Sobre o Crátilo de Platão por Alberto Moniz da Rocha Barros Neto - Versão HTML

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UNIVERSIDADE DE SÃO PAULO

FACULDADE DE FILOSOFIA, LETRAS E CIÊNCIAS HUMANAS

DEPARTAMENTO DE FILOSOFIA

PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM FILOSOFIA

Alberto Moniz da Rocha Barros Neto

Sobre o Crátilo de Platão

São Paulo

2011

Alberto Moniz da Rocha Barros Neto

Sobre o Crátilo de Platão

Tese apresentada ao programa de Pós-

Graduação em Filosofia do

Departamento de Filosofia da Faculdade

de Filosofia, Letras e Ciências Humanas

da Universidade de São Paulo, para

obtenção do título de Doutor em

Filosofia sob a orientação do Prof. Dr.

Marco Zingano.

São Paulo

2011

Agradecimentos

Agradeço ao professor Marco Zingano pela orientação e pela amizade.

Um agradecimento especial também é devido ao Professor José Arthur Giannotti (USP) e aos professores John M. Cooper e Bem Morisson (meus orientadores na

Universidade de Princeton).

Na USP também gostaria de agradecer aos professores Daniel Rossi, Luiz

Henrique Lopes dos Santos, Moacyr Noaves, Oswaldo Porchat e Roberto Bolzani Filho com quem tive oportunidades de discutir esta tese.

Em Princeton gostaria de agradecer aos professores Alexander Nehamas,

Andrew Ford, Christian Wildberg e Hendrick Lorenz pelos mesmos motivos acima.

Também aprendi muito e tive o apoio afetivo dos meus amigos e colegas do

Grupo Temático de Filosofia Antiga, coordenado pelo professor Zingano, com especial destaque ao Eduardo Wolf, Paulo Ferreira e Vitor Schvartz.

Em Princeton pude contar com um grupo análogo a esse enquanto freqüentei o

Classical Philosophy Program. Um agradecimento especial é devido aos amigos do

Greek Room”.

Essa tese não teria sido possível sem o apoio irrestrito da minha família

(Elizabeth, Elias, Maria Fernanda e João) e de inúmeros amigos íntimos.

Por fim, agradeço a FAPESP pelo financiamento da pesquisa e a CAPES por ter

me concedido apoio para um estágio doutoral de um ano na Universidade de Princeton, EUA.

Resumo

BARROS NETO, Alberto Moniz da. Sobre o ‘Crátilo’ de Platão. 2011 – 108 f. Tese de Doutoramento – Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas. Departamento de Filosofia, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2011.

A pesquisa propõe uma leitura do Crátilo de Platão. O interesse central está na estrutura argumentativa do diálogo com ênfase nas teses do naturalismo e

convencionalismo lingüístico. O trabalho busca demonstrar que Platão concede vitória a um convencionalismo moderado.

Palavras-chave: Platão - Crátilo – Nomes – Linguagem

Abstract

BARROS NETO, Alberto Moniz da. On Plato’s ‘Cratylus’. 2011 – 108 p. Doctoral Dissertation

– Philosophy Department at the University of São Paulo, Brazil, Filosofia, Letras e Ciências Humanas, 2011

The dissertation at hand offers a reading of Plato’s Cratylus with emphasis on its argumentative structure, particularly with what pertains to the doctrines of linguistic naturalism and linguistic conventionalism. The research strives to show that Plato credits victory to a moderate version of conventionalism.

Key-words: Plato – Cratylus – Names – Language.

Índice

Introdução……………………………………………………………………………

p. 6

Sobre o Crátilo de Platão............................................................................................

p.17

Bibliografia..................................................................................................................

p.60

Apêndices:

Apêndice I: Estrutura Argumentativa do Crátilo........................................................

p.64

Apêndice II: Estrutura Temática do Crátilo................................................................

p.67

Apêndice III: Bibliografia Comentada.......................................................................

p.68

7

Introdução:

O Crátilo de Platão é um dos textos mais antigos da tradição filosófica ocidental a explorar a racionalidade por trás da nomeação. O texto questiona se os nomes em circulação são apropriados para designar aquilo que eles designam e, indiretamente, quais seriam os procedimentos a serem seguidos para nomear o que quer que seja. A pergunta geral que ronda o Crátilo é: A que título n (onde n representa um item qualquer) leva o nome “N”? O Crátilo examina duas hipóteses que podem conduzir a uma justificação.

A primeira dessas hipóteses é a mais longeva e intuitiva delas: é a hipótese de que a relação entre o nome e o nomeado é fundamentalmente arbitrária, fruto da convenção humana1. A justificação nesse caso assume a forma: “N”é o nome correto de n quando a correlação “N”: n for aquela estabelecida por uma determinada comunidade lingüística. Ou seja, dado que a linguagem como um todo é um sistema de regras convencionais, as regras de nomeação são também convencionais e seguem os padrões do sistema (nome correto é aquele em acordo com os padrões do sistema). Ocorre que essa hipótese apresenta alguns problemas, sendo o mais interessante o problema da origem da linguagem. Em paralelo com a indagação pelo instante do contrato social, a pergunta pela origem contratual da linguagem nos leva a uma cena primitiva que não é nitidamente identificável no tempo e no espaço e cuja justificação geral é um tanto tênue (pesando os prós e os contras falar é mais vantajoso do que não falar, mas isso não explica a adoção do sistema de regras x ao invés do sistema de regras y). Ainda mais misterioso do que a cena original do contrato social (onde se passa de um estado apolítico a um estado político), a cena do pacto original da linguagem pressupõe uma coletividade de não-falantes que subitamente decidem falar. Em suma, a tese convencionalista da nomeação (é esse o rótulo adotado na literatura secundária contemporânea sobre o Crátilo) mantém sem resolução as seguintes indagações: 1 A tese de que a relação entre o signo lingüístico e seu significado é convencional já está estabelecida desde Aristóteles ( De Interpretatione 16a20-21) e é um dos princípios gerais da Lingüística moderna: cf. Saussure (1916), Primeira Parte, Capítulo 1, parágrafo 2. Tipicamente a pluralidade das línguas naturais e a mutabilidade da relação signo/significado são apontados como os indícios gritantes da arbitrariedade da relação nome/nomeado. É por essas razões que chamo essa hipótese de “intuitiva”.

8

1. Dizer que o laço que liga o nome ao nomeado é fundamentalmente

arbitrário é diferente de dizer que ele é absolutamente arbitrário. Por que alguns nomes são adotados ao invés de outros?

2. O que faz com que as nomeações tenham certa fixidez e permanência?

Que tipo de autoridade impera sobre a nomeação?

3. Quem deu os nomes às coisas? Como e quando?

A segunda hipótese examinada no Crátilo para assegurar que um nome possa ser considerado justo, genuíno, ou apropriado para designar aquilo que ele designa (no jargão do diálogo, para que a atribuição de “N” a n seja considerada uma atribuição correta), é aquela que pressupõe que o nome seja uma espécie de espelho do nomeado; ou seja, pressupõe que deve haver um laço íntimo ou, na formulação agora clássica de Bernard Williams, deve haver uma relação complexa2 que una o signo lingüístico àquilo que ele nomeia - não é qualquer seqüência de marcas gráficas ou articulações sonoras que servem. No Crátilo essa tese é traduzida em duas possibilidades: ou bem o nome de algum modo descreve o nomeado ou bem o nome imita algum aspecto essencial do nomeado (é um mimēma do nomeado). Na medida em que o nome é descritivo, é por ser analisável em termos de uma combinação de outros sinais que descrevem, sugerem ou evocam aspectos relevantes ou essenciais do nomeado. A análise admite graus

diferentes de complexidade e não há necessariamente um resultado único possível.

