Sete Anos no Tibete por Heinrich Harrer - Versão HTML

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HEINRICH HARRER - SETE ANOS NO TIBETE

A Minha Vida na Corte do Dalai Lama

Tradução de Marina Guaspari

EDIÇÕES MELHORAMENTOS

1963

Título do original alemão: SIEBEN JAHRE IN TIBET (1953)

Todos os direitos reservados pela

Comp. Melhoramentos de São Paulo, Indústrias de Papel

Caixa Postal 8120, São Paulo

Fonte: MultiBrasil Downloads e Dicas - http://multibrasil.blogspot.com

Índice

PREFÁCIO .................................................................................................................7

CAMPO DE INTERNAÇÃO E TENTATIVA DE FUGA ......................................11

MARCHAR DE NOITE; ESCONDER-SE DE DIA................................................17

FADIGAS, PROVAÇÕES... TUDO EM VÃO ........................................................22

MASCARADA AUDACIOSA.................................................................................27

O TIBETE NÃO QUER ESTRANGEIROS.............................................................36

MAIS UMA VEZ, CLANDESTINOS ALÉM DA FRONTEIRA ...........................42

EM GARTOK, SEDE DO VICE-REI ......................................................................51

RECOMEÇA A DURA PEREGRINAÇÃO ............................................................54

UM MOSTEIRO VERMELHO, COM TELHADOS DOURADOS: TRADÜN .....59

UMA CARTA NOS INDUZ A CONTINUAR ........................................................65

KYIRONG, ALDEIA DA BEM-AVENTURANÇA ...............................................68

O NOSSO PRIMEIRO ANO-BOM NO TIBETE ....................................................71

PREOCUPAÇÕES SEM-FIM PELA PERMANÊNCIA .........................................77

PARTIDA DRAMÁTICA DE KYIRONG ..............................................................82

PELO PASSO DE TSHAKHYUNGLA, AO LAGO PELGU TSHO ......................84

UMA VISÃO INESQUECÍVEL: O MONTE EVEREST........................................88

TENTAÇÃO PERIGOSA: VER LHASA ................................................................91

ENTRE NÔMADES BONDOSOS ..........................................................................96

ENCONTRO PERIGOSO COM OS KHAMPAS LADRÕES ..............................100

FOME E FRIO... E UM INESPERADO PRESENTE DE NATAL .......................104

O SALVO-CONDUTO ABENÇOADO.................................................................112

FLÂMULAS COLORIDAS ORLAM O CAMINHO DO PEREGRINO ..............115

UM GRILHETA, COMPANHEIRO DE QUARTO ..............................................118

BRILHAM OS TELHADOS DE OURO DO POTALA ........................................122

DOIS VAGABUNDOS PEDEM CASA E COMIDA............................................124

O ASSUNTO DO DIA EM LHASA ......................................................................127

OS DOIS POBRES FORAGIDOS SÃO MIMADOS ............................................131

HOSPEDADOS NA CASA PATERNA DO DALAI LAMA................................133

O MINISTÉRIO DO EXTERIOR DO TIBETE CONCEDE-NOS LIBERDADE DE

MOVIMENTOS .....................................................................................................137

VISITAS IMPORTANTES EM LHASA ...............................................................140

A HOSPITALIDADE LIBERAL DE TSARONG .................................................145

NO TIBETE NÃO SE CONHECE A PRESSA......................................................149

AMEAÇADOS NOVAMENTE DE DEPORTAÇÃO ...........................................150

COMEÇA O ANO DO "CÃO DE FOGO" ............................................................154

UM DEUS ERGUE A MÃO, PARA ABENÇOAR...............................................157

A NOSSA PRIMEIRA EMPREITADA.................................................................161

FESTA ESPORTIVA, ÀS PORTAS DE LHASA..................................................163

A ORDEM DOS TSEDRUNGS.............................................................................171

O FILHO MAIS NOVO DA MÃE DIVINA..........................................................173

CAMARADAGEM COM LOBSANG SAMTEN .................................................175

PROCISSÃO A NORBULINGKA ........................................................................177

QUEREMOS VER O DALAI LAMA....................................................................179

ESTIAGEM E O ORÁCULO DE GADONG ........................................................186

A VIDA DE CADA DIA, EM LHASA..................................................................188

MÉDICOS, CURANDEIROS E ADIVINHOS......................................................191

O ORÁCULO OFICIAL.........................................................................................194

OUTONO ALEGRE EM LHASA..........................................................................198

A MINHA FESTA DE NATAL .............................................................................204

PERÍODO DE MUITO TRABALHO ....................................................................205

OS ESTRANGEIROS E O SEU DESTINO NO TIBETE .....................................210

AUDIÊNCIA DO DALAI LAMA..........................................................................213

VISITAMOS O POTALA ......................................................................................217

A CONSPIRAÇÃO DOS MONGES DE SERÁ ....................................................221

SOLENIDADES RELIGIOSAS, EM MEMÓRIA DE BUDA ..............................224

PRIMEIRA ENCOMENDA OFICIAL ..................................................................226

TRABALHO E FESTAS, NO JARDIM DA PEDRA PRECIOSA........................229

EM CASA PRÓPRIA — COM TODO O CONFORTO........................................231

AS VAGAS DA POLÍTICA INTERNACIONAL CHEGAM AO TIBETE..........235

A VIAGEM DO DALAI LAMA AOS CONVENTOS..........................................239

ACHADOS ARQUEOLÓGICOS DE AUFSCHNAITER.....................................245

PROBLEMAS AGRÍCOLAS DO TIBETE ...........................................................246

ESPORTE NO GELO, EM LHASA.......................................................................247

CAMERAMAN DO BUDA VIVO ........................................................................248

A CATEDRAL DE LHASA...................................................................................249

HOSPITALIDADE TIBETANA............................................................................251

REORGANIZAÇÃO DO EXÉRCITO E INTENSIFICAÇÃO DA

RELIGIOSIDADE..................................................................................................253

ESTABELECIMENTOS TIPOGRÁFICOS E LIVROS ........................................260

ASSUMO O ENCARGO DE CONSTRUIR UM CINEMA PARA O DALAI

LAMA.....................................................................................................................263

