Sociedade e Comunicação: Estudos Sobre Jornalismo e Identidades por João Carlos Correia. - Versão HTML

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JOÃO CARLOS CORREIA

Sociedade e

comunicação:

estudos sobre

jornalismo e

identidades

UNIVERSIDADE DA BEIRA INTERIOR

Série - Estudos em Comunicação

Direcção: António Fidalgo

Design da Capa: Jorge Bacelar

Edição e Execução Gráfica: Serviços Gráficos da Universidade da Beira Interior

Tiragem: 300 exemplares

Covilhã, 2005

Depósito Legal Nº 230277/05

ISBN – 972-8790-35-X

Apoio:

Programa Operacional Ciência, Tecnologia, Inovação do III Quadro Comunitário de Apoio

ÍNDICE

Apresentação e Agradecimentos ........................................ 7

Elementos para uma crítica da mediação moderna ........ 9

Comunicação e deliberação democrática: algumas reflexões ............................................................................. 39

A fragmentação do espaço público: novos desafios ético-políticos .............................................................................. 55

A emergência do individualismo na cultura mediática contemporânea .................................................................... 75

Os administradores de ilusões: espectáculo, subjectividade e ideologia na cultura mediática contemporânea .......... 91

Cidadania, Comunicação e Literacia Mediática .......... 125

Fenomenologia e Teoria dos Sistemas: reflexões sobre um encontro improvável ........................................................ 141

O Poder do Jornalismo e a Mediatização do Espaço Público ............................................................................. 183

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APRESENTAÇÃO E AGRADECIMENTOS

Estes textos são o testemunho da tentativa de transformar em livro o núcleo central das preocupações que ao longo de 8 anos de investigação constituíram a preocupação do autor: o jornalismo e a representação das identidades; a emergência das identidades e o impacto das mesmas no pluralismo sociológico e na fragmentação cultural; a espectacularização da informação e as consequências deste fenómeno na experiência identitária e na participação cívica e os «efeitos dos media» em geral e do jornalismo, em particular. Para além destes textos de natureza especialmente problematizante, há ainda um pequeno conjunto de textos que abordam estas problemáticas a partir de escolas bem definidas (Teoria Crítica, Fenomenologia Social e a Teoria dos Sistemas), recorrendo-se neste caso à revisão da literatura, procedendo à apresentação de três autores cuja obra têm um especial impacto nas Ciências da Comunicação: Habermas, Alfred Schutz e Niklas Luhmann.

Com este volume pretendem-se os seguintes objectivos principais: a) dotar os estudantes de Ciências da Comunicação com uma abordagem sistemática e coerente sobre um conjunto de problemas que implicam o recurso à Teoria Política, à Teoria da Informação e à Sociologia da Comunicação; b) contribuir para o aprofundamento de um trabalho de investigação sobre um conjunto de temas profundamente interligados entre si e que já fizeram escola no âmbito da investigação portuguesa em Ciências da Comunicação.

Estes textos reflectem muitos diálogos, nomeadamente com os colegas do Departamento de Comunicação e Artes da UBI. Tais diálogos reflectem os ainda as matrizes te-

óricas plurais deste conjunto de interlocutores, nomeadamente 7

as suas proveniências da Filosofia, a sua relação com as Ciências Sociais conjugada com uma forte sensibilidade para as transformações tecnológicas.

Por outro lado, reflectem diálogos exaustivos com muitos alunos: em Covilhã e na UBI, em primeiro lugar.

O agradecimento maior é devido à paciência da minha família. Em cada livro publicado (já vão cinco, sem contar com este) desagua um certo número de brincadeiras que não foi partilhado ou de trabalhos de casa em que colaborei menos.

João Carlos Correia

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ELEMENTOS PARA UMA CRÍTICA

DA MEDIAÇÃO MODERNA

Introdução

As relações entre o indivíduo e a sociedade foram alvo de uma mediatização generalizada no decurso da qual a construção de imaginários, a formulação de normas e a consolidação de visões do mundo dependem cada vez mais da presença de órgãos de comunicação social. O aceleramento desta mediatização tem vindo a comportar consequências que se fazem sentir, nomeadamente, ao nível das relações entre público e privado. A principal preocupação deste texto é debruçar-se sobre a enfatização da individualidade como fenómeno indutor do pluralismo normativo e da fragmentação cultural, analisando a sua relação com a vivência dos destinos colectivos no plano da esfera pública.

Os seres humanos agem em relação à realidade com base no significado que lhe atribuem e esse significado provém em primeira instância dos processos de interacção social e de mediação simbólica. Tais processos comportam uma dimensão cognitiva – sustentam as representações sociais da realidade social e natural – e uma dimensão prescritiva

– indicam os objectivos e as normas de acordo com as quais os indivíduos e as colectividades devem comportar-se. Este ponto de vista significa a adesão a uma perspectiva que realça o papel da linguagem, a qual deixa de ser considerada como instrumento para se constituir em elemento estruturante das relações sociais. De acordo com esta visão, de certa forma, a mediação linguística desempenha um papel fundamental na constituição da experiência que temos do mundo.

A linguagem aparece, assim, associada ao viver em comum. É através da mediação, designadamente a mediação 9

Sociedade e Comunicação: Estudos sobre Jornalismo e Identidades linguística, que se manifestam as expectativas recíprocas em que assentam as diversas interacções praticadas no mundo da vida. A consciência da importância crescente das mediações simbólicas significa a abertura de um campo de tensão no qual se não aceita a absoluta conformação do mundo num sentido unilateral mas, antes, se reconhece a teia de relações complexas entre a linguagem e o mundo da vida. A linguagem é, no seio da cultura, um lugar de tensão entre a unidade e a pluralidade, entre o uno e o diverso, entre a reificação e a busca intercompreensiva de contextos comunicacionais marcados pelo interesse emancipatório.

Lugar de resistência ou de fechamento, ou espaço onde ambas as possibilidades se cruzam dialecticamente, a linguagem, em geral, pode cristalizar-se num universo de sobreditos que interditam dizeres novos. No mundo da vida, a linguagem tem em si mesma a possibilidade de assumir a reflexividade actualizando a potência que em si contém de nomear o Outro como “segunda pessoa”, apelando ao exercício crítico da racionalidade e superando a dinâmica holística e anterior ao indivíduo, que também é constitutiva do mundo da vida.

