Teatro por Júlio Dinis - Versão HTML

ATENÇÃO: Esta é apenas uma visualização em HTML e alguns elementos como links e números de página podem estar incorretos.
Faça o download do livro em PDF, ePub, Kindle para obter uma versão completa.

TEATRO

ANDRÉ (aparte) — A este posso responder sem hesitar. O sen-

tido da pergunta não é duvidoso. (Alto): Sofríveis, sofríveis, tem boa companhia.

JÚLIO — Ainda bem; porque eu venho disposto a fazer por aqui

algumas conquistas.

ANDRÉ (aparte) — Ah! que se o pai o ouvia!— (Ouve-se tocar

uma campainha). Há-de-me dar licença de ir ver o que quer aquele

hóspede. Não deseja nada?

JÚLIO — Não, uma vez que meu pai já veio, tomarei logo chá

com ele.

ANDRÉ — Querendo ir para junto dele, não tem mais do que

procurar no 2.» andar o quarto número 12 ou 13.

JÚLIO — Bem, eu quando quiser lá vou. (André sai por o fundo).

C E N A 8 . -

JÚLIO DA COSTA — Ora eis-me no Porto. Graças a Deus que

saí da antiga vila e nova cidade de Guimarães. Eu tenho-lhe alguma

afeição, lá amor pátrio não me falta, mas a falar a verdade, eu não

nasci para ser vimaranense. Conheço que posso aspirar a mais

alguma coisa do que a um simples cidadão do berço da monar-

quia portuguesa. Era-me impossível satisfazer os meus desejos

em tão acanhado local. Sempre as mesmas pessoas, sempre a

mesma vida, que insuportável monotonia! Eu nasci para viver numa

capital ou pelo menos numa cidade mais populosa, mais cheia de

actividade e distracções do que a pátria do nosso primeiro rei. Ha

muito que ambicionava esta viagem, mas tinha quase perdida a

esperança de a realizar, pois via meu pai mais aferrado á nossa

casa do Terreiro de São Francisco do que o caracol à casca;

porém, há seis meses para cá, notei nele uma repentina metamorfose:

começou a andar agitado, ele o homem mais pachorrento que eu

conhecia; a buscar a solidão, a falar só, a ter uma activa correspon-

dência, até que um dia acaba por me dizer: «0 Júlio, estou aborre-

cido da vida que passo aqui, careço de distracções, medito uma viagem,

queres acompanhar-me ?» — «Pronto, lhe respondi eu, isso já o pai

devia há mais tempo ter feito». No dia seguinte estávamos em Braga;

ao princípio receei que se limitasse a esse ponto a nossa viagem e

já principiava a ter saudade da minha terra natal porque a troca não

era vantajosa. Passados, porém, dois dias, achávamo-nos sentados um

ao lado do outro no cupé da diligência, e hoje vejo-me no Porto. Mas agora queria eu saber o fim de toda esta viagem. Meu pai por mais

que me diga, não me mete na cabeça que foi para se distrair que

ele a empreendeu. Eu conheço-lhe o génio. Sempre que precisava de

distracções ia até casa dos vizinhos, agarrava-se ao gamão ou ao

dominó e passava tardes inteiras a jogar, já se sabe, a feijões; nunca

foi muito amigo de gastar dinheiro em divertimentos. E agora cuida

index-11_1.png

T E A T R O

ele que o acredito, quando me diz que esta vinda ao Porto é uma

simples viagem de recreio; nada, aqui anda coisa. Já me lembra se

seria alguma paixão solapada, sim, que dúvida ? O amor não respeita os

velhos e quando os fere, fere-os de rijo. Mas assim mesmo suponho

meu pai de uma têmpera muito dura para que as setas de Cupido

o possam traspassar. Talvez fossem as suas ambições que o determi-

nassem a dar este passo. A inspecção dos teatros é para ele ura

lugar tão sedutor! Mas abandonar o negócio só por um emprego

que não rende ? Chegaria a tal ponto o seu entusiasmo ? Duvido; o

dinheiro pode muito sobre ele. Mas seja qual for a causa, o que eu

sei é que lucrei com a história, posso enfim pôr em prática todos os

meus planos amorosos; palpita-me que hei-de ser bem sucedido na

nova vida que medito. (Pausa). Deixa-me ver o que dizem os jornais.

(Senta-se à mesa da esquerda). (Lendo): «O ministério actual não se

pode sustentar por muito tempo; o povo murmura, o número dos des-

contentes aumenta cada dia»..., etc, etc. Vamos à conclusão de tudo

isto. (Percorre com a vista o artigo). Tal, tal, tal, hum, hum, hum, sim senhores. (Lê): «Seria, pois, bom que a Ex.ma Câmara tivesse sempre

a maior vigilância para que no mercado se não vendesse fruta podre».

— Sim senhor, tem bastante analogia o fim com o princípio. (Ouve-se

tocar uma campainha à esquerda). (Continua a ler): «Tempo — corre

muito chuvoso e muito frio».—Boa novidade! (Segundo toque de

campainha). (Lê): «Chegada — Chegaram a esta cidade, vindos de

Guimarães, os senhores António José Vieira da Costa e seu filho o

Sr. Júlio António Vieira da Costa». Olá! Também se ocupam con-

nosco ! Bravo! Como diabo souberam isto tão depressa ?! (Terceiro

toque de campainha). (Lê): «Foram esperados por os numerosos

amigos que ambos têm nesta cidade; tencionam demorar-se pouco

no Porto, contando partir em breve para Lisboa». (Quarto toque de

campainha). Ora aqui está este senhor que sabe mais a meu res-

peito do que eu próprio. Principia por dizer que fomos esperados

por os nossos numerosos amigos. Seriamos. Provavelmente refere-se

aos garotos que nos rodeavam ao sair da diligência, para nos levarem as malas. Eu não vi outros. Depois diz mais, que tencionamos partir

brevemente para Lisboa! Outra novidade. Só se fossem coisas de meu

pai. Se é verdade, estimo-o bem. Isto de jornalistas... (Quinto toque

de campainha mais forte e prolongado que os outros). Este vizinho

da esquerda está esquentado. Também não sei aonde se meteu a gente

desta casa. É a quarta ou quinta vez que toca.

C E N A 9 .>

JÚLIO e EMÍLIA (abrindo a porta da esquerda)

EMÍLIA — Ó Sr. André, Sr. André! — (entrando e dirigindo-se

para o fundo). Pedro! João! Estes criados estarão todos moucos?

index-12_1.png

TEATRO

JÚLIO (vendo-a) (Aparte): Olé! Exercitemo-nos. — (Alto): É um defeito que quase todos eles têm, minha senhora.

EMÍLIA (vendo-o e voltando-se) — Ah! (Saúda-o). O senhor não me saberá dizer aonde se meteria essa gente?

JÚLIO — Há bem pouco tempo saiu daqui o estalajadeiro. Não

sei onde agora parará, mas eu vou chamá-lo.

EMÍLIA — Ai! por quem é não tenha esse incómodo O negócio

não é de muita urgência.

JÚLIO — Os mínimos desejos de uma pessoa tal como V. Ex.»

devem ser tão depressa atendidos como as mais urgentes necessidades

das outras.

EMÍLIA — Não o supunha tão lisonjeiro. Já vejo que é necessário

preparar-me para o não acreditar.

JÚLIO — Lisonjeiro? Não, minha senhora, não sou lisonjeiro. Com

V. Ex.» é impossível sê-lo; tudo quanto se disser, são verdades, ver-

dades puras.

