Tempest - Série Tempest - Livro 1 por Julie Cross - Versão HTML

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Dedicatória

PARA O MEU EDITOR, BRENDAN DENEEN,

CUJA VISÃO CONVERGIU COM A MINHA

PARA CRIAR ESTE LIVRO

Sábado, 11 de abril de 2009.

Ok, então é verdade. Eu posso viajar no tempo. Mas não é tão

emocionante quanto parece. Não posso voltar no tempo e matar

Hitler. Não posso ir para o futuro e ver quem vai vencer o

campeonato de beisebol de 2038. Até agora, o máximo que já fiz

foi voltar seis horas no tempo. Coisa de super-herói, certo?

Esta noite, finalmente contei a outra pessoa o meu segredo.

Alguém cujo QI está anos-luz à frente do meu, por isso

teoricamente ele pode ser capaz de me entender. Adam só insistiu

para que eu documentasse tudo. Para que fizesse um registro de

praticamente todos os momentos daqui em diante. Na verdade, ele

queria que eu registrasse os meus 18 anos de vida, mas eu disse

para ele esquecer — por enquanto. Embora eu tenha concordado

com essa ideia do diário, isso não significa que ela me agrade. Não

é como se o mundo fosse acabar porque eu posso saltar no tempo.

Ou como se eu fosse cumprir algum propósito maior, como salvar

a raça humana da extinção. Mas, como disse Adam, devo viajar no

tempo por algum motivo e cabe a nós descobrir por quê.

Jackson

Meyer

CAPÍTULO UM

TERÇA-FEIRA, 4 DE AGOSTO DE 2009, 12:15.

– Quantos minutos eu devo voltar? – perguntei a Adam.

Mantínhamos uma boa distância entre nós e a longa fila de

crianças que se amontoavam em volta das instalações dos ursos

polares.

– Trinta minutos? – Adam sugeriu.

– Ei, me dá isso aqui! – Holly agarrou o saquinho de balas que

uma das crianças tinha surrupiado de um carrinho de bebê e me

lançou um olhar exasperado. – Seria muito bom se você vigiasse o seu

grupo de crianças. – Foi mal, Hol. – Peguei Hunter no colo antes que

seus impulsos cleptomaníacos piorassem. – Segure essa mão aí! – eu

disse a ele.

O garotinho deu um sorriso banguela e abriu as mãos gorduchas

em frente ao meu rosto.

– Pode olhar. Não tem nada.

– Então continue assim, está bem? Você não precisa ficar

pegando as coisas dos outros. – Coloquei-o de volta no chão e empurrei-

o de leve na direção das outras crianças, que corriam na direção de

uma larga faixa de grama reservada para os piqueniques dos campistas.

– Holly Flynn! – chamei, pegando a mão dela e entrelaçando seus

dedos nos meus.

Ela se virou para me olhar.

– Você tem um fraco pelo garotinho cleptomaníaco, não tem?

Eu sorri para ela e dei de ombros.

– Pode ser.

Seu rosto relaxou e ela puxou a parte da frente da minha

camiseta, fazendo eu me aproximar antes de me beijar na bochecha.

– Então... o que vai fazer esta noite?

– Hum... tenho planos com esta loirinha linda. Só não consigo

lembrar o que tínhamos planejado. É uma... surpresa.

– Nada disso! – ela riu e balançou a cabeça. – Não acredito que

esqueceu sua promessa de passar uma noite inteira comigo recitando

Shakespeare... em francês... de trás pra frente. Depois íamos assistir

Titanic e Um Lugar Chamado Notting Hill.

– Eu devia estar bêbado quando disse isso. – Olhei por sobre o

ombro de Holly antes de beijá-la rapidamente na boca. – Mas vou

concordar com Notting Hill.

Ela revirou os olhos.

– Na verdade, a gente ia ver aquela banda com seus amigos,

lembra? Uma garotinha do grupo de Holly puxou o braço dela e

apontou para o banheiro. Fui atrás dela para que pudéssemos discutir

a minha incapacidade de fazer planos com duas semanas de

antecedência e me lembrar deles duas semanas depois.

– Ei, Jackson, vem cá! – chamou Adam, acenando com a cabeça

na direção de uma árvore.

Intervalo para planejamento preciso e exato de viagem no tempo.

– Você vai com a gente ver aquela banda hoje à noite? – perguntei

a ele.

O que eu queria saber mesmo era se ele se lembrava.

– Hum... vejamos. Passar a noite toda com seus amigos do

colegial que, segundo ouvi, são uma versão da vida real de Gossip Girl?

Sem mencionar o salário inteiro gasto com uma porçãozinha e algumas

bebidas? – Ele balançou a cabeça e sorriu. – O que acha?

– Já entendi. Que tal irmos então a algum lugar perto da casa de

vocês, amanhã?

– Parece bom.

– Então, tudo bem, vamos nessa. Não consigo comer nada

fedendo a camelo desse jeito, então podemos fazer a experiência agora

mesmo.

Adam jogou o diário no meu colo e atirou a caneta em cima.

– Escreva aí o seu objetivo, porque viajar no tempo sem um

objetivo é simplesmente...

– ...imprudência – eu disse, terminando a frase para ele e

tentando não suspirar.

– A loja de lembranças está bem atrás de nós. Eu observei a loja

durante a última hora e a mesma garota ficou no caixa o tempo todo.

– De olho na garota, hein?

Adam revirou os olhos e tirou o cabelo preto da testa.

– Ok, agora programe o seu cronômetro e depois volte trinta

minutos no tempo. Vá à loja de lembranças e faça o que for preciso para

que ela se lembre do seu nome.

– Isso se chama “flertar” – eu disse baixinho, para que ninguém

escutasse. Depois me concentrei em fazer minhas anotações antes que

Holly voltasse do banheiro.

Objetivo: Testar teoria com alguém que não tenha

conhecimento do experimento.

Teoria: Acontecimentos e ocorrências, inclusive

interação humana, durante viagem ao passado, NÃO afetam o

presente.

Traduzindo: eu salto trinta minutos no tempo, passo uma

cantada na garota da loja, volto para o presente, entro na loja de novo e

vejo se ela me reconhece.

Ela não vai me reconhecer.