Como se existisse em si uma impossibilidade de total fechamento – que se confundiria, afinal, com um silêncio

– a linguagem, apesar de tudo, interpela e interpela-se, mesmo quando, através de numerosos mecanismos, a pretendem silenciar quanto ao dizer de outro modo. Ao contrário de alguns para quem “a linguagem não está concebida para nela se acreditar, mas para obedecer e fazer obedecer”

(Deleuze e Guattari, 1980: 125), a verdade é que os modos de exercício do poder que se configuram também no interior da linguagem não são todos idênticos sendo, por vezes, a potencialidade reflexiva da palavra que conduz de forma permanente à questionação do que se tinha por adquirido, deixando sempre em aberto o problema da legitimidade (Habermas, 1987 a: 69-70).

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Elementos para uma crítica da mediação moderna Enquanto caso particular da mediação linguística, a linguagem dos media suscita perplexidades visíveis que se fazem sentir nas contradições que estalam entre o desejo de sintonia dos media de massa com as normas consensualmente aceites e a influência dos mesmos media na segmentação e na fragmentação cultural, designadamente as resultantes da composição, recomposição e formação de identidades sociais.

Em face dos processos de diferenciação e fragmentação cultural, no decorrer dos quais os media contribuíram, de modo decisivo, para a emergência e redescoberta das identidades, urge debater, ao longo deste trabalho, se nos encontramos perante potencialidades emancipatórias novas e decisivas ou, pelo contrário, perante esferículas que apenas pretendem desenvolver ao nível capilar a força dominadora de um mercado que explode em miríades de segmentos (Gitlin, 1995). Para responder a esta dúvida, urge efectuar um percurso sobre os seguintes pontos:

- um esforço crítico de compreensão da centralidade da mediação na própria formação das identidades;

- uma insistência particular naquelas perspectivas te-

óricas que defendem formas de mediação que não se traduzam no esquecimento do papel do sujeito, expressando a defesa de espaços públicos que ga-rantam o funcionamento de uma sociedade civil democrática;

- a insistência, mais uma vez, na compreensão dinâmica da ordem social com vista à defesa da multiplicação de espaços públicos que impeçam a petrificação rígida de elementos democráticos demasiado formais;

- a análise de alguns aspectos mais visíveis da forma como as identidades emergem na sociedade portuguesa, afirmando-se como um desafio que um pensamento que se reclama das Ciências da Comunicação não pode ignorar;

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Sociedade e Comunicação: Estudos sobre Jornalismo e Identidades

- a tentativa de compreensão do papel dos media na fragmentação cultural, tal como ele é hoje desempenhado, tentando, simultaneamente, desvendar alguns traços relativos à forma como será desempenhado no futuro.

Para responder a estes objectivos, defende-se um percurso em que se procurará, em primeiro lugar, explicar a forma como a mediação se torna um elemento incontornável na formação das culturas, na socialização e na constituição das personalidades, no interior da qual a produção simbó-

lica, nomeadamente a empreendida pela indústria cultural e mediática, tem um papel de importância crescente. Seguidamente, explanam-se formas de pensamento que ana-lisam a mediação em geral, designadamente a mediação cultural, mostrando, por um lado, aquelas abordagens te-

óricas (Adorno e Foucault) que concluem pela inevitabilidade de um devir reificante das relações sociais e, em alternativa, as abordagens teóricas que aprofundam possibilidades de democratização da vida social (Habermas, Honneth e Taylor entre outros), designadamente através do reavivar do conceito de sociedade civil. Analisa-se, posteriormente, o conceito de consenso, tentando precisar as exigências que devem ser colocadas à proposta formulada por Habermas no sentido de um consenso racional e argumentativo que procure fundar a vontade colectiva na participação de todos, em condições de igualdade. Procuram-se, deste modo, abordar as dificuldades que uma teoria democrática do consenso conhece, nomeadamente em sociedades cada vez mais fragmentadas onde as pretensões de validade emanam dos diversos particularismos emergentes. Procede-se, desta forma, à demonstração do aumento da diversidade como traço cada vez mais marcante das sociedades modernas, que se oferece como um desafio crescente para a igualdade e equidade de tratamento dos agentes sociais. Demonstrar-se-

á, de seguida, que as análises que tendem a considerar a 12

Elementos para uma crítica da mediação moderna reificação como um devir inevitável das relações sociais são as mesmas que partilham de uma concepção apocalíptica da cultura, prognosticando aos media uma responsabilidade importante no estabelecimento da força coesiva que garante a integração social, independentemente da participação dos agentes sociais. A tese aqui desenvolvida tenta, pelo contrário, demonstrar que os media dispõem de uma capacidade que pode despoletar dinâmicas sociais alternativas, as quais se podem constituir como susceptíveis de induzirem o aparecimento de novos movimentos sociais que configurem novos desenvolvimentos democráticos, tendentes a aprofundar o exercício da cidadania.

A emergência das «políticas da vida»

De acordo com esta perspectiva, entende-se, de forma categórica, que a modulação das consciências individuais e colectivas é, cada vez mais, resultado de uma actividade que implica, decisivamente, a mediação simbólica exercida, de modo institucional e profissional, pelos meios de comunicação social.

Diminuído o poder da Religião, da Família e da Escola e das formas de mediação que as acompanhavam, enquanto mecanismos que asseguravam a regularidade nas dinâmicas sociais, os media – incluindo nestes os meios de comunicação de massa e os novos media – exercem uma capacidade de controlo que não pode ser considerada apenas sob o ponto de vista da sua presumível influência numa campanha eleitoral ou na vigilância democrática do poder político.

Os sistemas de relação social tornaram-se inseparáveis da formulação de um imaginário, pelo que a actividade dos media faz parte do cerne do seu funcionamento. A acção política, como toda a actividade social, é, de modo crescente, povoada de crenças, de convenções e símbolos.

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Sociedade e Comunicação: Estudos sobre Jornalismo e Identidades De entre a actividade mediática em geral, o jornalismo escrito desempenhou um papel decisivo de estruturação do próprio espaço público e do consenso social: ora consti-tuindo um dos suportes essenciais de dinamização da cidadania, ora contribuindo para a introdução de algumas das patologias que contribuíram para a racionalização da vida social no seu sentido mais reificador, ou seja, no sentido de uma deformação das estruturas comunicacionais da vida social com vista à sua pura subjugação às exigências funcionais do sistema.

