Sou escrava do teu amor por Mary Wibberley - Versão HTML

ATENÇÃO: Esta é apenas uma visualização em HTML e alguns elementos como links e números de página podem estar incorretos.
Faça o download do livro em PDF, ePub para obter uma versão completa.

index-1_1.jpg

Sou escrava do teu amor (Dangerous Marriage) Mary

Wibberley

Bianca no. 37

Sou escrava do teu amor

“Dangerous Marriage”

Mary Wibberley

Shelley já tinha sido avisada! Então, o que foi fazer naquela ilha deserta, no meio do

oceano Pacífico, com Vargen, um homem que amava e depois maltratava as

mulheres? Ela pensou, em sua inocência, que podia conquistar Vargen e fazer dele

uma pessoa boa e honrada. Mas, naquela ilha, enquanto o sol se punha no horizonte,

Shelley percebeu, morta de medo, que estava à mercê daquele homem sem

coração! Ela podia gritar, pedir socorro,

mas não havia ninguém para acudi-la. Será mesmo que Shelley queria ser salva? Ou,

escrava do amor, queria morrer nos braços de Vargen?

Livros Florzinha

- 1 -

Sou escrava do teu amor (Dangerous Marriage) Mary

Wibberley

Bianca no. 37

CAPÍTULO I

Shelley tinha certeza de que aquele homem a estava seguindo. Enquanto

passeava pelo mercado e visitava a parte antiga de Avala, tinha-o visto por

poucos segundos, mas era o suficiente. Ele era inconfundível, alto, magro e

moreno. Mas só agora podia vê-lo de perto, no saguão do hotel em que

estava hospedada. Observou, com surpresa, sua entrada pelas portas

giratórias, indo em direçâo à recepção. Tinha um rosto estranhamente

atraente, quase cruel, uma tez morena-clara, perfil aquilino, maçãs do rosto

pronunciadas, cabelos pretos bem espessos. Ele se virou, como que

compelido pelo peso de seu olhar, e Shel ey pôde sentir a força dos dois

olhos castanho-dourados antes que ele se voltasse de novo, ostensivamente,

para falar com o empregado da recepção.

Uma raiva súbita tomou conta dela, e pôde sentir que o rubor afluía a seu

rosto, por um momento não soube o que fazer. Era ali que estava hospedada

e não queria ter ninguém seguindo-a ou sabendo qual era o número de seu

quarto, o que certamente aconteceria, se ela fosse pegar sua chave agora.

Sentou-se numa das poltronas de vime para olhar os cartões postais que

tinha comprado. Sua primeira ideia tinha sido subscritá-los ainda no saguão,

para poder enviá-los imediatamente, pondo-os na caixa de correio que havia

ao lado das portas giratórias. E agora não via nenhuma razão para mudar

seus planos por causa da presença de um estranho. Se ele ainda estivesse ali

quando ela terminasse de escrever, esperaria.

Abriu a bolsa com mão firme e tirou os cinco cartões. Muitos homens já a

tinham seguido antes, na Inglaterra. Porém, num lugar estranho, era

diferente, muito diferente, pois estava sozinha, a milhares de quilometros

de casa, por um motivo que só ela e seu pai sabiam. Até o leilão, dali a dois

dias, era muito importante que ninguém mais soubesse ou adivinhasse qual

era a razão real de suas férias em Avala. Ela não podia, de forma alguma,

fracassar numa missão dada por seu pai. Isso era impossível, e Shelley tinha

aprendido, com o passar dos anos, a evitar a força de sua cólera a todo

custo.

Seu pai sempre quisera um filho, nunca a tinha perdoado por ser menina. E

ela, de certa forma, tentava ser aceita, ser amada por ele. Agora esse era

seu grande teste: seria impossível fracassar na missão dada por seu pai.

Pela primeira vez, ele confiara totalmente nela, já que não tinha outra

escolha. Isso, entretanto, não alterava a im portância de sua missão. Piscou

forte para afugentar as lágrimas decidiu se concentrar no que escreveria

para sua antiga pajem, hoje vivendo numa casinha nos arredores de Londres.

A velha criada tinha sido seu único refúgio na infância, após a morte de sua

Livros Florzinha

- 2 -

Sou escrava do teu amor (Dangerous Marriage) Mary

Wibberley

Bianca no. 37

mãe. Com seu pai sempre viajando, não havia ninguém mais para se interessa

por ela.

Terminou de escrever e olhou ao redor. O homem tinha desaparecido. Havia

um grande grupo de turistas americanos, com sua máquinas a tiracolo,

camisas berrantes, rindo uns com os outro Mas, do homem, nem sinal.

Aliviada, Shelley despachou todos c cartões pelo correio, pegou a chave na

recepção, tomou o elevador e ao chegar a seu andar, abriu confiante a porta

do quarto.

Um homem sentado junto à janela se levantou e disse numa voz profunda e

agradável:

— Bom dia, srta. Reagan. Desculpe a intromissão, mas precisava lhe falar.

A primeira reação da moça foi fugir e já estava com a mão girando a

maçaneta da porta, quando ele disse:

— Conheço a verdadeira razão de sua vinda a Avala. srta. Reagan, a razão

secreta, e seria melhor falarmos sobre o assunto.

Hesitou, pálida e amedrontada. Virou-se e perguntou:

— O que quer dizer?

— Por favor, não tenha medo. Se preferir pode deixar a porta aberta;

contudo, o que tenho a dizer é muito pessoal.

Falava com um ligeiro sotaque e seu rosto de maçãs altas proclamava sua

origem eslava.

— Quem é você? E que história é essa de saber a razão real da minha

vinda? — perguntou ela corajosamente.

— Desculpe. Meu nome é Vargen Gilev e sou o dono deste hotel. Meu pai era

russo, minha mãe, francesa. — Fez-lhe uma mesura formal que,

curiosamente, não destoou. Vestido com calça cinza e camisa esporte azul,

tinha uma presença marcante, digna, mas também um quê de aventureiro,

devido às suas maneiras atrevidas. Shelley, apesar do calor tropical,

esperou, gelada, que ele explicasse:

— Sei que veio para comprar o hotel Catalina, do outro lado de Avala. Ele

será vendido em hasta pública daqui a alguns dias. Você veio, sob ordens de

seu pai, com um sobrenome falso, porque ele não quer que ninguém saiba que

está interessado na compra, sobretudo o atual dono do hotel Catalina, que

não pode saber, de forma alguma, quem você é.

Shelley foi até a cama e se sentou. O homem que dissera aquelas palavras

terríveis também se sentou, na cadeira junto à janela. Seu rosto estava na

sombra, o sol às suas costas, mas sua força e magnetismo podiam ser

sentidos no ambiente. Numa voz sumida ela perguntou:

— Por que está me dizendo tudo isso?

— Para que compreenda que sei tudo sobre você.

— Por quê? Eu tenho o direito de saber!

