Tarde por Olavo Bilac - Versão HTML

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Universidade da Amazônia

Tarde

de Olavo Bilac

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Tarde

de Olavo Bilac

À memória

de

José do Patrocínio,

meu amigo,

é dedicado este livro.

8 outubro - 1918.

O. B.

"... La nostra vita è siccome uno arco montando e volgendo... Avemo dunque che Ia gioventute nel quarantacinquesimo anno se compie: e siccome I'adolescenza è in venticinque anni che procede montando alia gioventute; cosí il discendere, cioè la senettute, è altrettanto tempo che succede alla gioventute; e cosí si termina Ia senettute nel settantesimo anno... Dov'é da sapere che la nostra buona e diritta natura ragionevolmente procede in noi, siccome vedemo procedere la natura delle piante in quelle; e però altri costumi e altri portamenti sono ragionevoli ad una età più che ad altre; nelli quali I'anima nobilitata ordinariamente procede per una semplice via, usando li suoi atti nelli loro tempi e etadi siccome al'ultimo suo frutto sono ordinari."

(DANTE - "Il Convito", trat. quarto, cap. XXIV.) Hino á Tarde

Glória jovem do sol no berço de ouro em chamas, Alva! natal da luz, primavera do dia,

Não te amo! nem a ti, canícula bravia,

Que a ti mesma te estruis no fogo que derramas!

Amo-te, hora hesitante em que se preludia O adágio vesperal, — tumba que te recamas De luto e de esplendor, de crepes e auriflamas, Moribunda que ris sobre a própria agonia!

Amo-te, ó tarde triste, ó tarde augusta, que, entre Os primeiros clarões das estrelas, no ventre, Sob os véus do mistério e da sombra orvalhada, Trazes a palpitar, como um fruto do outono, A noite, alma nutriz da volúpia e do sono, Perpetuação da vida e iniciação do nada.

Ciclo

Manhã. Sangue em delírio, verde gomo,

Promessa ardente, berço e liminar:

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A árvore pulsa, no primeiro assomo

Da vida, inchando a seiva ao sol... Sonhar!

Dia. A flor, — o noivado e o beijo, como

Em perfumes um tálamo e um altar:

A arvore abre-se em riso, espera o pomo,

E canta à voz dos pássaros... Amar!

Tarde. Messe e esplendor, glória e tributo; A árvore maternal levanta o fruto,

A hóstia da idéia em perfeição... Pensar!

Noite. Oh! saudade!... A dolorosa rama

Da árvore aflita pelo chão derrama

As folhas, como lágrimas... Lembrar!

Pátria

Pátria, latejo em ti, no teu lenho, por onde Circulo! e sou perfume, e sombra, e sol, e orvalho!

E, em seiva, ao teu clamor a minha voz responde, E subo do teu cerne ao céu de galho em galho!

Dos teus liquens, dos teus cipós, da tua fronde, Do ninho que gorjeia em teu doce agasalho, Do fruto a amadurar que em teu seio se esconde, De ti, - rebento em luz e em cânticos me espalho!

Vivo, choro em teu pranto; e, em teus dias felizes, No alto, como uma flor, em ti, pompeio e exulto!

E eu, morto, - sendo tu cheia de cicatrizes, Tu golpeada e insultada, — eu tremerei sepulto: E os meus ossos no chão, como as tuas raízes, Se estorcerão de dor, sofrendo o golpe e o insulto!

Língua Portuguesa

Ultima flor do Lácio, inculta e bela,

És, a um tempo, esplendor e sepultura:

Ouro nativo, que na ganga impura

A bruta mina entre os cascalhos vela...

Amo-te assim, desconhecida e obscura,

Tuba de alto clangor, lira singela

Que tens o trom e o silvo da procela,

E o arrolo da saudade e da ternura!

Amo o teu viço agreste e o teu aroma

De virgens selvas e de oceano largo!

Amo-te, ó rude e doloroso idioma,

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Em que da voz materna ouvi: "meu filho!", E em que Camões chorou, no exílio amargo, O gênio sem ventura e o amor sem brilho!

