The Fallen - 02 - Demonio por Kristina Douglas - Versão HTML

ATENÇÃO: Esta é apenas uma visualização em HTML e alguns elementos como links e números de página podem estar incorretos.
Faça o download do livro em PDF, ePub, Kindle para obter uma versão completa.

index-1_1.png

index-1_2.jpg

index-1_3.jpg

index-1_4.jpg

index-1_5.jpg

index-1_6.jpg

index-1_7.jpg

index-1_8.jpg

index-1_9.jpg

Grupo RM

Demônio - Fallen 02

Demônio

Série Fallen-02

Kristina Douglas

1

index-2_1.png

index-2_2.jpg

Grupo RM

Demônio - Fallen 02

Traduzido do Inglês

Pesquisa: Mell

Revisão inicial: Adriana Bazanella

Revisão final e formatação: Clara

Para evitar uma antiga maldição, ele deve destruir a única mulher que pode salvá-lo...

Descrição

Ele é o demônio de um anjo.

Azazel deveria ter acabado com a mortal Lilith quando teve a chance. Agora, diante de

uma profecia que irá forçá-lo a trair a memória de seu verdadeiro amor e unir-se com a

Rainha dos demônios, ele não pode acabar com sua vida até que ela o leve a Lúcifer.

Encontrando o primeiro é a única esperança do Fallen é para proteger a humanidade da

destruição de Uriel, mas Azazel sabe que ignorar seu desejo latente por Lilith vai ser quase

impossível.

Ela é o anjo de um demônio.

Rachel Fitzpatrick se pergunta como Azazel poderia confundi-la com uma sedutora

maligna. Ela nunca nem sequer se interessou por sexo! Pelo menos não antes que colocasse

os olhos no seu captor de tirar o fôlego. E agora ela não consegue pensar em outra coisa,

além de escapar.

Anjos e demônios não se misturam.

2

index-3_1.png

index-3_2.jpg

Grupo RM

Demônio - Fallen 02

Rachel desperta uma necessidade carnal em Azazel que ele pensou que nunca iria sentir

novamente. Cair por um demônio, mesmo que ela não tenha idéia de que é a Lilith,

significa render sua alma. Mas se ele deixar que ela se vá, arriscaria perder seu coração,

sua perigosa amante, e possivelmente toda a humanidade, para a ira mortal de Uriel.

Para Sally,

porque ela gosta da criação do mundo

Sobre o tema dos anjos

O mundo dos caídos (fallen) é minha própria criação, com base em obras apócrifas

como o Livro de Enoque e outros textos obscuros que não fazem parte do Velho

Testamento atual. Sendo da nova era de cristãos liberais, sempre fui fascinada pelo

comportamento inexplicável do Deus do Antigo Testamento e sua tendência a ferir e usar

seu computador celeste aleatoriamente. É fácil fazer um pouco de pesquisa na Internet e

encontrar referências a todas as coisas, menos a caridade que Deus supostamente tinha, e

eu queria chegar a um mundo que explicasse a diferença entre o Deus justo e amoroso e o

grande maldozo do passado. Daí o mundo dos Derrotados e do arcanjo Uriel.

Peguei pedaços da mitologia e modifiquei para atender a minha história, os Nefilins são

geralmente considerados como a descendência dos anjos caídos, mas eu decidi lhes fazer o

próximo movimento. Existem inúmeras referências na Bíblia que argumentam contra

"ingerir sangue", assim, me pareceu uma maldição óbvia. E os anjos caídos são muito mais

interessantes do que os que ainda estão supostamente perfeitos.

Então, você precisa levar tudo no espírito no qual pretendo. A maior parte do Antigo

3

index-4_1.png

index-4_2.jpg

Grupo RM

Demônio - Fallen 02

Testamento está aberta para o debate, de qualquer modo. Eu só mudei as coisas da

maneira que melhor funcionassem para meus anjos caídos.

O começo: o mundo real

Capítulo um

Ele estava seguindo-me novamente. Eu sabia disso instintivamente, embora não o

tivesse visto realmente. Ele estava apenas além da minha vista, nas extremidades

exteriores de minha visão, nas sombras. Escondendo-se. Não perseguindo. Poderia haver

lacunas enormes em minha memória, mas eu tinha um espelho e absolutamente nenhuma

ilusão sobre meus encantos totalmente resistíveis. Eu estou decididamente na altura

mediana, peso mediano, de mais ou menos quarenta e cinco quilos. Eu tinha cabelo curto,

de um marrom enlameado que você consegue quando tinge muito freqüentemente, e

meus olhos eram marrom claro, minha pele estava tinta de verde-oliva, e a estrutura óssea

normal. Nenhuma pista sobre quem ou o que eu era.

