The Hollow por Jessica Verday - Versão HTML

ATENÇÃO: Esta é apenas uma visualização em HTML e alguns elementos como links e números de página podem estar incorretos.
Faça o download do livro em PDF, ePub, Kindle para obter uma versão completa.

index-1_1.png

index-1_2.jpg

index-1_3.jpg

index-1_4.jpg

1

index-2_1.png

index-2_2.jpg

index-2_3.jpg

2

The Hollow

Jessica Verday

Série The Hollow

index-3_1.png

index-3_2.jpg

index-3_3.jpg

3

Quando a melhar amiga de Abbey, Kristen, desaparece na ponte perto do cemitério de Sleepy

Hollow, todo mundoaceita rapidamente que Kristen está morta... e rumores dizem que sua morte não foi

acidental. Abbey passa pelos sentimentos de luto pela sua melhor amiga, mas secretamente, ela se recusa

a acreditar que sua melhor amiga realmente se foi. Então ela conhece Caspian, o lindo e misterioso garoto

que aparece do nada no funeral de Kirsten, e continua aparecendo na vida da Abbey. Caspian tem

claramente segredos sobre si mesmo, mas é a única pessoa que faz Abbey se sentir normal de novo... mas

também especial.

Apenas quando Abbey começa a sentir que pode sobreviver a tudo isso, ela descobre um segredo que a faz

questionar tudo o que ela achava que sabia sobre sua melhor amiga. Como Kirsten pôde ter mantido

silêncio sobre tanta coisa? E esse segredo poderia ter causado sua morte? Enquanto Abbey luta para

entender a traição de Kristen, ela descobre uma verdade assustadora que quase a destrói - um segredo que

vai desafiar o seu emergente amor por Cáspian, assim como sua própria sanidade.

index-4_1.png

index-4_2.jpg

index-4_3.jpg

4

Prefácio

Eles disseram que ela tinha se matado. Todo mundo estava dizendo isso.

O que tinha começado apenas como um rumor sussurrou quietamente no recolhimento

das pessoas educadas, crescendo em direção a algo que era abertamente discutido em

grandes massas de pessoas descortês. Eu estava cansada de ouvi-los falando sobre isso.

Eles tinham me interrogado. De novo e de novo, tentando descobrir se eu sabia o que tinha

acontecido. Mas minhas respostas não mudavam. No entanto, nunca falhou – alguém

perguntaria novamente, como se de um dia para o outro, minha resposta fosse ser

diferente.

Eu não sabia, mas deveria... e isso esteve me assombrando desde então.

index-5_1.png

index-5_2.jpg

index-5_3.jpg

5

Capítulo Um

Últimas Palavras

―Do repouso indiferente do local e do caráter peculiar de seus habitantes... este vale

isolado é há muito conhecido pelo nome de Sleepy Hollow.‖

The Legend of Sleepy Hollow by Washington Irving

Era engraçado. Em tempos como esses, eu não deveria pensar em coisas sérias

sobre a eternidade, e na vida após a morte, e tudo isso? Com uma olhada nos pequenos

grupos formados ao redor da sala, parecia que era isso que eles estavam pensando. Cada

rosto sombrio refletia pensamentos religiosos, mas tudo que eu podia pensar era no

incidente de tingimento-de-cabelo pelo qual passamos.

Foi engraçado.

Eu acho que deveria estar pensando em todas as coisas que eu queria dizer. Todas

as coisas que eu não poderia dizer. E todas as coisas que eu nunca teria a chance de dizer.

Mas eu não estava. Era como se nada disso estivesse realmente acontecendo. Ela só estava

desaparecida desde 9 de junho. Sessenta e oito dias. Isso não é tempo o bastante para ela

estar... morta.

Você não pode ter uma visão do corpo se não há nenhum corpo.

index-6_1.png

index-6_2.jpg

index-6_3.jpg

6

E alguém não pode ter realmente partido de sua vida para sempre se você não vê o

corpo. Isso funciona assim. Era apenas uma representação. Apenas mostrava o que

estávamos passando.

Eu estava encarando o caixão fechado ha bastante tempo, então alguém se moveu

atrás de mim. A mensagem era silenciosa, mas clara. ―Você teve sua vez. Agora mova-se.‖

Eu me movi.

Eu me pressionei o mais perto da parede o possível, tentando me misturar. Um

cheiro de mofo velho flutuava ao redor de mim, e reconheci o odor de flores após a

primavera. Como se a sala em si tivesse absorvido o odor em anos. Colocando uma mão em

minhas costas, eu estendi a mão para tocar o amarelado papel de parede. Era áspero

embaixo dos meus dedos, e cobria cada centímetro quadrado de uma sala que parecia não

ser arrumada desde 1973. Era horrível. A sala estava começando a encher, e eu me esquivei

para a esquerda. Aqui, o carpete cor de sopa-de-ervilha estava desgastado em diversos

pontos. Fotos velhas de pastores que guardavam seus rebanhos decoravam as paredes, mas

todos eles estavam com manchas d‗água e pendurados com um berrante fio dourado.

Porquê em todo o mundo, alguém escolheria uma sala como essa para amontoar

um grande grupo de pessoas? Esta deve ser sala mais feia que já vi. Um bingo seria mais

apropriado. Mas todas as vezes que pensei em escapar desta sala e de todas essas pessoas,

minha mãe captava meus olhos e me dava uma olhada. Aquele sinto-muito-querida-mas-

isso-vai-terminar-logo-eu-prometo olhar. O que significava que isso, na verdade, iria ser

muito demorado.

Especialmente desde que minha mãe e meu pai pareciam mais que felizes de

passar vinte minutos conversando com cada pessoa que entrava na sala. Então encarei o

horrível papel de parede... e o tapete desgastado... e aquelas pinturas de mau gosto...

Eu tinha que sair. Eu dei a minha mãe um sinal, ou pelo menos eu espero te passado algum

tipo de aviso, que eu estava escapando para uma caminhada. Ela não respondeu, mas como

index-7_1.png

index-7_2.jpg

index-7_3.jpg

7

ela estava no outro lado da sala, ela não podia fazer nada para me impedir.

A porta mais próxima me levou a um corredor que terminava em um foyer em

frente a casa funerária. O foyer era velho e poeirento, e decorado com horríveis flores

falsas, e painéis de madeira falsos que cobriam a metade inferior de cada parede. Alguém

aparentemente tinha pensado que seria uma boa ideia dar continuação ao tema floral do

lado de fora, e havia colado hera verde nas paredes, o que era tão horrível quanto o papel

de parede de dentro.

