Territorialização e tradicionalização: refletindo sobre a construção da identidade faxinalense no... por Marcelo Barreto - Versão HTML

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0

Universidade de São Paulo

Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas

Departamento de Geografia

Programa de Pós-graduação em Geografia Humana

Marcelo Barreto

Territorialização e Tradicionalização: refletindo sobre a construção

da identidade faxinalense no Paraná

(Versão Corrigida)

São Paulo

Julho de 2013

1

Universidade de São Paulo

Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas

Departamento de Geografia

Programa de Pós-graduação em Geografia Humana

Territorialização e Tradicionalização: refletindo sobre a construção

da identidade faxinalense no Paraná

(Versão Corrigida)

Marcelo Barreto

Tese apresentada ao Departamento de

Geografia da Faculdade de Filosofia,

Letras

e

Ciências

Humanas

da

Universidade de São Paulo, para

obtenção do título de Doutor em

Geografia Humana.

Orientadora: Profa. Dra. Marta Inez Medeiros Marques

São Paulo

Julho de 2013

2

Aos camponeses faxinalenses, que lutam pela permanência na terra e pela

reprodução do seu modo de vida.

Aos meus pais Wilson e Telma, que sempre me apoiaram nas minhas

escolhas.

À querida Andrea, que vive comigo as aflições e as conquistas da vida.

Aos meus irmãos, cunhadas e sobrinhos, que são a minha família.

3

AGRADECIMENTOS

Agradeço a todos que me ajudaram, em diferentes momentos, na

trajetória da pesquisa. Em especial,

À professora Marta Inez Medeiros Marques, pela orientação desafiadora e

por me indicar caminhos e possibilidades até então não vislumbrados.

Aos faxinalenses do Salso – em especial ao Carlito, que me recebeu nos

trabalhos de campo e que foi um grande interlocutor das questões

referentes ao Salso, me expondo com muita precisão os conflitos e as

conquistas dos faxinalenses.

Ao Hamiton José da Silva, Ismael Kloster, Amantino Sebastião de Beija e

demais lideranças da APF por terem me recebido em suas casas e em

seus espaços de debates.

À Margit Hauer e ao Dyego Medeiros, ambos do IAP, pela atenção dada e

pelo fornecimento do material sobre as ARESURs e o ICMS Ecológico - um

“muito obrigado”!

Às professoras Valéria De Marcos e Larissa Mies Bombardi pelas valiosas

contribuições, feitas na qualificação.

Ao Sr. Egon Bär e ao Everton Kielt (Prego), camponeses não-faxinalenses,

por me receberem e fornecerem os dados referente às suas lavouras.

4

Ao pessoal do grupo “Campo em Movimento”: Andrei, Arnaldo, Carina,

Edu, Luis Fernando, Lúcia, Marli, Michel, Murilo, Patrícia, Raimundo e

Yamila pelas inquietantes contribuições durante os debates nas reuniões.

Ao Thiago pelas leituras e sugestões, feitas em dois momentos da

elaboração do projeto de pesquisa.

Ao amigo companheiro Luis Almeida Tavares pelas conversas sobre os

faxinais e por compartilhar posições, opiniões e conceitos a respeito dos

faxinais, do campesinato e da questão agrária no Brasil. Certamente

vamos continuar conversando.

Ao casal de amigos Wladimir e Marcia, a quem eu devo muito o

aprendizado sobre os camponeses e às constantes conversas e discussões

sobre os faxinais.

Ao Vicente pela amizade e pela grande generosidade em me enviar o

material sobre os sertanejos do Sul do Piauí. Valeu Vicente!

Aos meus tios Estanislau e Neuza pelo carinho e pela generosidade em me

oferecerem sua casa para eu ficar nos momentos em que precisava ir para

São Paulo.

5

RESUMO

BARRETO, Marcelo. Territorialização e Tradicionalização: refletindo

sobre a construção da identidade faxinalense no Paraná, 2013, p., (Tese

de Doutorado), São Paulo, USP, 2013.

A presente tese tem por objetivo compreender quem são e como vem se

reproduzindo os faxinalenses no Paraná. Os faxinais representam

diversas comunidades que se encontram nas Regiões Centro-sul e

Sudeste do estado do Paraná que praticam o uso comum de suas terras.

Atualmente, esses sujeitos vêm buscando construir a identidade por meio

da autoafirmação coletiva. Procura-se refletir sobre a construção dessa

identidade, que ganha força entre grupos camponeses no Brasil – os

faxinalenses são um caso. Os faxinalenses estão inseridos na sociedade

moderna, porém com suas particularidades. Estes se veem

constantemente desafiados a darem respostas às transformações que

ocorrem em escala global. Essas respostas são parte do movimento que

leva à reprodução social do grupo. Tais respostas são tomadas com base

nos costumes que não estão circunscritos à esfera local de cada

comunidade, mas que se fazem presentes em escala global. No momento

de afirmação dessa identidade, um conjunto de elementos oriundos da

escala local e global passa a fazer parte das relações diversas travadas

cotidianamente nos planos: econômico, social e político. Os costumes do

grupo definem tanto suas práticas específicas, impregnadas pelo

movimento global, quanto as condutas do local em relação ao global. A

identidade, por sua vez, emerge da contradição em meio a um processo

que definimos como “tradicionalização”. A pesquisa se concentrou no

faxinal do Salso no município de Quitandinha, na região metropolitana de

Curitiba. Esta comunidade vem construindo sua unidade por meio do

fortalecimento dos laços de identidade contra as práticas que procuram

diminuir o território da reprodução social do seu grupo. Dessa forma,

busca-se compreender como vem se dando essa resistência a partir da

construção da identidade faxinalense entre os moradores do Salso.

PALAVRAS-CHAVE: Territorialização, tradicionalização, campesinato,

faxinais, Geografia Agrária.

6

ABSTRACT

BARRETO, Marcelo. Territorialization and Traditionalization: reflecting

about the construction of the faxinalense identity in Paraná, 2013, p.,

(Tese de Doutorado), São Paulo, USP, 2013.

The present thesis aims to comprehend who are and how takes place the

reproduction of the faxinalenses in Paraná. The faxinais represents

several communities located on the Center-south and Southwest portions

of the state of Paraná that practice the common use of their land.

