Tao Te Ching por Lao Tzi - Versão HTML

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TAO TE CHING

LAO TSÉ

Traduzido por

Mário Bruno Sproviero

http://www.hottopos.com/tao/intro.htm Nota introdutória

Mário Bruno Sproviero

No caso do Dao De Jing (Tao Te Ching) consideramos que deveríamos ter duas traduções: uma, a mais literal possível, acompanhando o texto chinês; a outra, bem mais livre, bem mais clara e determinada pela pesquisa cultural sobre o texto e o contexto. Limitamo-nos aqui à primeira tradução.

São conhecidas várias traduções desse texto em língua chinesa moderna, bem como nas línguas ocidentais modernas como inglês, francês, alemão, italiano, etc. No entanto, essas traduções trazem interpretações divergentes e problemáticas. Devem ser levados em consideração, mas é preciso realizar uma acurada tradução para o português, a partir do texto original, em chinês clássico. As traduções que dispomos em português, são traduções de traduções e, em alguns casos, o sentido está tão desfigurado que se chega até a uma inversão.

Em se tratando de um texto tão problemático e polêmico, não nos permitimos nem paráfrases, nem metáforas na tradução e muito menos eliminar as ambiguidades do texto e ampliar informações no texto traduzido (para isso elaboramos as notas em nossa tese de livre-docência). Empenhar-nos-emos, pois numa tradução literal, mantendo, sempre que possível, o estilo chinês.

Quanto a palavra Dao (Tao)

Muitos traduzem a palavra Dao por termos abstratos, outros nem a traduzem. A propósito, traduzo um trecho muito sugestivo do filósofo alemão Martin Heidegger:

“Provavelmente a palavra Weg (caminho, curso, rta, via, passo, estrada, trajeto) é uma palavra primordial da linguagem que se adjudica ao homem meditativo. A palavra condutora no pensamento poetizante de Laozi soa Dao e significa ‘propriamente’ Weg. Já que, contudo, com muita facilidade se representa o Curso apenas exteriormente como a trajetória unindo dois pontos, considerou-se ultra-apressadamente nossa palavra ‘curso’ inadequada para nomear o que o Dao diz.

Traduziu-se, portanto, Dao por ‘Razão, Espírito, Sentido, Logos’.

Todavia poderia ser o Dao o curso movente de tudo (o que deixa tudo chegar), donde unicamente poderíamos pensar propriamente o que Razão, Espírito, Sentido, Logos possam dizer a partir de sua própria essência. Talvez se oculte na palavra Curso, Dao, o segredo de todos os segredos do dizer pensante, caso nós deixemos esse nome retornar ao seu indizível e possibilitemos esse deixar. Talvez a enigmática força do domínio contemporâneo do método provenha até mesmo e justamente de serem métodos, sem prejuízo de sua força executiva, apenas os desaguadores de uma grande corrente oculta do Curso que deixa (permite) tudo chegar e que abre o rumo a tudo. Tudo é Curso.

Preferi traduzir, em português, Dao por ‘curso’ e não por ‘caminho’

porque, além de ser derivado de um verbo tão fundamental quanto

‘correr’, ter formado o verbo ‘cursar’, haver tantas palavras relacionadas (correr, incorrer, decorrer, percorrer, recorrer, transcorrer, escorrer, curso, percurso, discurso, cursar, discursar etc.), tem a palavra Dao, em chinês, fora esse significado, também o de ‘dizer’, e isso equivale ao par

‘curso, discorrer ou discursar’. Se não bastassem essas razões, é preciso destacar que a água é uma das imagens preferidas do Dao De Jing.

Escritos do Curso e Sua Virtude

I

o curso que se pode discorrer

não é o eterno curso

o nome que se pode nomear

não é o eterno nome

imanifesto

nomeia a origem do céu e da terra

manifesto

nomeia a mãe das dez-mil-coisas

portanto

no imanifesto

se contempla seu deslumbramento

no manifesto

se contempla seu delineamento

ambos...

o mesmo saindo com nomes diversos

o mesmo diz-se mistério

mistério que se renova no mistério...

porta de todo deslumbramento

II

sob o céu

conhecer-se o que faz o belo belo

eis o feio!

conhecer-se o que faz o bom bom

eis o não bom!

portanto

o imanifesto e o manifesto

consurgem

o fácil e o difícil

confluem

o longo e o curto

condizem

o alto e o baixo

convergem

o som e a voz

concordam

o anverso e o reverso

coincidem

por isso

o homem santo

cumpre os atos sem atuar

pratica a doutrina sem falar

as dez mil coisas

operam sem serem impedidas

nascem sem serem possuídas

atuam sem serem dominadas

concluida a obra

ele não se atém

e só por não se aterela não se esvai III

não primando os bons

o povo não compete

não prezando bens custosos

o povo não aladroa

não exibindo o desejável

seu coração não erra

por isso o governo do homem santo

esvazia os corações

sacia as entranhas

enfraquece as vontades

vigora os ossos

nunca deixa o povo com saber e desejos não deixa o sábio ousar atuar

atuando o não-atuar então não há desgoverno IV

o curso é um vaso vazio

o uso nunca o replena

abismal!