PRIMEIRA ENTREVISTA COM KUNDÜN........................................................273

"ÉS CABELUDO COMO UM MACACO, HENRIQUE!"....................................276

AMIGO E MESTRE DO DALAI LAMA ..............................................................281

OS CHINESES VERMELHOS AMEAÇAM O TIBETE......................................282

TERREMOTOS E OUTROS SINAIS AGOURENTOS ........................................285

DÊ-SE O PODER AO DALAI LAMA ..................................................................288

A DÉCIMA QUARTA ENCARNAÇÃO DE TSHENRESI ..................................291

PREPARATIVOS DA FUGA DO DALAI LAMA................................................295

DESPEÇO-ME DE LHASA...................................................................................300

PANTSCHEN LAMA E DALAI LAMA...............................................................302

ROTEIRO DA FUGA DO REI-DEUS...................................................................303

O JOVEM SOBERANO VÊ, PELA PRIMEIRA VEZ, O SEU REINO................305

OS MEUS ÚLTIMOS DIAS, NO TIBETE............................................................309

NUVENS AMEAÇADORAS SOBRE O POTALA ..............................................311

Índice das pranchas

Dalai Lama e Heinrich Harrer ...................................................................... 10

Barco tibetano / Caravanas de iaques ........................................................... 15

Um "tschörten" ............................................................................................. 16

Peregrino mendigo ....................................................................................... 34

Edifício de granito ....................................................................................... 35

Criminosos algemados ................................................................................... 44

Acampamento de nômades / Peregrinos de Lhasa ....................................... 45

Monge policial ............................................................................................... 46

Quatro monges / Banda de música dos monges ........................................... 47

Parada histórica anual / Banda dos monges ................................................. 56

A grande liteira do Dalai Lama ................................................................... 57

Lobsang Samten .......................................................................................

75

A mãe do Dalai Lama .................................................................................. 76

Monges com turíbulos .................................................................................. 92

O Dalai Lama segura um vaso de ouro ......................................................... 93

Mosteiros na orla dos penhascos .................................................................. 110

Estátua de ouro de Buda ................................................................................ 111

O Potala / Residência da família do Dalai Lama .......................................... 129

Aufschnaiter e a irmã do Dalai Lama ........................................ .................. 130

Ministro do Exterior e secretários ................................................................ 147

Senhoras com adereços / Os três ministros principais ...............................

148

Bandeira de dimensões colossais / Casas de tufos de relva e barro ............

165

Bandeira de Tra Yerpa ..................................... .......................................

166

Nora de ministro com filho / Jogo de dados num piquenique ....................... 183

Dança de monges bailarinos / Ministros e aristocratas ................................. 184

Dança de monges........................................................................................... 202

Jovens aristocratas ......................................................................................... 203

General Surkhang / Monte dos arredores de Lhasa ....................................... 219

O irmão de Wangdüla / Patinando no gelo .................................................... 220

Wangdüla ....................................................................................................... 237

Tambores e praças do exército ....................................................................... 238

Tiro à distância / Soldados com armaduras e capacetes muçulmanos ........... 256

Camponeses com traje popular .................... ................................................. 257

O oráculo do Estado ....................................................................................... 266

Torre sacrificial ............................................................................................. 267

O Dalai Lama e auxiliares .............................................................................. 268

Trashi-Lhünpo / Soldado khampa e o governador de Gyantse ...................... 269

Soldados do exército indiano ........................................................................ 278

O pendão do Dalai Lama / Entrada em Gyantse........................................... 279

A caravana do Dalai Lama ........................................................................... 296

Residência provisória ................................................................................... 298

Roteiro da viagem de Harrer (mapa) ...........................................................

313

PREFÁCIO

Todos os sonhos da vida começam na mocidade...

Já em criança, muito mais do que o saber escolar, me entusiasmavam os

feitos heróicos do nosso tempo: os homens que se propõem explorar terras

desconhecidas, ou marcam a si próprios o objetivo de medirem as suas

forças, entre fadigas e privações, em competições esportivas; os

conquistadores dos cumes do mundo... Esses eram os meus modelos; e não

tinha limites o meu desejo de imitá-los!

Faltavam-me, porém o conselho e a orientação dos mais experientes.

Decorreram assim muitos anos, antes que eu me compenetrasse da

impossibilidade de visar simultaneamente a várias metas. Experimentara-me

em quase todo gênero de esporte, sem colher resultados que me parecessem

satisfatórios. Concentrei-me afinal em dois que, pela sua estreita afinidade

com a natureza, eram os meus favoritos: esqui e alpinismo.

Eu já percorrera, em pequeno, a maior parte dos Alpes; mais tarde,

mesmo estudando, todas as minhas folgas pertenciam, no verão, a escalar

montanhas; no inverno, ao esqui.