Não era algo bom de se olhar.

Então eu vi um banco. A chapelaria próxima a ele estava cheia, mas o banco estava

vazio, e era todo meu.

De repente, eu não me importei com os feios painéis de madeira, nem mesmo com

a hera. Parecia silencioso lá no banco, e eu me sentei para contemplar quão legal era esse

alguém que tinha pensado em colocar esse banco ali, exatamente para mim.

Mas meus pensamentos foram interrompidos quando três pessoas saíram da sala

de exibição e começaram a andar em minha direção. Desde que o banco e a chapelaria

estavam posicionados perto da saída, eu esperei desesperadamente que eles estivessem de

saída.

Eu não estava com humor para forçar um sorriso e conversar com pessoas que eu

não queria estar perto.

Eles estavam vestidos de preto, uma maneira de parecerem adequados, tenho

certeza. Srta Horvack, a professora substituta, estava na direita, e eu notei que a Sra.

Kelley, a historiadora da cidade, estava na esquerda. Eu não reconheci a mulher que estava

no meio. Sleepy Hollow pode ser uma cidade pequena, mas isso não significa que eu

index-8_1.png

index-8_2.jpg

index-8_3.jpg

8

conheço todo mundo que vive aqui. Seus sussurros barulhentos perturbavam o ar, e eu

tentei muito não ouvir o que elas estavam dizendo, mas eu desisti rapidamente quando

algo interessante chamou minha atenção. Eu me aproximei da ponta do banco para ouvir.

— tentando jogar ovos nos carros pela janela do banheiro. Onze e nove anos, eles

tinham. Onze e nove! — A grave voz da Srta. Horvack quebrou enquanto ela falava cada vez

mais alto.

— Mmm-hmm, — alguém murmurou.

— Graças a Deus eu estava lá para impedi-los. Depois de dez minutos eu abri a

porta e entrei para dizer que eles já tinham esgotado o tempo limite e eles precisavam sair

dali. Foi uma coisa boa eu ter feito isso, — ela resmungou, sua voz ficando mais excitada.

—Você não sabe; eles vieram atacando com os ovos, tirando eles de seus bolsos. Eu

fiquei espantada. Pasma, na verdade.

Sra. Kelley falava agora.

— Os pais não se importam mais, e isso é uma vergonha. Não respeitam seus pais e

não respeitam os idosos. Nenhum deles. Isso foi o que aconteceu com aquela garota

Kirsten, eu aposto. — Eu estava ouvindo mais de perto quando a mulher que eu não

conhecia juntou-se a conversa.

— Ela não tinha nenhum respeito para sua família. Eu ouvi que ela estava fazendo

todos os tipos de besteira, assim como seu irmão.

Os suspiros indignados das outras duas mulheres fundiram-se com meu silencioso

ataque de descrença. Kirsten nunca faria besteiras. Esta mulher obviamente obteve seus

fatos de uma fonte errada.

index-9_1.png

index-9_2.jpg

index-9_3.jpg

9

— Foi provavelmente relacionado a drogas, — Srta. Horvack concordou. —Essas

crianças de hoje só tem feito besteira. Tudo pelas drogas. — Sra. Kelley expressou

fortemente sua concordância sobre ‗as drogas‘.

— E isso tudo se resume a que? — A terceira mulher fez uma pausa, e em seguida,

assumiu a conversa novamente.

— Nenhum respeito, como eu disse. Eles não têm respeito por nada. Que pena dos

pais dela.

Srta. Horvack e Sra. Kelley concordaram rapidamente, apontando severamente

mais razões para a óbvia queda da sociedade jovem.

Eu não podia acreditar no que estava ouvindo. Quem eram aquelas pessoas para

espalhar rumores sobre Kirsten desse jeito? Todo mundo em Sleepy Hollow sabia que a

família de Kirsten nunca superou a perda de seu único filho por causa de uma overdose

oito anos atrás. Se havia uma coisa em que Kirsten nunca se envolveria, eram as drogas.

Cerrando meus punhos, senti cada unha penetrar na palma da minha mãe, e eu

tentei controlar minha raiva. Mas eu não podia aguentar mais. Aquelas mulheres estavam

erradas, e elas precisavam saber disso. Eu pulei para interrompê-las, mas então vi minha

mãe espreitando pelo corredor. Ela me viu também, e levantou uma sobrancelha.

— Aí está você, Abigail.

Eu conhecia aquele olhar. E aquela sobrancelha.

Eu encarei a Sra. Kelley e a Srta. Horvack diretamente nos olhos enquanto passava

por elas, para provar que tinha ouvido tudo que elas tinham dito, e para deixá-las sabendo

index-10_1.png

index-10_2.jpg

index-10_3.jpg

10

que aquilo tinha me deixado muito irritada. Eles fingiram que não perceberam.

Quando eu entrei novamente na sala, fui ficar de pé com o meu pai. Ele colocou

seus braços em meus ombros, e foi bom sentir o apoio. A conversa que tinha entreouvido

corria pela minha cabeça, repetindo-se de novo e de novo. Eu queria confrontar aquelas

mulheres e fazer com que as lembranças delas fossem corretas. Dizer a elas o que pensava

das pessoas que falavam da Kirsten daquele jeito, e quão inapropriado era.

No fim das contas, pensei, eu só queria dizer que elas estavam muito, muito, muito

erradas. Ao invés disso, eu só fiquei lá olhando fixamente para o caixão.

A foto de Kirsten na escola, do ano passado, tinha sido colocada próximo ao caixão,

e me concentrei fortemente na foto, tentando sintonizar todos ao meu redor. A mãe dela

tinha me perguntado se podia usar uma foto de nós duas usando um grande chapéu idiota

e com grandes sorrisos patetas. Mas eu não tinha sido capaz de responder a ela. Eu

simplesmente não sabia o que dizer quando ela me perguntou, então eu acho que ela levou

aquilo como um não.

Olhando para a foto da escola, de repente desejei que tivesse dito sim. Deveria ter

uma foto de nós duas ali, mesmo que isso fosse somente uma encenação. Eu deveria ter

sido capaz de dar a Kirsten pelo menos isso. Todos aqui mereciam ver a verdadeira

Kirsten, não apenas algo tenso, colocado ao seu lado.