Nowadays, those subjects are looking forward the construction of an

identity through the collective self assertion. It aims to reflect about the

construction of this identity that is increasing among peasantry groups in

Brazil – the faxinalenses are a case. The faxinalenses are inserted in the

modern society, but with their own particularities. They are constantly

challenged to give answers to the transformations that occur in global

scale. At this moment the assertion of this identity, many elements that

comes from local and global scales turns to take place on several

everyday life relations on economical, social and political basis. The

costumes of the group define such their specific practices together with

the global movement, as the local conduct in relation to the global. The

identity, at once, emerge from the contradiction in between of a process

that we define of “tradicionalization”. The research concentrated on the

faxinal of Salso on the city of Quitandinha in greater Curitiba metropolitan

area. This community, constructs its unity through the strengthening of

identity ties against some practices that aims to decrease the social

reproduction territory of their group. This way, it aims to comprehend

how this resistance is happening by the construction of the faxinalense

identity among the people from Salso.

KEY WORDS: Territorialization, traditionalization, peasantry, faxinais,

Agrarian Geography.

7

LISTA DE SIGLAS

AFATRUP: Associação das Famílias dos Produtores Rurais do Pinhão

APF: Movimento Social Articulação Puxirão dos Povos Faxinalenses

ARESUR: Área Especial de Uso Regulamentado

APA: Área de Proteção Ambiental

CNPCT: Comissão Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e

Comunidades Tradicionais

COMEC: Coordenação da Região Metropolitana de Curitiba

COPEL: Companhia Paranaense de Energia Elétrica

EFSPRS: Estrada de Ferro São Paulo-Rio Grande

EMATER-PR: Instituto Paranaense de Assistência Técnica e Extensão

Rural

EMBRAPA: Empresa Brasileira de Pesquisas Agropecuárias

EPI: Equipamento de Proteção Individual

FUNAI: Fundação Nacional do Índio

IAP: Instituto Ambiental do Paraná

IAPAR: Instituto Agronômico do Paraná

IBGE: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

ICMS: Imposto Sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços

IEEP: Instituto Equipe de Educadores Populares

INCRA: Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária

ING: Instituto Guardiões da Natureza

IPARDES: Instituto Paranaense de Desenvolvimento Econômico e Social

ITCG: Instituto de Terras, Cartografia e Geociências do Paraná

ITESP: Instituto de Terras do Estado de São Paulo

MDA: Ministério do Desenvolvimento Agrário

MDS: Ministério do Desenvolvimento Social e Combate à Fome

MMA: Ministério do Meio Ambiente

MPA: Movimento dos Pequenos Agricultores

MST: Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra

OIT: Organização Internacional do Trabalho

ONG: Organização Não Governamental

PASEP: Programa de Formação do Patrimônio do Servidor Público

8

PDA: Programa de Projetos Demonstrativos do Ministério do Meio

Ambiente

PSA: Pagamento por Serviços Ambientais

PNCSA: Programa Nova Cartografia Social da Amazônia

PNPCT: Política Nacional de Desenvolvimento Sustentável dos Povos e

Comunidades Tradicionais

RDS: Reserva de Desenvolvimento Sustentável

RMC: Região Metropolitana de Curitiba

SANEPAR: Companhia de Saneamento do Paraná

SNUC: Sistema Nacional de Unidade de Conservação

UC: Unidade de Conservação

UEPG: Universidade Estadual de Ponta Grossa

UFPR: Universidade Federal do Paraná

UNESCO: Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a

Cultura

UNICENTRO: Universidade Estadual do Centro-oeste do Paraná

USP: Universidade de São Paulo

9

LISTA DE FOTOS

FOTO 1 – Criadouro comunitário do faxinal do Salso, junho de 2011........... ...85

FOTO 2 – Terras de plantar (ao fundo) pertencentes às famílias faxinalenses do

Taquari dos Ribeiros.................................................................................88

FOTO 3 – Audiência para a criação de ARESUR no faxinal Bom Retiro, junho de

2012.....................................................................................................134

FOTO 4 – Audiência para a criação de ARESUR no faxinal São Roquinho, junho

de 2012................................................................................................135

FOTO 5 – Placa indicando a existência da ARESUR na entrada do faxinal

Marmeleiro de Cima em Rebouças, julho de 2009.......................................137

FOTO 6 – Mata-burro destruído no faxinal Saudade Santa Anita no município de

Turvo, maio de 2007...............................................................................148

FOTO 7 – Chácara de veraneio, cercada, com cães cumprindo a função do vigia

no criadouro comunitário do faxinal Meleiro em Mandirituba, maio de

2012.....................................................................................................157

FOTO 8 – Viveiro com mudas de fumo no Cerrinho, setembro de 2012........171

FOTO 9 – Secador de fumo no faxinal Taquari dos Ribeiros, novembro de

2008.....................................................................................................172

FOTO 10 – Feira de sementes durante o 4º. Encontro estadual dos Povos

faxinalenses em Guarapuava, agosto de 2011............................................174

FOTO 11 – Cruz de São João Maria em meio ao florestamento de eucalipto.

Cerrinho, setembro de 2012.....................................................................183

10

LISTA DE FIGURAS

FIGURA 1 – Representação da espacialização/territorialização dos processos

sociais....................................................................................................41

FIGURA 2 - Localização do município de Pinhão (em destaque)...................143

FIGURA 3 – Localização do município de Quitandinha (em destaque)...........150

FIGURA 4 – Croqui de localização do faxinal do Salso e da localidade de Lagoa

Verde (em destaque)..............................................................................151

FIGURA 5 – Croqui representativo da evolução da Região Metropolitana de

Curitiba: 1973-2002...............................................................................153

FIGURA 6 – Croqui representativo da Região Metropolitana de Curitiba no ano

de 2012................................................................................................154

11

LISTA DE TABELAS

TABELA 1 – Faxinais de Prudentópolis: área do criadouro comunitário, área

cadastrada como ARESUR e número de famílias (2009)...............................127

TABELA 2 – Faxinais que são ARESUR e recursos provenientes do ICMS

Ecológico, recebidos e gerados em 2009....................................................130

TABELA 3 – Faxinais que são ARESUR e recursos proveniente do ICMS

Ecológico, recebidos e gerados em 2012....................................................131

TABELA 4 – Gastos com lavoura de milho em um alqueire..........................169