Mas Adam Silverman, primeiro lugar na Feira Nacional de

Ciências de 2009 e futuro aluno do Instituto de Tecnologia de

Massachusetts, não confirmará essa conclusão até que eu a tenha

testado de Todos. Os. Ângulos. Possíveis. Sinceramente, eu não me

importo. Às vezes é divertido e, até alguns meses atrás, apenas eu sabia

do que era capaz de fazer. Agora que esse número dobrou, eu me sinto

um pouquinho menos estranho.

E um pouquinho menos solitário.

Mas eu nunca tinha feito amizade com um gênio da ciência.

Embora Adam seja mais do tipo hacker que invade sites do governo. O

que é bem mais maneiro, na minha opinião.

– Você tem certeza de que pode saltar exatos trinta minutos? –

Adam perguntou.

Dei de ombros.

– Sim, provavelmente.

– Só não deixe de anotar o horário. Eu vou registrar os segundos

que você vai ficar aqui, vegetando – disse Adam, colocando o

cronômetro na minha mão.

– É assim que eu fico quando salto no tempo? Quantos segundos

acha que vou ficar “vegetando”? – perguntei.

– Acho que uma excursão de vinte minutos, voltando trinta

minutos no passado, vai deixá-lo catatônico no presente durante uns

dois segundos.

– Onde eu estava trinta minutos atrás, pra que não dê de cara

comigo mesmo? Adam ligou e desligou o cronômetro umas dez vezes

antes de me responder. Esse cara é totalmente obsessivo-compulsivo...

– Você estava lá dentro, olhando os pinguins.

– Tudo bem, vou tentar não acabar lá dentro.

– Nós dois sabemos que você pode escolher sua localização se

realmente se concentrar, por isso não me venha com essa história de

“não sei onde vou acabar...” – zombou Adam.

Talvez ele estivesse certo, mas é duro não pensar em nada além

de um único lugar. Basta pensar por meio segundo em outro que não

seja o lugar planejado e acabo indo parar lá.

– Ah, sim, claro. Então vá você, se acha assim tão fácil.

– Bem que eu gostaria.

Eu entendo por que alguém como Adam é tão fascinado pelo que

eu faço, mas não encaro a capacidade de viajar no tempo exatamente

como um superpoder. Só uma espécie de aberração da natureza. Uma

aberração assustadora, a propósito.

Olhei o relógio, 12:25, então fechei os olhos e me concentrei em

trinta minutos no passado e no ponto exato em que queria estar,

embora eu na verdade não tivesse a mínima ideia de como fazer isso.

A primeira vez que saltei no tempo tinha sido oito meses antes,

durante o meu primeiro semestre da faculdade. Eu estava sentado na

carteira, no meio da aula de poesia francesa. Cochilei por alguns

minutos e acordei com uma brisa fria e uma porta batendo na minha

cara. Eu estava na frente do meu dormitório. Antes que tivesse chance

de entrar em pânico, já estava de volta à sala de aula.

Aí entrei em pânico.

Agora é divertido, na maioria das vezes. Embora eu ainda não

faça ideia do dia ou do tempo para o qual saltei aquela primeira vez.

Desde os primeiros registros até hoje, minhas viagens progrediram de

seis para 48 horas no passado. Saltar para o futuro ainda não consigo,

mas não vou parar de tentar.

A sensação conhecida de me partir ao meio toma conta de mim.

Eu seguro a respiração e espero que passe. Nunca é agradável, mas a

gente acaba se acostumando.

CAPÍTULO DOIS

TERÇA-FEIRA, 4 DE AGOSTO DE 2009, 11:57.

Quando abri os olhos novamente, Adam tinha sumido, assim

como o restante das crianças e os meus colegas de trabalho. A horrível

sensação de ser dividido ao meio tinha passado e sido substituída pela

leveza que eu sempre sentia durante um salto no tempo. Como se eu

pudesse correr quilômetros sem sentir nem uma dorzinha nas pernas.

Olhei em volta. Eu estava com sorte. Todo mundo parecia

ocupado demais, admirando os animais, para reparar em mim,

materializando-me do nada. Felizmente até hoje não tive que explicar

isso a ninguém.

Apertei o botão para disparar o cronômetro e olhei para o grande

relógio sobre a entrada do zoológico.

11:57. Quase no alvo. Andei na direção da loja e entrei. A garota

do caixa parecia ter a minha idade, talvez um pouquinho mais velha.

Estava com os cotovelos no balcão e a cabeça apoiada nas mãos,

olhando a parede.

Sempre que fazíamos esses pequenos experimentos, eu tinha que

me lembrar constantemente de um fato muito importante: quando se

trata de viagens no tempo, Hollywood entendeu tudo errado.

Estou falando sério.

Aqui vai a parte mais estranha dessa história. A garota do outro

lado do balcão poderia me dar um soco no nariz, talvez até quebrá-lo, e

quando eu saltasse para o presente meu nariz estaria roxo ou dolorido,

mas não quebrado. A razão de ele não estar quebrado é uma outra

história, totalmente diferente (e inexplicável), mas a questão é... eu vou

me lembrar de ter levado um soco.

Se eu quebrar o nariz dela, então, quando eu voltar para o

presente, ela estará intacta e não se lembrará de coisa alguma.

Evidentemente, eu deveria provar essa teoria exatamente agora (mais

uma vez). Bem... exceto pela parte de dar um soco nela. De qualquer

maneira, o resultado seria o mesmo.

– Oi – cumprimentei-a. – Você tem... filtro solar?

Ela nem fez contato visual comigo, só apontou para a parede à

esquerda. Eu fui até lá, peguei quatro frascos diferentes e depois voltei

para o balcão.

– Então... você estuda na NYU ou na...?

– Sabe que pode comprar esses mesmos filtros em qualquer outro

lugar por, tipo, a metade do preço, né?

– Obrigado pela dica, mas estou precisando deles agora. – Eu me

curvei sobre o balcão, bem na frente dela.

Ela endireitou as costas e começou a passar a minha compra na

registradora.

– Quatro frascos? Sério?

Tudo bem... era um pouco demais só pra cantar uma garota.

– Ok, vou levar um só. Aposto que você não ganha comissão.

