Teu Dinheiro me cai Bem por Maikon P. Garcia - Versão HTML

ATENÇÃO: Esta é apenas uma visualização em HTML e alguns elementos como links e números de página podem estar incorretos.
Faça o download do livro em PDF, ePub, Kindle para obter uma versão completa.

index-1_1.jpg

index-2_1.png

- 5 -

M AIKON P. GARCIA

Teu Di nhei ro m e Cai Bem

2012

index-3_1.png

index-3_2.png

- 6 -

1Este livro eletrônico é de distribuição GRATUITA com autorização do autor e editora. A

intenção é de facilitar o acesso à leitura para quem não pode adquiri-lo em formato

impresso, também visa proporcionar aos Deficientes Visuais a oportunidade de

conhecerem novas obras.

Se desejar adquirir este livro em formato impresso, favor contatar a editora pelo email:

dialogar@editoradialogar.com.br ou telefone: (47) 3028-2556.

Contato com o autor: Vide final do livro...

index-4_1.png

- 7 -

SINOPSE

Na cidade do Porto o principal assunto nas ruas é um só; todos estão

curiosos, afinal, alguém da cidade acertou sozinho o maior prêmio da

história da loteria européia. Porém, os dias estão passando e nada

desse sortudo milionário aparecer para reclamar seu prêmio. No

entanto, pouco antes do prazo do bilhete premiado expirar, um

misterioso assassinato dentro da Biblioteca Pública do Porto trás à tona

o paradeiro do bilhete premiado que, por acaso do destino chega às

mãos de Jack, um simples rapaz brasileiro que trabalha há cinco anos

de garçom em Portugal. Eufórico, ele recebe o prêmio, toma coragem e

volta ao Brasil na esperança de reencontrar seu grande amor, com

quem já não fala há muito tempo. Aparentemente tudo está perfeito

em sua vida, contudo, seus dias de milionário podem estar com os dias

contados, pois o verdadeiro dono do bilhete e um misterioso e sádico

assassino não medirão esforços e irão até as últimas consequências

para colocarem suas mãos nessa fortuna. De Portugal ao Brasil, do

Brasil à Suíça, Teu dinheiro me cai bem levará os leitores a um mundo de

aparências e questionamentos; onde os personagens enfrentarão

inúmeros desafios e obstáculos em nome da fortuna. E nessa jornada

aprenderão que quando o assunto é dinheiro, não se deve confiar nem

mesmo em suas próprias sombras...

- 8 -

PRÓLOGO

Praia Brava, Caiobá-PR

Cinco anos antes

Abriu os olhos, a luz do sol o fez cerrá-los novamente. Demorou um minuto

para conseguir se adaptar à claridade. Quando conseguiu finalmente abri-los

lá estava ela, linda como sempre, seus longos cabelos pretos, seu rosto

escultural e seu olhar penetrante que ele tanto gostava.

— Oi, Jack. — disse ela em tom afável de voz se misturando com o suave

som das ondas do mar.

— Oi, Anne, o que faz perdida por aqui? — respondeu ele com o coração

disparando, levantando-se de sua cadeira de praia.

— É verdade o que sua mãe me falou? Que você vai mesmo embora para

Portugal?

— Bom, você sabe que o Beto mora lá, ele me convidou para ir trabalhar

com ele... como acabei de fazer dezoito anos já posso escolher meu próprio

destino, não acha?

— Mas Jack, se você for... como fica a gente? Quem vai ser meu melhor

amigo? Pra quem vou contar todos meus problemas? Conversar sobre carros?

Jack estava angustiado com aquelas perguntas, por mais que tentasse ser

apenas amigo de Anne, tinha por ela um sentimento maior, uma paixão

terrivelmente forte, que o agoniava constantemente por não ser correspondido,

não por que ela não gostasse dele, até gostava, e muito! Mas sua família e sua

religião impedia severamente que Anne tivesse relacionamento com alguém

fora de sua Igreja. E por mais que ela gostasse dele, sabia que não poderiam ser

mais do que amigos, a menos que ele se batizasse em sua Igreja, mas sabia ela

que seria difícil isso acontecer, pois Jack tinha uma filosofia de vida totalmente

despregada de qualquer religião. Os dois se conheceram ainda nos tempos de

- 9 -

escola e, conforme a amizade foi aumentando, ambos perceberam que um

completava o outro, pois tinham uma facilidade incrível de se compreenderem,

mas isso não era o suficiente para ela poder se relacionar com ele, por mais que

também quisesse isso.

Há mais ou menos um ano atrás, Jack já não conseguindo mais esconder

seu amor por ela e, sabendo que ela jamais iria se declarar para ele, resolveu

lhe escrever uma carta declarando seu amor, porém depois dessa carta Anne

dissera que não poderiam namorar porque já estava namorando um rapaz de

sua Igreja. Aquilo foi um duro golpe para Jack, e desde então ele prometera

nunca mais tentar algo com a jovem, pois se ela gostasse dele, não faria essas

coisas para magoá-lo.

— Mas Anne, eu sei que prometi não tocar mais nesse assunto, mas você

sabe que não consigo ser somente seu amigo... Você pensa que o que sinto por

você acabou, mas não acabou, pelo contrário, cada dia que vejo e penso em

você esse sentimento só aumenta... Sabe, acredito que essa mudança de vida

será melhor para nós dois... você poderá continuar sua vida, voltar para seu

namoradinho da Igreja sem ter que se preocupar em tentar escondê-lo de mim

ou ficar tentando arrumar explicações para me fazer acreditar que você

realmente gosta dele e por isso não quer ser minha namorada.

— Jack não fala assim, você está sendo egoísta! E saiba que eu não estou

namorando com o Breno.

— Não adianta tentar esconder, pode ficar com ele, ele não é perfeito

para você? Case-se com ele, seja feliz!

— Por favor, não me torture mais do que já estou sendo. Você sabe que

não podemos... Mas... eu te amo, como amigo, não está bom?

Jack não respondeu nada, apenas ficou olhando as ondas se quebrando

na imensidão da Praia Brava, enquanto passava em sua cabeça um filme dos

últimos três anos em que fora amigo de sua amada. Lembrou o dia em que

escalaram o Morro do Boi pela primeira e única vez; o dia que ficaram presos

na Ilha das Tartarugas graças à maré cheia, e tiveram de ser resgatados pelos

bombeiros; ou as simples, porém inesquecíveis tardes em que andaram à toa

sobre a areia, e iam do Morro do Boi até o Pico de Matinhos conversando

milhares de assuntos e dando muitas gargalhadas; e depois voltavam pelo

calçadão de pedras portuguesas contando as gaivotas que lá estavam

esculpidas, Anne sempre teimava, dizia que não eram gaivotas e sim cabeças

de orca.

- 10 -

— Jack, me responda! — indagou ela quebrando o devaneio dele.

— Não tenho o que responder, você sabe muito bem o que sinto por

você!