Assim, o nome “aluno” poderia ser analisado, consistentemente àquilo sugerido no Crátilo, de dois modos:

a. “aluno” = “a” (o alfa privativo grego) + “lumen” (latim para “luz’ ou

“brilho”) => “aluno” ≡ “que não tem brilho” => Logo, o nome “aluno”

contém uma descrição condensada apropriada para designar aquele que

ainda não foi iluminado plenamente pela luz do conhecimento.

2 Bernard Williams (1982), p. 84.

9

b. “aluno” = derivado do latim “alumnus” (“criança lactente”, “discípulo”)

= derivado do verbo “alēre” (“desenvolver”, “nutrir”, “fazer crescer”,

“fortalecer” => “aluno” ≡ “aquele que está em desenvolvimento,

requerendo nutrição” => Logo, o nome “aluno” pode ser analisável numa

segunda descrição condensada (i.e. “aquele que ainda depende de

outros”) que é tão apropriada quanto a primeira para designar um aluno.

Por vezes os nomes são descrições altamente condensadas e as análises exigem interpretações elaboradas. Encontramos no Crátilo decomposições que seguem um padrão análogo ao seguinte:

c. “malevolência” = “aquilo que traz o mal, lesa e voluntariamente engendra violência

Nos exemplos (a)-(c) acima de nomes enquanto descrições condensadas, é

importante notar um princípio geral e um aspecto inusitado da técnica de interpretação ou decodificação dos nomes. O princípio geral é o que poderíamos batizar de princípio da superioridade da descrição profunda com relação à superficialidade material do signo. Isso significa, em primeiro lugar, que nomes podem ser analisados de modos distintos (o nome “aluno” foi decomposto acima em sentidos levemente diferentes: (a) aquele que ainda está no processo de receber a luz do conhecimento; (b) aquele que ainda depende da nutrição dos mais sábios) desde que produzam descrições igualmente válidas ou relevantes: pouco importa qual aspecto saliente do nomeado esteja contido na descrição, basta que seja suficiente para discriminar ( diakrinein) aquele item de outros.

Em segundo lugar, o princípio da superioridade da descrição profunda também implica que as variações das práticas de nomeação através das línguas naturais (o fato que

“aluno” em português e “student” em inglês serem seqüências sonoras bem diferentes) é de pouca monta. O importante é que a captação e condensação de aspectos essências do nomeado esteja preservada, isto é, que os nomes possuam um “valor” ou “poder

[descritivo]” ( dynamis) equivalente. Assim, seguindo um exemplo presente no Crátilo, os nomes “Astíanax” (que significa “senhor da cidade”) e “Hektor” (“Heitor”, isto é,

“aquele que possui”), embora seqüências sonoras distintas e com conteúdos descritivos 10

distintos, são ambas igualmente cabíveis e apropriadas para designar pessoas com um poder especial sobre uma comunidade política.

Também quero chamar a atenção para a técnica de extração dos conteúdos

descritivos dos nomes que é empregada no Crátilo. Os exemplos (a)-(c) são, evidentemente, meus, mas foram cunhados para facilitar a apreciação daquilo que aparece no diálogo. A tendência seria dizer que o tipo de análise utilizada para obter as descrições é de estirpe etimológica. Mas há dois problemas em afirmar isso. Em primeiro lugar, caracterizar a técnica como “etimológica” nos leva a questionar se a etimologia é válida ou não, se, por etimologia, entendermos o esforço moderno de identificar evidências seguras sobre a origem e o desenvolvimento histórico dos nomes.

Do ponto de vista da etimologia moderna, a análise contida em (a) é ingenuamente plausível, mas falsa3 e aquela empregada em (c) é um absurdo completo, enquanto que o exemplo (b) aponta a etimologia fornecida pelos bons dicionários. Em segundo lugar, evidências sugerem que o termo “etimologia”, enquanto rótulo utilizado para referir a uma técnica, é tardio (estóico) e o termo não é mencionado nem uma única vez no Crátilo 4. Com isso quero apenas afastar de início uma tendência nos estudos modernos do Crátilo de focar excessiva atenção na validade das suas análises etimológicas5. A prática de lançar mão de etimologias imaginativas ou conotativas (não históricas) é antiga e transcultural6. Ela sobrevive em textos filosóficos modernos, reconhecidamente em Heidegger, por exemplo7. Para engajar frutiferamente com o diálogo, o leitor do 3 Gostaria de agradecer ao amigo Eduardo Wolf por me sugerir esse exemplo clássico de uma

“falsa etimologia”.

4 O testemunho mais antigo do termo “etimologia” vem do título de um trabalho de Crisipo ( c.

280-207 a.C.), preservado num testemunho de Diógenes Laércio ( Vidas Ilustres, VII, 200). Para uma apreciação do lugar das análises etimológicas no pensamento estóico, ver James Allen (2005).

5 David Sedley (1998), pp. 140-141.

6 Discussões sobre a “correção dos nomes”, sobre a relação entre os signos da linguagem e as coisas por eles designadas, bem como o uso de métodos “etimológicos” para acessar o “verdadeiro significado”, a

“história” ou dimensões “místicas” ou “mágicas” das palavras aparecem, desenvolvidas em discursos ricos, em diversas culturas. Cf. : Johannes Bronkhorst, “Etymology and Magic: Yāska’s Nirukta, Plato’s Cratylus and the Riddle of Semantic Etymologies”, Numen, vol. 48, no.2, 2001, pp. 147-203; Gershom Scholem, “Le nome de Dieu ou la théorie du langage dans la Kabale: mystique du langage” in: G.

Scholem, Le nom et les symboles de Dieu dans La mystique juive, Paris: Éditions Du Cerf, 1983, pp. 55-99 ; Chad Hansen, Language and Logic in Ancient China (Michigan Studies on China), Ann Arbor: University of Michigan Press, 1983; Maan Singh, The Upanisadic Etymologies. Nova Deli: Nirmal, 1994.

Exemplos de etimologias semânticas em outras culturas são indicadas na bibliografia de Bronkhorst (2001; ver nota 2, p.148).

7 Sedley (2003), p.29.

11

Crátilo precisa aceitar apenas dois aspectos das análises etimológicas que abundam em suas páginas:

I.

Em primeiro lugar, o leitor precisa aceitar a força retórica das etimologias. Isso é, a quantidade e variedade das etimologias, bem como o engenho necessário para produzir muitas delas, geram um corpo de evidência nada desprezível a favor da tese de que nomes possuem conteúdos descritivos.

II.