– Você é monitor do acampamento? – ela perguntou de um jeito

desdenhoso, olhando minha camiseta verde do uniforme.

– Sou.

A garota deu uma risadinha abafada e pegou o cartão de crédito

da minha mão.

– Você não se lembra mesmo de mim?

Eu tive que fazer uma pausa para processar as palavras dela.

– Hum...

– Karen... eu me sentei atrás de você na aula de economia

durante todo o semestre. O professor Larson o chamava de desajustado

e dizia que você precisava começar a entender um pouco melhor como é

a realidade financeira de um aluno universitário. – Ela revirou os olhos

para mim. – É por isso que você arranjou um emprego?

– Não. – Era a mais pura verdade. Eu não tinha salário. Era

voluntário, mas não ia dizer isso a ela. Ela obviamente já tinha uma

opinião formada sobre a minha pessoa. – Bem... foi bom te ver, Karen.

– Até mais – ela murmurou.

Saí da loja rapidamente. Saltar para o presente não exigia o

mesmo nível de concentração, principalmente porque eu sempre tinha

que voltar ao presente antes de poder fazer outro salto no tempo. Adam

chamava o presente de minha “base principal”, como no beisebol. Ele é

mestre na arte de simplificar as coisas para que eu entenda. E as

analogias com o beisebol são as minhas favoritas. Com um pouco de

sorte, eu não voltaria do meu estado catatônico com um bando de

estranhos me encarando.

CAPÍTULO TRÊS

TERÇA-FEIRA, 4 DE AGOSTO DE 2009, 12:25.

Quando abri os olhos outra vez, Adam estava inclinado sobre

mim, me olhando.

– Jackson?

– Cara, você precisa de uma bala de menta – murmurei,

empurrando-o para o lado.

– Você ficou como um zumbi por 1,8 segundo. Eu estava quase

certo. Muito em breve terei dados suficientes para fazer cálculos exatos.

Você não sofreu nada desta vez, não é?

– Não.

Eu sabia muito bem por que ele estava perguntando. Na semana

anterior, saltei duas horas no tempo, perdi a concentração e, em vez de

aparecer dentro do meu apartamento, fui parar no meio da rua. Um

caminhão me acertou em cheio na perna. Quando voltei para a base

principal, senti uma pontada forte na coxa e depois a dor sumiu. Aquele

caminhão devia ter estraçalhado a minha perna, mas só um leve

hematoma apareceu, e nada mais.

Eu fiquei ali em pé, batendo a mão na parte de trás da calça para

tirar o pó.

– Aparentemente, fazíamos uma matéria juntos – expliquei para

Adam. – Mas acho que agora ela deve estar meio brava comigo, porque

não a reconheci. Quer dizer, no passado. Você sabe o que quero dizer.

Então, se a teoria estiver errada e eu de fato mudar alguma coisa, ela

não vai gostar muito de me ver novamente.

– Vamos descobrir. – Adam acenou para Holly. – Ei, Hol, já

estamos de volta.

Eu peguei Hunter, que estava saindo lentamente do gramado e

andando na direção de uma pilha de mochilas abandonadas, sem

dúvida em busca de algumas moedas escondidas nos bolsos.

– Vem cá, vem fazer compras conosco, tampinha.

Nós três atravessamos a porta da loja quando a balconista

despejava uma caixa de chaveiros num recipiente de plástico. Parei e

olhei para ela, me fazendo de desentendido.

– Você não está... na minha classe de economia? Os olhos dela

se iluminaram e ela sorriu um pouco.

– Estou... do professor Larson.

Ding, ding, dois pontos para Jackson Meyer. Ela não se lembrava

de que estava brava comigo. Justamente como eu disse. Nada mudou

em resultado do meu salto de trinta minutos ao passado.

– Karen, certo? – perguntei.

Ela levantou as sobrancelhas.

– E você é Jackson, que faz poesia francesa, certo?

Adam resmungou e me empurrou ao passar.

– Aqui não tem nada que eu quero. Vamos embora.

Ignorei Adam e coloquei Hunter sentado no balcão.

– Literatura inglesa também. Tenho duas básicas.

Embora minhas pequenas excursões ao passado não mudem

nada na minha base principal, elas me dão algumas vantagens, como

informações extras. Por isso, a meu ver, teoricamente, a viagem no

tempo na verdade causa, sim, mudanças.

Ela causa mudanças em mim.

Adam, Hunter e eu saímos da loja e paramos do lado de fora ao

dar de cara com Holly. Ela tinha um monte de lixo nas mãos e os jogava

num latão do lado de fora da loja. Eu peguei a mão dela e puxei-a para

baixo de uma árvore que nos manteria fora da visão de todos.

– Adam tem uma queda pela garota da loja. Eu estava tentando

ajudá-lo.

Holly riu e eu a empurrei com o dedo até que encostasse na

árvore.

– Hunter roubou alguma coisa? – ela murmurou, mas meus

lábios já cobriam os dela, impedindo que falasse claramente.

– Não que eu saiba. – Eu a beijei de novo e senti um pingo na

minha bochecha. Nós nos separamos e olhamos para cima, justamente

quando o céu pareceu se abrir e começou um temporal.

– Droga! Pensei que faria tempo bom o dia inteiro – reclamou

Holly. Saímos de debaixo da nossa árvore e corremos para o

gramado, onde Adam e os outros monitores já organizavam a fila de

crianças.

Alguns pequenos gritaram quando ouviram o estrondo alto de

um trovão através do zoológico.

– Estamos indo para o ônibus? – perguntei a Adam.

– Estamos – ele gritou de volta, tentando se fazer ouvir sobre o

barulho da tempestade repentina.

As crianças começaram a correr em ziguezague, protegendo a

cabeça com a mochila. Holly e Adam corriam na frente da fila e eu fiquei

por último para apressar os retardatários, enquanto trotávamos rumo à

saída.

Por sorte, o ônibus estava estacionado bem na frente da entrada.

A essa altura, minhas roupas e meu tênis já estavam completamente

encharcados. Justo quando eu ergui a última criança e a depositei nos

degraus do ônibus, vi uma garotinha de cabelo ruivo, de uns 10 ou 11

anos de idade, parada do lado de fora, sozinha. Ela estava de costas

para mim e tudo o que eu podia ver era o cabelo dela e a calça jeans,

sob a camiseta de mangas compridas. A água pingava da sua longa

trança.