Música Brasileira

Tens, às vezes, o fogo soberano

Do amor: encerras na cadência, acesa

Em requebros e encantos de impureza,

Todo o feitiço do pecado humano.

Mas, sobre essa volúpia, erra a tristeza

Dos desertos, das matas e do oceano:

Bárbara poracé, banzo africano,

E soluços de trova portuguesa.

És samba e jongo, xiba e fado, cujos

Acordes são desejos e orfandades

De selvagens, cativos e marujos:

E em nostalgias e paixões consistes,

Lasciva dor, beijo de três saudades,

Flor amorosa de três raças tristes.

Anchieta

Cavaleiro da mística aventura,

Herói cristão! nas provações atrozes

Sonhas, casando a tua voz às vozes

Dos ventos e dos rios na espessura:

Entrando as brenhas, teu amor procura

Os índios, ora filhos, ora algozes,

Aves pela inocência, e onças ferozes

Pela bruteza, na floresta escura.

Semeador de esperanças e quimeras,

Bandeirante de "entradas" mais suaves, Nos espinhos a carne dilaceras:

E, porque as almas e os sertões desbraves, Cantas: Orfeu humanizando as feras,

São Francisco de Assis pregando às aves...

Caos

No fundo do meu ser, ouço e suspeito

Um pélago em suspiros e rajadas:

Milhões de vivas almas sepultadas,

Cidades submergidas no meu peito.

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Às vezes, um torpor de águas paradas...

Mas, de repente, um temporal desfeito:

Festa, agonia, júbilo, despeito,

Clamor de sinos, retintim de espadas,

Procissões e motins, glórias e luto,

Choro e hosana... Ferver de sangue novo,

Fermentação de um mundo agreste e bruto...

E há na esperança, de que me comovo,

E na grita de dúvidas, que escuto,

A incerteza e a alvorada do meu povo!

Diziam que...

"Diziam que, entre as nações sobreditas, moravam algumas monstruosas.

Uma é de anãos, de estatura tão pequena, que parecem afronta dos homens; -

chamados Goiasis.

Outra é de casta de gente, que nasce com os pés ás avessas, de maneira que quem houver de seguir seu caminho há de andar ao revés do que vão mostrando as pisadas; chamam-se Matuius.

Outra é de homens gigantes, de dezesseis palmos de alto, adornados de pedaços de ouro por beiços e narizes, e aos quais todos os outros pagam respeito; têm por nome Curinqueás.

Finalmente que há outra nação de mulheres, também monstruosas no modo do viver (são as que hoje chamamos Amazonas, e de que tomou o nome o rio) porque são guerreiras, que vivem por si só sem comércio de homens; vivem entre grandes montanhas; são mulheres de valor conhecido...

Padre Simão de Vasconcelos.

(Crônica da Companhia de Jesus no Estado do Brasil, 1663, Liv. I, cap. 31.) I

Os Monstros

Não me perdi numa ilusão... Perdi-me

Na existência, entre os homens. E encontrei-os, Vivos, bem vivos! — Estes monstros feios, Cujo peso afrontoso a terra oprime.

Mas há monstros no bem, como no crime:

Outros houve, que em hinos e gorjeios

Talvez viveram e morreram, cheios

De extrema formosura e ardor sublime.

Ah! no dia da cólera tremenda,

Os monstros bons, agora fugitivos

Desta míngua de fé que nos infama,

Ressurgirão no epílogo da lenda:

Os mortos voltarão varrendo os vivos,

E os maus se afogarão na própria lama!

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II

Os Goiasis

Ainda viveis, espíritos obscenos,

Como nos dias do Brasil inculto,

Na inteligência anãos, como no vulto;

Como no corpo, no moral pequenos.

Espremeis a impotência do ódio estulto

Em pérfidos esguichos de venenos..

Tendes baixeza em tudo: nem, ao menos,

Força na inveja e elevação no insulto!