— Quando você viaja?

— Segunda!

— Mas já? Segunda é depois de amanhã! Você ia embora sem falar

comigo?

— Claro que não! Eu ia te avisar, só estava esperando o momento certo...

vim hoje aqui sozinho para refletir um pouco, refletir e lembrar de todos

momentos que passamos juntos aqui nessa praia...

— Mas você não precisa ir, pode arrumar um bom emprego aqui, não

acha?

— Não sei Anne, não estou tão preocupado em arranjar trabalho, e sim

em ter uma vida nova, esquecer os problemas que tenho aqui.

— Você quer dizer que eu sou um problema?

— Não, você nunca foi e nem será um problema em minha vida... Sabe

por que? Porque eu te amo, te amarei sempre... Só acho que estando longe

sofrerei menos por não ter você comigo... Consegue entender?

Aquilo tocou profundamente o coração de Anne, queria muito largar

tudo e ficar com seu amor, mas sabia que era impossível. Sua família e

principalmente o líder de sua igreja, não aceitariam aquilo jamais. — O que

fazer meu Deus? — perguntava ela a Deus constantemente. Chegou a

conversar certa vez com Mauro, seu mestre e líder, sobre a possibilidade, mas

ele disse que aquilo não poderia acontecer jamais, pois se acontecesse ela teria

de abrir mão da verdade de Deus, não poderia mais fazer parte de Sua vontade,

e teria de abandonar a igreja, pois seria uma grande traição para com Deus e

todos membros da sua igreja. Tudo isso, junto com a pressão de sua família

para que encontrasse um jovem cristão de sua Igreja para poder assim ter um

namoro santo que a levasse a constituir uma família abençoada por Deus.

Sabia que Jack abominava todo esse papo de Igreja e namoro santo, ele era

uma pessoa livre, um pouco rebelde e que não se deixaria prender jamais por

nenhum tipo de doutrina religiosa.

No dia seguinte, Anne recebeu uma mensagem de Jack, a convidando

para um último passeio na praia. A jovem disse a sua mãe que iria até a casa de

uma amiga, pois ela não gostava de saber que sua filha estava se encontrando

com aquele delinquente do Jackson.

- 11 -

Por volta das 16:00 ela se encontrou com ele no lugar de sempre, a pedra

ao pé do Morro do Boi.

— Anne, já te disse por que esse morro chama Morro do Boi?

— Não, por que?

— Olha pra ele, não parece um boi nelore deitado, descansando?

— Ah mais ou menos... tipo, cada um vê uma coisa, né?

— Sim, do mesmo jeito que você vê orcas onde são gaivotas! —

completou o jovem sorrindo.

— Ah pára, todo mundo sabe que essas pedrinhas são orcas!

Agora ambos riram, tiraram seus calçados e seguiram rumo ao Pico,

molhando os pés nas ondas do mar que estavam bem geladas. No inverno a

Praia Brava costumava ficar vazia, Jack gostava disso, afinal, tinham

praticamente uma praia particular.

Quando chegaram mais ou menos na divisa do balneário de Caiobá com

Matinhos, Jack pediu para que ela parasse um pouco. Tinha que falar algo que

o estava angustiando. E não poderia não ter outra oportunidade para aquilo.

— Vou embora e a gente acabou não escalando o Escalvado! — disse ele

apontando para o morro ao longe.

— Pois é, isso é só mais uma coisa que deixamos de fazer! — respondeu

a jovem começando a deixar que lágrimas escorressem de seus olhos

castanhos.

Jack respirou fundo, tomou coragem, pegou nas mãos de Anne e disse

do fundo de seu coração:

— Anne, eu te amo! Não me deixe ir embora, vamos ficar juntos e

enfrentar todos! Se você aceitar namorar comigo eu juro que não vou embora,

dou um jeito de arrumar grana e pago a passagem para o Beto... Eu sei que

você também gosta de mim... só está com medo por causa de sua mãe e de seu

pai, e por causa daquele seu líder maldito que só faz por envenenar você

contra mim...

— Jack, não faça assim... — disse Anne chorando.

— Você quer namorar comigo? — perguntou ele reunindo seu último

fôlego de coragem.

— Não posso! — respondeu ela abraçando-o com força. — Entenda por

favor, eu juro que não posso! — ela olhou no fundo dos olhos dele, no mesmo

momento em que não resistiram e se beijaram com grande paixão.

- 12 -

Essa foi a última vez que eles se viram. Quando o jovem já estava em

Portugal continuaram conversando por e-mail e mensagens por mais alguns

meses, até que ele soube pela sua mãe que Anne estava namorando outro cara

da Igreja, Jack com tanta raiva nem quis saber quem era e desde então ele

nunca mais respondera seus email-s e mensagens, pois havia chegado o

momento de tentar esquecê-la definitivamente. A última mensagem que ela o

mandara fora de uma música “Meet Me Halway” que ao verificar a letra ele

descobriu que falava de um amor impossível de acontecer, assim como era o

seu amor por ela.

- 13 -

CAPÍ TULO 01

Biblioteca Municipal do Porto,

Dias atuais

O bibliotecário Jonas Boaventura conferiu pela 26ª vez no mesmo dia aqueles

cinco números e as duas estrelas, sorriu para si mesmo e guardou em seu bolso

o pequeno papel. Em seguida desligou seu computador, estava sentindo uma

leve dor no estômago e uma estranha dormência em suas pernas. De certo era

por que já estava ali sentado sem comer fazia horas, pois aquela de fato era sua

última semana de trabalho e fazia questão de ficar esses últimos dias até mais

tarde para deixar tudo organizado para seu futuro sucessor. O trabalho estava

bom, mas já era hora de ir pra casa, pois expediente da biblioteca havia se

encerrado há cerca de quatro horas. Quando finalmente levantou-se, sentiu

uma forte tontura que o fez apoiar seus braços no balcão.

— Deus meu, o que está havendo? — pensou ele chacoalhando a cabeça

para melhorar, mas ao invés disso percebeu que sua visão estava um tanto

embaçada.

— Isso que dá trabalhar tanto, ainda bem que na próxima semana já

estarei bem longe daqui, tirando meu merecido descanso. — disse a si mesmo

no momento em que se dirigiu ao quarto de banho.

Quando abriu a porta escutou o ranger das dobradiças gritando por um

pouco de lubrificante, — o porta chata! — pensou ele.

Apertou o interruptor, mas a lâmpada não acendeu, pensou que

estivesse queimada. O quarto de banho estava escuro, porém de fora vinha

uma pequena claridade graças à janela que dava para a rua. Foi até o espelho,

olhou seu rosto e pela primeira vez em quinze anos de trabalho ali, sentiu um

calafrio que subiu de seus pés até a cabeça. Devia ser pelo escuro, maldita

lâmpada queimada!