12

SUMARIO

APRESENTAÇÃO...........................................................................14

INTRODUÇÃO.............................................................................26

CAPÍTULO 1 - O CONTEXTO TEÓRICO.........................................37

1.1

Espacialização dos Processos Sociais, Territorialização

Camponesa e as Relações nas Escalas.......................................37

1.2 Costume, Identidade, Tradicionalização..............................51

1.3 Os povos e comunidades tradicionais..................................64

1.4 As terras de uso comum no Brasil.......................................69

1.4.1 Os Ribeirinhos da Amazônia.....................................................76

1.4.2 Os Sertajenos Sul-piauienses...................................................78

1.4.3 Os Camponeses Sertajenos da Paraíba.....................................80

CAPÍTULO 2 – OS FAXINAIS DO PARANÁ.....................................84

2.1 Os elementos que compõe o faxinal...................................84

2.2 Os trabalhos sobre os faxinais do Paraná...........................93

CAPÍTULO 3 - O CAPITAL, O ESTADO E A AÇÃO DAS ONGs..........108

3.1 O processo global da reprodução capitalista......................108

3.2 As Convenções 107 e 169 da OIT.......................................115

3.3 O ICMS Ecológico e as ARESURs........................................121

3.4 A Ação das ONGs...............................................................137

CAPÍTULO 4 – AS RESPOSTAS DOS CAMPONESES NO PARANÁ...142

4.1 Os Conflitos e a Gestação do Movimento Social Articulação

Puxirão dos Povos faxinalenses................................................142

4.2 O Caso do Faxinal do Salso na Região Metropolitana de

Curitiba.....................................................................................149

4.2.1 A Região Metropolitana de Curitiba..........................................152

4.2.2 Conflitos, costumes e a construção da unidade grupo social no

faxinal do Salso...........................................................................155

4.3 A Organização da APF..........................................................162

CAPÍTULO 5 – A FAMÍLIA, O GRUPO SOCIAL E O MUNDO...........165

13

5.1 Como os faxinalenses (não) se diferenciam dos outros

camponeses..............................................................................165

5.2 A Construção da Tradicionalização......................................177

CONSIDERAÇÕES FINAIS...........................................................181

REFERÊNCIAS............................................................................184

REFERÊNCIAS CONSULTADAS....................................................194

ANEXOS

14

APRESENTAÇÃO

A presente tese faz parte de uma pesquisa, a qual se desenvolve

há oito anos, sobre os faxinais que se encontram no estado do Paraná.

Trata-se de compreender quem são os sujeitos sociais identificados como

faxinalenses e como eles asseguram a reprodução social diante das

transformações recentes no campo.

Os faxinais correspondem a diversas comunidades, cuja existência

é de mais de 200 anos e que difundiu a prática de uso comum da terra na

região Sul do país e em parte do estado de São Paulo. Atualmente as

comunidades de faxinais se concentram, em grande parte, no estado do

Paraná. Os faxinalenses criam seus animais em terras que, embora

algumas sejam propriedades particulares, o uso para o apascento é

comum. Diferentemente dos Geraizeiros da Bahia e dos Sertanejos Sul-

piauienses que criam seus animais longe das residências, conforme

apontam Sousa Sobrinho (2012) e Alves (2000) respectivamente, as

terras de uso comum dos faxinalenses englobam as áreas onde também

se localiza a morada.

O termo “povos e comunidades tradicionais” vêm sendo utilizado

com frequência na definição de grupos camponeses que recebem do

Estado o reconhecimento enquanto portadores de “saberes específicos” e

com identidade construída a partir da autoafirmação coletiva. Procura-se,

assim, refletir sobre a construção dessa identidade que vem ganhando

força no Brasil, principalmente no estado do Paraná, em comunidades que

praticam o uso comum de suas terras - os faxinalenses são um caso.

Existem diferenças entre estes sujeitos e a sociedade mais ampla.

No entanto, essas diferenças não se traduzem em plena autonomia em

relação ao movimento da sociedade global.

Ao entendermos que os faxinalenses estão inseridos na sociedade,

porém com suas particularidades, afirmamos que estes se veem

15

constantemente desafiados a darem respostas às transformações que

ocorrem em diversas escalas (local, regional e global), como parte do

movimento que leva à reprodução social do grupo. Tais respostas são

tomadas com base nos costumes1 e estas não estão circunscritas à esfera

local de cada comunidade, mas se fazem presentes em diversas escalas

no momento de afirmação de uma identidade e regem um conjunto de

relações diversas travadas cotidianamente nos planos: econômico, social e

político. Esse é o movimento que, em nosso entendimento, define a

identidade do grupo e lhes dá força para se afirmarem globalmente.

Os costumes do grupo definem tanto suas práticas específicas,

impregnadas pelo movimento global, quanto regem as condutas do local

em relação aos demais níveis. A identidade, por sua vez, emerge dessa

contradição em meio a um processo que definimos como

“tradicionalização”.

***

O primeiro contato com os faxinalenses do Paraná se deu em 2006,

ano do ingresso no mestrado na Universidade Estadual de Ponta Grossa

(UEPG). Naquele momento, procuramos compreender a relação entre os

camponeses faxinalenses que extraem a folha verde da erva-mate e a

indústria ervateira, presente na região Centro-sul do estado do Paraná

desde o século XIX.

Percebemos, durante o mestrado que a expansão do capital ligado

ao beneficiamento da erva-mate incrementa a atividade industrial ao

incorporar e delimitar áreas específicas dentro das comunidades de

faxinais para a produção exclusiva da sua matéria-prima (a folha verde da

1 O conceito de costume será trabalhado a partir de Thompson (2005).

16

erva-mate)2. Verificamos que esta ação, por parte da indústria,

provocava certos rearranjos no interior das comunidades visitadas3.

A constatação nos trabalhos de campo, tanto da permanência de

terras de uso comum nos faxinais em áreas onde o capital procura abrir

terreno para pôr em prática a acumulação ampliada, quanto a busca de

uma identidade como forma de resistência de um sujeito social que luta

para permanecer na terra, nos desafiaram a investigar os faxinais, os

faxinalenses e os processos que envolvem esses sujeitos sociais na

atualidade. Processos esses ligados às múltiplas relações presentes em

escalas variadas, como a organização em associações locais, o Movimento

Social Articulação Puxirão dos Povos Faxinalenses (APF) que abrange

algumas das comunidades de faxinais localizadas nas regiões Centro-sul e

Sudeste do estado do Paraná e a relação com certos ramos da atividade

industrial, principalmente as indústrias do tabaco, do frango, madeireira e

da erva-mate.

