Tarde por Olavo Bilac - Versão HTML

ATENÇÃO: Esta é apenas uma visualização em HTML e alguns elementos como links e números de página podem estar incorretos.
Faça o download do livro em PDF, ePub, Kindle para obter uma versão completa.

II

A Esfinge

"Bem-vindo sejas à cidade de Cadmo,

nosso libertador e nosso rei, que, com

a tua penetração de espírito e o auxílio

divino, levantaste o tributo de sangue

que pagávamos à cruel Esfinge!"

(SÓFOCES — Édipo Rei.)

Perto de Tebas, junto a um monte, sobre o Ismeno, Águia e mulher, serpente e abutre, deusa e harpia, Tapando a estrada, à espera, — aterrava e sorria O monstro sedutor, horrível e sereno:

"Devoro-te, ou decifra!" Era fascínio o aceno; A voz, morna e sensual, tinha afeto e ironia, Graça e repulsa; e a luz dos olhos escorria Fluido filtro, estilando um pérfido veneno.

Mas Édipo desvenda o enigma... Ruge em fúria O Grifo, e escarva o chão, bate contra o rochedo, Rola em vascas, em sangue ardente a areia tinge, E fita o campeador no uivar da extrema injúria.

E o Herói recua, vendo, entre esperança e medo, Rancor e compaixão no verde olhar da Esfinge.

III

Jocasta

"Trevas espessas! eterna, horrível noite!

sou dilacerado pelo espinho da dor e

pela memória dos meus crimes!"

(SÓFOCLES — Édipo Rei.)

Édipo vê cumprir-se o oráculo funesto:

Tebas entregue, em luto, à peste que a devasta, E, sobre o trono em sânie e o leito desonesto, Morta, infâmia da terra e asco de céu, Jocasta.

Louco, vociferando, erguendo a grita e o gesto Contra os deuses, mordendo a poeira em que se arrasta, O mísero, medindo o parricídio e o incesto, Quer da vista apagar a lembrança nefasta: Os dois olhos, às mãos, das órbitas arranca Em sangue borbotando, em lágrimas fervendo, 20

www.nead.unama.br

Para o pavor matar na esmagada retina...

Mas, cego embora, — vê Jocasta hedionda, branca, Enforcada, a oscilar, como um pêndulo horrendo, Compassando, fatal, a maldição divina.

IV

Antígona

"Disse-me também o oráculo que

morrerei aqui, quando tremer a

terra, quando o trovão rolar,

quando o espaço brilhar..."

(SÓFOCLES - Édipo em Colona)

A terra treme. Rola o trovão. Brilha o espaço.

Chega Édipo a Colona, em andrajos, imundo, Sombra ansiosa a fugir do próprio horror profundo, Ruína humana a cair de miséria e cansaço.

Mas, quando o ancião vacila, órfão da luz do mundo,

— Antígona lhe estende o coração e o braço, E, filha e irmã, recolhe ao maternal regaço O rei sem trono, o pai sem honra, moribundo.

É o ninho (a terra treme...) amparando o carvalho, A flor sustendo o tronco! Édipo (o espaço brilha...) Sorri, como um combusto areal bebendo o orvalho.

É o fim (rola o trovão...) da miseranda sorte: O cego vê, fitando o céu do olhar da filha, Na cegueira o esplendor, e a redenção na morte.

Madalena

"Maria Madalena, Maria de Tiago, e

Salomé compraram aromas, para irem

embalsamar a Jesus. Mas, olhando,

viram revolvida a pedra... E Jesus,

tendo ressurgido, apareceu primeiramente a Maria Madalena."

(S. MARCOS cap. XVI.)

Quedaram, frio o sangue, as mulheres chorosas, Sem cor, sem voz, de espanto e medo. E, de repente, Caíram-lhes das mãos as ânforas piedosas

De bálsamo odoroso e de óleo recendente.

Enfeitiçou-se o chão de um perfume dormente, E o arredor trescalou de essências capitosas, Como se a terra toda abrisse o seio, e o ambiente 21

www.nead.unama.br

Se enchesse de jasmins, de nardos e de rosas.

E Madalena, muda, ao pé da sepultura,

Tonta da exalação dos cheiros, em delírio, Viu que uma forma, no ar, divinamente bela, Vivo eflúvio, vapor fragrante, alva figura, Aroma corporal, pairava...

Como um lírio,

Num sorriso, Jesus fulgia diante dela.

Cleópatra

"Cleopatra diffidava... Fu persuasa che il vincitore la destinava al trionfo...

Ottaviano, corse in gran fretta a salvare la sua preda, la trovó, sul letto, adorna della sua piú bella veste di regina,

addormentata per sempre..."

(G. FERRERO - Grandezza e decadenza

di Roma.)

Não! que importava a queda, e o epílogo do drama: O trono, o cetro, o povo, o exército, o tesouro, As províncias, a glória, e as naus, no sorvedouro De Actium, e Alexandria entregue ao saque e à chama?

Não! que importava o horror da entrada em Roma: a fama De Otávio, e o seu triunfo, entre a púrpura e o louro, E a plebe em grita, e o céu cheio das águias de ouro, E o Egito, e o seu império, e os seus troféus, na lama?

Não! Que importava o amor perdido? Que importava O naufrágio do orgulho, a vergonha, a tortura Do ódio do vencedor ou da piedade alheia?