Jonas lavou o rosto, quando foi pegar o papel toalha percebeu que havia

acabado. Culpa da Carmen que devia ter ido embora sem antes verificar os

papéis. Se dirigiu até o fundo do quarto de banho para pegar o papel toalha no

armarinho, agachou-se para abrir a porta, mas sentiu novamente o calafrio,

seguido de um imenso susto. Ouviu novamente o ranger da porta, mas dessa

vez não era ele, mas quem seria? Pois todos os demais funcionários já haviam

ido embora, e tinha certeza que toda a biblioteca estava fechada, pois ele

- 14 -

mesmo havia trancado as portas e janelas. Rapidamente olhou para trás e

quando viu parado ali na entrada do quarto de banho, uma pessoa de

sobretudo escuro e máscara, seu coração disparou e suas pernas amoleceram.

— Quem é você? — perguntou Jonas ainda agachado.

— Onde está o bilhete? — indagou o mascarado ao se aproximar. Tinha

uma voz grossa e rouca, parecia utilizar uma espécie de fonador elétrico que

alterava e distorcia sua voz!

— Eu não sei, do que você está falando? — respondeu o bibliotecário já

quase tendo um ataque do coração de tanto pavor.

— Eu não irei perguntar novamente, se você quer viver me dê logo esse

bilhete... — retrucou o sujeito no instante que tirou o braço debaixo do

sobretudo e com ele surgiu uma pistola com silenciador.

Jonas logo percebeu do que se tratava, só não sabia como aquela pessoa

sabia que ele estava com o bilhete ali. Tinha que fazer algo, não podia entregar

de jeito nenhum o bilhete para ele.

— Não adianta, o que você quer não está comigo, eu deixei no cofre do

banco essa manhã!

O sujeito riu friamente daquele comentário, aproximou-se mais de Jonas.

— Você acha mesmo que sou tão idiota para acreditar nisso? Me dê logo

o que estou pedindo, ou prefere fazer dessa biblioteca sua sepultura?

— Calma, vamos conversar um pouco, podemos chegar a um acordo!...

Eu não estou com o bilhete aqui, ele está no banco, mas podemos ir retirá-lo

agora, meu carro está aqui perto...

— Não fale besteira, o bilhete está com você, eu sei! Quer morrer por um

simples pedaço de papel?

O indivíduo mascarado começou a se aproximar mais, Jonas não teve

muito tempo para pensar, gritar pedindo socorro não adiantaria, teria de lutar

para escapar dessa emboscada. Olhou de relance para sua direita, em cima do

armário de limpeza, viu o balde de alumínio de Carmen, no desespero esticou

o braço direito, pegou velozmente o balde e jogou com força contra o rosto

mascarado do indivíduo que gritou e cambaleou para trás, o balde caiu no

chão fazendo um intenso barulho. Jonas não pensou duas vezes e saiu

correndo do quarto de banho, antes da porta se fechar escutou um zunido e

viu o espelho ao seu lado se partindo em pedaços. O mascarado estava

atirando!

Cheio de pânico, Jonas se dirigiu o mais rápido que pôde para a saída de

- 15 -

emergência, mas lembrou que não tinha a chave, aliás, lembrou que suas

chaves estavam todas em sua mesa, correu rápido para lá, mas teve uma

surpresa, elas não estavam mais onde deveriam estar. Olhou para sua janela,

mas também estava trancada, não conseguiria abrir, o que fazer? Só tinha uma

chance, morreria se fosse preciso, mas não entregaria aquele papel para o

assassino. Pegou uma enorme tesoura em sua mesa — era a única coisa que

encontrou no momento para se defender — e foi em direção ao lugar que

ficaria menos vulnerável.

Entrou desesperadamente no vasto acervo, as luzes estavam apagadas,

tinha que chegar logo até a sala de obras raras para tentar acionar o alarme,

porém, antes tinha de tomar outra decisão rápida, seu destino dependeria

daquele ato. Ouviu o barulho de passos se aproximando, era o assassino!

O bibliotecário andou por cerca de cinco metros adiante e entrou em um

dos corredores. Tinha pouco tempo, sabia disso! Parou assim que entrou

naquele corredor, tirou do bolso o pequeno papel.

— Deus me ilumine! — disse ele em voz baixa no exato momento em

que escolheu um dos milhares de livros da estante e depositou nele aquele seu

bilhete que por alguns dias representou o seu futuro, seu destino... mas que

agora percebia nitidamente que aquele papel representava sua morte!

Em seguida saiu andando devagar para que o mascarado não ouvisse

seus passos, o grandioso número de estantes, mais o fato de estar escuro ali,

facilitaria para ele se despistar. Parou e agachou-se encostando em uma

estante, na tentativa de ouvir passos alheios. Pegou seu telemóvel e cobriu o

visor para que ele não visse a luz. Digitou rapidamente um texto em SMS,

escolheu o número de Joseph na agenda e apertou o botão de envio.

— Droga, mande logo, por favor, não falhe agora! — disse olhando para

o visor do aparelho, agoniado na expectativa da mensagem ser concluída logo.

“SMS ENVIADO” surgiu na tela, junto com um breve sinal de bip. O

homem ficou aliviado, a mensagem tinha chegado para seu filho. Porém o

pequeno sinal sonoro o entregou, a aproximadamente quatro estantes de

distância ele viu o mascarado olhando em sua direção com a arma em sua mão.

Agora estava ferrado, levantou-se e correu na direção da sala de obras raras,

mas antes que pudesse adentrá-la para que soasse o alarme de invasão ele

sentiu novamente o zunido, em seguida de uma forte fisgada em suas costas

que o fez cambalear e cair no frio piso gelado da grande biblioteca.

— Parabéns senhor Jonas, você foi premiado com um tiro, isso foi pouco

- 16 -

perto da baldada que você me deu. — disse o mascarado agachando-se perto

do bibliotecário estendido.

Ele puxou Jonas e o virou de frente para ele, estava imóvel, mas vivo.

Jonas sabia que era chegado sua hora, mas o que o aliviava é que jamais aquele

maldito colocaria suas mãos no bilhete, pois ele estava muito bem escondido;

dentro de um livro, dos mais de cem mil que a biblioteca possuía.

Só mesmo Joseph saberia como encontrar o bilhete — pensou Jonas!

Agora não sentia mais a respiração, de certo o tiro acertara em algum órgão

vital, era seu fim, sentia gosto de sangue em sua boca, uma forte pressão

parecia sufocar seu tórax, sua visão estava escurecendo, mas antes do fim

olhou para seu assassino na esperança de identificá-lo, mas ele estava com

uma espécie de máscara de pierrot.

— Quem é você? — perguntou Jonas já expelindo sangue pela boca.

De repente o assassino tirou a máscara, revelando sua identidade.

Jonas ficou em choque, teria tido um infarto se seu coração já não tivesse

parado naquele exato momento em que descobrira quem o havia matado.

— Por que? — conseguiu dizer ele com imensa tristeza no mesmo

instante em que não enxergou mais nada além de uma terrível e fria escuridão.