Senti o coração martelando nos ouvidos enquanto as teorias

davam voltas na minha cabeça.

Não podia ser ela.

Mas e se fosse?

Andei na direção da garota e ouvi Holly gritar através da chuva:

– Jackson, aonde você vai?

– Aquela garota não está conosco – gritou Adam. – Anda. Vamos

nessa!

Meus passos ficaram mais longos e rápidos até eu finalmente

chegar onde ela estava. Bati no ombro dela e a garota se virou

instantaneamente. Os olhos se arregalaram por um segundo e depois

sua expressão se suavizou num sorriso. Se, por acaso, fosse ela, será

que me reconheceria?

A chuva golpeava o piso de asfalto e um raio iluminou o céu agora

escuro.

– Jackson! – gritou Holly outra vez.

Meu coração ficou apertado. Os olhos da garotinha eram azuis.

Não verdes. Foi um alívio e ao mesmo tempo uma grande decepção.

– Hã... desculpe. Pensei que fosse outra pessoa.

Virei as costas e corri de volta para o ônibus. Dúzias de

cabecinhas me observavam da janela. Galguei os degraus e sacudi as

gotas de chuva do cabelo. Todos os olhos tinham se transferido da

janela para mim, agora em pé no meio do corredor do ônibus. O olhar

de Holly se fixou em mim por um segundo, mas eu passei por ela e

deslizei para o assento ao lado de Adam. Senti uma pontada de

culpa quando Holly se sentou sozinha numa poltrona vazia, sem fazer

nenhuma pergunta. E eu sabia que ela queria fazer. Do jeito como todo

mundo estava me olhando, deveria ter sido uma cena e tanto.

– Por que você foi atrás daquela menina? – perguntou Adam.

Eu tive que desviar o olhar.

– Por nada... ela só se parecia com alguém. Alarme falso. Nada de

mais.

Adam chegou mais perto e falou outra vez, depois de um minuto

de silêncio.

– Ela se parecia com Courtney, não é?

Eu suspirei, mas por fim assenti com a cabeça.

– É idiotice, eu sei.

– Não é idiotice. Acontece com as pessoas o tempo todo. – Ele

sorveu uma golfada rápida de ar antes de sussurrar. – Ei... você não

acha que... hum... é uma teoria interessante, mas haveria muitos

problemas logísticos.

– Esqueça – eu disse, antes que ele começasse a me encher de

perguntas. – Por favor.

Não havia escapatória. Minha irmã gêmea estava morta. Já

tinham se passado quatro anos e aquilo ainda me assombrava. Ela

ainda me assombrava. Principalmente porque me fazia muita falta.

Quando estávamos enfileirados para sair do ônibus, Holly esperou

por mim e bloqueou a minha passagem.

– Tudo bem com você?

Eu a olhei nos olhos, cheios de preocupação, depois dei de

ombros.

– Tudo, por quê?

Sua expressão desmoronou um pouco e ela se virou de costas

para mim.

– Nada... deixa pra lá.

Tenho que admitir, eu me saio muito mal com essa coisa de ser

pessoal, de ter uma namorada. Holly nunca chegou e disse isso, mas eu

sabia o que ela pensava.

Tirei dos ombros dela a mochila encharcada e atirei-a sobre as

minhas costas.

– Então... você não quer dar uma passada em casa... talvez se

secar antes de irmos a algum lugar...

Ela saltou o último degrau e subiu na calçada antes de olhar para

mim e sorrir.

– Claro.

Envolvi com a mão seu rabo de cavalo loiro e espremi a água dos

seus cabelos.

– Acho que você vai precisar de um secador.

Ela colocou as mãos no meu rosto, os olhos azuis-claros ficando

sérios, como os de Adam alguns minutos antes.

– Tem certeza de que está bem? O que você estava fazendo...

– Só sou meio esquisito às vezes. Só isso. – Forcei um sorriso e

virei os ombros dela na direção das portas da ACM, para que

pudéssemos sair da chuva.

CAPÍTULO QUATRO

Sexta-feira, 29 de outubro de 2009, 18:00.

Esta noite, eu e meu parceiro vamos colocar em prática

um plano que estamos bolando faz um tempo: roubar os

registros médicos do consultório do dr. Melvin. Adam está

convencido de que podemos descobrir algo nesses registros

que explique por que eu sou uma aberração da natureza.

Mas, sério, será que ele acha que vai estar escrito do lado de

fora do meu arquivo: “Viajante no tempo Pirado”?

Passei os últimos dois dias observando os horários

confusos e extremamente inconstantes do dr. Melvin.

Basicamente, ele trabalha o tempo todo. Com exceção de

duas noites atrás. Este experimento envolve um salto de dois

dias no tempo (meu atual recorde) e algumas manobras

muito científicas e tortuosas.

Adam está voltando do MIT agora e está provavelmente

arrancando os cabelos, tentando pensar em todas as

fórmulas de antemão. Eu fiz a minha parte, tomando nota do

meu objetivo e agora só tenho que refazer meus planos com

Holly. As idas de Adam à minha casa têm sido tão de última

hora desde que as aulas começaram que eu vivo cancelando

meus encontros com Holly. Mas ela também vive ocupada

com suas aulas e uma espécie de grupo de dança.

Provavelmente vai ficar aliviada. Além disso, ainda posso

levá-la para jantar, só não vai dar para ir ao cinema...

Falando em jantar, putz! Já estou quinze minutos atrasado.

Continuo os registros mais tarde.

29 DE OUTUBRO DE 2009, 21:30.

Admito, talvez Holly não tenha encarado a mudança de planos tão

numa boa quanto pensei.

– Anda, Holly, abre a porta.

Duas garotas passaram de roupão de banho, dando risadinhas.

Eu me virei para Lydia.

– Ela não quer ver você – a garota zombou. – É justamente por

causa disso que não quero homem nenhum na minha vida. Faz quase

um mês que digo a Holly que ela precisa fazer o mesmo.