Répteis humanos, no coleio dobre

De rastos babujais templos e lares;

Contra os bons, contra os fortes de alma nobre, Línguas e dentes dardejais nos ares:

Mas só podeis ferir, na raiva pobre,

Em vez dos corações, os calcanhares.

III

Os Matuius

De pés virados, marcha avessa e rude,

Dedos atrás, calcâneos para a frente,

Ainda viveis, mentores sem virtude,

Que a verdade escondeis à vossa gente!

Sabeis, — e errais propositadamente,

Traidores nas lições e na atitude:

Aos corações o vosso exemplo mente,

Como no solo o vosso rasto ilude.

Pobre quem calca o vosso piso errado:

Em vez da liberdade encontra um muro;

Pedindo a salvação, cai num pecado;

E acha em lugar da glória o lodo impuro:

Para seguir-vos, vai para o passado;

Por imitar-vos, foge do futuro.

IV

Os Curinqueãs

Ainda viveis! Conheço-vos, felizes

Morubixabas de ambições astutas,

Que em desgraçadas e mesquinhas lutas

Desgovernais misérrimos países!

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Já tendes paços em lugar de grutas...

Mas, apesar do tempo e dos vernizes,

- Se os não trazeis por beiços e narizes, Os botoques guardais nas almas brutas.

Pobres de idéias, ávidos de foros,

Rudes pastores de servil rebanho,

Espirrais arrogância pelos poros...

Sois sempre os mesmos Curinqueãs de antanho: Vastos e estéreis, ocos e sonoros,

Unicamente grandes no tamanho!

V

As Amazonas

Nem sempre durareis, eras sombrias

De miséria moral! A aurora esperas,

Ó Pátria! e ela virá, com outras eras,

Outro sol, outra crença em outros dias!

Davi renascerá contra Golias,

Alcides contra os pântanos e as feras:

Os corações serão como crateras,

E hão de em lavas mudar-se as cinzas frias.

As nobres ambições, força e bondade,

Justiça e paz virão sobre estas zonas,

Da confusa fusão da ardente escória.

E, na sua divina majestade,

Virgens, reviverão as Amazonas

Na cavalgada esplêndida da glória!

O Vale

Sou como um vale, numa tarde fria,

Quando as almas dos sinos, de uma em uma, No soluçoso adeus da ave-maria

Expiram longamente pela bruma.

É pobre a minha messe. É névoa e espuma

Toda a glória e o trabalho em que eu ardia...

Mas a resignação doura e perfuma

A tristeza do termo do meu dia.

Adormecendo, no meu sonho incerto

Tenho a ilusão do prêmio que ambiciono:

Cai o céu sobre mim em pirilampos...

E num recolhimento a Deus oferto

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O cansado labor e o inquieto sono

Das minhas povoações e dos meus campos.

A Montanha

Calma, entre os ventos, em lufadas cheias De um vago sussurrar de ladainha,

Sacerdotisa em prece, o vulto alteias

Do vale, quando a noite se avizinha:

Rezas sobre os desertos e as areias,

Sobre as florestas e a amplidão marinha;

E, ajoelhadas, rodeiam-te as aldeias,

Mudas servas aos pés de uma rainha.

Ardes, num holocausto de ternura...

E abres, piedosa, a solidão bravia

Para as águias e as nuvens, a acolhê-las; E invades, como um sonho, a imensa altura,

- Ultima a receber o adeus do dia,

Primeira a ter a bênção das estrelas!

Os Rios

Magoados, ao crepúsculo dormente,

Ora em rebojos galopantes, ora

Em desmaios de pena e de demora,

Rios, chorais amarguradamente,

Desejais regressar... Mas, leito em fora, Correis... E misturais pela corrente

Um desejo e uma angústia, entre a nascente De onde vindes, e a foz que vos devora.

Sofreis da pressa, e, a um tempo, da lembrança.

Pois no vosso clamor, que a sombra invade, No vosso pranto, que no mar se lança,

Rios tristes! agita-se a ansiedade

De todos os que vivem de esperança,

De todos os que morrem de saudade...