Desde 2006 vimos fazendo diversos contatos com os faxinalenses

por meio de oficinas, audiências, entrevistas (algumas delas realizadas

repetidamente com a mesma pessoa) em 14 comunidades de faxinais e

do 4º. Encontro dos Povos Faxinalenses que aconteceu em Guarapuava

em julho de 2011.

A estratégia adotada nas entrevistas em um primeiro momento foi

a de ouvir o que eles tinham a dizer, com o mínimo possível de

interferência da nossa parte, procurando captar em suas falas as questões

que apareciam de forma espontânea – esse era o momento em que a

percepção se constituía como recurso operacional nas observações de

campo. Em seguida, elencamos as questões que apareciam com mais

frequência nas falas dos entrevistados como: os conflitos com os

fazendeiros, lembranças de épocas passadas, práticas adotadas nas

2 Foram utilizadas como referencial teórico no mestrado as teses elaboradas sobre o

desenvolvimento contraditório e desigual do capitalismo de Martins (1986, 1996a) e

Oliveira (1997, 1999).

3 Ver Barreto (2008).

17

lavouras e as transações comerciais, tanto na compra e venda de animais

quanto na comercialização dos gêneros agrícolas cultivados. Por último,

para compor o plano de trabalho de campo, associamos estas questões

aos assuntos de maior interesse para nós como: principal fonte de renda

familiar, organização em associações e as relações travadas com os

diversos atores; indústria, Estado, ONGs, movimento social, bem como

com a cidade, em uma perspectiva de movimento4.

Houve momentos em que ficamos em uma posição de

expectadores para observar como os faxinalenses definiam suas ações e

quais as questões que apareciam a partir do debate travado entre eles.

Pudemos observar o enfrentamento de ideias, porém, sem constatar

grandes tensões. Esses momentos aconteceram, principalmente, durante

as audiências e encontros.

Recorremos também aos relatos da história de vida como técnica

de coleta de depoimento, conforme proposto por Ecléa Bossi (2010). Em

conversas com os mais idosos, procuramos apreender a construção da

trajetória dos faxinalenses em um período de aproximadamente 50 anos,

no que tange às suas vidas cotidianas. Algumas conversas duravam até

três horas, nas quais o entrevistado comentava de forma espontânea,

sobre diversos assuntos, tanto de sua vida pessoal, expondo seus

problemas, sonhos, desejos e lembranças, quanto dando opiniões ligadas

ao uso comum, à comunidade e à assistência por parte do Estado.

A pesquisa também contou, conjuntamente, da análise

documental, principalmente de escrituras de imóveis e contratos de

compra e venda de terras do início do século XX, que ainda se

encontravam em posse de alguns moradores. Foram analisados diversos

decretos, leis e portarias de interesse dos faxinalenses5 e de dados

4 Para definir a metodologia do trabalho de campo, foi consultado o texto “O Geógrafo e

a Pesquisa de Campo” de Bernard Kaiser (2006).

5 Ver Anexos I e III.

18

fornecidos por órgãos estaduais (IPARDES, IAP e COMEC) referentes ao

ICMS Ecológico e à região metropolitana de Curitiba.

Entre os anos de 2006 e 2008 foram realizados sete trabalhos de

campo em conjunto com o grupo Rede Faxinal Pesquisa6, com duração de

dois dias cada, para o faxinal Taquari dos Ribeiros no município de Rio

Azul, com o propósito de compreender como se estruturava a organização

interna daquela comunidade - a relação que aqueles sujeitos

estabeleciam entre si e com o entorno.

Naquela ocasião, o grupo de pesquisa elaborou um roteiro de

questões para a realização de entrevistas semiestruturadas com todos os

moradores do Taquari7. Estas entrevistas foram feitas com o propósito de

contemplar as diversas pesquisas que estavam sendo realizadas pelos

integrantes do grupo. Foram entrevistadas 82 famílias, das quais se

procurou obter dados referentes a temas variados como: renda familiar

principal, políticas públicas, distribuição das terras nos casos de herança,

origem étnica das famílias, problemas de saúde, criação de animais,

religiões presentes na comunidade, problemas ligados à erosão do solo,

composição florística e fauna silvestre.

Nosso interesse particular estava em compreender a relação entre

os faxinalenses produtores de fumo e a indústria do tabaco, visto que no

Taquari dos Ribeiros havia uma produção significativa de fumo em terras

próprias e em terras arrendadas. Essas terras, onde é plantado o fumo e

6 A Rede Faxinal Pesquisa, liderada pela professora Dra. Cicilian Luiza Löwen Sahr da

UEPG, é um grupo que envolve pesquisadores de diversas áreas do conhecimento, tanto

de universidades estaduais paranaenses (UEPG e UNICENTRO) quanto de órgãos ligados

à assistência rural (EMATER e IAPAR). Atualmente, a Rede Faxinal Pesquisa vem se

dedicando a promover encontros como o Simpósio de Pesquisadores de Faxinais, que

acontece a cada dois anos, e que é aberto à comunidade acadêmica e não acadêmica.

7 Há diferenças entre os termos morador e faxinalense e entre comunidade e faxinal.

Todos os faxinalenses são moradores de um faxinal, mas nem todos os moradores em

um faxinal são faxinalenses. Na condição de morador, o sujeito aparece no seu

cotidiano. Enquanto faxinalense, o sujeito está afirmando uma identidade. No caso

daqueles que se autoafirmam enquanto faxinalenses trata-se do mesmo sujeito (morador

e faxinalense). Já a comunidade preexiste ao faxinal. Mesmo sendo todo faxinal uma

comunidade, há comunidades que praticam o uso comum da terra que não são faxinais.

19

demais gêneros agrícolas, são conhecidas como “terras de plantar” ou “de

planta”. São terras para uso particular de cada família. Geralmente as

terras de plantar ficam ao redor das áreas destinadas ao uso comum,

fazendo divisa com estas. No caso do Taquari o arrendamento de terras

acontecia entre os próprios moradores e o pagamento era feito em

dinheiro.

No total, 56 famílias estavam envolvidas com as atividades de

plantação e secagem do fumo no período de realização dos trabalhos de

campo8.

Constatamos no Taquari dos Ribeiros que a produção do fumo,

apesar de estar trazendo benefício econômico para algumas famílias,

também vem gerando suas vítimas. Numa entrevista a um camponês

sem-terra que habita aquele faxinal, percebemos que esta atividade

abarca um conjunto de relações que não se limita às horas trabalhadas na

lavoura e secagem do fumo. Este pagava em trabalho o “aluguel” de uma

casa de dois cômodos (cozinha e quarto) para a sua família de três

membros, cuja propriedade (casa e lavoura) era de uma única pessoa.

