Territórios alisados; trajetórias fluidas; narrativas rugosas. A história da remoção de uma favela por Ana Clara Demarchi Bellan - Versão HTML

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ANA CLARA DEMARCHI BELLAN

Territórios alisados; trajetórias fluidas;

narrativas rugosas.

A história da remoção de uma favela

Tese apresentada à Faculdade de

Arquitetura

e

Urbanismo

da

Universidade de São Paulo para a

obtenção do título de Doutor em

Arquitetura e Urbanismo.

Área de concentração:

Habitat

Orientação:

Suzana Pasternak

SÃO PAULO

2007

AUTORIZO A REPRODUÇÃO E DIVULGAÇÃO TOTAL OU PARCIAL DESTE

TRABALHO, POR QUALQUER MEIO CONVENCIONAL OU ELETRÔNICO,

PARA FINS DE ESTUDO E PESQUISA, DESDE QUE CITADA A FONTE.

E-MAIL: anaclaradb@uol.com.br

Bellan, Ana Clara Demarchi

B436t Territórios alisados; trajetórias fluidas; narrativas rugosas.

A história da remoção de uma favela / Ana Clara Demarchi Bellan.

--São Paulo, 2007.

305 p. : il.

Tese (Doutorado – Área de Concentração: Habitat) - FAUUSP.

Orientadora: Suzana Pasternak

1.Favelas – São Paulo(Cidade) 2.Favelas (Vida cotidiana)

3.Segregação urbana 4.Trajetória .Título

CDU 711.585(816.11)

Para meus queridos filhos,

Helena

e João Pedro,

com quem aprendo “coisas”

todos os dias.

Agradecimentos

Escrever uma tese é difícil, todos sabem, até mesmo aqueles que não

experimentaram, admiram quem se aventure na descoberta de algo a

ser revelado ao mundo. E é essa responsabilidade que nos

acompanha quando trilhamos esse caminho. Ao longo desse caminho,

fui-me despindo de métodos, crenças e me desviando errantemente.

Nessa errância, vi-me diante da precariedade como algo que se

colocava como aquela pedra no caminho de que nos fala Drummond.

Em meio à angústia de não ter a linguagem exata, a forma exata,

lembrei-me que já não era tão pouco iniciada na arte de conviver

com a precariedade. Quem tem filhos pequenos, separa-se, faz tese e

reforma a casa, tudo ao mesmo tempo, deve saber do que falo. Foi

assim que retomei a coragem de escrever essa tese, tomando a

precariedade como algo central.

Antes de ter filhos costumava ter mais certezas do que tenho agora.

Quando comecei a escrever essa tese tinha mais certezas do que hoje

costumo ter, e talvez esse seja mesmo o objetivo de empreender

essa aventura: desconstruirmos certezas, irmos ao encontro do

inesperado e do desconhecido de nós mesmos. Por isso, nesse

processo agradeço especialmente aos meus filhos, Lelê e João, pois

foi com eles que aprendi a me aventurar, a prestar atenção nos sinais

para agir com alguma segurança e a confiar o resto, aquilo que nos

escapa à organização, ao planejamento e ao exato, às formigas.

Agradeço especialmente a algumas formigas que contribuíram para a

redação dessa tese, me ajudando a desconstruir as certezas:

Amnéris, com quem tenho trocado semanalmente minhas angústias e

dúvidas, agradeço as suas risadas deliciosas diante das minhas

incertezas, ao entusiasmo incessante na aventura da descoberta de si

e dos outros. À Kiara, minha vizinha querida, contadora de histórias,

construtora de narrativas compartilhadas com aqueles que topam a

vida como uma história aberta. Às minhas amigas de sempre,

Guiomar, Rosa, Rosi, Jussara, todas muito singulares, ao vínculo forte

que sempre tivemos, no qual muitas vezes me amparei seja para as

aventuras intelectuais, e no mais das vezes para as aventuras da vida

mesmo.

À

Guiomar,

pelos

cuidados

sempre

exagerados,

maravilhosos. À Rosa, pelas fotos lindas, e pela presença sempre; à

Ju, por me chamar atenção sobre prazos e compromissos não só com

as formalidades da vida, mas com os afetos. À Rosi, pela leitura

atenta, correção e idéias, além de muita escuta.

Ao Eber, que mesmo à distância, e nem com tanta paciência, me

ajudou a abrir as janelas e ver a vida mais larga.

Aos meus pais e irmãos que começaram a emaranhar essa rede

comigo desde que nasci. Pela teia firme que criamos ao longo de

nossas vidas.

À minha orientadora, Suzana, paciente e vivaz, sempre apta a

embarcar comigo nas aventuras, e a me chamar de volta quando me

deixava levar pelos ventos em direção ao mar revolto.

Os agradecimentos aos demais amigos que me ajudaram no

processo. Os do Observatório das Metrópoles, em São Paulo, por

compartilharem dos momentos finais da tese, do Instituto Via

Pública, Olavo, Pedro, Annez, Corá e Douglas, que confiaram no meu

trabalho, mesmo sem compreender por muitas vezes os atos

ensandecidos de uma mulher à beira de um ataque de nervos. À Ana

Cristina pelas tardes de conversa e pelo abstract. À Marina e equipe

pela força na transcrição das fitas. Ao Sergio Prado, pelo socorro

informático, permitindo que eu pudesse ficar na invencionática. À

Marta Nehring, por me disponibilizar o material dos documentários.

