Subliminar por Leonard Mlodnow - Versão HTML

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Leonard Mlodinow

Subliminar

Como o inconsciente influencia nossas vidas

Tradução:

Claudio Carina

Para Christof Koch, K-lab, e a todos os que têm dedicado suas carreiras à compreensão da

mente humana

Sumário

Prefácio

PARTE I O cérebro duplo

1. O novo inconsciente

O papel oculto da nossa mente subliminar… O que acontece quando você não telefona para sua

mãe?

2. Sentidos + mente = realidade

O sistema duplo do nosso cérebro… Como podemos ver sem saber?

3. Lembrança e esquecimento

Como nosso cérebro constrói memórias?… Por que às vezes nos lembramos do que aconteceu?

4. A importância de ser social

O papel fundamental da nossa característica social humana… Por que Tylenol pode curar um

coração partido?

PARTE II O inconsciente social

5. Interpretando as pessoas

Como nos comunicamos sem falar?… O talento humano de criar uma teoria sobre o que os outros

estão pensando e sentindo

6. Julgando as pessoas pela cara

O que lemos na aparência, na voz e no toque?… O sucesso em encontros amorosos, na política e

para atrair chupins fêmeas

7. Classificação de pessoas e coisas

Por que categorizamos as coisas e estereotipamos as pessoas?… O que Lincoln, Gandhi e Che

Guevara tinham em comum?

8. In-groups e out-groups

A dinâmica entre nós e eles… O poder das normas sociais

9. Sentimentos

A natureza das emoções… Por que a perspectiva de cair centenas de metros num monte de pedras

tem o mesmo efeito que um sorriso sedutor e uma camisola de seda?

10. O eu

Como o nosso eu defende a própria honra?… Por que os cronogramas são otimistas demais e os

executivos fracassados acham que merecem paraquedas de ouro?

Notas

Créditos das figuras

Agradecimentos

Índice remissivo

Prefácio

Os aspectos subliminares de tudo o que acontece conosco podem

parecer pouco importantes na vida cotidiana, … [mas] são as raízes

quase invisíveis de nossos pensamentos conscientes.

CARL JUNG

EM JUNHO DE 1879, o filósofo e cientista americano Charles Sanders Peirce viajava num navio a

vapor de Boston a Nova York quando seu relógio de ouro foi roubado da cabine. 1 Peirce

notificou o furto e insistiu para que todos os integrantes da tripulação se apresentassem no

convés. Falou com eles, mas sem resultado. Em seguida, depois de uma pequena caminhada, fez

algo estranho. Resolveu adivinhar quem era o culpado, mesmo sem ter nada em que se basear,

como um jogador de pôquer apostando tudo num par de dois. Assim que formulou seu palpite,

Peirce percebeu que acreditava ter acertado quem era o culpado. “Dei uma pequena caminhada

em círculos que não demorou nem um minuto”, escreveria depois, “e, assim que me virei para

olhar para eles, qualquer sombra de dúvida já havia se desvanecido.” 2

Peirce abordou o suspeito com firmeza, mas o homem encarou o blefe e negou a acusação.

Sem provas ou uma razão lógica em apoio à sua afirmação, nada havia a fazer – até o navio

atracar. Quando aportou, Peirce imediatamente pegou um táxi, foi até o escritório da agência

local da Pinkerton e contratou um detetive para investigar o caso. O detetive encontrou o relógio

numa casa de penhores, no dia seguinte. Peirce pediu que o proprietário da loja descrevesse o

homem que tinha empenhado o relógio. Segundo Peirce, o homem do prego descreveu o suspeito

“tão exatamente que não era possível haver dúvida de que se tratava do homem de quem eu

desconfiara”. Peirce conjecturou sobre a razão de ter adivinhado a identidade do gatuno e chegou

à conclusão de que alguma espécie de percepção instintiva o guiara, algo que operava num nível

abaixo de seu consciente.

Se essa história terminasse em mera especulação, um cientista consideraria a explicação de

Peirce tão convincente quanto dizer “Um passarinho me contou”. Porém, cinco anos depois,

Peirce encontrou uma forma de traduzir suas ideias sobre a percepção inconsciente num

experimento de laboratório, adaptando um procedimento realizado pela primeira vez pelo

fisiologista E.H. Weber em 1834. Weber posicionou pequenos pesos de massas diferentes, um de

cada vez, num ponto da pele de um voluntário para determinar a diferença de peso mínima

detectada pelo sujeito.3 No experimento realizado por Peirce e seu melhor aluno, Joseph Jastrow,

as pessoas que se submeteram ao estudo recebiam pesos cuja diferença estava logo abaixo do

limite mínimo detectável (na verdade, os participantes foram os próprios Peirce e Jastrow, um

experimentando o outro). Em seguida, embora não conseguissem discriminar os pesos, pediam

que o outro identificasse de qualquer forma o volume mais pesado e indicasse, numa escala de 0

a 3, o grau de confiança que tinham em cada palpite.