Modestos sucessos estimularam-me, em breve, a ambição. Sujeitando-

me a rigoroso treino, consegui usar em 1936 as cores da equipe olímpica da

Áustria. Um ano depois, conquistei uma vitória, nas provas internacionais de

esqui.

Nesta e noutras competições, a embriaguez da velocidade e a exaltação

de ver triunfar a plenitude do esforço deram-me instantes de euforia. Não me

bastava, no entanto, sobrepujar um adversário, ser proclamado vencedor. Só

uma coisa valia aos meus olhos: medir as minhas energias com as

montanhas.

Conseqüentemente, passei longos meses entre rochas e gelo,

aclimatando-me a eles, a ponto de me parecer que já não haveria para mim

paredes rochosas inacessíveis. Mas, como nada me caía do céu, caro me

custou o aprendizado. Certa vez, caí de cinqüenta metros de altura e só por

milagre sobrevivi à queda. Acidentes menos graves se sucediam, porém, a

bem dizer a toda hora.

A volta às aulas era .naturalmente um imperativo penoso, embora eu não

me devesse queixar, porque a cidade me oferecia ensejo de compulsar farto

cabedal de literatura sobre alpinismo e viagens. À medida que eu devorava

esses livros, na teia confusa das aspirações vagas cristalizava-se, mais e

mais, o grande objetivo, o sonho de todo alpinista: tomar parte numa

expedição ao Himalaia.

Podia, acaso, um rapaz desconhecido como eu esperar sequer na

realização de sonhos tão audazes? O Himalaia! Para chegar lá, cumpria ser

muito rico, ou pertencer à nação cujos filhos tinham — naquela época — a

possibilidade de servir o seu governo na índia.

Ao homem que não era nem uma nem outra coisa, restava apenas um

meio: praticar uma ação qualquer, que lhe valesse positivamente a atenção

pública, a fim de — numa das raras oportunidades que também se oferecem

aos "do lado de fora" — não ser desalojado simplesmente do lugar que lhe

compete.

Mas que havia de ser? Não tinham sido escalados os picos, os

espinhaços, as paredes dos Alpes, não raro em ações incrivelmente

arrojadas? Não! Ainda restava uma parede, a mais alta e a mais difícil: o

paredão setentrional do Eiger.

Nenhuma corda lhe tocara o cimo, à altitude de dois mil metros. Todas

as tentativas falhavam, antes de alcançar a meta. E muitos tinham lá deixado

a vida.

Em torno do enorme paredão rochoso, criara-se uma coroa de lendas.

Finalmente o governo suíço exarara a proibição de galgar essa muralha.

Não havia dúvida: era a grande tarefa que eu procurava. Quebrar o

encanto da vertente norte do Eiger seria habilitar-se para o Himalaia.

Amadurecia lentamente em mim a resolução de tentar o que parecia quase

irrealizável. Está descrito em vários livros o modo como consegui, em 1938,

subir com os camaradas Fritz Kasparek, Anderl Heckmaier e Wiggerl Vorg,

o temido paredão.

Aproveitei, porém, o outono desse ano, para treinar mais assiduamente,

sempre tendo ante os olhos a esperança de ser convidado a participar da

expedição alemã ao Nanga-Parbat, planejada para o verão de 1939. Mas tudo

parecia destinado a ficar só na esperança, pois o inverno chegou, sem que

nada estivesse combinado. Outros nomes foram escolhidos para uma viagem

de reconhecimento aos montes fatídicos da região de Cachemira. Não me

tocou senão o magro consolo de assinar o contrato que me obrigava a

colaborar numa filmagem de esqui.

O argumento estava bem adiantado, quando me chegou um telefonema

de longa distância. Era a convocação tão ardentemente esperada, para tomar

parte na expedição ao Himalaia! Em quatro dias, devia estar tudo pronto.

Não refleti um minuto. Rescindi, sem hesitar, o contrato de filmagem, corri a

Graz, minha cidade natal; em vinte e quatro horas, terminei os meus

preparativos e, já no dia seguinte, estava a caminho de Munique, para

Antuérpia, com Peter Aufschnaiter, chefe da expedição alemã de

reconhecimento ao Nanga-Parbat em 1939, e outros dois expedicionários:

Lutz Chicken e Hans Lobenhoffer.

Até aí, haviam gorado quatro tentativas de alcançar os 8.114 metros de

altitude do Nanga-Parbat; e tinham custado muitas vítimas. Decidira-se,

portanto, experimentar outro caminho ascensional. Cabia-nos a tarefa de

explorá-lo, porque já se projetava novo assalto ao pico, em 1940.

Na viagem ao Nanga-Parbat, sucumbi definitivamente à fascinação do

Himalaia. A beleza dos seus montes ciclópicos, a amplidão desmesurada do

panorama, a gente exótica da índia, tudo agia em mim, com um poder

inexprimível.

Passaram-se, desde então, muitos anos. Eu, porém, nunca me desliguei

da Ásia. Procurarei escrever aqui tudo o que ocorreu. Mas, como não tenho

experiência de escritor, limitar-me-ei a expor nuamente os fatos.

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Dois momentos: Harrer e o Dalai Lama, 1965 e 1992

Harrer e Dalai Lama: final dos anos 90.