EMÍLIA —• Para poder avaliar as minhas qualidades era necessário

que me conhecesse há muito.

JÚLIO — Parece-me que não é preciso conhecer há muito a V. Ex.»

para se poder julgar do seu excelente carácter. As perfeições de sua

alma, minha senhora, estão decerto em harmonia com as perfeições

sem-número que, logo ao vê-la, lhe notei. Lê-se-lhe no coração através

do semblante.

EMÍLIA (sorrindo) — Parece-me que se tem por um hábil fisio-

nomista.

JÚLIO — Infelizmente o não sou, minha senhora. Quisera-o ser para

lhe adivinhar e prevenir os seus desejos, suspeitar e satisfazer todos

os; seus caprichos.

EMÍLIA (sorrindo) — Agradeço-lhe a boa vontade.

JÚLIO — Não tem que agradecer. Forçosamente deve pensar o

mesmo que eu todo o homem que vir uma vez só que seja V. Ex.».

EMÍLIA (o mesmo) — Nisso parece-me que se engana. Eu conheço

muitos que me vêem todos os dias e que felizmente nem por um

momento sequer tiveram o mesmo pensamento.

JÚLIO — Se tal é, minha senhora, então esses homens não têm

coração, ou se o têm deve ser mais duro que uma rocha; nada os

pode comover; pois são insensíveis aos encantos da beleza. Tais

homens, se existem, são como inanimados.

EMÍLIA — Não o creio. Julgo-os até muito animados. É que talvez

predomine muito no senhor o sistema nervoso. Mas deixando agora

este tiroteio de banalidades, que podemiser consideradas como finezas

ou como epigramas, tomo a liberdade,/ uma vez que tive o gosto de

o encontrar, de lhe pedir para que me faça companhia, aceitando uma

chávena de chá.

JÚLIO-—Se o vê-la foi já para mim uma felicidade, que chamarei

pois agora ao que sinto, em lhe ser devedor de um obséquio que me

index-13_1.png

T E A T R O

proporciona a dita de passar mais alguns momentos consigo, minha

senhora ?

EMÍLIA — Chame-lhe o que quiser. Agora o que lhe peço é que

tenha a bondade de tocar essa campainha. Talvez os criados estejam

já melhores da surdez que há pouco os atacou.

JÚLIO (tocando a campainha) — E por a qual lhes não posso que-

rer mal, pois me facilitou o prazer de poder apreciar os encantos

de V. Ex.».

EMÍLIA — Então, continua?

JÚLIO — Proibir-me que admire os seus atractivos, minha senhora,

é obrigar-me a estar calado.

C E N A 1 0 . "

JÚLIO, EMÍLIA e ANDRÉ (saindo da direita)

ANDRÉ — Foi aqui que se tocou a campainha ?

EMÍLIA — Foi sim, e não uma vez só. Com efeito muito ocupa-

dos andam todos aqui nesta casa! Cinco vezes toquei e só agora vem

saber o que eu quero!

ANDRÉ — Ó minha senhora, queira V. Ex.» perdoar, a culpa não

foi minha.

EMÍLIA — Pois sim, sim, e para outra vez vejam se têm mais cau-

tela. Sirva-nos o chá.

ANDRÉ — Pronto. (Aparte): Sirva-nos! Ai como o negócio está

adiantado! Bravo. Olhem se o pai o desconfia. Vou tratar de o demorar

lá por cima, de outro modo estou mal. (Sai por onde entrara).

C E N A 1 1 . '

JÚLIO e EMÍLIA

EMÍLIA — Agora poderei saber o nome da pessoa com quem

tenho a honra de falar?

JÚLIO — O nome ? Sim, minha senhora, mas depois de mo ouvir

não me ficará V. Ex.» conhecendo melhor. É decerto a primeira vez

que tal nome lhe soa aos ouvidos. Sou um homem muito obscuro.

EMÍLIA — Que importa? Embora o seu nome fosse até agora para

mim desconhecido, não o deve ser de hoje em diante para que o

nosso conhecimento se complete.

JÚLIO — O homem que teve a felicidade de atrair por um momento

a atenção de V. Ex.» chama-se Júlio da Costa.

EMÍLIA —É do Porto?

JÚLIO — Não, minha senhora, sou de Guimarães.

EMÍLIA — Há muito que está nesta cidade?

JÚLIO — Entrei nela hoje pela primeira vez.

index-14_1.png

T E A T R O

EMÍLIA — Faz tenção de se demorar muito aqui ?

JÚLIO — Com certeza não o sei, mas suspeito que em breve par-

tirei para Lisboa.

EMÍLIA — Para Lisboa?! Oh! então terei ainda o gosto de o

encontrar muitas mais vezes.

JÚLIO — Pois V. Ex.» também parte para lá?

EMÍLIA — Para a semana.

JÚLIO — Oh! se assim é considero-me um homem completamente

feliz. V. Ex.» é de Lisboa?

EMÍLIA — Nasci lá e lá tenho passado a maior parte da minha vida.

(Entra um criado com o chá. Sentam-se à mesa. Emília serve Júlio, o

criado retira-se).

JÚLIO — Não poderei também eu saber o nome de V. Ex.» ?

EMÍLIA — Pois ainda me não conhece ?!

JÚLIO —! De V. Ex.» apenas sei que é a mais perfeita das

criaturas.

EMÍLIA — Pois se ainda lhe não disse o meu nome foi por julgar

que o não ignorava. (Sorrindo-se): Há-de já ter ouvido falar por ai na Condessa de Amieira?

JÚLIO — Quê! Pois é V. Ex.»?! Oh! eu bem me parecia. As

suas maneiras, o seu espírito, tudo revelam uma pessoa de alta

categoria.

EMÍLIA (aparte,) — Ai! pois ele acreditou que eu era efectiva-

mente uma condessa?! Que agradável quiproquó. Antes condessa que

actriz. Já agora continuemos, veremos no que isto dá. (Alto): Pois sou eu a Condessa de Amieira.

JÚLIO — Ao prazer que sentia em falar com uma pessoa tão

encantadora como V. Ex.» acresce o de ser ela de mais a mais de uma

tão elevada jerarquia. É a maior honra de todas quantas eu pudera

imaginar.

EMÍLIA — Fraco é o merecimento que se baseia nos títulos.

(Aparte): Ora isto!

JÚLIO — Se os brasões por si sós não dão merecimento, quando

acompanhados de mil qualidades apreciáveis servem para as fazer

realçar muito mais e aumentar os encantos de quem os possui. É então

a fidalguia um fundo de quadro excelente para fazer sobressair os

dotes de espírito e de corpo dessa pessoa.

EMÍLIA — E aí está o Sr. Júlio outra vez lisonjeiro. Ora vamos,

peço-lhe que acabe com esses galanteios; de outro modo não pode-

remos conversar à vontade, estaremos sempre constrangidos.

JÚLIO — Ó minha senhora, como quer V. Ex.» que eu lhe fale ?

Na presença dos anjos que podem os homens fazer senão adorá-los?

EMÍLIA — É um caso muito diferente esse que diz. Devo adverti-lo

que não sou nem fui nunca anjo, a não ser em sonhos.

JÚLIO — Se V. Ex.» se tem imaginado anjo em sonhos, não estranhe

que o pareça àqueles que, vendo-a, se julgam sonhando.

index-15_1.png

TEATRO

EMÍLIA — Então peço-lhe que faça favor de acordar, pois embora

a natureza angélica seja bem superior à humana, eu prefiro parecer

aquilo que na realidade sou. Falemos naturalmente. Gostou do Porto?