Mas entrar desgrenhada, envelhecida, escrava, Rota, sem o arraiar da sua formosura,

Sol sem fulgor...

Matou-a o medo de ser feia.

A Velhice de Aspásia

Velha, Aspásia, como um clarão, na Academia E na ágora, surgia e ofuscava as mais belas; E, sob as cãs, e sob as roupagens singelas, Aureolada do amor de Péricles, sorria...

Do Helesponto, do Egeu, do Jônio, em romaria, Vinham vê-la e admirá-la efebos e donzelas.

E eles: "Que sol nos teus cabelos brancos!" E elas: 22

www.nead.unama.br

"Brilha mais do que a aurora o final do teu dia!"

Ela e a Acrópole, frente a frente, alvas, serenas, Unidas no esplendor, gêmeas na majestade, Eram a forma e a idéia, iluminando Atenas.

Aspásia, deusa clara e simples, na moldura Do céu, nume feliz, perfumava a cidade...

Era uma religião a sua formosura!

A Rainha de Sabá

"O rei Salomão deu à rainha de Sabá o que ela lhe desejou, e lhe pediu, afora

os presentes que ele mesmo lhe deu

com liberalidade real. A rainha voltou, e se foi para o seu reino com os seus servos."

(REIS, L. III, cap. X, 13.)

"Que mais queres? Sião? e, entre os bosques sombrios, O meu colar de cem cidades deslumbrantes?

O Líbano, pompeando em paços, em mirantes, Em cedros, em pavões, em corças, em bugios?

O povo de Israel, em tribos formigantes

Do Eufrates ao mar Morto e o Egito? Os meus navios, As esquadras de Hirão, coalhando o oceano e os rios, Atestadas de prata e dentes de elefantes?

O meu leito, ainda olente e morno do teu sono?

O cetro? O gineceu, e a guarda, e as mil mulheres Como escravas, rojando aos teus pés? O meu trono?

Os vasos do holocausto? O templo de ouro e jade?

A ara, em sangue e fulgor, ante Jeová?... Que queres?"

— "O teu último beijo... o deserto... e a saudade..."

A Morte de Orfeu

"Em vão as bacantes da Trácia procuram consolá-lo. Mas Orfeu, fiel ao amor de

Eurídice, encarcerada no Averno, repeliu

o amor de todas as outras mulheres.

E estas, despeitadas, esquartejaram-no."

Houve gemidos no Ebro e no arvoredo,

Horror nas feras, pranto no rochedo;

E fugiras as Mênadas, de medo,

Espantadas da própria maldição.

Luz da Grécia, pontífice de Apolo,

Orfeu, despedaçada a lira ao colo,

23

www.nead.unama.br

A carne rota ensangüentando o solo,

Tombou... E abriu-se em músicas o chão...

A boca ansiosa em nome disse, um grito,

Rolando em beijos pelo nome dito;

"Eurídice", e expirou... Assim Orfeu, No último canto, no supremo brado,

Pelo ódio das mulheres trucidado,

Chorando o amor de uma mulher, morreu...

Gioconda

Deu-te o grande Leonardo ao sorriso a ironia, Insídia, e eterno ardil, na luminosa teia: Tal, a Belerofonte a Quimera sorria,

E a Esfinge de Gizé sorri na adusta areia...

A cilada do amor, o embuste da utopia,

O desejo, que abrasa, e a esperança, que enleia, Chispam na tua boca impenetrável, fria...

Seduzes, através dos séculos, sereia!

Esse leve clarão no teu lábio, indeciso,

É a dobrez ancestral, a malícia primeva

Da Ísis, da pecadora altriz do Paraíso:

Porque, para extrair as gerações da treva, A serpe, e a Adão, e a Deus, com o teu mesmo sorriso, Sorria, astuta e forte, a mãe das raças, Eva.

Natal

No ermo agreste, da noite e do presepe, um hino De esperança pressaga enchia o céu, com o vento...

As árvores: "Serás o sol e o orvalho!" E o armento:

"Terás a glória!" E o luar: "Vencerás o destino!"

E o pão: "Darás o pão da terra e o pão divino!"

E a água: "Trarás alívio ao mártir e ao sedento!"

E a palha: "Dobrarás a cerviz do opulento!"

E o tecto: "Elevarás do opróbrio o pequenino!"

E os reis: "Rei, no teu reino, entrarás entre palmas!"

E os pastores: "Pastor, chamarás os eleitos!"

E a estrela: "Brilharás, como Deus, sobre as almas!"

Muda e humilde, porém, Maria, como escrava, Tinha os olhos na terra em lágrimas desfeitos; Sendo pobre, temia; e, sendo mãe, chorava.

Aos Meus Amigos de São Paulo

24

www.nead.unama.br

Se amo, padeço, e sonho, a recompensa

É a melhor que me dais, neste agasalho:

Desta ternura, sobre mim suspensa,

Desce todo o valor do quanto valho.

Não tenho aroma que vos não pertença:

Vêm de vós a doçura e o bem que espalho;

Valemos todos pela nossa crença,

Na comunhão do amor e do trabalho.

Operário modesto, abelha pobre,

De vós e para vós o mel fabrico,

E abençôo a colmeia que nos cobre.