E aqui estava o que eu sabia: Meu nome era Rachel. Meu atual sobrenome era

Fitzpatrick, mas antes disto foi Brown, e o da próxima vez poderia ser Montgomery.

Nomes comuns com antepassados anglo saxões, mas não sei porque acabei indo com eles.

Eu tenho sido Rachel Fitzpatrick por quase dois anos agora, e me sentia como se tivesse

estado nessa vida confortável que construí, mais do que normal. Estava vivendo em uma

grande cidade industrial no Centro-oeste, trabalhando para um jornal que, como a maior

4

index-5_1.png

index-5_2.jpg

Grupo RM

Demônio - Fallen 02

parte do seu tipo, estava em seus últimos passos1. Tinha um grande apartamento no andar

superior de uma antiga casa vitoriana, um carro tranqüilo em que podia confiar e bons

amigos a quem recorrer em uma emergência e com quem se divertir nos bons tempos. Eu

era até a madrinha do bebê recém-nascido da minha colega Julie. Eu estava esperando

outro contato para largar.

Era novembro, pensei que provavelmente nunca tivesse gostado de novembro, as

árvores estavam nuas, o vento era cortante, a escuridão fechava em torno da cidade como

uma mortalha. E alguém estava me observando. Eu não sabia quanto tempo ele tem

estado lá, me levou tempo perceber que ele estava perto. Eu não tive como olhar muito pra

ele, que aguardava para as sombras, uma figura alta, estreita de inegável ameaça. Não

tinha vontade de vê-lo melhor. Eu era muito cuidadosa, não saía sozinha depois da noite,

não ficava longe em lugares isolados, e estava sempre em guarda. Eu nunca o mencionei

para meus amigos, nem mesmo Julie. Eu dizia a mim mesma que não queria que eles se

preocupassem. Mas também não fui à polícia, e é o trabalho deles se preocupar.

Virei uma infinidade de possibilidades fora do grande cinza e branco que era minha

memória. Talvez fosse meu marido abusivo me observando, e eu fugi dele, o trauma de

sua brutalidade apagando, limpando minha mente. Talvez eu tivesse passado por algum

tipo de horror e estivesse no programa de proteção de testemunhas, com a máfia atrás de

mim. Não importava o quão cuidadosa eu era, se alguém queria me machucar, me matar,

provavelmente não haveria maneira de pará-lo… bem, provavelmente não havia nenhuma

maneira de pará-lo. Então, meu observador presumivelmente não me queria morta.

Eu tinha trabalhando até tarde na noite de quinta-feira fria, e chuvosa, tentando

conseguir organizar um monte de obituários. Yep, fazer obituários tarde da noite não era

minha tarefa favorita, mas com o jornal falindo, todos nós sempre nos colocávamos no que

era solicitado e trabalhávamos em qualquer coisa que fosse preciso, embora eu tivesse

ficado com a página de esportes. Geralmente, eu apreciava meu trabalho, com os

obituários, nem tanto. Eram os bebês que chegaram até mim. Óbitos fetais, mortes de

berço, abortos espontâneos. Me faziam sentir vontade de chorar, mas curiosamente nunca

chorei, se pudesse choraria por aqueles bebês, choraria por dias, semanas e anos. Eu não

me pergunto se tenho um filho perdido, sozinho. O instinto me disse que não tive, além

disso, lamentar por bebês perdidos era uma reação humana lógica. Quem não sentiria a

dor da perda de uma vida completamente nova?

1 “Be on its last legs” embora a expressão literal não faça muito sentido em português, é usada pra dizer que

algo não está indo bem, está próximo da ruína. Como a nossa “vai mal das pernas”.