O assassino colocou a máscara novamente, verificou sua luva cirúrgica,

estava intacta! Suas digitais não ficariam por ali, e mesmo que ficassem aquilo

era um lugar público e o que mais tinha ali, depois de livros, eram impressões

digitais. Verificou a pulsação de Jonas, sim estava morto! Começou a revirá-lo,

seus bolsos, sua carteira, seu sapato, meias, tirou toda sua roupa e nada do

bilhete!

— Maldição, onde esse velho colocou o bilhete?

Sabia que não estava em banco algum, como ele havia dito, mas onde

estaria? Tinha a noite inteira para procurar, e deveria começar pela sala do

falecido. O assassino colocou a roupa novamente em Jonas, menos sua calça, e

o arrastou até o quarto de banho mais próximo, ocultando lá seu cadáver, ao

sair trancou a porta e jogou a chave atrás do balcão de enciclopédias. Voltou e

acendeu algumas luzes, pegou a calça de Jonas e com ela limpou o rastro de

sangue, em seguida jogou-a debaixo de uma das cabines de leitura. Dirigiu-se

até a sala do bibliotecário e lá procurou desesperadamente o bilhete, mas não o

encontrava. Amaldiçoou mil vezes o velho, não estava ali! Mas onde estaria?

Será que Jonas o havia destruído? Não era possível, seria muita insanidade! —

pensou o assassino. A madrugada fria chegou, ele continuava alucinadamente

- 17 -

a procurar aquele maldito papel, mas não o achava. O que iria fazer agora?

Seus planos cairiam por terra caso não encontrasse seu bilhete nos próximos

dez dias. Por volta das três da madrugada percebeu que não conseguiria

encontrar o que procurava; já havia se cansado, estava com ódio e com muita

fome. Tinha que dar um jeito de procurar no outro dia, mas sabia que a

biblioteca seria interditada depois que a polícia descobrisse o crime. Mas de

qualquer forma daqui a pouco iria amanhecer; só lhe restava esperar a poeira

baixar, torcer para ninguém encontrar o bilhete e voltar para procurá-lo.

- 18 -

CAPÍ TULO 02

Ao leste do Rio Douro, nas famosas caves de vinho do Porto, em Vila Nova de

Gaia, acaba de nascer mais um dia de sol, o clima está perfeito, bem melhor do

que na madrugada anterior em que chovera muito em todo distrito do Porto.

Sabrina levanta de sua cama, toma um breve desjejum em seu pequeno

apartamento em Matosinhos e sai para a Universidade Lusófona, está um

pouco adiantada, mas lembrou que tinha de passar antes na Biblioteca Pública

para ver se encontrava duas literaturas que não havia encontrado na biblioteca

da universidade. Já em seu carro, entra pela Via de Cintura Interna a 95 km/h e

em menos de dez minutos chega ao Jardim de São Lazaro onde fica o antigo

convento que atualmente é o prédio sede da Biblioteca Pública.

Ao chegar estaciona próximo à biblioteca, olha no painel do carro, já são

8:25 sua aula de psicologia deverá começar por volta das 8:45, tinha de ser

rápida para não se atrasar, pois a Dr. Isabela Montenegro não tolerava atrasos

em sua aula. Sabrina estava cansada daquela árdua semana, ainda bem que já

era sexta-feira, e logo a noite sairia com seus amigos para distrair um pouco a

mente.

— Bom dia, eu gostaria de saber se vocês têm esses dois livros? — disse

Sabrina à mulher do balcão de atendimento.

— Bom dia, deixe-me ver. — ela pegou o papel das mãos de Sabrina,

consultou em seu computador, em seguida pegou sua caneta.

— Temos sim, os dois, e estão disponíveis. Vou anotar o número aqui

para você buscá-los.

— Ok, obrigada!

Sabrina pegou o papel e seguiu para o acervo para procurar os livros. O

primeiro era O Príncipe de Maquiavel, estava no número 320.1 - M149. Tinha

dois exemplares, ela pegou o exemplar que parecia estar mais conservado. O

próximo, O Senhor dos Anéis, número 823.91 – T649.

— Que livro enorme! Não sei como já o li duas vezes? — disse a si

mesma ao encontrar o livro de mais de 1200 páginas. Tinha cinco exemplares

disponíveis, olhou para ver qual estava em melhores condições e pegou o

exemplar 01. Dirigiu-se para fazer o empréstimo.

— Sabrina, este é o exemplar 01, ele é restrito para empréstimo, não tem

outro lá do mesmo?

— Ah sim, claro. Havia me esquecido, vou voltar lá e pegar outro.

- 19 -

Sabrina achava aquilo um saco, afinal pra que restringir um livro

daquele tamanho, quem seria o louco de lê-lo ali na biblioteca? Pegou o

exemplar 05 e voltou para o balcão, fez o empréstimo, agradeceu e saiu.

Como havia previsto, chegou cinco minutos atrasada, a professora

Isabela Montenegro a fitou com repúdio. Pediu licença e sentou-se.

Montenegro continuou sua aula tediosa, ela fingia que ensinava, os alunos

fingiam que aprendiam e tudo ficava bem.

— Sabrina, você vai com a gente hoje na 2 por acaso? — perguntou Joana

que estava na carteira de trás.

— Oi Jô, mas quem vai com a gente?

— Por enquanto, eu, você e a Fabi.

— Mas tem certeza que quer ir lá? Já fomos semana retrasada e estava

uma chatice só!

— Mas hoje a entrada feminina é free até meia-noite, e quando a nossa

entrada é free, lota de homem.

— Já que você ta falando, tudo bem então, a gente conversa depois da

aula direito e marcamos de se encontrar, tudo bem?

— Tudo bem!

* * *

Carmen estava nervosa, afinal, quem havia trancado a porta da porcaria

do quarto de banho do acervo? As pessoas queriam usar e agora tinham que

ficar subindo no andar de cima.

— Dona Ciana, você por acaso viu a chave do quarto de banho do acervo

principal?

— Não vi, Carmen, está trancado?

— Sim, e a chave não está na porta!

— Que estranho, a gente nunca fecha nenhum dos quarto de banho.

— Sim, mas aquele tá fechado e não sei onde foi parar a chave... e que eu

sei a outra chave fica com o seu Jonas, mas ele não chegou até agora?

— O Jonas ainda não chegou?

— Ainda não, olhei na mesa dele e tá uma bagunça danada, mas não

encontrei a chave não!

— Que estranho, ele nunca se atrasa, deve ser por que já está de saída

mesmo.

— Dona Ciana, afinal de contas, por que seu Jonas tá saindo depois de

- 20 -

tanto tempo?

— Olha Carmen, isso até eu mesma gostaria de saber, ainda falta dois

anos pra ele se aposentar, mas decidiu que ia sair de qualquer jeito, eu não

pude segurá-lo, né? Desconfio que deve ter encontrado um emprego melhor,

não quis questioná-lo muito para não parecer indelicada.