Livros Florzinha

- 3 -

Sou escrava do teu amor (Dangerous Marriage) Mary

Wibberley

Bianca no. 37

Encarou-o fixo, retomando seu autocontrole. Ela era uma lutadora. Desde a

infância tinha aprendido a ser forte, a aguentar golpes para não ser

eclipsada peia força da personalidade de seu pai. Este homem e seu pai eram

iguais. . .

— Eu também quero o hotel Catalina.

— É um leilão público. Qualquer pessoa pode dar seu lance. Se é tudo o que

tem a dizer, sr. Gilev, sugiro que se retire.

Shelley se levantou, ele também, dando alguns passos em sua direção, com

jeito amedrontador. Mas ela ficou firme, não queria demonstrar seu pânico

para não lhe dar essa vantagem.

Ele a fitou e ela pôde perceber outra vez aqueles olhos castanho-dourados,

ver os ângulos pronunciados de sua face, a pele morena, queimada de sol, a

força puramente animal que emanava dele. . e não pôde desviar o olhar.

— Mas não é só isso o que tenho a lhe dizer, srta. Reagan. .ou devo lhe

chamar por seu nome real, srta. Weldon? Há mais, muito mais.

— Então fale. — Ela também era alta e bem feita, longos cabelos escuros,

pele clara e olhos azuis, que nesse momento mostravam o desprezo que

sentia por ele.

— Posso, facilmente, dar um lance mais alto do que o seu, ou posso deixar

que você compre o hotel e assim, satisfaça seu pai. Para você é muito

importante ter sucesso, não é mesmo?

— Se já sabe tanto, deve estar a par disso também. É por isso que me

seguiu a manhã toda? Para descobrir mais sobre mim?

— Não. Eu a segui para ver se ia até o hotel Cataíina.

— E não fui, fui? Portanto, perdeu sua manhã. Só pretendo ir lá no dia do

leilão. Obrigada pelo aviso de que pretende ganhar de mim. Uma mulher

prevenida vale por duas. .

— Eu lhe contei pelo seguinte — sorriu —, porque tenho uma proposta a lhe

fazer. E, se oncordar com esta proposta, garanto-ihe que terá o hotel

Catalina; se não, prometo que não conseguirá.

— Saía! Saia já daqui! Não quero, saber de nenhuma proposta! — Os olhos

de Shelley faiscavam de indignação.

— Acho melhor me ouvir — disse ele, calmamente, — Por exemplo, sabia que

há um homem mandado por seu pai, que a está seguindo e verificando cada

um de seus passos? É por isso que a procurei aqui em vez de no saguão, lá

embaixo.

— Não seja ridículo! — retrucou, mas viu a expressão do rosto dele, quase

de pena, e hesitou.

— O nome do homem é Walter Grey, está no quarto 304, a dois quartos do

seu, e é empregado de seu pai, trabalhando no escritório de Londres.

Chegou aqui antes de você, já telefonou a seu pai para relatar sua chegada e

Livros Florzinha

- 4 -

Sou escrava do teu amor (Dangerous Marriage) Mary

Wibberley

Bianca no. 37

esteve seguindo-a por toda a parte. Tenho o registro de sua chamada

internacional no meu escritório. Ele estará presente na licitação de sábado,

observando seus mínimos gestos.

— Por que me diz tudo isso? — As palavras de Gilev a tinham destruído.

Shelley achava que seu pai tinha plena confiança nela mas, pelo jeito, estava

enganada. Tudo continuava igual. Uma sensação de humilhação profunda

tomou conta dela.

— Como pode saber se o espião de meu pai não está nos espionando agora,

esperando você sair do meu quarto?

— Porque nesse momento ele está "detido" na sala de espera lá embaixo,

esperando por um importante e fictício telefonema de Londres — sorriu

levemente. — Assim que eu descer será verificado que a chamada não é para

ele, mas sim para um turista americano com o mesmo nome. Vejo-a mais

tarde, srta. Weldon. — Passou rapidamente por ela, em direção à porta.

— Sr. Gilev! Espere! Essa proposta. . . o que é? Ele estancou, voltando-se

devagar.

— Preciso de uma esposa. Para mim é essencial estar casado nos próximos

sete dias. Estou lhe pedindo em casamento, srta. Weldon. Será

estritamente um arranjo de negócios, que só precisa durar seis meses, após

o que será anulado. Se concordar, o hotel Catalina é seu. Se recusar, então

é melhor voltar hoje mesmo para a Inglaterra, porque prometo-lhe que não

conseguirá comprá-lo. Eu o comprarei!

— Está louco! Saia! Saia já daqui!. Imperturbável, ele a encarou.

— Voltarei depois do almoço, por volta das duas. Até logo. Abriu a porta e

saiu. Shel ey sentou,na beira da cama, tremendo.

Uma vez passado o choque iniciai, ela começou a pensar mais claramente, seu

cérebro funcionando rápido. Havia muito a ser feito. Entreabriu a porta e

esperou. Depois de alguns minutos ouviu passos apressados no corredor.

Pôde ver, então, um homem grisalho, de meia-idade, abrindo a porta do

quarto 304.

— Sr. Grey? — chamou.

O homem parou, olhando para ela, mostrando-se alarmado.

— Sim? — respondeu com olhar apreensivo.

— Por que me seguiu durante toda a manhã?

— Desculpe, deve haver algum engano, srta. . .

— Deixe disso — retrucou ela. — Eu o vi me seguindo. Agora, antes que eu

chame o gerente, é melhor me explicar por quê. Detesto gente do seu tipo!

Trémulo, o homem engoliu em seco. Ela quase sentiu pena dele. Afinal, ele

teria que prestar contas de seu fracasso a seu pai, o que não seria nada

fácil.

— Olhe, deve. . ter havido algum. . — balbuciou.

Livros Florzinha

- 5 -

Sou escrava do teu amor (Dangerous Marriage) Mary

Wibberley

Bianca no. 37

— Espere um pouco! Eu o conheço, não é? Você é Walter Grey, trabalha

para meu pai! Mas que coincidência! Será que se importaria em me dizer o

que está fazendo em Avala, antes que eu telefone para meu pai e lhe

pergunte diretamente?

Ele fechou os olhos, derrotado. Poderia estar rezando ou procurando uma

inspiração súbita. De qualquer forma, ela agora sabia, sem sombra de

dúvida, que Vargen Gilev tinha lhe dito a verdade,

— Seu pai me mandou vigiá-la. Por favor, srta. Weldon, por favor. . .

farei qualquer coisa. . .

— Primeiro quero saber quais foram as ordens que recebeu, depois verei se

vou contar a papai ou não. Entretanto, quero a verdade, toda a verdade!

Venha até o meu quarto.

Ele a seguiu, Ela lhe indicou uma cadeira e se acomodou perto da janela.

— Vamos lá com isso! Conte tudo que sabe!

— Seu pai me mandou vigiá-la durante todo o tempo em que estivesse aqui.

— Embora nervoso, estava se recuperando. — Queria ter certeza de que a

senhorita não começaria a conversar com algum homem. . . falar com

qualquer pessoa. . .

— Quer dizer que papai não quer que eu me divirta, por isso você está aqui.