As Estrelas

Desenrola-se a sombra no regaço

Da morna tarde, no esmaiado anil;

Dorme, no ofego do calor febril,

A natureza, mole de cansaço.

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Vagarosas estrelas! passo a passo,

O aprisco desertando, às mil e às mil,

Vindes do ignoto seio do redil

Num compacto rebanho, e encheis o espaço...

E, enquanto, lentas, sobre a paz terrena, Vos tresmalhais tremulamente a flux,

— Uma divina música serena

Desce rolando pela vossa luz:

Cuida-se ouvir, ovelhas de ouro! a avena

Do invisível pastor que vos conduz...

As Nuvens

Nuvem, que me consolas e contristas,

Tenho o teu gênio e o teu labor ingrato:

Essas arquiteturas imprevistas

São como as construções em que me mato...

Nunca vemos, misérrimos artistas,

A vitória deste ímpeto insensato:

A um sopro benfazejo, que conquistas!

A um hálito cruel, que desbarato!

Nuvens de terra e céu, brincos do vento,

Vai-se-nos breve a essência no ar varrida...

Irmã, que importa? ao menos, num momento, No fastígio falaz da nossa lida,

Tu, nas miragens, e eu, no pensamento,

Somos a força e a afirmação da Vida!

As Árvores

Na celagem vermelha, que se banha

Da rutilante imolação do dia,

As árvores, ao longe, na montanha,

Retorcem-se espectrais à ventania.

Árvores negras, que visão estranha

Vos aterra? Que horror vos arrepia?

Que pesadelo os troncos vos assanha,

Descabelando a vossa rumaria?

Tendes alma também... Amais o seio

Da terra; mas sonhais, como sonhamos,

Bracejais, como nós, no mesmo anseio...

Infelizes, no píncaro do monte,

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(Ah! Não ter asas!...) estendeis os ramos À esperança e ao mistério do horizonte.

As Ondas

Entre as trêmulas mornas ardentias,

A noite no alto-mar anima as ondas.

Sobem das fundas úmidas Golcondas,

Pérolas vivas, as nereidas frias:

Entrelaçam-se, correm fugidias,

Voltam, cruzando-se; e, em lascivas rondas, Vestem as formas alvas e redondas

De algas roxas e glaucas pedrarias.

Coxas de vago ônix, ventres polidos

De alabastro, quadris de argêntea espuma, Seios de dúbia opala ardem na treva;

E bocas verdes, cheias de gemidos,

Que o fósforo incendeia e o âmbar perfuma, Soluçam beijos vãos que o vento leva...

Crepúsculo na Mata

Na tarde tropical, arfa e pesa a atmosfera.

A vida, na floresta abafada e sonora,

Úmida exalação de aromas evapora,

E no sangue, na seiva e no húmus acelera.

Tudo, entre sombras, — o ar e o chão, a fauna e a flora, A erva e o pássaro, a pedra e o tronco, os ninhos e a hera, A água e o réptil, a folha e o inseto, a flor e a fera,

— Tudo vozeia e estala em estos de pletora.

O amor apresta o gozo e o sacrifício na ara: Guinchos, berros, zinir, silvar, ululos de ira, Ruflos, chilros, frufrus, balidos de ternura...

Súbito, a excitação declina, a febre pára: E misteriosamente, em gemido que expira,

Um surdo beijo morno alquebra a mata escura...

Sonata ao Crepúsculo

Trompas do sol, borés do mar, tubas da mata, Esfalfai-vos, rugindo, — e emudecei... Apenas, Agora, trilem no ar, como em cristal e prata, Rústicos tamborins e pastoris avenas.

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Trescala o campo, e incensa o ocaso, numa oblata.

- Surgem da Idade de Ouro, em paisagens serenas, Os deuses; Eros sonha; e, acordando à sonata, Bailam rindo as subtis alípedes Camenas.

Depois, na sombra, à voz das cornamusas graves, Termina a pastoral num lento epitalâmio...

Cala-se o vento... Expira a surdina das aves.

E a terra, noiva, a ansiar, no desejo que a enleva, Cora e desmaia, ao seio aconchegando o flâmeo, Entre o pudor da tarde e a tentação da treva.