— Sei não, ele anda tão esquisito ultimamente, nem tem saído muito da

sala, só ficava em frente ao computador.

— Então Carmen, também notei isso, achei estranho, vai saber o que é,

né?... De qualquer forma o Vasconcelos vai descer da restauração para assumir

o cargo dele na segunda, aí é só o Jonas passar alguns procedimentos básicos

pra ele que o resto ele pega com o tempo.

— Bom, dona Ciana, agora vou voltar aos meus afazeres, vou esperar

seu Jonas chegar para poder abrir a porta do quarto de banho, enquanto isso as

pessoas utilizam o de cima. — afirmou Carmen saindo da sala da bibliotecária

chefe e se dirigindo de volta ao acervo.

Foi até o quarto de banho dos funcionários, logo que entrou na porta

encontrou seu balde de alumínio no chão, pegou ele e notou que estava um

tanto amassado. — Quem será que jogou meu balde no chão? — indagou-se.

Pegou um pouco de água, uma flanela e detergente no armário.

Se aproximando do acervo, no exato momento em que virou o corredor

seis, viu ao longe algo prateado reluzindo debaixo da estante das

enciclopédias; como no piso não havia sujeira alguma, era fácil ver algum

objeto no chão, por menor que ele fosse. Aproximou-se já imaginando o que

seria, e quando abaixou-se confirmou que era a chave sumida. Resmungou

alguma coisa e foi até o quarto de banho para abrir a porta. Ao entrar e acender

a luz viu de marcas de sangue e logo ao fundo um corpo estendido. Só teve

uma reação, gritou desesperadamente. Alto o suficiente para que todas as

pessoas que estavam na biblioteca ouvissem e fossem rapidamente ver o que

estava acontecendo.

* * *

Joseph acorda por volta das 10:30, está cansado, havia dormido muito

pouco, ele estica sua mão até o criado, pega seu telemóvel para ver a hora, mas

está sem bateria.

— Droga! — diz irritado.

Levanta da cama e põe o aparelho para carregar. Vai ao quarto de banho

- 21 -

para lavar os dentes. Aproveita para tomar banho e fazer um pouco de

alongamento em frente ao espelho. Fica orgulhoso de seus fortes bíceps graças

aos três anos de academia. Se enxuga, penteia o cabelo castanho claro, e sai nu

para o seu quarto. No corredor olha no quarto de seu pai, está fechado! Volta

as atenções para seu telemóvel que estava emitindo alguns bips. Na tela

mostrava uma nova mensagem, de seu pai. Abriu-a rapidamente e leu: “5

Onde não falta vontade existe sempre um caminho...” Mas afinal, o que era

aquilo? Seu pai não era de enviar mensagens, ainda mais daquele tipo, sem

sentido. Ficou inquieto com aquilo, antes mesmo de se vestir ligou seu iMac e

jogou aquela frase no Google. Cerca de 10 mil ocorrências apareceram em sua

tela. “Onde não falta vontade existe sempre um caminho; JRR Tolkien; O

Senhor dos Anéis”. Antes que pudesse raciocinar e pensar no que estava

havendo seu telemóvel tocou.

— Bom dia, é Joseph?

— Bom dia, sim sou eu! Quem está falando?

— Joseph, é a Ciana da biblioteca. — disse ela com voz calma mas que

demonstrava um pouco de tristeza. — Você pode vir rapidamente para a

biblioteca, agora?

— Mas por que, o que houve, aconteceu algo com meu pai?

— É melhor você vir aqui, te explicaremos melhor pessoalmente.

Joseph desligou o telemóvel, colocou sua roupa, pegou a chave do carro,

e saiu bastante preocupado. Aquela frase não saia de sua cabeça, algo estava

muito errado.

— Oi queria falar com a Ciana, o que está acontecendo? — perguntou

Joseph no momento em que entrou na biblioteca e percebeu as viaturas da

polícia paradas lá fora.

— Oi Joseph! — disse Ciana se levantando da cadeira onde conversava

com um dos policiais.

— Oi Ciana, o que está havendo aqui? Onde está meu pai?

— Calma querido, sente-se aqui!

A seguir, Ciana contou o ocorrido ao jovem, que em sua reação parecia

não acreditar. Queria por que queria ir até onde estava o corpo, mas a polícia

não deixou, pois era cena de um crime e não poderia ser violada.

Joseph era o único filho de Jonas; sua mãe, Hellen, com quem viveu em

São Paulo até os catorze anos de idade, havia morrido há cerca de oito anos

atrás, e desde então seu pai o trouxera para morar em Portugal. Seu

- 22 -

relacionamento com Hellen foi passageiro, aconteceu quando ela fora conhecer

a cidade do Porto, mas foi suficiente para gerar um filho, Joseph. No entanto

Hellen e Jonas já tinham suas raízes firmadas no Brasil e em Portugal, e

nenhum queria abrir mão disso. Então decidiram que a criança seria cuidada

pela mãe e o pai ajudaria financeiramente. Mas com a morte de Hellen, o

pequeno Joseph não teve opção senão ir morar com seu pai, no Porto.

Durante todo o decorrer do dia, a polícia tomou depoimento de todos

que estavam na biblioteca naquele momento, funcionários, estudantes, leitores

e também do jovem Joseph, que era a pessoa mais próxima dele na cidade. O

delegado perguntou a ele se seu pai tinha inimigos e o que poderia ter causado

o assassinato. Joseph sabia o que provavelmente acontecera, o motivo daquele

crime, mas não podia contar ao delegado e a ninguém, pois seu pai não queria

que ninguém ficasse sabendo daquilo até que a euforia baixasse. Pois não era

sempre que alguém acertava um prêmio de 145 milhões de euros na loteria

européia.

- 23 -

CAPÍ TULO 03

Jackson vai até o bar e pede outro drink, para ser mais exato, o sétimo drink da

noite. A balada está fervendo ao som de Beyoncé, Gaga, Cher, Akon e Black Eye

Peas. Novamente na pista de dança o jovem percebe que tudo ao seu redor está

girando, o efeito do álcool já o tomava conta. Tenta encontrar seus amigos Beto

e Ricardo, mas no meio de tanta gente isso se torna quase que impossível.

Quando surge Fergie no telão da boate o que se houve são gritos e assovios. Era

a musa inspiradora de Jackson, e aquela música Meet Me Halway, fazia com que

se lembra-se de Anne, seu único e verdadeiro amor, Anne era muito especial

em sua vida, mas por obra do destino não puderam ser nada além de bons

amigos.

— Anne, eu te amo! — gritou ele no meio da multidão que se jogava

freneticamente dançando ao ritmo das diversas luzes coloridas e piscantes.

Jackson dançou por mais alguns minutos, perdeu seu copo de bebida no

meio da pista, pra onde fosse que olhasse enxergava belas garotas, loiras,

morenas, ruivas, orientais... aquilo sim era o paraíso.