Sem o jornalismo, não se formaria opinião pública ou pelo menos esta teria uma configuração decerto diversa daquela que conhecemos. Porém, muitas das vezes graças a ele, e a dinâmicas que se geraram em seu redor, o mero consumismo de informação substituiu os mecanismos verdadeiramente públicos de formação da opinião. O jornalismo, como uma das formas mais antigas de indústria cultural

– uma das primeiras onde, efectivamente, a administração submeteu, de forma planeada e sistemática, a cultura a padrões que lhe eram exteriores – surge, assim, como merecedor de uma forte interpelação crítica.

Grande parte da resposta às perplexidades que semelhante interpelação crítica suscita passam pela compreensão do discurso mediático, no plano informativo. Interpela-se o jornalismo enquanto agente de controlo social, desafiado por uma dinâmica de fragmentação crescente, própria das actuais sociedades pluralistas.

Tem-se presente a ideia segundo a qual a cultura é simultaneamente veículo de valores estruturados em torno de uma visão dominante e consensualmente aceite, e um espaço de tensões e fragmentação onde se luta pelas transformações de sentidos. São essas tensões de sentido contraditório que se julgam discernir, de forma similar, nos media. Procura-se, assim, saber qual o papel que lhes é imputável na construção e representação das regularidades 14

Elementos para uma crítica da mediação moderna sociais tendo-se em conta, simultaneamente, a sua dificuldade estrutural em manterem-se dentro dos caminhos estreitos de uma representação mais ou menos monolítica do mundo social, num momento caracterizado por um pluralismo social intenso, resultante da recente revalorização atribuída à emergência das identidades minoritárias.

Dentro deste contexto, toma-se como um elemento fundamental a emergência de reivindicações e de movimentos relacionados com as “políticas da vida”, sendo estas entendidas como um conjunto de preocupações emergentes na polis, que já não se debruçam apenas sobre o devir do espaço público colectivo mas que têm em conta a definição do lugar que cabe aos direitos respeitantes à realização individual e à escolha dos estilos de vida. Vistas desta forma, estas preocupações podem implicar uma nova concepção de mundo da vida, atenta aos fenómenos de dominação, de poder e de conflitualidade existentes em territórios diversos daqueles que normalmente são confinados à chamada política tradicional. Mais ainda, concebe-se a possibilidade de se estar face a uma proliferação de mundos da vida, que implica o reconhecimento da diversidade de mecanismos de poder e regulação social – mas também de resistência – que se afirmam em cada um deles. Deste modo, é admissível aceitar a possibilidade de que esta proliferação de mundos da vida corresponda à erupção de nichos de cidadania, onde se oculta um potencial conflitual e normativo importante. Todavia, pode-se, ao invés, estar apenas perante a erupção de fe-nómenos hedonísticos próprios de uma época dominada pela mercantilização do self, em que a acentuação da fruição e do prazer individual apenas diz respeito à descoberta de novos segmentos de mercado e em que a substituição da cultura puritana tradicional dá lugar a formas de imperativo narcísico que, no limite, podem originar particularismos destrutivos, despertando formas de agressividade marcadas 15

Sociedade e Comunicação: Estudos sobre Jornalismo e Identidades pela exclusão do Outro. A questão está pois em tentar descobrir até que ponto a emergência do self e das políticas que lhe estão associadas representam uma forma hábil de dominação assente na dessublimação repressiva e na gestão dos desejos individuais (Marcuse), na celebração do mesmo sobre o signo de uma diferença aparente (Adorno), na desresponsabilização da participação colectiva com o consequente declínio do espaço público (Sennet) ou, pelo contrário, se trata da emergência de políticas da vida susceptíveis de serem articuladas com preocupações emancipatórias, como suspeitam, de modos muito diversos, Habermas, Apel ou Ferry, e, em especial, Seyla Benhabib, Albrecht Wellmer, Michael Walzer, Honneth, Touraine e Giddens.

De acordo com este corpo de preocupações que constitui o fundamento teórico deste debate, é lançada uma interpelação às dinâmicas sociais emergentes, reflectindo-se sobre as dificuldades sentidas em face de pretensões cada vez mais diversificadas e plurais, onde se incluem, entre outros, os desafios colocados pelas problemáticas étnica, feminina e, de um modo geral, a salvaguarda de novos direitos relacionados com a qualidade de vida, como sejam os de consumo e os direitos de ambiente. Procura-se, deste modo, demonstrar como essas pretensões, relacionadas com a emergência das políticas da vida, se afirmaram enquanto dificuldades adicionais para uma visão totalizante da sociedade, que se entendia, pelo menos nas formulações clássicas da teoria crítica, ser a visão típica veiculada pelos media. Poder-se-

á, pois, constatar a presença de pretensões levantadas pela emergência de identidades, designadamente étnicas e sexu-ais, às quais se acrescentam reivindicações colocadas por novos movimentos sociais que reclamam por direitos que dizem mais respeito à qualidade de vida do que à agenda política tradicional (Giddens, 1997:208-209). Nessa medida, parece frutuoso tomar como ponto de partida um olhar crítico 16

Elementos para uma crítica da mediação moderna sobre a hipostasiação do mercado, relacionada com a exploração de novos nichos, e a fragmentação cultural, resultante do exacerbamento de culturas particulares.

Procura-se, pois, discernir, na linguagem jornalística, de acordo com a importância atribuída aos media, a conformidade com o senso comum, com o saber partilhado por todos, tido por adquirido e socialmente aceite, fazendo-se um paralelo entre as atitudes imanentes à discursividade praticada pela profissão jornalística e a “atitude natural”, pragmática e realista, descrita por autores como Schutz ou Gurwitsch (Gurwitsch, 1975: xi-11; Schutz, 1975: 116-132).

É neste plano que nos parece mais evidente como o mundo da vida é, também, um lugar onde se multiplicam as formas de dominação adivinhadas por Schutz, expostas por Foucault (1971: 11-21; Foucault, 1977, p. 21 e seguintes), pelo que o senso comum, do qual a linguagem jornalística, como veremos, ambiciona aproximar-se, toma a forma de conhecimento própria da transmissão das normas e dos estere-

ótipos socialmente aceites.