CAMPO DE INTERNAÇÃO E TENTATIVA DE FUGA

Em fins de agosto de 1939, terminara a nossa viagem de

reconhecimento. Descobríramos, de fato, um novo caminho ascensional e

aguardávamos em Carachi o cargueiro que nos reconduziria à Europa. O

navio estava muito atrasado; as nuvens da segunda guerra mundial se

adensavam, mais e mais. Para escapar à rede que a polícia secreta já ia

armando, Chicken, Lobenhoffer e eu decidimos esgueirar-nos, fosse por

onde fosse. Só Aufschnaiter preferiu ficar em Carachi; justamente ele, que

tomara parte na primeira grande guerra, não acreditava na possibilidade de

haver a segunda... Nós, os três, tencionávamos alcançar a Pérsia e, dali, a

pátria. Conseguimos — e até sem dificuldades — burlar a vigilância do

nosso "observador", atravessando no nosso carro, um honrado calhambeque,

algumas centenas de quilômetros de deserto; e chegamos a Las Bella,

pequeno Estado dum marajá, a noroeste de Carachi. Mas ali nos alcançou o

destino: sob o pretexto de que precisávamos de proteção individual,

passamos a ter uma escolta de oito milicianos armados. Isto significava, nem

mais nem menos, que éramos prisioneiros... embora entre a Alemanha e a

Common wealth Britânica ainda não existisse estado de guerra.

Com essa escolta segura, não tardamos a estar de novo em Carachi, onde

tornamos a ver Peter Aufschnaiter. Dois dias depois, a Inglaterra declarou-se

efetivamente em guerra com a Alemanha. A partir daí, tudo se passou de

enfiada: nem cinco minutos depois, vinte e cinco soldados hindus, armados

até aos dentes, invadiram o jardim do restaurante — onde acabávamos de

sentar-nos à mesa — para nos levarem... Um carro da polícia transportou-

nos para um campo de concentração já pronto, com cerca de arame farpado.

Era, porém, um "transit-camp". Quatorze dias depois fomos conduzidos ao

grande campo de internamente de Ahmednagar, nos arredores de Bombaim.

Lá ficamos espremidos, encurralados, em tendas e barracas, em meio do

eterno conflito de opiniões dos outros internados... Não; esse mundo

destoava demais das alturas luminosas e solitárias do Himalaia. Nada havia,

nesse acampamento, para o homem sequioso de liberdade! Tratei logo de

arranjar trabalho voluntário, com o intuito de preparar o caminho e a

oportunidade para uma tentativa de evasão.

Eu não era, naturalmente, o único internado que forjava planos dessa

natureza. Com o auxílio desses companheiros de ideal, consegui em breve

uma bússola, dinheiro, mapas, subtraídos ao controle. Arranjamos até luvas

de couro e alicates para o arame farpado. O sumiço dado aos alicates do

almoxarifado dos ingleses provocou um inquérito rigoroso, mas

absolutamente sem resultado positivo.

Como todos nós acreditávamos no fim próximo da guerra, íamos

protelando continuamente o nosso plano de fuga. Um belo dia,

inesperadamente, fomos removidos para outro campo de concentração. Um

verdadeiro comboio de caminhões ia transportar-nos para Deolali. Em cada

veículo acomodaram-se dezoito presos, sob a guarda dum soldado de arma

acorrentada ao cinto, para dissipar veleidades de tomá-la; à testa, no centro e

à retaguarda da coluna, rodavam os bem guarnecidos carros de escolta.

Antes de abandonar o campo, Lobenhoffer e eu decidimos fugir, antes

que, num novo acampamento, novas dificuldades ameaçassem os nossos

projetos. Ocupamos, portanto, os dois últimos bancos de trás. Tínhamos,

além disto, a sorte de ser a estrada toda em curvas; e, de quando em vez,

nuvens de pó envolviam a coluna em marcha. Em tais condições, não nos

faltaria ensejo de saltar, sem dar nas vistas. Era pouco provável que o

"nosso" guarda desse pela nossa falta; a sua tarefa primordial consistia

aparentemente em vigiar os caminhões que nos precediam. Só casualmente

ele se voltava para nós. Em resumo, não nos parecendo a fuga muito difícil,

arriscamo-nos a ficar até ao último. Escolhêramos para asilo um enclave

português neutro; e ele estava justamente no nosso itinerário.

Chegou afinal o momento. Saltamos. Achei-me num matagal a uns vinte

metros da estrada. De repente, percebi apavorado que a caravana parava.

Apitos estridentes, gritos, correrias, não me deixaram dúvidas, acerca do que

estava ocorrendo. Lobenhoffer fora descoberto; como ele levava a mochila,

não me restava senão renunciar a evadir-me. Por sorte, no tumulto geral,

consegui retomar o meu lugar no carro, sem atrair a atenção do guarda. Só os

companheiros sabiam que eu me escapulira; mas esses, naturalmente, não

falaram.

De súbito, vislumbrei Lobenhoffer, de mãos erguidas, diante duma fila

de baionetas. Senti-me derreado; a decepção fora tremenda. Não podia

culpar o meu amigo; sucedera apenas que, ao saltar com a pesada mochila,

um ruído qualquer o atraiçoara. O guarda ouvira; e Lobenhoffer fora

apanhado, antes de alcançar a selva protetora.

O incidente dera-nos uma lição dura, mas proveitosa: mesmo numa

tentativa comum de evasão, cada um dos parceiros deve levar um

equipamento individual completo.

Nesse mesmo ano, fomos transferidos para um terceiro acampamento.

Um comboio ferroviário levou-nos ao maior campo de concentração da

índia, às fraldas do Himalaia, a poucos quilômetros da cidade de Dehra Dun,

em cujas alturas se erguia a estância de veraneio dos ingleses e dos hindus

ricos, denominada "Hillstation". O nosso acampamento constava de sete

grandes alas separadas, cada uma delas rodeada duma dupla cerca de arame

farpado. Outra cerca dupla encerrava o campo todo e, no intervalo entre as

duas, rondavam os guardas.