O Crepúsculo da Beleza

Vê-se no espelho; e vê, pela janela,

A dolorosa angústia vespertina:

Pálido, morre o sol... Mas, ai! termina

Outra tarde mais triste, dentro dela;

Outra queda mais funda lhe revela

O aço feroz, e o horror de outra ruína:

Rouba-lhe a idade, pérfida e assassina,

Mais do que a vida, o orgulho de ser bela!

Fios de prata... Rugas... O desgosto

Enche-a de sombras, como a sufocá-la

Numa noite que aí vem... E no seu rosto

Uma lágrima trêmula resvala,

Trêmula, a cintilar, — como, ao sol posto, Uma primeira estrela em céu de opala...

O Crepúsculo dos Deuses

Fulge em nuvens, no poente, o Olimpo. O céu delira.

Os deuses rugem. Entre incêndios de ouro e gemas, Há torrentes de sangue, hecatombes supremas, Heróis rojando ao chão, troféus ardendo em pira, Ilíadas, bulcões de gládios e díademas,

Ossa e Pélio tombando, e Zeus em raios de ira, E Acrópoles em fogo, e Homero erguendo a lira Em reverberações de batalhas e poemas...

Mas o vento, embocando as bramidoras trompas, Clangora. Rolam no ar, de roldão, num tumulto, Os numes e os titãs, varridos à rajada:

E ódio, furor, tropel, fastígio, glória, pompas, 11

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Chamas, o Olimpo, — tudo esbate-se, sepulto Em cinza, em crepe, em fumo, em sonho, em noite, em nada.

Microcosmo

Pensando e amando, em turbilhões fecundos És tudo: oceanos, rios e florestas;

Vidas brotando em solidões funestas;

Primaveras de invernos moribundos;

A Terra; e terras de ouro em céus profundos, Cheias de raças e cidades, estas

Em luto, aquelas em raiar de festas;

Outras almas vibrando em outros mundos;

E outras formas de línguas e de povos;

E as nebulosas, gêneses imensas,

Fervendo em sementeiras de astros novos;

E todo o cosmos em perpétuas flamas...

— Homem! és o universo, porque pensas,

E, pequenino e fraco, és Deus, porque amas!

Dualismo

Não és bom, nem és mau: és triste e humano...

Vives ansiando, em maldições e preces,

Corno se, a arder, no coração tivesses

O tumulto e o clamor de um largo oceano.

Pobre, no bem como no mal, padeces;

E, rolando num vórtice vesano,

Oscilas entre a crença e o desengano,

Entre esperanças e desinteresses.

Capaz de horrores e de ações sublimes,

Não ficas das virtudes satisfeito,

Nem te arrependes, infeliz, dos crimes:

E, no perpétuo ideal que te devora,

Residem juntamente no teu peito

Um demônio que ruge e um deus que chora.

Defesa

Cada alma é um mundo à parte em cada peito...

Nem se conhecem, no auge do transporte,

Os jungidos do vínculo mais forte,

Almas e corpos num casal perfeito:

Dormindo no calor do mesmo leito,

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Votando os corações à mesma sorte,

Consigo levam à velhice e à morte

Um recato de orgulho e de respeito...

Ficam, por toda a vida, as duas vidas

Na mais profunda comunhão estranhas,

No mais completo amor desconhecidas.

E os dois seres, sentindo-se tão perto,

Até num beijo, são duas montanhas

Separadas por léguas de deserto.

A um Triste

Outras almas talvez já foram tuas:

Viveste em outros mundos... De maneira

Que em misteriosas dúvidas flutuas,

Vida de vidas múltiplas herdeira!

Servo da gleba, escravo das charruas

Foste, ou soldado errante na sangueira,

Ou mendigo de rojo pelas ruas,

Ou mártir na tortura e na fogueira...

Por isso, arquejas num pavor sem nome,

Num luto sem razão: velhos gemidos,

Angústias ancestrais de sede e fome,

Dores grandevas, seculares prantos,

Desesperos talvez de heróis vencidos,

Humilhações de vítimas e santos...

