clara e distinta, alçando-se, assim, ao reino da precisão e imutabilidade; esse mundo constituído pela representação, ao contrário do vivido, é seguro e estável, já que é passível de controle. Destarte, o cogito cartesiano, como subjetividade moderna, inaugura o modo técnico através do qual nossa civilização exclusivamente concebe o mundo como moradia, redundando, eticamente, numa retirada de cena do homem em sua experiência e numa supervalorização de teorias modelares e sistêmicas e de equipamentos

propiciadores e aliciadores de postura controladora.

No limiar do século XX, a fenomenologia surge como um pensamento emergido

na desmedida atingida pela civilização ocidental, o que impede que lhe imputemos o caráter de escola filosófica; de fato, trata-se de um pensamento brotado na experiência de esgotamento e esvaziamento civilizacional, ocorrida no esmaecimento das luzes, as quais foram postas no século XVIII, logo após a Revolução Francesa, como metáfora da razão, trazendo nossa contemporaneidade histórica. Trata-se de uma época em que o pensamento, provocado pela modificação do sentido de ser, manifesta, inicialmente, no âmbito das Ciências Humanas, passa a buscar uma compreensão efetiva do humano e não uma mera explicação, que o adscreva a leis exteriores a sua vivência.

Nesse contexto, a fenomenologia nasce propondo uma nova teoria do

conhecimento, constituída como uma terceira via entre o raciocínio das ciências positivas e o discurso especulativo da filosofia. O psicologismo, sociologismo e historicismo, inseridos na esfera do positivismo lógico, estabelecem que todo conhecimento é condicionado a leis exteriores, que podem ser verificadas e consideram a filosofia como uma mera constatação dessa realidade. Por seu turno, o logicismo é uma atividade filosófica puramente racional, em que o filósofo, voltando-se para dentro 35

de si, procura encontrar verdades intrínsecas, desvinculadas da realidade física, social e cultural. Ambas posições contradizem-se na medida em que se proponha a seguinte questão: de que adianta fazer-se ciência, se ela nos leva a eventos circunstanciais e, por outro lado, de que adianta produzir filosofia, se o conhecimento, assim obtido, não tem relação com a vivência? Ante a esse impasse, Edmund Husserl, criador da

fenomenologia, busca, pela reflexão, a superação da dicotomia sujeito-objeto, pela explicitação de sentido à existência, dada pela compreensão e fixação de seus limites.

Aqui, já vislumbramos que a possibilidade do conhecimento deixa de ser dada no âmbito da conceituação, passando a articular-se na própria esfera da existência.

Heidegger (1950/1979, p. 68) diz-nos que reflexão “é a coragem de tornar o

axioma de nossas verdades e o âmbito de nossos próprios fins em coisas que, sobretudo, são dignas de serem colocadas em questão”. Por esse viés, pode-se apreender que a angústia é a afecção que denota o caráter reflexivo do pensamento originário, descompromissado em atender a preceitos epistemológicos, ideológicos, morais ou estéticos. A fenomenologia, já em seu nascimento, deu-se como um pensar perante um vazio, propiciado pela quebra de todo um sentido embutido no plexo de significações instituído. Há um resgate do pensar como algo inerente à condição humana, retirando-o da acepção que o confine à capacidade de articular raciocínios lógicos a respeito do que quer que seja, assentada na representação, produzida pela subjetividade moderna.

Segundo Critelli (1996, p.24),

O pensar é um poder, um vigor, uma força que emerge do próprio ser-no-mundo e instaura o homem na sua humanidade, na sua fundamental provocação para ser.

Como diz Heidegger (1949, citado por CRITELLI, 1996), ‘Ser é ouvir e

corresponder aos apelos de ser’. Nessa trajetória o homem está em incessante

embate com o sentido de ser. Promovido por esse embate diante do sentido – ou de sua ausência – é que o pensar irrompe propriamente como pensar.

