Sermão da Dominga XIX depois do Pentecoste (1639) por Padre António Vieira - Versão HTML

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I

É semelhante o reino do céu a um homem rei. — Vou repetindo e construindo o texto do Evangelho, palavra por palavra. Tende advertência e fazei memória de todas, porque têm mistério, e todas nos hão de servir. — É semelhante o reino do céu — diz Cristo, Redentor nosso — a um homem rei, o qual fez as bodas a seu filho. Chegado o dia, mandou a seus criados que fossem chamar os convidados para o banquete, e eles não quiseram vir. Tornou, contudo, a mandar outros criados com outro recado nesta forma: — Dizei-lhes que venham, porque o banquete está aparelhado e o gasto feito, as reses e as aves mortas, e tudo preparado. — Os convidados, porém, não fizeram caso desta segunda instância: uns se foram para a sua lavoura, outros para a sua negociação, e alguns houve tão descomedidos, que prenderam os mesmos criados, e, depois de muitas afrontas, os mataram. Irou-se o rei, como era justo, mandou os seus exércitos a que fossem castigar aqueles rebeldes, com ordem que não só matassem os homicidas, mas pusessem fogo a toda a cidade, e a queimassem. Executado assim, voltou-se o rei para os criados e disse: — O banquete está aparelhado; e pois os convidados não foram dignos, ide às saídas das ruas, e trazei quantos achardes. — Foram, e ajuntando quantos encontraram, maus e bons, todos trouxeram e introduziram, com que os lugares do convite ficaram cheios. Então o rei entrou em pessoa na sala para os ver à mesa, e como notasse que entre eles estava um sem vestidura de bodas, estranhou-lhe a descortesia, dizendo: Amigo, como entraste aqui tão indecentemente vestido? — O homem emudeceu, e o rei mandou a seus ministros que, atado de pés e mãos, o lançassem fora e o levassem a um cárcere subterrâneo e escuro, chamado trevas exteriores. Ali não haverá — conclui Cristo — senão choro e ranger de dentes, porque os chamados são muitos, e os escolhidos poucos.

Esta é, letra por letra, a história ou parábola do Evangelho, para cuja inteligência convém saber quem é o rei, quem o filho, quais as bodas, qual o banquete, quem os convidados que vieram, quem os que não quiseram vir, e quem os criados que os foram chamar. O rei é o Eterno Padre; o filho é o Verbo, segunda Pessoa da Santíssima Trindade; as bodas são a Encarnação do mesmo Filho de Deus, que se desposou com a natureza humana; o banquete é a glória e bem-aventurança do céu, que por meio deste mistério se nos franqueou; os convidados que vieram são os que se salvam; os que não quiseram vir, os que se condenam; e os criados, finalmente que os chamaram são os pregadores.

Suposto pois que este é o ofício e esta a obrigação do pregador, esta será também hoje a matéria do sermão. Misit servos suos vocare ad nuptias (Mt. 22,3). Manda-me Deus, senhores, que vos chame para o banquete da glória, e assim o farei. Mas quando vejo nesta mesma parábola que, chamados uma e outra vez os convidados, não quiseram vir, que razões vos posso eu alegar, ou de que meios me posso valer para vos persuadir o que tantos pregadores e escolhidos por Deus não persuadiram? Toda a minha confiança trago posta na virtude e eficácia do Evangelho; e assim vos não direi outra coisa, senão o que ele diz, e já ouvistes. Ponderarei somente as suas palavras, e ponderá-las-ei todas, sem deixar nenhuma, e para quanto disser e provar não alegarei outra escritura, nem do Velho nem do Novo Testamento, mais que o mesmo Evangelho. Se vos parece assunto novo e dificultoso, por isso mesmo me deveis ajudar a pedir mais graça hoje, que noutras ocasiões. Ave Maria.