Tenta-se, assim, fazer a relação entre o estabelecimento de regularidades e o conformismo, procurando demonstrar como a linguagem jornalística, devido ao seu constante recurso à tipificação, aos estereótipos e aos enquadramentos pode comportar processos de reificação, pervertendo a representação das identidades sociais.

Investiga-se a relação dos media com o tratamento da diferença identitária, tal como se manifesta, contemporaneamente, no espaço público, tentando-se descortinar uma ambiguidade que resulta de dois planos de actuação contraditórios entre si: por um lado, os media tornariam possível a afirmação da diferença como uma possibilidade de diversidade que constitua um aprofundamento democrático das sociedades; por outro lado, seriam, frequentemente, eles que reduziriam a luta pelo reconhecimento dessas identidades a uma mera exploração de 17

Sociedade e Comunicação: Estudos sobre Jornalismo e Identidades segmentos de mercado, multiplicados até ao infinito, através da intensificação consumista dos desejos individuais.

O poder dos media

Em face destas ambiguidades, reconhece-se estar perante duas vias aparentemente contraditórias mas complementares. Por um lado, enfatiza-se o ressurgimento do poder do jornalismo aceitando-se as contribuições teóricas mais recentes que apontam neste sentido – como sejam as hi-póteses sobre a construção social da realidade baseadas na Fenomenologia Social de Alfred Schutz e dos seus continuadores, Berger e Luckmann (1973) aplicadas aos media por Gaye Tuchman (1978: 14; 182; 185-188) e por Adoni e Mane (1984: 323-338), além das reflexões sobre tematização pensadas no âmbito do funcionalismo sistémico por Niklas Luhmann (1992) e aplicadas por Noel –

Neumann(1995: 199 e seguintes) - as quais claramente retomam, no plano da investigação sobre os efeitos dos media, uma posição que supera a teoria dos efeitos limitados (Saperas, 1993: 20).

Por outro lado, procede-se com Ferry (1995: 56-57), Best e Kellner (1998: 48; 67 e seguintes) e Strydom (1999: 17), entre outros, a uma recepção das diversas tentativas de elaboração de uma teoria crítica dos media - nomeadamente na sua componente informativa e jornalística - que redescubra a necessidade de uma ideia de público atenta às tensões plurais que emergem no seio da vida social e que implicam um novo entendimento, mais dinâmico, da ideia de recep-

ção.

Neste sentido, tentar-se-á demonstrar que o reconhecimento do poder do jornalismo não implica o entendimento da audiência como se fosse composta por “figuras de plasticina”. Com efeito, defende-se que as possibilidades reificadoras de uma linguagem tendencialmente niveladora 18

Elementos para uma crítica da mediação moderna e homogeneizante podem ser desafiadas com o recurso a políticas que impeçam a redução da luta simbólica à transmissão de informação e que impliquem, por isso, um acréscimo de participação por parte de públicos de cidadãos.

A narrativa jornalística, através de uma linguagem dotada de características próprias, intervém na conformação das di-nâmicas sociais, desencadeando mecanismos que afectam toda a actividade dos agentes na aquisição e reforço dos conhecimentos e normas pelas quais se pauta a compreensão do mundo, nomeadamente acompanhando o processo de reformulação das identidades sociais e colectivas.

A análise da erupção de identidades plurais - um movimento lento que, desde o 25 de Abril se consolidou em Portugal - demonstra a forma como o jornalismo se confronta com as suas várias possibilidades de representação do universo político. Assim, a título de exemplo, investigar-se-á a maneira como se articularam nesse espaço social simbólico os diversos discursos conflituais. Aí, verificar-se-

á que as mais diversas orientações sociais que emergem à margem do que é socialmente consensual são muitas vezes objecto de um tratamento que oscila entre o irónico e o fascínio pelo bizarro, sendo por isso, remetidos pelos media para o domínio vasto do fait-divers ou das histórias de interesse humano, as quais, quando tocadas pelo excesso, descaem facilmente no sensacionalismo. Ora, o sensacionalismo, apesar do seu ar aparentemente transgressor, é, apesar de tudo, uma forma de denunciar a transgressão, desempenhando, por isso, um papel socialmente conserva-dor. Nesse sentido, até alguns dos melhores jornais portugueses continuam a inserir reportagens que dizem respeito à identidade sexual no mesmo caderno onde se referem assuntos tão diversos como as tendências da moda, as pequenas maledicências entre políticos ou as desventuras da família real britânica.

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Sociedade e Comunicação: Estudos sobre Jornalismo e Identidades Veremos, assim, como a linguagem jornalística comporta contradições que se cruzam com a própria noção de objectividade. Tentando, por um lado proceder a um discurso factual e adoptando, por outro, o pensamento, a linguagem e o conhecimento do “homem comum”, o estilo jornalístico estrutura a realidade utilizando enunciados, qualificações e silêncios que procuram tipificar a realidade, escondendo o facto de que esses enunciados e qualificações não são neutros mas traduzem lutas simbólicas que têm lugar nos domínios político e social.

Sob o ponto de vista metodológico, afirma-se, desde já, que este trabalho se inclui numa certa visão das ciências sociais que repudia uma concepção cientificista marcada pelo objectivismo estreito e pelo desejo de aplicar os métodos das ciências naturais à vida social. O processo de superação do sujeito solitário, verdadeiro nó gordio de toda a epistemologia tradicional, não tem sido simples. O cientista social olhou durante muito tempo para o universo dos padrões culturais, sob o ponto de vista do investigador solitário, que contempla com objectividade ideal a comunidade que constitui o seu campo de estudo, e rejeita os desvios como se fossem aberrações impossíveis de serem objecto de um tratamento científico.