parece o progenitor das dez mil coisas abranda o cume

desfaz o emaranhado

harmoniza a luz

congloba o pó

profundo!

parece algo lá existir

eu não sei de quem é filho

afigura-se o anterior do ancestral

V

o céu e a terra são sem amor-humano

consideram as dez-mil-coisas cães-de-palha o homem santo é sem amor-humano

considera as dez-mil-coisas cães-de-palha o vão entre o céu e a terra...

como se parece a um fole!

mas esvazia-se sem se contrair

move-se e ainda extravasa!

muitas palavras e números o limitam

melhor guardá-lo no íntimo

VI

o espírito do vale não morre

diz-se místico feminino

a porta do místico feminino

diz-se raiz do céu e da terra

suave e multíflua

parece lá existir

contudo opera fio a fio

VII

o céu dura

a terra perdura

céu e terra

duram que duram

por não viverem para si

eis porque podem viver eternamente

por isso o homem santo

ficando atrás

sobressai

ficando fora

persiste

não será por não ter nada seu ?

pode pois realizar o que é seu

VIII

o bem supremo é como água

água...

apura as dez-mil-coisas sem disputa

habita onde os homens abominam

por isso abeira-se ao curso

morar

bom é onde

coração

bom é profundidade

doar

bom é amor

falar

bom é sinceridade

governo

bom é ordem

serviço

bom é capacidade

movimento

bom é quando

eis que só sem disputa não há oposição IX

manter saturando

melhor cessar

seguir aguçando

não vai durar

sala cheia de ouro e jade

não se pode guardar

enfatuar-se com bens e fama

por si já dana

concluida a obra

abster-se

eis o curso do céu

X

conseguir:

a alma e o espírito num amplexo inseparável!

regular o sopro maleável como no recém-nascido polir o espelho místico até ficar sem mácula!

amar a nação e reger o povo sem atuar!

no vaivém da porta do céu atuar qual mãe-pássaro!

ser iluminado nos quatro quadrantes sem ter saber!

gerar e criar

gerar sem possuir

atuar sem depender

presidir sem controlar

isto diz-se virtude mística

XI

trinta raios perfazem o meão

no imanifesto o uso do carro

barro moldado faz o jarro

no imanifesto o uso do jarro

talham-se portas e janelas para a casa no imanifesto o uso da casa

portanto

utilizando-se o manifesto útil fica o imanifesto XII

as cinco cores

cegam a visão do homem

os cinco tons

ensurdecem a audição do homem

os cinco sabores

embotam o paladar do homem

galopes e caçadas frenesiam o coração do homem bens custosos

obstam as ações do homem

por isso o homem santo

sendo entranhas

não olhos

afasta o ali

agarra o aqui

XIII

honra e desonra são como o corcel em fuga avalie grandes aflições como o corpo porque se diz:

honra e desonra são como o corcel em fuga a honra eleva

a desonra abate

ganhar esta perder aquela é assustador por isso se diz:

honra e desonra são como o corcel em fuga porque se diz:

avalie grandes aflições como o corpo eu tenho grandes aflições por ter corpo sem corpo que aflições teria ?

portanto

quem avalia o mundo como o corpo

este pode ter missão no mundo

quem ama o mundo como o corpo

este pode ter cargo no mundo

XIV

ao olhá-lo

não se vê

o nome soa yi

ao escutá-lo não se ouve o nome soa xi ao tocá-lo

não se obtém

o nome soa wei

estes três não se podem decompor

portanto entremeados constituem um

seu alto não se alumbra

seu baixo não se assombra

contínuo contínuo... sem se poder nomear retorna a não-coisa

isto se diz: forma do não-forma

imagem do não-coisa

isto se diz: claroescurecer

ao defrontá-lo

não se vê o rosto

ao seguí-lo

não se vê o verso

reintegrando-se ao curso da antiguidade pode-se reger o presente

poder conhecer a origem da antiguidade isto se diz: o desemaranhar do curso XV

na antiguidade os que bem atuavam o curso: sutilmente sublimes misticamente penetrantes tão profundos que não podiam ser conhecidos e só porque incognoscíveis força-se configurá-los cautelosos!

como a transpor águas hibernais

vacilantes!

como a temer vizinhos dos quatro cantos reverentes!

como hóspedes

evanescentes!

como gelo a derreter

genuínos!

como lenho tosco

abertos!

como o vale

opacos!

como a água turva

quem pode pelo repouso aos poucos clarear o turvo ?

quem pode pelo movimento aos poucos avivar a paz ?

quem guarda este curso não quer ficar pleno e só por não ficar pleno pode recôndito renovar-se XVI

atingindo o vazio extremo

conservar-se firme no repouso

as dez-mil-coisas confluindo

eu assim as contemplo no refluxo:

eis que as coisas no florescimento

retornam uma a uma à raiz

o retorno à raiz soa:

repouso

isto se diz:

retornar ao destino

o retorno ao destino soa: eternidade conhecer a eternidade soa:

alumbramento

não conhecer a eternidade é tresloucar no azar conhecer a eternidade é englobante

englobamento

então justiça

justiça

então mediação

mediação

então céu

céu

então curso

curso

então duração

dissolvendo-se o corpo

não periga

XVII

a alta antiguidade não conhecia os regentes tempos depois

eram amados e louvados

tempos depois

foram temidos

tempos depois

são vilipendiados

estes de pouca fé não merecem fé

pensativos!