Naturalmente, em quase todas as tentativas, os homens escolheram zero. Apesar da falta de

confiança, na verdade eles selecionaram o objeto correto em mais de 60% das tentativas, bem

mais do que se poderia esperar numa tentativa ao acaso. Quando repetiram o experimento em

outros contextos, como na avaliação de superfícies que diferiam levemente no brilho, Peirce e

Jastrow obtiveram resultado similar – conseguiam adivinhar a resposta mesmo sem ter acesso

consciente à informação que lhes permitiria chegar àquela conclusão. Essa foi a primeira

demonstração científica de que a parte inconsciente da mente dispõe de conhecimentos que

escapam da parte consciente.

Depois Peirce compararia a capacidade de captar pistas inconscientes com um considerável

grau de precisão com “os poderes canoros e aeronáuticos de um pássaro; … elas são, para nós,

como para eles, o mais sutil dos nossos poderes meramente instintivos”. Em outras palavras, o

trabalho feito pelo inconsciente é uma parcela crucial do nosso mecanismo evolutivo de

sobrevivência.4 Há mais de um século, psicólogos clínicos e pesquisadores já conhecem o fato

de que dispomos de uma vida inconsciente rica e ativa, que funciona em paralelo a nossos

pensamentos e sentimentos conscientes, e exerce poderoso efeito sobre eles, de uma forma que

apenas agora começamos a medir com algum grau de precisão.

Carl Jung escreveu: “Há certos eventos que não percebemos de modo consciente; eles

permanecem, por assim dizer, abaixo do limite da consciência. Eles aconteceram, mas foram

absorvidos de maneira subliminar.” 5 A palavra “subliminar” vem do latim e significa “abaixo do

limite”. Os psicólogos a empregam para se referir ao que está abaixo do limite da consciência.

Este livro é sobre efeitos subliminares nesse sentido mais amplo – os processos da parte

inconsciente da mente e como eles nos influenciam. Para entender verdadeiramente a experiência

humana, precisamos compreender tanto nosso consciente quanto nosso inconsciente e como os

dois interagem. Nosso cérebro subliminar é invisível para nós, porém influencia nossa

experiência consciente do mundo de um modo fundamental – a maneira como nos vemos e aos

outros, o significado que atribuímos aos eventos da nossa vida cotidiana, nossa capacidade de

fazer julgamentos rápidos e tomar decisões que às vezes significam a diferença entre a vida e a

morte, as ações que adotamos como resultado de todas essas experiências instintivas.

Embora os aspectos inconscientes do comportamento humano tenham sido investigados por

Jung, Freud e muitos outros no século XX, os métodos que empregaram – introspecção,

observação do comportamento aparente, estudo de pessoas com deficiências cerebrais, implante

de eletrodos no cérebro de animais – propiciaram apenas um conhecimento difuso e indireto.

Enquanto isso, as verdadeiras origens do comportamento humano continuaram obscuras. Hoje as

coisas são diferentes. Novas e sofisticadas tecnologias revolucionaram nosso entendimento da

parte do cérebro que funciona num nível abaixo da consciência – o que estou chamando aqui de

mundo subliminar. Essas tecnologias tornaram possível, pela primeira vez na história da

humanidade, uma verdadeira ciência do inconsciente. Essa nova ciência é o tema deste livro.

ANTES DO SÉCULO XX, a física descrevia com muito sucesso o mundo material tal como o

percebemos pela experiência humana cotidiana. As pessoas notaram que o que subia costumava

cair, e afinal conseguiram medir com que velocidade ocorriam essa ida e volta. Em 1687, Isaac

Newton expôs seu trabalho a respeito da compreensão da realidade do dia a dia sob a forma

matemática no livro Philosophiæ Naturalis Principia Mathematica, que em latim quer dizer

“Princípios matemáticos da filosofia natural”. As leis formuladas por Newton eram tão

poderosas que foram usadas para calcular com precisão as órbitas da Lua e de planetas distantes.

Mas, por volta de 1900, esse ponto de vista límpido e confortável foi abalado. Os cientistas

descobriram que, subjacente à imagem cotidiana de Newton, existe uma realidade diferente, uma

verdade mais profunda, que agora chamamos de teoria quântica e da relatividade.

Os cientistas formulam teorias acerca do mundo físico; nós todos, como seres sociais,

formulamos “teorias” pessoais a respeito do nosso mundo social. Essas teorias fazem parte da

aventura de participar da sociedade humana. Levam-nos a interpretar o comportamento dos

outros, a antever suas ações, tentar prever como conseguir o que desejamos deles e decidir, em

última análise, como nos sentimos em relação a eles. Será que podemos confiar neles quanto a

dinheiro, saúde, carreira, filhos – e ao nosso coração? Assim como no mundo físico, também no

universo social há uma realidade muito diversa, subjacente àquela que ingenuamente

percebemos. A revolução na física ocorreu quando, na virada do século XIX para o XX, novas

tecnologias expuseram o comportamento exótico dos átomos e das novas partículas subatômicas

então descobertas, como fóton e elétron; de modo análogo, as novas tecnologias da neurociência

hoje possibilitam que os cientistas exponham uma realidade mental mais profunda, que esteve

escondida durante toda a história prévia da humanidade.