Em segundo lugar, o leitor precisa aceitar que, dada a tese de um laço íntimo entre nome e nomeado, é razoável investigar se nomes nada mais são que

descrições condensadas de seus nomeados. O emprego da análise etimológica

nada mais é do que um tipo de decodificação das informações criptografadas nos nomes.

Até este ponto mencionei que o Crátilo examina duas hipótese a respeito da relação entre nome e nomeado. A primeira delas é a tese convencionalista. A segunda hipótese aparece sob duas guisas: nome enquanto descrição condensada e nome

enquanto mimēma (“imitação”). Já apresentei as linhas gerais do que constitui a idéia de um nome com conteúdo descritivo. Agora devemos nos voltar ao nome enquanto imitação. O elemento central aqui é o da sonoridade sugestiva. É importante notar que Platão descarta a semelhança onomatopéica como elemento constitutivo do nome enquanto imitação. O tipo de mimesis presente no nome está em algum lugar entre a imitação musical e a pictórica. Ela é próxima da musical por se expressar mediante sons, mas nem todo item emite algum som característico e, em se tratando de itens que são facilmente reconhecíveis mediante os barulhos a eles tipicamente associados (o canto do galo, por exemplo), não há razão prevalente para preferirmos elementos sonoros a elementos de outra natureza (e.g. formais: a crista do galo é tão típica quanto seu canto, por exemplo). O tipo de mimesis presente no nome é próxima da representação pictórica por dois motivos: (1) por aquilo que vou chamar de seu isomorfismo e (2) pelo que vou chamar de seu aspecto transcriativo. Uma representação pictórica, como Platão a entende no Crátilo, preserva relações comuns àquelas presentes no objeto real: a representação figurativa e o item figurado compartilham aspectos relevantes8. É com base nisso que somos autorizados a falar em um isomorfismo. Por outro lado, tanto a 8 Ver Luiz Henrique Lopes dos Santos (1994), pp. 61-63.

12

representação sonora de algo quanto a representação pictórica se configuram de maneiras materialmente distintas daquilo que elas representam. Caso a representação e o representado fossem idênticos nada mais teríamos do que uma duplicação do real9. No entanto, a idéia do conteúdo descritivo do nome nunca está distante dos interesses de Platão nesse diálogo. Assim, o que o nome e a figuração tem em comum é que ambos são transcriações de um objeto em outro meio (da realidade material ou conceitual, por exemplo, para a diagramação pictórica ou lingüística). E ambos os tipos de

representação (sonora e pictórica) podem ser objetos de novas descrições ou podem se articular significativamente com outras representações. Um exemplo extremo do Crátilo é o seguinte. Algumas consoantes, como as fricativas e as vibrantes, podem, em tese, ser emitidas continuamente e indefinidamente (e.g. o “r”, o “s”, o “l”). Nisso elas compartilham algo em comum com a idéia de uma ontologia em movimento perpétuo: o mundo onde nada está em repouso é sugerido como sendo isomórfico à emissão sonora contínua de letras como o “r” e o “s”, que possuem a mesma dynamys para representar o fluxo incessante.

Um outro (exemplo moderno) do que constitui um nome-imitativo de acordo

com o Crátilo aparece no parágrafo inicial do romance Lolita (1955) do Nabokov:

“Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta.”10

O nome “Lolita” é apropriado pelo valor conotativo do “l”, associada ao sexo (o

“l” está presente no nome “língua” e articula-se mediante o uso – aqui, quase erótico –

da língua, em si um instrumento de prazer sexual), mas também sugestivo da paixão (“luz de minha vida”; “labareda em minha carne”), até mesmo em seus aspectos destrutivos (“minha lama”).

9 Iden. p. 62 e Crátilo, 432b-c.

10 A tradução é do Jorio Dauster que foi publicada pela Biblioteca Folha (de São Paulo). Não há referências à data de publicação.

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Com isso creio ter apresentado as marcas gerais da segunda hipótese sobre a

racionalidade por trás da nomeação: nomes enquanto descrições e nomes enquanto imitações. Essa hipótese recebe um rótulo filosoficamente carregado no Crátilo”: é a tese segundo a qual nomes são por natureza 11. São dois os argumentos centrais contra essa tese levantados no diálogo:

1. O primeiro argumento sugere que a tese convencionalista é capaz de

explicar um número maior de fatos lingüísticos do que a tese naturalista.

Ou seja, mesmo que o naturalismo tenha alguma validade, a “parte do

leão”, por assim dizer, deve ficar para o convencionalismo. E.g. mesmo

que o “l” (ou a seqüência “l-o-l”) em “Lolita” seja altamente sugestivo,

não parece haver nada de relevante na seqüência “i-t-a”; além disso, a

letra “l” está também associada à coisas que nada tem a ver com a paixão

(considerem os nomes “lesma” e “loliginídeo”, que designa a classe das lulas). Em outras palavras é impossível explicar a relação entre nome e

nomeado sem postular a influência de convenções, enquanto que é

perfeitamente viável desenvolver uma hipótese sobre a arbitrariedade do

signo lingüístico sem postular qualquer naturalismo.

2. O segundo argumento é o seguinte: mesmo que o naturalismo seja

apenas parcialmente válido, ele é incapaz de nos dar acesso a insights

proveitosos sobre o real. O naturalismo nos sobrecarrega com

11 O rótulo é “filosoficamente carregado” pela ambigüidade potencial da palavra “natureza”, o que já foi notado por comentadores antigos do Crátilo. Próclo, no In Platonis Cratylvum Commentaria (LVIII, 25.28-26.3) diz que “aquilo que é natural, assim como aquilo que é convencional, é dito de dois modos”. Ele não nos oferece esclarecimentos maiores. Felizmente, encontramos o esclarecimento no comentário ao De Interpretatione feito por Amônio ( In De Interpretatione Commentaria, 34.20-37.13). Em resumo, o que é dito é o seguinte:

“Nomes são por natureza” pode significar:

(1) Que nomes são produtos ( demiourgemata)) de operações naturais, como as sombras e os reflexos.

Ou

(2) Que nomes são apropriados à natureza da coisa nomeada, como as imagens artísticas.

‘’Nomes são por convenção” pode significar:

(I) que qualquer particular pode instituir nomes às coisas ou alterar, ao bel prazer, os nomes das coisas’;

Ou

(II) 0 que nomes são “por convenção” pois são estabelecidos pelos legisladores dos nomes.

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informação e está atravessado por contradições (e.g. o “l” em “labareda”

e o “l” em “lama”). Nisso ele não tem nada a nos oferecer para além do

convencionalismo e a cognição da realidade deve dar pouca atenção aos

nomes.

Eis um resumo do modo como a tese naturalista e convencionalista são

desenvolvidas no Crátilo. A estrutura geral do diálogo é a seguinte 12 . Sócrates é convidado a participar de uma discussão entre Hermógenes e Crátilo. Crátilo sustenta que nomes são por natureza; Hermógenes sustenta uma versão radical da tese de que nomes são por convenção13. A estratégia geral de Sócrates é, a um só tempo, mostrar os limites do convencionalismo radical e reconstruir a tese naturalista em sua roupagem mais elaborada. Em seguida, por meio de uma longa série de exercícios etimológicos, ele busca mostrar a realidade do naturalismo14. Após ter convencido Hermógenes de que a tese naturalista é aceitável, ele “vira o jogo” e, agora tendo Crátilo como interlocutor, aponta os limites da tese de que nomes são por natureza15. Por fim, Sócrates propõe que qualquer que seja a tese correta, no fim das contas, a compreensão da realidade não se dá por meio da linguagem, mas pelas coisas por elas mesmas16.