Nesse sentido, o ponto de vista assumido por esta tese torna-se claro quando nos confrontamos com os grandes dilemas fundadores da sociologia. De um lado, tem-se uma posição subscrita por Durkheim, numa linha que remonta a Comte, a qual pretende explicar e descrever como é que os indivíduos estão associados independentemente das suas concepções e necessidades e, do outro, encontramos uma outra posição assumida por Weber, Simmel e mais tarde, aprofundada, no plano das Ciências Sociais, pela Hermenêutica, Interaccionismo Simbólico e Fenomenologia Social, segundo a qual é preciso perceber a intersubjectividade, os significados mutuamente atribuídos às diferentes acções 20

Elementos para uma crítica da mediação moderna dos indivíduos para que possamos compreender as dinâmicas sociais e políticas das comunidades. Este último caminho enfatiza a noção de verstehen, graças à qual procuramos compreender o significado atribuído pelo outro às suas acções, em detrimento do ecklaren que procura estabelecer leis regulares que, à semelhança das ciências exactas, expliquem os fenómenos humanos.

A linguagem utilizada nas Ciências Sociais está longe de poder ser pensada como inocente, embora esta expressão não deva ser entendida como uma espécie de condenação de algo que devia ser de outro modo. A linguagem utilizada nos processos científicos só se torna ideologia quando se recusa a ser reflexiva. Dito de outro modo, quando se recusa a ver-se a si própria como resultante de uma relação que se não pode considerar desenraizada do próprio mundo da vida. Nesse sentido, recusa-se uma espécie de endeusamento da objectividade, sem a demissão do rigor científico. Ao analisarem-se enunciados para buscar a sua intencionalidade e sobre campos semânticos que remetem para valores ideológicos sabe-se que se fala do interior de uma determinada cultura e de um conjunto de referências políticas e sociais próprias da tradição cultural em que nos inserimos.

Porém, sabe-se que, apesar de o processo de atribuição de sentido implicar uma comunhão de saberes, isso não implica que não seja possível o estudo desses enunciados como fenómenos científicos.

Uma nova perspectiva crítica

Sob o ponto de vista da formulação teórica, a abordagem que aqui se propõe não se reduz a mais uma variação sobre a teoria dos efeitos, de que os paradigmas da agulha hipodérmica, do gatekeeper, do newsmaking ou do agenda setting constituem exemplos conhecidos. A análise que se defende deve surgir integrada num modelo teórico mais vasto.

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Sociedade e Comunicação: Estudos sobre Jornalismo e Identidades Procura-se, assim, ir mais longe e explicitar os fundamentos sociológicos e filosóficos de uma análise deste teor e efectuar os seguintes percursos:

i) recorrer à Teoria Crítica, à Fenomenologia Social, ao Interaccionismo Simbólico e à Hermenêutica no que respeita ao travejamento teórico que permita sustentar a reflexão a propósito das relações entre a linguagem dos media e a compreensão intersubjectiva das realidades social e política.

A Teoria Crítica, em especial, na primeira fase identificada com a Escola de Frankfurt, instaura uma pesquisa inovadora sobre a relação entre cultura, comunicação e o desenvolvimento concreto da modernidade, tendo-se mesmo esbo-

çado, em Adorno e Horkheimer, Marcuse e Benjamin, uma teoria da linguagem, especialmente da que é praticada na indústria cultural, que a relaciona directamente com a questão da racionalidade.

Todavia, as aporias desta escola, enraizadas numa filosofia da história que, nalgumas das suas formulações, implicou um impasse pessimista centrado numa concepção unilateral do devir da Razão, deram origem a sucessivas reflexões teóricas no sentido de se conseguir a superação dos seus contornos demasiado rígidos e totalizantes. Um destes percursos passa pela tentativa da ultrapassagem da visão unilateral da racionalidade, através do diálogo com a hermenêutica, e supõe a consideração das interacções sociais que se desenvolvem no mundo da vida, apelando a uma atenção muito especial à Fenomenologia Social, à tradição pragmatista e ao Interaccionismo Simbólico. O que se pretende é uma análise que tenha em conta as interacções sociais, os processos de socialização e os mecanismos de coordenação das interacções bem como o papel específico da linguagem, nomeadamente da linguagem dos media, na constituição da sociabilidade, na perspectiva normativa de defesa de uma sociedade civil aonde o sujeito não seja 22

Elementos para uma crítica da mediação moderna reduzido a um mero efeito de poder. Assim, interpela-se o próprio sentido das interacções sociais, e das formas de mediação que se exercem a fim de manter a regularidade e a estabilidade sociais, em face dos processos de diferenciação e fragmentação. Tenta-se compreender como essas formas de mediação se repercutem na emergência de es-paços públicos que se não reduzam à mera agregação das preferências dadas, originando, pelo contrário, um processo racional de formação de opinião no qual os cidadãos participem activamente na definição de interesses gerais.

Recorreu-se ao pensamento que, hoje, tenta estabelecer uma conceitualização teórica no plano da Política que corresponda aos novos desafios que se colocam às sociedades democráticas (Wellmer, Honneth) designadamente no papel da luta pelo reconhecimento. Por outro lado, procurou-se analisar qual o papel desempenhado pela linguagem na constituição da intersubjectividade, recorrendo-se à Hermenêutica, e mais uma vez, a Mead, Schutz e Habermas, na perspectiva de identificação das suas próprias potencialidades críticas e reflexivas. Finalmente, procurou-se estudar o papel da comunicação e da linguagem praticada pelos media no estabelecimento de consensos sociais, no desenvolvimento dos processos de interacção e no próprio devir do agir político. Neste caso, tornou-se essencial recorrer aos contributos de Adorno, Horkheimer, Marcuse e Benjamin, nos quais se vislumbram, apesar das suas caracterizações negativistas, poderosas intuições teóricas relacionadas com o devir concreto dos media. Simultaneamente, observou-se a importância dada aos media na constituição do agir democrático por uma tradição que incluiu autores como Tocqueville, Dewey, Habermas, Stuart Hall, Ferry e Thompson. O tema da identidade e da fragmentação do espaço público surge como nó orientador fundamental, justamente pelas interpelações e questões que coloca ao próprio devir do espaço público.

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Sociedade e Comunicação: Estudos sobre Jornalismo e Identidades Do contributo da Escola de Frankfurt recolheu-se a afirmação de necessidade de um olhar crítico sobre um mundo crescentemente alienado. A Teoria Crítica, de Adorno e Horkheimer, surge como defesa da reflexividade no pensamento, contra a exaltação positivista do facto, juntando o conhecimento científico dos factos sociais à reflexão filosófica (Bernstein, 1994: 18; Therborn, 1994: 68). Assim, tem por ponto de partida não apenas a oposição às patologias sociais mas às formas de pensamento que legitimam as sociedades que ostentam essas patologias.