As pessoas ao meu redor começaram a curvar as cabeças e fechar os olhos, e

percebi que o Reverendo Prescott estava encerrando a noite com uma oração. Não

demorou muito, e quando ele terminou, segui minha mãe e meu pai pela sala para nossa

rodada final.

Os pais de Kirsten estavam muito emocionados, então nós apenas demos um

rápido adeus. Na verdade, eu estava um pouco aliviada, porque a última coisa que queria

index-11_1.png

index-11_2.jpg

index-11_3.jpg

11

fazer era dizer algo terrivelmente inapropriado, como o quanto ia sentir falta da lasanha

que a mãe dela costumava fazer para mim.

O reverendo Prescott estava perto, junto com todos que estavam saindo. Isso

acabou nos dando vinte e cinco minutos para conseguirmos sair da sala, e nunca fiquei tão

feliz em ver um corredor. O trio ainda estava lá, só que agora tinham atraído mais pessoas.

Elas nem se incomodaram em parar de falar enquanto passava por eles, e suas palavras me

acertaram em cheiro.

— Coitadinhos

— É tão triste, ter que enterrar um caixão vazio.

— Eles provavelmente nunca vão achar o corpo.

— Se ela estava deprimida, então obviamente foi suicídio.

Eu me virei e lancei a Sra. Kelley e a Srta. Horvack outro olhar quando passei, só

que dessa vê eu acrescentei gelo nele. Me afastando, passei pelas pesadas portas da saída, e

pisei no lado de fora com mamãe e papai, e tentei deixar o ar da noite acalmar meu

temperamento. As portas ecoaram com barulho enquanto fechavam atrás de nós.

As fofoqueiras nem repararam.

Eu fiquei acordada naquela noite, deitada na cama, encarando o teto até que os

primeiros sinais da madrugada avançaram para meu quarto. Eu tentei me forçar a dormir

um pouco, mas não adiantou muito, e o nascer do sol não ajudou. O tempo ficou nublado e

opressor no meio da manhã. O funeral estava marcado para as 16h30min, mas depois do

almoço, eu não aguentava mais ficar dentro de casa, então peguei uma leve capa de chuva e

avisei a minha mãe que estava saindo para uma caminhada. Ela estava no meio de uma

discussão com o papai sobre imprimir folhetos sobre o funeral, então ela só sacudiu a

index-12_1.png

index-12_2.jpg

index-12_3.jpg

12

cabeça em minha direção.

Eu estava do lado de fora antes mesmo dela ter a oportunidade de perguntar onde

eu estava indo, agradecida por ela não me fazer sentar e discutir meus sentimentos com

ela, ou algo parecido.

Não sabendo exatamente aonde eu ia, comecei a subir lentamente a ladeira que

fazia um caminho para longe de casa. Uma fria brisa soprou, e parei por um minuto para

vestir a capa amarela, mantendo as mãos dentro dos bolsos. Eu observei como o chão se

movia embaixo de mim, e não muito tempo depois, me encontrei no único cemitério em

toda a cidade de Sleepy Hollow. Ele esticava por quilômetros, e Kirsten e eu vínhamos aqui

praticamente todos os dias. Era nosso cemitério.

Passando pelos grandes portões de ferro que guardavam a entrada, meus pés

seguiram automaticamente o caminho que tomávamos quando vínhamos aqui. Eu fiquei

vagando pelo passado, através das colinas com suas árvores e arbustos, e parei em seguida

para dar uma olhada ao redor. Sempre tinha algo interessante para ver todas as vezes que

eu vinha aqui. Se era uma gravação recente em uma lápide, ou um brinquedo posicionado

em um túmulo, sempre era variado. Mas de vez em quando, algo anormal e estranho

aparecia. Algo que fazia você imaginar aquele item em particular tinha sido deixado ali, e

qual historia por trás disso.

Hoje era uma cadeira.

Uma cadeira antiga feita de ferro forjado com uma almofada no assento de

madeira repousava ao lado de um túmulo recente. A cadeira parecia estar esperando, como

se alguém fosse sentar nela para conversar sobre quem tinha sido recentemente enterrado.

Era inquietante e belo ao mesmo tempo.

index-13_1.png

index-13_2.jpg

index-13_3.jpg

index-13_4.png

13

Hesitando brevemente, dei uma rápida olhada ao redor para me certificar de que

ainda estava sozinha. Não queria incomodar nenhum membro da família de luto que

pudessem ainda estar por perto. Então me desviei do meu caminho e fui até a cadeira,

tomando cuidado ao pisar no solo frouxo.

— Posso sentar aqui por um momento? — perguntei à sepultura fresca. — Eu

prometo sair se o dono da cadeira aparecer. — Um galho de uma cerejeira balançou para

cima e para baixo, e tomei isso como um sim. Cuidadosamente, limpei o assento e me

sentei. Vastos campos me cercavam por todos os lados, pontuados com pequenos pontos

de cor. Várias árvores de grande porte começavam a perder as folhas, e era um contraste de

cores vivas e brilhantes. O cemitério ficaria completamente deslumbrante quando o outono

finalmente chegasse e todas as folhas caíssem.

— Este é um lugar lindo, — eu disse baixinho, falando com a sujeira ao meu lado.

— Eu sei que você não está aqui há muito tempo, mas você vai gostar.

Uma gigantesca árvore estava posicionada atrás de nós, e sua sombra seguia todo o

caminho até a colina. Algumas de suas folhas estavam começando a mudar agora, e era de

tirar o fôlego. Eu tinha passado tanto tempo nesse cemitério que nem me sentia estranha

por estar conversando com um túmulo.

— Eu tenho uma amiga que vai ser enterrada aqui hoje, — eu continuei. — Não

aqui nesta parte, mas mais lá para baixo, perto da antiga capela. Espero que eles tenham

uma árvore lá para ela. Ela gostaria de ter uma árvore. Onde quer que ela esteja...

O vento aumentou e fiquei em silêncio. Ele uivava ao meu redor, fazendo um

estranho gemido. Era mais triste do que assustador, era como se o vento estivesse de luto

pela minha perda. E apesar de que essa coisa era apenas uma perda de tempo, eu

definitivamente senti como se tivesse a perdido. De certa forma, eu acho que saber que ela

index-14_1.png

index-14_2.jpg

index-14_3.jpg

14

realmente estava morta teria sido mais fácil de entender. De certa forma, seria mais fácil

de lidar.