É isso? ,

— Mais ou menos — assentia, contrafeito.

— E o que faria se me visse saindo com um belo homem por aí?

— Telefonaria imediatamente para seu pai.

— E depois, o que aconteceria?

— Não sei. Provavelmente ele entraria em contato díreto com a senhora.

Estou apenas seguindo ordens, a culpa não é minha.

Uma raiva surda cresceu dentro dela, não contra o homem sentado a sua

frente, mas contra seu pai, que, mesmo distante, continuava controlando sua

vida. Depois de alguns instantes, disse:

— Pode ir. Eu não direi nada a papai, sob uma condição: pare de me seguir

por todo canto. Diga-lhe o que quiser, em seu relatório. Diga-lhe que estou

tomando banhos de sol, ou lendo, ou sei lá o quê. Suponho que vá ao leilão de

sábado?

— Sim — assentiu com a cabeça, desconsolado.

— E, em seguida, fará seu relatório a ele, para lbe dizer se fui bem-

sucedida ou não?

— Sim, essas são as ordens.

— Faça isso, mas, agora, deixe-me em paz. Sou adulta, sr. Grey. Tenho vinte

e três anos de idade. Acha realmente que precise ser vigiada como uma

criança?

Livros Florzinha

- 6 -

Sou escrava do teu amor (Dangerous Marriage) Mary

Wibberley

Bianca no. 37

— Não, ciaro que não! Mas é o meu emprego. . . é importante para mim, srta.

Weldon. Quando ele me pediu, não pude recusar. Ninguém jamais recusa

nada a seu pai.

— Eu sei disso melhor que ninguém! Não se preocupe. Cumpra a sua parte do

trato que cumprirei a minha. Eu sempre mantenho minha palavra, sr. Grey -

— disse ela, levantando-se.

Ele também se levantou, o alívio estampado em seu rosto.

— Muito obrigado, muito obrigado! Se contasse meu fracasso a seu pai eu

seria despedido!

— Vou descer para almoçar; sugiro que faça o mesmo, mas não aqui no hotel.

Adeus, sr. Grey.

Grey saiu rapidamente. Sheiley esperou alguns minutos, depois pegou sua

bolsa e foi até o elevador. A sala de jantar era agradável, com grandes

janelas dando sobre a piscina, repleta de turistas nadando, tomando

drinques ou se bronzeando ao sol. Ela pediu uma salada e, quando o garçom a

trouxe, perguntou:

— Poderia avisar o sr. Gilev que gostaria de falar com ele tão logo seja

possível, por favor?

— O sr. Gilev, madame?

— Sim, ele é o dono do hotel, não1?

—- Sim, claro. . . mas é alguma queixa, madame? — Não, está tudo perfeito.

Por favor, avise-o, sim? — disse com um grande sorriso.

— Claro, madame, imediatamente.

Saiu, agitado, e ela pôde ver que houve uma confabulação entre o seu

garçom, um outro e, finalmente, o maitre, que depois de minutos se dirigiu a

ela, apreensivo:

— Madame. . a senhora quer falar com o sr. Gilev?

— Isso mesmo.

— Ele é muito ocupado, madame. Posso ajudar?

— Por favor, diga a ele que a hóspede do quarto 302 está almoçando e

gostaria de vê-lo. Se ele disser não, não tem importância. Mas, por favor,

tente, sim?

O sorriso que acompanhou estas frases deixou o maitre sem entender o que

estava acontecendo, mas o importante é que fizesse o que tinha pedido.

Sheiley tinha chegado a uma decisão, nessa última meia hora, e quanto mais

cedo a comunicasse a Vargen Gilev, melhor. Senão, poderia mudar de ideia, e

não queria fazer isso. Estava num momento crucial de sua vida. Era agora ou

nunca.

O chão de tábuas largas fazia ressoar os passos que se aproximavam.

— Posso me sentar, srta. Weldon? — perguntou.

Livros Florzinha

- 7 -

Sou escrava do teu amor (Dangerous Marriage) Mary

Wibberley

Bianca no. 37

— Claro. — Esperou que se sentasse. — Eu disse ao sr. Grey que parasse de

me seguir, em troca prometi a ele que não direi a meu pai que já sei o que

está havendo.

— Foi por isso que me pediu que viesse? Para me contar isso.

— Não. Quero saber por que você quer se casar comigo.

— É uma longa história — encarou-a com expressão séria. — Está

considerando a minha proposta?

— Sim, estou. Porém, não quero me envolver em nada ilegal.

— Eu lhe asseguro que não há nada ilegal no caso. Meus motivos são

puramente de negócios. Sou um cidadão cumpridor das leis, como

poderá verificar.

— E, se me casar com você. . eu compro o hotel Catalina?

— Prometido!

— O que vem primeiro. . . o casamento ou a compra?

— A compra.

— Como pode saber se vou cumprir a minha palavra? Posso ir embora, uma

vez tendo os documentos em meu nome.

— Sua palavra me bastará — respondeu ele, com delicadeza.

— Realmente? — Shel ey, irônica. começou a rir.

— Além disso — acrescentou —, a certeza que eu não deixaria você sair da

ilha sem cumprir sua parte da promessa. — O sorriso que acompanhou essas

palavras não foi o suficiente para esconder a ameaça das mesmas. Sheliey

sentiu um calafrio percorrer seu corpo.

Ele se virou, chamando o maitre, que logo veio trazendo uma garrafa de

champanha num balde de gelo.

— Obrigado. Sérgio. E avise na recepção que não quero ser interrompido.

— Pois não, senhor.

— Tomaria uma taça de champanha comigo, srta. Weldon?

— Por favor. E é melhor que comece a me chamar pelo meu primeiro nome.

Shelley.

— Obrigado. O meu nome é Vargen. — Levantou a taça, num brinde. — A

nós! Ao nosso casamento!

Ela levantou sua taça em resposta. A situação estava se tornando irreal,

bizarra.

— Quando quer se casar? — perguntou ela.

— No sábado.

— E será estritamente um acordo de negócios? Um casamento apenas de

nome?

— Isso mesmo.

— Como posso ter certeza? — perguntou ela.

Livros Florzinha

- 8 -

Sou escrava do teu amor (Dangerous Marriage) Mary

Wibberley

Bianca no. 37

— Estou lhe dando a minha palavra. — Olhou-a, fixo, com aqueles incríveis

olhos dourados. — Por quê? Você é virgem?

A pergunta foi um choque e ela sentiu que ruborizava.

— Isso não é da sua conta! — respondeu, raivosa.

— Tem razão, só que gostaria de lhe assegurar que, se for, estará

duplamente segura. Não acho graça em deflorar donzelas, Prefiro minhas

mulheres bem experientes, e acho que você não é desse tipo.

— Você é extremamente direto e pessoal. E o que o faz pensar. .

— Que não tem experiência em sexo? — ele esboçou um sorriso. — Você

tem um ar inocente, meio fora de moda. que é diferente. .

— Você, obviamente, se considera um casanova, um conquistador! —

retrucou ela, agressiva.