Era uma situação inteiramente nova. Enquanto estivéramos num campo

situado na planície, os nossos planos de evasão sempre tinham por meta uma

colônia portuguesa neutra. Nesse último, porém, diretamente acima de nós,

torreava o Himalaia. Que idéia, para um alpinista, alcançar pelos

desfiladeiros o Tibete. E dali, a meta definitiva: as linhas japonesas, na

Birmânia, ou na China...

A nova modalidade de evasão exigia naturalmente uma preparação

especial. Já então, não tínhamos esperança de que o fim da guerra não

tardasse. Comecei, portanto, a organizar metodicamente a nova ação. Não

era o caso de pensar em fugir através da índia superpovoada; para isso, eram

condições quase indispensáveis muito dinheiro e domínio perfeito do idioma

inglês. Compreende-se, pois que a minha escolha recaísse no Tibete pouco

populoso, e no Himalaia! Mesmo no caso de gorar o meu plano, por um

período, embora breve, de liberdade na montanha, valia a pena correr o

risco.

Tratei, antes de tudo, se aprender um pouco de hindustani, de língua

tibetana e japonesa. Depois, devorei os livros de viagem existentes na

biblioteca do acampamento, para assimilar o que houvesse sobre a Ásia,

especialmente sobre a região pela qual deveria correr o meu itinerário.

Redigi resumos, copiei os mapas principais. Peter Aufschnaiter conservara

os nossos livros e mapas da expedição. Trabalhava incansavelmente neles e,

com desprendimento meritório, pôs à minha disposição todos os seus

croquis. Tirei duas cópias de cada um; uma para a fuga, a outra para o caso

de se perder o original.

Mas, dado justamente o itinerário da nossa evasão, importava conservar

o meu corpo na melhor forma possível. Conseqüentemente, decidi dedicar,

todos os dias, muitas horas ao esporte. Indiferente ao bom ou mau tempo, eu

cumpria o programa que traçara a mim mesmo. Muitas noites passei em

claro, espreitando os hábitos das sentinelas.

Mas o meu maior cuidado era uma dificuldade bem de outra espécie: eu

tinha pouco dinheiro. Embora me desfizesse de tudo quanto podia dispensar,

o produto da venda desses objetos não bastava para o mais modesto

necessário no Tibete, sem contar as gorjetas e presentes que já não seria

possível evitar na Ásia.

Nos primeiros tempos do meu internamento, eu não assumira

compromissos do assim chamado santo-e-senha, para sair do campo, a fim

de não me julgar ligado pela minha palavra de honra, no caso de se me

deparar de repente uma oportunidade de me evadir. Em Dehra Dun, achei

que podia e devia fazer isso; aliás, os "passeios" serviriam apenas para

explorar os arredores do acampamento.

A princípio, eu tencionava fugir sozinho, para não ter de atender

considerações que me pudessem estorvar os movimentos. Um dia, o meu

amigo Rolf Magener falou-me dum general italiano que tinha as mesmas

intenções. Eu já ouvira mencionar esse oficial. E, uma noite, pela cerca de

arame, Magener e eu passamos à ala vizinha, onde se alojavam quarenta

generais italianos.

O meu futuro companheiro, que devia andar pelos quarenta anos e se

chamava Marchese, era no aspecto um italiano típico, esbelto, amável. O seu

traje pareceu-me muito elegante, mas foi a sua constituição física o que me

causou a impressão mais favorável.

Tivemos certa dificuldade em compreender-nos. Ele não falava alemão;

eu não sabia italiano. Ambos detestávamos cordialmente o idioma inglês.

Serviu-nos, pois, de intermediário um amigo que arranhava um pouco de

francês. Marchese descreveu-me a guerra da Abissínia e uma tentativa de

fuga do campo de internamento.

Felizmente para ele, que recebia um soldo de general inglês, o dinheiro

não constituía problema. Marchese já tivera a possibilidade de se prover,

para o caso duma fuga comum, de coisas em que nem em sonho eu me

atreveria a pensar. Do que ele precisava era dum companheiro que tivesse

algum conhecimento do Himalaia... Não tardamos a chegar a um acordo, na

base de assumir eu a responsabilidade do plano de evasão, e ele a de obter

dinheiro e equipamento.

Várias vezes na semana eu me enfiava de rastos na cerca de arame, para

acertar com Marchese pormenores do plano, graças ao que me tornei perito

em superar esse gênero de obstáculo. Havia, naturalmente, muitas

possibilidades; no nosso caso, porém, uma prometia a meu ver o êxito mais

seguro. Baseava-a na circunstância de existir, nas duas redes de arame

farpado, que envolviam o acampamento, de oito em oito metros, um

alpendre comum, coberto de palha, que resguardava as sentinelas, do

escaldante sol indiano. Se conseguíssemos trepar num desses telheiros,

sairíamos ao mesmo tempo das duas cercas.

Em maio de 1943, os nossos preparativos estavam terminados; tínhamos

dinheiro, mantimentos, bússola, calçado e uma pequena barraca de alpinista.

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Barco tibetano de couro de iaque, no Brahmaputra.

No Tibete, a importação e a exportação se fazem por meio das caravanas de iaques. Esta

leva lã à índia.

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Um "tschörten" esculpido na própria rocha.

Uma noite, decidimos tentar. Passei, como de costume à ala de

Marchese. Estava ali uma pequena escada de mão que escamoteáramos,

desde muito tempo, por ocasião dum princípio de incêndio no campo.