Pessoa esta que também tinha uma bodega na parte da frente do mesmo

terreno onde estava a casa alugada e que vendia alimentos fiado para a

referida família. Entendemos que esse trabalhador sem-terra, estabelecia

uma relação de subordinação a uma mesma pessoa que incorporava três

figuras: o seu patrão, o seu credor e o proprietário da sua casa.

Subordinação essa que vai além da relação com patrão direto e alcança a

atividade industrial do tabaco como um todo.

Nossas indagações no Taquari não se limitaram à questão do fumo.

Em julho de 2009 realizamos visitas aos faxinais localizados nos

municípios de Rio Azul e Rebouças. Naquele momento, entendemos que

as relações com o capital e com a sociedade não eram recentes, apenas

foram mudando suas formas ao longo do tempo e adquirindo novos

significados para as famílias faxinalenses desses municípios.

8 Ver Vilpoux (2011).

20

A partir das informações obtidas descobrimos que, até por volta da

década de 1960, naquela região, plantava-se batata e criavam-se suínos

em quantidades significativas para o comércio em escala nacional. A

batata chegava até São Paulo e o suíno abastecia uma fábrica de banha

da família Matarazzo que se localizava no município de Jaguariaíva

(próximo a Castro). Procuramos, assim, entender como a produção da

batata, suíno e erva-mate foi cedendo lugar, ao longo do tempo, para o

fumo, o eucalipto e o pinus9.

Percebemos também que a área destinada ao uso comum no

Taquari dos Ribeiros tinha uma extensão maior do que a atual10 e que as

lavouras de batata eram cercadas, não para delimitar as propriedades

individuais, mas para as protegerem da invasão dos animais11. Segundo

os moradores mais idosos, naqueles tempos, a abundância de terras era

tanta para a criação de animais que estes se perdiam nas florestas, sendo

necessários até três dias de busca para eles serem encontrados.

Isso não significa que o passado era desprovido de conflitos. A

extração da madeira foi uma atividade presente no interior do Paraná

desde o início do século XX. Até a década de 1950 havia pouca

regulamentação para a derrubada da Araucária e da Imbuia. Evidencia-se

na fala dos moradores, tanto do Taquari, quanto de faxinais localizados

nos municípios de Pinhão, Turvo e Boaventura de São Roque, o conflito de

terras com indústrias madeireiras que foram instalando serrarias em áreas

que eram destinadas ao uso comum.

9 Alguns resultados referentes a este trabalho de campo podem ser encontrados em

Schuster (2010).

10 Atualmente, a área de criador do Taquari é de 234 ha (BARBOSA, 2010).

11 A prática de cercar lavouras nos faxinais não tinha como finalidade a delimitação de

propriedades e sim de protegê-las da invasão dos animais. Isso foi constatado em vários

faxinais da região por meio de entrevistas com antigos moradores. Retomaremos a esta

questão no capítulo 4.

21

Além dos faxinais, estivemos no distrito de “Água Clara” situado

nos contrafortes da Serra da Esperança12 e por onde passa a estrada PR-

364 entre os municípios de Irati e Inácio Martins. Por esta localidade

também passa o ramal de Guarapuava da polêmica Estrada de Ferro São

Paulo-Rio Grande, a EFSPRG13. Muito do que se produzia no Taquari, até

por volta da década de 1960, era vendido em Água Clara. Lá havia uma

pequena estação na qual a batata e o suíno eram embarcados no trem

para seguirem até Ponta Grossa e Curitiba. O suíno e a batata eram

comercializados em estabelecimentos comerciais (bodegas) que se

encontravam nesta localidade. Os faxinalenses levavam a batata em

carroças e o suíno em tropas até as bodegas onde estes eram trocados

por açúcar, sal, ferramentas e outros produtos.

No segundo semestre de 2009 iniciamos as visitas nos faxinais do

Salso, no município de Quitandinha e do Meleiro, em Mandirituba. A

receptividade por parte dos faxinalenses do Salso e do Meleiro, associada

aos conflitos/relações cotidianas que os seus moradores expunham nas

entrevistas aguçaram ainda mais nossas preocupações e indagações.

Os moradores do Salso estavam dispostos a falar sobre os

problemas que enfrentavam. Problemas estes relacionados à supressão

das terras destinadas ao uso comum, promovida por parte “dos que vêm

de fora”14. Estes fazem os “fechos”15 e cercam áreas que ultrapassam os

12 A Serra da Esperança é a escarpa que marca o contato entre o Segundo Planalto e o

Terceiro Planalto Paranaense (MAACK, 2002).

13 A EFSPRG, que ligava no seu traçado original os municípios de Itararé (SP) e Santa

Maria (RS), é polêmica devido ao fato de, depois de ter terminado a sua construção, no

início do século XX, a então empresa Brazilian Southern Railway Company pertencente

ao grupo do empresário norte-americano Percival Farquhar recebeu como “pagamento” a

concessão de uma faixa de terras que se encontrava até 15 km de cada lado da estrada

de ferro, em um trecho de 372 km localizado em Santa Catarina, para a extração de

todas as Araucárias e outras espécies de árvores que pudessem retirar. A resistência ao

avanço desse capital por parte dos camponeses que habitavam aquelas terras e

recusaram a se retirarem das mesmas resultou na guerra do Contestado (1912-1916) e

na morte de cerca de 50.000 pessoas entre camponeses e soldados. Ver Auras (2001) e

Monteiro (1974).

14 A expressão “os que vêm de fora” é comumente utilizada pelos faxinalenses para se

referir aos moradores que não são parentes e são provenientes de outros lugares que

22

limites do estipulado pela comunidade. Com a finalidade de plantar pinus,

fazer uma horta, construir um pesqueiro ou simplesmente reproduzir a

lógica da propriedade privada urbana no campo cercando tudo, eles

ingressam nas comunidades sem saber ao menos como são as regras

acatadas consensualmente pelos seus membros. Algumas vezes essas

regras são ignoradas, mesmo havendo comunicado prévio por parte dos

faxinalenses.

Uma questão importante foi levantada a partir do fato de que o

Salso nunca havia sido conhecido por seus moradores como faxinal, mas

“criador”16. Este fato aparece na fala de todos os entrevistados, os quais

apontam que, após terem adotado este nome, ficou mais fácil se organizar

e reprimir as práticas supressórias promovidas pelos tais chacareiros.