Tive que lutar contra o ímpeto de mandar a colega de quarto

eternamente furiosa de Holly calar a boca. Os braços dela estavam

abertos em frente à porta, bloqueando a minha passagem, como se eu

pudesse tentar derrubá-la ou coisa assim.

– Lydia, você não tem uma reunião do fã-clube da Sylvia Plath

pra ir?

Uma música começou a tocar do outro lado da porta.

– Você é tão engraçadinho, Jackson. Mas eu não vou te dar a

minha chave.

Bati a cabeça de leve na parede ao lado da porta.

– Por favor, me deixe entrar – gritei para Holly.

– Não desculpe o Jackson! Ele vive te enrolando! O tempo todo! –

Lydia gritou para ela.

Ok, acho que vou estrangular essa garota...

Uma porta se abriu de repente atrás de nós e eu me virei para ver

a garota de pé ali, com um livro volumoso nos braços.

– Jackson, eu sinto muito, mas tenho que estudar. E, Lydia, por

favor, cale essa boca. Ninguém está nem aí com as suas pregações

cheias de ira, incitando o ódio contra os homens.

A música que vinha do quarto de Holly ficou ainda mais alta. Eu

me virei para Lydia e gritei para que ela me ouvisse apesar do barulho:

– Eu te dou cem pratas se me emprestar a sua chave e

desaparecer esta noite.

Fiquei à espera do seu sermão sobre a violação das regras dos

dormitórios ou alguma outra merda sobre mulheres que desistem das

suas “chaves” metafóricas na vida.

Para minha surpresa, ela levantou as sobrancelhas escuras e

disse:

– Faço por duzentos.

Eu abri a carteira, tirei dali um cartão de crédito e o coloquei na

mão dela.

– Some daqui.

Ela jogou a chave no chão à minha frente e saiu andando pelo

corredor. Suspirei, aliviado.

– Obrigada! – a garota exclamou atrás de mim.

Peguei a chave do chão e segurei-a na posição, com a mão na

maçaneta.

– Hol, por favor, fale comigo.

A única resposta que tive foi o refrão de uma música da Pink.

Enfiei a chave na fechadura e abri a porta devagar, esperando ver Holly

em pé do outro lado do dormitório, esperando por mim. Ela podia

roubar a minha chave e me pôr para fora dali.

Um sapato vermelho voou através do cômodo e bateu na parede

acima da janela. Eu entrei e fechei a porta, antes de dar uma olhada no

quarto. Os pés de Holly estavam à mostra no vão da porta do armário,

junto com a barra do seu roupão de banho azul.

Eu não tinha certeza se ela tinha me ouvido entrar, mas,

pensando bem, o sapato atirado devia ser para mim. Não seria a

primeira vez que uma garota atirava um sapato em mim, mas partindo

de Holly isso me surpreendia um pouco.

Tive que me desviar de uma sandália marrom, quando atravessei

o quarto para desligar o aparelho de som. Tão logo a música parou, ela

desistiu de atirar coisas em mim, saiu do armário e ficou parada na

minha frente.

– Tenho boas notícias! – eu disse, tentando sorrir, embora não me

sentisse muito no clima. – Lydia concordou em fechar aquela matraca

cheia de ira pelo preço certo. Ela só vai voltar amanhã.

– Sério? Você pagou a minha colega de quarto pra passar a noite

fora? Não havia nem um pingo de divertimento no rosto dela. Um nó

se formou no meu estômago.

– Me diga qual é o problema. O que eu fiz? – Ao dizer isso eu tinha

admitido que sabia que ela não estava zangada só porque o cinema

tinha furado. Pouco inteligente da minha parte. Estendi a mão, mas ela

continuou de braços cruzados.

– Você está sempre escondendo as coisas de mim, correndo por

aí com o Adam, como duas crianças.

– Está com ciúme? Eu sei que você fez amizade com ele primeiro,

mas talvez a gente possa revezar os encontros. – Ruim. Muito ruim. Com

certeza, a coisa errada para se dizer. Eu me encolhi, esperando que ela

gritasse ou agarrasse outro sapato para atirar na minha direção.

Ela se virou de costas, andou até a escrivaninha e mexeu numa

pilha de papéis.

– Tudo bem. Você está certo. Isso não é grande coisa.

Não seria possível acrescentar mais uma gota de sarcasmo na sua

voz. E ele me atingiu como uma lufada de ar glacial. Corri os dedos

pelos cabelos e tentei pensar em alguma coisa decente para dizer. Ou

decidir se devia correr dali. Em vez disso, resolvi mudar de assunto.

– Você perdeu... alguma coisa? Estava vasculhando o armário.

– Perdi. Um dos meus cartões de memória. – Ela atirou um livro

sobre a escrivaninha com força, ainda de costas para mim. – Eu

realmente preciso estudar, ok?

Eu apanhei dois sapatos do chão e atirei-os de volta no armário.

– Bom... talvez eu possa ajudar...

– Não – ela disse rápido, antes de apertar o botão para ligar o

monitor do computador. Expirou o ar dos pulmões e seus ombros

relaxaram. – Sério, Jackson, vá embora para que eu possa fazer alguma

coisa. Por favor.

Já não havia sarcasmo em sua voz. Só um tom exausto e

levemente exasperado. Ela estava me deixando uma saída fácil para

escapar da briga, mas a curiosidade levou a melhor sobre mim e eu abri

a boca outra vez.

– Hol, por que está tão furiosa?

Ela balançou levemente a cabeça.

– Não estou... furiosa com você.

Eu soltei um suspiro de frustração.

– Então o que...?

O que quer de mim?, eu ia começar a dizer, porque realmente não

sabia. Mas as palavras ficaram presas na minha garganta quando vi

uma lágrima molhar a folha de papel em frente a ela. Dei dois passos na

direção dela e ela se virou para mim, me dando a chance de ver suas

lágrimas por um segundo antes de encostar a cabeça no meu peito e

esconder o rosto.

– Você nunca me diz nada... é... é como se você tivesse outra vida

e eu não pudesse fazer parte dela.

Ouvir sua voz trêmula com o choro me abalou mais do que eu

esperava. Eu devia ter corrido dali enquanto havia tempo. Mas passei os

braços em torno dela e apertei seus ombros.