aqueles sim pesavam as palavras

concluída a obra as coisas decorriam as cem famílias juntas diziam:

por nós somos o que somos

XVIII

o grande curso reflui...

surge amor humano e justiça

sabedoria e crítica afluem...

surge a grande hipocrisia

os vínculos familiares discordam...

surgem os deveres filiais e paternais nações e familias no caos...

surgem os ministros leais

XIX

não à santidade

fora a sabedoria

o povo é cem vezes favorecido

não ao amor humano

fora a justiça

o povo volta a ser filial e paternal não ao engenho

fora o ganho

não há roubos

não há assaltos

estas três sentenças são ornamentos

ornamentos não suficientes

deve vigorar pois esta regência:

mostrar-se como seda natural

abraçar o lenho tosco

diminuir seus interesses

diluir suas paixões

XX

não ao estudo

e foi-se a inquietação

"sim" e "pois não"

quanto se distinguem?

bem e mal

como se distinguem?

o que os homens temem

não se pode não temer?

estéril! esse nem sim nem não

A massa efusiva e mais efusiva

como no gozo de um festim sacro

como nos altos a sagrar a primavera

só eu ancorado! nesse ainda sem auspícios...

como recém-nascido antes de se acriançar marionete! sem para onde retornar

a massa tem o supérfluo

só eu sem quê nem para quê

eu... que coração de idiota

oh! confuso e mais confuso

a gente brilha que brilha

só eu ofuscado e aparvalhado

a gente vibra que vibra

só eu melancólico e mais melancólico plácido! tal qual o mar

ao vento! como sem lugar

a massa tem com quê

só eu obstinado e tosco

mas só eu diferente dos outros

dignificando a mãe nutriente

XXI

os traços da grande virtude só provêm do curso o curso feito coisa...

tão ofuscante que eclipsa

eclipsado! ofuscante!

em seu interior há imagem

ofuscante! eclipsado!

em seu interior há coisa

isolado! abscôndito!

em seu interior há essência

essa essência... pura verdade

em seu interior há fidelidade

da antiguidade até o presente

seu nome não muda

e assim examina o surgir de tudo

como sei a forma de tudo surgir ?

pelo aqui

XXII

curvando

então fica inteiro

retorcendo

então fica direito

esvaziando

então fica pleno

desgastando

então fica novo

sendo pouco

então é obtido

sendo demais

então é perturbador

assim

o homem santo abraçando o uno

torna-se modelo sob o céu

não se exibindo

então brilha

não se afirmando

então figura

não se vangloriando

então tem mérito

não se enaltecendo

então perdura

só por não disputar

sob o céu ninguém pode com ele disputar o adágio antigo: "curvando então fica inteiro"

como pode ser palavra vazia?

em verdade integra nele reintegrando XXIII

falar diluído é o natural

portanto

um vendaval não dura uma manhã

um temporal não dura um dia

quem os fomenta ?

céu e terra

céu e terra . . sua fúria não dura

quanto mais a intempérie humana!

portanto

quem segue o curso

une-se ao curso

quem segue a virtude

une-se à virtude

quem segue a perdição

une-se à perdiçao

quem se une ao curso

este o acolhe com alegria

quem se une à virtude

esta o acolhe com alegria

quem se une à perdição esta o acolhe com alegria pouca fé não merece fé

XXIV

Na ponta dos pés

não se firma

escarranchado

não se anda

quem se exibe

não brilha

quem se afirma

não figura

quem se vangloria

não tem mérito

quem se enaltece

não perdura

isto em relação ao curso soa:

superfluidade

parasitismo

coisas que todos abominam

portanto

quem no curso

nelas não incorre

XXV

Há algo indefinido porém perfeito

antes de nascerem céu e terra

Silente! apartado!

fica só

não muda

tudo pervade

nada periga

pode ser considerado a mãe sob o céu eu não sei seu nome

dou-lhe a grafia:

(Dao)

forçado a nomeá-lo digo: grande

grande soa:

além

além soa:

longínquo

longínquo soa:

retornante

portanto

o curso é grande

o céu é grande

a terra é grande

o mediador é grande

no universo há quatro grandes

o mediador é um dos quatro

o homem segue a terra

a terra segue o céu

o céu segue o curso

o curso segue a si mesmo

XXVI

o pesado é raiz do ligeiro

o repouso é senhor do agitado

por isso o homem santo

na jornada não larga o peso da bagagem embora tenha visões magníficas fica calmo e distante que fazer?