5

index-6_1.png

index-6_2.jpg

Grupo RM

Demônio - Fallen 02

O vento levantou, uivando pela cidade e agitando as janelas fechadas

hermeticamente dos novos edifícios dos Correios, construídos a menos de três anos atrás

de uma maneira não muito inteligente, eu desconectei meu computador, finalizando a

noite. Olhei para o relógio, já era depois das dez e o escritório estava vazio. Meu carro

estava na garagem, e talvez tivesse alguém por lá. Eu peguei as chaves, corri para o meu

velho e confiável Subaru2, para me trancar se algo surgisse na escuridão. Sempre poderia

ligar para Julie e ver se seu marido poderia vir e me acompanhar até em casa. E como não

tinha lhes falado sobre meu observador, expliquei que era extremamente nervosa com

minha segurança pessoal e Bob veio para o resgate em uma série de ocasiões. Mas agora

eles tinham um bebê novinho em folha, e não queria incomodá-los. Eu ficaria bem.

Peguei meu casaco e estava me dirigindo para o elevador quando o telefone tocou

na minha mesa. Eu hesitei e depois ignorei. Quem quer que fosse, ou quisesse, eu estava

cansada demais para fornecê-lo. Tudo o que queria era chegar em casa com esse maldito

vento e me enrolar na cama quente e agradável. O elevador estava tomando seu próprio e

querido tempo, em um edifício que estava praticamente deserto. Meu telefone de mesa

parou de tocar e o celular começou. Xinguei, alcançando-o no bolso e abrindo-o quando o

elevador chegou. Era Julie e parecia em pânico.

– Rachel, eu preciso de você. - Disse ela em uma voz cheia de lágrimas. - Alguma coisa

ruim tinha acontecido.

Meu estômago apertou.

– O que há de errado? E como uma tola, eu entrei no elevador.

– É o bebê. Ela... - Quando a porta se fechou e o elevador começou a descer, eu perdi o

sinal.

– Merda! - Eu disse, muito alto. Meu escritório ficava no vigésimo segundo andar, e

apertei o botão para o segundo nível de estacionamentos que mais rapidamente atingia o

piso de abaixo e pararia a descida. As portas se abriram no escuro e vazio oitavo andar e

eu pulei fora. Empurrei o botão de discagem rápida do telefone enquanto as portas se

fechavam, abandonando-me na escuridão. Um arrepio correu por mim e tentei ignorar. Eu

2 Empresa automobilística japonesa fundada em 1953.

6

index-7_1.png

index-7_2.jpg

Grupo RM

Demônio - Fallen 02

tenho nervos de aço, mas nunca fui imprudente. Não havia nenhuma razão para me sentir

desconfortável, estive sozinha nesse edifício em numerosas ocasiões. Mas nunca havia me

sentido tão estranha antes. Julie respondeu ao primeiro toque.

– Onde você estava? - Ela disse, sua voz frenética e acusadora.

– Perdi o sinal. - Disse brevemente. – O que há de errado com o bebê?

– Estou no hospital. Ela não conseguia respirar, e eu chamei uma ambulância. Eles estão

na sala de emergência e me colocaram para fora. E preciso de você aqui para dar apoio

moral, estou apavorada, Rachel! Sua voz estava grossa de lágrimas.

– Onde está o Bob? - Eu disse, tentando ser prática.

– Comigo. Você sabe como os homens são impotentes. Ele apenas caminha e olha sombrio,

e eu preciso de alguém para me dar ânimo. Eu preciso da minha melhor amiga. Eu preciso

de você. Em quanto tempo você pode fazer isso?

É estranho como podemos nos tornar bons amigos em tão pouco tempo. Sentia um vínculo

duradouro, e não apenas uma amizade de escritório, quase como se eu a conhecesse de

outra vida. Mas ela não tinha idéia sobre o que eu fiz no passado.

– Que hospital

– São Uriel3 Estamos na sala de espera da emergência. Venha agora, Rachel! Por favor.

São Uriel? Pensei. Isso estava errado, não é? Uriel era santo? Mas fiz ruídos calmantes de

qualquer maneira.

– Eu estarei aí. – Eu disse. E sabia era mentira.

3 Uriel é freqüentemente identificado como o querubim que "permanece junto às portas do Éden com uma

espada ardente" ou como o anjo que "preside à tempestade e o terror" (no Primeiro Livro de Enoque). No

Apocalipse de Pedro aparece como o Anjo do Arrependimento - e tão desprovido de piedade quanto

qualquer demônio. Em Vida de Adão e Eva, Uriel é representado como o espírito (um dos querubins)

referido no terceiro capítulo do Gênesis. É também identificado com um dos anjos que deram sepultura a

Adão e a Abel no Paraíso.