Existe um elemento a mais no diálogo, que ainda não mencionei diretamente e

que apresenta dificuldades para todos os comentadores do diálogo: a associação da tese naturalista às doutrinas (heraclíticas) do fluxo perpétuo. A ontologia do fluxo é introduzida sub-repticiamente por Sócrates17 e, depois de introduzida, dá um twist na tese naturalista. Agora o naturalismo passa a ter uma contraparte metafísica: nomes encerram (ou ocultam) uma verdade metafísica, que pode ser decodificada por um expert nos nomes – a doutrina de que não há qualquer estabilidade no real.

Qual a função de Heráclito aqui? Creio que ela seja tripla. E o ponto onde essas múltiplas funções convergem é a moral final do diálogo, de que a verdadeira cognição 12 Os apêndices I e II deste trabalho fornecem um quadro geral da estrutura argumentativa e da estrutura temática do diálogo.

13 Crátilo, 383a1-384e2.

14 Crátilo, 385a1-427d3.

15 Crátilo, 427d4-437d7.

16 Crátilo, 437d8-440e7

17 Crátilo, 401c-e.

15

do real depende do reconhecimento da metafísica do estável e da superação do lastro na linguagem. Como é que a doutrina fluxista autoriza isso? Em primeiro lugar, ela serve como um argumento por redução ao absurdo: se a identidade do nomeado está em constante mutação e se os nomes preservam a essência do nomeado, ou bem a

nomeação é impossível, por ser ineficaz, ou bem os nomes deverão possuir a mesma mutabilidade de seus nomeados, o que tornaria a comunicação impensável. Em segundo lugar, a possibilidade de representar (conceitualmente ou lingüisticamente) um mundo em perpétuo fluxo exige algum eixo estável de representação. Por fim, o Crátilo talvez preserve dramaticamente a narrativa de um desencanto filosófico. Sabemos, por Aristóteles, algo interessante sobre o destino dos partidários do fluxo:

“Ademais, vendo que toda a realidade sensível está em movimento e que do que muda não se pode dizer nada de verdadeiro, eles [os partidários do fluxo]

concluíram que não é possível dizer a verdade sobre o que muda em todos os

sentidos e de todas as maneiras.Dessa convicção derivou a mais radical das doutrinas mencionadas, professada pelos que se dizem seguidores de Heráclito e aceita também por Crátilo. Este acabou por se convencer de que não deveria nem sequer falar, e limitava-se a simplesmente mover o dedo, reprovando até mesmo Heráclito por ter dito que não é possível banhar-se duas vezes no mesmo rio: Crátilo pensava não ser possível nem mesmo uma vez.”18

O Crátilo também menciona aqueles que apostaram na doutrina do fluxo e acabaram “caindo numa espécie de turbilhão”19. Juntando essas duas passagens, talvez tenhamos no diálogo a narrativa da queda de Crátilo em extrema confusão.

Por fim, para examinar o Crátilo proponho que ele seja dividido em duas partes, com extensões desiguais. A primeira metade do Crátilo (do início do diálogo, em 383a1, até 437d720), desproporcionalmente mais longa do que a segunda, tece uma reflexão a respeito dos nomes e da nomeação. A segunda parte (de 437d8 até o final, em 440e7) representa uma ruptura com a discussão anterior e propõe alguns princípios gerais que possibilitam a cognição da realidade.

18 Aristóteles, Metafísica, Livro Gama, 1010a7-15.

19 Crátilo, 439c-d.

20 Ao longo de todo o trabalho sigo a paginação Stephanus na edição da Oxford Classical Texts (1995).

16

Sobre o Crátilo de Platão

.

17

1. Prelúdio historiográfico:

O Crátilo retrata uma reflexão filosófica sobre a correção dos nomes, iniciada por Crátilo e Hermógenes, a qual Sócrates é convidado a participar. No contexto do diálogo, a pergunta pela correção das palavras é relacionada a uma segunda indagação que tem anterioridade lógica a ela: qual a relação entre nome e nomeado? Crátilo sustenta que “N” é o nome correto de n se e somente se “Npertencer a n por natureza (é a tese segundo a qual existe um isomorfismo ou uma afinidade íntima entre nome e nomeado); Hermógenes é da opinião de que para “N” ser o nome correto de n basta que

N” seja empregado como nome de n (é uma versão radical da tese segundo a qual a relação entre nome e nomeado é arbitrária e depende exclusivamente da vontade humana). No mundo antigo, o modo sucinto de referir ao contaste entre as posições de Crátilo e de Hermógenes sobre a relação nome/nomeado era referir a uma como a tese segundo a qual nomes são physis (“dados por natureza”) e a outra como a tese segundo a qual nomes são thesis (“estabelecidos” [por uma comunidade lingüística]); entre os comentadores contemporâneos fala-se de uma tese naturalista e uma tese convencionalista sobre a nomeação.

Temos dois aspectos conexos da questão da nomeação presentes no diálogo.

Uma indagação sobre a correção dos nomes, apresentada como a rubrica geral que caracteriza a temática diálogo, se desdobra numa indagação sobre o estatuto da relação entre nome e nomeado, que forma o núcleo da discussão. No Crátilo está claro que as teses naturalista e convencionalista fornecerão critérios distintos de correção21.

Antes de examinarmos o diálogo em detalhe, é relevante notar que essas questões estavam vivas numa tradição filosófica anterior à redação do Crátilo. Portanto, pretendo apresentar, muito sucintamente, os aspectos do status quaestionis que 21 Em 383a4-5 a posição de Crátilo é caracterizada como aquela segundo a qual o “nome correto” de algo é aquele “que lhe pertence por natureza”; em 384d1 Hermógenes declara não conseguir se convencer de que “a correção dos nomes” dependa de outra coisa que “da convenção e do acordo”. Sobre a correção dos nomes como rubrica geral, ou maneira standard de caracterizar a discussão do Crátilo como um todo (o tema do diálogo por assim dizer), ver 384a6-7 onde Hermógenes pede que Sócrates lhe diga o que pensa “sobre a correção dos nomes” . Por fim, em 384b6-c1 Sócrates aponta Pródico como aquele capaz de dizer “a verdade (...) sobre a correção dos nomes”.

18

enriquecem a leitura do diálogo. Existem indícios textuais de que tal exercício preparatório seja pertinente. Em primeiro lugar, embora a discussão a respeito da correção esteja configurada nos termos nos quais Hermógenes e Crátilo a entendem (entrelaçando-a com o contraste entre naturalismo e convencionalismo), o texto associa imediatamente o tema da correção ao sofista Pródico (nativo da ilha de Ceos 22 ), conhecido por seu interesse em palavras. Vejo isso como uma alusão ao trânsito que a reflexão sobre a nomeação tinha na cultura grega da época. Em segundo lugar, a discussão entre Hermógenes e Crátilo não é retratada dramaticamente (ela transcorre antes do encontro com Sócrates) e Hermógenes admite ter discutido sobre a natureza da relação entre nome e nomeado muitas vezes e com muitas pessoas23. Isto sugere que o tema não seja tipicamente platônico-socrático e que o Crátilo não estava inaugurando um campo novo de investigação, mas respondendo a uma tradição.de reflexão sobre a nomeação, tornando valiosa uma recuperação, mesmo que breve, de um corpo de temas e de argumentos ligados à essa reflexão. Portanto, a primeira tarefa é esboçar os múltiplos significados da correção dos nomes e os principais argumentos a favor e contra as duas teses sobre a nomeação.