JÚLIO — Por quem é, minha senhora, não me obrigue a sair deste

mundo ideal em que a vista de V. Ex." me há lançado, não feche para

mim as portas do Éden delicioso que tão viçoso de verdura, tão reca-

mado de flores, eu havia entrevisto, não apague com a sua indiferença

a luz mágica que no horizonte do futuro eu principiava a divisar ilumi-

nando as trevas da minha vida. Quem há aí que vendo-a se não julgue

transportado a um país de fadas ? Que homem há tão insensível que ao

ouvir o melodioso som da sua voz, que sob a influência do magnético

olhar de V. Ex." se não considere sonhando? Eu julgo estar na presença

de uma divindade a quem se deve adorar, a quem se não fala senão

de joelhos. (Ajoelha).

EMÍLIA (aparte) — Isto é tão velho. (Alto): Senhor! senhor! que faz?!... nessa posição... Não posso consentir...

JÚLIO (o mesmo) — O que lhe tenho a dizer, minha senhora, só

de joelhos pode ser dito.

EMÍLIA (aparte) Há-de ser alguma novidade interessante. (Alto):

Senhor, senhor, por quem é...

JÚLIO (o mesmo) — Oh! não, não, senhora, deixe-me estar a seus

pés. (Declamando dramaticamente): Vedes em mim um temerário que,

olvidando a distância que entre nós existia, ousou amar-vos. Sim,

senhora! confesso o meu crime! ao ver-vos enlouqueci de amores,

desvairou-se-me a razão, de tudo me esqueci para só me lembrar

de vossos encantos e do meu amor. — Sei que sois a Condessa de

Amieira.

EMÍLIA (aparte) — Ora isto! Se ele soubesse que... Oiçamos.

JÚLIO (de joelhos) — Sei que tendes pergaminhos, brasões, que

o vosso nome está escrito no livro de oiro de Portugal.

EMÍLIA (aparte) — Aonde foi que eu vi aquilo ?

JÚLIO (de joelhos) — Sois talvez requestada pelos maiores fidal-

gos portugueses.

EMÍLIA (aparte) — Custa-me a suster o riso.

JÚLIO (de joelhos) — Eu sei que sou pobre, plebeu; a minha

nobreza é a do coração, a minha única riqueza é o meu berço. (Aparte):

A exageração não prejudica, produz maior efeito ainda. (Alto): Sei tudo isto, senhora.

EMÍLIA (aparte) — E já não sabe pouco.

JÚLIO (de joelhos) — E ainda assim, perdoe-me o arrojo, nobre

senhora, ouso cair a vossos pés exclamando: amo-vos, senhora, amar

-vos não basta.

EMÍLIA (aparte) — Adoro-vos.

JÚLIO (de joelhos)—-Adoro-vos.

EMÍLIA (aparte) — Há um Deus no Céu.

JÚLIO (o mesmo) — Há um Deus no Céu.

index-16_1.png

T E A T R O

EMÍLIA (aparte) — E vós sois o meu Deus na Terra.

JÚLIO — E vós sois o meu Deus na Terra.

EMÍLIA (aparte) — Ó autor do «Pajem de Aljubarrota» ! Ó Mendes

Leal, que serviste agora de muito. (Alto): Senhor, estou de tal modo confundida que não posso... Levante-se, por favor.

JÚLIO (de joelhos) — Não me levantarei, senhora, sem saber qual

a sorte que me aguarda. Não me erguerei daqui sem que da vossa

boca saiam as palavras que ou me darão uma imensa felicidade ou

me hão-de votar a uma desgraça eterna.

EMÍLIA (aparte) — Isto agora foi trágico. Enfim continuemos. (Alto).

Senhor, coloca-me numa terrível situação... Diz-me que a sua felicidade

depende de mim... Que lhe responda... Mas como? Que quer que

lhe diga que não deva ter já adivinhado? Ao vê-lo a meus pés, ao

ouvir-lhe as eloquentes falas que me há dirigido, esqueço todas as

etiquetas da sociedade em que vivemos. Perdoe, não me queira mal

se por acaso sou nimiamente incrédula; mas, pelo som da sua voz,

pela expressão do seu rosto, pareceu-me reconhecer que havia sin-

ceridade nas suas palavras, que elas eram fiéis intérpretes dos senti-

mentos que lhe agitam o coração. Creio no seu amor; creio com

todas as veras de alma; e, crendo nele, poderei deixar de lhe

corresponder com igual afecto ? Oh, não! É impossível! Não posso

por mais tempo calar o que no peito sinto. Sim,, sim! Também vos

amo! (Aparte): Parece-me que não andei mal.

JÚLIO (que se levantou a pouco e pouco, limpando os olhos)

(Aparte): Conquistei uma condessa! (Alto): Oh! Agora sim! Agora sim!

Nada temo. Disputar-vos-ia a todo aquele que pretendesse arreba-

tar-vos dos meus braços até à última gota de sangue. Sr.ª Condessa

de Amieira! Embora venham os maiores potentados da Terra para

possuir a vossa mão, nada conseguirão. Seus intentos serão malo-

grados, pois encontrarão no caminho o plebeu, mas o plebeu que

se julga mais forte e mais nobre que todos eles, porque possui o

vosso amor.

EMÍLIA (aparte) — Esta cena não me foi de todo inútil. Serviu-me

de ensaio a uma semelhante que tenho no 2.° acto do «Casamento da

Condessa de Amieira».

JÚLIO — Que futuro de felicidade me fizestes entrever! Um sorriso

vosso me faz gozar a maior ventura que na Terra caber pode. As vossas

palavras de há pouco causaram-me um prazer tão vivo que não há neste

mundo nada a que o comparar. Só no Céu podem haver gozos assim.

EMÍLIA (aparte) — Força de expressão. (Alto): Senhor, apesar de ser na vossa presença que mais ditosa me considero, pois que em vós

reconheço a realização dos meus doirados sonhos, sou obrigada a

retirar-me para cumprir deveres que a sociedade me impõe, deveres

para mim mais custosos de cumprir, porque, longe dessa sociedade,

dessa turba importuna de galanteadores banais, é que reside a minha

felicidade. (Olhando-o, ternamente).

index-17_1.png

T E A T R O

JÚLIO — Ó minha senhora! Não vos constranjais por minha causa.

Levo comigo a ventura de saber que o meu amor foi compreendido

e correspondido e as saudades que longe de vós sentirei sempre.

(Aproximando-se de Emília): Mais um pedido vos faço. Concedei-me, senhora, que em despedida toque com meus lábios esta encantadora

mão. (Beija-lhe a mão). Adeus, minha senhora!

EMÍLIA — Adeus. Constância e fé.

JÚLIO (aparte) — Agora meu pai que espere por mim, se quiser.

Não estou com cabeça para o suportar. (Sobe pelo fundo, fazendo da

porta um último aceno a Emília).

C E N A 1 2 . '

EMÍLIA — (Rindo-se): Ah! ah! ah ! Quando pensei eu hoje que

me havia de rir com tanta vontade. Ah! ah! ah! Pobre rapaz! Está

intimamente persuadido que conquistou a Condessa de Amieira. É o

quiproquó mais interessante possível. Quando ele vier a saber tudo,

como não há-de ficar? Deve-me jurar um ódio de morte, mas eu

não tive a culpa. Perguntou-me quem eu era. Em vez de lhe dizer

directamente o meu nome, busquei um rodeio, e, julgando que ele

estaria ao facto do drama que hoje representamos no teatro de São

João, disse-lhe que era a Condessa de Amieira. Nada mais natural.