7

index-8_1.png

index-8_2.jpg

Grupo RM

Demônio - Fallen 02

Fechei o telefone, mentalmente revendo o conteúdo de minha mesa. Nada de mais,

uma cópia de House Beautiful4, o último de Laurell K. Hamilton, e a Bíblia, o que era

reconhecidamente estranho. Eu não entendia por que a tinha, talvez tivesse feito parte de

alguma seita fundamentalista antes que eu fugisse. Deus sabia. Eu só sabia que precisava

ter uma Bíblia comigo. Precisaria encontrar outra, logo que eu achasse um hotel. Não

havia necessidade de voltar, eu viajava leve e deixava tão poucas impressões como podia

pra atrás. Eles não encontrariam pistas sobre mim, se procurassem na minha mesa.

Particularmente desde que eu não tinha pistas sobre mim.

Meu apartamento estava seguro do mesmo jeito, não existia nenhuma carta, nem

sinais de uma vida pessoal em qualquer lugar. Eu tinha certo número de gravuras pré-

rafaelitas baratas na parede, além de um grande cartaz emoldurado de um nevoeiro na

costa Noroeste. Eu odiava a deixar para trás, mas precisava me mover rapidamente. Teria

que largar o carro no dia seguinte ou dois e comprar outro, levaria muito tempo para Julie

perceber que eu havia desaparecido. Ela estaria muito ocupada pairando sobre a bebê

Amanda, observando cada respiração com os olhos ansiosos. Mas Amanda não iria

morrer. Ela começaria a melhorar, como todos os outros recém-nascidos que eu sabia que

enchiam os hospitais, quando eu me demorava. Tudo o que eu tinha a fazer era ficar longe

o suficiente, e eles se recuperariam. Eu sabia disso instintivamente, embora eu não

soubesse o porquê. Apertei o botão do elevador, em seguida, o corredor escuro e quieto.

Nada aconteceu, e eu o empurrei de novo, então apertei minha orelha na porta, para ouvir

algum sinal de que os cabos estivessem em movimento. Nada além de silêncio.

– Merda.

Eu disse novamente. Não havia nada a fazer, tinha que tomar as escadas. Eu não

parei para pensar nisso. Havia chegado a hora de partir, como sempre, e pensar não era

bom. Eu não tinha idéia de como eu sabia que dessas coisas, porque eu tinha que fugir. Eu

só sabia que eu fazia. Não foi até a porta da escada se fechar atrás de mim que me lembrei

do meu observador, e por um momento me apavorei, agarrando a maçaneta da porta. Já

estava trancada, é claro. Eu não tinha escolha, se ia sair da cidade a tempo, tinha que me

mexer. Então comecei a descer as escadas.

4 Revista de decorações. Em: http://migre.me/5l5U0

8

index-9_1.png

index-9_2.jpg

Grupo RM

Demônio - Fallen 02

Tempo para quê? Eu não tinha idéia clara. Mas Amanda não sobreviveria por muito

tempo se eu não movesse. Tropecei no patamar seguinte e fui lançada batendo a canela

contra a grade. Lutei com meus pés e congelei, alguém estava na escada comigo. Pude

senti-lo, mais perto do que alguma vez tinha estado antes, e não havia nada, ninguém,

entre ele e eu. Nada para diminuir o impacto, nenhuma segurança. O tempo estava se

esgotando. Eu não tinha arma. Era uma idiota, você poderia levar armas ocultas neste

estado, e uma arma muito pequena pode abrir um buraco muito grande em quem estava

me seguindo. Ou uma faca, algo afiado. Inferno, e eu não tinha ouvido que você pode

espetar suas chaves nos olhos de um atacante? Não sabia se ele estava acima ou abaixo de

mim, mas as únicas portas que estavam abertas da escada davam para os níveis do

estacionamento. Se eu subisse, ficaria presa.