A Escola de Frankfurt desenvolveu um pensamento crítico da razão, ela própria olhada, já não como um factor de emancipação do homem, mas como uma componente da sua dominação, enquanto integralmente identificada com a racionalidade meio-fins. A relação entre administração e cultura é um tema recorrente, típico do criticismo cultural desta posição teórica que viu, com excepção de Benjamin, na capacidade de conformação da indústria cultural -

designadamente no seu populismo intrínseco - uma força ao serviço do triunfo da unidimensionalidade. A diversidade de produtos culturais é apenas aparente e não põe em causa a uniformização da existência individual. “A indústria cultural a tudo imprime o selo da identidade” (Adorno e Horkheimer, 1995: 121).

A reflexão sobre a linguagem e, em especial, sobre a linguagem praticada na indústria cultural, inscreve-se no modelo de análise social que enfatiza a anulação de todas as contradições, em resultado da reificação das estruturas sociais. Desde o pós-guerra, adensa-se em torno da Escola de Frankfurt um pessimismo descrente das possibilidades emancipatórias, o qual se traduz na insistência no universo individual como sendo a única instância possível de exercício da negatividade e de resistência ao universo administrado. Torna-se visível, pese embora a lucidez dos diagnósticos acerca da relação entre totalitarismo e 24

Elementos para uma crítica da mediação moderna racionalidade, o avolumar de aporias e de impasses que conduzem a Teoria Crítica à incapacidade de compreender as possibilidades normativas do Estado de Direito e de identificar os eventuais protagonistas do exercício de uma prática de cidadania. Esta evolução é a consequência de uma crença inabalável no devir fatalmente instrumental (e consequentemente totalitário) da racionalidade finalista enquanto desenvolvimento extremado da análise weberiana (Benhabib, 1994: 115-131).

À crítica impressionista feita a partir de critérios elitistas consolidados em volta de uma idealização da kultur, os autores da Teoria Crítica acrescentaram um diagnóstico vivo sobre as relações entre uma certa leitura instrumental da racionalidade, a indústria cultural e a linguagem que lhe está associada. O seu principal equívoco foi o de terem identificado essa leitura da razão com a razão no seu todo, deduzindo de uma posição filosófica uma teoria social e da cultura que se afigura como totalizante, pouco atenta às contradições e às possibilidades de transgressão que as sociedades complexas, obviamente, possuem.

“O modo de pensar administrativo”, diz Adorno, “tornou-se o modelo de toda uma forma de pensar que ainda se acredita livre”(Adorno, 1992: 32). No limite, este pensamento redundou numa melancolia expressa em derivas estéticas e religiosas. O que subsiste são algumas intuições de grande fôlego teórico no que respeita à fundamentação filosófica do processo de racionalização e às relações que este estabelece com os diferentes mecanismos de socialização, designadamente a indústria cultural.

Outra tradição teórica, de natureza crítica, mas de especificidades bem definidas, é a de Foucault, especialmente importante pela análise das relações que, minucio-samente, estabelece entre linguagem, poder e dominação.

Existe de comum à Escola de Frankfurt e a Foucault uma insistência no caminho da crítica à racionalidade emergente 25

Sociedade e Comunicação: Estudos sobre Jornalismo e Identidades com o Iluminismo que sugere uma certa convergência de interesses susceptível de ser mobilizada para o estudo do nosso objecto. Simultaneamente, em ambas encontramos resquícios de um certo determinismo que se pressente numa certa inutilidade da recusa e da transgressão em face da omnipresença do poder e do sistema (Honneth, 1993: 71; 1997: 153). É aí que tem sentido falar, a propósito de Foucault, no “balanceamento entre o positivismo e a crí-

tica”. Do lado do positivismo, entendido como “contabi-lidade exaustiva das técnicas de dominação”, encontra-se a rejeição de qualquer possibilidade emancipatória e a desconsideração das potencialidades normativas das pretensões de validade que integram o jogo do poder. Do lado dos que identificam em Foucault uma relativa continuidade com a crítica, haverá a contabilizar a sua filiação explícita nessa tradição, expressa em entrevistas e textos, para além de diversos escritos que evidenciam uma aspiração crítica apenas esboçada, mas firmemente explicitada (Foucault, 1998:4).

A compreensão crítica dos mecanismos linguísticos e da sua importância na socialização e na estruturação da experiência irá passar, ainda, por alguns empreendimentos fundamentais, entre os quais merecem especial realce o Interaccionismo Simbólico, a Fenomenologia e a Hermenêutica.

No que respeita à Hermenêutica, o que dela merece destaque é a tradição que formulou a ideia de Verstehen por oposição à de Ecklaren. Com a compreensão, Dilthey procurou no fundo conferir um estatuto epistemológico próprio às ciências do espírito respondendo à pergunta acerca da sua possibilidade (Palmer, s/d: 105). Os fenómenos originados pela mente pressupõem um processo de reciprocidade em que cada um compreende a acção de outro porque se entende a si próprio e à experiência vivida de si.

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Elementos para uma crítica da mediação moderna Este tipo de análise não é necessariamente incompatível com uma teoria crítica na medida em que se entenda que a inovação e o questionar das alternativas possíveis para o destino do homem, pressupõem, elas mesmas, uma consciência do mundo a que se pertence. Ao analisar a intercompreensão inerente à “actividade comunicacional”, Habermas considera que a hermenêutica contribuiu para a introdução de um elemento que faltava à análise da linguagem: a historicidade. Todavia, não deixa de alertar para o facto de que, o que se oferece como preexistente e fundado pode tornar-se um contexto de dominação assente na pseudo comunicação (Habermas, 1997 b: 35;68).