Quando vi o pobre rapaz tomar a resposta ao pé da letra, estive

para o desenganar; mas tantas finezas me rendeu relativamente ao

meu alto nascimento, aos meus títulos e pergaminhos, que não tive

ânimo para lhe desvanecer aquelas santas ilusões. Era colocá-lo numa

posição falsa e a mim também. E, quem sabe? se lhe tivesse dito

quem era, talvez ele me não fizesse aquela declaração. O amor de

uma condessa satisfaz mais que o de uma actriz. E o modo por que

ele falava! E como sabe tirar partido dos dramas e dos romances

que lê! Ah! ah! ah! Tem um jeito especial para fazer declarações

amorosas. Mas como mais tarde ou mais cedo ele deve vir a saber

quem eu sou, quero eu mesma desenganá-lo, para que não suponha

que eu tinha grandes desejos de passar por fidalga. Porém de que

modo há-de ser? De viva voz? Não tenho ânimo. (Pausa). Ah! Já

sei! Ah! ah! ah! É um belo final para a comédia que ambos repre-

sentamos. Ah! ah! ah!...

FIM DO PRIMEIRO A C T O

A C T O 2 o

A mesma cena do primeiro. Luzes sobre as mesas. Ao levantar

o pano Emília está sentada à direita, lendo. Pouco depois aparecem

ao fundo Paulo e João Pinto.

C E N A 1 . •

EMÍLIA, PAULO e JOÃO PINTO

PAULO fá porta) — Humildes criados da Sr." D. Emília.

EMÍLIA (voltando-se)— Ah! É o Sr. Paulo? Faça o obséquio de

entrar.

JOÃO PINTO (aproximando-se) — Minha senhora! (Corteja-a).

EMÍLIA —Como vai, Sr. João Pinto?

JOÃO PINTO — Bem, como sempre, minha senhora.

EMÍLIA —E sua filha?

JOÃO PINTO —A Maricas? Vai optimamente.

EMÍLIA — Muito estimo. E a respeito de teatro ? Estão prepara-

dos para a brilhatura desta noite?

PAULO —Ai, Sr.» D. Emília, Sr.» D. Emília! Não sei o que tenho

hoje, desconheço-me. Estou como quando pela primeira vez entrei em

cena. Tremo que nem varas verdes! Um drama com tão poucos ensaios !

EMÍLIA—Ora! A coisa não está tão feia como o senhor a pinta.

PAULO — Não, minha senhora. Se escapo hoje sem trovoada,

posso navegar daqui por diante afoito, sem receio de temporal.

EMÍLIA (sorrindo) — Al entra também muita modéstia, Sr. Paulo.

PAULO — Deus o permitisse !

EMÍLIA (a João Pinto) — E o Sr. João Pinto, que diz a isto?

JOÃO PINTO —Eu que hei-de dizer, minha senhora? É uma

calamidade. Nem sequer sei bem o papel.

EMÍLIA —Não sabe?

JOÃO PINTO — Há falas inteiras de que não digo uma palavra.

Não tenho remédio senão aproveitar o tempo que me resta; de outro

index-19_1.png

T E A T R O

modo, como ainda esta manhã disse à Maricas, mal me tenho de haver

com os tacões do respeitável público.

EMlLIA — Isso é muito exagerar.

JOÃO PINTO — Infelizmente é a verdade nua e crua.

EMÍLIA — Pois, meus senhores, devem empregar o pouco tempo

que temos até às oito horas e meia para reverem os seus papéis. Não

deixemos ficar mal a autora do drama. Bem sabem que é o primeiro

que escreve, e se lho assassinarmos, assassinamos-lhe também as

suas esperanças no futuro.

PAULO — Por minha vontade não é que me hei-de estender.

as diligências hão-de-se empregar.

EMÍLIA — Qual é a cena em que se acha menos forte ?

PAULO — A cena em que me acho mais fraco é aquela do nosso

diálogo do 2.° acto. Por a julgar a mais simples, desprezei-a e agora

luto com dificuldades para tirar dela partido. Ocupei-me toda a tarde

estudando-a. Se lhe não custasse muito podíamos repeti-la aqui mesmo

e dizer-me francamente o que pensa; fazer-me as suas observações.

EMÍLIA — Se assim o quer... Eu estou pronta da melhor vontade.

E o Sr. João Pinto de que cena tem mais receio?

JOÃO PINTO—Eu, de todas, mas sobretudo daquela mesma de

ontem, a 4.» cena do 2.° acto e o monólogo seguinte. Ainda há pouco

estive a dizer à Maricas que há-de ser esse o escolho em que hei-de

naufragar.

EMÍLIA — Pois se o Sr. João Pinto acha alguma utilidade em a

recordar de novo...

JOÃO PINTO — Muita, muita; mas então há-de deixar-me ir ali a

casa buscar o papei.

EMÍLIA — Pois sempre será necessário ?

JOÃO PINTO — Não é de todo inútil. Daqui a minha casa são dois

passos, eu volto num instante. E no entretanto podem-se ir ensaiando.

Até já, Sr.» D. Emília. Paulo, até logo.

PAULO — Até logo.

EMÍLIA — Olhe lá, não se demore muito, são perto de sete horas.

JOÃO PINTO — É um momento. (Sai por o fundo).

C E N A 2 . -

EMÍLIA e PAULO

EMÍLIA — Então é no nosso diálogo do 2.° acto que se quer ensaiar ?

PAULO — Parte dele pelo menos, até àquele ponto em que me

mostra o anel.

EMÍLIA — Vamos, pois, a isso. (Sentando-se à direita). Suponha

que já está dita a minha fala que termina em «perdão dos meus crimes».

— Ouve-se o sinal da chegada do pintor. «Oh! ei-lo», digo eu. É a

sua deixa, pois não é?

index-20_1.png

T E A T R O

PAULO — Exactamente. Vamos agora à cena seguida. (As falas

dos dois na cena seguinte supõem-se pertencerem ao drama « O Casa-

mento da Condessa de Amieira». Devem ser pois declamados como

tais. Paulo vai ao fundo e volta correndo para Emília). Maria !

EMÍLIA (caindo-lhe nos braços) — Luís!

C E N A 3 . -

PAULO e EMÍLIA (abraçados). JÚLIO (entra sem ser por eles

pressentido vendo-os pára estupefacto).

JÚLIO (aparte; — Que veio!

PAULO (declamando) — Que deliciosos são para mim os momen-

tos que a teu lado passo, Maria! E quão triste e árida me corre a

existência quando longe de ti me vejo! Tudo então é abandono, tudo

é tristeza, tudo é desalento. Não penso, não sonho, que não sejas tu o

objecto dos meus pensamentos.

JÚLIO — (Em toda esta cena deve dar sinais de desespero,

ciúme, etc. (Aparte): Que oiço! Quem será este atrevido ?

EMÍLIA (declamando) — Luís, oh! meu Luís! Até que enfim che-

gaste, receava tanto que não viesses! Sentia-me tão só! tão desam-

parada. Vês tu? Longe de ti choro sem saber porquê, aflijo-me,

padeço, tudo me arreceia, tudo me desassossega e lágrimas, afli-

ções, dores, receios desvanecem-se, fogem com a tua chegada. Vês

como o sorriso me assoma aos lábios? Vês como a alegria se me

pinta no rosto ? Pois sorrisos e alegrias não existem para mim na tua

ausência.

JÚLIO (ao fundo, aparte) — Que diz ela?! Que horror! Fementida!

Perjura!