Comecei a descer o próximo lance, movendo-me tão silenciosamente quanto podia,

ouvindo os passos para qualquer comparação. Não havia nenhuma. Quem fosse ele, não

fez nenhum som. Talvez, fosse uma invenção da minha imaginação paranóica, eu não

tinha razões concretas para fazer as coisas que fazia. Apenas agia por instinto. Eu podia só

ser louca como um percevejo, imaginando todo esse poder. Por que no mundo, a pequena

e insignificante Rachel Fitzpatrick teria algo a ver com o bem-estar de um bebê? De um

número de bebês? Por que eu tinha que ficar mudando meu nome, mudar quem eu era? Se

alguém estava me seguindo, porque ele não tinha me pego ainda? O que aconteceria se eu

simplesmente fosse para casa e ficasse lá? Se me juntasse a Julie no hospital? Amanda iria

morrer. Eu não tinha escolha, tinha que correr.

**

Azazel desceu as escadas após o demônio, silencioso, quase sem respirar. Ele podia

sentir seu pânico, e ele sabia que iria fugir novamente. Tinha levado mais tempo para

encontrá-lo agora, devia estar melhorando para chegar a suas novas identidades. Se o

demônio desaparecesse mais uma vez, ele não tinha idéia de quanto tempo levaria para

encontrá-lo novamente. Quanto mais tempo ele vagasse pela terra, mais destruição

poderia causar.

Era hora de fazer a seu movimento, não sabia por que havia hesitado, porque tinha

visto isso sem fazer nada. Seu ódio pela criatura era tão poderoso que teria o assustado, se

ele fosse capaz de sentir medo. Ele era incapaz de sentir qualquer coisa além do seu ódio

para com monstro, esse ser que estava em suas mãos. Depois que ele o matasse, não

9

index-10_1.png

index-10_2.jpg

Grupo RM

Demônio - Fallen 02

sentiria mais nada. O quão difícil seria para matar o demônio? Parecia uma mulher

normal, mas ele sentiu seu poder de sedução, mesmo à distância. Ele não precisava de

nenhum dos artifícios femininos óbvios para atraí-lo. Ela não usava maquiagem, não se

exibia em roupas reveladoras, tendia a se vestir de cores escuras em camisetas e calças

largas. Não havia nada para fazer um homem pensar em sexo, mas toda vez que ele

olhava para ela – para ele – pensou em luxúria. Nunca deveria subestimá-la. Ele.

Parte do poder do demônio era fazê-lo esquecer que era apenas uma coisa, não a

vulnerável mulher que parecia ser. Tão fácil de esquecer, de pensar nela como uma

mulher. Uma mulher que ele teria que matar. Talvez, alguma vez tivesse sido do sexo

feminino, mas não mais. Agora era simplesmente um repositório de toda a força sedutora

do sexo feminino na criação, canalizada em um demônio que parecia ser uma mulher

suave e vulnerável. Ele poderia pegá-la na garagem, quebrar seu pescoço, e depois voar

para o alto e atirar o seu corpo para o sol, poderia enterrá-la nas profundezas da terra, no

ventre de um vulcão. Ele percebia a necessidade do fogo para erradicá-la completamente,

ela e seus poderes do mal. Só quando estivesse morta a ameaça se dissolveria. A ameaça

aos recém-nascidos. A ameaça aos homens vulneráveis que sonhavam com sexo e

acordavam apenas para encontrar um demônio possuindo-os. E a ameaça a ele.

Acima de tudo, ele odiava a conexão que foi predita com ele, entre todas as pessoas.

E a única maneira de ter certeza de que nunca iria acontece era destruí-la. Ele estava

parado no canto da escada no piso inferior, observando-a. Puxou suas asas em torno dele,

desaparecendo, embora ela procurasse a seu redor, não viu nada e seguiu em frente. Mais

uma prova de seu poder, o poder que ela estava tentando tão duramente disfarçar.

Ninguém percebia quando ele desaparecia. Mas ela fez. Sua consciência era tão aguda

quanto a dele. E ele odiava isso. Hoje à noite, disse a si mesmo. Hoje à noite ele iria matá-

la. Se ele apresentasse provas a Uriel que estava indeciso, poderia simplesmente ser

deixado desinformado. E poderia finalmente retornar a Sheol, tomar de volta as rédeas

que Raziel lhe devia e acompanhar a ligação de Raziel a sua companheira, no lugar eu

antes era de Sarah. Não, ele não estava pronto. Certamente deveria haver alguma coisa

que tivesse que fazer antes que ele retornasse.

