Teorias da Comunicação por José Manuel Santos, João Carlos Correia - Versão HTML

ATENÇÃO: Esta é apenas uma visualização em HTML e alguns elementos como links e números de página podem estar incorretos.
Faça o download do livro em PDF, ePub, Kindle para obter uma versão completa.

index-1_1.jpg

JOSÉ MANUEL SANTOS

JOÃO CARLOS CORREIA (ORGS.)

TEORIAS DA

COMUNICAÇÃO

UNIVERSIDADE DA BEIRA INTERIOR

Série - Estudos em Comunicação

Direcção: António Fidalgo

Design da Capa: Jorge Bacelar

Edição e Execução Gráfica: Serviços Gráficos da Universidade da Beira Interior

Tiragem: 300 exemplares

Covilhã, 2004

Depósito Legal Nº 209922/04

ISBN – 972-8790-19-8

ÍNDICE

Prefácio, José Manuel Santos e João Carlos Correia .... 7

Os Quadros da Incerteza (Uma abordagem aos conceitos de informação e de redundância), António Fidalgo ..... 15

Elementos para uma Teoria da Comunicação: os contributos de Schutz e Luhmann para a “construção social da realidade”, João Carlos Correia ......................................................... 29

Condições de uma Teoria Comunicacional da Referência, Edmundo Balsemão Pires ................................................ 53

Notas sobre la información como “forma cultural”, Gonzalo Abril Curto ........................................................................ 79

A Comunicação e a Estranheza do Mundo, José Manuel Santos ............................................................................... 105

Pragmática e Comunicação, Adriano Duarte Rodrigues .. 131

Logos, comunicação e racionalidade no pós-iluminismo de Apel, Anabela Gradim ................................................... 147

Proximidade e Comunicação, Paulo Serra .................. 163

A monstruosidade das marcas: da massificação à absoluta singularidade, Eduardo J. M. Camilo .......................... 181

Cepticismo, Quotidiano e Comunicação - Apontamentos sobre Stanley Cavell, Rui Bertrand Romão ........................... 203

Novos media, experiência e identidade, Gil Baptista Ferreira ............................................................................ 211

Significado, Verdade e Comunicação, João Sàágua ... 253

Inquietação, Interrupção e Incerteza, Maria Lucília Marcos ............................................................................. 281

PREFÁCIO

O presente volume da colecção Estudos de Comunicação reúne textos que têm origem nas comunicações proferidas numas jornadas, realizadas na Universidade da Beira Interior, em Março de 2003, consagradas ao tema Teorias da Comunicação. Os organizadores, dessas jornadas, e da presente colectânea, estavam conscientes, à partida, do duplo risco a que se sujeitavam com a realização de tal empresa

– o risco do eclectismo e da monumentalidade. Não será a “comunicação” um fenómeno abordado por “teorias” de tal maneira díspares e diversas que a reunião de análises provenientes de tão diferentes perspectivas acabe por não ser mais do que uma ecléctica manta de retalhos que apenas servirá, quanto muito, para fazer um balanço puramente somatório, mais ou menos exaustivo ou monumental, das abordagens teóricas em voga?

Os organizadores acharam que, mesmo se a resposta a esta pergunta fosse afirmativa, o seu trabalho e o dos autores teria, pelo menos, a utilidade de dar a ver, quanto mais não fosse numa perspectiva necessariamente não exaustiva, embora significativa, o state of the art dos estudos sobre esta temática em Portugal. Acontece, porém, que, uma vez realizadas as jornadas e analisados os textos, obviamente mais elaborados do que as comunicações orais, que os autores produziram para a presente colectânea, os organizadores aperceberam-se que a questão acima formulada, que, reco-nhecidamente, os afligia, até podia ter uma resposta negativa e, portanto, feliz. Coisa que viria reforçar ainda mais a utilidade da sua empresa. Com efeito, verificou-se que os estudos aqui reunidos, apesar de terem sido feitos no âmbito de diferentes “disciplinas”, e, dentro destas, amiúde a partir de ângulos de análise heterogéneos, apresentam como denominador comum os temas da “improbabilidade” da 7

comunicação – ou de uma correlativa “incerteza” da informação – e da “estranheza” que motiva o comunicar.