1.1. Sobre os nomes e sua correção:

Pretendo nesta seção destacar quatro aspectos da questão sobre a correção dos nomes:

1. Caracterizar o sentido da expressão no Crátilo e sugerir que ela esteja sendo utilizada em um sentido maleável, não técnico (por assim dizer).

2. Mostrar que o sentido comum da expressão bem como outros temas que

aparecem no Crátilo já estavam enraizados na cultura grega e podem ser vislumbrados na tradição filosófica anterior e contemporâneas ao Crátilo.

22 Pródico de Céos ( c. 465- c. 395) era um sofista contemporâneo de Sócrates.

23 Entre as linhas 383a4-384c9 Hermógenes descreve o que ele e Crátilo estavam discutindo.

Em 384c10-11 ele diz que já discutiu a questão da correção dos nomes com Crátilo diversas vezes.

19

3. Listar evidências de que a expressão “correção dos nomes”, e variações dela, passam a adquirir uma dimensão técnica à partir dos sofistas e que Platão recorrentemente associa Pródico a reflexões sobre a nomeação.

4. Caracterizar os modos como a questão sobre a correção dos nomes aparece em Pródico e aventurar razões para explicar à que título ele é mencionado na

abertura do Crátilo.

1.1.1. O sentido de “nome correto” no Crátilo:

No Crátilo, a questão da correção dos nomes é primeiramente aludida como conseqüência da tese naturalista24. A tese naturalista afirma existir um isomorfismo ou afinidade íntima entre nome e nomeado. Nomes são descrições condensadas ou

imitações do item nomeado ou de aspectos essências do item nomeado. Isso significa que, dado um item n qualquer, a natureza objetiva de n impõe certas restrições sobre a gama de possibilidades de nomes que lhe podem ser atribuídos (não é qualquer combinação de emissões sonoras ou sinais gráficos que valem como instanciações de nomes possíveis para n). Isso nos permite distinguir atribuições válidas de atribuições inválidas, com base na teoria da nomeação natural. Um paralelo aparece com relação à teoria convencionalista: “N” é o nome de n se “N” for o nome estabelecido pelo arbítrio humano para designar n. Mas tanto Crátilo quanto Hermógenes vão um passo mais longe. Para Crátilo ou bem um nome realiza sua natureza descritiva ou imitativa ou nem mesmo chega a configurar um nome25; para Hermógenes não existem nomes falsos pois todo nome é, por definição, nome que foi atribuído a algo (se um indivíduo ou um grupo decidir atribuir o nome “N” para n então “N” é o nome de n). Tanto para Crátilo quanto para Hermógenes “nome correto de n” é equivalente à expressão “nome de n” e todos os nomes são eo ipso corretos. Isso significa que a expressão “correção dos nomes” não está indicando nenhuma teoria precisa de correção, mas adquirindo sentidos distintos no interior de cada uma das teses sobre a relação nome/nomeado.

24 A primeira ocorrência de “correção dos nomes” vem do relato de Hermógenes sobre as teses de Crátilo. Segundo Hermógenes, Crátilo sustenta: que existe uma correção dos nomes, que a correção dos nomes está dada por natureza e que nem todo nome é o nome correto daquilo que ele designa.

25 429b4-430a7.

20

Mas existe algo em comum entre as duas teses já que ambas podem falar em

nome ( onoma) correto ( orthos). Muito foi escrito sobre as complexidade de traduzir a palavra grega onoma ( onomata, no plural): “nome”, “palavra”, “termo”? Tradutores modernos do Crátilo tendem a optar por “nome”. O único empecilho é que exemplos de onomata apontados ao longo do diálogo incluem verbos, nomes próprios, nomes comuns, adjetivos e até particípios. A razão disso é simples e o excesso de escrúpulos sobre questões de tradução do termo grego é desnecessária. A única coisa que o leitor do diálogo precisa ter em mente é que Platão está abordando os nomes pela perspectiva da função lingüística que eles desempenham, isto é, enquanto termos lexicais ( content words): itens lingüísticos que possuem um conteúdo semântico estável e pretensão referencial (e.g. substantivos, adjetivos e verbos nomeiam itens, qualidades, ações)26.

Pouco importa usar “nome”, “termo” ou “palavra” – o melhor é adotar a tradução mais clara e interessante para cada contexto. Já o adjetivo orthos, cujo sentido comum é

“correto” ou “acertado”, possui também um sentido mais intenso, qualificando algo como objeto de reflexão cuidadosa, isto é, aquilo que é “preciso”, “acurado”, em oposição ao “comum”, “impreciso” “banal”27. Para o contexto da discussão do Crátilo, é também interessante notar que orthos podia significar “genuíno” ou “verdadeiro”28.

Reforço que “correção dos nomes” no Crátilo evoca essa riqueza de sentidos e que a fórmula não está ligada a nenhuma agenda específica.

1.1.2. A questão da correção dos nomes na tradição grega:

Com algum esforço é possível vislumbrar um interesse incipiente em questões

de correção terminológica e no poder revelador das palavras entre os filósofos 26 Na terminologia lingüística moderna, termos lexicais ( content words) são contrastados com os termos funcionais ( function words), que desempenham um papel puramente sintático (e.g.

conjunções etc.).

27 Cf. LSG, verbete orthos, III.2. e Andrew Ford (2001), p. 100.

28 O clacissita Ulrich von Wilamowitz-Moellendorf aponta um “sentido lógico” do adjetivo orthos que é aquele que aparece na expressão orthos philos com o valor de “o verdadeiro amigo”, ou “amigo genuíno”: cf. Ulrich von Wilamowitz-Moellendorf, (1895), volume I, pp.18-19. Devo essa referência a Jonathan Barnes (1982), nota 16 à p.603. Tenho quase certeza de que Rachel Barney (2001) também fornece essa referência, mas não consegui encontrar a localização exata. “Nome correto” é o mesmo que “nome verdadeiro” no Crátilo: cf. 430d5.

Para outros sentidos de orthos, ver: Pierre Chantraine (1984), vol. II, pp. 818-819. Ver também Ford (2001), p. 100, nota 49.

21

chamados pré-socráticos 29 . Alguns exemplos são interessantes por anteciparem o espírito e o vocabulário da reflexão presente no Crátilo. Xenófanes ( c. 570– c. 475 a.C.), no fragmento DK 21 B32, questiona se “Iris”, um nome de uma divindade na tradição épica (Homero) e teogônica (Hesíodo), seria o nome apropriado para o arco-íris, já que o fenômeno é “por natureza apenas uma nuvem” ( nephos kai touto pephyke), colorida de certa maneira30. Heráclito ( c. 535 – c. 475 a.C.) jogava com o duplo sentido da palavra “bios” (“vida” e “arma”31, um instrumento letal)32. Perceber essa ambigüidade no nome significa decodificar uma verdade metafísica inscrita no nome: a metafísica dos contrários que Heráclito elegeu como a descrição fundamental da realidade.