Ela havia fugido para a garagem, e ele a seguiu, fechando a porta silenciosamente

atrás dele. O local era iluminado, mas havia apenas um punhado de carros ainda lá. Ela já

estava meio caminho para o vermelho escuro, que ele sabia ser dela. Sabia que ele iria

levá-la tão longe deste lugar quanto fosse humanamente possível. Para o outro lado do

mundo, um dos poucos lugares onde a praga conhecida como Nephilim ainda prosperava.

Qual o lugar melhor para um demônio? Ele acenou com a mão e a garagem mergulhou na

10

index-11_1.png

index-11_2.jpg

Grupo RM

Demônio - Fallen 02

escuridão, cada luz apagada. Podia sentir o pânico súbito, e se surpreendeu. Ele não teria

pensado que demônios temessem a escuridão. Ela começou a correr, mas seu carro estava

estacionado a meio caminho para baixo, ele abriu as asas e levou-a.

Eu gritei, mas minha voz estava perdida nas dobras que me cobria. Eu não podia

ver, não podia ouvir, mal podia mover-se, tão desorientada e tonta que me senti doente.

Senti o chão ceder debaixo dos meus pés, e eu estava caindo, caindo.… Algo forte me

mantinha, mas eu não podia adivinhar o que. Pareciam barras de ferro em torno dos meus

braços, segurando-me, e meu rosto estava esmagado contra algo duro, algo que parecia

um pano. Eu respirei dentro, e por incrível que pareça eu pude cheirar pele, quente,

vibrante e indefinidamente masculina. Impossível. Senti cheiro de mar, mas estávamos

pelo menos mil quilômetros de distância de qualquer água salgada.

Eu me contorci contra as faixas apertadas, não conseguia respirar. Meu peito foi

esmagado contra qualquer coisa que tivesse feito isso, e eu estava desamparada, sem peso,

encapsulada pelo monstro que me agarrou. Tentei me mover mais uma vez, e a dor foi

ofuscante. Como se meu coração estivesse sendo esmagado, eu pensei, quando a

consciência desapareceu e eu caí em um buraco escuro e misericordioso.

Eu podia ouvir alguém cantar, o que era um absurdo. Ou eu estava morta ou eu

tinha sido capturada por uma criatura fictícia da ciência que havia me fechado num casulo

ou colméia, provavelmente para ser comida mais tarde. Eu tinha visto esses filmes, podia

me lembrar deles, embora eu não conseguisse me lembrar os meus próprios pais. Havia

dor em todos os lugares, mas muito especialmente no peito. Era como se alguém tivesse

alcançado dentro de mim e esmagado o meu coração com a mão. Outro filme, pensei,

sentindo-me tonta.

Mas de uma coisa eu me lembrei, que a vida nunca era como nos filmes. Eu não acreditava

em fantasmas e monstros e coisas que vinham de encontro na noite. Quem quer que

tivesse feito isso para mim tinha de ser humano e, portanto, eu poderia lutar.

Cautelosamente, abri os olhos.

Eu estava deitada no meio de uma cama irregular no que parecia ser um quarto de

motel decadente. A rádio tocava no fundo, algo suave e deprimente. Outra cama estava ao

meu lado, vazia, mas com uma depressão no travesseiro onde alguém havia estado, então,

presumivelmente, eu não estava sozinha. Tentei me mover, apenas um pouco, e enquanto

11

index-12_1.png

index-12_2.jpg

Grupo RM

Demônio - Fallen 02

meu corpo gritou em protesto, eu não estava mais presa. Estava de bruços sobre o colchão,

como se alguém tivesse me largado lá, e eu estava relativamente certa que eu não tinha

sido estuprada, presumidamente, não ainda. Alguém tinha apenas conseguido me pegar e

fugir comigo. O observador.

Rolei sobre minhas costas, muito devagar, meio com medo que ele estava

esperando para atacar novamente. Fiquei imaginando-o como um bastão, descendo sobre

mim, asas escuras batendo na minha cabeça. Ou eu tinha batido minha cabeça e tido uma

concussão, ou alguém me drogou. O quarto era pior do que eu pensava, mais um albergue

que um motel. Não que eu já tivesse estado em um albergue, antes, pelo menos, achava

que não. Mas pela pequena mesa e duas cadeiras, a chapa quente, e da porcelana escura,

tudo parecia com a minha idéia de um. Virei às costas e quase gritei. A outra cama não

estava mais vazia. Um homem estava ali, me olhando com olhos escurecidos. Eu abri

minha boca para gritar, mas minha voz estava estrangulada na garganta. Ele devia ter

visto o medo e fúria nos olhos, mas ele não se mexeu. Havia uma pequena janela suja, e eu

poderia dizer pela cor do céu que deveria ser um pouco depois do amanhecer. Então me

lembrei de Amanda e dos outros, e verdadeiro pânico apareceu.