é senhor de dez mil carros

e por ele desleixa o império?

sendo ligeiro

então perde a raiz

sendo agitado

então perde a soberania

XXVII

bom caminhar

não deixa vestígio

boa fala

não têm jaças a aquilatar

boa computação

não usa talhas nem fichas

bom fecho

não usa trancas e não se abre

boa ligação

não tem cordas e não se solta

por isso o homem santo

bom sempre em salvar homens

portanto não há homens rejeitados

bom sempre em salvar coisas

portanto não há coisas rejeitadas

isto se diz: adentrar o alumbramento portanto

o homem bom é modelo para o não-bom

o homem não-bom é potencial para o bom sem apreciar o modelo e cuidar do potencial mesmo a sabedoria será grande extravio isto se diz: essencial ao deslumbramento XXVIII

conhecer o masculino

conservar o feminino

é tornar-se álveo do mundo

tornando-se o álveo do mundo

a virtude eterna não escorre

e volta a ser recém-nascido

conhecer o claro

conservar o escuro

tornar-se o ideal do mundo

tornando-se ideal do mundo

a virtude eterna não flutua

e volta a ser não-dual

conhecer o glorioso

conservar o vergonhoso

tornar-se o vale do mundo

tornando-se o vale do mundo

a virtude eterna é suficiente

e retorna a ser lenho tosco

decomposto o lenho-tosco

eis compostas as funções

o homem santo usando-o

torna-se dirigente do funcionalismo

portanto

a grande regência não faz cortes

XXIX

querer abarcar o mundo e nele atuar

eu vejo não ser alcançável...

o mundo é um vaso espiritual

não é possível nele atuar

o atuante

arruína-o

o abarcador

perde-o

portanto

as coisas

ora precedem

ora seguem

ora amainam

ora enfurecem

ora prosperam

ora declinam

ora afluem

ora refluem

por isso

o homem santo afasta

o demasiado

o desmesurado

o desqualificado

XXX

os que ajudam o soberano pelo curso

esses não violam com armas o mundo

tal ação provoca reação

onde campeiam tropas

aí crescem espinhos

após grandes combates

sempre anos nefastos

bom é apenas o desfecho

e basta!

não ousar dominar com violência

o desfecho sem apoteose

o desfecho sem repressão

o desfecho sem arrogância

o desfecho porque irremediável

o desfecho sem violência

as coisas reforçando-se caducam

isto se diz: sem curso

sem curso

logo o decurso

XXXI

eis que belas armas não são instrumentos auspiciosos são coisas que todos abominam

portanto

quem no curso

delas não se ocupa

o nobre em casa honra a esquerda

no uso de armas honra a direita

armas não são instrumentos auspiciosos não são instrumentos do nobre

se inelutável usa-as

pondo calma e moderação acima

vence sem embelezar a vitoria

quem faz isso exulta em matar pessoas esse não pode obter seus intentos no mundo nos eventos benéficos prefere-se a esquerda nos eventos maléficos prefere-se a direita o general da reserva fica à esquerda o general do comando fica à direita

a dizer que observa o rito fúnebre

massacres são pranteados com ais e lamentos na vitoria militar observa-se o rito fúnebre XXXII

curso... lenho-tosco sempre sem nome embora pequeno pequeno o mundo porém não o pode sujeitar principes e reis podendo preserva-lo as dez mil coisas por si se subordinam céu e terra em conúbio rorejam doce orvalho o povo sem ser ordenado por si se coordena feito o corte

logo surgem os nomes

já havendo os nomes

aí deve-se saber parar

sabendo parar

nada periclita

um símile do curso no mundo:

o arroio e vale indo para o rio e mar XXXIII

quem conhece o outro

é sábio

quem conhece a sí mesmo

é iluminado

quem vence o outro

tem força

quem vence a si

é forte

quem se contenta

é rico

quem se força a andar

tem querer

quem não perde seu lugar

perdura

quem morre sem se anular

tem a vida

XXXIV

o grande curso é transbordante

ele pode à esquerda e à direita

as dez mil coisas dele dependem para viver nunca são rejeitadas

completa a obra

e não se apropria

veste e nutre as dez mil coisas e não se faz senhor pode ser nomeado no que é pequeno

as dez mil coisas a ele retornam e não se faz senhor pode ser nomeado como grande

e só por não se fazer grande

pode realizar sua grandeza

XXXV

retendo a grande imagem

o mundo acorre

acorre sem prejudicar

assim a grande paz

música e atrativos...

para o hóspede de passagem

o que vai da boca do curso...

tão diluído que a nada sabe!

olhá-lo

não basta para o ver

ouví-lo

não basta para o escutar

usá-lo não basta para o esgotar

XXXVI

quer-se a contração

é preciso consolidar a expansão

quer-se o enfraquecimento:

é preciso consolidar o fortalecimento quer-se a decadência:

é preciso consolidar o florescimento quer-se a privação:

é preciso consolidar a doação

isto se diz: iluminação sutil

suavidade vence violência

não deve o peixe sair das profundezas nem a potestade do reino a outros mostrar-se XXXVII

o curso sempre não atuando

e nada fica por atuar

príncipes e reis podendo preservá-lo as dez mil coisas por si se transformam transformadas e surgindo o desejo

eu o reprimo pelo lenho sem nome

no lenho-tosco sem nome

eis que de fato não há desejo

sem desejo fica-se em repouso

o mundo por si se fixa

XXXVIII

a virtude superior não ostenta virtude por isso tem virtude

a virtude inferior não se despe de virtude por isso não tem virtude

a virtude superior não atua

não ficando por atuar

a virtude inferior não atua

ficando por atuar

o amor-humano superior atua

não por ter de atuar

a justiça superior atua

por ter de atuar

o rito superior atua

ninguém corresponde

aí arregaça as mangas indo às vias de fato portanto

perdido o curso

eis a virtude

perdida a virtude

eis o amor-humano

perdido o amor-humano eis a justiça

perdida a justiça

eis o rito

ora o rito dilui fé e fidelidade

sendo pois cabeça de toda desordem

o saber prematuro é mera flor do curso sendo pois princípio de todo desatino por isso

o homem em plena maturidade...