— Heiii, Jack, te encontrei cara! — disse Alberto o abraçando. — Aceita

um Jose?

— Oxe, Beto, quem é esse tal Jose?

— O mexicano... Tequila brother! — respondeu Beto já dando o pequeno

copo para Jackson, que o bebeu instantaneamente.

— Poxa cara, tu tá doidão hein!

— Doidão é pouco, hoje quero beber todas! Como diria o poeta “o pão é

a realidade, mas o álcool é imaginação...”

Em seguida, Jackson disse a Beto para esperá-lo ali que iria ao quarto de

banho e já voltaria. Beto consentiu com a cabeça e voltou pra pista todo torto

dançando loucamente.

Na escada que descia até o quarto de banho o jovem se apoiava no

corrimão para conseguir descer com segurança. Olhou para o símbolo do

quarto de banho que indicava o masculino, estava um tanto embaçada sua

visão, mas conseguiu acertar o local. Quando saiu de lá e subiu os degraus

parou e olhou; a sua frente estava o bar, à esquerda a pista e a direita os sofás

de descanso. Não pensou muito e foi até os sofás e lá se esparramou meio

sentado, meio deitado; não demorou e seus olhos se fecharam num intenso e

gostoso cochilo de balada.

- 24 -

— Oi moço, moço... — ouviu Jack em seu devaneio. No mesmo

momento que sentiu uma mão apertando sua perna.

— Oi, oi, desculpa. — respondeu ele acordando assustado e lembrando

onde estava.

— A gente não quer atrapalhar seu sono, só preciso de um espacinho no

sofá pra deixar minha amiga que não está muito bem!

Jack sentou-se corretamente liberando espaço para a moça.

— Sabrina, fique aqui e descanse um pouquinho, você já bebeu demais!

— disse Fabiana para a amiga.

— Tá bom Fabi, mas já que eu melhoro e volto pra dançar com vocês!

Fabiane e Joana deixaram-na no sofá e voltaram para a pista, aproveitar

o fim de noite, já era cerca de 4 da manhã e logo o som cessaria e com ele

terminaria mais uma alucinante balada na 2 por acaso.

— Oi Sabrina, você tem um lindo nome! — disse Jack, animando-se pelo

fato daquela linda morena ter sentado consigo naquele sofá e ainda mais no

fim de festa que todos sabiam ser o melhor momento pra descolar uma gata,

pois a maioria delas ficavam loucas querendo encontrar algum cara que lhes

desse carona, e nessas horas pouco importava se fosse carona para suas casas

ou para a deles.

— Obrigada, qual é o seu? — indagou ela se interessando por aquele

jovem rapaz que lembrava uma espécie de Keanu Reeves mais jovem.

— Jackson, mas pode me chamar de Jack.

Continuaram a conversar, como de praxe era ela quem falava mais.

Disse que estudava psicologia, que seus pais moravam em Braga e pagavam

sua faculdade e seu apartamento, e que o dinheiro que ganhava no estágio era

só para suprir seus gastos pessoais.

Depois de falar quase toda sua vida para ele, resolveu deixá-lo falar um

pouco. Então Jack resumiu sua vida. Era brasileiro e morava há cinco anos em

Vila Nova de Gaia, onde dividia um apartamento com seu amigo Beto,

também brasileiro.

— E você trabalha? Estuda?

— Bom, trabalho de garçom em um restaurante, o Saint-Dennis, ali no

centro... mas também sou técnico de informática, mas como atualmente todo

mundo sabe mexer e arrumar computadores, está meio fraco esse ramo.

Sabrina sabia que em baladas como aquela era difícil encontrar pessoas

interessantes, que pudesse de fato conhecer melhor nos dias seguintes, em

- 25 -

outros ambientes mais calmos, não por que ali não tinham pessoas

interessadas em compromissos, mas o efeito do álcool, junto com os flash de

luz e o som, fazia com que o cérebro entrasse em uma espécie de transe

energético que fazia as pessoas se verem somente como objetos sexuais em

potencial, e isso era claro nas cantadas e conversas que haviam por todos os

lados dentro daquela boate. Mas Sabrina se interessou por aquele rapaz, por

mais que ela estivesse bêbada tinha percebido algo diferente nele. Mas não

sabia explicar o que era!

Quando suas amigas retornaram, estavam acompanhadas por dois caras

bêbados que as abraçavam por trás.

— Sabrina, já melhorou? — perguntou Fabiana.

— Sim, já estou melhor. Vocês já querem ir?

— Então, a gente conheceu o Marcos e o Marcelo, são irmãos! —

respondeu Fabiana dando risadas. — E eles vão levar a gente pra passear um

pouquinho. Você quer vir com a gente?

— Mas Fabi, nós viemos juntas e o trato foi voltarmos juntas, lembra? —

questionou Sabrina.

— Eu sei, mas é que...

— Tudo bem, podem ir, daqui a pouco estou indo também.

— Mas Sabrina, você está bem para dirigir?

— Nunca estive melhor!

As duas se despediram e saíram dali com seus novos amiguinhos.

— São suas amigas? — perguntou Jack.

— Sim, essas duas folgadas são sim. Você viu só como estavam

oferecidas pra aqueles dois caras?

Jack sorriu. Em seguida olhou para Sabrina, aproximou-se e pegou em

suas mãos. Ela sentiu um calor intenso subindo em seu corpo. Será que ele irá

me beijar? — pensou ela, no mesmo instante em que o jovem tocou seus lábios

e começou a beijá-la.

Os dois continuaram ali no sofá até que por volta das 05:30 o segurança

pediu para que se retirassem pois a festa havia acabado. Os dois pagaram suas

contas e foram para fora da boate. Estava frio, Jack aproveitou para abraçar a

jovem e esquentá-la.

— Sabrina, estou com dois amigos meus, você quer uma carona?

— Então, Jack, eu agradeço, mas estou com meu carro ali no

estacionamento, além do mais você mora em Vila Nova, é completamente o

- 26 -

oposto da minha casa.

— Droga! — pensou o jovem, quando consegue descolar uma gata ela

não aceita carona, que azar!

Sabrina chamou Jack para esperar pelos seus amigos dentro do carro,

pois estava com muito frio. Ele aceitou!

Dentro do carro continuaram os beijos, só que dessa vez com mais

intensidade, Jack a beijava no pescoço, dava leves mordidinhas em sua orelha

e beijos e sua bochecha. Aquilo estava a deixando maluca de desejo.

— Jack, você quer uma carona?

— Como assim, estou com meus amigos...

— Mas eles estão demorando tanto!

— Tudo bem, mas vai me dar carona pra onde?

— Pra onde você quiser!

Aquilo era o sinal que ele esperava. Pegou seu telemóvel e ligou para

Beto, ele ainda estava na fila para pagar. Jack avisou o amigo que não iria

embora com eles, e que amanhã conversariam melhor. Beto quis saber mais

detalhes, mas Jack já havia desligado o telemóvel.