Após conversa com o Sr. Vico e o Carlito no faxinal do Salso, estes

nos conduziram até o Cerrinho – uma comunidade localizada também em

Quitandinha, cujos primeiros moradores eram provenientes do Salso. No

Cerrinho os moradores não adotaram o nome faxinal para a sua

comunidade.

Percebemos que os problemas do Cerrinho eram semelhantes aos

do Salso: os “que vinham de fora” e imprimiam lógicas adversas,

plantação de pinus e de eucalipto. No entanto, constatamos que, o que é

tido como problema no Salso não é tão problemático no Cerrinho. Um

exemplo são as lavouras e secadores de fumo. No Cerrinho, os

moradores aprovam as atividades ligadas ao plantio e secagem do fumo,

já no Salso há resistência a essas práticas, apesar de haverem por lá

terras arrendadas para terceiros plantarem fumo. Verifica-se que a

procuram no faxinal “um lugar tranquilo” para descansar. Estes sujeitos são conhecidos

também pelos faxinalenses “chacareiros”.

15 Fechos são áreas cercadas dentro dos criadores para uso específico da família, que

impossibilita de os animais transitarem livremente.

16 A ideia de o Salso se tornar faxinal surgiu em 2006, quando seus moradores optaram

por fazer parte da APF e incorporar esta palavra ao seu nome. Enquanto noção, faxinal

carrega uma série de significados para esses sujeitos. Tornar-se “faxinalenses” não se

reduz apenas a um modo de vida, mas à busca de uma identidade.

23

atividade de plantio e secagem do fumo é contraditória, mas esta

contradição não se dá pelo fato de ambas as comunidades estarem ou não

ligadas ao movimento social Articulação Puxirão dos Povos Faxinalenses

(APF).

O contato com os faxinalenses do Meleiro em Mandirituba foi por

ocasião do lançamento do 5º. Fascículo da “Série Faxinalenses do Sul do

Brasil” do “Projeto Nova Cartografia Social dos Povos e Comunidades

Tradicionais do Brasil”17, que aconteceu em fevereiro de 2011. Nesse

encontro conhecemos o Sr. Amantino Sebastião de Beija que é o

coordenador do Núcleo Metropolitano de Curitiba da APF18, o Sr. Joaquim,

Sr. Adão, Sr. Nir e outros. As terras de uso comum do Meleiro são

contíguas às de duas outras comunidades que também se reconhecem

como de faxinais: Espigão das Antas e Pedra Preta.

Em junho de 2012 tivemos a oportunidade, por convite da APF, de

acompanhar o Amantino em duas audiências no município de Pinhão (uma

no Faxinal São Roquinho e outra no faxinal Bom Retiro) para o

atendimento à criação de ARESUR (Área Especial de Uso Regulamentado)

nesses faxinais. Essas audiências representam o momento em que o

Estado reconhece aquela comunidade enquanto “tradicional”. É o

momento em que os faxinalenses dizem “sim” perante os técnicos do IAP

quando perguntados se querem transformar seus criadores comuns em

ARESUR para receberem o recurso do ICMS Ecológico. Nas audiências são

realizadas entrevistas semiestruturadas com os moradores. Pergunta-se o

tipo de lavoura que existe, se é mecanizada, quais gêneros agrícolas são

17 Este projeto faz parte do Projeto Nova Cartografia Social da Amazônia (PNCSA),

coordenado pelo prof. Alfredo Wagner Berno de Almeida. O projeto tem por finalidade,

realizar o mapeamento dos povos e comunidades tradicionais do Brasil. Ao todo foram

confeccionados cinco fascículos deste mapeamento para os faxinalenses nas regiões

Centro-sul e Sudeste do Paraná. A elaboração do 5° fascículo contou com a participação

de um grupo de pesquisadores da Universidade Federal do Paraná (UFPR) coordenado

pelo professor Jorge Ramón Montenegro Gómez. Este material será utilizado para

subsidiar o esquema explicativo do presente trabalho.

18 Como estratégia para melhor organizar a ação da Articulação Puxirão, seus integrantes

dividiram o Movimento em núcleos. O Núcleo Metropolitano engloba os faxinais do Salso

e do Meleiro.

24

plantados, se há quintal nas casas e se alguém se opõe à criação da

ARESUR.

Apesar do pouco tempo (apenas dois dias em Pinhão) percebemos

que muita coisa havia lá para ser investigada. O município de Pinhão

possui um histórico de conflitos de terra por meio de expulsões,

assassinatos e extração indevida de renda da terra, além do extrativismo

da madeira, principalmente da Araucária. Atualmente se fazem presentes

também outros movimentos sociais acampados em alguns faxinais

daquele município, como o MST e o MPA.

***

Na presente pesquisa procuramos ter cautela para não incorrer em

parcialidades. De um lado, para não exaltar as ações dos faxinalenses

enquanto portadores da única verdade, pois este formato em nada

contribui para o conhecimento deles de si visto que não permite alcançar

a visão mais ampla. De outro lado, para não dar condições para que se

justifiquem ações elaboradas em unidades mais abrangentes e que

tendem a homogeneizar todas as esferas locais por meio da

implementação de ações que foram planejadas em locais geograficamente

distantes. Isso não significa que adotemos uma posição de neutralidade

em relação aos faxinais. Concordarmos, assim, com Lacoste (1997),

quando afirma que

uma vez que a pesquisa do geógrafo leva à produção de um

saber estratégico, uma vez que pode haver aí contradição

(em maior ou menor lapso de tempo) entre os interesses da

população que foi objeto das pesquisas e os de uma minoria

que está em condições de utilizar, em proveito próprio, os

resultados dessas pesquisas, é preciso encontrar o meio

para que essa população disponha, também desse saber

estratégico, a fim de que possa melhor se organizar e se

defender (pp. 173-174).

25

Esta pesquisa não trata da extração de um saber inerente aos

sujeitos estudados em função de uma problemática alheia e depois de

informar a eles os seus resultados e o que eles devem fazer.

O caminho que procuramos percorrer para dar sentido à nossa

pesquisa passa pela possibilidade de construir um trabalho a partir e que

esteja à disposição dos camponeses faxinalenses para que eles tenham

melhor conhecimento de si para melhor se organizarem em meio aos

sujeitos, disputas e espacialidades diversas que os envolvem.