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E conclui: “Por esta razão, o que funda a questão do pensamento (e de sua

posterior formalização metodológica) é a existência. Este é o seu parâmetro, sua origem paradigmática.” (CRITELLI,1996, p.24)

Já que o pensamento, segundo esta abordagem, se funda no ser-no-mundo,

emergindo da própria experiência cotidiana humana, a fluidez do aparecer dos entes aos homens não o leva a um equívoco. Portanto, o pensamento deve, não a considerando como falha, contemplar essa característica, a qual é o modo originário do mostrar-se de tudo que é. Em suma, o pensamento tem que se haver com o fenômeno. Então, cabe agora uma explanação mais acurada do que se trata pela expressão fenomenologia e do motivo pelo qual a escolhemos como propiciadora dos paradigmas e da orientação metodológica necessários para a presente pesquisa.

O termo fenômeno origina-se da expressão grega phaionomenon derivada do verbo phainesthai, o qual significa: mostrar-se. Então, phaionomenon quer dizer aquilo que se mostra, o manifesto. O termo ente refere-se a tudo aquilo que é, que pode ser trazido à luz. Fenômeno constitui-se, considerando sua etimologia, nos modos que os entes têm de manifestarem-se em si mesmos.

Então, constata-se que o ente tem o poder fenomênico de mostrar-se. Quando

um ente se manifesta, mostra o que é e como é, pondo à luz seu ser. Essa manifestação, que se dá sempre de um modo especial, peculiar, não é lógico-conceitual, sim concreta.

No entanto, exatamente pelo sentido mutável da manifestação, tudo que se mostra, ao mesmo tempo, se esconde. Faz parte do modo fenomênico do exibir-se, o ocultar-se; isso significa que a exibição é simultaneamente ocultamento, o que é mediado pelo poder de perceber o ser dos entes, próprio ao homem.

Explicitando melhor: qualquer ente mostra-se desde si mesmo, tanto de forma a patentear o que é ou como é, perfazendo-se como uma sua exibição, quanto o que não é ou como não é, perfazendo-se aí como seu ocultamento. Inextirpavelmente, está-se 37

perante a seguinte ambigüidade: o que se exibe tem como sua característica básica o esconder e o que se oculta, o mostrar. Assim, verifica-se que a aparência, com sua dupla função de mostrar e esconder, move-se tanto no intuito de deflagrar uma exibição, quanto no de proteger-se dela, pelo ocultamento.

Esse mostrar-se e esconder-se está na própria relação inelidível entre o olhar e o ente. Contudo, esse olhar nunca é meramente individual, mas fruto de toda uma articulação cultural, a qual, tal como uma lente, sempre está interposta como uma prévia interpretação. Assim, nessa perspectiva, o ente é, constante e irrefutavelmente, apanhado num mundo, a partir do qual pode auferir significação. Em verdade, o trazer à luz constitui-se num jogo que, em todas as vezes, depende de um olhar sócio-histórico-psicológico e no qual o ente captado ganha significado. Na metafísica, há, a priori, uma determinação em isolar o ente desse jogo, tomando-o como um em si em sua

substancialidade.

Nesse jogo, também se denota que, em sua manifestação, o ser dos entes cai sob os cuidados do homem, não mais se alocando no âmbito conceitual, em que é possível a atuação de um cogito, que, desde fora da trama de relações na qual o homem está imerso, possa ver com clareza a coisa a ser conhecida. Por esse crivo, a razão deixa de ser critério na diferenciação entre o ente homem e os demais entes. Sua marca distintiva ante os demais entes é dada pelo fato que confere, exclusivamente, ao homem a possibilidade de perceber e responder ao ser. Portanto, o homem capta originariamente o ser, não através do conceito, mas naquilo que é, seja algo, outro ou si mesmo.