Encostamos a escada à parede e esperamos à sombra duma barraca. Era

quase meia-noite; dentro de dez minutos, mudariam as sentinelas.

Entorpecidos, visivelmente ansiosos por que os viessem render, os guardas

andavam dum lado a outro. Passaram-se mais alguns minutos. Justamente

quando chegavam ao ponto escolhido por nós, a lua despontou lentamente,

acima das plantações de chá. Os focos elétricos projetavam breves sombras

duplas. Tinha de ser nesse momento, ou nunca!

As duas sentinelas alcançavam a maior distância possível do lugar onde

nos encolhíamos. Endireitei-me; de escada na mão, corri à cerca, desci pelo

outro lado e cortei as pontas do arame, que ainda poderiam estorvar, quando

rastejasse no telheiro. Marchese apertou-as com o cabo dum forcado, e eu

deslizei pela palha. Estava combinado que o italiano me seguiria

imediatamente, enquanto eu afastaria, por meu turno os fios farpados. Mas o

general hesitou uns segundos, julgando talvez que fosse demasiado tarde,

que as sentinelas já se aproximassem... Eu cheguei de fato a ouvir-lhes os

passos. Não perdi tempo em reflexões: agarrei o italiano numa braçada, e

puxei-o para o telhado. Rastejamos os dois e, com uma queda um tanto

pesada, mergulhamos na liberdade.

Tudo isto não correra liso como pode parecer. As sentinelas estavam

alertadas. Mas, quando os primeiros tiros crepitaram na escuridão, já nos

tragara a selva espessa.

O primeiro gesto de Marchese foi abraçar-me e beijar-me, com toda

exuberância do seu temperamento meridional. O momento, porém, não se

prestava para tais efusões. Foguetes luminosos estralejavam no alto e os

apitos, próximos, revelavam que já tínhamos os perseguidores aos

calcanhares. Tratava-se da nossa vida. Desatamos, pois, a correr em atalhos

da mata, muito meus conhecidos, desde os meus passeios de exploração

pelas vizinhanças do acampamento. Só raramente percorríamos a estrada

real e, por boa medida de prudência, evitávamos os povoados. A princípio,

nem sentíamos as mochilas. A pouco e pouco, porém, o seu peso começou a

incomodar-nos.

Numa aldeia, os nativos puseram-se a tocar tambor; e a nossa fantasia

imaginou logo um alarma. Há dificuldades que mal se concebem numa terra

habitada só por brancos. Na Ásia, o "sahib" viaja sempre acompanhado dum

séquito de servos; não leva pessoalmente a menor maleta. Como não haviam

de dar nas vistas dois europeus, atravessando aqueles sítios, a pé e

pesadamente carregados?

MARCHAR DE NOITE; ESCONDER-SE DE DIA

Decidimos, portanto, aproveitar as noites para a marcha, porque o hindu,

depois do escurecer, não entra na selva... por causa dos animais ferozes. Nós

também não deixávamos de ter certa apreensão; lêramos de sobra, em jornais

esquecidos no acampamento, casos de pessoas estraçalhadas por tigres e

panteras...

Quando, ao termo da primeira noite, raiou a madrugada, escondemo-nos,

exaustos, num vale e ali, comendo e dormindo, passamos o dia tórrido,

interminável, sem ver senão um único transeunte, e assim mesmo de longe:

um vaqueiro que, por sorte, não reparou em nós. O pior era que, para todo

aquele dia, a nossa provisão de água consistia apenas numa garrafa.

Não admira que, ao escurecer, entre debates e pausas de silêncio, mal

pudéssemos dominar os nervos. Queríamos distanciar-nos, tão depressa

quanto fosse possível, e só a noite parecia-nos espaço demasiado breve, para

avançar com a presteza desejada. Devíamos chegar, pelo caminho mais curto

ao Tibete, através do Himalaia; fosse como fosse, iam ser semanas de

marchas esfalfantes, até podermos julgar-nos em segurança.

Ainda assim... galgamos a primeira encosta já na noite seguinte à nossa

evasão. No alto, sentamo-nos, para um breve descanso. Mil metros abaixo,

faiscavam as muitas luzes do acampamento. Às 22 horas, apagaram-se de

golpe. Só os projetores, enquadrando o campo, davam uma idéia da sua

enorme extensão.

Era, na minha vida, a primeira vez que eu sentia em toda a plenitude o

que significa ser livre! Saboreávamos com deleite essa consciência,

pensando com pesar nos dois mil prisioneiros que tinham de viver lá abaixo,

atrás do arame farpado.

Muito tempo vaguearam os nossos pensamentos; mas ali nada havia a

fazer. Tínhamos de continuar, de descer ao vale do Djemna, uma região

completamente desconhecida. Num dos vales laterais, não nos foi possível

ultrapassar um desfiladeiro estreito e não houve remédio senão aguardar a

manhã seguinte. O sítio era tão deserto, que aproveitei a pausa, para tingir de

preto os meus cabelos ruivos e os pêlos da minha barba. Também passei no

rosto e nas mãos uma combinação de permanganato de cálcio, graxa e tinta

preta, para adquirir um tom escuro. Assumi assim certo jeito de hindu; e isto

era importante, porque em caso de sermos descobertos, tencionávamos

impingir-nos por peregrinos a caminho das águas sagradas do Ganges.

Quanto ao meu camarada, a natureza já o fizera suficientemente moreno para

iludir, principalmente de longe. E está visto que não deveríamos deixar-nos

examinar de perto.