Ao demais, aos meus ex-alunos da Escola de Sociologia e Política,

com quem mais aprendi que ensinei, em especial ao Daniel, sempre

se divertindo com a idéia da ex-professora de métodos quantitativos

ter mudado de rumo; à prima, Ana Beatriz, que nos últimos suspiros

da tese, deu aquela chacoalhada que só quem é da família pode dar,

para que eu terminasse sem reclamar, e pela leitura atenta e

encorajadora. Ao Jorge, Rafael, Daniel, Elias, André, Aguinaldo e

Lívia, por me ouvirem falar (incessantemente) da tese, e me fazerem

rir da vida. Ao Quim, por ter gostado da tese, mesmo sem tê-la lido.

Ao Fernando, pai dos meus filhos, por confiar em mim para o maior

passo da vida, que é ser mãe, meu agradecimento sincero.

Agradeço à CAPES pela concessão da bolsa de doutorado, sem a qual

o trabalho não poderia ter acontecido. E aos funcionários da

secretaria e biblioteca da FAU, sempre muito solícitos.

Finalmente, aos sujeitos mais importantes dessa tese, pois sem eles

não teria sido possível tal aventura. Aos ex-moradores da favela da

Djalma Coelho, em especial aos meus entrevistados e guias na trilha

desconhecida: agradeço por terem me recebido em suas vidas, sem

terem me chamado, e por terem topado contar comigo essa história.

“As flores dos arranjos logo murcharão, mas o importante é que elas

desabrochem na hora efêmera da festa, mostrando o esplendor de

cada flor e a harmonia do arranjo. Como um arranjo, uma vida não

se justifica por sua duração, nem pela sua lembrança, nem pelo

aplauso dos outros, ela se justifica por sua harmonia intrínseca.”

(Contardo Calligaris)

Resumo

Essa tese interpreta a remoção de uma favela da Vila Madalena, zona

Oeste de São Paulo, em 2005, através do estudo etnográfico

realizado antes e durante a remoção da mesma e o recolhimento de

histórias de vida de seus ex-moradores. O foco da tese recai sobre o

modo como esses sujeitos interpretam a casa, as coisas e o entorno

dessas: a relação com os vizinhos, o bairro e a cidade. Recoloca a

questão da remoção como algo dentro de suas trajetórias de vida e

não isoladas no tempo e no espaço. Ao re-interpretar essas

interpretações acerca do texto dos sujeitos e da observação de seu

cotidiano na favela e dois anos após sua remoção, essa tese procura

abrir os sentidos dessa experiência, abrindo-lhe outros significados,

no intuito de elaborar um pensamento a respeito do habitar na

cidade.

Abstract

This work interprets the removal of a “favela” (slum) of “Vila

Madalena”, an west area of Sao Paulo, in 2005, through ethnographic

study conducted before and during the removal of the same “favela”

(slum) and collection of life’s stories of its former residents. The focus

of this work lies with the way these people interprets the house,

things and the surroundings like: the relationship with neighbors, the

neighborhood and the city. Ask again the question of removal as

something within their paths of life, not isolated in time and space. To

reinterpret these interpretations about the text of the subject and

their daily observation about the slum (favela) and two years after

their removal, that approach seeks open the senses of this

experience, opening it other uses, aiming prepare a thought about

the living in the city.

Sumário

Introdução ..................................................................................................................... 11

Capítulo I: Dos mistérios e acasos na escolha das agulhas e dos fios que tecem essa

malha ............................................................................................................................. 21

Um ponto na teia: o reencontro dos sujeitos ............................................................... 31

Um outro ponto na história: abertura à escuta do outro ............................................. 35

Um outro ponto: da difícil representação do espaço .................................................. 37

Desvelar o método ...................................................................................................... 38

Breve trajetória da pesquisadora ................................................................................. 40

A carapaça do questionário estruturado ...................................................................... 44

Do impasse diante do objeto ....................................................................................... 47

Trauma e luto .............................................................................................................. 58

Capítulo II: Conceitos de habitar ............................................................................... 60

Habitar e habitat .......................................................................................................... 61

A linguagem como a casa do Ser, ou a casa como linguagem do Ser ........................ 63

Sobre segregação, a questão inicial ............................................................................ 73

Um pouco da história da construção da tese e da desconstrução de pressupostos ..... 75

As ambigüidades na cidade e na modernidade ........................................................... 77

Capítulo III: Contexto histórico da urbanização em São Paulo .............................. 92

A desproletarização nas grandes metrópoles e seus efeitos sobre a estrutura social e

espacial ....................................................................................................................... 93

A produção social do espaço urbano .......................................................................... 98

O Estado Nacional frente à questão urbana ................................................................ 98

Capítulo IV: Um mergulho caótico na trama desses sujeitos ................................. 112

O documentário ........................................................................................................ 118

O tempo de espera .................................................................................................... 124

Tempo de incertezas ................................................................................................. 126

Relações entre vizinhos ............................................................................................ 128

Relações de trabalho e inserção no mercado ............................................................ 144

Capítulo V: Como a trama se estampa no espaço ................................................... 150

A fotografia quando o silêncio se impõe .................................................................. 151

Quebrando o fio ........................................................................................................ 169

O mercado imobiliário na favela .............................................................................. 175

Cartografias distintas ................................................................................................ 177

Sobre o silêncio ........................................................................................................ 191

Capítulo VI: A reconstrução da trama pela memória ............................................ 194

Memória como reconstrução ................................................................................... 195

Dos personagens dessa história ................................................................................ 198

Matias, um jogador ................................................................................................... 200

Mari, cunhada de Matias, mulher de Moisés. ........................................................... 213

Amanda, do beco do ovo .......................................................................................... 218

Isaura, que encheu a favela de gente ........................................................................ 224

Suzana, seus silêncios e seus medos ......................................................................... 236

Marlene, a vizinha da favela fala do silêncio pós-remoção ...................................... 245

Taís e seus sonhos..................................................................................................... 256

Rui, o presidente ....................................................................................................... 262

Marta, a documentarista .......................................................................................... 271

Interpretando o texto ................................................................................................. 278

Capítulo VII: Alinhavando os pontos ou juntando cacos ....................................... 288

Territórios que se alisam ........................................................................................... 289

As trajetórias de trabalho .......................................................................................... 291

A arte de improvisar ................................................................................................. 292

Da segregação às coisas e suas revelações ............................................................... 295

Bibliografia consultada .............................................................................................. 299

Introdução

O Apanhador de Desperdícios

Manoel de Barros

Uso a palavra para compor meus silêncios.