— Por que acha que preciso de uma esposa?

— Não faço a menor ideia, é para provar que é homem? — disse isso com a

intenção de magoá-lo. Mas a expressão de seu rosto permaneceu inalterada.

— Eu não preciso provar nada, tenha certeza! — foi a resposta de Vargen.

A expressão de seus olhos, ao afirmar isso olhando para ela, fez com que o

sangue corresse mais depressa em suas veias. "Santo Deus", pensou, "aposto

que não precisa mesmo".

— Entretanto — continuou Vargen — o meu futuro sócio, que é uma pessoa

muito importante para mim e com quem pretendo entrar num negócio

bastante lucrativo, acha que meu atual estilo de vida não é suficientemente

estável, seguro. Se eu me casar, ele vai se sentir melhor. Aliás, deixou as

coisas bem claras. Ou eu me caso ou não há sociedade. E, já que esta

sociedade é extremamente importante para mim, vou me casar.

— Duas coisas — Shel ey conseguiu dizer, se recuperando rápido do efeito

avassalador de suas palavras. — Uma: por que não se casa com alguma das

muitas mulheres que você conhece tão bem? Duas: não acha que é

totalmente desonesto fazer isso? O que dirá o seu sócio quando, daqui a

seis meses, o nosso casamento for anulado?

— Você tem uma mente lógica e perceptiva. Vou responder primeiro à

pergunta número dois: daqui a seis meses meu sócio já terá confiança em

mim e em nossa empreitada. Só preciso de uma chance para poder provar

meu valor. Quanto à primeira pergunta — sorriu — a resposta é simples: sim,

conheço muitas mulheres, mas nenhuma delas aceitaria um casamento de

nome apenas. . ou aceitaria rompê-lo no final de seis meses. Está

entendendo?

— Perfeitamente — murmurou ela, cinicamente. — Você é irresistível! Elas

não suportariam dizer adeus e viver sem o seu amor!

Livros Florzinha

- 9 -

Sou escrava do teu amor (Dangerous Marriage) Mary

Wibberley

Bianca no. 37

Shelley lhe lançou um sorriso calmo, frio, e viu a sombra de algo

perturbador nos ofhos dele, algo que desapareceu rápido, quando

respondeu:

— Mas há mais uma outra razão.

— Nossa! Ainda mais?

— É você — disse, suavemente, e Shel ey sentiu um arrepio na espinha pela

forma como a coisa foi dita. — Você é ideal para o meu propósito. O meu

futuro sócio é um homem meio antiquado, e você tem. , . qual é a palavra., .

Ah, sim, classe. Você tem classe, Shelley! E isso é algo que não posso

comprar numa loja.

— E suas mulheres não têm?

Sem saber por quê, sentia uma raiva surda. Talvez pela sensação de estar

sendo considerada m pedaço de carne, que se compra por peso num açougue.

— Não, como você, não. Mas vamos falar de você. Shel ey. Você também tem

suas razões para concordar com esse trato. Eu me pergunto quais seriam

elas.

Shelley não tinha a menor intenção de lhe dizer a verdade, verdade que nem

ela queria admitir. Aguentou o peso de seu olhar calmamente.

— Sua chantagem é totalmente irresistível!

Seus olhos escureceram e ela teve a horrível impressão de que ele podia ver

dentro dela.

— Não, não é isso. É que você pensou bem sobre o que lhe contei, sobre o

espião mandado por seu pai. Isso a perturbou mais do que qualquer coisa que

seu pai jamais tenha feito.

— Por favor, eu não quero falar sobre isso.

Uma sensação de pânico se apossou dela. Olhou em volta e viu que a sala

estava praticamente deserta. Agora, era fria e escura, contrastando com o

dia ensolarado lá fora. Queria ir embora, sair dali, mas para onde?

— Não, eu sei — replicou calmamente, pondo mais champanha na taça dela.

— Tome mais um pouco. Não pensei que estivesse tâo perto da verdade.

— E não está — a resposta veio cortante. — Não é melhor falarmos de

arranjos práticos?

— Eu tomarei conta de tudo. — Olhou o relógio. — Talvez pudéssemos

jantar às oito e eu lhe daria os detalhes.

— Muito bem. Então, com licença.

Precisava ficar sozinha para pensar na enormidade do que tinha concordado

em fazer. Levantou-se e ele também.

Quando Shel ey saiu da sala, olhou para trás e pôde vê-lo fumando,

calmamente, sentado na mesa que tinha acabado de deixar. Parecia estar

sorrindo.

Livros Florzinha

- 10 -

Sou escrava do teu amor (Dangerous Marriage) Mary

Wibberley

Bianca no. 37

CAPÍTULO II

Shefley saiu do chuveiro, vestiu um caftan confortável, de algodão azul, e

deitou na cama, tentando pensar nos choques que tinham se acumulado

desde a manhã. A pior lembrança era a da verdade que tinha sido dita, a

verdade que ela não queria reconhecer, bem dentro dela. As palavras de

Vargen ecoavam em sua mente cansada; "E isso a tocou mais do que qualquer

outra coisa que seu pai tenha jamais feito". Como se ele soubesse como seu

pai era. . E talvez soubesse! Ele parecia saber tudo!

Em três dias estaria legalmente casada, mas não com Alec Masters, o

homem escolhido por seu pai, filho de seu único amigo. Ela nem gostava nem

desgostava de Alec, era impossível sentir alguma coisa por um homem que

tinha tanta personalidade quanto uma gelatina de morango. Ultimamente, a

pressão estava aumentando. E seu pai conseguia sempre tudo o que queria,

ou, pelo menos, tinha sempre conseguido até agora. Até hoje quando ela

liberta pela distância física que os separava, tinha finalmente enxergado a

verdade. Sheliey, triste e sozinha, chorou pelo amor que nunca tinha tido e

jamais teria: o amor de seu pai. Então, exausta, adormeceu.

A campainha do telefone acordou-a.

— Alô! Srta. Reagan? Aqui é da recepção. O sr. Gilev apresenta seus

cumprimentos e pergunta se a senhorita gostaria de se encontrar com ele

para um drinque, em seu apartamento, antes do jantar.

— Que horas são? — perguntou.

— Seis e meia, senhorita. O sr. Gilev quer saber se as sete horas está bem.

Também já providenciou sua mudança para a suíte laranja, hoje à noite.

— Sete? Está bem. . . mas não sei onde é o apartamento dele.

— Se quiser telefonar para a recepção quando estiver pronta, senhorita,

mandarei alguém acompanhá-la até lá. Boa tarde.

A linha foi cortada e ela ficou olhando para o aparelho, meio sem ação.

Drinques antes do jantar com seu futuro marido! Uma fria transação com

um homem despótico não poderia ser considerada um casamento. Decidida,

levantou-se para começar a se preparar.

É claro que ele tinha que morar numa linda cobertura, pensou Sheliey

consigo mesma, ao descortinar a vista esplêndida que se abria à sua frente.