Já na metafísica, a distinção ontológica entre o homem e os demais entes é

reduzida a uma diferença conceitual, levando-a a defini-lo pela famigerada natureza humana, plataforma das mais variadas teorias psicológicas, sociológicas,

antropológicas, políticas, econômicas e históricas, explicativas de seu modo de ser e de sua conduta. Husserl (1931/1953) denomina essa concepção, própria tanto ao senso 38

comum quanto à episteme das ciências, de “atitude natural”, a qual subsidia a noção de que o homem, em sua individualidade, está no mundo como algo que o contenha, sendo uma coisa entre outras, inanimadas ou com vida. Conseqüentemente, tal concepção, nas palavras de Dartigues (1973, p.27)

considera a vida psíquica como uma realidade do mundo entre outras,

sendo que a psicologia não é para a consciência senão o que a

astronomia é para as estrelas: cada qual estuda um fragmento da mesma

realidade, uma região diferente do mesmo mundo. Quanto ao que pode

constituir a unidade dessas regiões díspares do mundo, é um enigma

não percebido.

Já na ótica fenomenológica existencial, como já dito, a manifestação do ser dos entes é concreta, não se perfazendo pelo viés lógico-conceitual. Essa compreensão, portanto, está nos antípodas da metafísica: o ser exibe-se nos entes, nunca sendo captado por uma metodologia que racionalmente colija indutivo-dedutivamente suas qualidades genéricas e específicas, extraindo-lhes a substancialidade. A trajetória do ser dos entes em seu mostrar-se e esconder-se é apreendida pelo olhar do homem, que percebe ser como uma sua possibilidade.

No entanto, quando o ser dos entes se oculta através de seu aparecer, o ente

mostra-se segundo o que ele não é, segundo Heidegger (1927/1984), através de três modos: parecer ser, aparência e mera aparência.

No modo do parecer ser, aquilo que se anuncia deixa de ser como tal a uma posterior aproximação. É importante que se frise que, no âmbito da existência, o parecer ser tem o status de ser aquilo e não outra coisa, não configurando uma mentira: à noite, a projeção da sombra de uma folhagem no asfalto parece ser um buraco, fazendo-nos frear bruscamente o carro. Manifestando-se desse jeito, provoca, na seqüência, como no exemplo, todo um seguimento de ações, que se constituem num acontecimento. De fato, o parecer ser só se anuncia como tal após uma posterior exegese, ou seja, uma interpretação esclarecedora: ao descer-se do carro, percebe-se que não se trata de um 39

buraco e sim da projeção da sombra de uma árvore. O parecer ser não é defeito, mas constitutivo de tudo que aparece ao olhar humano, senão não poderia empreender a existência; o próprio ensaio e erro da ciência assenta-se no parecer ser. Aquilo que parece ser é e, só, a posteriori, revela-se como parecer ser, ao ser desclassificado, em verdade, por um outro parecer ser. Em sua gênese, o parecer ser é um ocultamento decisivo, fazendo da exibição um disfarce.

No modo da aparência, os entes mostram o ser de outros entes, que, por si próprios, não têm poder de aparecer. Por exemplo, a pátria, algo incapaz de aparecer em si mesma, precisa de um outro ente em que se possa exibir; a bandeira, ao mostrar a pátria, oculta-se como bandeira. Acham-se nesse rol ícones, sinais, símbolos e sintomas.

Um ícone, exibindo-se a si mesmo, esconde-se ao mostrar o ente que se revela nele.

No modo da mera aparência, tem-se uma aparência falsa de algo, por exemplo, ouro ou dólar falso. A mera aparência possui sempre um caráter de falsidade, embora tenha presença, a qual é a própria aparência: o ouro falso disfarça um metal para que ele pareça o que não é. De fato, já se olha para o ente, levantando-se a suspeita do simulacro, isto é, o ente se mostra como uma mera aparência. Podem-se citar, entre outros, como exemplos, a fofoca e o anúncio, os quais são sempre uma mera aparência em relação ao que se referem. Destaca-se, nesse patamar, o discurso político, que é forjado a aparecer algo que não é.

Deve-se atentar em que, nos diversos momentos de seu desdobramento, o ente

pode intercambiar do nível da aparência para o do parecer ser, da aparência ou mera aparência, podendo mesmo contemplar duas ou três dimensões, o que configura a errância como constitutiva do ser de tudo que é. A aparência é algo que está no jogo do mundo, já que é uma resultante da manifestação de algo e de sua recepção, expressando que não há consciência nem coisa em si, como prega a intencionalidade da consciência husserliana; isso implica que tudo que é mostra-se numa dinâmica fenomênica.