Não gosto das palavras

fatigadas de informar.

Dou mais respeito

às que vivem de barriga no chão

tipo água pedra sapo.

Entendo bem o sotaque das águas.

Dou respeito às coisas desimportantes

e aos seres desimportantes.

Prezo insetos mais que aviões.

Prezo a velocidade

das tartarugas mais que a dos mísseis.

Tenho em mim esse atraso de nascença.

Eu fui aparelhado

para gostar de passarinhos.

Tenho abundância de ser feliz por isso.

Meu quintal é maior do que o mundo.

Sou um apanhador de desperdícios:

Amo os restos

como as boas moscas.

Queria que a minha voz tivesse um formato de canto.

Porque eu não sou da informática:

eu sou da invencionática.

Só uso a palavra para compor meus silêncios.

Memórias Inventadas: a Infância. Editora Planeta, 2003.

11

Começo a tese por uma instigante questão para mim. O que é

segregar? Como e quando nos sentimos segregados? Quais são os

mecanismos de segregação e de agregação? Quando nos

segregamos, nos separamos daquilo que julgamos diverso de nós?

Como se associa tal questão ao espaço? Quando nos distanciamos

espacialmente daquilo que nos é familiar, o que pretendemos buscar?

Na trajetória de desterritorialização e re-territorialização, quais são os

elementos que se ressiginificam, como são elaborados pelos sujeitos

das travessias. Essas são as questões que me levaram ao encontro

dos meus sujeitos de pesquisa. Esses sujeitos são homens e

mulheres simples, pobres, muitos negros, alguns brancos, uns

migrantes, outros nascidos em São Paulo; o que há em comum entre

eles é que habitaram na ou próximo a uma favela em uma região que

vem se metamorfoseando na cidade de São Paulo, não de modo

isolado, mas dentro de um contexto mais amplo de transformação do

espaço urbano. Ao invés de ater-me a esse processo já bastante

explorado na literatura1, atenho-me a uma pequena parte, que não

compõe junto com as demais um todo, mas que tem em si mesma os

elementos desse todo.

A partir da observação etnográfica do processo de remoção dos

moradores da favela da Djalma Coelho – desterritorialização - e das

narrativas dos sujeitos que a experimentam, reconstruímos suas

trajetórias (e a minha como pesquisadora); seus deslocamentos (e os

meus metodológicos); as pulsões e paixões que os levaram e levam a

deixar seus territórios familiares; o que trazem na mala; como

transformam seus habitus, como se posicionam frente aos choques e

traumas da modernidade na grande cidade, o que sentem ao serem

expelidos dos territórios que escolheram como seus destinos e a

dificuldade da volta aos territórios que deixaram para trás. A

1 A esse respeito cito especialmente Ferreira, J. S. W. (2007) O mito da cidade global: o papel da

ideologia na produção do espaço urbano. O autor analisa as transformações recentes na produção da

cidade de São Paulo, sob o mito da cidade-global.

12

experiência desses sujeitos é a fonte, a essência da interpretação que

apresento nessa tese, que não objetiva uma síntese, uma resposta à

questão que enuncia, mas a abertura para perspectivas de análise

dos mecanismos sutis de construção de tramas sociais. Ao longo da

pesquisa, fui me afastando do procedimento de testar uma hipótese,

para abrir-me ao diálogo com os entrevistados, dispondo-me a

escutar quais eram suas questões. Isso não significa ter abdicado da

tese, mas significou uma alteração metodológica que mais à frente

explicitarei. Nas histórias de vida, nos seus relatos e experiências

cotidianas, no diálogo entre nossas biografias, surgiram as fontes de

interpretação dessa tese.

Do repouso das questões iniciais, brotaram outras questões: como

esses entrevistados, pobres e semi-analfabetos na maioria dos casos,

constroem suas narrativas, seus enredos de vida, como a casa e o

espaço que habitam se articulam a esse processo, como as “coisas”

adquiridas ao longo da vida contam outras “coisas” de si mesmos,

como se relacionam com o mundo da palavra escrita, como

interpretam a si mesmos nessa intrincada rede de relações, suas

ambigüidades, suas pulsões e paixões, o “lugar” e o significado da

política em suas vidas.

O que poderia ser um pressuposto para qualquer antropólogo

jovenzinho iniciando uma pesquisa para essa já não tão jovem

pesquisadora foi uma longa e árdua descoberta. As ambivalências e a

linguagem dupla ainda estarão presentes nessa tese porque fazem

parte de sua construção e de sua temática. Ao invés de esconder o

ambivalente, as dúvidas e as angústias, opto por expô-las, copiando

a lógica de meus entrevistados. Admito que a leitura dessa

interpretação da interpretação possa causar um certo desconforto,

mas faço aqui um convite para a escuta do que tenho a dizer,

disposta a que encontrem um outro sentido naquilo que irei contar.