ocupa-se do denso e não do diluído

ocupa-se do real e não da florescência portanto

afasta o ali

agarra o aqui

XXXIX

eis a unificação dos primórdios

o céu uno

ficou claro

a terra unificada

ficou tranquila

o espírito uno

ficou animado

o vale uno

ficou repleno

as dez mil coisas unificadas

ficaram geradoras

príncipes e reis unos

ficaram fidedignos

isso conseguiu-se pela unificação

o céu não claro

talvez rachasse

a terra não tranquila

talvez implodisse

o espírito não animado

talvez sucumbisse

o vale não repleno

talvez arruinasse

as dez mil coisas não geradoras talvez ruíssem príncipes e reis não fidedígnos talvez tombassem portanto

o dígno tem suas raizes no humilde

o alto tem suas bases no baixo

por isso

príncipes e reis se intitulam:

orfãos viúvos indigentes

será por suas raízes no humilde ? não ?

portanto

a glória suprema não se vangloria

não esmerar como jade mas rusticar como pedra XL

retornar

é o mover do curso

suavidade

seu operar

sob o céu

as dez mil coisas nascem no manifesto o manifesto nasce do imanifesto

XLI

a pessoa superior escutando o curso

pratica-o zelosamente

a pessoa mediana escutando o curso

ora insiste ora desiste

a pessoa inferior escutando o curso

ri estrepitosamente

não risse não seria o curso

por isso há nos provérbios

o curso claro

parece escuro

o curso progressivo

parece retrógrado

o curso plano

parece escabroso

a virtude superior

parece um vale

a grande candura

parece vergonha

a virtude larga

parece avara

a virtude firme

parece fugaz

a virtude sólida

parece carcomida

o grande quadrado

não tem cantos

o grande talento

é tardio

a grande música

dilui o som

a grande imagem

não tem figura

o curso oculta-se no sem-nome

e só o curso em bem atuar a doação de si XLII

o curso

gera o um

o um

gera o dois

o dois

gera o três

o três

gera as dez mil coisas

as dez mil coisa têm atrás sombra (Yin) elas abraçam na frente a luz (Yang)

o éter vazio para compor a harmonia

o que os homens mais abominam

ser órfão viúvo indigente

reis e príncipes a si se intitulam

portanto

as coisas

ora perder é ganho

ora ganhar é perda

a tradição dos homens eu também transmito: os violentos não alcançam sua morte

eu o considerarei pai da doutrina

XLIII

sob o céu o mais suave...

desembesta pelo mais firme sob o céu sem manifestação penetra o impenetrável por isso

eu conheço a vantagem de não-atuar

a doutrina sem palavras

a vantagem de não-atuar

sob o céu poucos alcançam

XLIV

o nome ou a pessoa

qual preferir ?

a pessoa ou as posses

que valorizar ?

o ganho ou a perda

qual dói mais ?

por isso

demasiada poupança

traz grande dispêndio

excessivo acúmulo

traz enorme desperdício

sabendo bastar-se

não se passa vergonha

sabendo conter-se

não se corre perigo

pode-se por isso pedurar

XLV

a grande realização

parece defeituosa

seu efeito não degenera

a grande plenitude

parece vazia

seu efeito não decresce

a grande retidão

parece sinuosa

a grande habilidade

parece bisonha

a grande eloquência

parece balbuciante

o repouso vence a agitação

o frio vence o quente

pureza e repouso são o ajuste do mundo XLVI

sob o céu há curso...

desatrelam-se os corcéis para o adubo sob o céu não há curso...

éguas de batalha procriam na fronteira maior culpa:

aquiescer ao desejo

maior violação:

não saber bastar-se

maior falta:

desejar obter

portanto

sabendo bastar-se ao que basta sempre basta XLVII

sem sair de casa

conhece-se o mundo

sem espiar pela janela

vê-se o curso do céu

quanto mais longe se vai

tanto menos se conhece

por isso o homem santo...

não perambula...

e conhece

não olha...

e nomeia

não atua...

e realiza

XLVIII

no estudo

dia a dia se cresce

no curso

dia a dia se decresce

decrescendo a mais decrescer

chega-se ao não-atuar

não atuando nada fica por atuar

conquista-se o mundo sempre por não ter afazeres bastam afazeres que não se conquista o mundo XLIX

o homem santo não tem coração constante pelo coração das cem famílias faz seu coração com o bom

eu sou bom

com o não bom

também sou bom

tal é a bondade da virtude

com o fiel

eu sou fiel

com o não fiel

também sou fiel

tal é a fidelidade da virtude

sob o céu o homem santo é conciliador faz os corações se misturarem sob o céu as cem famílias lhe emprestam olhos e ouvidos o homem santo a todos acriança