As luzes da cidade faiscavam na penumbra da noite que se aproximava.

Avala, com seu porto cheio de barcos e iates, parada obrigatória dos

cruzeiros de alto luxo, era uma ilha rica, uma armadilha para turistas,

localizada no meio de um arquipélago do Oceano Índico. No terraço, a brisa

que acariciava seu rosto servia para refrescar sua mente, onde pensamentos

caóticos se entre-cruzavam.

Livros Florzinha

- 11 -

Sou escrava do teu amor (Dangerous Marriage) Mary

Wibberley

Bianca no. 37

Da pequena cozinha do apartamento, onde estava pegando gelo para sua

vodca, a voz de Vargen se fez ouvir.

— É aqui que vamos morar, Shelley. Você gosta?

— A vista daqui é linda, incrível.

Ele se aproximou trazendo uma bandeja cheia de copos, garrafas e gelo,

com um pratinho de aperitivos.

— Estava me referindo ao apartamento.

Ele estava agora com calça esporte bege-clara e uma camisa combinando, o

que o fazia parecer muito bronzeado e. . extremamente bonito. O coração

dela deu um sobressalto. De repente, entendeu por que suas mulheres

jamais o deixariam de modo próprio. Com medo que ele compreendesse seus

pensamentos, desviou o olhar, observando a sala em que se achava.

Acostumada desde cedo ao luxo e a sofisticação, Shel ey pôde perceber o

bom-gosto que imperava nos mínimos detalhes da decoração. Nuances de

azul e verde, numa harmonia sóbria, davam à sala um ambiente acolhedor.

Pondo a bandeja sobre uma bela mesa de onix, ele disse:

— Por favor, sente-se.

Ela afundou na maciez do grande sofá e, após um momento, ele também se

sentou. . não perto, mas também não longe; próximo o bastante. Shel ey

sentiu um arrepio percorrê-la. Temia que a tocasse. Sentia-se vulnerável,

insegura e mais sozinha que nunca em sua vida. Ele preparou a vodca e

levantou o copo num brinde. — À sua saúde, Shelley!

Shelley levantou o seu em resposta. As palavras não linham sentido, pensou

ela. Para Vargen ela nada importava: era um trunfo de negócios. Por sua vez,

Vargen era apenas um meio de ela se vingar de seu pai.

Bebeu um gole do vinho e descansou o copo sobre a mesa. Ainda havia tempo,

bastava ela lhe dizer que não ia continuar com isso, com essa loucura. . ir

embora. Então, poderia voltar para seu pai e lhe dizer que tinha falhado. Ele

nunca a havia perdoado por ter nascido mulher, agora, jamais a perdoaria

por seu fracasso. Sua boca tinha um gosto amargo quando disse:

— Espero que não se importe por eu falar francamente, mas uma vez

terminado esse arremedo de casamento, eu não serei bem-vinda de volta à

casa de meu pai. Provavelmente, ele romperá comigo no minuto que souber

que estou. .

— Casada? Já preparei um contrato para você assinar, logo após nosso

casamento. Você será bem cuidada. Não há o que se preocupar em termos de

dinheiro. Quer vê-lo agora?

— Não, no sábado está bem,

Shelley olhou para Vargen na meia-luz ambiente. Seu rosto estava

sombreado e lá fora a noite já tinha chegado, pondo no ar uma fragrância

doce, envolvente. Um ambiente perfeito para namorados. Tudo tão bonito

Livros Florzinha

- 12 -

Sou escrava do teu amor (Dangerous Marriage) Mary

Wibberley

Bianca no. 37

que ela sentiu seu peito se apertar Sofria com uma sensação que não

compreendia bem; com um sorriso de angústia desviou o olhar. Vargen era

como seu pai: insensível, duro, cruel. Imaginou, então, que ele jamais tinha

amado nenhuma de suas amantes. Mas será que já tinha amado alguma

mulher? Esta era uma pergunta que ela não poderia. . . não iria nunca lhe

fazer.

— Está com frio?

— Não. — O encanto foi quebrado, com suas palavras. "Estou com frio e

perdida", pensou ela, "mas você nunca entenderia isso." — Está até

agradável. Eu gostaria de dar uma volta a pé mais tarde. É seguro?

— Em Avala? — sorriu. — Não para mulheres caminhando à noite, sozinhas.

Mas eu a acompanho, se quiser.

— Ah, não, obrigada. — Sua resposta deve ter saído abrupta, pois ele

levantou uma sobrancelha, divertido.

— Você estaria perfeitamente segura comigo.

— Não era isso. Não tem importância,

— Mas eu insisto.

Afinal, que importância havia, pensou.

— Muito bem. . . obrigada então.

Uma discreta batida na porta anunciou a chegada de dois garçons que

traziam o jantar num carrinho.

— Eu prefiro jantar aqui — disse Vargen — Espero que esteja bem para

você.

Ele fala como se eu tivesse alguma opção, pensou Shelley.

— Claro, tudo bem.

Será que Grey já tinha feito seu relatório de todas as noites a seu pai? Ela

também devia telefonar para casa todos os dias. As ordens de seu pai eram

claras. Enquanto os garçons arrumavam a mesa,

Shelley olhou para o relógio e viu que passavam das sete horas,

— Posso usar o telefone? — perguntou a Vargen.

— Claro. Tenho uma linha direta, no meu quarto. Venha que lhe mostro

— disse, levantando-se.

Três degraus levavam a um quarto amplo, espaçoso, com uma enorme cama

ao centro, sobre a qual havia uma colcha de seda branca. Shel ey não disse

nada, mas seus olhos se fixaram na cama. quase que num transe hipnótico.

Vargen pareceu não notar, limitando-se a mostrar o telefone, na mesinha de

cabeceira, indicando uma porta espelhada, disse:

— O banheiro é ali, se quiser lavar as mãos antes do jantar.

— Muito obrigada.

Sheliey esperou até ele sair, antes de pegar o fone. Não queria telefonar

para seu pai, nem lhe contar nada antes do casamento. Ele era bem capaz de

Livros Florzinha

- 13 -

Sou escrava do teu amor (Dangerous Marriage) Mary

Wibberley

Bianca no. 37

dar um jeito de impedir a cerimónia, mesmo que isso significasse vir de

avião até Avaia. Agora que tinha tomado uma decisão, pensou ela, ninguém

iria mudá-la. Sua boca estava seca de apreensão. Mas não foi seu pai, e sim a

governanta, quem atendeu.

— Ah, senhorita, ele deixou recado avisando que iria chegar tarde. Pediu

que lhe telefonasse de novo à meia-noite, hora de Avala. Agora ele saiu para

almoçar e jogar golfe com o sr. Masters.

— Está bem. Eu ligo mais tarde, então. Avise que eu telefonei, sim? Até

logo, sra. Redmond.

