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Teoría queer por Leandro Colling - Versão HTML

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TEORIA QUEER (Leandro Colling)

A teoria queer começou a ser desenvolvida a partir do final dos anos 80 por uma série de pesquisadores e ativistas bastante diversificados, especialmente nos Estados Unidos. Um dos primeiros problemas é como traduzir o termo queer para a Língua Portuguesa. “Queer pode ser traduzido por estranho, talvez ridículo, excêntrico, raro, extraordinário”, diz Louro (2004, p. 38). A idéia dos teóricos foi a de positivar esta conhecida forma pejorativa de insultar os homossexuais. Segundo Butler, apontada como uma das precursoras de teoria queer, o termo tem operado uma prática lingüística com o propósito de degradar os sujeitos aos quais se refere. “Queer adquire todo o seu poder precisamente através da invocação reiterada que o relaciona com acusações, patologias e insultos” (Butler, 2002, p. 58). Por isso, a proposta é dar um novo significado ao termo, passando a entender queer como uma prática de vida que se coloca contra as normas socialmente aceitas.

Neste sentido, um dos maiores esforços reside na crítica ao que se convencionou chamar de heteronormatividade homofóbica, defendida por aqueles que vêem o modelo heterossexual como o único correto e saudável. Por isso, os primeiros trabalhos dos teóricos queer apontam que este modelo foi construído para normatizar as relações sexuais. Assim, os pesquisadores e ativistas pretendem desconstruir o argumento de que sexualidade segue um curso natural. “Os estudos queer atacam uma repronarratividade e uma reproideologia, bases de uma heteronormatividade homofóbica, ao naturalizar a associação entre heterossexualidade e reprodução” (Lopes, 2002, p. 24).

O maior esforço de Butler, por exemplo, dentro dos estudos queer, foi o desenvolvimento do que ela nomeou de teoria da performatividade. “O gênero é performativo porque é resultante de um regime que regula as diferenças de gênero.

Neste regime os gêneros se dividem e se hierarquizam de forma coercitiva” (Butler, 2002, p. 64). De uma forma resumida e incompleta, podemos dizer que a teoria da performatividade tenta entender como a repetição das normas, muitas vezes feita de forma ritualizada, cria sujeitos que são o resultado destas repetições. Assim, quem ousa se comportar fora destas normas que, quase sempre, encarnam determinados ideais de masculinidade e feminilidade ligados com uma união heterossexual, acaba sofrendo sérias conseqüências.

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Apesar de unidos em uma série de aspectos, movimentos gays e teóricos queer

nem sempre pensam da mesma maneira. Uma das tensões é a estratégia, adotada por muitos ativistas, de tentar demonstrar que os homossexuais são iguais aos heterossexuais, ou seja, de que todos são “normais”. Para Gamson, a política queer adota uma postura de não assimilação e se opõe aos objetivos inclusivos do movimento por direitos humanos gays dominante. “A política queer (...) adota a etiqueta da perversidade e faz uso da mesma para destacar a ‘norma’ daquilo que é ‘normal’, seja heterossexual ou homossexual. Queer não é tanto se rebelar contra a condição marginal, mas desfrutá-la” (Gamson, 2002, p. 151).

De alguma forma, esta tensão entre política queer e movimento gay fica visível na forma como os ativistas gays reagem a determinados personagens homossexuais nas telenovelas brasileiras. Em várias ocasiões, por exemplo, o Grupo Gay da Bahia (GGB) ameaçou processar os autores e a própria emissora em função da existência de personagens homossexuais afeminados e/ou caricatos. Em outras ocasiões, teceu elogios quando os personagens “pareciam normais”, sem afetações.

Entre os estudos queer, outro conceito importante é o de camp. Em seu clássico ensaio, Sontag oferece várias definições para esta expressão que ela considera

“esotérica”. Para ela, falar de camp é falar de sensibilidade, o que é “uma das coisas mais difíceis” de serem realizadas. “Na realidade, a essência do camp é a sua predileção pelo inatural: pelo artifício e pelo exagero” (SONTAG, 1987, p. 318). A androgenia é considerada por Sontag como uma das grandes imagens da sensibilidade. “Camp é também uma qualidade que pode ser encontrada nos objetos e no comportamento das pessoas. Há filmes, roupas, móveis, canções populares, romances, pessoas, edifícios campy... Essa distinção é importante. É verdade que o gosto camp tem o poder de transformar a experiência. Mas nem tudo pode ser visto como camp. Nem tudo está nos olhos de quem vê” (Sontag, 1987, p. 320).

Lopes diz que, como comportamento, “o camp pode ser comparado com a fechação, a atitude exagerada de certos homossexuais, ou simplesmente à afetação. Já como questão estética, o camp estaria mais na esfera do brega assumido, sem culpas”

(2002, p. 95).

Um cuidado conceitual a tomar é o de não associar diretamente o gay ao queer ou ao camp. “Ser gay é ter uma simples identidade; ser queer é entrar e celebrar o

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espaço lúdico de uma indeterminação textual” (Morton, 2002, p. 121). Apesar do rigor conceitual, a teoria queer pretende mais é provocar o estranhamento nas próprias formas de pensar, inclusive as acadêmicas e, talvez por isso, este texto seja muito pouco ou nada queer. Como diz Ed Coheh (apud Morton, 2002, p. 118), o slogan dos teóricos queer deveria ser: “fodemos com categorias”.

Referências Bibliográficas:

BUTLER, Judith. Críticamente subversiva. In: JIMÉNEZ, Rafael M. Mérida.

Sexualidades transgresoras. Una antología de estudios queer. Barcelona: Icária editorial, 2002, p. 55 a 81.

GAMSON, Joshua. Deben autodestruirse los movimientos identitarios? Un extraño dilema. In: JIMÉNEZ, Rafael M. Mérida. Sexualidades transgresoras. Una antología de estudios queer. Barcelona: Icária editorial, 2002, p. 141 a 172.

LOPES, Denílson. O homem que amava rapazes e outros ensaios. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2002.

LOURO, Guacira Lopes. O corpo estranho. Ensaios sobre sexualidade e teoria queer.

Belo Horizonte: Autêntica, 2004.

MORTON, Donald. El nacimiento de lo ciberqueer. In: JIMÉNEZ, Rafael M. Mérida.

Sexualidades transgresoras. Una antología de estudios queer. Barcelona: Icária editorial, 2002, p. 111 a 140.

SONTAG, Susan. Notas sobre o Camp. In: Contra a interpretação. Porto Alegre: LPM, 1987, p. 318 a 337.

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