– Não tive intenção de te deixar de lado. Eu... eu sinto muito.

Holly se esquivou do meu abraço e se deixou cair pesadamente na

cama, o cabelo loiro esparramado em volta dela. Ela grunhiu alto.

– Que droga! Detesto não conseguir ficar furiosa com você!

Eu soltei o ar que nem tinha reparado que estava prendendo e me

deitei ao lado dela, enterrando o rosto em seu pescoço.

– Achei que tinha ouvido você dizer que não estava furiosa

comigo. Ela cobriu os olhos com as mãos e pressionou-os.

– Eu estava. Não estou mais.

– Isso significa que vamos transar para fazer as pazes?

Ela abriu um sorriso, depois sua boca formou uma linha fina

outra vez.

Ela abriu um sorriso, depois sua boca formou uma linha fina

outra vez.

– Só se prometer não ter mais segredos... nunca mais.

Impossível. De jeito nenhum.

Ela se sentou na cama e eu passei a mão pelas costas dela.

– Você vai acabar concordando de qualquer jeito...

Ela se virou e ergueu as sobrancelhas.

– Experimente...

– Tudo bem, eu prometo.

– Mentiroso. – Ela riu e tirou a minha camiseta, atirando-a sobre

o abajur. – Lydia vai estar insuportável amanhã.

Eu a fiz se deitar novamente e afrouxei o nó do roupão.

– Ela pelo menos vai estar com duzentas pratas no bolso, então

não vai ter do que reclamar. E, me diga, quando é que ela não está

insuportável?

– Nunca. Mas obrigada por me dar uma noite livre de sermões

feministas.

Eu me curvei sobre ela e sussurrei:

– É a sua recompensa por fazermos as pazes.

Ela sacudiu os ombros para se livrar do roupão.

– Vou ganhar mais alguma coisa?

– Tipo um carro novo?

– Não.

– Uma barra daqueles chocolates caríssimos sem lactose?

Ela beijou a extensão do meu pescoço.

– Você sabe o que eu quero.

Eu gemi alto.

– Sem chance.

– Por favor...

– Você está me transformando numa completa aberração. Ou

pior –numa aberração sentimental. – Cometi o erro de virar a cabeça e

olhar para ela. Vestígios de lágrimas ainda eram visíveis em suas

bochechas e eu desmoronei. – Se você contar para alguém, vou chutar

esse seu lindo traseiro, entendeu?

Ela fez que fechava a boca com um zíper depois se aconchegou a

mim.

– Você acha que consegue imitar um sotaque britânico desta vez?

Eu ri e a beijei na testa.

– Vou tentar. – Adam e meus registros médicos poderiam esperar.

– Tudo bem. Vamos lá.

Revirei os olhos, depois soltei um longo suspiro.

– Era o melhor dos tempos, era o pior dos tempos. Era a idade da

sabedoria. Era a idade da insensatez...

Minha professora de inglês do nono ano sempre nos fazia recitar

Dickens de pé, na frente da classe. Eu odiava. Para Holly, eu não me

importava de recitar, mas nunca disse isso a ela.

– Você acha que ele fez a coisa certa? – Holly perguntou, depois

que recitei as primeiras páginas de Um Conto de Duas Cidades.

– Está falando de Sydney? Ir para a guilhotina para que a mulher

que ele amava pudesse ser feliz com outro homem?

Holly riu e seus lábios vibraram contra o meu peito.

– É.

– Não, acho que ele é um completo idiota. – Eu beijei o canto da

sua boca e ela sorriu para mim.

– Está mentindo.

Eu a puxei para mais perto e a beijei novamente, pondo um fim à

discussão que inevitavelmente me levaria a contar mais segredos do que

eu estava disposto a dividir com ela.

– Você não estava mirando aqueles sapatos em ninguém, estava?

– perguntei a ela, entre beijos.

Ela se inclinou sobre mim, seus cabelos formando uma cortina

dourada à nossa volta.

– Eu nem sabia que você tinha entrado.

– Tudo bem, melhor assim, porque o sapato vermelho tinha um

salto bem pontudo. Você podia ter acertado o olho de alguém com ele.

Ela riu alto e depois me beijou outra vez, antes de sussurrar na

minha orelha:

– Vou reservá-lo para os meus outros namorados.

Acordei cedo na manhã seguinte com o alarme do despertador de Holly

buzinando na minha orelha. Os cabelos loiros dela fazendo cócegas no

meu nariz e um tufo deles na minha boca. Ela bateu o pulso no botão

de soneca antes de murmurar:

– Liguei o alarme pra você não perder o laboratório às oito.

– Posso dar uma escapada hoje. – Tirei o cabelo dela do meu rosto

e beijei a parte de trás do seu pescoço. – Volte a dormir.

Ela passou o braço à minha volta e me apertou, depois

murmurou algo incoerente, mas que soou como:

– Me conte um segredo.

Esse era o jogo preferido de Holly. Eu geralmente respondia com

uma frase idiota, escolhida ao acaso, como “Tive uma paixonite pela

Hilary Duff”. Mas depois da briga da noite anterior, ela não merecia

aquilo.

Toquei com os lábios a orelha dela e sussurrei:

– Sou louco por você.

Eu praticamente pude ouvi-la sorrindo um pouco antes de nós

dois cairmos no sono outra vez.

Meus olhos se abriram duas horas depois. Desta vez por causa do

barulho de alguém batendo na porta. Estendi o braço para pegar meu

jeans e enfiei a camiseta pela cabeça antes de sacudir Holly.

– Acho que a Lydia está de volta.

Ela gemeu, pegou o roupão no chão e foi abrir a porta. Dois

homens a empurraram para abrir passagem e irromperam no quarto.

– O que...? – reclamou Holly, fechando com as mãos o roupão e

apertando o nó do cinto.

Um dos homens, o mais baixo, de cabelos ruivos, bateu a porta

para fechá-la.

– É ele – disse para o outro homem.

– O que está acontecendo? – perguntei.

O mais baixo olhou direto para mim.

– Você é o filho de Kevin Meyer?

Meu coração disparou. Algo tinha acontecido... Quando tinha

sido a última vez que vi meu pai...? Dois dias antes, eu me lembrava.

