Singular Ocorrência por Machado de Assis - Versão HTML

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Singular Ocorrência, de Machado de Assis

Fonte:

ASSIS, Machado de. Volume de contos. Rio de Janeiro : Garnier, 1884.

Texto proveniente de:

A Biblioteca Virtual do Estudante Brasileiro <http://www.bibvirt.futuro.usp.br>

A Escola do Futuro da Universidade de São Paulo

Permitido o uso apenas para fins educacionais.

Texto-base digitalizado por:

Edição eletrônica produzida pela Costa Flosi Ltda.

Revisão: Sandra Flosi/Edição: Edson Costa Flosi e Nancy Costa

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SINGULAR OCORRÊNCIA

— Há ocorrências bem singulares. Está vendo aquela dama que vai entrando na

igreja da Cruz? Parou agora no adro para dar uma esmola.

— De preto?

— Justamente; lá vai entrando; entrou.

— Não ponha mais na carta. Esse olhar está dizendo que a dama é uma sua

recordação de outro tempo, e não há de ser de muito tempo, a julgar pelo corpo: é moça de

truz.

— Deve ter quarenta e seis anos.

— Ah! conservada. Vamos lá; deixe de olhar para o chão, e conte-me tudo. Está

viúva, naturalmente?

— Não.

— Bem; o marido ainda vive. É velho?

— Não é casada.

— Solteira?

— Assim, assim. Deve chamar-se hoje D. Maria de tal. Em 1860 florescia com o

nome familiar de Marocas. Não era costureira, nem proprietária, nem mestra de meninas;

vá excluindo as profissões e lá chegará. Morava na rua do Sacramento. Já então era esbelta,

e, seguramente, mais linda do que hoje; modos sérios, linguagem limpa. Na rua, com o

vestido afogado, escorrido, sem espavento, arrastava a muitos, ainda assim.

— Por exemplo, ao senhor.

— Não, mas ao Andrade, um amigo meu, de vinte e seis anos, meio advogado, meio

político, nascido nas Alagoas, e casado na Bahia, donde viera em 1859. Era bonita a mulher

dele, afetuosa, meiga e resignada; quando os conheci, tinham uma filhinha de dois anos.

— Apesar disso, a Marocas...?

— É verdade, dominou-o. Olhe, se não tem pressa, conto-lhe uma coisa

interessante.

— Diga.

— A primeira vez que ele a encontrou, foi à porta da loja Paula Brito, no Rocio.

Estava ali, viu a distância uma mulher bonita, e esperou, já alvoroçado, porque ele tinha em

alto grau a paixão das mulheres. Marocas vinha andando, parando e olhando como quem

procura alguma casa. Defronte da loja deteve-se um instante; depois, envergonhada e a

medo, estendeu um pedacinho de papel ao Andrade, e perguntou-lhe onde ficava o número

ali escrito. Andrade disse-lhe que do outro lado do Rocio, e ensinou-lhe a altura provável

da casa. Ela cortejou com muita graça; ele ficou sem saber o que pensasse da pergunta.

— Como eu estou.

— Nada mais simples: Marocas não sabia ler. Ele não chegou a suspeitá-lo. Viu-a

atravessar o Rocio, que ainda não tinha estátua nem jardim, e ir à casa que buscava, ainda

assim perguntando em outras. De noite foi ao Ginásio; dava-se a Dama das Camélias;

Marocas estava lá, e, no último ato, chorou como uma criança. Não lhe digo nada; no fim

de quinze dias amavam-se loucamente. Marocas despediu todos os seus namorados, e creio

que não perdeu pouco; tinha alguns capitalistas bem bons. Ficou só, sozinha, vivendo para

o Andrade, não querendo outra afeição, não cogitando de nenhum outro interesse.

— Como a dama das Camélias.