Pesadelo

Às vezes, uma vida abominanda

Vives no sono, em que a hórrida matula

Dos íncubos e súcubos te manda

O eco do inferno que referve e ulula.

Um mundo torpe nos teus sonhos anda:

O ódio, a perversidade, a inveja, a gula, Espíritos da terra, sarabanda

Das grosseiras paixões que a treva açula.

Assim, à noite, no ínvio da floresta,

No mistério das sombras, entre os pios

Dos noitibós, o candomblé se apresta:

Batuques de capetas, rodopios

De curupiras e sacis em festa,

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Em sinistros risinhos e assobios.

A Iara

Vive dentro de mim, como num rio,

Uma linda mulher, esquiva e rara,

Num borbulhar de argênteos flocos, lara

De cabeleira de ouro e corpo frio.

Entre as ninféias a namoro e espio:

E ela, do espelho móbil da onda clara,

Com os verdes olhos úmidos me encara,

E oferece-me o seio alvo e macio.

Precipito-me, no ímpeto de esposo,

Na desesperação da glória suma,

Para a estreitar, louco de orgulho e gozo...

Mas nos meus braços a ilusão se esfuma:

E a mãe-d'água, exalando um ai piedoso,

Desfaz-se em mortas pérolas de espuma.

Ressurreição

Como às vezes, piedoso, o sol se inclina

Sobre um pântano, e acende-o, e da água ascosa No atro fundo, ergue Alhambras de ouro e rosa, Catedrais e Krêmlins de prata fina,

— Também, da alta região que nos domina,

Tu pairas sobre mim, sombra piedosa:

Sinto em mim, como numa nebulosa,

Mundos novos, ardendo em luz divina...

São torres vivas, cúpulas fulgentes,

Zimbórios igneos, toda a arquitetura

Dos sonhos que a ambição do Ideal encerra, Subindo em largos surtos, em torrentes,

Galgando o céu, para brilhar na altura

E desfazer-se em versos sobre a terra...

Benedicite!

Bendito o que, na terra, o fogo fez, e o tecto; E o que uniu a charrua ao boi paciente e amigo; E o que encontrou a enxada; e o que, do chão abjeto, Fez, aos beijos do sol, o ouro brotar do trigo; E o que o ferro forjou; e o piedoso arquiteto 14

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Que ideou, depois do berço e do lar, o jazigo; E o que os fios urdiu; e o que achou o alfabeto; E0 que deu uma esmola ao primeiro mendigo; E o que soltou ao mar a quilha, e ao vento o pano; E o que inventou o canto; e o que criou a lira; E o que domou o raio; e o que alçou o aeroplano...

Mas bendito, entre os mais, o que, no dó profundo, Descobriu a Esperança, a divina mentira,

Dando ao homem o dom de suportar o mundo!

Sperate, Creperi!

Não sei. Duvido e espero. Na ansiedade,

Vago, entre vagas sombras. Se não rezo,

Sonho; e invejo dos crentes a humildade

E o orgulho dos filósofos desprezo.

Como um Jó miserável da verdade

E de receios farto como um Creso,

Adormeço a tristeza que me invade

E engano o coração cansado e leso...

Talvez haja na morte o eterno olvido,

Talvez seja ilusão na vida tudo.

Ou geme um deus em cada ser ferido...

Não afirmo, não nego. É vão o estudo.

Quero clamar de horror, porque duvido:

Mas, porque espero, — espero, e fico mudo.

Respostas na Sombra

"Sofro... Vejo envasado em desespero e lama Todo o antigo fulgor, que tive na alma boa; Abandona-me a glória; a ambição me atraiçoa; Que fazer, para ser como os felizes?"

— Ama!

"Amei... Mas tive a cruz, os cravos, a coroa De espinhos, e o desdém que humilha, e o dó que infama; Calcinou-me a irrisão na destruidora chama; Padeço! Que fazer, para ser bom?"

— Perdoa!