Empédocles ( c. 490- c. 430 a.C.) protesta contra o uso da palavra genesthai (“vir-a-ser”), sugerindo que o termo é impróprio para designar o fenômeno. No entanto ele resigna-se a seguir a convenção ( nomos)33 adotada entre os homens. Semelhantemente Anaxágoras ( c. 500- c. 428 a.C.) escreveu que os Gregos “não definiram corretamente ( ouk orthōs nomizdoysin) ‘vir-a-ser’ e ‘perecer’” por não terem compreendido a natureza profunda desses fenômenos (para Anaxágoras, assim como para Empédocles, a geração e a destruição são, em certa medida, ilusórias). Mas, diferentemente da atitude resignada de Empédocles, ele propõe um modo correto ( orthos) de chamar ( kalein) esses fenômenos:

“associação” e “dissociação”34. A descoberta, em 1962, do chamado Papiro de Derveni ( c. 340-320 a.C) revelou paralelos surpreendentes com o Crátilo 35: (a) a idéia de um legislador dos nomes original (no caso, Orfeu), que estabelece os nomes da maneira

“mais perfeita” ( kallista)36, isto é, de acordo com a definição precisa de cada item 29 Para uma apreciação sucinta e cautelosa da “filosofia da linguagem pré-socrática”, ver De Jonge & van Ophuijsen (2010), pp. 487-488, de onde muitos desses exemplos foram extraídos.

30 Cf. os comentários de John Lesher (1992), pp. 142-144. Lesher também chama a atenção para o fato de que Xenófanes evita caracterizar o arco-íris como um fenômeno espantoso, manifestação da deusa Iris Thaumantias, contra a tradição hesiódica que havia traçado a genealogia da deusa, identificando-a como filha do Espanto, thauma: Teogonia, vv. 265-266.

Essa interpretação parece acertada principalmente pelo fato de que a fórmula thauma idesthai (“contemplar algo maravilhoso”) aparece com freqüência em Hesíodo e Homero e é substituída no fragmento pela fórmula néphos ( ktl. ) idesthai (“contemplar uma nuvem colorida”): assim, o

“nome apropriado” para o arco-íris é aquele que o inscreve no registro dos fenômenos naturas e não dentre os fenômenos sobrenaturais (cf. Lesher, id. Pp.143-144).

31 Literalmente, “arco” (lança-flechas).

32 DK 22 B48

33 DK 31 B9

34 DK 59 B 17

35 Sobre a relação entre o Crátilo e o Papiro de Derveni ver o apêndice A.VI.

36 Papiro de Derveni (ed. Theokritos Kouremenos et al. ), col. XXII, 1.

22

nomeado ( kata ton auton logon)37; (b) a crença de que nomes, quando adequadamente interpretados, revelam verdades profundas sobre a realidade (i.e. nomes são “códigos”

que somente podem ser “quebrados” por um expert)38; (c) por vezes o autor do Papiro de Derveni utiliza análises etimológicas para decodificar o sentido oculto dos nomes39; (d) por fim, dados os paralelos já listados, é curioso encontrar tanto no Papiro de Derveni quanto no Crátilo referências à filosofia heraclítica40.

1.1.3. A correção dos nomes entre os sofistas

Evidências de um interesse sistemático em questões de linguagem provém do

século IV. No período áureo daquilo que se convencionou chamar de “movimento sofístico” o estudo formal e autônomo da gramática ainda não estava consolidado, mas já era incipiente41; existem testemunhos de que Protágoras e Pródico, em particular, tinham pesquisas em questões de linguagem42 e que, dando continuidade a uma tradição secular, o est. Quando Platão começou a escrever seus diálogos, as classes atenienses intelectualizadas já estavam familiarizadas com empreitadas intelectuais (sob a forma de tratados, pesquisas e “exibições sofísticas”) que eram referidas por rótulos como onomastikon (“Dos nomes” ou “tratado sobre nomes”)43, orthoepeia (“correção do 37 Id. Col. XIX, 2-3.

38 Kahn (1997), p. 61 e nota 18 na mesma página.

39 Tanto o Sócrates do Crátilo quanto o autor do Papiro de Derveni derivam “Dēmētēr de

mētēr” ( Derveni, col. XXII, 9-10; Crátilo, 404b8) e “Kronos” de “nous” ( Papiro de Derveni, col. XIV, 7; Crátilo, 396b5-7). Essas derivações não são surpreendentes em e por si mesmas (as conexões são um tanto auto-evidentes), o que é surpreendente é a crença simultânea de que nomes encerram ou ocultam mensagens sobre a realidade e que “decodificações etimológicas”

conduzidas por um expert no assunto é uma arte que conduz à compreensão profunda do Real.

40 Kahn (1997), pp. 60-61. Kahn tende, a meu ver, a dar ênfase demasiada a esse paralelo. Nem a metafísica do fluxo, nem a refutação da mesma estão em jogo no Papiro de Derveni. O autor do Papiro também não conecta nenhuma etimologias às doutrinas de Heráclito. Se não fossem os outros paralelos, eu tenderia achar que a referência a Heráclito no Derveni indicaria apenas a influência de Heráclito no mundo antigo.

41 Sobre a origem dos estudos gramaticais no mundo Grego, ver : Goldschmidt (1940), p. 7 (e a bibliografia sugerida na nota 4 da mesma página); bem como meu Apêndice (seção II: O

Nascimento da Gramática no Mundo Antigo.).

42 Pródico me interessa particularmente e será tratado com maior detalhe em breve. O interesse de Protágoras em questões de linguagem é atestado por Platão (DK 80 A26), Aristóteles (DK 80

A27-29) e Diógenes Laércio (DK 80 A1, 254,13-17).

43 Um Onomastikon é atribuído a Górgias por Jullius Pollux (em seu Onomastikon, IX, 1).

23

discurso” ou “correção da fala”)44 e orthotēs onmatōn (“correção dos nomes”)45. É

provável que houvesse grande variação e plasticidade nos projetos por trás dessas diversas investigações, afinal, ninguém detinha o monopólio sobre o estudo da linguagem46.

Eu quero frisar que correção dos nomes, e variações dessa expressão, circulavam em dois registros: um registro mais comum e um registro sofístico. As evidências extraídas dos pré-socráticos, mesmo que escassas, precisam ser levadas a sério.

1.1.4. Pródico e a correção dos nomes

A menção a Pródico no Crátilo é um tanto paradoxal. Por um lado, nos Diálogos de Platão ele é recorrentemente destacado como um especialista em nomes e é

rapidamente apontado no Crátilo como uma espécie de autoridade óbvia a ser consultada sobre a questão; por outro, ele rapidamente “esquecido” durante a discussão que se desenvolve. Por que?