Só do labor geral me glorifico:

Por ser da minha terra é que sou nobre,

Por ser da minha gente é que sou rico.

A um Poeta

Longe do estéril turbilhão da rua,

Beneditino, escreve! No aconchego

Do claustro, na paciência e no sossego,

Trabalha, e teima, e lima, e sofre, e sua!

Mas que na forma se disfarce o emprego

Do esforço; e a trama viva se construa

De tal modo, que a imagem fique nua,

Rica mas sóbria, como um templo grego.

Não se mostre na fábrica o suplício

Do mestre. E, natural, o efeito agrade,

Sem lembrar os andaimes do edifício:

Porque a Beleza, gêmea da Verdade,

Arte pura, inimiga do artifício,

E a força e a graça na simplicidade.

Vila Rica

O ouro fulvo do ocaso as velhas casas cobre; Sangram, em laivos de ouro, as minas, que ambição Na torturada entranha abriu da terra nobre: E cada cicatriz brilha como um brasão.

O ângelus plange ao longe em doloroso dobre, O último ouro do sol morre na cerração.

E, austero, amortalhando a urbe gloriosa e pobre, O crepúsculo cai como uma extrema-unção.

Agora, para além do cerro, o céu parece

Feito de um ouro ancião que o tempo enegreceu...

A neblina, roçando o chão, cicia, em prece, 25

www.nead.unama.br

Como uma procissão espectral que se move...

Dobra o sino... Soluça um verso de Dirceu...

Sobre a triste Ouro Preto o ouro dos astros chove.

New York

Resplandeces e ris, ardes e tumultuas;

Na escalada do céu, galgando em fúria o espaço, Sobem do teu tear de praças e de ruas

Atlas de ferro, Anteus de pedra e Brontes de aço.

Gloriosa! Prometeu revive em teu regaço,

Delira no teu gênio, enche as artérias tuas, E combure-te a entranha arfante de cansaço, Na incessante criação de assombros em que estuas.

Mas, com as tuas Babéis, debalde o céu recortas, E pesas sobre o mar, quando o teu vulto assoma, Como a recordação da Tebas de cem portas: Falta-te o Tempo, — o vago, o religioso aroma Que se respira no ar de Lutécia e de Roma, Sempre moço perfume ancião de idades mortas...

Último Carnaval

Íncola de Suburra ou de Sibarís,

Nasceste em saturnal; viveste, estulto,

Na folia das feiras, no tumulto

Dos caravançarás e dos bazares;

Morreste, em plena orgia, entre os esgares Dos arlequins, no delirante culto;

E a saudade terás, depois sepulto,

Herói folião, dos carnavais hílares...

Talvez, quem sabe? a cova, que te esconda, Uma noite, entre fogos-fátuos, se abra,

Como uma boca escancarada em risos:

E saltarás, pinchando, numa ronda

De espectros aos tantãs, dança macabra

De esqueletos e lêmures aos guizos.

Fogo-Fátuo

Cabelos brancos! Dai-me, enfim, a calma

A esta tortura de homem e de artista:

Desdém pelo que encerra a minha palma,

E ambição pelo mais que não exista;

Esta febre, que o espírito me encalma

E logo me enregela; esta conquista

De idéias, ao nascer, morrendo na alma,

De mundos, ao raiar, murchando à vista:

Esta melancolia sem remédio,

26

www.nead.unama.br

Saudade sem razão, louca esperança

Ardendo em choros e findando em tédio;

Esta ansiedade absurda, esta corrida

Para fugir o que o meu sonho alcança,

Para querer o que não há na vida!

Inocência

Como, em vez de uma paz desiludida,

Posso eu ter, nesta idade, esta confiança, Que me leva a correr a toda brida

Na pista de uma sombra de esperança?

Esta velhice ingênua me intimida:

Tanto ardor, tanta fé, que me não cansa,

E, em mais de meio século de vida,

Tanta credulidade de criança!

Rio, inocente, ao sol, como uma rosa;

Ainda arquiteto mundos sobre a areia;

Anoiteço em miragem luminosa.

E ainda imagino a minha taça cheia,

E emborco-a: "Oh! Vida!..."; e quero-a, e acho-a formosa, Como se não soubesse quanto é feia!

Remorso

Às vezes, uma dor me desespera...

Nestas ânsias e dúvidas em que ando,

Cismo e padeço, neste outono, quando

Calculo o que perdi na primavera.

Versos e amores sufoquei calando,

Sem os gozar numa explosão sincera...

Ah! mais cem vidas! com que ardor quisera Mais viver, mais penar e amar cantando!

Sinto o que esperdicei na juventude;

Choro, neste começo de velhice,

Mártir da hipocrisia ou da virtude,

Os beijos que não tive por tolice,

Por timidez o que sofrer não pude,

E por pudor os versos que não disse!

Milagre

Depois de tantos anos, frente a frente,

Um encontro... O fantasma do meu sonho!

E, de cabelos brancos, mudamente,

Quedamos frios, num olhar tristonho.

Velhos!... Mas, quando, ansioso, de repente, Nas suas mãos as minhas palmas ponho,

Ressurge a nossa primavera ardente,

27

www.nead.unama.br

Na terra em bênçãos, sob um sol risonho:

Felizes, num prestígio, estremecemos;

Deliramos, na luz que nos invade

Dos redivivos êxtases supremos;

E fulgimos, volvendo à mocidade,

Aureolados dos beijos que tivemos,

No divino milagre da saudade.