Tudo se passa como se a” incerteza fosse a condição de possibilidade objectiva da comunicação e a estranheza o motivo que leva os sujeitos a comunicar, a multiplicar os actos de comunicação. Improbabilidade e estranheza seriam duas faces da mesma moeda, duas perspectivas simétricas do mesmo processo.

Partindo desta unidade dual torna-se possível admitir complementaridades entre disciplinas e modos de abordagem que, à primeira vista, se apresentam como simplesmente heterogéneos. Assim, pode-se dizer que as abordagens feitas a partir das perspectivas da fenomenologia, da análise social dos media de massa, da teoria da cultura, ou mesmo de uma filosofia como a de Stanley Cavell, inspirada numa forma moderna de cepticismo, têm por objecto figuras da estranheza vividas pelo sujeito moderno, as quais afectam em profundidade o processo de comunicação. Esta estranheza tanto pode ter origem na alteridade do outro e ser uma condição da comunicação com ele, como no caso da filosofia fenomenológica de Levinas, estudada por Jo-aquim P. Serra e Maria Lucília Marcos, como afectar mais ou menos profundamente o “mundo da vida”, como nos casos de Husserl e Merleau-Ponty – assim como no de um Niklas Luhmann que, num curioso e até certo ponto atípico artigo, se debruça sobre a estranheza do mundo e as maneiras encontradas pelas culturas para lhe fazer face – focados por José Manuel Santos, e ser uma condição da própria experiência desse mundo. O acento mais trágico surgirá quando, no ponto mais extremo deste movimento de adensamento da estranheza, o sujeito tardo-moderno é levado a formular a antiga questão ética de Platão, “como viver?”, sob a forma:

“como viver num mundo sem fundamento”, como escreve Cavell, citado por Rui B. Romão no seu artigo. É para exconjurar esta estranheza que a comunicação dos media 8

de massa não se limita a “informar sobre el entorno” , sobre o que nos rodeia, mas a “informar el entorno”, como escreve Gonzalo Abril, ou seja, como se poderia traduzir: “dar forma”

ao próprio mundo da vida. O teórico da cultura da modernidade tardia não poderia deixar de notar que isto significa igualmente “mediatizar” (Hannah Arendt diria “con-sumir” ou canibalizar) os modos de comunicação tradicionais “como a narrativa ou o debate dialógico” (Abril).

João Carlos Correia, por seu turno, analisa, a partir da fenomenologia social de Alfred Schutz, as consequências da estranheza para o mundo da vida quotidiana. Tal estranheza não se traduz numa simples incomunicabilidade, mas antes no reconhecimento de um espaço público fragmentado, cujo verdadeiro sentido e autêntico dinamismo não passam pela enfatização de universos de consensualidade ideal, mas antes de compreensão radical dos diferendos.

Surge, assim, a consciência simultânea da necessidade da comunicação e dos seus limites.

Num estudo de caso de comunicação publicitária, o recurso à monstruosidade na estratégia da imagem de certas marcas, também Eduardo Camilo nos mostra a importância da estranheza neste tipo de comunicação de massa.

Do lado oposto às teorias que abordam a comunicação pelo lado da experiência dos sujeitos, temos as que a tematizam pelo da objectividade dos processos

comunicacionais. Nesta última perspectiva, longe do pathos da estranheza do outro ou do mundo, os problemas que se colocam dizem respeito à certeza ou incerteza do saber obtido através da comunicação e à contingência do próprio processo comunicacional. Talvez as duas maneiras de enfrentar a questão não sejam tão estranhas entre si como possa parecer à primeira vista – no fundo, o aumento de incerteza não deixará de contribuir para um aumento da estranheza. No entanto, antes de chegar a esta questão de cúpula – questão, sem dúvida, filosófica que deixará de mármore os cientistas 9

rigorosos – é legítimo, e mesmo necessário, prestar a devida atenção às abordagens objectivantes. Nesta perspectiva o problema pode ser atacado em duas direcções. Num dos extremos encontramos as teorias que tentam delimitar–– a acentuar ao máximo – as necessidades ou “regularidades”

do processo de comunicação (Adriano Duarte Rodrigues e João Sàágua); no extremo oposto, aquelas que levam muito a sério a contingência do comunicar, de cada acontecimento de comunicação e de cada momento desse acontecimento (Edmundo Balsemão Pires). Entre os extremos há as que tentam equilibrar a certeza e a incerteza, fazendo de ambas condições de possibilidade da comunicação (António Fidalgo).