13

As histórias de vida aqui trabalhadas serão lidas como um texto a ser

interpretado, tal como nos propõe Erben2, sem que se faça uma cisão

entre a estrutura social e a subjetividade, pois é a dialética entre a

experiência pessoal e a experiência social e/ou cultural que aqui

interessa. Abrir-se a ler a aventura de uma vida é, tal como o autor

nos diz, uma abertura ao imprevisível, ao momento originário, do

espanto, tanto para o narrador, quanto para quem o escuta; é a

partir do círculo hermenêutico, em que as partes e o todo se

articulam, que se pode fazer essa articulação entre o pessoal e o

cultural, valorizados os momentos das narrativas em que as

passagens, as transições e as metamorfoses ocorrem.

É nas rugosidades de suas narrativas, naqueles nós ou enlevos onde

se colocam as emoções, os afetos, a abertura ou o fechamento de

perspectivas, que se concentra a escuta. Como se em uma trama

aparentemente lisa, detivéssemo-nos nos nós e emendas, na

sensação tátil de rupturas, esgarçamentos ou religamentos. O uso da

metáfora nesses momentos pelos sujeitos que narram fez-me pensar

na questão da linguagem e da sua relação com os pontos ou nós nas

trajetórias. Não se trata de perguntar-lhes o que pensam sobre tal ou

qual evento, mas de captar esse momento de tensão, de percepção

sensível das possibilidades de vestirem suas vidas de emoções, de

darem significados a seus mundos.

Lendo Viveiros de Castro3, dos conceitos bebidos nas fontes de

Deleuze-Gattari, vem a proposta “da troca, ou circulação infinita de

perspectivas – troca de troca, metamorfose de metamorfose, ponto

de vista sobre ponto de vista, isto é: devir.” O conceito de

lateralidade, a apropriação da perspectiva barroca, em lugar da

romântica, que lê a sociedade como organismo, a busca da

2 Erben, M. Biografia e autobiografia. Il significato del método autobiográfico. In: Il método

autobiográfico. Semestre sulla condizione adulta e processi formativi – 4 – Edizone Ângelo Guerini e

Associati. Milano, 1996.

3 Viveiros de Castro, E. “Filiação intensiva e aliança demoníaca,” em Novos Estudos, nº 77, março de

2007.

14

multiplicidade de relações, de lados, tentar escrever a “história da

contingência”, atentando ao “devir” como designando “um

movimento que desterritorializa ambos os termos da relação que ele

estabelece, extraindo-os das relações que os definiam anteriormente

para associá-los através de uma ‘conexão parcial’.” (p. 116). O

esforço empreendido nessa tese é de estabelecer as conexões

parciais com os sujeitos da pesquisa, fixando-me sem parecer

obsessivamente nessa conexão que estabeleço com cada um deles,

estando todos nós nos relacionando nas nossas lateralidades. Não

estamos dentro nem fora, mas no espaço entre, na conexão parcial

estabelecida entre nós e é dessa interpretação da linguagem, da

interpretação do entre, que as janelas se reabrem em novas

interpretações que, reenviadas, serão novamente transformadas,

infinitamente, sem buscar o sentido original, mas admitindo que a

revelação dessa relação ao ser de novo linguagem já é uma traição à

coisa revelada.

Sennett também convida a essa experiência de vaguear como

narrador; o narrador não detém a verdade de si mesmo ou do outro;

na inter-relação entre esses sujeitos, no que há de incerto nela,

nasce uma compreensão súbita, que segundo ele, é o princípio do

respeito mútuo.

“Todavia,o ato pessoal de narrar a história de alguém a terceiros

também pode romper com essa rigidez. O narrador vagueia a partir

de seu objetivo, o ouvinte pergunta alguma coisa obscuramente

relevante; o vaguear com freqüência incita uma compreensão

súbita e consciente de ambos. Nesta incerteza da narração está um

princípio essencial de respeito mútuo.” (Sennett, 2004, p. 276)

Na tese de Herrera4, a partir dos conceitos de Boaventura de Souza

Santos, tem-se uma outra formulação no mesmo sentido: a transição

das categorias sociais, a partir das mudanças do século XX, se fazem

acompanhar de uma transição em termos teóricos. Ante essa

transição, diz o autor, a ciência social ou retorna a seus velhos

4 Herrera, J. D. Elementos hermenéuticos em la autocomprensión de las ciencias sociales. Universidad

Nacional de Colombia. As referências ao texto de Herrera foram traduzidas pela autora e se encontram

nas páginas 43-47.

15

determinismos, como o econômico, deixando como secundário o que

ocorre fora dessa esfera, ou se mostra “perplexa e reconhece que

compreender a realidade social contemporânea implica assumir uma

posição reflexiva frente ao que está ocorrendo, no que faz necessário

criar conceitos e teorias ‘fora de lugar’, quer dizer, em um sentido

distinto das distinções, divisões e privilégios disciplinares”.

No lugar de modelos dominantes de explicação, Santos sugere a

constituição de “mil comunidades interpretativas”, organizadas a

partir de racionalidades locais. Não se trata, entretanto de uma

“fragmentação do mundo atual”, mas de reconstituir as formas de

conhecimento situado, no lugar da “fragmentação maior e mais

destrutiva que foi legada pela modernidade”.

Amparado no conceito de Santos de “hermenêutica de suspeita”, que

se traduz em uma atitude de desconfiança acerca das abstrações

universalizantes e globalizantes herdadas pelas ciências humanas;

trata-se, sobretudo de admitir o caráter temporário e parcial de

toda aproximação científica e de sua semelhança ou parentesco

com a construção narrativa.

En esto sentido, lo que podemos esperar de la ciencia pasa por

asumir que lo que ella produce son construcciones teóricas situadas

y contextualizadas dentro de la producción de um saber más

amplio, em cuyo âmbito la pertenencia del investigador con

respecto a los fenômenos que estudia es asumida como parte

del proceso y cujo resultado es um saber más entre muchos.