Já em Matosinhos os dois chegam ao apartamento de Sabrina. Ela

estacionou o carro na vaga do vizinho, pois não estava em condições de

estacionar em sua vaga. Subiram abraçados no elevador.

— Que grande seu apartamento! — comentou Jack.

— Grande? Acho isso aqui um aperto! — respondeu a jovem jogando

sua pequena bolsa no sofá e ligando a televisão.

— É que você não viu onde eu moro ainda... olha que visão você tem

daqui, da até pra ver o mar!

— Isso é, a visão é bem bonita, mas aposto que na sua casa você acorda e

já vê o Rio Douro de sua varanda...

— Quem me dera... — respondeu Jack abraçando Sabrina e deitando

com ela no sofá da sala.

— Você gosta de sofá, né? Acabamos de sair de um e já me arrasta pra

outro.

Ambos riram e começaram a se beijar suavemente, enquanto lá fora

amanhecia mais um dia maravilhoso na cidade das pontes.

Na televisão reprisava o jornal principal da RTP. A famosa jornalista

Andrea Azevedo apresentava uma matéria enquanto entrevistava algumas

pessoas em frente ao Palácio de Cristal. Sabrina e Jack pararam o beijo para ver

- 27 -

aquela reportagem.

— O maior prêmio da história da euromilhões ainda continua um grande

mistério. Já faz mais de quinze dias que o sortudo ou a sortuda, da cidade do Porto, que

ganhou a bolada de 145 milhões de euros ainda não se manifestou para retirar seu

prêmio, isso causa muita especulação na cidade, é o assunto do momento, e agora estou

aqui em frente do Palácio de Cristal para perguntar às pessoas o que elas acham que

aconteceu com o ganhador ou ganhadora desse magnífico prêmio e o que fariam caso

ganhassem tanto dinheiro.

— Sabrina, o que você faria com 145 milhões de euros? — indagou Jack.

— Não tenho a mínima idéia, mas acho que daria metade aos meus pais

e parentes, e com a outra metade iria viajar pelo mundo. E você, o que faria

com tanta grana?

— Se eu ganhasse tudo isso iria gastar tudo com viagens, carros, bebidas,

sexo, drogas e rock and roll. — respondeu Jack dando gargalhadas e voltando

a beijar Sabrina.

— É só acreditar que você também pode ganhar um dia, lei da atração, o

que você realmente deseja o universo conspira para que você consiga.

— Mas no caso é praticamente toda população do planeta desejando o

mesmo, né?

— Isso é! Mas sei lá, eu acredito que um dia irei de ficar milionária.

— Tudo bem então, também vou começar a partir de hoje a acreditar

nisso. Agora que tal me mostrar teu quarto?

— Agora?

— E tem outra hora mais apropriada?

A jovem sorriu, levantou-se e desligou a televisão e puxou Jack pelas

mãos até seu quarto. Lá chegando, Sabrina fechou a cortina e ambos se

deitaram beijando-se loucamente e tirando suas roupas, Jack ainda meio

alcoolizado imaginou que estava com Anne, e ali os dois ficaram até que

ambos dormiram.

Jack acordou primeiro, sua cabeça ainda estava zonza, e o zunido do

som ainda não havia deixado seus ouvidos. Colocou sua roupa e foi até o

quarto de banho, depois para a cozinha tomar água, muita água!

O relógio de parede da sala marcava 14:37, pelo jeito a noite realmente

havia sido boa, aliás muito boa, pensou ele ao entrar novamente no quarto de

Sabrina e ver que ela ainda dormia. Depois foi até a sala, ligou a televisão, mas

não passava nada que prestasse naquela tarde de sábado. Desligou-a e

- 28 -

deitou-se no sofá, estava exausto, com fome e ainda com sede.

— Ressaca maldita! — disse ao se levantar para ir beber mais água, mas

antes viu na estante um livro que chamou sua atenção. Pegou-o da estante, era

O Senhor dos Anéis, na capa havia um grande olho em chamas, o olho de

Sauron.

— Interessante, mas prefiro o filme, olha só o tamanho disso! — disse a

si mesmo.

— Bom dia, pelo visto você gosta de ler? — indagou Sabrina aparecendo

diante dele vestindo somente uma camisola roxa.

— Bom dia, já acordou, dormiu bem?

— Dormi sim, mas estou morrendo de fome! Faz tempo que acordou? Tá

com fome?

— Acordei agora pouco, tava aqui vendo seu livro, tô com um

pouquinho de fome, sim! — respondeu Jack um pouco tímido, pois encarar

aquela gata bêbado era uma coisa, agora ficar frente a frente com ela sóbrio era

bem diferente, ainda mais que ele nem a conhecia direito.

Sabrina levou ele até a cozinha e preparou um rápido café da manhã,

que no caso estava mais para café da tarde. Apesar de já terem transado ainda

estava um clima de timidez entre os dois, Sabrina não costumava levar os caras

que conhecia em balada para transarem em sua casa, contudo tinha gostado do

jeito de Jack, ele era bonito, engraçado e conversava bem.

Logo após o café Jack disse que teria de ir embora, pois ainda trabalharia

naquele sábado, e ainda tinha que ir para casa e depois voltar para a Baixa

portuense. Sabrina ofereceu carona, mas ele não aceitou, disse que pegaria um

táxi. Ambos trocaram telefone e, no momento que Jack foi devolver o livro na

estante Sabrina se aproximou.

— Pode levar, você não quer lê-lo? É bem legal a história!

— Mas eu já vi o filme, e se eu levar esse livro demorarei dias para lê-lo,

olha o tamanho disso.

— Fique tranquilo, é da Biblioteca Pública, você pode começar a lê-lo e

renovar caso gostar, ou pode devolver também!

— Tudo bem, mas você não vai ler?

— Já li duas vezes, só peguei para relembrar algumas partes, mas pode

levar, depois eu pego outro. — disse Sabrina sabendo que se ele levasse aquele

livro, certamente seria um motivo para ele voltar a falar com ela, nem que

fosse para dizer que não havia gostado.

- 29 -

Jack embrulhou o livro dentro de sua blusa verde, Sabrina ofereceu uma

sacola, mas ele recusou. Se despediram com um beijo e sorrisos. Jack

agradeceu por tudo e entrou no elevador.

— Eu te ligo pra gente marcar outro café, tá bom?

— Tudo bem, vou esperar!

Já na calçada, com o livro nas mãos, ele ligou para um táxi, que em

menos de cinco minutos chegou.

— Boa tarde, senhor! Para onde desejas?

— Vila Nova de Gaia, por favor!