PAULO (declamando) — Maria! Maria! Poderei acreditar na felici-

dade que estou gozando? Oh! repete-me outra vez essas palavras, uma,

cem, mil vezes mais; repete-mas. Diz que me amas, que não amarás

nunca a outro. Jura-mo.

EMÍLIA (o mesmo) — E precisas que te jure ?

JÚLIO (aparte) — Que mulher! que mulher!

PAULO — Cada vez que me repetes essas promessas de um

amor eterno, sinto o mesmo prazer, o mesmo intenso gozo que senti

naquela ditosa hora em que pela primeira vez da tua boca as ouvi.

em que pronunciaste uma palavra que mudou inteiramente a face da

minha vida e me tornou o mais feliz dos homens.

JÚLIO (aparte) — Maldito! Fui atraiçoado! Oh! raiva! Hei-de

vingar-me.

EMÍLIA — Acredita no meu amor! acredita no meu amor, que é

verdadeiro e sincero. Estava tão arreigado no coração como as mais

puras e sagradas coisas que desde a infância nutri. Por ele arrosto

todos os perigos, por ele resisto às ordens de um pai cruel e como

poderia, dominada por este sentimento intenso, por este amor sem

index-21_1.jpg

Vedes em mira um temerário que, olvidando a distância que entre nós existia,

ousou amar-vos...

index-22_1.png

T E A T R O

limites dirigir promessas iguais a um outro que não fosses tu? Nunca dos

meus lábios saiu uma confissão de amor que não fosse por ti ouvida.

JÚLIO (aparte) — Mentes! mentes, com quantos dentes tens na boca.

EMÍLIA — Querem-me desposar com um homem que abomino, com

esse Marquês de la Rivera; é nobre, rico, grande de Espanha, diz meu

pai. Mas que me importa isso tudo? se o seu coração é de gelo? se o

seu olhar não tem fogo, se o seu sorriso é contrafeito, as suas palavras

estudadas, se o não amo ? Oh! não, nunca serei sua esposa. Amanhã que-

rem forçar-me a assinar a escritura desse odioso casamento; recusar-

-me-ei a tudo. Matem-me, mas não me obriguem a desposar outro que

não sejas tu, tu! meu artista, nobre, como a arte a que te dedicas, nobre,

por os sentimentos que possuis. Ensoberbeço-me em ser por ti amada!

Sou orgulhosa em inspirar tuas produções. Glorio-me com as tuas gló-

rias. Verto lágrimas nas tuas penas. Vivo só por ti e para ti.

JÚLIO (aparte) — Que demónio de mulher! Com que desfaçatez

ela mente! E eu que acreditei! Quando me lembro!

PAULO — Obrigado, obrigado, Maria. Deus te pague o bem que

me fizeste com essas tuas palavras. Às vezes chego a duvidar de tanta

felicidade. Perdoa-me, mas quando me vejo só, longe de ti, chego a

ter suspeitas de que seja uma ilusão, minha ventura, um fingimento

as tuas promessas.

JÚLIO (aparte) — Tens razão para as ter, meu pedaço de asno.

EMÍLIA — Suspeitas?! Oh! que dizes? duvidas de mim? duvidas

do meu amor ? da sinceridade das minhas palavras ? Tu! Em que crês,

pois? Suspeitas de mim! de mim que troquei o amor dos principais

cavaleiros de Portugal por o teu amor, de mim que tenho sofrido as

mais cruéis injúrias, os desprezos dos meus, a ira de meu pai, por

ti, por ti só? Ingrato.

JÚLIO (aparte) — É preciso ter pacto com o Diabo para fazer o

que ela faz.

PAULO— Perdoa, perdoa-me, meu anjo! Não repares nas pala-

vras que há pouco pronunciei. A muita felicidade torna-nos receosos.

Quando por algum tempo encaramos uma luz intensa, afastando-nos

dela, tudo depois nos parece trevas. Assim, são tão ricas de encantos

e venturas as horas que junto de ti passo, que ao apartar-me nuvens

e sombras escurecem a minha vida e sofro tanto mais quanto mais

tenho gozado. Perdoa-me estes desvarios, Maria, estes receios pro-

duzidos pelo meu muito amor. Não me perdoarás?

JÚLIO (aparte) — Que diabo de choramingas!

EMÍLIA — Oh! sim, sim, perdoo-te. E como poderia não te per-

doar ? Acaso não são esses ciúmes uma prova do muito que me amas ?

JÚLIO (aparte) — Pobre diabo! Cais como um pato, cais como

eu caí! — Oh! mas hei-de vingar-me. Desfrutado! Eu!

PAULO — Oh! Eu bem sabia que não serias inexorável.

JÚLIO (aparte) — Sim, sim. Fia-te nela. Que mulher! E quem a vê

parece tão pura e inocente! Tão...

Vol,.II — 30

index-23_1.png

TEATRO

PAULO — Mas como poderás tu, tu pobre mulher, sem forças,

resistir às ordens de teu pai, evitar esse casamento odioso, esse casa-

mento que a ambos nos lança no desespero?

JÚLIO (aparte) — Como esta mulher desfruta três homens ao

mesmo tempo! Porque isto é desfruto com toda a certeza.

EMÍLIA — Meu pai preza muito o seu nome e a sua linhagem e

esse casamento longe de lhe dar lustre, mancharia para sempre o

brasão da nossa família.

PAULO —Que dizes?

JÚLIO (aparte) — Que diabo está aquela mulher a atrapalhar ?

PAULO—Pois esse casamento...

EMÍLIA — Não se pode efectuar sem desonra porque não posso

desposar senão o pai de meu filho.

PAULO (com alegria) — Oh! Maria!

JÚLIO (aparte) — Que diz ela? Oh! isto é de mais. Ah! víbora!

ah! pérfida! Não sei como tenho mão em mim e lhe não dou uma des-

compostura ! Inferno!

PAULO — Mal podes avaliar o quanto essas palavras me tornaram

feliz. Tremo até de tanta ventura.

JÚLIO (aparte) — E- eu! eu que acreditei nas suas palavras! Que

corrupção!

EMÍLIA — Hoje mesmo em breve lançar-me-ei aos pés de meu

pai, contar-lhe-ei tudo, tudo lhe revelarei. Se ele se-não compadecer

das minhas lágrimas, se antepuser os brios de fidalgo ao amor de pai,

se for inexorável e cruel, então hoje à meia-noite tem prontos dois cava-

los à porta do jardim.

JÚLIO (aparte) — Infame !

PAULO — Mas como saberei?...

EMÍLIA — Se os meus rogos não comoverem o coração de meu

pai, se for surdo à voz de sua filha, avisar-te-ei por uma carta, confia

no portador que te entregar este anel. É seguro.

JÚLIO (aparte) — Eu desmancharei os teus planos, monstro de

perfídia. Não me hás-de trair impunemente.

PAULO — Farei tudo como me dizes. Adeus, Maria, é preciso

retirar-me. É forçoso arrancar-me deste lugar de delícias para a tris-

teza e abandono da minha solidão.

JÚLIO (aparte) — Ele retira-se. Para me poder vingar, não convém

que me vejam. Saiamos. (Sai por o fundo).

C E N A 4 .

PAULO e EMÍLIA (e pouco depois JOÃO PINTO)

EMÍLIA — Bem, o resto agora não tem nada, mas se quer conti-

nuemos.

index-24_1.png

TEATRO

PAULO — Para quê ? Era justamente até este ponto que eu que-

ria repetir a cena. E que lhe parece? Está ainda muito verde, não?

EMÍLIA — De modo algum. A mim, pelo menos, agrada-me Eu

logo vi que havia exageração nos seus receios.