A Cilada

O perfume, o silêncio, a sombra... Os ninhos Emudecem... E temos, sonhadores,

A humildade das ervas nos caminhos

E uma inocência de anjos entre as flores.

Mas há na tarde morna ignotos vinhos,

Secretos filtros, pérfidos vapores,

Amavios, feitiços e carinhos

Moles, quebrados e perturbadores...

E, de repente, o incêndio dos sentidos:

As mãos frias tateando na ansiedade,

As bocas que se buscam num queixume,

E o corpo, o sangue, o espírito perdidos, E a febre, e os beijos... e a cumplicidade Da sombra, do silêncio, do perfume...

Perfeição

Nunca entrarei jamais o teu recinto:

Na sedução e no fulgor que exalas,

Ficas vedada, num radiante cinto

De riquezas, de gozos e de galas.

Amo-te, cobiçando-te... —. E, faminto,

Adivinho o esplendor das tuas salas,

E todo o aroma dos teus parques sinto,

E ouço a música e o sonho em que te embalas.

Eternamente ao meu olhar pompeias,

E olho-te em vão, maravilhosa e bela,

Adarvada de altíssimas ameias.

E à noite, à luz dos astros, a horas mortas, Rondo-te, e arquejo, e choro, ó cidadela!

Como um bárbaro uivando às tuas portas!

Messídoro

Por que chorar? Exulta, satisfeita!

És, quando a mocidade te abandona,

Mais que bela mulher, mulher perfeita,

Do completo fulgor senhora e dona.

As derradeiras messes aproveita,

E goza! A antevelhice é uma Pomona,

28

www.nead.unama.br

Que, se esmerando na final colheita

Dos frutos áureos, a paixão sazona.

Ama! e frui o delírio, a febre, o ciúme,

E todo o amor! E morre como um dia

Em fogo, como um dia que resume

Toda a vida, em anseios, em poesia,

Em glória, em luz, em música, em perfume, Em beijos, numa esplêndida agonia!

Samaritana

Numa volta de estrada, em sede insana,

Vi-te. Ao lado, a frescura da cisterna.

E tinhas a expressão piedosa e terna,

Como na Bíblia, da Samaritana.

Deste-me de beber. Mas quanto engana,

Às vezes, a piedade, e a esmola inferna!

Deste-me de beber da fonte eterna,

De onde a torrente dos remorsos mana.

Com a água que me deste (que contraste

De ti para a mulher de Samaria!)

A boca e o coração me envenenaste:

Maior do que o da sede, este tormento,

Esta ânsia singular, esta agonia

Que é de saudade e de arrependimento!

Um Beijo

Foste o beijo melhor da minha vida,

Ou talvez o pior... Glória e tormento,

Contigo à luz subi do firmamento,

Contigo fui pela infernal descida!

Morreste, e o meu desejo não te olvida:

Queimas-me o sangue, enches-me o pensamento, E do teu gosto amargo me alimento,

E rolo-te na boca malferida.

Beijo extremo, meu prêmio e meu castigo,

Batismo e extrema-unção, naquele instante Por que, feliz, eu não morri contigo?

Sinto-te o ardor, e o crepitar te escuto, Beijo divino! e anseio, delirante,

Na perpétua saudade de um minuto...

Criação

Há no amor um momento de grandeza,

Que é de inconsciência e de êxtase bendito: Os dois corpos são toda a Natureza,

As duas almas são todo o Infinito.

É um mistério de força e de surpresa!

29

www.nead.unama.br

Estala o coração da terra, aflito;

Rasga-se em luz fecunda a esfera acesa,

E de todos os astros rompe um grito.

Deus transmite o seu hálito aos amantes:

Cada beijo é a sanção dos Sete Dias,

E a Gênese fulgura em cada abraço;

Porque, entre as duas bocas soluçantes,

Rola todo o Universo, em harmonias

E em glorificações, enchendo o espaço!

Maternidade

"O Senhor disse à mulher: Por que

fizeste isto? Eu multiplicarei os

teus trabalhos!"

(Gen., cap. III.)

Ventre mártir, a rútila visita

Do amor fecundo te arrancou do sono:

E irradias, lampejas como um trono

De animado marfim que à luz palpita!

Ergues-te, em esto de orgulhoso entono:

Fere-te enfim a maldição bendita!

Tens o viço da Terra, quando a agita,

Rico de orvalhos e de sóis, o outono.

Augusto, em gozo eterno, o teu suplício...

Feliz a tua dor propiciatória...

- Rasga-te, altar do torturante auspício, E abra-se em flores tua alvura ebórea,

Ensangüentada pelo sacrifício,

Para a maternidade e para a glória!

Os Amores da Aranha

Com o veludo do ventre a palpitar hirsuto E os oito olhos de brasa ardendo em febre estranha, Vede-a: chega ao portal do intrincado reduto, E na glória nupcial do sol se aquece e banha.

Moscas! podeis revoar, sem medo à sua sanha: Mole e tonta de amor, pendente o palpo astuto, E recolhido o anzol da mandíbula, a aranha Ansiosa espera e atrai o amante de um minuto...