Algo brilhante chamou minha atenção de repente. Eu me inclinei para frente para

ter uma visão melhor. Era um pequeno trator em movimento ao longo de um dos

caminhos abaixo. Depois de alguns minutos, ele parou em frente a um toldo. Várias

pessoas estavam ao redor, e duas delas estavam segurando pás. Em algum lugar no fundo

da minha mente, eu sabia o que eles iam fazer. Eu também sabia que provavelmente não

deveria vê-los fazendo isso. Mas não podia me mover. Com a atenção fixada, assisti

enquanto eles começaram o lento processo de cavar uma sepultura. A escavadeira levantou

e abaixou suas pás várias vezes, voltando todas às vezes com uma pilha escura de sujeira.

Em seguida, os trabalhadores entraram com suas pás no buraco. Eu presumi que eles

estavam tirando o resto da sujeira. Aconteceu repetidamente, e continuei assistindo-os. Eu

deveria ter sentido alguma coisa. Raiva... Nojo... Tristeza. Mas não senti nenhuma dessas

coisas. Ao invés disso, eu estava hipnotizada. Quando eles terminaram sua tarefa, a

escavadeira recuou.

Os homens jogaram suas pás no chão, e começaram a colocar placas de metal no

interior do buraco. Quando terminaram, os trabalhadores montaram um toldo branco e

colocaram várias cadeiras ao lado do túmulo. Em seguida, carregaram as pás, entraram no

trator e foram embora. Foi incrível ver a transformação completa de um pedaço de terra

vazio para um lugar pronto para um sepultamento, e também doía um pouco entender

como tudo podia ser facilmente feito.

O vento gemia de novo e vários pingos de chuva caíram sobre minha cabeça. Eu

tinha perdido completamente a noção do tempo, e provavelmente deveria voltar para casa

correndo e me arrumar para o funeral. Pelo canto do olho, vi uma sombra negra se

movendo, mas quando virei para a direção que achei que a sombra tinha ido, não havia

nada lá. Voltando para a sepultura ao meu lado, eu levantei minha voz suavemente para

index-15_1.png

index-15_2.jpg

index-15_3.jpg

15

ser ouvido sobre o barulho do vento. — Obrigada pela companhia.

Levantei-me da cadeira e fiz um aceno de despedida antes de ir embora. Antes de

ir, olhei mais uma vez sobre os meus ombros, mas a sombra já tinha sumido.

Foi quando o céu se abriu.

Grandes gotas de chuva caíram, batendo com força no chão. Eu enfiei as mãos

dentro da minha capa de chuva, para que pelo menos alguma parte do meu corpo ficasse

seca. Mesmo que uma parte pequena. O caminho do cemitério tornou-se escorregadio por

causa da água e da lama, e espirrou no meus jeans e nos meus sapatos. Infelizmente, eu

ainda estava muito longe da entrada, e mais longe ainda da minha casa. Eu não tinha nada

pela frente, a não ser um longo, molhado e miserável caminho de volta para casa.

index-16_1.png

index-16_2.jpg

index-16_3.jpg

16

Capítulo Dois

O Funeral

―Ainda ouvem-se cantos peculiares na igreja... Que dizem ser originados legitimamente

de Ichabod Crane.‖

— The Legend of Sleepy Hollow, by Washington Irving

Eu mal tive tempo de me secar e trocar a roupa por um vestido preto antes de

voltar ao cemitério. O funeral aconteceu dentro da Igreja antiga. E todos os bancos de

madeira estavam ocupados. No espaço restante só dava para ficar de pé. A cidade inteira

tinha aparecido. Enquanto o barulho da chuva tamborilava no vitral, o reverendo falava

firmemente. A maneira como ele falava de Kirsten a fazia parecer menos como a minha

melhor amiga, e mais como uma estranha que eu nunca havia conhecido. Era estranho e

desconcertante. Um fraco odor impregnava o salão, um cheiro familiar que vinha das

caldeiras acesas devido ao tempo cinzento e frio lá fora. Mexi-me desconfortavelmente no

banco duro, e encontrei meus olhos vagueando sobre a pintura que estava pendurada

acima da cabeça do reverendo. Retratava a cena que ficou famosa por Washington Irving,

mostrando o medo de Ichabod Crane, olhando por cima do ombro enquanto um

ameaçador cavaleiro sem cabeça galgava atrás dele. Eu tinha perguntado uma vez ao

reverendo Prescott o porquê a pintura estava na igreja, ele me disse com grande prazer que

preferia manter em vista as virtudes mantendo nossos olhos no Senhor quando o demônio

estava bem atrás oferecendo tentações. Quando ele terminou, eu me arrependi de ter

perguntado. De repente, o reverendo parou de falar e todos ao meu redor começaram a

levantar. Era hora da procissão final. As pessoas saíram da igreja em fila, uma por uma,

escondendo-se embaixo de guarda-chuvas, tentando ficar secos embaixo da segurança das

index-17_1.png

index-17_2.jpg

index-17_3.jpg

17

telhas o máximo que podia. Mas era uma ação inútil, e logo eles aceitaram a derrota.

Eu segui meus pais enquanto eles seguiam a solene multidão que se movia

lentamente através dos túmulos. Apesar de a maioria tentar andar cuidadosamente pelos

caminhos traiçoeiros, a cada passo que davam um dedo ou calcanhar ficava preso na lama.

Eles chegariam sujos e molhados ao túmulo de Kirsten.

Escorregando pelo caminho molhado, andei afastada dos outros. Eu fui por um

caminho que não estava tão enlameado, mas a chuva escorria pelo meu rosto já que eu não

tinha um guarda-chuva comigo. Parecia um déja vu de mais cedo. Novamente fui pega pela

chuva. Quando cheguei ao local da sepultura, tive sorte de encontrar um pequeno lugar

desocupado embaixo da tenda, e fiquei ali, esperando silenciosamente. Os homens

carregaram o caixão até o cemitério, e depois o colocaram dentro da cova, no centro

daquelas placas de metal. Minha mãe tentou captar meu olhar, enquanto as pessoas iam

até a sepultura para dar seus sentimentos finais e falar algumas palavras. Ela continuou

fazendo um pequeno movimento com a cabeça, pedindo que eu fosse lá e falasse algumas

coisas, mas apenas sacudi a cabeça para ela. Eu não podia encarar essas pessoas. Não

agora e não desse jeito. Tudo isso era uma farsa, mas eu não podia ir lá e falar isso. Mais

pessoas subiram. Muitos chegaram a tocar o caixão, e um rapaz colocou uma única flor na

tampa. Surpreendeu-me quando ele foi à frente da multidão e disse simplesmente que ia

perder a chance conhecer Kirsten melhor. Seu cabelo castanho encaracolado era uma

bagunça, e seus olhos castanhos estavam avermelhados e lacrimejantes. Parecia que ele

estava pronto para começar a berrar a qualquer momento. Eu o encarei enquanto ele se

arrastava. Eu sabia que ele estudava com a gente e que seu nome era Brad ou Brett, mas

com exceção disso, eu não sabia nada sobre ele.