JOÃO PINTO (entrando) — Pronto. Eis-me aqui. Já acabaram de

ensaiar?

PAULO — Eu já consegui o que queria. Agora vou para o tea-

tro porque tenho lá que fazer. Até logo, Sr.a D. Emília.

EMÍLIA —Até logo, Sr. Paulo.

PAULO (a João Pinto) — Adeus.

JOÃO PINTO — Adeus. (Paulo sai por o fundo).

JOÃO PINTO — Agora nós.

EMÍLIA — Agora nós, mas será melhor virmos cá para dentro.

Sinto aqui frio.

JOÃO PINTO —Pois vamos lá para dentro. (Saem por a esquerda).

C E N A 5 . -

JÚLIO (entrando por o fundo) — A pesar meu, outra vez para

aqui sou impelido. Já se retiraram. Aquela mulher não se me pode

varrer da memória! Traído ! traído! — e que traição! Vilipendiado,

escarnecido! eu! — Monstro! víbora! demónio! fúria ! Com que risonho

semblante ela dizia amar-me! Quem a visse, diria estar diante de

uma virgem casta e inocente que confessava o seu primeiro amor ao

homem que lhe fizera palpitar o seio, com uni sentimento desconhe-

cido; e eu, grande pedaço de asno, assim o julguei! Com que fim me

enganaria a senhora condessa de Amieira? Para que fingiria corres-

ponder ao meu amor? Talvez para na falta do amante se divertir,

distrair-se, desfrutando-me nas suas tristezas e colher matéria para

depois se rirem ambos à minha custa. Mas que descaramento, que

pouca-vergonha tem aquela mulher! No mesmo dia em que tenciona

confessar ao pai a sua desonra, no mesmo dia em que talvez tenha

de fugir do seio da sua família, e entregar-se nos braços do seu mise-

rável sedutor, na véspera daquele marcado para se assinarem as

escrituras do seu casamento com esse grande de Espanha, que mal

sabe no que se vai meter, lembra-se ainda de se desenfadar à custa

de um papalvo como eu, que caí na patetice de acreditar nas suas

palavras! É inconcebível ! (Furioso): Oh! hei-de vingar-me ! (Sosse-gando): E vou pensar na vingança. (Senta-se próximo à mesa da

esquerda). Matá-la?... Isso não, de modo nenhum. Não me acho com

ânimo e demais podia ser descoberto e preso e... nada, nada, é mais

enérgico, mas não me serve. (Pausa). Desafiar o meu rival? Isso sim, era uma bela vingança; caso eu vencesse, ela ficaria desonrada e...

mas quem me diz que não seria eu o vencido ? — Demais qual havia

de ser a arma? — Ele é portuense, julgo eu, não aceitaria senão a soco,

essa de modo nenhum me convinha, era ridículo e nada decidia. Melhor

index-25_1.png

T E A T R O

era a pistola ou a espada, mas infelizmente cá por a província ainda está

tudo atrasado, só na capital é que os duelos são violentos, sem quartel

nem misericórdia, os homens da capital são terríveis, mas nós... Nada,

nada, o duelo não serve. É necessário escolher outro meio. (Pensa). Dar-

-lhe uma descompostura? Ora! Olhem a grande coisa! Ainda por cima

me respondia com uma gargalhada e eu ficava embasbacado. Aquela

mulher é capaz de tudo. Como me poderei vingar? —A ofensa não pode

ficar impune.

CENA 6.-

JÚLIO, sentado à direita e JOÃO PINTO saindo do quarto

de Emília sem o ver

JÚLIO — Quem será este homem que sai do quarto dela ?

JOÃO PINTO (a meia voz, falando consigo mesmo) — Aquela

maldita fala do segundo acto dá-me que fazer. Deixa-me ver se a

digo toda. (Senta-se à direita e declama): Desgraçada filha! Vergonha da minha família! Desonrada! Desonrada! E por quem ? Por um

plebeu, por um homem que não usou nunca esporas de cavaleiro.

Ah! para que permitiu Deus que eu vivesse tanto tempo! Se houvera

morrido, não sentiria agora corarem-me as faces de vergonha, revol-

tar-se-me o sangue de indignação; se já não existisse, não presenciaria

o aviltamento da minha família, não veria os meus pergaminhos e bra-

sões enxovalhados pelas mãos de um miserável vilão. Oh! que não

sei como pude resistir, não sei como ainda vivo. Tenho, porém, deve-

res a cumprir para com as sombras venerandas dos meus ilustres ante-

passados. É mister ocultar aos olhos do mundo esta nódoa com que

uma filha degenerada manchou os puros brasões da casa de Amieira

para que as ossadas de meus gloriosos avós não estremeçam na sepul-

tura, ouvindo os risos e insultos da plebe, e os impropérios contra

nós dirigidos. Essa, a quem eu chamava minha filha, não me aviltará

aos olhos do mundo. Amanhã mesmo partiremos para as terras do nosso

domínio. Aí ela ficará enquanto um sopro de vida animar estes já can-

sados membros, enquanto a terra não cobrir estas cãs que tão indigna-

mente ultrajou. E esse vilão, esse desprezível plebeu que se atreveu

a lançar o labéu da infâmia no meu brasão, que trema da vingança do

nobre insultado! (Pausa). Oh! minha filha, minha filha! Para sempre perdida! (Cobre o rosto com as mãos).

JÚLIO (que o tem escutado atentamente) — Que nobreza de carác-

ter! É o tipo do verdadeiro português. Óptima lembrança! belo meio

de me vingar! (Levanta-se e dirige-se a João Pinto, batendo-lhe no

ombro). Senhor! •

JOÃO PINTO (Voltando -se — Que é ? (Vendo Júlio, com afabili-

dade): Passou bem?

JÚLIO (saúda-o) (Aparte): Como estes fidalgos mudam de sem-

blante e sabem dominar suas paixões! Vendo-o agora custa a acre-

index-26_1.png

T E A T R O

ditar que seja o mesmo que há pouco falava tão altivamente. Quem

descobrirá através deste rosto risonho a tempestade que lhe vai no

espírito!

JOÃO PINTO — Poderei saber o que o senhor me tem a dizer ?

JÚLIO — Entro imediatamente no assunto. Talvez estranhe o meu

atrevimento e o modo por que me apresento ante o senhor, sem

nunca termos falado. Rogo-lhe que me queira desculpar. É com grande

pesar meu que dou este passo, acredite-me, desejara não me supor

obrigado a fazê-lo; mas a minha consciência e a consideração e res-

peito que sempre tributei a um pai extremoso como o senhor, me

impelem a dizer-lhe tudo.

JOÃO PINTO — Peço-lhe que se explique melhor, eu não o com-

preendo.

JÚLIO — Eu falo mais claro. Perdoe-me se lhe vou tocar numa

chaga que ainda sangra.

JOÃO PINTO — Queira desculpar, mas isso ainda me parece mais

obscuro.

JÚLIO — Acredite que é com o coração trasbordando de mágoa

que lhe vou falar num assunto tão doloroso.

JOÃO PINTO — Ó senhor, por quem é! fale de maneira que eu

entenda.

JÚLIO (aparte)— Quem dirá que esta serenidade é fingida?

JOÃO PINTO —Então, senhor?

JÚLIO — Entro na matéria, mas..,

JOÃO PINTO — Vamos, vamos — deixe-se de mas... que eu assim

não percebo.

JÚLIO — Sei que tem uma filha, senhor.

JOÃO PINTO —A Maricas?

JÚLIO — A h ? !