Algo muy cercano a la noción de interpretación tal como la entiende

la hermenêutica.” (Op. Cit, p. 46)

Esse é, portanto, o suporte metodológico dessa tese, que se propõe a

elaborar uma interpretação de um texto, a partir de uma “fusão de

horizontes”, ou o estabelecimento de um diálogo intercultural,

admitindo-se que a visão de mundo de um conhecimento local é

incompleta e débil, e é no diálogo entre as comunidades

interpretativas que se alcança não a completude - dado que este não

é um objetivo passível de alcance - mas a máxima consciência da

“incompletude recíproca”, o que produz uma atitude no sentido de

16

estabelecer um diálogo “tendo um pé em cada cultura”. (op. Cit, p.

47).

“Fusão de horizontes”, ou relação dialética5 entre o sujeito intérprete

e significado do texto, conceito aqui utilizado de modo ampliado, não

se atendo simplesmente ao conjunto de palavras, mas estendendo-se

à paisagem urbana, ao vestuário, às formas da cidade, às “coisas”,

assumidas como expressões culturais legíveis e, portanto, passíveis

de interpretação.

O antropólogo Roberto Oliveira6, em sua conferência acerca da crise

epistemológica na antropologia, expõe de modo didático a tensão

entre os paradigmas da compreensão e da explicação e a mediação

dialética entre esses paradigmas na investigação antropológica. Esta

investigação deve ter em conta, segundo sua interpretação, a

visualização dos limites dos dois paradigmas, a fim de transcendê-los

na prática investigativa.

“Se na filosofia hermenêutica de Gadamer o diálogo e, com ele, a

compreensão (ou Verstehen) é constitutivo do Homem (daí ela ser

uma hermenêutica ontológica), para a antropologia a relação

dialógica conduz as partes envolvidas a uma compreensão dupla – o

que significa que o Outro é igualmente estimulado a nos

compreender... Isso se dá graças a ampliação do próprio horizonte

da pesquisa, incorporando, em alguma escala, o horizonte do Outro.

Trata-se da conhecida ‘fusão de horizontes’ de que falam os

hermeneutas. Contudo, gostaria de enfatizar, que em nenhum

momento o antropólogo deve abdicar de posicionar-se no interior de

seu próprio horizonte... “(op. Cit., pg. 20-21)

A intenção é abrir um espaço para que a descoberta, ou a

transferência de sentido de um horizonte para outro, o deles,

entrevistados, e o nosso, de “investigador” possa vir a acontecer.

Momentos de emoção na entrevista, de risos e silêncios, de troca de

informações sobre os mundos distintos, não como se estivéssemos,

nós pesquisadores, na “pele” dos entrevistados, mas possibilitando a

troca de sentidos no contato entre as “peles”, em um estado de

respeito mútuo, da consciência da diferença, muitas vezes sem

5 Dialética sem síntese a que estamos submetidos (Merleau-Ponty).

6 Oliveira, R. C. A antropologia e a “crise” dos modelos explicativos. Primeira Versão. IFCH/Unicamp,

nº 53, janeiro de 1994.

17

nomeá-la ou conceituá-la, somente percebendo tal diferença, e

traduzindo o texto do outro nos termos de nosso próprio texto. Os

momentos mais preciosos dessas narrativas, já posso antecipar,

ocorrem quando os entrevistados me fazem, de início, assombrar-me,

para então eu poder rir de mim mesma, ou até mesmo pensar sobre

mim e minha construção de mundo. O movimento foi de, na

precariedade desses sujeitos, descobrir a minha própria precariedade,

que é a um só tempo pessoal e cultural.

Apropriar-se da hermenêutica para ler o texto escrito e implícito nas

formas da cidade, da casa, do bairro, implica enfrentar a distância

entre os horizontes culturais do investigador e os valores que se

ocultam na escrita desses outros textos.

Não há, quando se estabelece essa conexão com os entrevistados,

como deixar de construir a trama das narrativas dos sujeitos, elas

clamam por serem contadas. É claro que com a liberdade poética do

autor que as narra, de acentuar, de tentar traduzir a cadência da

linguagem que é falada para a escrita, porque não há outro meio.

Mesmo que transcritas, as entrevistas perdem muito da emoção de

quando se faz a escuta. Lá se está diante do sujeito, não há como

reproduzir a cena, as emoções que subjaziam aos entrevistados e ao

entrevistador. Tento honestamente recriá-las, muito consciente da

incompletude da tarefa, eis aí a questão central da tese: da

incompletude da vida dos sujeitos, da vida do bairro, da cidade, dos

espaços de abandono que surgem das tentativas de organização e

ordenação. Ocupo-me mais desses espaços, do vazio, das lacunas,

das surpresas, da mutação, que da “coisa” terminada e não à toa o

objeto de estudo escolhido foi o de uma favela que se desmanchou

no ar.

Apesar de certas irregularidades e alguma fluidez entre assuntos, há

que se organizar um texto para que se possa compreender a idéia do

autor. Assim, esta tese estará assim organizada: no capítulo I,

18

discorro sobre o método de pesquisa, da desconstrução dos

pressupostos iniciais à interpretação do texto que recolho. Do pó que

restou do primeiro esboço de tese, assopro-o em novas direções,

tendo os eventos e acontecimentos, as histórias dos sujeitos e nossos

encontros, ou nossas relações como recipientes desse processo de

desvelamento do que seria o novo objeto de tese. Nesse período,

tratado aqui no texto com essa serenidade, quase enlouqueci, pois

que me parecia terem fugido os personagens, o cenário e o roteiro. A

diretora ficou só no set à deriva dos bons ventos. E eles sopraram,

encaminhando-me para caminhos e passagens pelos quais eu nunca

ousaria trilhar não fosse pelo episódio traumático da remoção.