Ele estava fora do país desde então.

– Ele... está bem?

Holly respirou fundo e se aproximou de mim, apertando minha

mão. Eu podia adivinhar as teorias rodopiando na cabeça dela: o avião

da companhia bateu numa montanha em algum lugar, deixando o filho

único do presidente sem um único parente vivo. Uma gota de suor

escorreu pela minha nuca.

O mais alto dos dois enfiou a mão dentro da jaqueta e me

mostrou uma insígnia, rápido demais para que eu pudesse ler.

– Você precisa vir conosco.

Tiras... talvez do FBI? Repórteres investigativos? Ou talvez a

companhia farmacêutica do meu pai tivesse sendo acusada de lavagem

de dinheiro ou algum outro escândalo. Meu pai e seu conselho me

instruíram, em muitas ocasiões, sobre até que ponto os repórteres

podiam chegar para conseguir informações para uma boa história. E a

visão rápida da insígnia, sem que me deixassem ver de fato o que estava

escrito...

Balancei a cabeça.

– Não vou a lugar nenhum.

– Jackson, talvez você devesse...

Antes de voltar os olhos para o homem, levantei a mão pedindo

que ela ficasse calada.

– De que jornal vocês são?

Os dois homens se entreolharam e o mais alto deu de ombros

antes de responder com hesitação:

– Jornal?

Levantei o braço e apontei para a porta atrás de mim.

– Saiam. Vocês dois.

Holly se afastou lentamente do lugar onde estava, perto da porta,

e ficou atrás de mim, sem dar as costas para os intrusos.

Com o canto do olho, vi quando ela deu um passinho para trás,

na direção da penteadeira, e pegar alguma coisa. Um celular? Um spray

de pimenta?

– Você atualmente está envolvido com alguma agência do

governo? – o mais baixo perguntou. – Eles abordaram você com alguma

informação?

Os caras realmente estavam me deixando irritado. Eu passei os

olhos rapidamente pelo quarto, procurando algo que pudesse servir de

arma e lentamente estendi o braço na direção de uma luminária de

chão.

Antes que eu pudesse abrir a boca para falar alguma coisa, um

dos sapatos de Holly voou pelo quarto e atingiu o baixinho na lateral do

rosto. A cabeça dele se virou na direção dela. Pude ver a marca

vermelha deixada pelo salto acima do olho do sujeito. Senti o sangue

afluindo para o meu rosto e o coração martelando no peito. Como um

jogador de beisebol, peguei a luminária como se pegasse o bastão. A

cúpula de vidro bateu em cheio na cabeça do indivíduo, sobre a marca

do salto. O homem desabou para trás e seu corpo bateu com tudo

contra a porta. Um caco de vidro tinha feito um corte de bom tamanho

acima do olho esquerdo dele.

De joelhos, com os braços abertos, ele mergulhou para agarrar as

minhas pernas. Instantaneamente meus pés perderam o chão e eu caí

de cara no piso de ladrilho.

O outro homem passou por cima do nosso emaranhado de corpos

e avançou na direção de Holly. Ela deu um passo para trás com a mão

direita nas costas.

– É só cooperar e ninguém vai machucar vocês – o homem disse

a Holly enquanto avançava.

Antes que ele pudesse acabar a frase, ela tirou das costas a mão

direita. Seu punho fechado apareceu em meio a um certeiro jato de

spray de pimenta.

– Saia do meu quarto!

– Que droga é essa! – ele gritou, curvando-se e esfregando os

olhos. Holly desviou-se dele e correu para a porta.

O baixinho e eu lutávamos para ficar de pé. Enquanto ele estava

distraído com os gritos do parceiro, eu segui Holly para a porta.

Atrás de mim, ouvi alguém dizer:

– Parados! Não se mexam!

Eu me virei a tempo de ver o baixinho enfiando a mão dentro da

jaqueta com o zíper meio aberto. Sua mão apareceu segurando uma

pistola semiautomática. Ele apontou direto para a minha cabeça,

mirando com um olho só, a visão obscurecida pelo sangue que escorria

do corte.

Segurei a respiração, sabendo que estava encrencado. Vencido. As

mãos de Holly congelaram na maçaneta, as costas pressionadas contra

a porta.

O cara alto levantou a mão e manteve a outra sobre os olhos.

– Não... ainda não. Só se ele saltar.

Saltar para onde? Agora meu coração estava prestes a sair pela

boca. Seria possível que eles soubessem sobre... o salto no tempo?

Dei um passo largo para trás, mas a luminária caída no chão

ficou no meio do caminho e prendeu meu calcanhar. Mais uma vez,

perdi o equilíbrio. Um som de tiro atingiu meus ouvidos, seguido por

um grito de Holly. Então tudo pareceu parar – meu coração, minha

respiração... o tempo.

Holly caiu no chão e eu quis gritar, me atirar ao lado dela, mas no

segundo em que o sangue vermelho começou a aparecer através do

tecido do roupão, saltei no tempo. Desta vez parecia que eu não estava

no controle. Mas um pouco antes de tudo escurecer, eu vi. O peito

dela subiu e depois desceu novamente. Ela estava viva e eu tinha

acabado de deixá-la ali sozinha.

CAPÍTULO CINCO

Cuspi da boca um punhado de algo parecido com grama e percebi

que estava deitado de bruços num gramado. Em algum lugar. Em

algum tempo. Meu coração martelava. Nem parecia que tinha sido um

salto no tempo.

O sol aquecia a minha nuca. Eu não devia estar sentindo com

tanta intensidade o calor. Esse salto era diferente de um salto normal.

Alguma coisa estava diferente.

Devia ser um sonho... ou talvez eu tivesse batido a cabeça. Quem

sabe nem tivesse brigado ainda com Holly? Talvez nada daquilo tivesse

acontecido. Senti o estômago embrulhar só de pensar na imagem

repugnante da minha namorada desmoronando no chão.

Eu me levantei da grama e tropecei em algo que me fez cair de

cara no chão outra vez. Senti o impacto doloroso do meu corpo

colidindo com o solo. Com base no quanto aquilo doeu, concluí que com

certeza eu estava na minha base principal. Minha mochila preta estava

caída aos meus pés. Ela devia ter sido arrastada comigo.