JOÃO PINTO —Sim, a Maricas.

JÚLIO — A Sr.* D. Maria.

JOÃO PINTO —Eu chamo-lhe Maricas. — Vamos lá, e depois?

JÚLIO (aparte) — Que homem! Como sabe modificar o seu carácter !

JOÃO PINTO — Ó senhor, por quem é, fale para diante.

JÚLIO — Eu continuo. — Sei, pois, que tem uma filha.

JOÃO PINTO —Sim, também eu, e depois? que fez ela?

JÚLIO — Oiça-me, tenha paciência. Vi sua filha e por conseguinte

escusado é dizer que a amei.

JOÃO PINTO (estremecendo) — O senhor ?l

JÚLIO — Eu mesmo.

JOÃO PINTO —A Maricas?

JÚLIO —Sim, à Sr.» D. Maria.

JOÃO PINTO —O senhor?!

JÚLIO — Eu, sim, eu. Amei-a, amei-a com todo o amor que cabe

no coração de um homem, amei-a o mais extremosamente que se pode

amar neste mundo, amei-a e, a pesar meu, ainda a amo.

index-27_1.png

TEATRO

JOÃO PINTO (aflito) — Ora! Ela ainda está muito nova. Ora

valha-me Deus, valha.

JÚLIO (sorrindo ironicamente) — Ainda está muito nova? Pare-

ce-vos ?

JOÃO PINTO —Pois não está? Ora... ora... ora...

JÚLIO — Apesar de ainda estar muito nova, quando eu lhe decla-

rei o meu amor, ela disse-me—«também eu vos amo».

JOÃO PINTO —Ela?

JÚLIO —Sim, ela.

JOÃO PINTO —A Maricas?!

JÚLIO (sorrindo) — Sim, a Maricas.

JOÃO PINTO — O senhor está a caçoar comigo ?

JÚLIO —Falo verdade.

JOÃO PINTO — Desavergonhada! (Para Júlio): Ora diga-me, que

ocupação tem o senhor?

JÚLIO —Eu? Nenhuma.

JOÃO PINTO — Então já vê que não tem jeito.

JÚLIO —Não tem jeito?

JOÃO PINTO —De qualidade nenhuma.

JÚLIO—Eu não o entendo!

JOÃO PINTO — Pois diga-me, o senhor que lhe há-de dar de

comer?

JÚLIO — Dar de comer, a quem?

JOÃO PINTO —Ora a quem! à Maricas.

JÚLIO — À... ? Que necessidade tenho eu de lhe dar de

comer ?

JOÃO PINTO (rindo-se) — Oh! oh! oh! — Ora essa agora é fina!

Pois o senhor cuida que ela não come? Olá se come, não me custa

pouco a sustentar.

JÚLIO (aparte) — Este homem estará doido! (Alto): Eu não o

compreendo, senhor. Com que fim julga que eu lhe venho falar?

JOÃO PINTO — Eu, pelo palavreado, entendi que o senhor me

vinha pedir a rapariga em casamento.

JÚLIO — E se assim fosse o senhor concedia-ma?

JOÃO PINTO — Eu... se o senhor estivesse numa posição em

que a pudesse sustentar...

JÚLIO — Mesmo sem ser nobre?

JOÃO PINTO —O quê? Nobre? Que me importa a mim a

nobreza ?

JÚLIO (aparte) — Este homem está-me a desfrutar. (Alto): O senhor insulta-me.

JOÃO PINTO —Não sei em quê.

JÚLIO — Não sabe em quê ? Supõe-me capaz de casar com

sua filha?

JOÃO PINTO —E então que tinha?

JÚLIO — Julgava-me tão vil que o fizesse,isabendo eu tudo?

index-28_1.png

T E A T R O

JOÃO PINTO (zangado) — Sabendo o quê? Quem é o senhor

para se aviltar casando com a Maricas?

JÚLIO — Sou um plebeu que ainda tem honra e brio e que os

não quereria perder casando com sua filha. Desprezo os seus perga-

minhos.

JOÃO PINTO — Qual pergaminhos, nem qual cabaça. O senhor

insultou-me.

JÚLIO — Quem me insultou foi o senhor.

JOÃO PINTO (exaltando-se) — O senhor há-de-me dar uma

satisfação.

JÚLIO — Não se exalte. Pode excitar a atenção de mais alguém,

escusa a sua vergonha de ser conhecida por todos.

JOÃO PINTO (mais exaltado) — Vá para o Diabo ! Oiça-me quem

quiser. Eu não tenho vergonha nenhuma.

JÚLIO —Pois devia tê-la.

JOÃO PINTO — Olhe. Eu não gosto de me exceder, mas o senhor

faz com que eu cometa alguma imprudência.

JÚLIO (aparte) — Julga talvez que eu ignoro tudo. É desculpável

o seu procedimento. (Alto); Eu não quero exasperar mais os seus tormentos, esqueço todas as injúrias que há pouco me dirigiu...

JOÃO PINTO (descontente) — Continua?

JÚLIO — Concebo perfeitamente qual a dor que neste momento

lhe dilacera o coração.

JOÃO PINTO (zangado) — Continua ?

JÚLIO — Imagino que pesar deve sentir um pai...

JOÃO PINTO (furioso) — Continua?!

JÚLIO — Compreendo quanto há-de ser custoso...

JOÃO PINTO —O senhor...

JÚLIO — Atrozmente mortificador...

JOÃO PINTO —O senhor...

JÚLIO — Horrivelmente cruel...

JOÃO PINTO —O senhor...

JÚLIO — O que agora se passa no seu coração.

JOÃO PINTO (no auge da cólera)—O senhor está a caçoar comigo ?

JÚLIO — O acaso, foi o acaso que me fez conhecedor de tudo.

JOÃO PINTO —Mas de tudo o quê? Safa! Que homem!

JÚLIO — De que ? Da desonra de sua filha. Queria evitar pronun-

ciar essa palavra, mas, como assim o quis, aí a tem.

JOÃO PINTO —Da?!... O senhor que está a dizer?

JÚLIO — A verdade. Prezo-me de nunca haver dito outra coisa.

JOÃO PINTO —Fala sério?!

JÚLIO — Tão sério como se estivera confessando meus pecados.

(Aparte): Faz-se de novas. É o orgulho de nobre que o obriga a pro-

ceder assim.

JOÃO PINTO —Tem provas do que diz?

JÚLIO — Que necessidade tinha eu de mentir ?

index-29_1.png

T E A T R O

JOÃO PINTO —Ora! Eu sei lá!

JÚLIO — Não estou acostumado a ver duvidar quando afirmo

uma coisa.

JOÃO PINTO — Pois acostume-se agora.

JÚLIO — Não me exaspere, senhor!

JOÃO PINTO — Exasperado me tem você.

JÚLIO"— Que necessidade tem que eu lhe prove uma coisa que

sabe melhor do que e u ? ,

JOÃO PINTO — Digo-lhe que não sei nada e que nada acredito.

E vá o senhor para os mais remotos cantos do Inferno ajudar a assar

as almas condenadas.

JÚLIO (aparte) — Poupemos-lhe o orgulho. (Alto): Se lhe falei nisto, acredite que foi para seu bem.

JOÃO PINTO — E quem me diz que o senhor não é algum peral-

vilho, ressentido por a Maricas lhe não dar cavaco?

JÚLIO — Bem. Quer que lhe dê provas em como sei tudo ? Vou-

-lhas dar.

JOÃO PINTO (limpando o suor) — Venham elas.

JÚLIO — Poste-se à meia-noite à porta do jardim.