Shelley desligou, com uma sensação de alívio. Havia uma diferença de muitas

horas entre a Inglaterra e Avala. Era perfeitamente normal que seu pai

tivesse saído para jogar golfe com seu futuro sogro. Só que nunca seria seu

sogro agora, pensou ela. Resolutamente, saiu do quarto e ficou por um

momento no topo dos três degraus, observando a sala. Vargen, com um

drinque na mão esperava por ela. Os garçons já tinham ido, os dois estavam

sozinhos. .

— Achei melhor eu mesmo servir. Espero que não se. . .

— Pelo amor de Deus; pare com isso! — explodiu ela. — Até parece que você

se importa com a minha opinião! Por favor, não insulte a minha inteligência.

Desceu os degraus, com seu longo vestido de algodão azul, e ao se aproximar

dele pôde perceber a breve faísca de raiva que brilhou no rosto de Vargen

antes que pudesse controlá-la. Sentiu um arrepio de medo, seguido de

satisfação. Talvez, no final das contas, ele não fosse assim tão isento de

emoções. Ele ficou lá, parado, observando sua aproximação. Ela nem sabia

por que é que continuava andando sm sua direção. Era como se uma força a

impelisse. Seu rosto estava pálido, porque uma tontura súbita a invadia. Mas

ela não iria deixar que ele percebesse isso.

— Não precisa fingir quando estamos sozinhos!

— Boa educação não custa nada. Você não está acostumada? — replicou

Vargen. sua voz controlada, fria.

— É só isso?

A sala começou a girar à sua volta. Ele pegou seu braço para apoiá-la.

— O que há?

Vargen segurou-a com ambos os braços. Como era tão alto, Shelley teve que

levantar o rosto para ele. Viu o que estava em seus olhos e quis se afastar,

mas não podia.

— Estou meio tonta. . . .

— Você comeu muito pouco no almoço. Num clima como esse é importante

comer a intervalos regulares,

— Estou começando a perceber isso. Por favor, pode me deixar. Já estou

bem agora.

Livros Florzinha

- 14 -

Sou escrava do teu amor (Dangerous Marriage) Mary

Wibberley

Bianca no. 37

Mas não estava. A tontura havia passado, mas tinha sido substituída por algo

mais perturbador. A proximidade de Vargen, seu toque, era como uma força

poderosa que a arrastava para um abismo de loucuras. Nunca antes tinha

encontrado um homem que a afetasse tanto fisicamente. E, mesmo não

gostando dele, por tudo aquilo que ele era, não podia mais negar que o

achava totalmente fascinante. Levantou o rosto, viu o dourado do seu olhar,

sentiu sua respiração mudar e desejou que ele a beijasse. Mas com um

gritinho tentou se libertar.

— Por favor. . . — murmurou. — Me largue! Não gosto que me agarrem!

Seu coração batia tão forte que era impossível que Vargen não ouvisse. Com

o instinto feminino, Shelley percebeu que ele também estava perturbado

com a proximidade dela, que o potencial explosivo da situação não era

imaginário. Ele fez um esforço perceptível para se afastar.

— Claro.

Sua voz se endureceu ao soltá-la. Mas era como se ainda a segurasse.

Ninguém se moveu, presos numa teia invisível de tensão. Shel ey podia ver

suas silhuetas refletidas no vidro da janela. Ele alto, poderoso; ela frágil e

delicada.

— Eu. , . estou com fome.

Foi como se as palavras desfizessem o encanto. Ele se moveu, ajudando-a a

sentar. Antes de poder refletir muito, Shel ey disse, num impulso.

— Sinto muito pelo que disse há pouco,

— Você não estava se sentindo bem — respondeu Vargen, sentando-se à sua

frente, à mesa. — Conheço sua opinião sobre mim. , . e você está certa, eu

sou tudo o que você pensa. . . mas eu sempre a tratarei com cortesia,

porque isso também faz parte de minha personalidade.

A raiva tinha desaparecido. Sua voz era firme, controlada. A incrível tensão

de minutos antes parecia ter sumido. . . mas não totalmente. Alguma coisa,

uma sensação indefinível, pairava no ar.

No prato de Shel ey havia uma entrada com aparência muito apetitosa, uma

mistura de frutos do mar com abacate.

— Por favor coma.

— Parece delicioso — murmurou ela.

— Tenho aqui um ótimo vinho. Você quer tomar já?

— Depois. É mais sensato comer um pouco primeiro, acho eu.

— Isso mesmo. E, depois do jantar, um passeio a pé vai lhe fazer bem.

— Sim, acho que tem razão.

A conversa banal parecia querer encobrir o que não podia ser dito. Vargen

estava de costas para a janela, sua silhueta, uma mancha escura contra o

brilho da noite. Lá fora as estrelas cintilavam; dentro, a luz das velas

tremulava numa brisa suave, adoçando seus traços e iluminando a mesa deles

Livros Florzinha

- 15 -

Sou escrava do teu amor (Dangerous Marriage) Mary

Wibberley

Bianca no. 37

com um brilho dourado. Shelley sentia a tensão, pouco a pouco, crescer de

novo. Mas não havia nada que pudesse fazer contra isso, pois estava numa

situação tão totalmente nova que era quase amedrontadora.

Shelley queria que ele fizesse amor com ela. Decidida, olhou fixamente para

o prato, concentrando-se nos últimos bocados de abacate. Nunca antes

tinha desejado um homem assim. O incrível era que nem mesmo simpatizava

com ele. A certeza de seu desejo a amedrontava. Quando poderia escapar?

Aquilo tinha que terminar agora. , . agora. . . antes que ela se humilhasse

demais.

— Sinto muito. . . mas não posso mais continuar com essa farsa. Trémula,

esperou pela cólera dele.

— O casamento?

— Sim. . . não posso. . .

— Tudo bem — disse, levantando-se com a maior calma. — Você prefere

galinha ou carneiro?

— Não ouviu o que eu disse? — perguntou, espantada.

— Ouvi perfeitamente. Talvez seja melhor conversarmos depois do jantar.

— Mas, eu não quero..

— Você precisa comer. Se preferir, podemos conversar enquanto comemos.

— Então. . . para mim qualquer coisa. . .

Eia o observou enquanto servia os pratos, com generosas porções de

carneiro acompanhado de verduras. Só depois é que ele falou:

— E o que vai dizer a seu pai?

— A verdade. Não posso continuar. . . com essa palhaçada. Tentou continuar

a comer, não conseguiu, teve que descansar os talheres e se acalmar, antes

de dizer:

— Sinto muito, Vargen, de verdade. Eu vou ter que ir para casa e enfrentar

meu pai, e isso, acredite, não vai ser muito divertido. Mas, de repente,

agora há pouco, percebi que não é direito casarmos como estamos

planejando. Se eu um dia me casar, quero que seja por amor, quero amar o

meu marido.

Shelley calou-se. Vargen não parecia estar bravo. Seu rosto não mostrava

expressão alguma. Escutava-a com atenção, como se ela estivesse falando

do tempo.

— Vou-me embora amanhã — completou Shel ey.

O silêncio que se seguiu a suas palavras foi aumentando num crescendo, até

que ela sentiu que não aguentava nem mais um segundo. Mordeu os lábios

para não gritar.