Os sofistas ocupam um papel reduzido no Crátilo e são sumariamente

dispensados. Nem Hermógenes, nem Crátilo, são apontados como simpatizantes deles, e 44 Protágoras é, sem dúvida, associado a esse termo (cf. Platão, Fédro, 267c6), mas não há evidências de que ele tenha escrito um tomo com o título orthoepeia (cf. Andrew Ford, 2001, p.

101).

45 Protágoras também parece ter lecionado “sobre a correção dos nomes”: Crátilo, 391b9-c5

46 O leitor atento deve ter percebido minhas dificuldades e hesitações na tradução dos títulos dos tratados e disciplinas Gregas sobre a linguagem. Tais hesitações refletem as particularidades e a flexibilidade do grego que, como outras línguas, possui um vocabulário rico para designar o fenômeno da linguagem. Como não havia na Grécia Antiga uma disciplina consolidada sob a rubrica “Filosofia da Linguagem”, não é estranho que não encontremos um equivalente exato.

Mas posso apontar a terminologia básica sobre o assunto. Distribuo o vocabulário em quatro conjuntos: (1) um primeiro conjunto terminológico para “língua”/“linguagem” são os termos glōssa (“língua”) e phōnē (“emissão sonora articulada”, “voz”, “idioma”); (2) o segundo conjunto terminológico inclui logos (“discurso”, “afirmação”, “expressão racional”; mas também “cálculo”, “razão” etc. ) e os derivados do verbo eipein (“dizer”, “falar”); (3) neste conjunto, aponto lexis (“modo de expressão”; “estilo”) e dialektos (“maneiras de falar”;

“dialética”); 4) onoma (designa um termo com estabilidade lexical; gramaticalmente, o

“substantivo” ou o “sujeito”) e rhema (designa um termo que atribui qualidades a onomata; gramaticalmente, “verbo” ou “predicado”). Cf. de Jonge & van Ophuijsen (2010), pp. 485-487; p. 489 in finis para epos e eipein; p. 490 para onoma e rhema.

24

é Sócrates quem menciona Pródico como especialista paradigmático no tema da

correção dos nomes. Além disso a expressão orthotēs onomatōn (“correção dos nomes”) é introduzida por Hermógenes47, que não fornece qualquer indicação de estar sob a influência dos sofistas48, mas evidentemente a toma como a maneira standard (isto é, aludindo ao sentido comum de correção dos nomes) de aludir ao tipo de discussão que ele estava tendo com Crátilo49. Isso nos leva a indagar se a referência a Pródico é significativa ou representa apenas mais uma oportunidade para “envenenar” a fama pública dos sofistas, um dos esportes favoritos de Platão.

A troça existe e Sócrates a utiliza como um modo humorístico de introduzir seu tradicional pleito de ignorância (ver T1 abaixo). Mas não devemos dispensar Pródico tão rapidamente. Pródico é mencionado em nada menos do que quatorze diálogos platônicos50, além do Crátilo, e, em muitos deles, é representado como tendo como métier principal pesquisas em nomeação51. A referência a ele pode ser, dentre outras coisas, um convite a uma comparação entre o tipo de discussão sobre a nomeação desenvolvida no Crátilo e as famosas palestras de Pródico sobre o assunto. Em suma, o que me parece estar ocorrendo por trás da referência é um jogo entre um sentido mais técnico e um sentido menos técnico da fórmula orthotēs onomatōn: por um lado havia um interessa antigo em questões de propriedade terminológica, por outro, havia uma figura (Pródico) que se apresentava como um especialista no assunto e tinha uma agenda bem delineada sobre como proceder com respeito a essa reflexão.

47 Crátilo 383a4-5; 384a6-7.

48 Muito pelo contrário: logo após Sócrates mencionar Pródico como sendo a pessoa mais apropriada com quem discutir o assunto, Hermógenes simplesmente responde que já debateu a questão com freqüência com Crátilo e outros ( Crat. 384c10-d2). Caso ele acreditasse que seu modo de formular a questão fosse próxima do modo sofístico, aqui estaria a golden opportunity de afirmar a conexão.

49 A minha conclusão de que se trata de uma maneira standard de se referir a esse tipo de discussão baseia-se na repetição da fórmula em 383a4-5 e 384a6-7.

50 Apologia Socratis, 19e3; Axiochus, 366c e 369b; Charmides, 163d; Eryxias, 397c e seguintes; Euthydemus, 277e, 305c; Hippias Maior, 282c; Laches, 197d; Meno, 75e; Phaedrus, 267b3; Protagoras, 314c, 315d e seguintes, 316a, 337a-c, 339e-341c, 357e e seguintes, 358a; Respublica, X, 600c; Symposium, 177b; Theaetetus, 151b5; Theages, 127e-128b.

51 Em 7 dos 15 diálogos nos quais aparece ele é apresentado como especialista em questões de linguagem. No, Eutidemo, por exemplo, para esclarecer uma obscuridade gerada pela homonímia que cerca a palavra manthanein (“aprender” mas também “compreender”), Sócrates propõe uma consulta à Pródico que defende a primordial necessidade de “aprender sobre a correção dos nomes” ( péri onomáton orthótetos matheîn; cf. Eutidemo, 277e) 25

Por outro lado, a expressão assume um sentido específico quando atrelada aos trabalhos de Pródico de Céos, recorrentemente caracterizado como um especialista em nomeação nos Diálogos de Platão. Logo não é de se estranhar que, no contexto dramático do Crátilo, assim que Sócrates é informado do tema da discussão que ocupava a atenção de Crátilo e Hermógenes ele imediatamente se lembra do sofista e de seu domínio sobre o assunto. Leiamos o trecho no qual a menção aparece:

52

(T1):

Crátilo, 384b2-c2

SÓCRATES: (...) Ora, se eu já tivesse ouvido a exposição53 ( epideixis) de cinqüenta dracmas de Pródico [sobre a correção dos nomes] – e, segundo ele próprio, quem a tiver 52 Todas as citações do Crátilo em português seguem a seguinte tradução: Platão: Crátilo.

Tradução de Mara José Figueiredo e introdução de José Trindade dos Santos. Lisboa: Instituto Piaget, 2001. Em alguns lugares, faço pequenas modificações. As ênfases são minhas.

53 Epideixis é também usualmente traduzido por “demonstração”. Existem diversas teorias sobre o conteúdo exato dessas “exposições” e a razão delas (seu “objetivo” político, moral ou pedagógico, por exemplo). Existe também alguma incerteza a respeito do número de eventos compreendidos pelo termo epideixis: um único encontro ou uma série? Alguns tradutores optam por verter epideixis (um substantivo singular) por “curso”, substantivo singular que encerra um pluralidade de eventos (é a opção C.D.C. Reeve); outros traduzem por “a lição” ou “a aula”, apontando para a singularidade do evento (Carlos Alberto Nunes, Catherine Dalimier, Léon Robin, Louis Méridier); por fim, H.N.Fowler é o único a deixar explícito sua crença de que se trata de uma seqüência de preleções (“fifty-dracma course of lectures”). Próclo vê justamente na singularidade da exposição um indício da arrogância do sofista: pretender explicar um assunto tão complexo quanto a nomeação em apenas uma única exposição é sinal de enorme pretensão ( In Platonis Cratylum Commentaria, XXIV).