– Tenho que... sair daqui. - Consegui ofegar.

Ele não se moveu, não reagiu, e eu me perguntei se ele tinha ouvido ou entendido.

Talvez não falasse Inglês. Eu não podia me dar ao luxo de perder tempo. Comecei a me

puxar para a posição sentada, ignorando o tiro de dor o meu corpo.

– Você tem que me escutar. - Eu consegui dizer, minha voz ainda grossa com a dor. – Eu

não posso ficar aqui, tenho que ir para longe. As pessoas vão morrer.

Ele ainda não se mexeu. A sala estava escura, e à luz do amanhecer eu não podia

vê-lo claramente. Tudo que podia dizer era que ele era comprido e magro, e

definitivamente não era daqui. Eles não crescem assim no Centro-Oeste. Sentei-me e baixei

os pés para o carpete sujo.

– Eu vou sair daqui. - Disse eu, começando e empurrei-me para cima da cama. Doeu como

o inferno, mas pude fazê-lo. Eu tinha que fazê-lo.

– Não. - Ainda que eu não tivesse visto mover os lábios, a palavra estava afiada, definitiva.

12

index-13_1.png

index-13_2.jpg

Grupo RM

Demônio - Fallen 02

– Eu te disse.

– Você me disse que as pessoas vão morrer. - Ele falou em uma voz entediada. – O único

que vai morrer é você.

Suas palavras frias deveriam ter me gelado, mas eu já tinha percebido que eu era

uma causa perdida.

– Olha, eu disse pacientemente. – Você pode fazer o que quiser, me esfaquear, me

estrangular, atirar em mim que eu não me importo. Basta fazê-lo milhas de distância da

cidade.

Acho que deveria ter olhado com mais cuidado sobre ele, para ver se poderia

encontrar um ponto fraco, mas eu estava muito ocupada pensando em Amanda. Sem

mais, pensei. Pelo amor de Deus, não mais bebês.

– Estamos na Austrália. - Disse ele. Eu parei de tentar levantar-se, finalmente, olhando

para ele.

– Quanto tempo eu estive inconsciente?

– Não muito. - Certo, agora eu sabia que ele era um fruitcake5 certificado. Não que eu

devesse ter qualquer dúvida disso. Uma pessoa sã não se abate sobre você como um

morcego para te raptar. Tentei mais uma vez sair da cama, e dessa vez fiz isso, como se

tudo que tivesse me segurado finalmente deixasse ir.

– Vá para a janela se não acredita em mim.

Eu fui. Não vi os cangurus ou coalas saltando pela janela, parecia com qualquer mar

sujo. Mesmo assim, levaria mais de um par de horas para alcançar o oceano a partir do

último lugar que eu me lembrava estar. Portanto, era evidente que eu tinha estado fora por

mais tempo do que ele disse, mas isso não importava. Tudo o que importava era que

Amanda e todos os outros recém-nascidos agora estariam seguros.

5 É uma expressão usada pra designar um lunático, maluco certo.

13

index-14_1.png

index-14_2.jpg

Grupo RM

Demônio - Fallen 02

– Certo. - Eu disse, voltando-se para enfrentá-lo. Eu estava cansada de correr, cansada do

medo e do pânico que ameaçava me estrangular. – Vá em frente. Faça meu dia.

E eu abri os braços, esperando que ele me matasse.

Capítulo dois

O homem olhou pra mim, seu rosto inexpressivo.

– Você tem visto muitos filmes.

Eu suspirei.

– Olha, eu não sei quem ou o que você é. E eu não me importo. Estou cansada de correr,

cansada de perguntas sem respostas. Se você quiser atirar em mim, então vá em frente e

faça. Caso contrário, me dê algumas respostas ou me deixe sozinha.