Então por que ele falava como se realmente fosse sentir falta de Kirsten?

Reconheci algumas outras pessoas da escola, algumas líderes de torcida, que falavam sem

parar das boas lembranças que tinham de Kirsten.

index-18_1.png

index-18_2.jpg

index-18_3.jpg

18

Como ela tinha sido uma boa pessoa... Que eles iriam sentir muita falta dela... blá,

blá, blá. Tantas palavras inúteis. Eles não conheciam Kirsten realmente. Para eles, era tudo

sobre a atenção que iam receber. E então, tudo acabou. Uma última flor foi jogada, uma

última lágrima derramada, e o adeus foi dito, o serviço estava terminado e era hora de ir

embora. Um caixão vazio colocado sobre o chão duro e frio, era o que simbolizava a vida da

minha melhor amiga. Era muito inapropriado.

A multidão saiu rapidamente, enfrentando as poças de lama bravamente de volta

para seus carros. Eles haviam feito sua parte. Agora era hora de seguir em frente. Eu fiquei

onde estava até o último deles ter saído. Minha mãe e meu pai estavam andando com o

reverendo Prescott de volta para a igreja, e esperava que eles tivessem entendido que eu

precisava de um tempo sozinha. Para resolver algumas coisas.

Dando um passo mais para perto, eu me concentrei no caixão. Tudo tinha sido virado de

cabeça para baixo nos dois últimos meses. Eu não sabia que caminho seguir agora e não

tinha ninguém para perguntar. Isso fez minha cabeça doer, e senti como se nunca fosse

capaz de desvendar meus pensamentos. Mas acima de tudo, fazia meu coração doer.

Dentro do meu peito eu sentia um enorme aperto que parecia esmagar tudo que tinha lá

dentro. Um dia, eu não teria mais nada além de um buraco negro dentro de mim.

Uma breve explosão de luz captou meu olhar, e eu olhei para cima, afastando-me

temporariamente do meu sofrimento. O sol estava espreitando sob uma nuvem, tentando

valentemente aparecer através da chuva. Um raio de luz atingiu a lateral do caixão e

transformou uma sombra normal e incômoda em uma estrela.

Cada mancha de tinta era momentaneamente iluminada, mostrando a verdadeira

cor do caixão, um vermelho sangue vibrante. Eu sorri. Vermelho era nossa cor favorita. E

então, o sol desapareceu. Eu estendi a mão e toquei a tampa do caixão. Estava frio. Tão frio

que imediatamente agarrou minha mão. Eu quase senti como se estivesse me queimando.

Eu fiquei parada lá. Eu não podia dizer nada... Não em voz alta, pelo menos. Mas milhares

de pensamentos corriam em minha mente, e milhares de sentimentos explodiam

violentamente em meu coração. O tempo imitou minhas emoções. Um forte vento soprou,

index-19_1.png

index-19_2.jpg

index-19_3.jpg

19

uivando em indignação. As bordas do toldo bateram com raiva nos postes de alumínio que

as apoiavam, e causou um horrível zumbido. Até a chuva batia com mais força,

ricocheteando amargura. E ai foi quando eu senti que tinha alguém me olhando.

Eu olhei através das lápides, das placas memoriais, dos mausoléus e das criptas.

Lá, ao lado de um enorme mausoléu construído na encosta de um morro, estava um

menino. Vestido em um terno preto, com camisa branca e uma gravata preta, e seu cabelo

era tão pálido que parecia quase branco. Suas mãos estavam apertadas na frente do seu

corpo e percebi que ele não tinha guarda-chuva e nem uma capa de chuva. Ele estava

completamente encharcado. Eu não podia dizer qual cor eram seus olhos, ele estava longe

demais para isso, mas ele olhou para mim e seu olhar prendeu o meu.

―Quem é ele? Será que ele conhece a Kirsten? Ou ele está aqui por outra pessoa‖

O vento continuava a uivar a minha volta, e a chuva martelou sobre o escasso

abrigo sobre minha cabeça. Quem quer que ele fosse, era louco por estar de pé do lado de

fora. Antes que eu pudesse pensar sobre isso, encontrei-me saindo da segurança do toldo.

Eu deveria falar com ele, eu pensei. Descobrir se ele estava aqui por Kirsten. Descobrir o

porquê ele está me encarando. Dizer-lhe que é doido por estar naquela chuva.

Mas o vento me empurrou de volta. A ferocidade foi tão repentina que eu

cambaleei para trás, buscando o poste do toldo como apoio. A chuva também não cedeu, e

gostas escorriam pelo meu rosto, deixando o mesmo caminho que lágrimas teriam

deixado. Com a cabeça erguida, agarrando no poste com toda minha dignidade, eu encarei

o estranho. Desafiando-o a se aproximar. Exigindo que ele não olhasse para mim com um

abismo em seu olhar. O vento sacudiu suas roupas e sacudiu seu cabelo em direção ao seu

rosto, mas ele ficou onde estava. Então ele abaixou sua cabeça ligeiramente. Algo me dizia

que isso era um sinal de respeito, então eu acenei de volta. Eu me virei para dar uma

última olhada no caixão atrás de mim. Conhecê-lo teria que esperar. Hoje eu tinha coisas

diferentes para pensar.

index-20_1.png

index-20_2.jpg

index-20_3.jpg

20

A chuva começou a abrandar enquanto eu me afastava da sepultura. Avistei meus

pais falando com o reverendo nos degraus da igreja, e eu definitivamente não queria ficar

presa em nada disso. Movi-me rapidamente para o carro enquanto pegava o celular do

bolso e discava o numero da mamãe. Ela enfiou a mão na bolsa e olhou para o telefone

antes de dar um pequeno passo para longe do reverendo.

— Abbey? — ela disse distraidamente.