As teorias do primeiro género procedem por reduções sucessivas da incerteza num processo que avança em cír-culos concêntricos, no centro dos quais se situará a ilha das regularidades indesmentíveis e das certezas absolutas, aquele “mínimo de lógica”, como escreve João Sàágua, sem o qual os comunicantes não poderiam provavelmente sobreviver, ou, pelo menos, comunicar. O caso mais paradigmático de uma teoria deste género é a Semântica das Condições de Verdade, uma “teoria geral do significado”, exposta no artigo de João Sàágua. A teoria defendida por este autor começa por efectuar uma primeira grande redução do objecto ao limitar o seu campo de aplicação ao “fenómeno natural” da “comunicação verbal”, excluindo, assim, logo à partida qualquer outra forma de comunicação.

Implicitamente são excluídas da teoria todas as operações e formações de sentido extra-linguísticas. Mas mesmo dentro dos limites da comunicação verbal são impostas reduções ou, pelo menos, grandes limitações ao objecto. Assim, como o seu nome indica, a teoria em causa limita-se ao “significado” das frases, ou seja, à “especificação das condições de verdade”. Remetendo o “sentido” para algo de muito mais lato, para “o conjunto de todos os processos envol-10

vidos na elocução [da frase] numa situação concreta de comunicação verbal”. Determinar os porquês do “sentido”

implicaria, assim, como explica Sàágua, não apenas responder à questão “o que é que o locutor disse?”, mas igualmente às duas questões: “porque é que o locutor escolheu determinadas expressões e não outras?” e “porque é que o locutor disse o que disse?”. A Semântica de João Sàágua apenas pretende responder à primeira destas questões. “Que isso é insuficiente”, escreve este autor, “foi argumentado desde Platão [...] mas reivindico que deve ser aceite pela teoria”. Tal é o preço a pagar pela exclusão dessa ilha das certezas que é a da Semântica das Condições de Verdade da contingência e da complexidade do mundo.

Já a pragmática exposta a traços largos por Adriano Duarte Rodrigues no seu ensaio não se confina à primeira destas três questões formuladas por Sàágua. A pragmática não se limita a especificar as condições de verdade do dito; ela tem por ambição captar a dinâmica intencional do dizer que os teóricos desta escola atribuem ao momento “ilocutório”

que está no âmago de cada acto de fala. A “verdade” em causa na comunicação deixa, assim, de estar apenas dependente das rígidas “condições” impostas pela “semântica” para se integrar, como escreve Adriano Rodrigues, numa “concepção processual ou retórica de verdade”, inaugurada pelo pragmatismo. Esta concepção “dinâmica” da verdade já coloca a teoria em medida de responder, pelo menos, à segunda questão formulada por Sàágua, “porque é que o locutor escolheu determinadas expressões e não outras?”.

Resta saber se ela também responde exaustivamente à terceira questão – “porque é que o locutor disse o que disse?”. Tudo leva a crer que é ao nível desta questão que uma teoria da comunicação terá de absorver mais contingência ou incerteza. Adriano Duarte Rodrigues não afirma

taxativamente que a pragmática responde exaustivamente à terceira questão, mas pensa que ela constitui a base indis-11

pensável de uma série de estudos – cujos objectos vão desde a “natureza ritual dos processos de interacção verbal” à

“natureza dramatúrgica das interacções”, passando pelas

“dimensões das formas de cortesia”– que tenderiam a balizar o mundo das acções humanas por uma densa rede de

“regularidades”. Além disso, o “horizonte da interacção comunicacional” teria “quadros constituídos por pressupostos ontológicos, axiológicos e normativos.” Todos estes dispositivos manteriam a contingência e a incerteza a um nível suportável pela “racionalidade” processual e dinâmica dos modernos.