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Cabe agora que se volte para o termo logos, integrante da palavra

fenomenologia. Heidegger (1927/1984) salienta que na língua latina, logos é traduzido e, assim, interpretado como razão, juízo, conceito, definição, fundamento, proposição.

Porém, em grego, logos não significa, primariamente, juízo, entendido como modo de união ou de tomada de posição, seja pela aceitação ou recusa. Logos reporta-se ao que quer dizer a palavra legein: tornar manifesto aquilo de que se fala num discurso; nesse sentido, deixa que algo seja visto, comunicando a um outro o que é manifestado. Assim, o logos pode ser verdadeiro ou falso, desde que não se adote a verdade em seu sentido metafísico de concordância; o ser verdade do logos refere-se a retirar o ente de seu ocultamento e o ser falso significa enganar no sentido de encobri-lo, fazendo-o passar por algo que não é.

O adjetivo verdadeiro, em seu sentido grego, significa a clara percepção sensorial de algo; daí decorre que a percepção é sempre verdadeira, o que quer dizer, usando as palavras de Heidegger (1927/1984, p. 44), “o ver descobre sempre cores e o ouvir sempre descobre sons”. No sentido mais primordial e puro, o verdadeiro

meramente descobre e, assim, nunca pode encobrir e ser falso, ainda que, não havendo um acesso apropriado ao ente, possa-se permanecer num estado de não percepção.

Portanto, logos pode significar razão em decorrência de primariamente ter a função de deixar entes serem percebidos. Logos também se refere a ratio, palavra latina traduzida por fundamento, razão de ser, uma vez que também denota aquilo que, numa

argumentação, já está sempre presente como fundo. E, por último, logos adquire o significado de relação e proporção, porque também significa aquilo que pode ser questionado como evidência em sua relação com outra coisa.

Após se haver discorrido sobre os termos fenômeno e logos, pode-se apreender que fenomenologia, citando Heidegger (1927/1984, p. 45), significa “deixar aquilo que se mostra ser visto no próprio modo em que se mostra a partir de si mesmo." Na 41

seqüência, Heidegger (1927/1984) acrescenta que o expresso não é nada mais que a máxima husserliana: Às coisas mesmas! , que denota o ente no próprio ato de sua apreensão, diga-se, no momento mesmo de sua descoberta pelo olhar humano. Assim, fenomenologia explicita-nos o modo pelo qual qualquer coisa se exibe e se torna demonstrada em sua caracterização como conhecimento, decisivamente vinculado à experiência.

Essa postura configura-se como diametralmente oposta à adotada pelas ciências modernas, cujas nomeações designam seus respectivos temas de acordo com a matéria de estudo abrangida, a qual, tomada como parte da realidade e tornada representação pelo filtro da res cogitans, se torna objeto, agora passível de pesquisa e conceituação.

Esse procedimento começou a ser problematizado com o advento das ciências do

homem, em que a atividade da res cogitans, dirigindo-se a questões a ele pertinentes, o toma por res extensa, coisificando-o e abordando todos seus modos de ser pelo viés da explicação embasada na medida e no cálculo.

No entanto, uma pessoa, em seus modos de ser na cotidianidade, é um ente que

manifestamente, na maior parte das vezes, não se mostra completamente, permanecendo velada, estando, assim, refratária a uma elucidação explicativa, viabilizada por uma teoria que, caracteristicamente, sistematize a natureza humana. De fato, esse foi o nascedouro da Psicanálise, já que Freud, refutando que as motivações da conduta do homem se explicariam inteiramente pela razão, cria a noção de inconsciente, instância depositária dos mecanismos reguladores de seu comportamento e inacessíveis a sua consciência. Assim, embora faça parte de um movimento que se pode considerar

historicamente como fenomenológico, Freud não se deslinda da metafísica, já que ainda se atém a um viés conceitual na caracterização do ser humano.