No capítulo II, trato dos conceitos de segregação espacial e de

habitar, por serem tão imprecisos e sujeitos às diversas

interpretações.

Em seguida, recoloco como pano de fundo a história da urbanização

em São Paulo. Embora já tratados à exaustão por outros autores,

considero relevante ter esse capítulo escrito há algum tempo aqui

nessa tese, em razão de ser um tema de interesse para os leitores de

alhures.

Nos capítulos IV e V, trato do objeto específico: a favela e o processo

de remoção, sendo que primeiramente interpreto os dados coletados

durante os meses de pesquisa na favela, quando a remoção ainda era

apenas uma possibilidade. No capítulo V, descreve-se o processo de

remoção. Começo a contar a história da favela a partir desse ponto, a

remoção, pois foi um acontecimento traumático não só na vida

daqueles que ali moravam, mas para todos que o testemunharam.

No capítulo seguinte, após meses de silêncio, retomo o assunto,

agora pela memória dos que ali viveram. Seleciono, edito e interpreto

as narrativas dos sujeitos entrevistados, sendo todos ligados ao

menos por um fio tênue e inexistente que era o espaço da favela, já

demolido. Dos vínculos estabelecidos entre os sujeitos que

19

testemunharam tal evento, desencadeou-se uma nova história não

apenas sobre esse espaço, mas sobre os conceitos que então

construímos. Ao final deste capítulo, algumas considerações sobre as

narrativas, abrindo-as para novos sentidos.

Ao final, tecem-se comentários a respeito do material pesquisado,

alinhavando toda a trama da tese mesmo que em um frouxo

alinhavo.

Em pauta as continuidades e descontinuidades no processo de

alinhavo da trama de relações que se estabelecem entre os sujeitos

moradores de uma favela, removida de um bairro de classe média – a

Vila Madalena – com o espaço social de seu entorno e com demais

territórios por onde circulam na cidade. O objeto é o conhecimento

dos

processos

de

deslocamento,

não

apenas

em

seus

desdobramentos objetivos, mas tendo por foco a subjetividade

desses sujeitos quanto às escolhas de seus territórios. Pretendo

explorar o processo pelo qual constroem e reconstroem seus espaços

de moradia, seu “habitar”, suas relações de vizinhança e a rede de

apoio na vida cotidiana. Esses sujeitos poderiam ser inseridos

naquele imenso e crescente segmento a que Bauman denomina

“vidas desperdiçadas”, os refugos humanos, aqueles que “sobram” na

construção da ordem moderna, embora delam façam parte. Os

sujeitos dessa pesquisa são migrantes, pobres, removidos de uma

favela, a última favela do Alto de Pinheiros, conforme anuncia a Folha

de São Paulo, empregadas domésticas ou seguranças e vigias das

casas onde moram aqueles que vêem nesse o “outro” de quem

devem se proteger.

20

Capítulo I: Dos mistérios e

acasos na escolha das agulhas

e dos fios que tecem essa

malha

21

“Nesse momento não caía mais. Subia pelo fio. Até certo ponto, apenas. De

repente, parou e se jogou de novo no espaço, agora para cima, mais uma vez

deixando um fio no seu rastro, mas numa direção completamente diferente. Até

alcançar outra folha. Depois voltou novamente pelo fio e retomou o processo.

Percorria uma certa distância, mudava de direção, lançava-se no vazio secretando

das entranhas o fiapo que a sustentava, fixava-o em algum ponto de apoio,

retomava parcialmente o caminho percorrido... Seguia com firmeza um plano

matemático rigoroso, como quem não tem dúvida alguma sobre o que está

fazendo”. (Ana Maria Machado, o Tao da Teia – sobre textos e têxteis)

Nesse trecho do artigo, em que a escritora descreve o movimento da

aranha ao tecer sua teia, , considero que há muito do processo de

construção de uma tese que se propõe a desvendar o emaranhado

pelo qual se desenha a trajetória de vida dos sujeitos e de sua

relação com o espaço, seus rastros, os fios que se soltam, as idas e

vindas. Diferentemente da aranha, porém, essas trajetórias não

parecem seguir um plano matemático rigoroso, mas a estranha e

caótica teia dos desejos, dos afetos e das relações humanas sem

esquecer o imponderável. Dos relatos e da inter-relação que

estabeleci com meus sujeitos não houve algo parecido com um plano

matemático rigorosamente traçado, mas um emaranhado de pontos,

nós e intrincadas relações, referências interligadas, e cabe a mim, por

ter sido eu a engendrar esse jogo, desvelar o processo pelo qual se

emaranham e se desenrolam os fios dessa teia.

Inicio o capítulo com uma metáfora, não por um acaso, mas por uma

escolha metodológica. Tal como disse acima, a metáfora é a figura de

linguagem do espaço entre, da tensão e do conflito. Gauthier,

conceitua a metáfora:

“... a metáfora está entre o mundo do sentido (interno à linguagem)

e o mundo da referência (da realidade não-linguística). Ela é o

índice de um trabalho do espírito, que elabora um conflito, uma

tensão dentro da língua (entre o que a metáfora é, por ser

semelhante, e o que ela não é, por ser diferente) e, entre a língua e

o real (pois a metáfora visa a algo que não está dado, que não está

presente, ela dá vida a um produto da imaginação)”. (GAUTHIER,

p.131)

Por que fui buscar nessa teia ou não em qualquer outra o que haveria

de ser descoberto? Porque identifiquei esses sujeitos da pesquisa,

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desde que os vi pela primeira vez, e depois nas matérias de jornal, no

documentário realizado ali, como metáforas da minha vivência. Fui

buscar neles algo que me era incômodo: como viver cercado de

desiguais?