"Perdoei... Mas outra vez, sobre o perdão e a prece, Tive o opróbrio; e outra vez, sobre a piedade, a injúria; Desvairo! Que fazer, para o consolo?"

— Esquece!

"Mas lembro... Em sangue e fel, o coração me escorre: 15

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Ranjo os dentes, remordo os punhos, rujo em fúria...

Odeio! Que fazer, para a vingança?"

— Morre!

TRILOGIA

I

Prometeu

Filhas verdes do mar, e ó nuvens, num incenso, Beijai-me! e bendizei o meu sangue e o meu pranto!

Quando sucumbo e sou vencido, - exulto e venço: A minha queda é glória e o meu rugido é canto!

Sob os grilhões, espero; escravizado, penso; E, morto, viverei! Domando a carne e o espanto, Invadindo de estrela a estrela o Olimpo imenso, Roubei-lhe na escalada o fogo sacrossanto!

Forjando o ferro, arando o chão, prendendo o raio, Dei aos homens o ideal que anima, e o pão que [nutre...

Debalde o ódio, e o castigo, e as garras me consomem: Quando sofro, maior, mais alto, quando caio, Sou, entre a terra e o céu, entre o Cáucaso e o abutre,

— Sobre o martírio, o orgulho, e, sobre os deuses, Homem!

II

Hércules

Que vale o orgulho? A dor é, como a vida, eterna; Mas a força defende, e a compaixão redime.

Sou, na humana floresta a planta heróica e terna: Contra a violência um roble, e pura a prece um vime.

Por onde reviveu, silvando, a hidra de Lema, Fuzilou no meu braço a cólera sublime;

Os monstros persegui de caverna em caverna, Sufoquei de antro em antro a peste, a infâmia e o crime: E, ó Homem, libertei-te!... E, enfim, depondo a clava, Inerme semideus, sonhei, doce fiandeiro,

De roca e fuso, aos pés de Onfália, num arrulho...

Alma livre no assomo, e na piedade escrava, Sou raio e beijo, ardor e alívio, águia e cordeiro,

- A força que liberta, e o amor que vence o orgulho!

III

Jesus

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Mas sempre sofrerás neste vale medonho...

Que importa? Redentor e mártir voluntário, Para a tua miséria um reino imaginário

Invento, glória e paz num futuro risonho.

Para te consolar, no opróbrio do Calvário, Hóstia e vítima, a carne, o sangue e a alma deponho: Nasce da minha morte a vida do teu sonho, E todo o choro humano embebe o meu sudário.

Só liberta a renúncia. Ó triste! a sombra imensa Dos braços desta cruz espalha sobre o mundo A utopia celeste, orvalho ao teu suplício.

Sou a misericórdia ilusória da crença:

Sobre a força, a fraqueza; e, sobre o amor fecundo, A piedade sem glória e o inútil sacrifício!

Dante no Paraíso

... Enfim, transpondo o Inferno e o Purgatório, Dante Chegara à extrema luz, pela mão de Beatriz: Triste no sumo bem, triste no excelso instante, O poeta compreendera o mal de ser feliz.

Saudoso, ao ígneo horror do báratro distante, Ao vórtice tartáreo o olhar volvendo, quis Regressar à geena, onde a turba ululante

Nos torvelins raivando arde na chama ultriz: E fatigou-o a paz do esplendor soberano;

Dos réprobos lembrando a irrevogável sorte, A estância abominou do perpétuo prazer;

Porque no coração, cheio de amor humano,

Sentiu que toda a Vida, até depois da morte, Só tem uma razão e um gozo só: sofrer!

Beethoven Surdo

Surdo, na universal indiferença, um dia,

Beethoven, levantando um desvairado apelo, Sentiu a terra e o mar num mudo pesadelo...

E o seu mundo interior cantava e restrugia.

Torvo o gesto, perdido o olhar, hirto o cabelo, Viu, sobre a orquestração que no seu crânio havia, Os astros em torpor na imensidade fria,

O ar e os ventos sem voz, a natureza em gelo.