26

INTRODUÇÃO

Vivemos em um mundo em constante movimento. Apreender esse

movimento não é tarefa fácil. Necessário se faz distinguir entre o

movimento que segue redefinindo antigas relações e o movimento tende a

romper com o passado sugerindo transformações. Esta distinção é

possível com o recurso do método.

No caso dos sujeitos desta pesquisa, sem dúvida que a ação

política é um importante instrumento na luta contra um inimigo (o

agronegócio) interessado na supressão do território e opera no sentido de

dar coesão ao grupo. No entanto, há que se tomar cuidado para não fazer

dela o único elemento definidor das possibilidades, o que impede de

enxergar as contradições presentes no próprio meio e a diversidade de

anseios existente entre os sujeitos sociais que buscam as mudanças.

Compreender os diversos interesses existentes no interior das

comunidades permite enxergar melhor quem são aqueles que estão ao

redor dos faxinalenses e quais suas intenções.

Neste sentido, Lefebvre (2002) aponta que:

O protesto oriundo das particularidades, em geral de origem

camponesa, não pode ser confundido nem com a

contestação que visa as unidades repressivas, nem com a

consciência e a constatação das diferenças. A afirmação das

diferenças pode retomar (seletivamente, ou seja, no curso

de uma verificação crítica de sua coerência e de sua

autenticidade) as particularidades étnicas, linguísticas, locais

e regionais, mas num outro plano, aquele em que as

diferenças são percebidas e concebidas como tais, isto é,

nas suas relações, e não mais isoladamente, como as

particularidades. Que possam sobrevir conflitos entre

diferenças e particularidades, assim como entre os

interesses atuais e as possibilidades, essa é uma situação

dificilmente evitável (pp. 92-93).

27

Os faxinalenses vêm passando por vários conflitos em suas terras.

Conflitos estes que se processam de diversas formas; tanto frente à

apropriação dos recursos naturais para fins comerciais como a expansão

do agronegócio e do lazer comercial nas terras destinadas aos criadouros

comunitários, quanto por outras formas individuais de apropriação desses

recursos que não estão de acordo às normas acatadas consensualmente

dentro de cada comunidade.

Esses conflitos têm origem na compra e venda de terras que ficam

dentro dos criadouros comunitários em uma negociação que envolve

sujeitos de fora do faxinal interessados em se apropriar dessa terra de

forma individual. A apropriação individual pode ter vários fins que vão

desde chácara de veraneio à monocultura destinada ao mercado. Isso

acaba levando os faxinalenses a desenvolverem novas estratégias para

garantirem a sua permanência na terra e a reconfigurarem relações diante

de processos que levam aos pontos de tensão em locais onde a terra é de

uso comum.

Alguns desses sujeitos são classificados pelos faxinalenses como

“antagonistas

diretos”

(madeireiros,

chacareiros,

e

fazendeiros

interessados na compra de terras para estabelecer a monocultura) que

procuram se apropriar de suas terras (APF, 2007). Já outros,

representando interesses consoantes à acumulação capitalista atuam em

uma direção não de enfrentamento, mas de subordinar o trabalho dos

faxinalenses à acumulação ampliada do capital por meio da extração da

renda da terra. São eles atravessadores e representantes das indústrias

presentes na região, principalmente os representantes do agronegócio das

indústrias do fumo, avícola e ervateira. O conflito com estes últimos não

está alinhado à supressão do território, mas em uma relação de

subordinação que, ao mesmo tempo em que é aceita pelo faxinalense,

também o leva à total dependência da produção industrial para garantir a

renda principal familiar.

28

Um importante marco nessa luta foi no ano de 2005, quando, no

município de Irati, a Rede Faxinal19 juntamente com os próprios

faxinalenses, realizaram o Primeiro Encontro dos Povos dos Faxinais com

o intuito de fazer presente na sociedade como um todo o conhecimento da

existência dos faxinais nas florestas com Araucária do Paraná, bem como

dos conflitos que acontecem em suas terras. O evento também se

constituiu como instrumento para exercer maior pressão junto às três

esferas governamentais por políticas públicas. Dentre os benefícios

trazidos pelo encontro está a base para a construção de uma identidade

que leva esses sujeitos a se reconhecerem como faxinalenses, o ser

faxinalense. Fruto deste evento foi a criação do movimento social

Articulação Puxirão dos Povos Faxinalenses (APF) e a base para a

construção dessa identidade coletiva (o ser faxinalense) enquanto povo

tradicional com saberes específicos e uma relação singular com a

natureza.

O reconhecimento dos faxinalenses pelo governo do estado do

Paraná, como representantes de “um sistema de produção camponês

tradicional”, se deu no ano de 1997, com a criação do decreto estadual

no. 3.446 (ANEXO I). De acordo com este decreto, “entende-se por

‘Sistema Faxinal’: o sistema de produção camponês tradicional,

característico da região Centro-Sul do Paraná, que tem como traço

marcante o uso coletivo da terra para a produção animal e a conservação

ambiental. Fundamenta-se na integração de três componentes: a)

produção animal coletiva, à solta, através dos criadouros comunitários; b)

produção agrícola – policultura alimentar de subsistência para o consumo

e comercialização; c) extrativismo vegetal de baixo impacto – manejo de

erva-mate, araucária e outras espécies nativas”.

19 A Rede Faxinal é um grupo criado em 2004 por pesquisadores universitários,

representantes de órgãos governamentais e não governamentais preocupados com a

manutenção das comunidades de Faxinais, cujo objetivo principal era o de discutir

demandas e políticas públicas para os faxinalenses. Atualmente as reuniões da Rede

Faxinal estão suspensas devido à divergência de ideias entre seus membros.

29

Posteriormente, as comunidades de faxinais, de acordo com a lei

federal no. 9.985 de 18 de julho de 2000 passaram a fazer parte dos

chamados “Povos e Comunidades Tradicionais” ao lado dos Quilombolas,

Ribeirinhos, Caiçaras e demais comunidades tradicionais. Com este

decreto (3.446/97), o governo do estado do Paraná criou as ARESUR que

garante às comunidades de Faxinais o repasse de recursos provenientes

do ICMS, o chamado ICMS Ecológico, cujo objetivo é o de

criar condições para a melhoria da qualidade de vida das

comunidades residentes e a manutenção do seu patrimônio

cultural, conciliando as atividades agrosilvopastoris com a

conservação ambiental, incluindo a proteção da Araucaria

agustifolia (pinheiro-do-paraná) (PARANÁ, 1997).