Como

ressignavam-se

ou

rebelavam-se

vivendo

cotidianamente em um mundo de ambigüidades e ambivalências? A

questão vinha, pois, de uma vivência de estranhamento a qual eu

não conseguia me adequar. Refiro-me aqui ao que Gauthier

denomina, a partir de Deleuze e Guattari, do “componente

transformacional, que mostra como um regime pode ser traduzido

num outro, e um novo ser criado a partir de transformações” (p.

130).

Tal componente, segundo o autor, encontra-se muito ativo nos

sujeitos falantes de nossas pesquisas. Ainda que nossas histórias de

vida sejam distintas, as minhas e a dos sujeitos de investigação,

sempre tive nessa inter-relação uma questão subjacente à minha

existência: sendo neta de imigrantes, filha de operário do ABC, vivia

eu em 2005 na vizinhança “rica” da Vila Madalena, onde a favela se

encrustrava, metida a fazer doutorado na FAU, ou seja enredada

numa trama a qual não me sentia pertencer, por várias razões: não

tendo na origem intelectuais, não sendo urbanista, havia feito a

escolha de me aventurar na busca de sentido para as vidas de

sujeitos que se aventuram na busca incessante de se separarem

daquilo que nelas é precário. Assim, foi com tal questão, de como

transformar essa experiência em algo que fizesse sentido à academia

que iniciei o processo de pesquisa. Portanto, meu objeto de pesquisa,

está relacionado ao modo pelo qual transformamos nosso espaço de

vivência, a partir de nossas experiências, como ressignificamos

espaços, a partir de nossas próprias experiências.

“O importante é que existem nessa máquina física poços de

captura, que atraem as energias em pontos instituídos, repetitivos,

reprodutores dele, devoradores; e existem, inversamente, linhas de

fuga desejantes, criadoras de jogos não previstos, que nem sempre

vêm por vontade própria das pessoas, mas perpassam o conjunto

de corpos e afetos. Uma forma de desordem criadora, de caos na

organização.” (GAUTHIER, p.129)

23

O significado, pois, de empreender essa tese, está atrelado à

necessidade, como pesquisadora, de descobrir, a partir da interação

com os sujeitos de pesquisa quais seriam as bacias de captura – para

onde convergem os agenciamentos discursivos heterogêneos, sendo

capturados pela cultura dominante – e quais seriam os espaços de

desterritorialização, aqueles onde se multiplicam as variações,

resistindo à média, onde mora a maioria.

“Todos nós queremos dasarmadilhar o mundo, queremos que o

mundo seja mais nosso e solidário. Todos queremos um mundo

novo que tenha de tudo de novo e muito pouco do mundo, e

queremos que ele seja um sonho e que nós apareçamos nesse

mundo como um sonho também.

Há armadilhas que moram dentro de nós. Nós acreditamos que as

armadilhas mais sérias moram fora de nós, moram no mundo. Mas

nós somos parte desse mundo e incorporamos essas armadilhas de

maneira tão sutil que elas se instalaram na raiz do nosso próprio

pensamento. Quebrar as armadilhas do mundo é em primeiro lugar

quebrar o mundo das armadilhas que vive dentro de nós. Vou

escolher algumas delas.

A primeira é a que chamarei de armadilha da ‘realidade’. Esse

conceito é uma espécie de grande fiscalizador e controlador de

nosso pensamento. O desafio é não levarmos tão a sério isso que

afinal é uma construção social e uma representação ideológica. De

fato, ensinar a ler é sempre um apelo para essa transcendência, pra

vermos para além daquilo que é imediato.

A armadilha número dois é a da identidade. Pensamos a nossa

identidade como uma espécie de dado adquirido. Nossa verdadeira

natureza humana é não termos natureza nenhuma. A escrita me

deu a felicidade de poder viajar entre identidades que estão dentro

de mim. Eu já fui mulher, já fui velho, já fui criança, já fui de todas

as raças. É isso que a literatura dá não só a quem escreve, mas a

quem a lê. É possível transitar de vidas, podemos ser múltiplos. Não

vale a pena saber ler e saber escrever se não for para isso: para

nos deixarmos dissolver em outras identidades.

A terceira armadilha é a hegemonia absoluta da escrita. Existe uma

idéia de que a sabedoria mora no universo da escrita, e isso

transmite um certo olhar arrogante para o universo da oralidade,

como

se

fosse

uma

coisa

menor,

olhado

com

certa

condescendência. No universo da oralidade existe uma filosofia com

sua própria lógica. Esse culto que fazemos de uma cultura livresca

pode de fato destruir aquilo que é o sentido da cultura e do livro,

que é a descoberta da alteridade. O desafio é ensinar a escrita a

dialogar com o mundo da oralidade.

A quarta armadilha é achar que a leitura se restringe à leitura da

palavra. A idéia de leitura aplica-se a um vasto universo. Lemos a

emoção no rosto das pessoas, lemos as nuvens para sabermos o

tempo, lemos a vida em geral. Tudo pode ser uma página. O que

faz com que alguma coisa seja uma página é a intenção da

descoberta em nosso olhar.”