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Era o nada, a eversão do caos no cataclismo, A síncope do som no páramo profundo,

O Silêncio, a algidez, o vácuo, o horror no abismo...

E Beethoven, no seu supremo desconforto,

Velho e podre, caiu, como um deus moribundo, Lançando a maldição sobre o universo morto!

Milton Cego

Desvendava-se ao cego o mistério:

(As idades

Sem princípio; de sol a sol, de terra a terra, A eterna combustão que maravilha e aterra, Geradora de bens e de ferocidades;

Cordilheiras de espanto e esplendor, serra a serra, De infinito a infinito; asas em tempestades, Tronos, Dominações, Virtudes, Potestades, Luz contra luz, furor de chama e glória em guerra; E os rebeldes, rodando em rugidoras vagas; E o Éden, e a tentação, e, entre o opróbrio e a alegria, O amor florindo ao pé da amaldiçoada porta; E o Homem em susto, o céu em ira, o inferno em pragas; E, imperturbável, Deus, na sua glória!...) Ardia

O poema universal numa retina morta.

Miguel Ângelo Velho

"Vieram-lhe o amor e a poesia, no

declínio da vida. Na mocidade, foi

de costumes austeros. Aos cinqüenta

e um anos, conheceu Vittoria Colonna;

escreveu para ela canções, sonetos,

madrigais, exaltação do cérebro,

temperada de misticismo; ela admirou-

o, mas não o amou. Quando Víttoria

morreu, Buonarrotti beijou a mão do

cadáver, não ousando beijar-lhe a fronte."

(M. MONNIER - La Renaíssance.)

E pensava: — "Perder a chama peregrina, Que extrai da pedra um Deus, do barro imundo um Santo; E este punho, que alçou a cúpula divina

De São Pedro, e amassou "Moisés" de luz e espanto; E esta alma, que arquiteta os mundos na oficina: O "Dia", força e graça, e a "Noite", sombra e encanto, E o "Juízo Final" da Capela Sixtina 18

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E "Judit", flor de sangue, e "Pietà", flor de pranto; Tudo: tinta, pincel, escopro, camartelo,

Ouro, fama, poder, glória, gênio, virtude,

- Por um milagre só, no amor que me abandona: Morrer, e renascer ardente, moço, belo,

E, como o meu "Davi", clarão de juventude, Aparecer, sorrindo, a Vittoria Colonna!"

No Tronco de Goa

Camões sofre, na infâmia da clausura,

Pária sem honra, náufrago sem nome;

E rala, na saudade que o consome,

O pobre peito contra a pedra dura.

O seu gênio ilumina a abjeta lura...

Mas a vida das carnes se lhe some:

Míngua de pão, e, outra mais negra fome,

Indigência de beijos e ventura.

Do próprio fel, dos íntimos venenos,

Faz a glória da pátria e a luz da raça;

E chora, na ignomínia. Mas, ao menos,

Possui, na mesquinhez da terra crassa

E na vergonha de homens tão pequenos,

O orgulho de ser grande na desgraça.

EDIPO

I

A Pítia

"Repetiu-me Apolo o vaticínio: que eu seria o assassino de meu pai; e rei; e

marido de minha mãe, sem a conhecer;

e tronco de uma prole infame!..."

(SÓFOCLES — Édipo Rei.)

Em Delfos. Com pavor, de pé, no ádito escuro, Édipo escuta... O deus, rugindo de ira e ameaça, Pela boca da Pítia em êxtase, devassa

O tempo, e o arcano véu destrama do futuro:

"Rolarás do fastígio à ignomínia e à desgraça!

Rompendo de um mistério o impenetrável muro, Num sólio ensangüentado e num tálamo impuro Gerarás, parricida, a mais odiosa raça!"

É a Esfinge, a glória, o reino, o assassínio de Laio, E o amor sinistro... Assim troveja a voz de Apolo E enche o sacrário... O céu carrega-se de bruma; 19

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Fuzila; estruge o chão; reboa no antro o raio...

E, enquanto Édipo tomba inânime no solo,

Sobre a trípode a Pítia, em baba, ulula e escuma.