- 30 -

CAPÍ TULO 04

O corpo do bibliotecário havia passado rapidamente pelo legista da polícia

científica, sendo liberado no sábado à tarde, o laudo com o resultado oficial

sairia em alguns dias, apesar de ser óbvio que a vítima havia morrido em

virtude do tiro que tinha levado nas costas e que atingira em cheio seu fígado e

sua veia cava inferior, o que proporcionou a hemorragia interna que o matou.

Logo após o enterro do pai, no domingo pela manhã, Joseph ainda

abalado voltou para casa junto com sua tia, irmã de seu pai, Janete que morava

em Lisboa, pois ela apesar de morar distante e raramente ter contato com ele,

decidiu ficar ali por uns dias para auxiliar o jovem rapaz a superar aquele

momento difícil.

— É meu querido, quem será fez isso com seu pai? E por quê?

— Eu falei hoje cedo com o inspetor e ele ainda não tem pistas nenhuma.

— Muito estranho não acha? Logo o Jonas, uma pessoa tão boa, alegre

que não fazia mal para ninguém. — disse Janete com um ar de tristeza.

— Sim tia, muito estranho mesmo! Agora não sei o que vou fazer da

minha vida sem meu pai aqui.

— Querido você estás a trabalhar?

— No momento não, só estou a estudar.

— Engenharia né? Seu pai havia me dito uma vez!

Joseph concordou com a cabeça, continuaram a conversar e quando

Joseph pediu licença para ir descansar um pouco sua tia o segurou pelo braço.

— Querido, não quero parecer indelicada, mas... sabe, eu tenho que te

fazer uma pergunta que está martelando aqui em minha cabeça desde que

recebi a notícia da morte de seu pai.

Joseph voltou a se sentar.

— E o que é tia?

— Seu pai morreu por causa do prêmio que ganhou?

Aquela pergunta fora um choque para Joseph, pois jurava que ninguém

mais, além dele e de seu pai sabiam sobre o prêmio... mas afinal, como a sua tia

sabia?

— Que prêmio, tia? — perguntou ele demonstrando surpresa.

— Querido, não precisa esconder de mim. Na terça-feira, quando falei

com seu pai a última vez, ele me contou do prêmio da euromilhões, a princípio

não acreditei, pois se trata de muito dinheiro, achei que ele estivesse apenas

- 31 -

zombando de mim só porque o bilhete premiado tinha saído pra um apostador

daqui. Mas agora que o mataram dessa forma, só posso acreditar que é

verdade o que ele havia me dito!

Joseph não sabia o que falar, pois seu pai havia jurado a ele que não

falaria para ninguém que havia ganho na euromilhões, pois acreditava que

aquilo traria muita cobiça e fama indesejável, esperaria uns dias para ir

reclamar o prêmio, já que tinha o prazo de trinta dias. Fez Joseph também jurar

que não falaria nada para ninguém. Mas agora percebeu que seu pai não havia

cumprido de todo com sua promessa. Se sua tia sabia, com certeza mais

pessoas poderiam saber também, pra quem mais ele havia dito? Será que o

assassinato tinha alguma coisa com os 145 milhões?

— Então, essa história do dinheiro é verdadeira? — indagou Janete com

um ar de curiosidade extrema. — Querido, estou falando com você! — disse

ela percebendo que seu sobrinho devaneava.

— Oi tia, desculpe, então, eu não sei do que você está falando, meu pai

não me disse nada, com certeza era brincadeira dele, você mesma sabe como

ele gostava de pregar peças, né? — respondeu Joseph, que por alguma razão

achou melhor não dizer a verdade, pelo menos não agora, não antes de ir até a

biblioteca para verificar aquele livro que seu pai mandou no SMS antes de

morrer talvez seu bilhete estivesse por lá, pois lembrou que no dia do crime

seu pai havia saído de casa com o bilhete, pois tinha mostrado a ele de manhã,

dizendo que não largaria aquele papel por nada. Joseph ainda alegou que era

perigoso ficar andando por aí com aquele vale de 145 milhões, mas seu pai era

teimoso, para ele o melhor cofre era sua própria carteira.

— Então não sei, ele parecia bem convincente pelo telefone. Mas se você

que é filho está afirmando que não era verdade, então deve ter sido só uma

brincadeira mesmo.

— Sim, deve ter sido!

— Bom, mudando de assunto um pouco, porém continuando no

mesmo... Você viu que o ganhador ainda não foi buscar o dinheiro, e parece

que faltam menos de dez dias pro prazo vencer.

— Não foi, tia! Deve estar esperando a euforia baixar um pouco né? Ou é

alguém louco que aposta e não confere o resultado.

— Só sendo louco mesmo, se eu que tivesse ganho esse dinheiro todo te

garanto que já teria gasto mais que metade! — disse Janete rindo. — Só assim

pra gente sorrir um pouco, né querido?

- 32 -

— É sim tia, é sim. Agora se me permite vou tomar uma ducha e fazer

alguma coisa pra gente comer.

— Tudo bem, querido. Mas quanto a parte da cozinha é só me mostrar

onde estão as coisas que eu faço algo pra nós, afinal, tia é para isso também!

Logo após o breve lanche da noite, Janete lavou a louça e Joseph

enxugou. Depois o jovem foi se deitar e sua tia ficou na sala vendo televisão. Já

na cama, Joseph não conseguia dormir, mil pensamentos passavam em sua

cabeça agora. E o principal era: — Tenho que ir logo até a biblioteca e

encontrar logo esse bilhete, antes que vença o prazo ou pior, ele caia nas mãos

de outras pessoas. Outra coisa que estava tirando seu sono era o fato de seu pai

ter contado para sua tia do prêmio.

* * *

Após servir pratos praticamente o dia todo, Jack volta para casa exausto.

Em seu pequeno apartamento trata logo de ir tomar uma ducha para

descansar. Beto, como de costume não estava em casa, provavelmente estava

na casa de alguma de suas centenas de namoradinhas. Logo após a ducha, Jack

deita em sua cama e liga a TV. Mas não estava a passar nada que prestasse. —

Bem que poderia ter uma TV a cabo! — pensou ele ao desligar o aparelho. O

dia todo havia pensado se ligaria ou não para Sabrina, na noite anterior ela lhe

mandara uma mensagem dizendo que tinha adorado conhecê-lo e

perguntando se ele já havia começado a ler o livro. Jack tinha gostado de estar

com ela, porém seu pensamento ainda continuava em Anne, quando ele iria se

livrar daquela obsessão? Não sabia!

Pensou e resolveu que não ligaria para ela, não queria criar falsas

esperanças, mas ao mesmo tempo gostaria de ligar e conhecê-la um pouco

melhor, afinal, estava se sentindo muito solitário. Pegou seu telemóvel e

enviou uma mensagem para Sabrina. “oi Sabrina, estou começando a ler o

livro, beijos”. Pegou o livro que estava em seu criado mudo, ajeitou-se em sua

cama e começou a folheá-lo, de repente caiu um papel de dentro do enorme

livro. O jovem curioso pegou-o e viu que era um bilhete de jogo da