(Trecho da conferência de Mia Couto no 16º Congresso de Leitura

do Brasil, realizado em julho de 2007, na Unicamp, publicado no

Jornal da USP, 16 a 22/07, página 3)

O escritor me veio à mente quando ouvi o relato de um dos

entrevistados sobre a morte da avó. Segundo seu relato, quando

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velhinha, a avó começou a “cantar feito galo”. Só depois de muito

tempo, disse-me ele, é que conseguiu compreender a doença da avó:

“coisa de macumba”, só o pai-de-santo poderia resolver. Passaram

oito meses ele, os irmãos, que eram criados com os avós, morando

em uma cidade vizinha, para que a avó fosse curada. E de fato se

curou, como relata, mas pouco tempo depois morreu pequenininha,

do tamanho de um bebê.

- ... meu avô tinha coisa, gado, mas vendeu tudo, para cuidar da

minha avó, que tinha uma doença séria, que só vim a entender

depois de grande. Me disseram que era de macumba que tinham

feito com ela. Ela cantava como galo, meu avô ficava louco, levava

ela em pai-de-santo para curar, chegava lá, fazia trabalho e ela

ficava boa. Uma vez tivemos que mudar de cidade, vivemos em

Utinga por 8 meses, por causa disso, que era para passar um tempo

fora e depois voltamos para a cidade

- Como é o nome da doença dela?

- É coisa assim de macumba, ela cantava como galo, negócio

horrível, a gente era pequeno, ficava desesperado, aí ela teve

diabete também e acabou morrendo. Meu irmão disse que ela

morreu bem pequenininha (fez com o braço como um bebê).

Murchou, ficou um caixão bem pequeno.

Senti-me tal qual o italiano Massimo Risi, personagem de Mia Couto

no romance O último vôo do Flamingo, um enviado da ONU a

Tizangara, cidade africana, para desvendar as causas das mortes de

soldados da força de paz. Tal como o italiano, que falava bem o

português, mas não compreendia as histórias fantásticas da

população local, às vezes me via diante de tais situações com os

sujeitos de minhas pesquisas. Embora falemos a mesma língua, a

distância entre nossos mundos nos impedia de compreender as

perguntas e as respostas que fazíamos. Em alguns momentos,

observei que minhas questões não faziam sentido a eles, e isso

facilmente se identifica pelas respostas simples, monossilábicas ou

então pela repetição de algum bordão, de frases feitas, como

explicação. Só a partir da abertura da escuta, da percepção de que o

pesquisador atua como um tradutor, alguém a captar a história

daqueles que têm na oralidade seu meio de comunicação, é que pude

então desvendar as questões relevantes para os sujeitos

pesquisados.

25

Meu campo de pesquisa, contudo, não se desenvolveu em algum

vilarejo africano, mas em São Paulo, maior cidade brasileira, 10

milhões de habitantes atualmente. Grande parte dos entrevistados na

pesquisa nela vivem por mais de 20 anos; embora tenham nascido

em outros estados brasileiros, migraram nas décadas de 70 e 80 em

busca de oportunidades de uma vida melhor na cidade grande, cujo

crescimento parecia capaz de incorporar a grande massa de

trabalhadores em busca de seu quinhão de modernidade.

Um dos entrevistados, a quem me refiro nessa parte do texto, nasceu

no sertão baiano, em Nova Cruz, e lá vivenciou a história da morte da

avó, que agora relato como uma questão que permeia todas as

narrativas: a difícil experiência da morte, a falta de explicação, o

escancaramento a que esses sujeitos nos colocam quanto à

fragilidade e precariedade da condição humana. O entrevistadosujeito

da sua história, insere-se na vida e no cotidiano da metrópole, com

os valores apreendidos no sertão baiano. Ser um “homem de

respeito” é sua marca, seu traço de distinção para adentrar na

modernidade.

“Meu avô, mas ele era de autoridade, bastava olhar pra gente, já

abaixava a cabeça. Se tivesse uma pessoa mais de idade que a

gente conversando, não podia passar no meio, tinha que sair de

perto, tinha que rezar todos os dias. Era legal, até hoje tenho muito

respeito pelas pessoas, às vezes dizem ‘o Matias, você é tímido, não

fala com ninguém’ mas é o jeito, o respeito que aprendi com os

avôs. Essa vergonha veio da criação. E isso foi... crescendo,

crescendo, estudei pouco, até o segundo ano, do colégio, não,

segundo ano, como a gente falava lá, aí fui trabalhar na venda do

irmão do Zé, e só sonhava em vir para aqui. Via todo mundo que

chegava daqui bem vestido.” (Matias, ex-morador da favela)

E o respeito permanece como conceito relevante durante toda a

entrevista. A mulher, com quem se casou, era “assim, moça de

respeito”. Sobre o apelido dele – que se refere a um local de origem

diverso do seu -, a explicação remete ao respeito, à timidez, em

oposição à imagem de malandragem, associada à favela, e também à

atividade – dono de bar e apontador de jogo do bicho.

É, esse foi o apelido que botaram em mim, mas sempre fui assim,

muito tímido, de respeito, aquele que meu avô me ensinou, eu não

sou de chegar nas pessoas e trocar idéia, se a pessoa chegar em

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mim, falo. Tenho um primo que conversa, nem parece baiano,

fala... mora aqui no Rosana, tem um lado de chegar e conquistar a

menina mesmo, com a palavra e eu pergunto ‘como você faz?’ e eu

tenho que tomar umas (riso) para ver se fico mais alegre, ele não,

tem o papo, eu fico com inveja, tem o jeito de chegar nas pessoas,

às vezes mentir...

Na leitura da entrevista7, ele se espanta com o tanto de história que

tinha para contar, começou na primeira página (eram 17, ao todo) e

foi logo dizendo que autorizava que eu usasse tudo, orgulhoso do

tanto de escrita que havia produzido. Insisti para que ficasse um

tempo com ela, que relesse com cuidado e que me apontasse, caso

houvesse, trechos que preferia não ver publicado. Na manhã