Evitando concepções do mundo que parecem sustentar uma hipostasiação da tradição, entendida como lugar de consenso inquestionável, Paul Ricoeur tentou uma resolução dialéctica, sustentando que a hermenêutica e a crítica da ideologia necessitam uma da outra. O projecto de reinterpretação do passado e o projecto utópico da emancipação, quando artificialmente separados, assumem, cada um na sua perspectiva, um carácter ideológico. Por um lado, ao experimentar as interpretações possíveis que lhe permitem perceber a situação em que se encontra, o actor tem de se manter num estado de distanciamento, o que lhe permite rever as suas ilusões e preconceitos. Por outro lado, o interesse pela emancipação tem que recorrer ao legado cultural. O

conceito de distanciação surge, assim, apresentado como “o correlativo dialéctico da pertença” (Ricoeur, s/d: 35-40).

Frente a modelos que reivindicam um “esclarecimento total”, a hermenêutica insurge-se contra a total transparência no uso da razão, defendendo um diálogo do homem no mundo que supõe o exercício de uma racionalidade situada. O

abstencionismo e o crescimento do desinteresse, como efeitos perversos de um espaço mediatizado que não tenha em conta a dimensão comunitária da vivência dos cidadãos, são os sintomas de uma situação em que os mecanismos de mediação 27

Sociedade e Comunicação: Estudos sobre Jornalismo e Identidades não asseguram mais do que a difusão do simulacro de uma verdadeira interacção. A insistência numa ideia de comunidade que não implicasse, por seu lado, um certo distanciamento, tornar-se-ia, nas modernas condições de diferenciação que caracterizam as sociedades complexas, num insuportável contexto de dominação. Baseados no pensamento hermenêutico é possível olhar conceitos como os de democracia, espaço público e opinião pública, articulando-os com os de tradição e comunidade. A noção de cidadão implica um compromisso com a comunidade, a qual já não o deixa, de todo, entregue a uma opinião pública desencarnada. Há uma espécie de pertença constitutiva que só possibilita a afirmação da diferença no interior de um horizonte de reconhecimento garantido pela comunidade: dito de outro modo, é impossível pensar o eu sem uma ideia de nós. A comunidade não adquire a sua condição política a não ser na condição de uma abertura que interdita a ela própria a possibilidade de se fechar em si.

Na Fenomenologia Social, dá-se realce à crença de que o homem não foge à sociabilidade, pois está mergulhado nas regras de conduta que partilha no mundo da interacção quotidiana. Numa releitura do pensamento de Husserl, a Fenomenologia Social introduziu o conceito de atitude natural entendida como forma pela qual os actantes e agentes sociais intervêm no mundo das expectativas quotidianas de uma maneira ingénua e acrítica, recorrendo aos conhecimentos adquiridos na vida prática. Esta atitude implica a existência de dois modos de idealização: a primeira, segundo a qual

“assim foi, assim será”, pela qual aquilo que se revelou válido através da experiência permanecerá válido no futuro; e, a segunda, “podemos fazê-lo outra vez”, segundo a qual o que foi susceptível de ser conseguido através de um modo de agir, poderá ser conseguido no futuro através de um modo de agir semelhante (Schutz, 1975: 116).

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Elementos para uma crítica da mediação moderna Nesta perspectiva, a realidade só se pode entender estabilizada na sua identidade, graças à “reciprocidade de expectativas”, de acordo com a qual os actores chegam a um entendimento intersubjectivo em que colocam entre parênteses as suas diferenças de experiências para as considerar como idênticas. Cada uma das pessoas envolvidas lida com a característica de uma dada situação raciocinando como se ela estivesse no lugar da outra pessoa, viveria a situação comum da perspectiva de outrem e vice-versa. De modo mais ou menos ingénuo, acredita-se que aquilo que faz sentido para cada um de nós faz sentido para todos os outros. De modo idêntico, parte-se do princípio que os meus actos dirigidos aos restantes serão entendidos do mesmo modo que os actos dos restantes dirigidos a mim.

Desta forma, “os fenómenos em si são tomados como pressupostos. O ser humano, simplesmente, é considerado um ser social, a língua e outros sistemas de comunicações existem, a vida consciente dos outros é acessível a mim

- enfim, posso entender o outro e seus actos e ele pode entender-me e aos meus feitos. E o mesmo é verdade para os chamados objectos sociais e culturais, criados pelo ser humano. São pressupostos e tem o seu significado e modos de ser específicos” (Schutz, 1979: 56). O trabalho de Schutz deixou aberto o caminho para um conjunto de possibilidades no seio da análise dos processos de mediação. A teoria da comunicação na vida quotidiana prolonga-se na análise da importância dos media na formação da atitude natural e do conhecimento intersubjectivamente partilhado, levantando questões que são de interesse central, como sejam a da sintonia dos media com as regularidades sociais, que constitui um elemento característico da sua discursividade sobre o mundo.

O Interaccionismo Simbólico insere-se numa tradição que relaciona a comunicação com os processos de sociabilidade, abrindo caminho a uma teoria sobre as relações entre a 29

Sociedade e Comunicação: Estudos sobre Jornalismo e Identidades comunicação e o agir colectivo, designadamente no campo da política. Esta corrente tem por principal objecto a interacção, referida como acção social que se caracteriza por uma orientação imediatamente recíproca. O desenvolvimento do self é descrito como resultado das relações que o indivíduo desenvolve com a totalidade dos processos sociais e com os outros indivíduos que estão com ele implicados:

“o conteúdo do espírito não é senão produto de uma interacção social.” O indivíduo não se entende a si próprio, a não ser tomando em conta as atitudes do outro em relação a si no interior de um contexto social onde eles estão mutuamente envolvidos. A constituição do Self, na posição de Mead, pressupõe a consideração de um “outro generalizado”, isto é, a percepção de si enquanto membro de uma equipa ou de uma comunidade (Mead, 1969: 1; 6-7; 152-154; 135). Aponta-se, assim, para uma relação profunda entre o desenvolvimento humano e a vivência comunitária, no qual a comunicação desempenha um papel estruturante:

“aprender a ser humano é desenvolver, através do dar e receber da comunicação, o sentido de ser um membro individualmente distinto da comunidade” (Dewey, 1987: 154).