— Justo. Andrade ensinou-lhe a ler. Estou mestre-escola, disse-me ele um dia; e foi

então que me contou a anedota do Rocio. Marocas aprendeu depressa. Compreende-se; o

vexame de não saber, o desejo de conhecer os romances em que ele lhe falava, e finalmente

o gosto de obedecer a um desejo dele, de lhe ser agradável... Não me encobriu nada;

contou-me tudo com um riso de gratidão nos olhos, que o senhor não imagina. Eu tinha a

confiança de ambos. Jantávamos às vezes os três juntos; e... não sei por que negá-lo, —

algumas vezes os quatro. Não cuide que eram jantares de gente pândega; alegres, mas

honestos. Marocas gostava da linguagem afogada, como os vestidos. Pouco a pouco

estabeleceu-se intimidade entre nós; ela interrogava-me acerca da vida do Andrade, da

mulher, da filha, dos hábitos dele, se gostava deveras dela, ou se era um capricho, se tivera

outros, se era capaz de a esquecer, uma chuva de perguntas, e um receio de o perder, que

mostravam a força e a sinceridade da afeição... Um dia, uma festa de São João, o Andrade

acompanhou a família à Gávea, onde ia assistir a um jantar e um baile; dois dias de

ausência. Eu fui com eles. Marocas, ao despedir-se, recordou a comédia que ouvira

algumas semanas antes no Ginásio — Janto com minha mãe — e disse-me que, não tendo

família para passar a festa de São João, ia fazer como a Sofia Arnoult da comédia, ia jantar

com um retrato; mas não seria o da mãe, porque não tinha, e sim do Andrade. Este dito ia-

lhe rendendo um beijo; o Andrade chegou a inclinar-se; ela, porém, vendo que eu estava ali,

afastou-o delicadamente com a mão.

— Gosto desse gesto.

— Ele não gostou menos. Pegou-lhe na cabeça com ambas as mãos, e,

paternalmente, pingou-lhe o beijo na testa. Seguimos para a Gávea. De caminho disse-me a

respeito da Marocas as maiores finezas, contou-me as últimas frioleiras de ambos, falou-me

do projeto a que tinha de comprar-lhe uma casa em algum arrabalde, logo que pudesse

dispor de dinheiro; e, de passagem, elogiou a modéstia da moça, que não queria receber

dele mais do que o estritamente necessário. Há mais do que isso, disse-lhe eu; e contei-lhe

uma coisa que sabia, isto é, que cerca de três semanas antes, a Marocas empenhara algumas

jóias para pagar uma conta da costureira. Esta notícia abalou-o muito; não juro, mas creio

que ficou com os olhos molhados. Em todo o caso, depois de cogitar algum tempo, disse-

me que definitivamente ia arranjar-lhe uma casa e pô-la ao abrigo da miséria. Na Gávea

ainda falamos da Marocas, até que as festas acabaram, e nós voltamos. O Andrade deixou a

família em casa, na Lapa, e foi ao escritório aviar alguns papéis urgentes. Pouco depois do

meio-dia apareceu-lhe um tal Leandro, ex-agente de certo advogado a pedir-lhe, como de

costume, dois ou três mil-réis. Era um sujeito reles e vadio. Vivia a explorar os amigos do

antigo patrão. Andrade deu-lhe três mil-réis, e, como o visse excepcionalmente risonho,

perguntou-lhe se tinha visto passarinho verde. O Leandro piscou os olhos e lambeu os

beiços: o Andrade, que dava o cavaco por anedotas eróticas, perguntou-lhe se eram amores.

Ele mastigou um pouco, e confessou que sim.

— Olhe; lá vem ela saindo: não é ela?

— Ela mesma; afastemo-nos da esquina.

— Realmente, deve ter sido muito bonita. Tem um ar de duquesa.

— Não olhou para cá; não olha nunca para os lados. Vai subir pela rua do Ouvidor...

— Sim, senhor. Compreendo o Andrade.

— Vamos ao caso. O Leandro confessou que tivera na véspera uma fortuna rara, ou

antes única, uma coisa que ele nunca esperara achar, nem merecia mesmo, porque se

conhecia e não passava de um pobre diabo. Mas enfim, os pobres também são filhos de

Deus. Foi o caso que, na véspera, perto das dez horas da noite, encontrara no Rocio uma

dama vestida com simplicidade, vistosa de corpo, e muito embrulhada num xale grande. A

dama vinha atrás dele, e mais depressa; ao passar rentezinha com ele, fitou-lhe muito os

olhos, e foi andando devagar, como quem espera. O pobre diabo imaginou que era engano

de pessoa; confessou ao Andrade que, apesar da roupa simples, viu logo que não era coisa

para os seus beiços. Foi andando; a mulher, parada, fitou-o outra vez, mas com tal

instância, que ele chegou atrever-se um pouco; ela atreveu-se o resto... Ah! um anjo! E que

casa, que sala rica! Coisa papafina. E depois o desinteresse... "Olhe, acrescentou ele, para

Vossa Senhoria é que era um bom arranjo." Andrade abanou a cabeça; não lhe cheirava o

comborço. Mas o Leandro teimou; era na rua do Sacramento, número tantos...