— Eu vou para casa a pé, ok mãe? — Mesmo à distancia, eu podia dizer que ela não

gostou da ideia. Um olhar estava se formando em seu rosto.

— Eu acho que você deveria vir com a gente na casa dos Maxwell, Abbey. Eles

passaram por um monte de problemas para organizar o encontro, e Kirsten era sua amiga,

então é apropriado que você esteja lá—

— Mãe — eu suspirei. — Não estou com vontade de ficar no meio de um monte de

gente agora. Eu só quero ficar sozinha.

— Você deve vir, Abigail. — O uso do meu nome completo não era um bom sinal.

Não mesmo. — Você pode ter todo o tempo que precisa depois—

— Mas mãe...—

— Agora, Abigail—. O clique do telefone me fez voltar a mim. Minha mãe sempre

comparecia nos eventos, e isso obviamente significava que eu deveria também.

— Tudo bem, que seja, mãe, — eu me queixei enquanto marchava pela escadaria

da igreja.

index-21_1.png

index-21_2.jpg

index-21_3.jpg

21

Esperei com impaciência enquanto eles terminavam a conversa com o reverendo.

Eles levaram um tempo, é claro.

Depois de dez agonizantes minutos de conversa fiada, eles finalmente se

despediram e saímos do cemitério. Foi uma curta viagem de carro até a casa dos Maxwell,

mas já haviam carros alinhados pelo quarteirão quando chegamos lá. Meu pai deixou

minha mãe e eu na porta da casa para procurar uma vaga para estacionar. Minha mãe deu

apenas três passos dentro da casa antes de ser interrompida por alguém. Ouvi o riso atrás

de mim e continuei andando pela horda de pessoas e fui direto para a cozinha. Eu

encontrei a mãe de Kirsten lá. Ela estava de costa e ambos os braços estavam enterrados

em uma pia cheia de espuma e detergente. Quando cheguei mais perto, pude ver que só

havia duas canecas e dois pratos na pia. Dificilmente o suficiente para preocupar sobre

limpeza quando você tem uma casa cheia de convidados.

Então vi que seus ombros estavam sacudindo. Eu não queria interromper sua dor,

então fiz meu caminho de volta para o corredor em silêncio. Uma mesa de bebidas tinha

sido colocada ali, então peguei um copo limpo e derramei água quente. Coloquei um

saquinho de chá de ervas, esperei um minuto, e acrescentei leite e açúcar. O calor do copo

em meu aperto me fazia sentir confortável, e eu bebi devagar, bloqueando tudo e todos ao

meu redor. Mas meu momento de paz foi interrompido quando alguém de repente

esbarrou em meu ombro, fazendo-me agarrar o copo firmemente.

— De-desculpe, — a pessoa gaguejou.

Virando-me com uma carranca no rosto, vi o garoto de cabelo encaracolado na

minha frente.

— Tudo bem, — eu disse. — Não se preocupe com isso, Brad

Ele pegou uma caneca também, e depois lutou para abrir o saquinho de chá.

index-22_1.png

index-22_2.jpg

index-22_3.jpg

22

— Na verdade, uh, é Bem. Estou em sua classe na escola—

Isso.

— Ok, então te vejo por aí. — Eu não estava no clima para uma conversa no

momento. Tudo que eu queria era ficar sozinha. Eu pensei em ir ao quarto de Kirsten, mas

desisti dessa ideia. Não parecia certo, de alguma maneira, estar no quarto dela sem ela lá.

Então, escolhi o porão. Havia um ligeiro cheiro de mofo que senti assim que comecei a

descer as escadas. Lá em cima parecia a casa de algum desconhecido com todas aquelas

pessoas ao meu redor, mas aqui embaixo, era exatamente como eu lembrava. Eu fiquei

aliviada em estar em um ambiente familiar. Uma lâmpada tinha sido acesa na velha mesa

de café, e lançava um fraco brilho amarelo, deixando a maioria da sala escondida na

escuridão. Esta sala sempre pareceu tão segura e quente para mim no passado que a

escuridão não me incomodava em nada. Caminhei até uma celha cadeira de balanço

parcialmente coberta pelas sombras, e esperei-a parar para apoiar minha caneca de chá.

Inclinei a cabeça para trás, fechei os olhos enquanto balançava a cadeira para frente e para

trás, e pensei sobre lembranças antigas.

— Está horrível, Abbey. Eu nunca vou sair novamente—

A voz chegou até a mim vinda do fundo do banheiro. Pensei ter ouvido um

fungar, seguido pelo inconfundível som de soar o nariz.

— Vamos Kirsten, abra a porta, — eu implorei. — Deixe-me ver como ficou. Não

pode estar assim tão ruim. Abra a porta.

— Ah, está ruim sim. Muito, muito ruim. Eu provavelmente deveria raspar minha

cabeça. Você sabe quanto custa uma peruca? Ou talvez eu pudesse colocar uns apliques—

index-23_1.png

index-23_2.jpg

index-23_3.jpg

23

— Você não vai raspar sua cabeça, Kirsten, — eu retruquei em voz alta. — E você

sabe o quão caro apliques são? Se está assim tão terrível, nós vamos apenas pintar de

outra cor. É uma maneira bem mais fácil.

— O que você acha de chapéus?— ela sugeriu. — Pareceria estranho se eu usasse

um diferente a cada dia?

Apesar dela não poder ver, esacudi minha cabeça para ela e estava prestes a usar

a tática se-você-não-sair-eu-vou-entrar quando a fechadura fez um barulho e aporta se

abriu lentamente.

Eu dei três passos para dentro e tentei fortemente não mostrar o choque em meu

rosto. — O que você... fez?

— Eu não sei— , ela gemeu, segurando uma mecha mal pintada do cabelo. — Eu

estava tão cansada de ter uma chama vermelha na minha cabeça! Eu pensei que a

tintura preta ajudaria a escurecer um pouco. Eu sei que está horrível.

Ela estava quase chorando de novo.

— Hei Kris, não está tão ruim. Deixe-me ver um minuto,— chegando mais perto,

eu inspecionei seu cabelo ainda molhado. A tintura preta havia coberto todo vermelho,

mas só em certos pontos.

— Por que você não seca o cabelo, e então nós veremos se fica diferente? — eu

sugeri.