Já o texto de Anabela Gradim, embora debruçando-se sobre a pragmática transcendental de Karl-Otto Apel, manifesta o seu cepticismo quanto à possibilidade de manter os níveis de contingência ou incerteza a um nível suportável por uma tal racionalidade. A pragmática de Apel surge relacionada com a tentativa de resgate do programa das Luzes, fundada na ilusão de uma total auto-transparência e absoluta comunicabilidade. Esta autora não põe em dúvida o esforço de Apel em reabilitar a razão, na medida em que um tal esforço tem o mérito de constituir uma resposta ao desafio dos pós-modernos; todavia ela considera os objectivos de Apel dificilmente alcançáveis, mesmo no plano dos preceitos ideais e regulativos.

Com o ensaio de António Fidalgo, que tenta fazer a junção entre as teorias matemáticas da comunicação e a nova retórica, o grau de flexibilidade exigido à racionalidade moderna parece ser ainda maior do que na pragmática de Adriano Rodrigues. Além disso, convém acrescentar que no texto de Fidalgo o mal, se assim se pode dizer, ou seja a “incerteza”, é encarado de face, e nomeado logo no título.

Em relação a Sàágua e a Rodrigues encontramos aqui uma inversão de estratégia: não se faz face à incerteza através da fortificação de uma ilha, de um centro ou de um solo (“pressupostos ontológicos e axiológicos”) e avançando para 12

a periferia, mas, ao contrário, tentando “enquadrar” a incerteza num “quadro de certeza”. A tese do autor começa por ser (no início do seu ensaio) que “a incerteza informativa e probabilística tem como condição a certeza “substantiva enquanto quadro da incerteza”. Acontece, porém, que, no fim do seu texto, este autor chega a uma conclusão em que a certeza que enquadra a incerteza não é assim tão

“substantiva” como foi anunciado na tese inicial: “o quadro de certeza que demarca as possíveis incertezas é ele mesmo passível de alterações, modificações e reenquadramento”.

O equilíbrio inicial entre certeza e incerteza parece ameaçado. Que a incerteza possa absorver qualquer certeza é uma convicção “objectiva” que não deixará de ter consequências do lado da experiência dos sujeitos, e de conferir uma certa coloração à experiência do mundo.

Como quer que seja, da conclusão a que chega António Fidalgo, ou seja a mutação para incerteza da “certeza” que constituía o “quadro da incerteza”, o facto de a incerteza ser enquadrada, no fundo, por outra incerteza, ainda podem ser retiradas consequências objectivantes. Uma tal conclusão pode, talvez, ser tomada como ponto de partida intuitivo de uma teoria que enfrenta a “contingência do mundo” em toda a sua nudez. É isso que acontece no construtivismo radical da teoria dos sistemas de Niklas Luhmann. No seu ensaio, Edmundo Balsemão Pires tenta mostrar como é que a comunicação, em Luhmann, deixa de poder ser encarada a partir da solidez das simples condições referenciais da verdade semântica, de uma generalização ingénua das teorias matemáticas do emissor e do receptor ou da orientação do sujeito por “pressupostos ontológicos ou axiológicos” para ser encarada como um simples “mecanismo de controlo relativamente à confluência das três séries da consciência, da linguagem e da realidade”. Isto significa tentar compreender como é que na intersecção destas três “séries” de acontecimentos, relativamente autónomas e fechadas, se 13

constituem não tanto quadros mas condições de possibilidade, sempre provisórias, de actos de comunicação que podem acontecer ou não acontecer.

A terminar, gostaríamos de assinalar a competência e empenho do Dr. Fernando Nuno Machado, bolseiro do Instituto de Filosofia Prática (Universidade da Beira Interior) pelo seu precioso auxílio na revisão das provas. Cabe, aqui, uma última palavra de agradecimento dirigida à Secretária da Faculdade de Artes e Letras, Dra. Mércia Cabral Pires, assim como à Secretária do Departamento de Comunicação e Artes, D. Sandra Mota, pelo seu precioso apoio na organização das Jornadas que estão na origem deste volume.

José Manuel Santos

João Carlos Correia

14