A ciência da mente foi reformulada por uma nova tecnologia específica, surgida nos anos

1990. Chama-se ressonância magnética funcional, ou fMRI (da sigla em inglês para funccional

Magnetic Resonance Image). A fMRI está relacionada à ressonância magnética normal (MRI,

Magnetic Resonance Image) usada pelo seu médico, só que ela mapeia a atividade de diferentes

estruturas do cérebro, ao detectar o fluxo de sangue que aumenta e diminuiu muito levemente com

a variação da atividade. Nos dias atuais, a fMRI proporciona imagens em três dimensões do

funcionamento do cérebro, no interior e no exterior, mapeando, com uma resolução de cerca de

1mm, o nível de atividade geral. Para se ter uma ideia do que uma fMRI pode fazer, considere o

seguinte: os cientistas podem agora usar os dados colhidos de seu cérebro para reconstruir uma

imagem do que você estava vendo.6

Dê uma olhada nas imagens da Figura 1. Em cada um dos casos, a imagem da esquerda é a

real, que o sujeito estava observando, e a da direita é a reconstrução feita por computador. A

reconstrução foi criada a partir de leituras eletromagnéticas de fMRI da atividade cerebral, sem

qualquer referência à verdadeira imagem observada. Isso foi realizado combinando dados de

áreas do cérebro que respondem a regiões específicas do campo visual de uma pessoa aos dados

de outras partes do cérebro que respondem a diferentes temas. Depois um computador fez uma

seleção entre um banco de dados de 6 milhões de imagens e escolheu a que melhor correspondia

a essas leituras.

O resultado de aplicações como essa é uma transformação tão radical quanto a da revolução

quântica: uma nova compreensão de como o cérebro funciona e do que somos como seres

humanos. Essa revolução tem um nome – pelo menos o novo campo gerado por ela. É chamada

neurociência. O primeiro congresso oficial dedicado a esse campo teve lugar em abril de 2001.7

CARL JUNG ACREDITAVA QUE , para aprender sobre a experiência humana, era importante estudar

os sonhos e as mitologias. A história é o relato de eventos que se desenrolam na civilização, mas

sonhos e mitos são expressões do coração humano. Os temas e arquétipos de nossos sonhos e

mitos, observou Jung, transcendem o tempo e a cultura. Surgem a partir de instintos inconscientes

que governaram nosso comportamento muito antes de serem recobertos e obscurecidos, e

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portanto nos ensinam o significado de ser humano no nível mais profundo. Hoje, quando

montamos as peças de como o cérebro funciona, somos capazes de estudar diretamente os

instintos humanos e observar suas origens fisiológicas no cérebro. Ao descobrir o funcionamento

do inconsciente, podemos entender melhor como nos relacionamos com outras espécies e o que

nos torna especificamente homens.

FIGURA 1

Os capítulos a seguir são uma pesquisa sobre nossa herança evolutiva, sobre forças exóticas

e surpreendentes que atuam abaixo da superfície de nossa mente, e o impacto desses instintos

inconscientes no que em geral se considera um comportamento racional e voluntário – impacto

muito mais forte do que acreditávamos. Se você quer entender o mundo social, se quer mesmo

entender a si e os outros, e além disso deseja ser capaz de superar muitos obstáculos que o

impedem de viver uma vida plena e mais rica, você precisa entender a influência do mundo

subliminar que se esconde em cada um de nós.

PARTE I

O cérebro duplo

1. O novo inconsciente

O coração tem razões que a própria razão desconhece.

BLAISE PASCAL

AOS 85 ANOS, minha mãe herdou do meu filho uma tartaruga russa chamada Miss Dinnerman. Ela

vivia no quintal, num grande cercado abrangendo um gramado e arbustos, limitado por uma cerca

de arame. Os joelhos de minha mãe estavam começando a falhar, por isso ela teve de desistir de

suas tradicionais caminhadas de duas horas pela vizinhança. Estava procurando um novo amigo,

que pudesse abordar com facilidade, e a tartaruga ganhou a vaga. Ela decorou o cercado com

pedras e pedaços de madeira e visitava a tartaruga todos os dias, da mesma forma que costumava

visitar caixas de banco e guichês do magazine Big Lots. Às vezes chegava a levar flores, por

achar que enfeitavam o cercado, mas a tartaruga as tratava como se fossem uma entrega da Pizza

Hut local.

Minha mãe não se importava quando a tartaruga comia os buquês. Achava uma gracinha.

“Olha como ela gosta”, dizia. Mas, apesar do ambiente aconchegante, do espaço amplo, da

alimentação e das flores recém-colhidas, parecia que o principal objetivo de Miss Dinnerman na

vida era fugir. Sempre que não estava comendo ou dormindo, Miss Dinnerman percorria o

perímetro em busca de um buraco na cerca de arame. Tentava inclusive escalar o alambrado,

desajeitada como um patinador tentando subir uma escada em espiral.

Minha mãe via esse comportamento em termos humanos. Para ela, era um esforço heroico,

como o prisioneiro de guerra Steve McQueen planejando sua evasão no filme Fugindo do

inferno. “Todas as criaturas desejam a liberdade”, minha mãe dizia. “Mesmo passando bem aqui,

ela não gosta de ficar confinada.” Minha mãe acreditava que Miss Dinnerman a compreendia.