L

expor vida é impor morte

os adeptos da vida

três em dez

os adeptos da morte

três em dez

os que levam a vida ao campo de morte também três em dez

e a razão ?

viverem intensamente a vida

ouve-se do bom cultor da vida:

em terra

não topa com rinocerontes ou tigres

na liça

não sofre com armas e escudos

o rinoceronte não tem onde fincar o chifre o tigre não tem onde fincar as garras as armas não tem onde enfiar a lâmina e a razão ?

não ter campo de morte

LI

o curso lhes

dá vida

a virtude

dá cultivo

a substância

dá forma

o ambiente

dá desenvolvimento

por isso

as dez mil coisas...

todas a venerar o curso e dignificar a virtude a veneração do curso

a dignificação da virtude

eis que não se ordena

vêm sempre por sí

portanto

o curso

lhes dá vida

a virtude

dá cultivo

o crescimento

dá aprimoramento

a proteção

dá maturação

a manutenção

dá renovação

gerar

sem possuir

atuar

sem depender

presidir

sem controlar

diz-se virtude mística

LII

o mundo tem origem

esta é considerada a mãe do mundo

já tendo a mãe

conhece-se o filho

já conhecido o filho

novamente guarda-se a mãe

desaparecendo o corpo não periga

tapando suas entradas

trancando suas portas

findando o corpo

não se aflige

abrindo suas entradas

prosperando seus afazeres

findando o corpo

não se salva

ver o pequeno soa:

alumbramento

conservar a suavidade soa:

força

se usar sua luz retornando à sua iluminação nada perde quando o corpo espectrificar isto se diz: revestir de eternidade

LIII

se eu tivesse um saber especializado e agisse conforme o grande curso

justamente sua efetuação eu temeria

o grande curso é bem plano

mas o povo gosta dos atalhos

a corte está bem mondada

mas os campos bem acizanados

e os celeiros bem vazios

enfeitam-se com brocados letrados

andam com espadas afiadas

enjoados com comes e bebes

bens e riquezas em profusão

isto se diz: ostentar rapina

não! não é o curso!

LIV

quem planta o bem

este não perde a raiz

quem abraça o bem

este não se separa

e filhos e netos não cessarão o culto ancestral cultivado na pessoa

a virtude será eficiente

cultivado na familia

a virtude será copiosa

cultivado na comunidade a virtude será durável cultivado no reino

a virtude será fecunda

cultivado no mundo

a virtude será universal

portanto

pela pessoa

ver as pessoas

pela familias

ver as familias

pela comunidade

ver as comunidades

pela nação

ver as nações

pelo mundo

ver o mundo

eu como sei que o mundo é assim ?

pelo aqui

LV

quem possui o denso da virtude

assemelha-se a uma criança nua

insetos venenosos não a picam

feras não a estraçalham

aves de rapina não a arrebatam

ossos moles tendões elásticos

mas agarra com força

ainda não conhece o acasalamento

mas o falo fala ereto

é o auge do sêmen

o dia inteiro grita sem rouquejar

é o auge da harmonia

conhecer a harmonia soa:

eternidade

conhecer a eternidade soa:

iluminação

acrescer a vida soa:

fatalidade

o coração no controle do sopro soa:

rigidez

as coisas reforçando-se caducam

isso se diz

sem curso

sem curso

logo o decurso

LVI

quem sabe

não fala

quem fala

não sabe

tapar

as entradas

trancar

as portas

abrandar

o cume

desfazer

o emaranhado

harmonizar a luz

conglobar

o pó

diz-se: união mística

portanto

ela é incompatível com a intimidade

ela é incompatível com a estranheza

ela é incompatível com o ganho

ela é incompativel com a perda

ela é incompatível com a dignidade

ela é incompatível com a vileza

portanto

constitui a dignidade do mundo

LVII

com a normalidade

governa-se o reino

com a anormalidade

usam-se as armas

por não ter afazeres conquista-se o mundo como eu sei que é assim ?

pelo aqui

sob o céu

quanto mais tabus e superstições

tanto mais pobre o povo

quanto maior a potestade da corte

tanto mais caótico o reino

quanto maior a inventiva dos homens

tanto mais coisas anormais

quanto mais leis e decretos promulgados tanto mais ladrões e assaltantes

por isso

um homem santo esclareceu:

eu sem atuar

o povo mudou por si

eu amante do repouso

o povo por si endireitou

eu sem afazeres

o povo por si enriqueceu

eu sem desejos

o povo por si lenho-tosco

LVIII

governo velado e sonado

povo expresso e desperto

governo vigilante e atuante

povo retraído e omisso

desgraça!

em ti apoia-se a felicidade

felicidade! em ti encosta- se a desgraça quem lhes conhece os limites ?

na anomia... o normal passa por anormal o bom passa por simulacro

o desvio do homem... teus dias teimosamente duram por isso o homem santo...