— Ok— ela suspirou tristemente e pegou o secador de cabelos embaixo da pia.

index-24_1.png

index-24_2.jpg

index-24_3.jpg

24

— Por que você não me esperou? — eu gritei sobre o barulho do secador. — Eu

poderia ter te ajudado.

— Eu não sei, — ela gritou de volta. Eu acho que eu queria que fosse uma

surpresa. Só deixar você ver depois de pronto, sabe? Bem, bem feito, é claro.

— Você é louca. — Fiz círculos com o dedo no lado da cabeça. Ela riu, e eu me

sentei na borda da banheira enquanto eu esperava que ela terminasse. Dez minutos

depois os cabelo estava completamente seco, e mostrava mais mechas do que

aparentava.

Levantei-me. — Agora vamos dar uma olhada nisso outra vez.

Ela pegou uma escova e passou pelo seu cabelo, dividindo para o lado como se ela

sempre usava.

— Está vendo?— Eu disse, reorganizando, e ajeitando. — Se você usá-lo desta

forma, parece bom. — Como se você desejasse ter feito isso o tempo todo.

— Sério? — Ela se virou de lado a lado na frente do espelho. — Você realmente

acha que ele parece bem? Você me diria se não, né?

— Claro que eu te diria, Kirsten, é para isso que servem os amigos.

Honestamente, parece bom desse jeito. Quase como se você tivesse pintado de preto e

acrescentado alguns reflexos vermelhos.

Ela deu outra olhada no espelho. — Eu não sei, Abbey.

Seus olhos estavam preocupados.

index-25_1.png

index-25_2.jpg

index-25_3.jpg

25

— Está realmente bom. — Tranquilizei-a. — Realmente.

Em seguida, bateu a inspiração.

— Ei, se eu fizer mechas vermelhas no meu cabelo? Nós vamos dizer a

todos fizemos o cabelo juntas. O que você acha?

Seus olhos se iluminaram. — É uma ótima ideia. Obrigado, Abbey. Podemos

ir buscar as coisas agora, e ai eu faço seu cabelo depois do jantar.

— Combinado.

Peguei uma toalha pequena da pilha ao lado dela e comecei a limpar os respingos

de tinta sobre a pia.

— Mamãe e papai têm uma reunião hoje à noite, então a casa ficará livre para

mim, de qualquer maneira.

Seu sorriso era enorme. ‗— Eu vou dizer à mamãe que você vai ficar para o

jantar.

Ela começou a sair do banheiro, mas parou e voltou com um olhar tímido no

rosto.

— Será que você colocar pode guardar o secador para mim?

Balancei a cabeça e sorri para mim mesma enquanto ouvi-a gritar para sua mãe

que ela queria lasanha e pão de alho para o jantar.

index-26_1.png

index-26_2.jpg

index-26_3.jpg

26

Meu prato preferido.

Sim, é isso que servem os amigos.

Um som suave me fez abrir os olhos e minha cabeça caiu para frente. Olhei para o

quarto, certa de que eu ouvia passos.

Eu quase o deixei passar.

Mesmo que ele estivesse sentado a dois passos de mim, seu terno preto estava

completamente misturado com as sombras. Apenas seu cabelo lhe entregava. A cor branca,

loura, brilhava no escuro. Ele era o menino do cemitério.

Senti que ele olhava para mim, e eu juro que meu coração começou a bater mais

rápido. Eu não sabia o que fazer, o que dizer... Mas eu tive que perguntar a ele alguma

coisa. Eu falei baixinho, tentando acalmar o meu pulso acelerado.

— Você conhece a Kirsten?

Eu esperei por sua resposta. Dois batimentos cardíacos passaram ... e depois mais

outro. A minha pergunta pairava no espaço entre nós.

Não houve resposta.

Eu levantei a minha voz ligeiramente, no caso dele não ter me ouvido.

— Então, um, como você conhecia Kirsten Maxwell? — Eu movi minha cadeira, e

os guincho que fez ecoou pela sala. Tomei um pequeno gole de chá para me distrair.

index-27_1.png

index-27_2.jpg

index-27_3.jpg

27

— Desculpe, você falou comigo? — Ele falava tão baixinho que no começo eu não

tive certeza se tinha imaginado a sua resposta.

Fiquei surpresa com a pergunta. Será que ele realmente não tinha me ouvido?

— Eu queria saber se você conhecia que Kirsten.— Eu aumentava o tom a

cada palavra. — Eu te vi hoje no funeral, e estava justamente pensando como você a

conheceu.

— Você estava se perguntando como eu conhecia Kirsten, — ele repetiu ainda

falando baixinho, quase para si mesmo. Então, sua voz ficou mais alta, e ele se inclinou

para mim. — Eu a via... por aí.

Mas eu nunca o conheci antes. Ela era algum tipo de admirador secreto ou algo

assim? Tentei examiná-lo mais perto, mas ele ainda estava oculto pelas sombras. Sua voz

soou mais velha. Talvez fosse um amigo irmão dela?

— Você conhece o Thomas?

— Thomas? — Ele parecia confuso. — Não, eu não conheço nenhum Thomas.

— O irmão da Kirsten? — Eu disse, aguardando a sua resposta.

— Não, eu não sabia que ela tinha um irmão. — Sua voz estava mais alta agora.

Como se ele estivesse se aproximando, mas eu não o tinha visto se mover. Isso me

deixou um pouco nervosa. Aqui estava eu, sozinha com um estranho que tinha vindo à casa

de Kirsten e até o seu porão, mas parecia não conhecê-la realmente, ou sua família. Era

tudo muito estranho.

Eu escondi o meu nervosismo com um pequeno riso.

index-28_1.png

index-28_2.jpg

index-28_3.jpg

28

— Oh, ok. Bem, eu estou indo lá para cima para ver se eles precisam de ajuda na

limpeza — Abandonei meu chá ao pé da cadeira de balanço e fui em direção à escada. Eu

dei quatro passos antes de perceber que o desconhecido tinha me seguido. Virei-me.

Ele ficou no fundo da escada, obscurecido na escuridão.

— Você não precisa ter medo de mim, Abbey. Estou aqui na verdade por causa de

você.

— Como você sabe meu nome?— Segurei no corrimão da escada.

Minha pergunta saiu em um guincho. — Quem é você? O que você que dizer com

estar aqui por causa de mim?

— Não se preocupe, Abbey. Eu sou um amigo.— Ele se inclinou para frente,

colocando-se em um raio de luz para que eu pudesse vê-lo claramente.