— Não me diga isso!

— Imagine como não ficou o Andrade. Ele mesmo não soube o que fez nem o que

disse durante os primeiros minutos, nem o que pensou nem o que sentiu. Afinal teve força

para perguntar se era verdade o que estava contando; mas o outro advertiu que não tinha

nenhuma necessidade de inventar semelhante coisa; vendo, porém, o alvoroço do Andrade,

pediu-lhe segredo, dizendo que ele, pela sua parte, era discreto. Parece que ia sair; Andrade

deteve-o e propôs-lhe um negócio; propôs-lhe ganhar vinte mil-réis. — "Pronto!" — "Dou-

lhe vinte mil-réis, se você for comigo à casa dessa moça e disser em presença dela que é ela

mesma."

— Oh!

— Não defendo o Andrade; a coisa não era bonita; mas a paixão, nesse caso, cega

os melhores homens. Andrade era digno, generoso, sincero; mas o golpe fora tão profundo,

e ele amava-a tanto que não recuou diante de uma tal vingança.

— O outro aceitou?

— Hesitou um pouco, estou que por medo, não por dignidade; mas vinte mil-réis...

Pôs uma condição: não metê-lo em barulhos... Marocas estava na sala, quando o Andrade

entrou. Caminhou para a porta, na intenção de o abraçar; mas o Andrade advertiu-a, com o

gesto, que trazia alguém. Depois, fitando-a muito, fez entrar o Leandro; Marocas

empalideceu. — "É esta senhora?" perguntou ele. — "Sim, senhor", murmurou o Leandro

com voz sumida, porque há ações ainda mais ignóbeis do que o próprio homem que as

comete. Andrade abriu a carteira com grande afetação, tirou uma nota de vinte mil-réis e

deu-lha; e, com a mesma afetação, ordenou-lhe que se retirasse. O Leandro saiu. A cena

que se seguiu, foi breve, mas dramática. Não a soube inteiramente, porque o próprio

Andrade é que me contou tudo, e, naturalmente, estava tão atordoado, que muita coisa lhe

escapou. Ela não confessou nada; mas estava fora de si, e, quando ele, depois de lhe dizer

as coisas mais duras do mundo, atirou-se para a porta, ela rojou-se-lhe aos pés, agarrou-lhe

as mãos, lacrimosa, desesperada, ameaçando matar-se; e ficou atirada ao chão, no patamar

da escada; ele desceu vertiginosamente e saiu.

— Na verdade, um sujeito reles, apanhado na rua; provavelmente eram hábitos

dela?

— Não.

— Não?

— Ouça o resto. De noite seriam oito horas, o Andrade veio à minha casa, e esperou

por mim. Já me tinha procurado três vezes. Fiquei estupefato; mas como duvidar, se ele

tivera a precaução de levar a prova até à evidência? Não lhe conto o que ouvi, os planos de

vingança, as exclamações, os nomes que lhe chamou, todo o estilo e todo o repertório

dessas crises. Meu conselho foi que a deixasse; que, afinal, vivesse para a mulher e a filha,

a mulher tão boa, tão meiga... Ele concordava, mas tornava ao furor. Do furor passou à

dúvida; chegou a imaginar que a Marocas, com o fim de o experimentar, inventara o

artifício e pagara ao Leandro para vir dizer-lhe aquilo; e a prova é que o Leandro, não

querendo ele saber quem era, teimou e lhe disse a casa e o número. E agarrado a esta

inverossimilhança, tentava fugir à realidade; mas a realidade vinha — a palidez de

Marocas, a alegria sincera do Leandro, tudo o que lhe dizia que a aventura era certa. Creio

até que ele arrependia-se de ter ido tão longe. Quanto a mim, cogitava na aventura, sem

atinar com a explicação. Tão modesta! maneiras tão acanhadas!

— Há uma frase de teatro que pode explicar a aventura, uma frase de Augier, creio

eu: "a nostalgia da lama".