E ei-lo corre, ei-lo acode à festa e à morte! Um hino Curto e louco, um momento, abala e inflama o fausto Do aranhol de ouro e seda... E o aguilhão assassino Da esposa satisfeita abate o noivo exausto, Que cai, sentindo a um tempo, — invejável destino!

A tortura do espasmo e o gozo do holocausto.

30

www.nead.unama.br

Os Amores da Abelha

Quando, em prônubo anseio, a abelha as asas solta E escala o espaço, - ardendo, êxul do corcho céreo, Louca, se precipita a sussurrante escolta Dos noivos zonzos, voando ao nupcial mistério.

Em breve, sucumbindo, o enxame arqueja, e volta...

Mas o mais forte, um só, senhor do excelso império, Segue a esquiva, e, em zunzum zeloso de revolta, Entoa o epitalâmio e o cântico funéreo:

Toca-a, fecunda-a, e vence, e morre na vitória...

A esposa, livre, ao sol, no alto do firmamento, Palra, e, rainha e mie, zumbe de orgulho e glória; E, rodopiando, inerte, o suicida sublime, Entre as bênçãos da luz e os hosanas do vento, Rola, mártir feliz do delicioso crime.

Semper Impendent...

Se amas, se da velhice entras a porta escura, Maldize o teu amor, que é um triste adeus à vida!

Porque no teu amor de velho se mistura

Ao enlevo de um noivo a angústia de um suicida.

Louco! vês entreabrir-se a cova, na doçura Do aconchego nupcial que ao gozo te convida; E, na incerteza atroz da carícia futura,

Cada afago te dói como uma despedida.

Sofres um estertor em cada abraço, um grito Em cada beijo, em cada anseio uma saudade: É um rolar, um ferver num inferno infinito!

No desesperador prazer do teu transporte, Sentes a crispação da treva que te invade, O doloroso amargo ante-sabor da morte...

O Oitavo Pecado

Vivendo para a morte, alegre da tristeza, Temendo o fogo eterno e a danação sulfúrea, Gelaste no cilício, em ascética fúria,

A alma ridente, o sangue em esto, a carne acesa.

Foste mártir e herói da própria natureza.

Intacto de ambição, de desejo ou de injúria, Para ganhar o céu, venceste a ira, a luxúria, A gula, a inveja, o orgulho, a preguiça e a avareza.

Mas não amaste! E, além do Inferno, um outro existe, Onde é mais alto o choro e o horror dos renegados: Ali, penando, tu, que o amor nunca sentiste, Pagarás sem amor os dias dissipados!

Esqueceste o pecado oitavo: e era o mais triste, Mortal, entre os mortais, de todos os pecados!

31

www.nead.unama.br

Salutaris Porta

Para conter aquela imensa chama,

Os nossos corações eram pequenos:

Tivemos medo da paixão... E ao menos

Não vimos tanto céu mudado em lama!

O velário correu-se antes do drama.

E não houve perfídias nem venenos

Entre os nossos espíritos serenos,

Que a saudade do prólogo embalsama.

Bendigamos o amor que foi tão curto,

O sonho vago que expirou tão cedo,

Sossobrado no porto antes do surto!

Feliz o idílio que não teve história!

Salvando-nos do tédio, o nosso medo

Foi uma porta de ouro para a glória!

Assombração

Conheço um coração, tapera escura,

Casa assombrada, onde andam penitentes

Sombras e ecos de amor, e em que perdura

A saudade, presença dos ausentes.

Evadidos da paz da sepultura,

Num tatalar de tíbias e de dentes,

Revivem os fantasmas da ternura,

Arrastando sudários e correntes.

Rangem os gonzos no bater das portas,

E os corredores enchem-se de prantos...

Um mundo de avejões do chão se eleva,

Ressuscitado pelas horas mortas:

Frios abraços gemem pelos cantos,

Beijos defuntos fogem pela treva.

Palmeira Imperial

Mostras na glória um coração mesquinho...

Numa beleza esplêndida, que aterra,

Passas desencadeando um ar de guerra,

Sem deixar um perfume no caminho.

Como a palmeira, não susténs um ninho!

Não és filha, mas hóspeda da Terra;

Subjugando a planície, na alta serra,

- Cruel às aves, seca de carinho.

Ha no deslumbramento do teu porte

Tédio, orgulho, desdém: talvez saudade

De outra vida, ambição talvez da morte...

Como a palmeira, tens a majestade,

E dela tens a desgraçada sorte:

32

www.nead.unama.br

A avareza da sombra e da piedade.

Diamante Negro

Vi-te uma vez, e estremeci de medo...

Havia susto no ar, quando passavas:

Vida morta enterrada num segredo,

Letárgico vulcão de ignotas lavas.

Ias como quem vai para um degredo,

De invisíveis grilhões as mãos escravas,

A marcha dúbia, o olhar turvado e quedo

No roxo abismo das olheiras cavas...

Aonde ias? aonde vais? Foge o teu vulto;

Mas fica o assombro do teu passo errante, E fica o sopro desse inferno oculto,

O horrível fogo que contigo levas,

Incompreendido mal, negro diamante,

Sol sinistro e abafado ardendo em trevas.