Dessa vez, pusemo-nos a caminho, antes do escurecer. Não tardou muito

que nos arrependêssemos da nossa resolução: após breve caminhada num

terreno escabroso, vimo-nos de improviso diante dum grupo de plantadores

de arroz. Patinhando, seminus, na água lodosa que lhes chegava aos joelhos,

os camponeses miraram os dois brancos dobrados sob o peso das mochilas.

Depois, apontaram no alto da encosta o que devia ser o seu povoado, como

para dizer que era a única saída do desfiladeiro. Para evitar perguntas

embaraçosas, marchamos imediatamente, com a máxima presteza, na direção

indicada e, ao termo de horas de subidas e descidas, chegamos enfim ao Rio

Djemna.

Entretanto, anoitecera. O nosso plano consistia em ir pela margem do

Djemna até ao seu afluente Aglar e, costeando este rio, alcançar o divisor das

águas. Dali não devia distar muito o Ganges, que nos conduziria à grande

cadeia do Himalaia.

Na maior parte do caminho, que deixáramos para trás, não havia à

margem do rio nem atalhos nem estradas; só ocasionalmente utilizávamos

alguma vereda de pescador. Já de manhã, Marchese estava exausto. Preparei-

lhe flocos de aveia, com água e açúcar e, cedendo à minha insistência, ele se

alimentou um pouco. Infelizmente, o local não se prestava para acampar,

infestado como era de formigas enormes que nos picavam profundamente a

pele. E, como apesar do cansaço não conseguimos dormir, o dia pareceu-nos

eterno.

No fim da tarde, o meu camarada parecia mais animado e eu criei nova

esperança de que a, sua compleição robusta o ajudasse a refazer-se. Ele

também mostrava-se mais confiante; resistiria, sem dúvida, às fadigas das

próximas horas. Mas, pela meia-noite, faltaram-lhe completamente as forças.

Marchese sucumbia simplesmente ao enorme esforço físico. Muito nos valeu

então o meu rigoroso treino esportivo; de fato, mais duma vez tive de

carregar a mochila do meu companheiro, afivelada à minha, as duas metidas

nos sacos de juta, usados pelos hindus, porque as mochilas eram européias

como nós e poderiam despertar suspeitas.

Nas duas noites seguintes continuamos, vagueando rio acima, vadeando

o Aglar sempre que matagais ou rochedos bloqueassem o caminho. Uma

vez, quando nos arrastávamos entre grandes pedras, no leito do rio, passaram

por nós alguns pescadores, sem notar a nossa presença. Noutra ocasião,

topando com outros pescadores, sem os poder evitar, pedimos no nosso

arrevesado hindustani algumas trutas. As nossas roupas ainda deviam estar

em bom estado, porque os homens nos venderam os peixes, sem

desconfiança; e até os cozinharam para nós. Também nos foi possível

responder às perguntas curiosas do grupo, sem provocar suspeitas. Os nossos

pescadores fumavam os pequenos cigarros indianos, mal tolerados pelos

europeus. Marchese que, antes da fuga, era grande fumante, não resistiu à

tentação e quis experimentar um. Puxou algumas baforadas e, sem mais, caiu

como um toco, desacordado.

Felizmente, logo voltou a si e pudemos continuar a marcha. Mais tarde,

encontramos uns campônios que levavam manteiga à cidade. Como já íamos

perdendo o receio, pedimos que nos vendessem um pouco da sua

mercadoria. Um deles concordou. Mas, quando vimos o hindu passar com as

mãos escuras e sujas, do seu pote para o nosso, a manteiga meio derretida

pelo calor, quase vomitamos de nojo.

Afinal, o vale alargou-se e o caminho continuou entre campos de milho e

arrozais. Ainda era difícil encontrar um bom esconderijo para o dia. Certa

vez descobriram-nos logo de manhã; e como as perguntas dos campônios

ameaçavam tornar-se demasiado indiscretas, pareceu-nos que a resposta

melhor era afivelar os nossos sacos e seguir viagem.

Não arranjáramos ainda outro refúgio, quando topamos com oito

indivíduos que, em altos brados, nos intimaram a parar. Era de crer que a

sorte nos desamparava de vez! Às muitas inquirições do grupo, replicamos,

como sempre, que éramos peregrinos duma província distante. Tivemos a

surpresa de ver que nos saíamos bem da "prova", porque os hindus nos

deixaram em paz. Mal podíamos acreditar; e por muito tempo, julgamos

ouvir atrás de nós, o tropel dos nossos perseguidores...

Fora também idéia a de "retocar" no último esconderijo as minhas cores!

Contudo, esse dia era mesmo aziago e os aborrecimentos pareciam não ter

fim. O último deles foi a verificação de que tínhamos atravessado de fato um

divisor de águas, mas continuávamos na bacia do Djemna, o que equivalia a

um atraso de pelo menos dois dias.

Continuamos, encosta acima. Chegando a uma cerrada floresta de

rododendros, o sítio nos pareceu tão deserto, que já contávamos com um dia

sossegado. Afinal, íamos dormir um bom sono!... Pouco depois, começaram

a aparecer vaqueiros, e tivemos de mudar de acampamento. Era uma vez o

nosso bom sono...

Nas noites seguintes, atravessamos de novo territórios relativamente

pouco povoados. Em breve, infelizmente, soubemos porque: não havia ali, a

bem dizer, um fio d'água! A sede nos torturava, a ponto de me induzir a um

erro que poderia ter graves conseqüências. Avistando no caminho o que me

pareceu uma poça d'água, precipitei-me e comecei a beber sofregamente.