– Eu não possuo uma arma. - Eu ainda estava decidindo se deveria ou não ter ficado

aliviada quando ele continuou. – Você sabe tão bem quanto eu que eu não preciso de uma

arma para matá-la.

Eu sentei na cama irregular.

– Eu não sei nada. - Eu disse categoricamente. – Eu nem sei quem eu sou, muito menos

quem você é. Tenho certeza que você pode me dominar se quisesse, mas eu também estou

presumindo que se estivesse planejando me matar, você já teria feito isso.

14

index-15_1.png

index-15_2.jpg

Grupo RM

Demônio - Fallen 02

– Você não deve presumir nada. Eu posso chegar com meia dúzia de razões pelas quais

ainda tenho que matá-la. Talvez eu precise de um lugar melhor para me desfazer do seu

corpo.

– Como a Austrália? - Seu rosto estava impassível.

– Talvez eu queira prolongar tudo, deixá-la sofrer. Ou talvez eu tenha decidido dar-lhe

uma chance de falar comigo sobre disso. Ou até mesmo dar-lhe uma vantagem.

Certo, parecia até um pouco menos tranqüilizador, eu dei uma boa olhada nele. De

acordo com alguns padrões que ele pode até ser considerado atraente. Inferno,

provavelmente lindo, se não fosse a incrível frieza nos olhos azuis. Ele tinha cabelo

comprido, liso, muito preto, pele pálida, um rosto estreito com cinzeladas maçãs do rosto

salientes, boca fina, e um nariz forte. Ele parecia tão frio quanto a Antártida, e sua dicção

levemente formal fez parecer ainda mais impenetrável.

– Você sabe, por alguma razão, nenhuma dessas possibilidades parecem muito prováveis.

Você não me parece alguém cheio do leite da bondade humana.

– Eu não sou humano.

Isso mal me pareceu estranho. Impossível como era, eu tinha começado a imaginar

tanto, considerando que, aparentemente, conseguiu viajar milhares de quilômetros, em

questão de horas.

– Então, que porra é você?

– Você sabe.

Eu estava enfrentando a morte com o que eu considerei uma boa quantidade de

tranquilidade nobre, mas ele estava ficando além do frustrante, arruinando todo o meu

momento Joana d’Arc6.

6 Uma referencia a personagem francesa. Uma das mais importantes mulheres guerreiras da história, que

enfrentou sem fraquejar sua captura, julgamento e execução na fogueira por bruxaria e heresia.

15

index-16_1.png

index-16_2.jpg

Grupo RM

Demônio - Fallen 02

– Não sei. Eu te disse, eu nem sei quem eu sou, e mesmo que você tenha caído em mim

como um morcego fora do inferno, eu estou tendo uma dificuldade processar a idéia de

que você é outra coisa senão um psicopata maluco que provavelmente vai desmembrar

meu corpo e roer os ossos.

– Nós não comemos carne. Isso seria o Nephilim7.

Essa palavra, esse nome, golpeou uma corda impar dentro de mim, um impulso da

náusea que tomou toda minha força de vontade controlar. Contudo a palavra não

significava nada.

– Quem são os Nephilins?

Ele não respondeu. Levantou-se, e eu observei procurando qualquer sinal de

fraqueza. Presumivelmente ele não estava mentindo sobre a arma, estava vestindo uma

camiseta preta e as calças de brim e eu não pude ver nenhum sinal nele. Por um momento,

fiquei receosa quando ele ia se aproximando de mim, e endureci para lutar, mas ao invés

disso ele andou até a janela, abrindo a cortina para deixar entrar a luz do amanhecer. O

canto suave no rádio terminou, e o locutor entrou, definitivamente australiano. Eu senti

um arrepio sobre mim, e tentei controlá-lo. Pelo menos Amanda estava segura. E então ele

desligou o rádio, tornado a olhar-me.

– É hora de ir.

– Ir para onde? Você vai me explicar alguma coisa ou deixar que eu morra de curiosidade?

Ele não deu a resposta óbvia. Ficou lá esperando, e lentamente, dolorosamente,

levantei-me sobre os pés novamente. Me sentia como se alguém tivesse me usado como

saco de pancada, presumivelmente esse homem. Eu me perguntei se parecia tão

machucada como me sentia. Caminhei depois dele e olhei para meu reflexo no espelho.

Gritei. Mesmo antes que o som explodisse, ele estava em mim, uma mão apertada sobre a