“Você está interpretando demais o comportamento dela”, eu observava. “Tartarugas são criaturas

primitivas.” Eu chegava a tentar demonstrar meu ponto de vista agitando as mãos e gritando como

um louco para mostrar que a tartaruga simplesmente me ignorava. “E daí?”, minha mãe

perguntava. “Seus filhos também o ignoram, mas você não diz que eles são criaturas primitivas.”

Pode ser difícil distinguir um comportamento voluntário e consciente de outro habitual ou

automático. Na verdade, como seres humanos, nossa tendência em acreditar nos comportamentos

conscientes e motivados é tão forte que vemos consciência não só no nosso comportamento como

também no reino animal. Fazemos isso com nossos bichos de estimação, claro. O fenômeno

chama-se antropomorfismo. A tartaruga é corajosa como um prisioneiro de guerra dos nazistas, o

gato fez xixi na mala porque ficou bravo por termos saído de casa, o cachorro deve ter tido boas

razões para morder o carteiro.

Organismos mais simples também parecem se comportar segundo a reflexão e a

intencionalidade humanas. A mosca-das-frutas, por exemplo, passa por um elaborado ritual de

acasalamento, iniciado pelo macho ao tocar na fêmea com a pata dianteira e vibrar as asas a fim

de atraí-la para o namoro.1 Se aceitar o avanço, a fêmea não faz nada, e o macho continua a partir

daquele ponto. Se não se mostrar sexualmente receptiva, bate nele com as patas ou as asas e foge.

Embora eu já tenha provocado reações semelhantes em fêmeas humanas, esse ritual voador de

acasalamento da mosca-das-frutas é totalmente pré-programado. As moscas não se preocupam

com questões como o rumo que o relacionamento está tomando, apenas exercem uma rotina já

embutida nelas. Na verdade, suas ações estão tão diretamente relacionadas à sua constituição

biológica que os cientistas descobriram uma substância química que, quando aplicada num macho

da espécie, em poucas horas converte uma mosca-das-frutas heterossexual em um exemplar gay. 2

Mesmo o verme tubícula C. elegans – criatura formada por cerca de mil células – parece agir

com intenção consciente. Por exemplo, ele pode deslizar ao largo de uma porção de bactéria

perfeitamente digestível em direção a outro pedaço, em outro lugar da placa de Petri. Alguém

talvez se sinta tentado a concluir que o tubícula está exercendo seu livre-arbítrio, como fazemos

quando rejeitamos um legume não apetitoso ou uma sobremesa muito calórica. Mas o tubícula

não fala consigo mesmo “Preciso cuidar da minha cintura”, ele apenas se dirige ao nutriente da

forma com que foi pré-programado. 3

Animais como a mosca-das-frutas e a tartaruga estão no nível mais baixo na escala de

potência cerebral, mas o papel do processamento automático não se limita a essas criaturas

primitivas. Os seres humanos também desempenham inúmeros comportamentos automáticos,

inconscientes, mas tendem a não perceber isso porque a interação entre nossa mente inconsciente

e a consciente é muito complexa. Essa complexidade tem raiz na fisiologia do nosso cérebro.

Como mamíferos, possuímos outras camadas de córtex erigidas sobre a base do cérebro

reptiliano mais primitivo; e, como homens, temos ainda mais matéria cerebral por cima.

Possuímos uma mente inconsciente e, superposta a ela, um cérebro consciente. Quantos de nossos

sentimentos, juízos e comportamentos se devem a cada uma dessas estruturas, isso é muito difícil

de saber, pois estamos sempre alternando entre as duas.

Numa manhã qualquer, por exemplo, queremos parar no posto do correio a caminho do

trabalho, mas, na encruzilhada, viramos à direita, em direção ao escritório, porque estamos

atuando no piloto automático – ou seja, agindo de modo inconsciente. Depois, ao tentar explicar

ao guarda de trânsito por que viramos numa esquina proibida, nossa mente consciente calcula a

melhor desculpa, enquanto o piloto automático inconsciente cuida do uso adequado dos

gerúndios, subjuntivos e artigos indefinidos para que nosso discurso seja expresso em boa forma

gramatical. Se nos pedir para sair do carro, instintivamente nos posicionamos a cerca de 1m do

guarda; porém, se estivermos conversando com amigos, automaticamente ajustamos a separação

para 0,5m. (A maioria de nós segue essas regras não explícitas de distância interpessoal sem

jamais pensar a respeito, e nos sentimos desconfortáveis quando elas são violadas.)

Quando prestamos atenção, é fácil aceitar muitos de nossos comportamentos mais simples

(como o de virar à direita) como algo automático. A grande questão é até que ponto

comportamentos mais complexos e substantivos, com grande potencial de impacto sobre nossa

vida, são também automáticos – mesmo quando temos certeza de que são racionais e muito bem

avaliados. De que forma nosso inconsciente afeta nossa atitude em questões como: “Qual casa

devo comprar? Que ações devo vender? Será que devo contratar essa pessoa para cuidar do meu

filho? Será que esses olhos azuis brilhantes que não consigo deixar de olhar são base suficiente

para uma relação de amor duradoura?”

Se já é difícil reconhecer comportamentos automáticos nos animais, imagine reconhecer

atitudes habituais em nós mesmos. Quando estava na faculdade, muito antes do episódio de minha

mãe com a tartaruga, eu costumava telefonar para ela por volta das oito da noite, todas as

quintas-feiras. De repente, numa dessas quintas-feiras eu não liguei. A maioria dos pais teria

concluído que eu me esqueci, ou talvez que finalmente tivesse “arranjado um programa melhor”,

ou estivesse fora naquela noite. Mas minha mãe interpretou de outra forma. A partir das nove, ela

começou a ligar perguntando por mim. Parece que minha colega de apartamento não se

incomodou com as primeiras quatro ou cinco ligações, mas depois, como descobri na manhã

seguinte, sua reserva de boa vontade secou. Principalmente quando minha mãe começou a acusá-

la de esconder o fato de eu estar gravemente ferido e não ter ligado para ela por estar sedado no

hospital da cidade. À meia-noite, a imaginação de minha mãe já havia ampliado bastante o

cenário – agora ela acusava minha colega de esconder meu falecimento. “Por que mentir a

respeito?”, perguntava minha mãe. “Eu vou descobrir de qualquer jeito.”

A maioria dos filhos se sentiria constrangida pelo fato de a mãe, que toda a vida o conheceu

tão bem, achar mais plausível acreditar que ele morreu do que pensar que saiu com alguém. Mas

eu já tinha visto minha mãe exibir esse tipo de comportamento. Para alguém de fora, ela parecia

um indivíduo normal, com exceção de algumas peculiaridades, como acreditar em espíritos do

mal e gostar de acordeão. São coisas que fazem sentido, como reminiscências da cultura em que

cresceu na Polônia. Mas a mente da minha mãe funcionava de maneira diferente da de qualquer

outra pessoa que eu conhecia. Hoje entendo por quê, mesmo que ela própria não reconheça:

décadas atrás, sua psique foi reestruturada diante de situações inseridas num contexto que a

maior parte de nós jamais poderia imaginar.

Tudo começou em 1939, quando ela tinha dezesseis anos. A mãe dela morrera de câncer

abdominal depois de sofrer um ano inteiro com dores dilacerantes. Um dia, pouco depois, minha

mãe voltou da escola e ficou sabendo que o pai tinha sido levado pelos nazistas. Minha mãe e a

irmã, Sabina, logo também foram levadas a um campo de trabalhos forçados, ao qual a irmã não

sobreviveu. Praticamente da noite para o dia a vida de minha mãe foi transformada: a

adolescente amada e bem-tratada média se tornou uma desprezada órfã trabalhando e passando

fome num campo de escravos. Quando foi libertada, minha mãe emigrou, se casou e se

estabeleceu num bairro tranquilo de Chicago, levando uma existência estável e segura, numa

família de classe média baixa. Ela não tinha mais motivos racionais para ter medo de uma perda

súbita de tudo o que amava, mas esse temor interferiu em sua interpretação dos eventos

cotidianos pelo resto da vida.

Minha mãe interpretava o significado das ações a partir de um dicionário diferente daquele

utilizado pela maioria de nós e com regras de gramática específicas. As interpretações se

tornaram para ela automáticas, não conscientes. Assim como todos entendemos a linguagem

falada sem qualquer aplicação consciente das regras de linguística, minha mãe entendia as

mensagens do mundo sem qualquer consciência de que suas experiências anteriores tinham

moldado suas expectativas para sempre. Ela nunca reconheceu que sua percepção fora distorcida

pelo temor sempre presente de que a qualquer momento a justiça, a normalidade e a lógica

deixariam de ter força ou significado. Sempre que eu mencionava esse fato, ela descartava a

ideia de consultar um psicólogo e negava que seu passado tivesse qualquer efeito negativo em

sua visão do presente. “Ah, é?”, eu retrucava. “Então por que nenhum dos pais dos meus amigos

acusou seus colegas de apartamento de conspirar para ocultar que eles estavam mortos?”

Todos nós temos nossos pontos de referência implícitos – com sorte, menos radicais – que

produzem comportamentos e pensamentos rotineiros. Nossas experiências e ações sempre

parecem se basear em raciocínios conscientes; assim como minha mãe, podemos achar difícil

aceitar que haja forças ocultas nos bastidores. Mas, embora possam ser invisíveis, ainda assim

essas forças exercem uma forte influência. No passado, havia muita especulação sobre a mente

inconsciente, mas o cérebro era como uma caixa-preta, com seu funcionamento inacessível à

nossa compreensão. A revolução atual na maneira de pensar sobre o inconsciente surgiu porque,

com instrumentos modernos, podemos observar como diferentes estruturas e subestruturas no

cérebro geram sentimentos e emoções; medir a potência de saída elétrica de neurônios

individuais; mapear a atividade neural que forma os pensamentos de uma pessoa. Hoje os

cientistas podem fazer mais do que conversar com minha mãe e perscrutar como as experiências

a afetaram. Agora eles podem identificar as alterações no cérebro resultantes de experiências

traumáticas anteriores, como as dela, e entender como essas experiências provocam alterações

físicas em regiões do cérebro sensíveis ao estresse. 4

O moderno conceito de inconsciente, baseado nesses estudos e medições, costuma ser

chamado de “novo inconsciente”, para diferenciá-lo da ideia do inconsciente popularizado por

um neurologista transformado em clínico chamado Sigmund Freud. Originalmente, Freud deu

contribuições notáveis aos campos da neurologia, neuropatologia e anestesia. 5 Por exemplo, ele

introduziu o uso de cloreto de ouro para tingir tecido nervoso, empregando essa técnica para

estudar as interconexões neurais entre a medula oblonga, no talo cerebral, e o cerebelo.

Nesse aspecto, Freud estava bem adiante de seu tempo, pois levaria ainda muitas décadas até

os cientistas entenderem a importância da conectividade cerebral e desenvolverem as

ferramentas de que precisávamos para estudar o processo em algum nível de profundidade. Mas

o próprio Freud não continuou sua pesquisa por muito tempo. Preferiu se interessar pela prática

clínica. No tratamento de seus pacientes, chegou à conclusão correta de que boa parte do

comportamento deles era regida por processos mentais que não percebiam. Na falta de

instrumentos técnicos com que explorar essa ideia de modo científico, ele simplesmente

conversava com os pacientes, tentava extrair o que acontecia nas profundezas de sua mente,

observava-os e fazia as inferências que considerava válidas. Porém, como veremos, esses

métodos não são confiáveis, e há muitos processos inconscientes que não podem jamais ser

revelados diretamente por esse tipo de autorreflexão estimulada pela terapia, pois ocorrem em

áreas do cérebro não abertas à consciência. Por isso, Freud estava um pouco fora dos trilhos.

O COMPORTAMENTO HUMANO é produto de um interminável fluxo de percepções, sentimentos e

pensamentos, tanto no plano consciente quanto no inconsciente. A noção de que não estamos

cientes da causa de boa parte do nosso comportamento pode ser difícil de aceitar. Embora Freud

e seus seguidores acreditassem nisso, entre os psicólogos pesquisadores – os cientistas do ramo

–, até há pouco, a ideia de que o inconsciente é importante para nosso comportamento era

descartada como psicologia popular.

Como escreveu um pesquisador: “Muitos psicólogos relutavam em usar a palavra

‘inconsciente’ por medo de que seus colegas pensassem que eles estavam de miolo mole.” 6 John

Bargh, psicólogo de Yale, relata que quando começou a estudar na Universidade de Michigan, no

final dos anos 1970, pressupunha-se quase universalmente que não apenas nossos julgamentos e

percepções sociais eram conscientes e deliberados, mas também nosso comportamento. 7

Qualquer coisa que ameaçasse essa suposição era vista com escárnio, como quando Bargh contou

a um parente próximo, profissional bem-sucedido, sobre alguns dos primeiros estudos mostrando

que as pessoas faziam coisas por motivos que desconheciam. Usando sua própria experiência

como prova de que os estudos estavam errados, o parente de Bargh insistiu em que desconhecia

qualquer instância na qual fizesse alguma coisa por motivos que desconhecesse. 8 Diz Bargh:

Todos nós prezamos muito a ideia de que somos o governante da nossa alma, que estamos no

comando, e é um sentimento assustador pensar que não estamos. Na verdade, isso é a

psicose: a sensação de afastamento da realidade, de não estar no controle; e é um sentimento

assustador para qualquer um.

Ainda que a ciência psicológica tenha agora reconhecido a importância do inconsciente, as

forças internas do novo inconsciente têm pouco a ver com as motivações inatas descritas por

Freud, como o desejo dos garotos de matar o pai para se casar com a mãe, ou a inveja das

mulheres do órgão sexual masculino. 9 Decerto devemos dar crédito a Freud por ter

compreendido o imenso poder do inconsciente – foi uma grande descoberta –, mas precisamos

também reconhecer que a ciência lançou sérias dúvidas quanto à existência de muitos dos fatores

inconscientes específicos, emocionais e motivacionais, que Freud identificou como agentes

formadores do inconsciente. 10 Como escreveu o psicólogo social Daniel Gilbert, “o sabor

sobrenatural do Unbewusst [inconsciente] de Freud tornava o conceito não palatável, de modo

geral”. 11

O inconsciente divisado por Freud, nas palavras de um grupo de neurocientistas, era “quente

e úmido; fervilhava de ira e luxúria; era alucinatório, primitivo e irracional”, enquanto o novo

inconsciente é “mais delicado e gentil que isso, e está mais ligado à realidade”. 12 Nessa nova

visão, os processos mentais são considerados inconscientes porque há parcelas da mente

inacessíveis ao consciente por causa da arquitetura do cérebro, não por estarem sujeitas a formas

motivacionais, como a repressão. A inacessibilidade do novo inconsciente não é vista como um

mecanismo de defesa ou como algo não saudável. É considerada normal.

Se às vezes um fenômeno que eu apresentar parecer vagamente freudiano, a compreensão

moderna e as causas desse fenômeno não o serão. O novo inconsciente tem um papel muito mais

importante do que nos proteger de desejos sexuais impróprios (por nossas mães ou pais) ou de

memórias dolorosas. Trata-se de um legado da evolução crucial para nossa sobrevivência como

espécie. O pensamento consciente é de grande valia para projetar um automóvel ou decifrar as

leis matemáticas na natureza, mas só a velocidade e a eficiência do inconsciente podem nos

salvar na hora de evitar picadas de cobra, carros que entram no nosso caminho ou pessoas que

nos fazem mal. Como veremos, para garantir nosso perfeito funcionamento, tanto no mundo físico

quanto no social, a natureza determinou que muitos processos de percepção, memória, atenção,

aprendizado e julgamento fossem delegados a estruturas cerebrais separadas da percepção

consciente.

VAMOS SUPOR QUE SUA FAMÍLIA tenha viajado para a Disneylândia no último verão. Observando

em retrospecto, você poderia questionar a racionalidade de enfrentar multidões e um calor de

35°C para ver sua filhinha girar numa xícara de chá gigante. Mas depois talvez se lembre de que,

ao planejar a viagem, você avaliou todas as possibilidades e concluiu que o grande sorriso de

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sua filha seria toda a compensação de que você precisava. Em geral temos confiança em que

conhecemos as causas do nosso comportamento. E às vezes essa confiança é garantida. Porém, se

forças exteriores à consciência desempenham um grande papel nos nossos julgamentos e

comportamentos, é porque não nos conhecemos tão bem quanto pensamos. “Aceitei o emprego

porque desejava um novo desafio. Gostei daquele sujeito porque ele tem um grande senso de

humor. Confio na minha gastroenterologista porque ela vive e respira o que faz.” Todos os dias

formulamos e respondemos muitas perguntas sobre nossos sentimentos e nossas escolhas. Nossas

respostas em geral parecem fazer sentido, mas ainda assim às vezes elas estão erradas.

“Como eu te amo?” Elizabeth Barrett Browning achava que poderia enumerar as maneiras,

porém o mais provável é que não conseguisse relacionar as razões. Hoje começamos a fazer isso,

como você vai ver quando der uma olhada na Figura 2, que mostra quem tem se casado com quem

em três estados do sudoeste dos Estados Unidos.13 Podemos pensar que as duas partes se casam

por amor, e deve ser isso mesmo. Mas qual é a fonte do amor? Pode ser um sorriso,

generosidade, graça, charme e sensibilidade do amado ou amada – ou o tamanho do bíceps. Há

éons a fonte do amor tem sido pensada por amantes, poetas e filósofos, porém o mais seguro é

dizer que nenhum chegou a ser muito eloquente sobre o seguinte fator: o nome da pessoa. Mas os

dados da Figura parecem mostrar que o nome de uma pessoa pode influenciar nosso coração – se

o nome combinar com o nosso.

Relacionados ao longo dos eixos horizontal e vertical estão os cinco sobrenomes mais

comuns nos Estados Unidos. Os números na tabela representam quantos casamentos ocorreram

entre noiva e noivo com nomes correspondentes. Note que de longe os maiores números ocorrem

na diagonal – ou seja, os Smith se casam com outros Smith com uma frequência de três a cinco

vezes maior que os Johnson, Williams, Jones ou Brown. Na verdade, os Smith se casam com

outros Smith na mesma proporção com que se casam com outros nomes. E os Johnson, Williams,

Jones e Brown se comportam da mesma forma. O que torna o efeito mais chocante é que esses

são os números absolutos – isto é, como há quase duas vezes mais Smith que Brown, se as outras

variáveis continuarem inalteradas, seria de se esperar que os Brown se casassem com os

onipresentes Smith com mais frequência do que se casam com os mais raros Brown – no entanto,

os Brown se casam muito mais com outros Brown.

FIGURA 2

O que isso nos diz? As pessoas têm um desejo básico de se sentir bem consigo mesmas. Por

isso, tendemos a desenvolver vieses inconscientes em favor de características semelhantes às

nossas, até as que parecem insignificantes, como os sobrenomes. Como veremos, na verdade, os

cientistas já identificaram que uma área discreta do cérebro, chamada estriado dorsal, é a

estrutura que faz boa parte da mediação desse viés. 14

As pesquisas indicam que, quando chegamos a compreender nossos sentimentos, nós seres

humanos mostramos uma estranha mistura de pouca habilidade e alta confiança. Você pode ter

certeza de que aceitou um emprego por representar um desafio, mas na verdade talvez estivesse

interessado em mais prestígio. Poderia jurar que gosta daquele amigo por causa do senso de

humor, mas talvez goste por causa do sorriso, que lembra o de sua mãe. Acha que confia em sua

gastroenterologista por ser uma grande especialista no assunto, mas talvez ela seja mesmo uma

boa ouvinte. A maioria de nós está satisfeita com suas próprias teorias sobre si mesma e as

aceita com confiança, mas raras vezes vemos essas teorias testadas. Mas agora os cientistas

conseguem verificar essas teorias no laboratório, e elas vêm se mostrando surpreendentemente

imprecisas.