enquadra

sem demarcar

canteia

sem talhar

corrige

sem deformar

transluz

sem ofuscar

LIX

no governo do homem

no serviço do céu

nada como temperança

só a temperança se diz submissão prévia a submissão prévia diz-se virtude reiterada virtude reiterada

então invencibilidade

invencibilidade

então não se conhecem os limites

sem os limites

então pode-se ter o reino

tendo a mãe do reino

pode-se perdurar

isto se diz:

raiz profunda

haste firme

é o curso da vida longa e visão perpétua LX

reger um grande reino é como fritar peixe miúdo no mundo governado pelo curso

espectros não passam por espíritos

não só espectros não passam por espíritos espíritos também não atormentam pessoas não só espíritos não atormentam pessoas o homem santo tambem não as atormenta eis que ambos não se atormentando

a virtude congrega nele reintegrando LXI

um grande reino é um rio no baixo curso reunião do mundo

fêmea do mundo

a fêmea sempre pelo repouso vence o macho pelo repouso ela fica abaixo

portanto

se um grande reino ficar abaixo de um pequeno então o grande conquista o pequeno

se um pequeno reino ficar abaixo de um grande então o pequeno conquista o grande

portanto

uns ficam abaixo para conquistar

outros estando abaixo conquistam

um grande reino

só quer juntar e nutrir pessoas

um pequeno reino só quer participar e servir pessoas eis que para ambos conquistarem o almejado convém que o grande fique abaixo

LXII

curso...

recolhimento das dez mil coisas

tesouro dos bons

refúgio dos não bons

belas palavras

podem negociar honras

nobre conduta

pode destacar dos outros

mas por que rejeitar os não bons ?

portanto

foi instituido o filho do céu

estabelecidos os três duques

contudo empunhar o cetro de jade

e com este à frente desfilar na quadriga não vale assentar e adentrar -se no curso e a razão dos antigos apreciarem o curso ?

não soa assim:

quem pede

dele recebe

quem tem culpa

por ele evita a perversão

portanto

constitui a dignidade do mundo

LXIII

atue

o não-atuar

ocupe-se

em não se ocupar

saboreie

o sem-sabor

engrandeça o pequeno

converta discórdia em virtude

delineie o difícil do fácil

faça o grande de sua pequenez

por isso

o homem santo nunca se engrandece

e pode realizar sua grandeza

eis que promessas levianas decerto são de pouca fé muito fácil decerto é bem difícil

por isso

o homem santo considera tudo bem difícil portanto não fica difícil

LXIV

calmo

é fácil manter

ainda imprevisível

é fácil programar

quebradiço

é fácil despedaçar

miúdo

é facil de espalhar

atuar no ainda não-sido

por em ordem antes da desordem

árvore que braços unidos abarcam nasceu de raiz capilar torre de nove andares surgiu de terra justaposta jornada de dez mil leguas começa sob os pés o atuante

arruína-o

o abarcador

perde-o

o povo na execução da obra sempre estraga no fim cuidando do fim como do começo não se estraga a obra por isso o homem santo...

deseja não desejar

não valoriza bens custosos

aprende a não aprender

recorre por onde os homens transpassaram ajudando a natureza das dez mil coisas isso sem ousar atuar

LXV

na antiguidade os que bem atuavam o curso não procuravam iluminar o povo

mas sim assingelá-lo

o povo é ingovernável se a sabedoria excede portanto

governar pela sabedoria

é espoliar a nação

não governar pela sabedoria

é prosperar a nação

quem sabe os dois

aprofunda no ideal

saber aprofundar no ideal diz-se virtude mística virtude mística...

profunda! longínqua!

retorna com as dez mil coisas

culmina na grande concórdia

LXVI

rios e mares podem reger os cem vales por saberem ficar abaixo deles

portanto

regem os cem vales

por isso o homem santo...

desejando ficar acima do povo

deve nas palavras ficar abaixo

desejando ficar à frente do povo

deve na sua pessoa ficar atrás

por isso o homem santo...

fica acima

e o povo não sente o peso

fica à frente

e o povo não sofre prejuizo

por isso

o mundo é alegremente impelido

e sem nenhuma opressão

por não disputar

sob o céu não se pode com ele disputar LXVII

sob o céu todos dizem que por ser grande meu curso aparenta anormalidade

só por ser grande parece anormal

se normal há muito seria insignificante eu tenho três jóias para guardar e cuidar a primeira soa:

misericórdia

a segunda soa:

moderação

a terceira soa:

não ousar primazia

primeiro misericórdia

depois coragem

primeiro moderação

depois generosidade

primeiro não ousar primazia

depois dirigir o funcionalismo

hoje

sem misericórdia quer-se coragem

sem moderação

quer-se generosidade

sem ficar atrás

quer-se primazia

isso já é morte!