Depois de forçar os olhos a recuperar o foco, percebi que estava

no Central Park. Bem perto do meu prédio. Minhas pernas pesavam

como chumbo quando me aproximei da calçada. Tirei o celular do bolso

e o inclinei para poder ver as horas. A tela estava em branco. Depois de

batê-lo na coxa algumas vezes, desisti e perguntei as horas para uma

mulher que passava:

– Você sabe que horas são?

– Já passa um pouco das seis – ela respondeu, enquanto fazia

sua corrida.

A dor no meu corpo todo era tão intensa que tive de parar e me

sentar num banco.

– Você está bem? – perguntou um senhor idoso ao meu lado.

– Estou, obrigado – respondi, jogando a cabeça para trás. Só

precisava descansar um minuto. Um pouco antes de fechar os olhos, o

jornal do velho entrou no meu foco de visão e me sobressaltei ao ler a

data.

9 de setembro de 2007.

Mas que piração é essa?

– Este jornal é... hã... de hoje? – perguntei.

– É, sim – disse o homem, antes de voltar a assobiar,

descontraído.

Não. Não podia ser. Devia ser apenas um maluco qualquer lendo

um jornal de dois anos atrás. Fiquei mais alguns segundos olhando

para o jornal. Um grande pingo de chuva caiu sobre a data, no alto da

página. Nós dois olhamos para o céu e vimos nuvens escuras se

acumulando. O homem dobrou o jornal e se levantou.

– Aqui não dizia que ia chover hoje – ele comentou, se afastando.

Tudo bem, até agora tudo o que eu tinha era um jornal dizendo

que eu estava exatamente dois anos no passado. Bem... pelo menos

para mim era passado.

Corri para a calçada enquanto a chuva engrossava. Localizei um

policial embaixo de uma árvore e corri até ele, sem me importar em ficar

encharcado.

– Com licença, seu guarda. Sabe que dia é hoje?

– Dia nove – ele murmurou, sem nem me olhar nos olhos.

– De setembro?

Ele soltou uma risada anasalada.

– Isso mesmo.

– De 2009, certo?

Ele revirou os olhos e me empurrou.

– Esses moleques... 2009?!

O pânico que causaram as palavras dele parecia cafeína injetada

nas minhas veias. Eu usei a barra da camiseta para secar os olhos dos

pingos de chuva e buscar uma terceira fonte.

Henry, um dos porteiros do meu prédio, seria perfeito, mas e se

houvesse um outro eu andando por ali, em algum lugar? Eu não podia

arriscar. Segui na direção oposta ao meu prédio, rumo à cafeteria.

As gotas de chuva eram frias como gelo e eu batia os dentes

quando abri a porta da Starbucks. A garota atrás do balcão se

endireitou e sorriu.

– Não vejo você faz um tempo.

Dei uma olhada nas mesas à procura de um jornal abandonado.

– Hã... é verdade. Estava ocupado. Sabe, estudando.

Ela riu e eu me virei para olhar para ela. A garota parecia

levemente familiar, mas podia ser só o uniforme.

– Ah, qual é, você passou o verão todo na Europa...

Passei?

– Bem, foi só uma semana na Alemanha.

Ela começou a atender a um pedido, embora eu não soubesse de

quem era. Não havia mais ninguém na fila.

– E o resto do verão?

– Andei trabalhando um bocado – eu disse em meio ao barulho da

máquina que batia o leite.

– Trabalhando? – Ela balançou a cabeça e então parou um pouco

de bater o leite. – Espera aí, você não disse que ia ficar na Espanha até

dezembro?

– Hã... mudança de planos e...

– Então por que não vi você na aula semana passada? Eles

deram seu armário pra algum calouro. – Ela deslizou uma xícara na

minha direção.

Eu não conseguia mover um músculo. Só fiquei ali parado,

olhando a xícara sobre a superfície de mármore preto, enquanto tentava

juntar as peças. Armários, que significava... ensino médio. Europa...

que significava último ano... primeiro semestre na Espanha, último ano.

Último ano... significava 2007.

– Que loucura é essa? – murmurei para mim mesmo.

Antes eu não conseguia dar nem um salto de três dias e agora

estava ali, numa data dois anos recuada no tempo? Gotas de suor

começaram a se formar na minha testa. E eu de fato me lembrava

daquela garota. Ela era uma das poucas bolsistas da Loyola Academy.

Loyola Academy significava... meu colégio. Onde eu me formei.

Em 2008.

O que, aparentemente, não tinha acontecido ainda.

– Jackson? Você está bem? – a garota perguntou.

Ela sabia meu nome. Conhecia meu rosto. Eu costumava ir à

cafeteria todos os dias – no colegial – e pagar com cartão de crédito.

Com o meu nome nele. Então, sim. Fazia todo sentido. Todo o resto não

fazia. Ou fazia, mas não deveria fazer. Meu eu de 19 anos não deveria

estar no ano do meu eu de 17.

Tive que me inclinar para a frente para não desmaiar. Como é que

eu tinha ido parar ali?

– Desculpe, tenho que ir... só passei para dar um alô.

Irrompi pela porta e me encostei nela para recuperar o fôlego.

Então 2009 ainda nem tinha acontecido? Nunca, em todos os meus

experimentos com viagens no tempo eu tinha me sentido tão

desnorteado. Na verdade, esse salto no tempo, esse momento, parecia

tão real como o que eu tinha deixado. Começando pelas dores, as gotas

de chuva frias, o peso nas pernas, meu coração martelando.

Se eu ao menos conseguisse voltar, será que conseguiria consertar

tudo? As imagens pipocavam na minha mente – Holly em pânico, Holly

sangrando e caindo no chão... Holly ainda respirando.

Mas por quanto tempo? E era culpa minha. Tudo culpa minha.

Apertei os olhos e me forcei a reprimir as lágrimas. A única coisa que eu

podia fazer para não entrar em pânico era tentar voltar.

Voltar para 30 de outubro de 2009. Que era oficialmente o pior

ano da minha vida. Com as costas pressionadas contra a porta e a

chuva golpeando meu rosto, fechei os olhos e me obriguei a pensar em