O valor de 50 dracmas tende a favorecer um evento singular, por representar um preço alto, mas nada exorbitante: salgado para apenas algumas horas de ensino, mas um preço razoável para vários dias (ver G.B. Kerferd, The Sophistic Movement, pp.27-28). No Alcibíades (199a) nos é dito que Zenão cobrava 100 minas por suas lições. Como 1 mina = 100 dracmas, tal quantia era mais que exorbitante e o preço da exposição de Pródico deixa de impressionar.

O curioso é que a idéia de uma exibição intelectual de 50 dracmas de Pródico era quase proverbial: cf. Aristóteles, Rhetorica, III, 1415b15; DK 84A11; Quintilano, Instituiçôes Oratórias, IV, 1,73-74 . Um dracma era o soldo diário médio de um artesão qualificado na Atenas do século Va.C. (cf. Michel Austin e Pierre Vidal-Naquet, Économies et Société en Grèce Ancienne, Paris, 1972). Na Apologia (26d-e), Sócrates alude a lições que podiam ser adquiridas “por uma dracma” no teatro e em nota à sua tradução desta passagem, Luc Brisson sugere que aqui tenhamos uma referência ao preço do “ingresso” cobrado em leituras públicas de livros ( Apologie de Socrate, tradução, introdução e nota de Luc Brisson, Paris: Flamarion, 1997, nota 129, pp.143-144). Não é impossível que Pródico oferecesse “exposições privadas (encontros únicos ou um curso completo)” para um grupo seleto de pagantes dos altos círculos sociais e tivesse uma versão “popular” da demonstração, lida publicamente a preços mais modestos. Seja como for, do ponto de vista dramático-filosófico, o que temos nesta passagem parece ser uma ironia calculada: Pródico ou qualquer um de seus alunos sabem “50 vezes mais”

sobre “a correção dos nomes” do que Sócrates, o que aumenta o “valor” de sua reflexão (improvisada?) sobre os nomes.

26

escutado ficará informado sobre este tema –, nada te impediria de, neste mesmo instante, conheceres a verdade acerca da correção dos nomes; porém eu não ouvi essa exposição, mas apenas a de um dracma; por isso não sei qual possa ser a verdade acerca dessas coisas.”

No que consistia a epideixis de Pródico? Informações (poucas mas valiosas) encontram-se espalhadas tanto pelo Corpus Platonicum quanto em alguns outros testemunhos. Com base na análise das passagens relevantes vou propor que devemos distinguir dois “projetos” de investigação sobre os nomes que faziam parte da agenda de Pródico e que são relevantes para o estudioso do Crátilo: compreender o significado preciso das palavras em uso e identificar imperfeições e limitações do nosso vocabulário, propondo reformas e revisões. Para fins de clareza, vou tratar cada um desses projetos individualmente e batizá-los (mantendo-me o mais fiel possível à terminologia usada nos testemunhos) de: (i) a distinção dos termos e (ii) a correção dos nomes.

(i) A distinção dos termos:

Um conjunto de referências em Platão relatam que Pródico enfatizava a

importância de distinguir ( diaireîn) os nomes54. Nos casos nos quais esse verbo é mencionado de modo saliente, o que está em jogo são problemas ligados ao campo restrito da distinção entre verdadeiros-sinônimos (ou quase-sinônimos) e pseudo-sinônimos: no Cármides, trata-se de distinguir “fazer” ( poieîn) de “realizar”

( prattein) 55 ; no Láques, distinguir o “corajoso” ( to andreîon) do “destemido” ( to aphobon)56; no Mênon, distinguir o “limite” ( peras) da “extremidade” ( eschaton)57e, no Protágoras, distinguir “querer” ( boulesthai) de “desejar” ( epithymein)58. Creio que Pródico estava operando com a hipótese de que a riqueza do nosso vocabulário possui 54 Consultar a discussão sobre as “distinções” de Pródico no comentário de C.C.W. Taylor ao Protágoras: Plato: Protágoras (Clarendon Plato Series), tradução e comentários de C.C.W.

Taylor, edição revisada, 1991, pp. 136-140. Goldschmidt (1940, p. 8) sugere que diarein pode ser um “termo técnico” utilizado pelo Pródico histórico.

55 Cármides, 163b-d.

56 Láques, 197b-d.

57 Mênon, 75e.

58 Protágoras, 340a.

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uma afinidade íntima com a complexidade da realidade; em outras palavras, que existe uma correspondência (mais ou menos) perfeita entre as palavras e aquilo que elas designam59. Assim, em alguns casos potencialmente ambíguos - e.g. onde a existência de sinônimos potenciais demandam uma investigação acerca do modo “correto” de empregar os termos para obter uma descrição acurada do real - , a regra que define a correção de um termo não é apenas uma regra de uso do termo (determinada por uma prática particular60), mas da identificação de sua designação específica. Ou seja, a proposta de Pródico é a de que o problema da correção do nomes deverá ser resolvido no plano da realidade e não no plano da linguagem (que é vista como sintomática do real): “I’ll teach you differences” ( Rei Lear, I, iv, 94) chegou a ser considerado por Wittgenstein como mote para as Investigações Filosóficas, mas cairia bem para Pródico.

Os casos dos quase-sinônimos são distintos do tipo de correção proposta por

Anaxágoras – substituir “geração” e “destruição” por “associação” e “dissociação” –

pois lá (em Anaxágoras) estamos lidando com pares de palavras com sentidos

claramente distintos. Pródico poderia querer dar conta dos casos ambíguos. Se existem duas ou mais palavras para designar aquilo que aparenta ser um único fenômeno, devemos sempre considerar a possibilidade de haver mais de um estímulo no real demandando múltiplos modos de referência.

Distinguir os termos é um modo condensado de designar um recurso que perfaz quatro etapas:

1. Em primeiro lugar identificar os termos que os homens dizem

compartilhar o mesmo campo semântico (os supostos sinônimos).

59 “Prodicus (...) seems to have operated on the hypothesis that there were no genuine synonyms, that where there were two words, there were two meanings” (Norman Kretzmann, 1967, p. 359). Caso a tese de Pródico seja a de que para cada item da realidade corresponde um termo da linguagem, então estaríamos diante de tese legitimamente metafísica.

60 E.g. em Português temos “ética” e “moral”. Alguns argumentam que ambos significam fundamentalmente a mesma coisa e apenas convenções estabelecem quando devemos usar um ou outro termo; mas existem aqueles que traçam distinções entre as duas palavras. Outro exemplo divertido é a distinção entre “grafite” e “pichação”. Lembro de um comentário num jornal que dizia que “pichação” é vandalismo, mas “grafite” é arte quando alguém poderia argumentar que ambos designam a mesma coisa ( street art, por exemplo) e que a única distinção relevante está na atribuição de valor estético a alguns casos e não outros.

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2. Depois, indagar a respeito das realidades relevantes e confrontá-las com a lista de termos.

3. Em seguida, distinguir as designações específicas dos termos vis-à-

vis às realidades relevantes; isto é, correlacionar a lista de termos à lista dos recortes do real;

4. Por fim, fazer uso correto dos termos apropriados nos contextos

apropriados.

Podemos ilustrar o método com um exemplo: