Teatro por Júlio Dinis - Versão HTML

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TEATRO

!

O C A S A M E N T O DA C O N D E S S A DE AMIEIRA

(Comédia original em dois actos)

Escrita por Júlio Dinis aos 17 anos (1856)

PERSONAGENS

Júlio da Costa

António da Costa Pai de Júlio da Costa

Emília de Castro Actriz

André Estalajadeiro

Paulo Actores

João Pinto

A cena passa-se numa hospedaria do PortoÉpoca, a actual

A C T O 1.°

O teatro representa uma sala comum numa hospedaria. Portas ao

fundo. Portas e janelas laterais. Cadeiras e mesas com periódicos, de

ambos os lados da sala.

C E N A l .

ANTÓNIO DA COSTA e ANDRÉ (entrando do fundo)

ANDRÉ — Pode estar V. S.* descansado. Tem aqui tudo quanto

necessita. Há no segundo andar dois quartos que lhe servem perfei-

tamente. Óptima vista, boa mobília e em quanto ao preço...

ANTÓNIO DA COSTA —Essa verba depois a discutiremos. Mas

apesar de todas as comodidades de que me fala, careço ainda de

obter certas informações para ver se sim ou não me resolverei a

ficar aqui.

ANDRÉ — Quais são elas, senhor?

ANTÓNIO DA COSTA —Quero, antes de mais nada, saber que

espécie de hóspedes tem cá em casa.

ANDRÉ — Ora! Há-os de diversas qualidades. V. S.* bem há-de

saber que, nesta ocasião, concorre de todas as partes muita gente

aqui ao Porto; e esta hospedaria é das mais frequentadas...

ANTÓNIO DA COSTA — Pois sim, mas diga-me; entre toda essa

gente há raparigas bonitas?

ANDRÉ (sorrindo) — Ah! V. S.» é amante do belo sexo?! Mais

uma razão para preferir esta a todas as outras estalagens. Temos cá

presentemente com que regalar a vista.

ANTÓNIO DA COSTA — Mau é isso, meu amigo. Nada, nada, já

me não serve, nada.

ANDRÉ —Como?!

ANTÓNIO DA COSTA —Sim, já me não convém esta casa de

modo nenhum.

ANDRÉ — Mas porquê, senhor?

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TEATRO

ANTÓNIO DA COSTA — Por conter exactamente aquilo que eu

mais procuro evitar.

ANDRÉ —O quê? As mulheres bonitas? (Mudando de tom):

Pois V. S. dessa idade ainda tem medo delas?

ANTÓNIO DA COSTA (formalizado) — Não é por mim. Você é

tolo, homem.

ANDRÉ — Então por quem, senhor?

ANTÓNIO DA COSTA —Ora! Por quem há-de ser? É por meu

filho que comigo trago.

ANDRÉ — Ah! Mas lá isso que tem ? Deixe divertir o rapaz.

É a idade própria. (Piscando o olho): Nós também por lá passámos, e

sabe Deus, hem?

ANTÓNIO DA COSTA —Tenha juizo, tenha juizo, não me faz

conta, está dito. Não sabe o que diz. Se por acaso meu filho se namora por aí de alguma rapariga, destrói todos os projectos que sobre ele

tenho formado.

ANDRÉ — Isso é o que lhe parece, mas...

ANTÓNIO DA COSTA — Qual mas, nem meio mas. Eu que o digo

é porque sei.

ANDRÉ — Talvez ele até desta maneira alcançasse maior fortuna

do que... sim, às vezes... o Diabo arma-as.

ANTÓNIO DA COSTA — Há-de alcançar boas coisas! É o que me

lembra. Você cuida que quarenta contos se encontram a cada canto.

ANDRÉ — Quarenta contos! Cáspite ! Então o senhor seu filho?...

ANTÓNIO DA COSTA — O senhor meu filho está em vésperas

de adquirir uma belíssima fortuna por um casamento, se com a sua

cabeça estouvada não desarranjar o negócio.

ANDRÉ — Ora! Eu estou certo que ele não há-de fazer tal. É um

rapaz de juízo.

ANTÓNIO DA COSTA — Pois você conhece-o ?!

ANDRÉ — Eu, não senhor, mas a avaliá-lo por o pai...

ANTÓNIO DA COSTA —Ah! sim, sim. Obrigado pelo cumpri-

mento.

ANDRÉ — Então pelos modos esse casamento não é do agrado dele.

ANTÓNIO DA COSTA — Por ora não o posso dizer, porque ainda

lhe não falei a tal respeito.

ANDRÉ — Pois nisso há-de-me perdoar, mas parece-me que não

andou muito bem, porque se o senhor seu filho já o soubesse...

ANTÓNIO DA COSTA — Tive as minhas razões para assim pro-

ceder. Primeiro que tudo o rapaz não gosta muito do estado de casado,

mas isso era o menos, essas repugnâncias são, em geral, fáceis de

vencer; o pior é que a noiva de que se trata é já viúva e eu, que

o tenho sondado, sei a antipatia que tem o rapaz aos casamentos

deste género.

ANDRÉ — Ora, o dinheiro, senhor, o dinheiro hoje em dia faz

tudo; havendo dinheiro fecha-se os olhos.

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T E A T R O

ANTÓNIO DA COSTA — Pessoas de juízo pensariam desse modo,

mas um rapaz como ele, de uma imaginação esquentada, sem experiên-

cia alguma do mundo, não faz senão asneiras. Deixam ir muitas vezes

a fortuna por a água abaixo quando lhes bastaria a mão para a agarrar.

ANDRÉ — Mas o senhor seu filho afinal de contas há-de mais

tarde ou mais cedo vir a saber tudo e, por isso, melhor seria talvez

haver-lho já dito.

ANTÓNIO DA COSTA — Foi essa a minha primeira tenção, mas

tendo comunicado os meus receios ao irmão da noiva, ele me acon-

selhou que em nada falasse a meu filho antes de chegarmos a Lisboa,

onde seríamos apresentados à rapariga. Assegurou-me que confiava

muito no espírito e beleza de sua irmã para recear resistência prolon-

gada da parte do meu rapaz. Sendo assim bem estamos, porque uma

vez que ele a ame deveras, pouco se lhe dá que ela seja viúva ou sol-

teira, e o casamento efectua-se. Porém, já vê que, para todo este plano

vingar, é necessário que o rapaz daqui até la se conserve livre.

ANDRÉ — Ah! Compreendo agora todos os seus receios e cau-

telas. Mas não é isso razão para abandonar a minha casa. Verdade

é que há cá presentemente algumas mulheres, mas não é coisa que

meta medo a ninguém. (Aparte): Lá medo não metem elas. (Alto):

Demais, nas outras estalagens encontrará o senhor os mesmos incon-

venientes que nesta, se é que isto são inconvenientes.

ANTÓNIO DA COSTA —Isso, ou encontrarei ou não.

ANDRÉ — Agora não. Olhe que encontra. Temos aí à porta a

Semana Santa, atulha-se, como V. Ex.» sabe, o Porto de gente; o não

achar mulheres novas e bonitas nas estalagens seria tão raro como...

como... eu sei... como não encontrar peixes no mar. Além disso

V. Ex.» decerto não faz tenção de ter seu filho encerrado em casa,

como uma freira. Ora então já vê que nada evita com tantas cautelas,

pois que muitas ocasiões terá ele de as ver na rua, nas janelas, no

teatro, nas lojas, etc, etc, e as mulheres tanto são para temer dentro

de casa como fora dela. Ou V. Ex.» só as acha perigosas de portas

para dentro?

ANTÓNIO DA COSTA (meio convencido) — Sempre são mais

para recear...

ANDRÉ — Há-de-me perdoar, mas nisso é que eu não concordo.

Seu filho, a ter de se apaixonar, o que eu não creio, apaixona-se tão

depressa na rua como em casa. Até talvez ainda mais na rua, porque

ao ar livre... sim... ao ar livre...

ANTÓNIO DA COSTA —É lá uma coisa que você sabe.

ANDRÉ — Olhe que é como digo. V. Ex.» não tem razão nenhuma

para hospedar-se noutra parte. Isso é fazer pouco de minha casa

e de seu filho. Eu respondo por ambos.

ANTÓNIO DA COSTA (ainda resistindo, mas fracamente) — Impor-

ta-me bem que você responda. Não me responde pelo dinheiro que

nos pode fazer perder, não?

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T E A T R O

ANDRÉ (seguro da vitória) — Qual perder nem meio perder. Ora

o senhor sempre tem coisas!

ANTÓNIO DA COSTA —Nada. É uma graça!

ANDRÉ — Sabe que mais ? Esses receios até lhe ficam mal. Eu vou

mandar preparar os quartos. Acredite que não é por interesse que

mostro tanta vontade em que o senhor se aloje aqui. É porque sim-

patizo com V. S.» e sei que em parte alguma será tão bem servido.

ANTÓNIO DA COSTA —Pois sim, sim. Estou por isso. Adeus,

adeus; não quero, não me faz conta. Adeus.

ANDRÉ — Quer, quer; porque não há-de querer ? (Indo à porta):

Pedro! Arruma os quartos 12 e 13! Ouviste?

ANTÓNIO DA COSTA —Que sarna você é! Safai

ANDRÉ — Pois isto é assim, pois não acha?

ANTÓNIO DA COSTA — Acho, acho. Seja lá o que for. (A meia

voz). Também se meu filho fizer das suas, quem mais perde é ele.

ANDRÉ — É verdade. Tem razão; mas eu estou certo que ele não

há-de...

ANTÓNIO DA COSTA —Vá! Vá! Então? Vá-me preparar esses

quartos. Isto que horas são?

ANDRÉ — Hão-de ser cinco. Eu vou ver como os rapazes arru-

mam aquilo e mandar recolher lá as malas. Volto num minuto. (Sai

pela direita).

C E N A 2 . -

ANTÓNIO DA COSTA (passeando de um lado para o outro) —

Afinal de contas, este homem não deixa de ter razão. Apesar de

todas as minhas cautelas, não obstaria a que meu filho se namorasse

por ai de alguma rapariga. Tão possível era em casa como na rua.

Demais eu andarei sempre com o olho em cima dele; não o deixarei

sair muito fora dos eixos. Arrependido estou já em o ter mandado só

a casa do nosso correspondente. Deus queira que não aconteça alguma.

(Parando e mudando de tom): Ai! Se este casamento se chega a efec-

tuar, considero-me completamente feliz. Então sempre espero alcançar

o lugar que tanto ambiciono, o alvo de todos os meus desejos, o sonho

de toda a minha vida. Sim, é então ocasião de obter com facilidade o

lugar de inspector dos teatros! Sempre tive, desde a mais tenra infân-

cia, uma vocação decidida para este emprego. Já então tinha um dedo

particular para escolher, rever, notar correcções em dramas, comé-

dias, tragédias e até para escrever. Oh! Ainda queria ver representar

aquele meu drama — O Gigante Golias. — Estou certo que havia de

fazer um efeitarrão! Caso venha a conseguir o que tanto ambiciono,

não farei como a maior parte dos inspectores. Não hei-de deixar pas-

sar gato por lebre. Comigo estão mal, os autores de agora. Havia

de pôr termo a muitos abusos que todos os dias se estão vendo

no teatro. Por exemplo, não permitiria que por este tempo da Qua-

resma se representasse toda a casta de dramas; apenas deixaria ir

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TEATRO

à cena algumas oratórias, tais como: Santo Hermenegildo, São Teotó-

nio, Sant'lago aos Mouros e outras que no meu tempo eu vi repre-

sentar aqui e em Lisboa. Mas agora, não senhores; parece que é

de propósito que escolhem os mais imorais para esta ocasião. É a

pior pouca-vergonha que eu tenho visto. (Pausa, durante a qual

passeia e parece reflectir profundamente). Parece-me que estou

predestinado para regenerar o teatro. A imoralidade tem-se apo-

derado da cena. Precisa de um homem enérgico, activo, que a

expulse. Não sei o que me diz que esse homem hei-de ser eu.

(Sentando-se descansadamente). Depois tenho certa a imortalidade do

meu nome.

C E N A 3 . ª

ANTÓNIO DA COSTA e ANDRÉ (entrando pela porta da direita)

ANDRÉ — Meu patrão! Os quartos estão prontos. Logo que V. S.ª

queira...

ANTÓNIO DA COSTA —Lá vou já. Ora diga-me, sr.... sr.... Como

é que se chama?

ANDRÉ — André, um criado de V. S,\

ANTÓNIO DA COSTA — Diga-me, Sr. André. Que tem por cá que

se leia?

ANDRÉ —Tenho o «Direito», o «Porto Comercial», o «Brás

Tisana»...

ANTÓNIO DA COSTA —Ai! não, não, não, por amor de Deus

não me fale em jornais políticos. Basta-me a «Tesoura de Guimarães»

de que sou assinante.

ANDRÉ —Então que quer V. S.ª?

ANTÓNIO DA COSTA —Outra coisa. Seja o que for menos isso.

Olhe, dramas, sobretudo dramas, tem?

ANDRÉ —Dramas?... dramas?... (Pensando): Ah! já sei o que é.

São comédias? — Estas coisas que se dizem no teatro, não são?

ANTÓNIO DA COSTA —Isso mesmo. Tem por cá alguns?

ANDRÉ — Eu? Nada, não senhor, lá disso não tenho, nada, lá

disso não, lá disso... Ai, mas agora me lembro! Se V. S.ª quer, eu vou

aqui ao quarto número 9 pedir à Sr.» D. Emília que provavelmente

há-de ter algum. Tem tanto livro...

ANTÓNIO DA COSTA —Quem é essa Sr." D. Emília?

ANDRÉ — A cómica de Lisboa que está cá no Porto — que tem

representado ai no teatro de São João.

ANTÓNIO DA COSTA —Ah! sini, sim, recordo-me de me falarem

nela. Talvez, talvez, é provável que possua bastantes dramas; como é

cómica. Pois vá, vá—diga-lhe que está cá um sujeito de Guimarães

que tem muito gosto pela literatura dramática e que desejava passar

algum tempo agradavelmente lendo alguma coisa neste género. —

Sabe dizer?

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T E A T R O

ANDRÉ — Sei, sim, senhor. Eu cá me arranjo. (Sai por a esquerda).

ANTÓNIO DA COSTA —Ora olhe lá...

C E N A 4 . *

ANTÓNIO DA COSTA — Veremos o que me manda a Sr.» D. Emí-

lia. (Pausa). É justamente a primeira mulher de que me devo acautelar; por isso mesmo que é cómica. Está costumada a representar diversos

papéis, com facilidade se fingiria apaixonada por meu filho e mais

facilmente ainda se faria amar dele. Um rapaz de vinte anos, sem expe-

riência do mundo! Estas cómicas têm às vezes manias, mas eu não

durmo, agora durmo! Não sou homem a quem se engane com essa

pressa, já sinto às minhas costas 49 Janeiros e algum proveito tenho

tirado disso.

C E N A 5 . -

ANTÓNIO DA COSTA e ANDRÉ (com um livro na mão)

ANDRÉ — A Sr.» D. Emília manda dizer a V. S.» que de todos os

seus livros aquele que mais lhe deve interessar é este que lhe envia.

Pelos modos é a comédia que hoje à noite se representa.

ANTÓNIO DA COSTA —Bom, é isso mesmo o que eu desejo.

(Pegando no livro): Ora vamos a ver o título da obra. (Lendo):«O Casamento da Condessa de Amieira»—-Mau! O nome já me não agrada.

O casamento! Ora aqui está, é o que eu digo. Isto representa-se

hoje?! — Que diabo farão os inspectores? — Se fosse eu... era coisa

que não consentia. Casamento na Quaresma! (Continua a ler): «Drama

original em 3 actos, por D. Carolina Pinto de Figueiredo Monteiro».

E é de uma mulher! —Bem digo eu, o belo sexo ainda está pior que

o feio. — A culpa temo-la nós, damos-lhe tanta importância... Ora vamos

lá a ler isto. Há-de corresponder ao título. — Vamos lá. (Para André):

Q uais são os números dos nossos quartos?

ANDRÉ — Números 12 e 13, 2.° andar.

ANTÓNIO DA COSTA —Está bem. Meu filho não pode tardar

por aí. Foi a casa do nosso correspondente e provavelmente pouco

se demora. Logo que ele chegue mande-mo para cima. Entendeu?

ANDRÉ — Sim, senhor. Vá descansado, logo que o vir... mas ele

como se chama?

ANTÓNIO DA COSTA —Júlio da Costa. (Sai por a direita).

ANDRÉ — Bem, bem, eu lho direi.

C E N A 6 . -

ANDRÉ — Ora eu sempre sou muito tolo! — Bem se diz, bem

se diz, que até à morte se aprende. Ia agora sem graça nenhuma

perdendo uma boa ocasião de embolsar alguns pintos e então porquê ?

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T E A T R O

Por cair na patetice de responder sem ter percebido o fim para que a

pergunta foi feita. Se este Sr. Costa fosse como muitos que eu conheço,

amigo de levar a sua por diante, ficariam ainda desta vez desocupados

os meus números 12 e 13, que são os que mais rendem, e a culpa era

toda minha. Isto foi bom para daqui por diante ter mais cautela. (Barulho dentro). Que barulho será este?

C E N A 7 . •

ANDRÉ e JÚLIO DA COSTA (entrando pela porta do fundo)

JÚLIO (vendo André) — Olé! Passou bem? Diga-me, o senhor é

que é o patrão cá da casa?

ANDRÉ (cortejando-o) — Para o servir.

JÚLIO — Pois saiba que estou com fome e estropiado.

ANDRÉ — E por conseguinte quer descansar e comer.

JÚLIO — Exactamente. O senhor sabe tirar bem as consequências.

(Senta-se nas cadeiras do lado direito).

ANDRÉ — Eu julgo que tenho a honra de conhecer V. S.ª.

JÚLIO — Deveras ? — Pois olhe, eu não julgava que era tão conhe-

cido. Com que então a fama encarregou-se de divulgar o meu nome

na cidade invicta?

ANDRÉ — Nada, não foi a fama, foi o senhor seu pai.

JÚLIO — O pai da fama?— Quem é esse ratão? Olhe, eu lá em

mitologia não sou muito forte.

ANDRÉ — Nada, nada. O pai do senhor, o pai de V. S.\

JÚLIO — Ai, meu pai?—Hum... visto isso chegou primeiro do

que eu?

ANDRÉ—Ocupa o quarto número 12. Disse-me que, logo que

o senhor chegasse, o mandasse subir porque eu julgo estar falando

ao Sr. Júlio da Costa.

JÚLIO — Justo. Júlio António Vieira da Costa. Então meu pai disse-

-lhe que me mandasse subir? Pois olhe, meu amigo, isso é que eu

não estou resolvido a fazer. Farto de o aturar ando eu. Durante todo o

tempo que passámos nas diligências, não me deixou falar um minuto.

Tem uma verbosidade inaudita o tal senhor meu pai! E que assun-'

tos tão interessantes ele escolhe para dissertar! Falou-me no seu reu-

matismo, em colheitas, em acções de bancos, em estradas, etc, mas sobretudo o que mais matéria lhe deu para se desenvolver foram

«os deveres de um inspector de teatros»; é uma mania muito antiga

nele, o que mais deseja nesta vida é ser inspector. São desejos

inocentes.

ANDRÉ — Visto isso, V. S.» não sobe ?

JÚLIO—Eu? — Não tenho pressa. Traga-me as folhas, gosto de

saber novidades. — Psiu! Olhe cá. Que tais são as minhas vizinhas de

quarto ?

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