eis que a misericórdia

na ofensiva vence

na defensiva consolida

quem o céu quer salvar protege pela misericórdia LXVIII

quem bem sabe fazer o militar

não é marcial

quem bem sabe guerrear

não é colérico

quem bem sabe vencer o inimigo

não se faz presente

quem bem sabe utilizar homens

fica abaixo deles

isto se diz: virtude de não competir isto se diz: força empregar homens

isto se diz: o auge das bodas com o céu LXIX

de um estrategista a máxima:

eu não ouso ser o senhor

mas o hóspede

não ouso avançar uma polegada

recuo um pé

isto se diz:

avançar

sem avançada

rechaçar

sem braços

repelir

sem hostilizar

capturar

sem armas

maior desastre: desconsiderar o inimigo desconsiderar o inimigo seria perder minhas jóias portanto

exércitos antagônicos em confronto

o que for compassivo vence

LXX

minhas palavras... bem fáceis de conhecer bem fáceis de praticar

sob o céu

são incognoscíveis

são impraticáveis

as palavras têm tradição

os eventos têm regente

eis que só por não ter conhecer

não se conhece o eu

os que conhecem o eu são raros

então o eu é preciosidade

por isso

sob o traje aldeão o homem santo abriga jade LXXI

saber não saber

sublima

não saber saber

aliena

homem santo não se aliena

porque aliena a alienação

e só porque aliena a alienação

não se aliena

por isso

não se aliena

LXXII

o povo não teme autoridade

então advém a grande autoridade

nada comprime sua moradia

nada oprime sua subsistência

só por não haver opressão não há ressentimento por isso o homem santo

conhece-se a si mesmo

sem se exibir

ama-se a si mesmo

sem se dignificar

portanto

afasta o ali

agarra o aqui

LXXIII

coragem com ousadia

então morte

coragem sem ousadia

então sobrevivência

ambas...

ora benéficas

ora maléficas

aquilo que o céu abomina alguém sabe a razão ?

por isso

o homem santo ainda aumenta as dificuldades o curso do céu...

sem competir

sabe bem vencer

sem falar

sabe bem responder

sem conclamar

vêm por si

e passo a passo sabe bem dispor

a rede do céu é espaçosa...

largas malhas e nada tresmalha

LXXIV

o povo não teme a morte...

para que assustá-lo com a morte ?

se o povo sempre temesse a morte

se ao inventor eu capturasse para matá-lo quem ousaria?

há sempre o ofício da morte a executar eis que usurpar o lugar da morte

seria talhar em lugar do grande lenhador raro seria não ferisse as mãos

LXXV

a fome do povo...

são seus superiores a devorar impostos por isso

a fome

o desgoverno do povo...

são seus superiores em atuação

por isso

o desgoverno

desdém do povo pela morte...

são seus superiores no frenesi da vida por isso

o desdém da morte

eis que só quem não atua no viver

esse é virtuoso para dignificar a vida LXXVI

o nascer do homem

é pois

suave e fraco

seu morrer

é pois

rígido e forte

o nascer da planta é pois

suave e tenro

seu morrer

é pois

murcho e seco

portanto

rigidez e força

são adeptos da morte

suavidade e fraqueza

são adeptos da vida

por isso

arma é forte

então não vence

árvore é forte

então vira arma

força e grandeza

são inferiores

suavidade e fraqueza

são superiores

LXXVII

o curso do céu...

como lembra o retesar do arco!

o elevado

é abaixado

o baixo

é levantado

o mais

é tirado

o menos

é completado

o curso do céu...

tira do mais e completa o menos

o curso do homem é o reverso:

tira do menos para ofertar ao mais

quem pode ter a mais para ofertar ao mundo ?

só quem tem o curso

por isso o homem santo

atua

sem depender

realiza a obra

sem se ater

ele não quer mostra-se virtuoso

LXXVIII

sob o céu

nada mais suave e mole do que a água nada a supera no combate ao rígido e forte por que nada pode modificá-la

a fraqueza

vence a força

a suavidade

vence a dureza

sob o céu

isso não se pode conhecer

isso não se pode praticar

por isso afirmou um homem santo:

quem arca com a sujeira do reino

pode dizer-se senhor do culto agrário quem arca com os males do reino

pode dizer-se rei do mundo

palavras corretas parecem o reverso

LXXIX

no ajuste de uma grande discórdia

é inevitável subsistir discórdia

como pensar que seja um bem ?

por isso o homem santo...

cumpre a talha esquerda do contrato

não obriga a outra parte

com virtude cumpre-se o dever

sem virtude cumpre-se a cobrança

o curso do céu sem ser sentimental

sempre fica com o homem bom

LXXX

pequeno reino

pouca gente

instrumentos de dez ou cem

que não se usem

as pessoas no temor da morte

sem êxodos

barcos e carros

sem razão para movê-los

armas e couraças

sem razão para exibí-las

oxalá o povo voltesse

ao uso dos quipos

ao doce de suas comidas à beleza de seus trajes ao sossego de sua casa

ao confortável de seus costumes

reinos vizinhos visíveis

aqui e ali

rumor de cães e galos audíveis

aqui e ali

a gente envelheça e morra sem vaivém aqui e ali

LXXXI

palavras fiéis

não são belas

belas palavras

não fazem fé

o bom

não se discute

o discutível

não faz bem

o saber

não é extensivo

a erudição

não faz saber

o homem santo não acumula bens

quanto mais faz aos outros

tanto mais tem para si

quanto mais dá aos outros

tanto mais é em si

o curso do céu beneficia

sem prejudicar

o curso do homem santo atua

sem disputar