— Acho que não; mas vá ouvindo. Às dez horas apareceu-nos em casa uma criada

de Marocas, uma preta forra, muito amiga da ama. Andava aflita em procura do Andrade,

porque a Marocas, depois de chorar muito, trancada no quarto, saiu de casa sem jantar, e

não voltara mais. Contive o Andrade, cujo primeiro gesto foi para sair logo. A preta pedia-

nos por tudo que fôssemos descobrir a ama. "Não é costume dela sair?" perguntou o

Andrade com sarcasmo. Mas a preta disse que não era costume. "Está ouvindo?" bradou ele

para mim. Era a esperança que de novo empolgara o coração do pobre diabo. "E ontem?..."

disse eu. A preta respondeu que na véspera sim; mas não lhe perguntei mais nada, tive

compaixão do Andrade, cuja aflição crescia, e cujo pundonor ia cedendo diante do perigo.

Saímos em busca da Marocas; fomos a todas as casas em que era possível encontrá-la;

fomos à polícia; mas a noite passou-se sem outro resultado. De manhã voltamos à polícia.

O chefe ou um dos delegados, não me lembra, era amigo do Andrade, que lhe contou da

aventura a parte conveniente; aliás a ligação do Andrade e da Marocas era conhecida de

todos os seus amigos. Pesquisou-se tudo; nenhum desastre se dera durante a noite; as barcas

da praia Grande não viram cair ao mar nenhum passageiro; as casas de armas não venderam

nenhuma; as boticas nenhum veneno. A polícia pôs em campo todos os seus recursos, e

nada. Não lhe digo o estado de aflição em que o pobre Andrade viveu durante essas longas

horas, porque todo o dia se passou em pesquisas inúteis. Não era só a dor de a perder; era

também o remorso, a dúvida, ao menos, da consciência, em presença de um possível

desastre, que parecia justificar a moça. Ele perguntava-me, a cada passo, se não era natural

fazer o que fez, no delírio da indignação, se eu não faria a mesma coisa. Mas depois tornava

a afirmar a aventura, e provava-me que era verdadeira, com o mesmo ardor com que na

véspera tentara provar que era falsa; o que ele queria era acomodar a realidade ao

sentimento da ocasião.

— Mas, enfim, descobriram a Marocas?

— Estávamos comendo alguma coisa, em um hotel, eram perto de oito horas,

quando recebemos notícia de um vestígio: — um cocheiro que levara na véspera uma

senhora para o Jardim Botânico, onde ela entrou em uma hospedaria, e ficou. Nem

acabamos o jantar; fomos no mesmo carro ao Jardim Botânico. O dono da hospedaria

confirmou a versão; acrescentando que a pessoa se recolhera a um quarto, não comera nada

desde que chegou na véspera; apenas pediu uma xícara de café; parecia profundamente

abatida. Encaminhamo-nos para o quarto; o dono da hospedaria bateu à porta; ela

respondeu com voz fraca, e abriu. O Andrade nem me deu tempo de preparar nada;

empurrou-me, e caíram nos braços um do outro. Marocas chorou muito e perdeu os

sentidos.

— Tudo se explicou?

— Coisa nenhuma. Nenhum deles tornou ao assunto; livres de um naufrágio, não

quiseram saber nada da tempestade que os meteu a pique. A reconciliação fez-se depressa.

O Andrade comprou-lhe, meses depois, uma casinha em Catumbi; a Marocas deu-lhe um

filho, que morreu de dois anos. Quando ele seguiu para o norte, em comissão do governo, a

afeição era ainda a mesma, posto que os primeiros ardores não tivessem já a mesma

intensidade. Não obstante, ela quis ir também; fui eu que a obriguei a ficar. O Andrade

contava tornar ao fim de pouco tempo, mas, como lhe disse, morreu na província. A

Marocas sentiu profundamente a morte, pôs luto, e considerou-se viúva; sei que nos três

primeiros anos, ouvia sempre uma missa no dia do aniversário. Há dez anos perdi-a de

vista. Que lhe parece tudo isto?

— Realmente, há ocorrências bem singulares, se o senhor não abusou da minha

ingenuidade de rapaz para imaginar um romance...

— Não inventei nada; é a realidade pura.

— Pois, senhor, é curioso. No meio de uma paixão tão ardente, tão sincera... Eu

ainda estou na minha; acho que foi a nostalgia da lama.

— Não: nunca a Marocas descera até aos Leandros.

— Então por que desceria naquela noite?

— Era um homem que ela supunha separado, por um abismo, de todas as suas

relações pessoais; daí a confiança. Mas o acaso, que é um deus e um diabo ao mesmo

tempo... Enfim, coisas!

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