Palavras

As palavras do amor expiram como os versos, Com que adoço a amargura e embalo o pensamento: Vagos clarões, vapor de perfumes dispersos, Vidas que não têm vida, existências que invento; Esplendor cedo morto, ânsia breve, universos De pó, que um sopro espalha ao torvelim do vento, Raios de sol, no oceano entre as águas imersos,

- As palavras da fé vivem num só momento...

Mas as palavras más, as do ódio e do despeito, O "não!" que desengana, o "nunca!" que alucina, E as do aleive, em baldões, e as da mofa, em risadas, Abrasam-nos o ouvido e entram-nos pelo peito: Ficam no coração, numa inércia assassina, Imóveis e imortais, como pedras geladas.

Marcha Fúnebre

"Thamuz, Thamuz, panmegas tethneke!...

Como se ouviu no Epiro, outrora, o extremo grito

"Pã morreu!", - na amplidão reboe o meu lamento: Torpe a ambição, perdido o amor, inane o alento, Nestas baixas paixões de um século maldito!

Rolem trenos no oceano e elegias no vento!

Concentrai-vos na dor do funerário rito,

O asas e ilusões num miserere aflito,

E, ó flores num responso, e, ó sonhos num memento!

Bocas, bradando ao céu de minuto em minuto, Olhos, velando a terra em sudários de pranto, Corações, num rufar de tambores em luto,

33

www.nead.unama.br

Guaiai, carpi, gemei! e ecoai de porto a porto, De mar a mar, de mundo a mundo, a queixa e o espanto: O grande Pá morreu de novo! O Ideal é morto!

O Tear

A fieira zumbe, o piso estala, chia

O liço, range o estambre na cadeia;

A máquina dos Tempos, dia a dia,

Na música monótona vozeia.

Sem pressa, sem pesar, sem alegria,

Sem alma, o Tecelão, que cabeceia,

Carda, retorce, estira, asseda, fia,

Doba e entrelaça, na infindável teia.

Treva e luz, ódio e amor, beijo e queixume, Consolação e raiva, gelo e chama

Combinam-se e consomem-se no urdume.

Sem princípio e sem fim, eternamente

Passa e repassa a aborrecida trama

Nas mãos do Tecelão indiferente...

O Cometa

Um cometa passava... Em luz, na penedia,

Na erva, no inseto, em tudo uma alma rebrilhava; Entregava-se ao sol a terra, como escrava: Ferviam sangue e seiva. E o cometa fugia...

Assolavam a terra o terremoto, a lava,

A água, o ciclone, a guerra, a fome, a epidemia; Mas renascia o amor, o orgulho revivia,

Passavam religiões... E o cometa passava, E fugia, riçando a ígnea cauda flava.

Fenecia uma raça; a solidão bravia

Povoava-se outra vez. E o cometa voltava...

Escoava-se o tropel das eras, dia a dia:

E tudo, desde a pedra ao homem, proclamava A sua eternidade! E o cometa sorria...

Diálogo

O mancebo perfeito e o velho humilde e rude Viram-se. E disse ao velho o mancebo perfeito:

"Glória a mim! sorvo o céu num hausto do meu peito!"

E o velho: "Engana o céu... Tudo na terra ilude..."

"Rebentam roseirais do chão em que me deito!"

"A alma da noite embala a minha senectude..."

"Quando acordo, há um clarão de graça e de saúde!"

"Pudesse ser perpétua a calma do meu leito!"

"Quero vibrar, agir, vencer a Natureza, Viver a Vida!" "A Vida é um capricho do vento..."

34

www.nead.unama.br

"Vivo, e posso!" "O poder é uma ilusão da sorte..."

"Herói e deus, serei a beleza!" "A beleza É a paz!" "Serei a força!" "A força é o esquecimento..."

"Serei a perfeição!" "A perfeição é a morte!"

Avatara

Numa vida anterior, fui um cheik macilento E pobre... Eu galopava, o albornoz solto ao vento, Na soalheira candente; e, herói de vida obscura, Possuía tudo: o espaço, um cavalo, e a bravura.

Entre o deserto hostil e o ingrato firmamento, Sem abrigo, sem paz no coração violento,

Eu namorava, em minha altiva desventura,

As areias na terra e as estrelas na altura.

Às vezes, triste e só, cheio do meu desgosto, Eu castigava a mão contra o meu próprio rosto, E contra a minha sombra erguia a lança em riste...

Mas o simum do orgulho enfunava o meu peito: E eu galopava, livre, e voava, satisfeito Da força de ser só, da glória de ser triste!

Abstração

Há no espaço milhões de estrelas carinhosas, Ao alcance do teu olhar... Mas conjeturas Aquelas que não vês, ígneas e ignotas rosas, Viçando na mais longe altura das alturas.

Há na terra milhões de mulheres formosas, Ao alcance do teu desejo... Mas procuras

As que não vivem, sonho e afeto que não gozas Nem gozarás, visões passadas ou futuras.

Assim, numa abstração de números e imagens, Vives. Olhas com tédio o planeta ermo e triste, E achas deserta e escura a abóbada celeste.

E morrerás, sozinho, entre duas miragens: As estrelas sem nome - a luz que nunca viste, E as mulheres sem corpo - o amor que não tiveste!

Cantilena

Quando as estrelas surgem na tarde, surge a [esperança...

Toda alma triste no seu desgosto sonha um Messias: Quem sabe? o acaso, na sorte esquiva, traz: a mudança E enche de mundos as existências que eram vazias!

Quando as estrelas brilham mais vivas, brilha a esperança...

Os olhos fulgem; loucas, ensaiam as asas frias: Tantos amores há pela terra, que a mão alcança!

E há tantos astros, com outras vidas, para outros dias!

35

www.nead.unama.br

Mas, de asas fracas, baixando os olhos, o sonho cansa; No céu e na alma, cerram-se as brumas, gelam as luzes: Quando as estrelas tremem de frio, treme a esperança...

Tempo, o delírio da mocidade não reproduzes!

Dorme o passado: quantas saudades, e quantas cruzes!

Quando as estrelas morrem na aurora, morre a esperança...

Sonho

Ter nascido homem outro, em outros dias,

- Não hoje, nesta agitação sem glória,

Em traficâncias e mesquinharias,

Numa apagada vida merencória...

Ter nascido numa era de utopias,

Nos áureos ciclos épicos da História,

Ardendo em generosas fantasias,

Em rajadas de amor e de vitória:

Campeão e trovador da Idade Média,

Herói no galanteio e na cruzada,

Viver entre um idílio e uma tragédia;

E morrer em sorrisos e lampejos,

Por um gesto, um olhar, um sonho, um nada, Traspassado de golpes e de beijos!

Ruth

Pede pouco! Mais tem do que um monarca

O pobre, tendo o pouco que pedia:

E é rico, achando, ao terminar do dia,

Paz no espírito e pão no fundo da arca,

Triste, ó alma, a ambição que o mundo abarca!

Perde tudo quem quer a demasia.

Poupa o riso e o prazer! porque a alegria Tanto é mais doce quanto mais é parca.

Feliz, modesto coração, te dizes,

Quando vais, como Ruth, em muda prece,

Empós dos segadores mais felizes:

Feliz é o simples, que, feliz, procura

Uma espiga apanhar da alheia messe,

Um resto miserável da ventura.

Abisag

Cedes a um velho inválido e insensato,

(Mais insensato do que tu!) sorrindo,

A graça e o viço do teu corpo lindo,

A tua formosura e o teu recato...

Em breve, louca! o teu delírio findo,

36

www.nead.unama.br

Compreenderás o horror deste contrato:

Ter dado aroma a quem não tem olfato,

Pedir amparo ao que já está caindo.

Ele, um dia, amargando a sua glória,

Chorando o seu império e o teu degredo,

O teu remorso e o seu pavor covarde,

Morrerá de vergonha na vitória:

Triste ilusão, que te acordou tão cedo!

Fortuna triste, que o escolheu tão tarde!

Estuário

Viverei! Nos meus dias descontentes,

Não sofro só por mim... Sofro, a sangrar, Todo o infinito universal pesar,

A tristeza das cousas e dos entes.

Alheios prantos, em cachões ardentes,

Vêm ao meu coração e ao meu olhar:

— Tal, num estuário imenso, acolhe o mar

Todas as águas vivas das vertentes.

Morre o infeliz, que unicamente encerra

A própria dor, estrangulada em si...

Mas vive a Vida que em meus versos erra;

Vive o consolo que deixei aqui;

Vive a piedade que espalhei na terra...

Assim, não morrerei, porque sofri!

Consolação

Penso às vezes nos sonhos, nos amores,

Que inflamei A distância pelo espaço;

Penso nas ilusões do meu regaço

Levadas pelo vento a alheias dores...

Penso na multidão dos sofredores,

Que uma bênção tiveram do meu braço:

Talvez algum repouso ao seu cansaço,

Talvez ao seu deserto algumas flores...

Penso nas amizades sem raízes,

Nos afetos anônimos, dispersos,

Que tenho sob os céus de outros países...

Penso neste milagre dos meus versos:

Um pouco de modéstia aos mais felizes,

Um pouco de bondade aos mais perversos...

Penetralia

Falei tanto de amor!... de galanteio,

Vaidade e brinco, passatempo e graça,

37

www.nead.unama.br

Ou desejo fugaz, que brilha e passa

No relâmpago breve com que veio...

O verdadeiro amor, honra ou desgraça,

Gozo ou suplício, no íntimo fechei-o:

Nunca o entreguei ao publico recreio,

Nunca o expus indiscreto ao sol da praça.

Não proclamei os nomes, que, baixinho,

Rezava... E ainda hoje, tímido, mergulho

Em funda sombra o meu melhor carinho.

Quando amo, amo e deliro sem barulho;

E, quando sofro, calo-me, e definho

Na ventura infeliz do meu orgulho.

Prece

Durma, de tuas mãos nas palmas sacrossantas, O meu remorso. Velho e pobre, como Jó,

Perdendo-te, a melhor de tantas posses, tantas, Malsinado de Deus, perdi... Tu foste a só!

Ao céu, por teu perdão, a minha alma, que encantas, Suba, como por uma escada de Jacó.

Perdi-te... E eras a graça, alta entre as altas santas, A sombra, a força, o aroma, a luz... Tu foste a só!

Tu foste a só!... Não valho a poeira que levantas, Quando passas. Não valho a esmola do teu dó!

- Mas deixa-me chorar, beijando as tuas plantas, Mas deixa-me clamar, humilhado no pó:

Tu, que em misericórdia as Madonas suplantas, Acolhe a contrição do mau... Tu foste a só!