— Obrigado por me dizer.

— Não está zangado?

— Não. Esperava que ficasse?

Livros Florzinha

- 16 -

Sou escrava do teu amor (Dangerous Marriage) Mary

Wibberley

Bianca no. 37

— Sim. — Teve que segurar seus joelhos para que parassem de tremer.

— E agora vou lhe contar uma coisa, Shelley. O hotel Catalina já é meu. Eu o

comprei há duas semanas num negócio secreto. Todavia, eu o venderei para

seu pai, através de você, pelo mesmo preço que paguei.

Shelley não conseguia acreditar no que estava ouvindo. As palavras que

escutava eram claras, mas lhe pareciam uma brincadeira doentia, cruel.

Virou-se e deixou a mesa, mão na boca, em direção ao banheiro. Correu,

tropeçando, pelo quarto dele até chegar à porta do banheiro.

Quando voltou, alguns minutos mais tarde, estava muito pálida, mas

composta. O que Vargen dissera era uma coisa tão cruel que agora tinha

certeza que a sua decisão de ir embora era a correta. Ele não era apenas

frio e mau, mas mentalmente doente. Ele estava em pé na sala, esperando

por ela. Tentando valentemente manter o controle, disse da forma mais fria

possível:

— Por favor, deixe-me passar. Vou deixar seu hotel esta noite mesmo. Só

posso lhe dizer o seguinte. . eu o acho desprezível.

— Pensou que estivesse brincando? Estava falando sério. Shel ey o olhou

com um misto de ódio e desprezo.

— Só pode ser brincadeira de mau-gosto.

— Não costumo fazer brincadeiras desse tipo. Admiro sua coragem e, por

essa razão, e por essa razão somente, estou liberando-a do trato que

fizemos, da "chantagem" que lhe impus. Amanhã de manhã bem cedo vamos

falar com meu advogado e eu transferirei as ações do hotel Catalina para

seu nome.

Ele a segurou quando caiu, e a carregou até o sofá, embaixo da janela.

Quando Shelley voltou a si, ele estava ajoelhado a seu lado, banhando seu

rosto com uma toalha úmida.

— É verdade? — murmurou ela, quando voltou completamente a si. — Falava

a sério, não é?

— Sim. Dou-lhe minha palavra.

— Eu. . . o que vou dizer para agradecer? — para seu horror, começou a

chorar.

— Não diga nada.

A voz de Vargen parecia vir de muito longe. As comportas de sua emoção

como que explodiram. Anos de repressão, de amor rejeitado, de luxo estéril,

lar sem amor, vazio, tudo isso estava sendo liberado naqueles minutos.

Sentiu que ele a abraçava, confortando-a, e estremeceu.

— Por que está chorando? Não é isso que queria? Com um último esforço

conseguiu se controlar.

— Sim, mas não posso deixar que você. . .

Livros Florzinha

- 17 -

Sou escrava do teu amor (Dangerous Marriage) Mary

Wibberley

Bianca no. 37

— Já está resolvido. Dei-lhe minha palavra. Bom, agora vamos secar essas

lágrimas e terminar o jantar, senão não terá forças para tomar o avião de

volta para casa.

Ajudou-a a levantar e levou-a de volta à mesa. Será que ele não sabia, não

compreendia o que a sua proximidade lhe fazia? Não percebia o quanto ela o

desejava?

— Agora, chega de chorar e coma! — ordenou ele, como se não entendesse

os sentimentos dela.

Obediente, ela seguiu suas ordens. Quando terminou, sorriu e teve que

admitir:

— Sinto-me bem melhor.

— Ótimo. Agora, sente-se ali, junto à janela, enquanto faço um café para

nós.

Finalmente, o significado do que Vargen estava disposto a fazer estava

ficando claro em sua mente. Se quisesse, podia voltar amanhã mesmo para

casa, com as ações do hotel Catalina, missão cumprida, e seu pai satisfeito

com ela. E isso, no final das contas, era tudo o que ela queria da vida. Viu o

rosto de seu pai, sorrindo, e, então, a imagem foi substituída pelo rosto de

Vargen, e ela percebeu que não era o bastante.

Quando, daí a instantes, Vargen entrou com as xícaras de café ela olhou

para ele e disse calmamente:

— Minha parte do negócio continua de pé. Caso com você no sábado. Também

lhe dei minha palavra.

Estava totalmente controlada e sabia muito bem por que estava dizendo

aquilo. Ele não o nunca saberia,

— Muito obrigado — foi tudo o que ele disse.

— Será que depois do café podemos ir dar aquele passeio a pé? Acho que

temos muito que conversar.

— Claro, quando você quiser. Estou a sua disposição.

Caminharam pelo velho cais, com os barcos atracados balançando

suavemente, passando também pela praia, pelas casinhas dos pescadores, e

Sheliey pensou que, durante seis meses, ela ia viver ali, naquela ilha. Era um

pensamento estranho. "Vou viver com ele e não vou viver com ele." E isso

parecia ainda mais estranho.

Os planos eram bem claros, Vargen explicava e ela assentia, concordando

com os termos daquele casamento de mentira. Ela teria liberdade para

fazer o que quisesse, dentro de certos limites, é claro, desde que estivesse

preparada para servir de anfitriã quando recebesse seus amigos de negócios

e sobretudo seu padrinho. . . o homem com quem faria a sociedade. Shel ey o

conheceria no dia do casamento. A lua-de-mel seria no iate de Vargen.

Livros Florzinha

- 18 -

Sou escrava do teu amor (Dangerous Marriage) Mary

Wibberley

Bianca no. 37

Durante seis meses Shelley representaria o papel da esposa apaixonada e

depois eles se separariam. Haveria uma anulação discreta.

Suas palavras eram curtas e precisas. Não havia a mínima tensão. A mente

de Vargen estava totalmente preocupada em especificar bem os termos

daquele negócio, o que para ele era o que havia de mais importante. Negócios

eram sempre mais importantes que todo o resto. Por que, então, teria ele

feito aquele gesto quixotesco? Ela nunca saberia. Fora ela mesma quem, de

vontade própria, tinha recusado a liberdade que ele lhe oferecera. O

pagamento estava agora apenas começando.

Chegaram a um local onde havia uma amurada de pedra, coberta de areia e

conchas. Vargen afastou algumas com a mão e disse:

— Vamos sentar aqui por um momento e depois voltar para casa.

Shelley sentou-se a seu lado. A pergunta que a incomodava estava agora na

ponta da língua, pronta para ser feita. Que ele ficasse zangado, se quisesse,

ela precisava saber,

— Quando estivermos casados. . você continuará se encontrando com

alguma amiga?

— Não tenho a constituição de um monge, se é isso que quer saber. Isso

responde a sua pergunta?

Sem sentir, ela se afastou dele,

— Não, não responde. Vai procurar alguém ou não?

— Sim. mas serei discreto.

O coração dela disparou. Queria machucá-lo, sem saber que a opressão que

sentia no peito era causada pelo ciúme. Nunca antes tinha amado um homem

a ponto de ter ciúme.