Choque me atingiu primeiro. Seguido por uma sensação de... Qualquer outra coisa.

Ele era lindo. Gostoso total. Eu quase ri ao pensar nisso em um momento como este. Seu

cabelo foi a primeira coisa que observei de perto neste momento. A cor pálida era

incomum, mas ele tinha um traço acentuado de preto como azeviche na testa. Suas

sobrancelhas eram escuras demais, e ele tinha um nariz reto e lábios carnudos. Mas seus

olhos foram o que realmente me surpreendeu. Eles eram de um verde claro e chocante que

senti um arrepio passando na espinha quando ele olhou para mim. Seus olhos estavam

deslumbrantes. E seu olhar era bondoso.

— Você é a melhor amiga de Kirsten, certo? — Sua voz soou calma, audível agora,

e ele olhou para mim com tal interesse que juro que eu senti um pouco do meu nervosismo

desaparecer. — Fale-me sobre el.

index-29_1.png

index-29_2.jpg

index-29_3.jpg

29

Desviei o olhar por um momento, lisonjeada que ele estava me dando toda a

atenção, e depois com raiva de mim mesmo por ter me importado. Meus olhos caíram no

canto do quarto onde Kirsten e eu tínhamos passado tanto tempo juntas, e eu comecei a

falar sobre isso para me distrair de minhas emoções turbulentas.

— Você vê aquele canto ali, perto da estante de livros?— Inclinei-me para apontar,

e ele acenou. — Quando éramos pequenas, Kirsten e eu costumávamos vir aqui em dias

chuvosos. A mãe dela trazia um par de lençóis e amarrava-os em torno da estante para

fazer uma barraca. Então nós pegávamos alguns livros e uma lanterna e sentávamos lá

dentro, lendo histórias uma para outra. Sua mãe sempre nos trazia sanduíches de pepino e

manteiga de amendoim com todas as cascas cortadas enquanto estávamos lá dentro.—

Eu ri com a lembrança. — Nós realmente tivemos a fase do pepino e a fase de manteiga de

amendoim. Eu não tenho ideia do por que. — Então eu encontrei-me confessando ainda

mais. Era como se Kirsten tivesse esse lugar secreto em seu porão que podíamos vir para cá

sempre que chovia. — Eu costumava chamá-lo de meu castelo de chuva mágica, e eu

achava que era a coisa mais legal. — Minhas bochechas estavam avermelhadas por causa

da história e do quanto tinha revelado. — Eu não sei por que eu disse isso. É muito bobo,

né?

Ele tinha um olhar divertido no rosto. — Eu não acho que isso seja bobagem. Toda

criança deve ter um lugar como esse para brincar. Eu gostaria de ter tido um desses. Parece

divertido.

— Obrigada — disse, sorrindo para ele. — Essa foi uma boa lambrança. Eu

precisava disso. — O silêncio no vão das escadas cresceu, e eu tornei-me ciente de quão alta

e rápida a minha respiração soava. Eu concentrei-me em regulá-la, tentando respirar mais

normalmente.

Ele falou baixinho, e eu tive que inclinar para frente para pegar suas palavras.

index-30_1.png

index-30_2.jpg

index-30_3.jpg

30

— Se você decidir que quer construir o seu castelo de chuva mágico novamente,

Abbey, me diga. Vou ter que parar para uma visita.

Minha respiração ofegou sobre essas palavras, e meu coração pulou uma batida

pela implicação por trás deles. Eu não soube o que dizer, então não disse nada. Minha

mente correu freneticamente, pensando em todas as perguntas que eu tinha para ele.

O toque do meu celular nos interrompeu. Olhei para baixo na tela e fiz uma careta

quando eu vi quem era.

— Desculpe, mas eu tenho que atender. É a minha mãe.

Eu andei até o topo da escada e atendi o telefone.

— Uh, oi, o que você quer, eu quero dizer, o que está acontecendo, mamãe?

Olhei sobre meu ombro. Eu ainda podia ver seus brilhantes olhos verdes. Ele

ficou olhando fixamente para mim, então minha resposta para a minha mãe foi um pouco

distraída. — Aham, hum... tudo bem.

Sua voz ecoou bem alto através do telefone, e eu olhei para longe. — Estou quase

pronta também. Eu estava no porão.... Sim, eu sei. É claro que eu vou dizer tchau para os

Maxwells. Vejo você em cinco minutos.

Eu olhei para trás por cima do meu ombro e sussurrei um pedido de desculpa

enquanto eu saia do porão. Ele assentiu e desapareceu nas sombras abaixo enquanto eu me

dirigia à cozinha para encontrar a mãe de Kirsten.

Ela ainda estava lá, agora secando os pratos, e rastejei hesitantemente para perto.

Ela parecia mais calma, e olhou por cima do ombro quando me ouviu chegar.

index-31_1.png

index-31_2.jpg

index-31_3.jpg

31

— Abbey, oi.

Sua voz era suave e seus olhos estavam levemente avermelhados, mas seu sorriso

era encorajador. Abraçando-a, lembrei tardiamente que tinha deixado meu copo no porão.

Ela não disse nada enquanto me abraçava de volta, mas eu não tinha necessidade de ouvir

as palavras. Eu sabia o que ela estava sentindo.

— Você quer que eu fique e ajude a limpar?— Eu perguntei.

Ela balançou a cabeça. — Não, não se preocupe, querida. Vou dar conta de tudo.

Isso vai me dar algo para fazer. — Sua voz quebrou ligeiramente na última frase, mas eu

fingi não perceber.

— Você nos liga se precisar de alguma coisa, né? Qualquer coisa.

— Claro, querida. — Ela tentou me dar um sorriso corajoso, mas não funcionou. —

Diga a seus pais adeus para mim.

— Ok, — eu respondi. — Eu vou. Cuide-ss.— Ela assentiu com a cabeça, e eu

apertei a mão dela uma vez antes de sair da cozinha.

Mamãe estava me esperando no corredor.

— Eu já volto, e então eu estarei pronto para ir, — eu disse a ela. Em um aceno de

acordo, me virei e voltei para o porão. Eu tinha mais um adeus a dizer, mas quando

cheguei lá, ele tinha ido embora.

— Olá? — Gritei, andando até a cadeira de balanço para recolher o meu copo.

Senti-me estúpido por não perguntar seu nome. Eu esbarrei em um interruptor nas

proximidades, e a sala foi imediatamente inundada com oito lâmpadas de sessenta watts