JOÃO PINTO —Do...?

JÚLIO —Do jardim.

JOÃO PINTO —Quer dizer quintal.

JÚLIO (impaciente) — Jardim ou quintal. (Aparte): Que homem

tão extraordinário! Eu pasmo!

JOÃO PINTO —E que há lá?

JÚLIO — Assim que o sino marcar meia-noite, ouvirá o tropear de

cavalos.

JOÃO PINTO —E depois?

JÚLIO—Um vulto, desmontando-se, se aproximará das grades do

jardim.

JOÃO PINTO — Já lhe disse que não é jardim, é quintal e não

tem grades nenhumas.

JÚLIO —Não tem grades?

JOÃO PINTO — Não.

JÚLIO —Então que tem?

JOÃO PINTO — Muros e portas.

JÚLIO (aparte) — É necessário ter muito poder sobre si para se

ocupar com tais ninharias numa situação como esta! Que carácter! (Alto): jardim ou quintal, muros ou grades, isso é indiferente. Se continuar a

espreitar, verá que da casa sai outro vulto, dirige-se para o lugar onde

está o primeiro, falam-se, trocam também alguns beijos, montam cada

um no seu cavalo e se os não suspender, fogem. Agora quer saber

quem são estes vultos?

JOÃO PINTO —Quero, sim, senhor.

JÚLIO — Um é sua filha; o outro o seu infame sedutor.

JOÃO PINTO —Deveras?!

index-30_1.png

TEATRO

JÚLIO — Falo-lhe a pura verdade.

JOÃO PINTO —Como soube o senhor isso?

JÚLIO — Surpreendi este segredo a sua filha quando estava nos

braços do seu desprezível amante.

JOÃO PINTO —O senhor viu-os ambos juntos?

JÚLIO — Vi.

JOÃO PINTO — E não fez nada?

JÚLIO — Que queria que fizesse ?

JOÃO PINTO — E quem é ele ?

JÚLIO — Um homem que não conheço.

JOÃO PINTO — E com que fim espreitava o senhor minha filha ?

JÚLIO — Já lhe disse que a amava.

JOÃO PINTO —Que tramóia! Custa-me a acreditar.

JÚLIO — Pois não acredite; deite-se muito descansado; durma um

bom sono e quando acordar pergunte por sua filha. Verá então se

falo verdade.

JOÃO PINTO —Mas...

JÚLIO —Que há mais?

JOÃO PINTO (aparte) — Estou quase convencido. Este rapaz fala

verdade. É impossível mentir-se daquele modo, Ó Maricas, Maricas!

Deixa estar que eu te arranjarei. Mal acabe o 2.° acto, como não entro

no resto do drama, vou para casa e ponho-me de atalaia a vigiar a

menina. Podem os melros ficar certos que, se os pilho, a bengala

que lá tenho de marmeleiro há-de trabalhar esta noite. Ora a Mari-

cas... a Maricas é que me admira. (Alto): Pois, meu senhor, agra-

deço-lhe o aviso que me deu. É muito louvável o seu proceder.

Um pobre pai está muitas vezes sendo o ludíbrio de seus filhos, e

quando mais feliz se julga é quando às vezes eles lhe estão cavando

a sua ruína. Muito obrigado, muito obrigado. Perdoe se o ofendi,

mas estava tão longe de suspeitar a verdade!... (Estende-lhe a mão).

JÚLIO (apertando-lha) — Essa é boa! (Aparte): E ainda finge que ignorava. Mal sabe ele que o escutei há pouco.

JOÃO PINTO — Adeus, adeus, meu senhor. Muito obrigado, muito

obrigado. Adeus. Vou para o teatro. (Sai pelo fundo).

C E N A 7 . '

JÚLIO (sentando-se à direita) — Para o teatro ! Ora entendam-no lá!

Depois de uma cena destas vai para o teatro! Que homem! Mas estou

vingado! Ah! Julgava a Sr." Condessa de Amieira que se zombava de

mim impunemente ?! Enganou-se. Sei-me vingar e as vinganças que tomo

não ficam inferiores à afronta. Posso agora descansar. Estão cumpridos

os meus desejos!

C E N A 8 .

JÚLIO e PAULO (entrando apressado pelo fundo)

index-31_1.png

TEATRO

PAULO (batendo à porta de Emília) — Depressa, depressa, minha

senhora! Estão à nossa espera. Mandaram-me vir chamá-la. Já são

horas.

EMÍLIA (de dentro) — Lá vou já.

JÚLIO — Que oiço! Acaso mudariam de resolução ? Frustrar-se-iam

os meus planos? Oh, não! Nunca! (Alto, com fúria, levantando-se):

Está enganado, senhor! Daqui ninguém sai!

PAULO — O senhor que quer?

JÚLIO — Destruir os vossos projectos.

PAULO —Que projectos?

JÚLIO — Oh! Eu sei tudo. Assisti ao vosso último colóquio.

PAULO — O senhor está enganado comigo. Eu não o entendo.

JÚLIO — Não ? É pena. Não estou enganado. Conheço-o per-

feitamente.

PAULO — Pois então é tolo. Já lhe disse que não entendo o que

me diz.

JÚLIO — Eu o farei entender à força.

PAULO — Quem deixaria aqui um doido solto ?

JÚLIO — Não admito insultos, senhor. Não vos atrevais a dizer

mais nada a meu respeito, infame sedutor!

EMÍLIA (dentro, rindo-se) — Ah! ah! ah!

PAULO — Ó minha senhora! Não me dirá quem é este furioso

que está nesta sala?

EMÍLIA (de dentro) — Ature-o. Ah! ah! ah!

JÚLIO (aparte) — É ela! E ri-se! Que mulher! (Alto): Não vos riais tanto, sr." condessa, que os vossos planos falharam.

PAULO — Sr.» condessa?!

EMÍLIA (dentro) — Ah! ah! ah!

JÚLIO — Zombai, zombai, que a vingança está perto, (Para Paulo):

Agora nós, Sr. Luís. A vossa sorte vai-se decidir aqui mesmo.

PAULO — Oh! Eu chamo-me Paulo. Não lhe dê agora para me

trocar o nome.

JÚLIO — Foi esse o nome que escolheste para te ocultares e per-

petrares o rapto, infame vilão.

PAULO —O rapto?!

EMÍLIA (dentro)— Ah! ah! ah!

PAULO — Ora o senhor não me deixará? Cuida que não tenho

mais que fazer?

JÚLIO — Na verdade que tendes muito que fazer, mas nada fareis.

PAULO — Sabe que mais? Com tolos nem para o Céu...

EMÍLIA (dentro) —Ah\ ah! ah!

PAULO (para dentro) — Oh! minha senhora, eu para falar a ver-

dade já lhe não acho muita graça.

EMÍLIA (dentro)— Ah! ah! ah!

PAULO (idem) — Com esta gente não se tira partido.

EMÍLIA (idem) — Ah! ah! ah!

index-32_1.png

TEATRO

JÚLIO — Gargalhada de demónio.

PAULO — Que tem também com aquela senhora?

JÚLIO — Que tenho? Queres saber o que tenho, odioso rival?

Queres sabê-lo ? Eu to digo: hoje mesmo há pouco nesta sala, neste

lugar ela me disse o mesmo que a ti, fez-me iguais juramentos.

PAULO — Mas o que foi que ela me disse ? Que juramentos ? Que

forte pancada!

EMÍLIA (dentro) — Ah! ah! ah!

JÚLIO— Julgas que vos não ouvi? Enganas-te. Ouvi tudo. Fiz-me