Linguagem e teoria crítica

A formulação crítica de Jürgen Habermas surge, finalmente, como referência essencial onde confluem as inquietações e perplexidades desencadeadas pelas diversas correntes já nomeadas. O pensamento de Habermas posiciona-se entre a crítica da modernidade e a afirmação dessa modernidade como um projecto ainda susceptível de ser cumprido. Esta tensão atravessa todo o seu trabalho, desde as primeiras obras sobre a esfera pública e o positivismo até ao recente desenvolvimento de uma teoria do discurso que tem implícita a aceitação do consenso argumentativamente fundado. A sua relação com a Teoria Crítica 30

Elementos para uma crítica da mediação moderna mantém-se no que diz respeito à defesa do projecto moderno e de um conceito de razão que mantenha incólume o interesse emancipatório.

A aproximação entre uma teoria da acção (fundada nas sociologias interpretativas) e a filosofia da linguagem parece-nos ser o elemento fundamental da obra de Habermas, uma vez que abre o caminho da relevância política e ética das interacções sociais levadas a efeito no mundo da vida quotidiana. A insistência na força comunicacional e crítica da linguagem é um elemento essencial no que respeita à definição de um ponto de fuga à exaltação da ordem que se faz sentir na racionalidade do tipo sistémico, já que a linguagem dificilmente nega, unilateralmente, a vocação de reflexividade e de alteridade que persiste, de cada vez, no lugar onde ela própria parecia ter instaurado um novo ponto de fechamento. A obra de Habermas insiste, assim, na força crítica da linguagem em torno da categoria do acordo como modelo de coordenação das interacções sociais, e da racionalidade comunicacional como modelo alternativo à racionalidade instrumental. Parte-se da ideia de que um sujeito solitário concebido na filosofia da consciência apenas pode conduzir a uma relação instrumental com o mundo. Pelo contrário, a compreensão do papel da linguagem é a trave mestra de uma teoria que visa identificar uma racionalidade que mantenha o interesse emancipatório, pois o uso da linguagem com vista ao entendimento com outrem é, ao contrário do carácter secundário do uso instrumental, o modo original do seu uso.

A posição de Habermas enfrenta dificuldades que emergem do papel da linguagem, da relação entre liberdade e racionalidade, das noções de consenso, de agir comunicacional e do carácter processualista das suas reflexões éticas e políticas. São numerosos os autores que lhe censuram o formalismo e o processualismo da ética e filosofia política apresentadas nos seus últimos trabalhos.

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Sociedade e Comunicação: Estudos sobre Jornalismo e Identidades Com efeito, para além da desconfiança generalizada em relação ao papel da linguagem e à relação, que lhe é atribuída, com o modo de vida emancipado, receia-se que um modelo político meramente processualista semelhante ao proposto por Habermas possa ser acusado de ser incapaz de proceder a uma mobilização dos indivíduos, no sentido de os fazer superar os modelos egocêntricos de vida em que se encontram envolvidos. A insistência na linguagem, ao possibilitar a construção de uma teoria centrada na ideia de um consenso racional fundado argumentativamente num debate onde todos possam participar em condições de igualdade e reciprocidade, gerou a suspeita de uma idealização da política.

O corolário seria uma concepção formalista do Estado Constitucional onde o simples respeito pela norma encontrar-se-ia impotente para proceder à mobilização dos cidadãos e poderia, quando muito, conduzir a uma relação instrumental com o Outro em que os sujeitos se demitem da sua cidadania para recorrer a instâncias judiciais a fim de fazerem valer os seus direitos (Taylor, 1992: 112-113).

A resposta passa, decerto, pela fundação de uma comunidade política onde vigore o agir moderno.

Porém, a mobilização dos cidadãos para esta prática democrática tem que se apoiar em algo mais do que em princípios que dizem respeito à racionalidade. Assim carece da existência de um objectivo democrático comum que mobilize a sociedade política. Todavia, também carece dos princípios que permitem a organização do discurso de uma forma que impeça a vivência comunitária de escapar à sua própria reflexividade, condição para uma vivência política moderna e um agir livre.

No que respeita, finalmente, ao devir concreto dos media, importa ter em especial atenção um conjunto de estudos feitos na área do jornalismo e que assumem as noções de

«tipificação» e de «construção social da realidade», na perspectiva dos compromissos sociais e dos consensos. Nesse 32

Elementos para uma crítica da mediação moderna plano, os media em geral, e o jornalismo informativo em particular, devem ser pensados no âmbito mais vasto de uma reflexão sobre a cultura e as relações com a sociedade: a cultura é claramente produzida com vista ao estabelecimento de um significado que imponha a ordem no mundo.

Ao tomar-se a comunicação como o nó gordio de uma interpelação sobre as questões do controlo social, pretende-se, afinal, descobrir acima de tudo, que tipo de interacção existe entre os públicos e os media e entre os membros do público entre si, designadamente no que respeita à articulação entre vivência pessoal e cidadania colectiva. Feito o diagnóstico do percurso empreendido pela imprensa de massa, o caminho passa por demonstrar a pluralidade de racionalidades que se cruzam no seio da indústria mediática e que, como tal, não permitem que se considere estar diante de um processo definitivo de fechamento, confrontando-nos por isso com opções éticas e políticas que não permitem respostas definitivas para as transformações estruturais que se verificam no espaço público. De um lado, verifica-se a concentração da propriedade, o aumento da desigualdade no acesso à informação, a generalização do infortainment.

Por outro lado, surgem as potencialidades desencadeadas pela generalização do uso de meios de comunicação per-sonalizados e a consequente possibilidade de proliferação de articulações complexas de canais horizontais e verticais entre grupos, indivíduos e instâncias de poder.

O que se ambiciona é, no plano da indústria mediática, a tentativa de pensar formas alternativas de comunicação que privilegiem uma relação dinâmica com os públicos, aberta à crítica e à partilha de saberes, ao confronto de opiniões e de argumentos, à pluralidade de discursos, por oposição ao paradigma constituído pela comunicação de massa. No caso particular da produção de informação, espera-se pers-crutar, nesta análise, traços distintivos das novas formas de mediação que passem pela recusa da inércia social e da 33

Sociedade e Comunicação: Estudos sobre Jornalismo e Identidades uniformização das atitudes. Estes traços distintivos poderão, eventualmente, implicar a formação, enfim, de uma opinião pública que tenha em conta as diversas instâncias críticas de legitimação das acções e enunciados produzidos pelos diferentes poderes, no decurso da intervenção cada vez mais diversificada dos movimentos sociais no interior de sociedades que se caracterizam pela pluralidade de valores e visões da vida.

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