As conseqüências foram horrorosas. Era o charco onde os búfalos arnis

se refugiam nas horas quentes; e a poça não era d'água, era de urina! Tive

um acesso de tosse e quase deitei os bofes pela boca fora. Custou-me

deveras refazer-me desse "refresco" asqueroso.

Pouco depois desse acidente, a sede obrigou-nos a interromper a marcha,

embora ainda fosse noite fechada. Ao amanhecer, aventurei-me pelos

declives íngremes em busca de água. Nos três dias e noites seguintes, a nossa

situação não melhorou muito. Atravessávamos pinheirais secos, felizmente

desertos, tanto que era muito raro topar com um hindu e correr o risco de

sermos apanhados.

Chegou enfim, no duodécimo dia após a nossa evasão, o grande

momento: estávamos à margem do Ganges! O hindu mais devoto não se

sentiria mais impressionado do que nós, à vista do "rio sagrado", se bem que

para nós a importância do grande curso d'água não fosse propriamente

religiosa, mas prática. A partir dali, poderíamos seguir a estrada dos

peregrinos, subir o Ganges até à nascente; e as fadigas da marcha

diminuiriam, em medida considerável. Era, pelo menos o que pensávamos...

Já que chegáramos tão longe, decidimos não nos expor mais a um risco que

não era absolutamente inevitável: marcharíamos só de noite.

As nossas provisões de boca estavam uma miséria, os mantimentos já

desfalcados, o pobre Marchese reduzido a pele e ossos. Ainda assim, fazia

pelo melhor. Quanto a mim, felizmente, ainda conservava certa reserva de

energias.

Todas as nossas esperanças concentravam-se nas casas de chá e de

gêneros alimentícios, espalhadas em todo o percurso das peregrinações.

Algumas delas ficavam abertas até tarde, assinaladas por um candeeiro de

claridade opaca. Retoquei a minha maquilagem hindu e dirigi-me para uma

delas... Mal entrei no armazém, correram-me a palavrões. Tomaram-me, sem

dúvida por um ladrão. Por mais desagradável que fosse, o incidente teve o

seu lado bom, para ocasiões futuras: certificou-me de que a minha

caracterização era autêntica. Entrei noutra dessas casas de pasto primitivas,

exibindo na mão todo o meu dinheiro, o que, aparentemente, causou boa

impressão. Expliquei que estava fazendo compras para dez pessoas e assim

consegui, sem provocar estranheza, quarenta libras de farinha, açúcar bruto e

cebolas.

A gente do armazém cuidava mais de examinar as cédulas do que a

minha pessoa, de modo que, pouco depois, pude sair, carregado de

embrulhos. Passamos então um dia feliz; tínhamos enfim comida suficiente e

a estrada dos peregrinos, depois do caminho que deixáramos para trás,

parecia-nos um esplêndido passeio.

Mas a alegria não duraria muito. Já na parada seguinte, perturbou-nos

um magote de gente que estava à procura de lenha. Atormentado pelo calor,

Marchese andava quase nu; emagrecera tanto, que se lhe podiam contar as

costelas. Causava de fato a impressão de pessoa muito doente.

Apesar de tudo, éramos suspeitos, porque não pernoitávamos nas

estalagens habituais dos peregrinos. Os nativos nos convidavam a

acompanhá-los às suas aldeias. Nós nos esquivávamos, pretextando o mau

estado de saúde do meu companheiro.

Os hindus afastaram-se... Mas desgraçadamente voltaram. E, dessa vez,

não havia dúvida, de que nos consideravam foragidos. Tentaram até

extorquir-nos confissões. Falaram-nos dum inglês que andava com oito

soldados, atrás de dois fugitivos e lhes prometera boa recompensa por

qualquer notícia que lhe levassem a respeito deles. Se nós lhes déssemos

dinheiro, eles se calariam... Eu fiquei firme; insisti em que era médico em

Cachemira; como prova, mostrei a minha farmácia portátil.

Fossem os gemidos, infelizmente sinceros, de Marchese, fosse a farsa

que eu lhes representara, os hindus deram-se por satisfeitos e sumiram.

Passamos as próximas horas, receando continuamente que eles voltassem,

possivelmente acompanhados dalguma personagem oficial. Mas ninguém

nos incomodou.

Em tais condições, em vez de serem um descanso, os dias eram mais

fatigantes do que as noites. Não para os músculos, mas para os nervos

mantidos em tensão ininterrupta. De ordinário, ao meio-dia a nossa provisão

de água estava esgotada; o resto do dia parecia interminável. Ao escurecer,

Marchese punha-se heroicamente em marcha. Até à meia-noite, por muito

que ele se ressentisse da perda de peso, tudo ia bem. Depois, porém, o meu

companheiro precisava de umas duas horas de sono, para continuar. Ao

alvorecer, acampávamos e, em geral, do nosso esconderijo dominávamos a

grande estrada dos peregrinos, por onde transitavam, sem interrupção as

caravanas de devotos — muitas vezes em trajes extravagantes — sem

necessidade de se esconderem. Felizardos!... Todos os anos, durante os

meses de verão, passam por essa estrada cerca de 60.000 romeiros. Nós o

ouvíramos dizer no acampamento; já não nos custava acreditar.

FADIGAS, PROVAÇÕES... TUDO EM VÃO

Depois de muito andar, pela noite alcançamos Uttar Kashi, a cidade-

templo, em cujas vielas estreitas perdemos em breve a orientação. Marchese

sentou-se, portanto, com as mochilas, num canto escuro; eu, por minha