Sermão de Dia de Ramos (1656) por Padre António Vieira - Versão HTML

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I

Como Deus não se agrada de afetos súbitos, senão de corações preparados, maravilhosas são as disposições cada vez maiores e mais estreitas, com que a Igreja Católica, nossa mãe, governada pelo Espírito Santo, de muito longe nos começou a preparar, e foi preparando sempre, para que chegássemos dignamente a este dia, e entrássemos como convém nesta sagrada semana. Para chegar ao Sancta Sanctorum, que era o lugar mais sagrado do templo de Jerusalém, traçou Deus a entrada com tal artifício, que primeiro se passasse por três estâncias, tão misteriosas no sítio como na medida, porque quanto eram mais interiores, tanto se estreitavam mais. A primeira e a segunda se chamavam átrios, e a terceira propriamente templo. Por estes como degraus de reverência e culto, e com todas estas disposições de sempre maior recolhimento e aperto, se chegava finalmente ao Sancta Sanctorum; e com as mesmas quer e ordenou a Igreja que entrássemos nós à Semana Santa, porque assim como o Sancta Sanctorum era o lugar mais sagrado do templo, assim a Semana Santa é o Sancta Sanctorum do tempo.

As três estâncias que o precedem, e já passamos, tanto mais estreitas quanto mais interiores, foram, a primeira, desde a Septuagésima até a Quaresma; a segunda, do princípio da Quaresma até a Dominga próxima, chamada da Paixão; a terceira, da mesma Dominga da Paixão até o dia presente.

Na entrada da Septuagésima se começaram a enlutar os altares, e cessaram no canto eclesiástico as aleluias, sendo esta cerimônia exterior o primeiro prelúdio ou reclamo da penitência, para que não dissolutos, mas compungidos, entrássemos no tempo santo da Quaresma. Começou a Quaresma com a memória da cinza e do pó que somos, e com o jejum universal; continuou com tanta freqüência de sermões, com tantas procissões de modéstia, compunção e piedade cristã, com tantas mortificações secretas e públicas, e com tanta efusão violenta do próprio sangue; e, não se dando por satisfeita com todas estas demonstrações, a Igreja, para maior representação de sua justa dor e tristeza, na dominga proximamente passada, correu totalmente as cortinas aos altares, e até as imagens sacrossantas de Cristo crucificado nos encobriu e escondeu com aquele véu negro, para que, eclipsado assim e escurecido o Divino Sol de nossas almas, chegássemos com maior assombro e santo horror aos dias em que somos entrados.

Os antigos, como se lê em São Bernardo, chamavam a esta semana a Semana Penosa, pelos tormentos e penas que Cristo nosso Redentor nela padeceu, e pelo sentimento e dor com que nós as devemos corresponder e acompanhar. A Igreja universal lhe chama a Semana Maior, porque nela se consumaram os maiores mistérios de nossa Redenção, os maiores excessos do amor e misericórdia divina, e o maior e mais tremendo exemplo de sua justiça. Nós, em significação de todas estas coisas juntas, chamamos vulgarmente à mesma semana a Semana Santa, mas não sei se as nossas ações e exercícios nela respondem às obrigações de tão sagrado nome. Ora eu tão escandalizado do que algumas vezes acontece, como zeloso do que é bem se veja e reconheça em todos estes santos dias, o assunto que somente vos determino pregar hoje é este: que deve fazer todo o cristão para que a Semana Santa seja santa? A matéria, nem pode ser mais pia, nem mais útil, nem mais própria da ocasião, se aquele Senhor, que hoje chorou sobre a cidade de Jerusalém, puser seus divinos olhos na nossa, e nos assistir com sua graça. Peçamo-la por intercessão da Virgem Senhora, com tão devoto afeto de nossos corações, que a mereçamos alcançar. Ave Maria.