Dessa forma, procura-se na presente pesquisa refletir sobre quem

são e como se reproduzem os sujeitos identificados como “faxinalenses”

no estado do Paraná, por meio da análise da “tradicionalização” na

atualidade. Entende-se por tradicionalização o processo associado à

emergência de novas identidades que são construídas a partir da

autoafirmação coletiva de certos sujeitos sociais sob o nome de “povos e

comunidades tradicionais”. Esta emergência se dá a partir da

ressignificação de certas práticas ligadas aos costumes desses sujeitos,

que passam a ser reconhecidas como tradicionais e que dão centralidade

na definição da identidade do grupo.

No atual momento, com a emergência de novas identidades

baseadas na autoafirmação coletiva e na tradicionalização, as terras de

uso comum vêm ganhando um novo significado para os faxinalenses,

significado este que pode estar hoje desencontrado dessas práticas

presentes nas comunidades. Agora, o que ganha força nos faxinais é a

mobilização política contra os sujeitos interessados na supressão de seus

territórios. Esta mobilização carrega consigo um retorno às práticas

historicamente construídas pelos faxinalenses, enquanto práticas

30

tradicionais, para que possam se destacar na sociedade como um todo e,

assim, pressionar o Estado na elaboração de políticas públicas em defesa

de seus territórios. Em certas comunidades, o que antes era conhecido

como “criador” passa a ser denominado de “faxinal”. Este fato pôde ser

observado em trabalho de campo no Salso, em que os entrevistados se

reconheciam como faxinalenses apenas há sete anos, apesar de viverem

na comunidade uma vida inteira, em uma localidade conhecida como

“Criador do Salso”. Também é possível encontrar comunidades que

praticam o uso comum de terras no Paraná que não se reconhecem como

faxinais. Um exemplo são as comunidades quilombolas no Vale do Ribeira

Paranaense.

Por outro lado não se pode negar no mundo dos faxinais uma série

de relações contraditórias e conflituosas. Em muitas das comunidades

visitadas, se faz presente entre os faxinalenses, formas individuais de

obtenção de renda (em benefício da família) que divergem da trajetória

política adotada pela APF20. Há casos, dentre outros, em que o

florestamento com Eucalipto, combatido pelos faxinalenses em situação de

conflito com antagonistas, figura como prática adotada pelos próprios

faxinalenses em algumas comunidades. As lavouras de fumo também se

fazem presente em várias comunidades e não se constitui como renda

familiar alternativa, mas principal. Evidenciam-se também granjas de

frango e de suíno, integradas às indústrias de processamento de carne,

existentes na região.

***

Marques (2008) alerta para uma “abordagem dialética que

considera as formas, modos e estruturas como momentos específicos na

conformação das relações sociais, definidos por diferentes processos ora

contraditórios, ora complementares” (p. 68). A autora aponta para uma

versão relacional da abordagem dialética que permite avançar na “análise

20 Foi observado em trabalho de campo que existe uma diversidade de interesses,

principalmente no que se refere aos da família e do movimento social e que nem sempre

esses interesses são convergentes.

31

do movimento da sociedade e do desenvolvimento desigual do capitalismo

em suas múltiplas determinações”. Neste sentido não se pode basear a

busca de uma realidade em contradições dualistas entre entidades auto-

referenciadas como latifúndio-minifúndio, camponês-proletário, moderno-

tradicional etc. Busca-se um entendimento que as procura enxergar não

como entidades separadas, mas como partes de uma totalidade em

formação.

Neste sentido foi recuperada a questão da escala. A escala local

possibilitaria perceber as diferenças. A escala regional mostraria a

síntese. As escalas nacional e global seria o espaço de afirmação desses

sujeitos. Portanto, quando se afirma que os faxinais não são uma coisa

só, leva-se em conta a construção feita no processo histórico da existência

desses sujeitos como portadores de uma identidade única. Para não se

correr os riscos da fragmentação, as terras de uso comum entram com

papel fundamental na organização dos sujeitos que as praticam. Defender

essas formas é globalizar a luta.

***

No mundo moderno, formam-se bases sociais avançadas (modelos)

que determinam um modo de viver e de ser, o que implica uma

sociabilidade, um reconhecimento de si no outro levando a um sentimento

de pertencimento. O homem se cria e se recria nas próprias realidades

que ele constrói nos meandros das suas objetivações. Assim, a sua

humanidade está condicionada à sua própria criação, alienante e

alienadora do seu próprio ser. O que resta ao homem é procurar

possibilidades nos meandros dessa criação. Lefebvre (1977) entende que

pobreza é aquela oriunda da escassez das possibilidades criadas pelo

homem para a sua libertação.

A própria coexistência de tempos históricos distintos implica a

disparidade entre o social e o econômico. Nesta coexistência encerram-se

não somente o passado e o presente, mas também o futuro, o possível. A

32

própria exploração do trabalho do homem pelo homem se encarrega de

amputar as condições materiais do seu desenvolvimento.

No caso dos faxinais, a relação dos faxinalenses com

atravessadores e as diversas indústrias que se encontram na região não

passa somente pela compra e venda de produtos. Ela envolve a

diversidade de relações que aparecem interligadas, movidas por

interesses contraditórios. Ao tomar como exemplo a extração da erva-

mate e o plantio do fumo compreende-se que essas relações vão além dos

limites do modo de vida tradicional faxinalense, pois podem ser

encontradas não só na região como um todo, mas em várias partes do

país e envolvem escalas diferenciadas.

Isso não significa que o que os faxinalenses mostram ser para a

sociedade não está fundado em uma base interna. Se se procura abordar

a diversidade de relações, leva-se em conta que a análise do mundo dos

faxinais vai além da dicotomia entre o tradicional e o moderno.

No caso da luta da APF entra em jogo uma série de elementos que

atuam concomitantemente à reconfiguração dessas relações. Para

compreender a presença desses elementos na relação entre a APF e os

diversos segmentos que atuam nos faxinais se faz necessário abordá-los

em diferentes escalas.

Procurando superar a dualidade entre o tradicional e o moderno,

segue-se pela dialética trabalhada por Henri Lefebvre. A dualidade,

enquanto significado, é transformada em ambiguidade. Christian Schmid

(2008), baseado em Henri Lefebvre procura essas dualidades por meio

das utilização do termo na língua alemã das Aufheben des Widerspruchs

(a suprassunção da contradição)21 em que Aufheben, por um lado significa

21 Paulo Meneses e José Machado na tradução da Enciclopédia das Ciências Filosóficas e