Oração a Cibele

Deitado sobre a terra, em cruz, levanto o rosto Ao céu e às tuas mãos ferozes e esmoleres.

Mata-me! Abençoarei teu coração, composto, Ó mãe, dos corações de todas as mulheres!

Tu, que me dás amor e dor, gosto e desgosto, Glória e vergonha, tu, que me afagas e feres, Aniquila-me! E doura e embala o meu sol posto, Fonte! berço! mistério! Ísis! Pandora! Ceres!

Que eu morra assim feliz, tudo de ti querendo: Mal e bem, desespero e ideal, veneno e pomo, Pecados e perdões, beijos puros e impuros!

E os astros sobre mim caiam de ti, chovendo, Como os teus crimes, como as tuas bênçãos, como A doçura e o travor de teus cachos maduros!, Eutanásia

Antes que o meu espírito no espaço

38

www.nead.unama.br

Fuja em suspiro etéreo e vago fumo,

Em versos e esperanças me consumo,

E espalho sonhos pelo bem que faço.

Até no instante em que seguir o rumo

Para o sono final do teu regaço,

Ó terra, sorverei, no extremo passo,

Da vida em febre o capitoso sumo.

Seja a minha agonia uma centelha

De glória! E a morte, no meu grande dia,

Pairando sobre mim, como uma abelha,

Sugue o meu grito de última alegria,

O meu beijo supremo, - flor vermelha

Embalsamando a minha boca fria!

Introibo!

Sinto às vezes, à noite, o invisível cortejo De outras vidas, num caos de clarões e gemidos: Vago tropel, voejar confuso, hálito e beijo De cousas sem figura e seres escondidos...

Miserável, percebo, em tortura e desejo,

Um perfume, um sabor, um tacto incompreendidos, E vozes que não ouço, e cores que não vejo, Um mundo superior aos meus cinco sentidos.

Ardo, aspiro, por ver, por saber, longe, acima, Fora de mim, além da dúvida e do espanto!

E na sideração, que, um dia, me redima,

Liberto flutuarei, feliz, no seio etéreo, E, ó Morte, rolarei no teu piedoso manto, Para o deslumbramento augusto do mistério!

Vulnerant Omnes, Ultima Necat

Rio perpétuo e surdo, as serras esboroas, Serras e almas, ó Tempo! e, em mudas cataratas, As tuas horas vão mordendo, aluindo, à toa...

Todas ferem, passando: e a derradeira mata.

Mas a vida é um favor! De crepe, ou de ouro e prata, Da injúria ou do perdão, do opróbrio ou da coroa, Todas as horas, para o martírio, são gratas!

Todas, para a esperança e para a fé, são boas!

Primeira, que, em meu ninho, os primeiros arrulhos Me deste, e a minha Mãe deste um grito e um orgulho, Bendita! E todas vós, benditas, na ânsia triste Ou no clamor triunfal, que todas me feristes!

E bendita, que sobre a minha cova aberta

Pairas, última, ó tu que matas e libertas!

39

www.nead.unama.br

Frutidoro

Fruto, depois de ser semente humilde e flor, Na alta árvore nutriz da Vida amadureço.

Gozei, sofri, — vivi! Tenho no mesmo apreço O que o gozo me deu e o que me deu a dor.

Venha o inverno, depois do outono benfeitor!

Feliz porque nasci, feliz porque envelheço, Hei de ter no meu fim a glória do começo: Não me verão chorar no dia em que me for.

Não me amedrontas, Morte! o teu apelo escuto, Conto sem mágoa os sóis que me acercam de ti, E sem tremer à porta ouço o teu passo astuto.

Leva-me! Após a luta, o sono me sorri:

Cairei, beijando o galho em que fui flor e fruto, Bendizendo a sazão em que amadureci!

Os Sinos

Plangei, sinos! A terra ao nosso amor não basta...

Cansados de ânsias vis e de ambições ferozes, Ardemos numa louca aspiração mais casta,

Para trasmigrações, para metempsicoses!

Cantai, sinos! Daqui por onde o horror se arrasta, Campas de rebeliões, bronzes de apoteoses, Badalai, bimbalhai, tocai à esfera vasta!

Levai os nossos ais rolando em vossas vozes!

Em repiques de febre, em dobres a finados, Em rebates de angústia, ó carrilhões, dos cimos Tangei! Torres da fé, vibrai os nossos brados!

Dizei, sinos da terra, em clamores supremos, Toda a nossa tortura aos astros de onde vimos, Toda a nossa esperança aos astros aonde iremos!

Sinfonia

Meu coração, na incerta adolescência, outrora, Delirava e sorria aos raios matutinos,

Num prelúdio incolor, como o alegro da aurora, Em sistros e clarins, em pífanos e sinos.

Meu coração, depois, pela estrada sonora

Colhia a cada passo os amores e os hinos, E ia de beijo a beijo, em lasciva demora, Num voluptuoso adágio em harpas e violinos.

Hoje, meu coração, num scherzo de ânsias, arde Em flautas e oboés, na inquietação da tarde, E entre esperanças foge e entre saudades erra...

E, heróico, estalará num final, nos clamores Dos arcos, dos metais, das cordas, dos tambores, Para glorificar tudo que amou na terra! Fim 40