— Discreto? Como vai conseguir isso numa ilha deste tamanho? — Tentou

controlar a voz, mas teve dificuldade.

— Há muitas outras ilhas por perto, e eu tenho um barco. Será que

precisamos discutir isso?

— Sim, precisamos. Tenho direito de saber. Suponho que tenha várias

amantes espalhadas por aí pelas ilhas. Estou certa?

— Apenas uma, no momento — olhou-a firme. — E não vou lhe dizer o nome

dela, portanto, não perca tempo em perguntar.

— E ela sabe que você se casa no sábado?

— Como poderia? Eu mesmo só soube hoje.

— E ela vai aceitar isso?

Vargen deu com os ombros, desinteressado.

— Quando ela souber. .

— Vai lhe dizer a verdade, o porquê real?

— Vou. . .

Livros Florzinha

- 19 -

Sou escrava do teu amor (Dangerous Marriage) Mary

Wibberley

Bianca no. 37

— Vai dizer? — sentiu que sua voz subia e tentou desesperadamente se

controlar. — Justo? E se ela contar para seu padrinho?

— Por que o faria? Ela é bem tratada, ganha bem por seus serviços. Shelley

o esbofeteou com toda a força, impulsivamente. A emoção que a sacudia era

enorme. Ela ouviu quando Vargen prendeu a respiração, sob o impacto do

golpe, enquanto ela permanecia ali, arfante, seu corpo todo tremendo de

raiva. O rapaz simplesmente deu-lhe as costas, afastando-se.

Vargen agora estava escondido pela linha de árvores plantadas ao longo da

praia. Ele a tinha deixado, mas isso não importava. Nada mais tinha nenhuma

importância. Ela se imaginou no futuro deitada na cama, ouvindo seus passos

se afastando. . . e esperando sua volta dos braços de sua amante, e se

perguntou se seria capaz de aguentar isso. Com o coração amargurado,

levantou-se e começou a caminhar de volta por onde viera. Uma sombra

escura se moveu, da direção das árvores, assustando-a: era Vargen.

— Pensei que tivesse ido embora — disse ela.

— Você achou que seria capaz de deixá-la sozinha aqui? Estava esperando

por você.

— Sinto muito, . . pelo tapa.

— Por que fez isso? Só estava respondendo às suas perguntas,

— Não sei. O que você disse me pareceu uma coisa tão insensível, fria,

— Talvez porque eu seja assim, Shelley. Você vai acabar me entendendo.

— Você ama essa mulher?

— Não.

— Já amou alguma mulher? Parou de andar e olhou para ela.

— Por que pergunta?

Essa era a pergunta proibida, a que ela não pretendia nunca fazer. Mas a fez

para aumentar sua auto-tortura. Murmurou:

— Preciso saber. Já amou?

— Sim e muito. Uma vez amei tanto uma mulher que teria lhe dado a minha

vida, se pedisse. Contudo, ela não me amava. . . e eu descobri isso um belo

dia, da maneira mais dolorosa possível. E desde então, não. . . nunca mais

amei ninguém. E nunca mais o farei. Respondi agora à sua pergunta, ou quer

me ver sangrar?

Suas palavras morreram em seus lábios devido à dor profunda que pôde ler

nos olhos de Vargen. Depois, como o silêncio se tornasse insuportável, ela

murmurou:

— Desculpe. Sinto muito.

— Não tem mais importância. Aprendi bem minha lição. Pegando seu queixo,

forçou-a a olhar em seus olhos.

— Hoje, eu uso as mulheres. Satisfaço meus desejos, e só. Estou sendo

suficientemente explícito, ou você quer ouvir mais?

Livros Florzinha

- 20 -

Sou escrava do teu amor (Dangerous Marriage) Mary

Wibberley

Bianca no. 37

— Não, chega. Já disse o bastante. Por favor. . . está me machucando,

Vargen!

O rapaz a soltou abruptamente e se voltou. Parecia estar lutando para se

controlar. Shelley viu como suas mãos se abriam e fechavam e, por um

instante terrível, pensou que fosse lhe bater. Esperou, tensa, incapaz de se

mover. Ele se virou de novo para ela, que recuou, amedrontada.

— Não. . .

— O quê? — perguntou surpreso, como se seus pensamentos estivessem

longe dali.

— Pensei que você fosse me bater. . .

— Você achou que eu fosse lhe bater?

— E não ia?

— Claro que não! Como poderia?

— Mas, você realmente parecia que. .

— Ia bater em você. Que tipo de homem acha que sou? Acha mesmo que

seria capaz de bater numa mulher?

Pela primeira vez Vargen parecia realmente zangado.

— Eu não o conheço. . . Somos estranhos. Você estava zangado.

— Nunca em minha vida toquei numa mulher com raiva. Sim, somos

estranhos e talvez sempre o sejamos, mas nunca baterei em você. Para mim,

seria impossível. Algum homem já bateu em você? É por isso que teve medo?

Responda!

Houve uma longa pausa, e. .

— Apenas meu pai.

— Quando? Quando era criança?

— Sim. . mas me lembro bem de uma ocasião em especial, quando tinha

quinze anos. Ele me pegou conversando com o filho do jardineiro.. da minha

idade. Não estávamos fazendo nada, só conversando, mas estava escuro.. e

ele me levou de volta para casa e. . — engoliu em seco. Era duro lembrar. —

Ele me bateu com seu chicote de andar a cavalo.

Vargen cobriu o rosto com as mãos, para controlar sua expressão de raiva.

Depois disse, com calma:

— É melhor irmos andando. Nunca ouvi uma coisa tão incrível.

— Quem levou a pior foi o jardineiro. Meu pai despediu-o no dia seguinte.

Senti muito por não poder fazer nada pelo pobre rapaz.

— Não, não podia. Eu não devia ter perguntado. Vamos, é tarde e temos

muito o que fazer amanhã.

Retomaram o caminho em silêncio, até o final. Quando se acercaram das

luzes brilhantes, Shel ey lembrou que ainda tinha que telefonar para seu pai.

Vargen a acompanhou no elevador até um andar imediatamente abaixo ao da

cobertura. Foi só quando ele abriu a porta que ela lembrou que o empregado

Livros Florzinha

- 21 -

Sou escrava do teu amor (Dangerous Marriage) Mary

Wibberley

Bianca no. 37

do hotel tinha avisado que seu quarto seria mudado. Observou a suntuosa

sala da suíte e perguntou:

— É meu quarto?

— Sim, todas as suas coisas já foram trazidas para cá.

— Tem telefone? Meu pai não estava em casa antes.

— Vai ligar agora?

— Sim. . . algum problema?

— Não, claro que não. É que gostaria de falar com ele, Shelley, posso?

— Não! É impossível! — replicou, alarmada.

— Eu preciso muito falar com ele.

— Mas, por quê?

— Para lhe dizer que vamos nos casar.

Livros Florzinha

- 22 -

Sou escrava do teu amor (Dangerous Marriage) Mary

Wibberley

Bianca no. 37