Um exemplo: imagine que você está a caminho de um cinema e uma pessoa que parece ser

funcionária do estabelecimento o aborda e pergunta se você poderia responder algumas perguntas

sobre o cinema e suas concessionárias em troca de um saco de pipoca e um refrigerante. O que a

pessoa não diz é que há dois tamanhos de saco de pipoca, mas os dois são tão grandes que é

impossível comer todo o conteúdo; e que há dois “sabores”, um que os participantes definiram

depois como “bom” ou de “alta qualidade”, e outro definido como “rançoso”, “empapado” ou

“terrível”. Também não diria que, na verdade, você está participando de um estudo científico

para medir o quanto vai comer de pipoca e por quê.

Agora, aqui vai a questão que os cientistas estavam estudando: o que teria mais influência no

quanto você come de pipoca, o sabor ou a quantidade? Para abordar essa questão, eles

distribuíram quatro diferentes combinações de pipoca e de embalagem. Alguns espectadores

receberam pipocas boas num saco menor, outros ganharam pipocas boas num saco maior,

pipocas ruins num saco menor ou pipocas ruins num saco maior. O resultado? As pessoas

parecem “decidir” o quanto comem baseadas tanto no tamanho da embalagem quanto no sabor.

Outros estudos apoiam o resultado mostrando que dobrar o tamanho de uma embalagem de

salgadinho aumenta de 30 a 40% o seu consumo. 15

Usei aspas na palavra “decidir” porque ela costuma conotar uma ação consciente. É

improvável que tais decisões se enquadrem nessa definição. Os sujeitos não disseram a si

mesmos: “Esta pipoca está com um gosto horrível, mas é muita, então eu vou me empanturrar.”

Na verdade, pesquisas como essa confirmam o que os publicitários há muito já desconfiavam –

que “fatores ambientais”, como formato da embalagem, tamanho, porção e descrições no menu

nos influenciam de modo inconsciente. O que mais surpreende é a magnitude do efeito – e da

resistência das pessoas à ideia de que podem ter sido manipuladas. Mesmo reconhecendo às

vezes que tais fatores podem influenciar outras pessoas, preferimos acreditar – erradamente –

que eles não podem nos afetar. 16

Na verdade, esses elementos ambientais têm uma influência poderosa – e inconsciente – não

só no quanto escolhemos comer, mas também no sabor da comida. Por exemplo, vamos supor que

você não coma só no cinema, mas também vá a restaurantes, às vezes a restaurantes que oferecem

mais do que um menu com vários tipos de hambúrgueres. Esses restaurantes mais elegantes

costumam escrever no menu termos como “pepino crocante”, “purê de batatas aveludado” e

“beterrabas grelhadas sobre leito de rúcula”, como se nos outros restaurantes o pepino fosse

troncho, o purê de batatas tivesse textura de algodão e as beterrabas viessem nadando em óleo.

Será que um pepino crocante fica mais crocante com outro nome? Será que um cheeseburger com

bacon se torna comida mexicana se for apresentado em espanhol? Será que uma descrição

poética pode fazer com que um macarrão com queijo deixe de ser uma quadrinha para se

transformar num haicai?

Estudos mostram que descrições floreadas não apenas levam as pessoas a pedir comidas

descritas poeticamente como também as levam a classificar esses pratos como mais gostosos que

pratos idênticos, mas com uma descrição genérica. 17 Se alguém lhe perguntasse sobre sua

preferência quanto a um bom jantar e você respondesse que gosta de pratos descritos com

adjetivos vívidos, é provável que recebesse olhares estranhos, mas a descrição de um prato

representa importante fator no seu paladar. Por isso, da próxima vez que convidar amigos para

jantar, não sirva uma salada com produtos do mercado da esquina, parta para o efeito subliminar

e sirva uma mélange de verduras locais.

Vamos dar um passo além. O que você acharia mais gostoso, um purê de batatas aveludado

ou um purê de batatas aveludado? Ninguém ainda pesquisou o efeito de diferentes fontes de letra

sobre o gosto de um purê de batatas, mas já se realizou um estudo sobre os efeitos de uma letra

nas atitudes em relação ao preparo de um prato. Nessa pesquisa, os participantes liam a receita

de um prato japonês e depois tinham de avaliar a quantidade, o esforço e a habilidade que a

receita exigiria, bem como a possibilidade de preparar o prato em casa. Os que tiveram de ler a

receita numa letra difícil de decifrar consideraram a receita mais difícil e disseram que seria

pouco provável preparar o prato em casa. Os pesquisadores repetiram o experimento, mostrando

a outros sujeitos uma página descrevendo um exercício de rotina, em lugar de uma receita, e

encontraram resultados similares: os sujeitos consideravam o exercício mais difícil e diziam que

tinham menos probabilidade de acertar se as instruções estivessem impressas numa fonte difícil