The Hollow por Jessica Verday - Versão HTML

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de iluminação fluorescente.

Isso apenas confirmou o que eu já sabia. Ele não estava lá. Eu não ia ter a chance

de dizer adeus, ou descobrir o seu nome. Eu nem sequer sabia se o veria novamente.

Desligando o interruptor de luz no meu caminho de volta para fora, parei por um momento

no escuro.

— Obrigada, — eu sussurrei por cima do ombro até a sala vazia.

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Capítulo Três

Pesadelos e Alucinações

―Eles recebem todos os tipos de crenças maravilhosas; estão sujeitos a transes e visões; e

muitas vezes vêem coisas estranhas e ouvem músicas e vozes no ar.‖

— The Legend of Sleepy Hollow— by Washington Irving

Eu não consegui dormir muito nos dias que se seguiram. A escola começaria em

duas semanas, mas esta era a última de minhas preocupações. Desde o dia do funeral eu

vinha tendo pesadelos. Eu não conseguia me lembrar de nenhum deles, mas eles estavam

sempre lá, no fundo da minha mente e no precipício da minha consciência.

Então piorou.

Eu acordava de repente, meu corpo ensopado de suor, enquanto meus olhos

procuravam freneticamente os cantos escuros do meu quarto. Eu normalmente via a forma

de uma pessoa. Como se alguém estivesse no quarto comigo.

Se eu me concentrasse e focalizasse meus olhos por tempo o suficiente, a forma

desaparecia. Eu sabia que não eram nada mais que sombras nas paredes, mas cada noite,

por aqueles breves segundos, meu coração martelava em completo horror. Mais de uma

vez eu me encontrei chamando o nome de Kirsten. Pedindo, implorando com ela para que

ela estivesse lá. Sabendo em minha cabeça que ela não estava, mas esperando em meu

coração que sim. Eu pensei que estava ficando maluca.

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Apesar da quarta noite seguida de pesadelos e alucinações, achei que realmente

estava ficando um pouco louco. Eu lutei para ficar acordada a noite, dormindo apenas

quando a manhã chegava. Eu não me senti nem um pouso descansada, mas pelo menos

mantinha os pesadelos acuados. Manter-me ocupada durante a noite toda, no entanto, era

um diferente tipo de problema.

Primeiro, eu tentei ler. Eu encontrei um livro que não tinha começado ainda, e era

interessante o suficiente para segurar minha atenção durante a primeira noite. Mas

naquela tarde eu estava muito cansada para ir pegar novos livros, e esse foi o problema

quando a noite chegou. Folhear algumas revistas velhas matou o tempo na segunda noite,

mas não funcionou muito bem, e eu acabava cochilando. A manhã demorou muito para

chegar e me corpo estava ordenando que eu dormisse. Essa foi mais uma noite que eu

terminei chamando por Kirsten. Depois de checar meu e-mail, inclusive todas as contas

antigas que tinha, eu só tinha conseguido matar cerca de uma hora. Havia novos sites de

comprar interessantes, mas eles não prendiam minha atenção também. O que eu estava

realmente sentindo falta era o bonequinho* da Kirsten sinalizando que ela estava online

também. Quase sempre nos conectávamos ao mesmo tempo, com poucos minutos de

diferença. Era estranho não ver seu nome subindo automaticamente. Com um suspiro

pesado eu apertei o botão de desligar e assisti enquanto a tela apagava na minha frente.

Girando lentamente em minha cadeira, eu estudei o topo da minha escrivaninha.

Diversas pilhas de papel estavam empilhadas em um canto, e alguns cd‘s estavam apoiados

em uma caixa de joias. Meu celular estava conectado a tomada, piscando uma luz vermelha

para mim, sinalizando que estava totalmente carregado. Peguei o aparelho e

automaticamente apertei o número um, que era a chama direta para Kirsten. Não foi atá a

mensagem da caixa de correio começar a tocar que percebi o quão idiota eu era. O som de

sua voz era tão normal, tão familiar... tão real. Eu tinha ligado para o celular dela quase

todos os dias antes dela desaparecer, e nunca pensava duas vezes. Mensagens curtas,

longas, engraçadas, até mensagens chateadas... Eu já tinha deixado mensagens de todos os

tipos.

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Uma coisa tão pequena e insignificante de se fazer, mas agora eu percebia o quão

importante cada uma daquelas mensagens realmente tinha sido. Um bip alto do outro lado

chamou minha atenção. Eu não sabia se deveria dizer alguma coisa. Segurando a

respiração por um segundo, eu pausei, e em seguida em uma corrida de pensamentos e

palavras, falei: — Hei, Kirsten, sou eu. Eu não sei... Eu não sei o que falar, nem mesmo o

porquê eu estou fazendo isso. Não é como... Isso é... Idiota. Sinto muito.

Eu desliguei o telefone, me sentindo frustrada e com raiva de mim mesma por ter

ligado. Não era como se ela fosse ligar de volta. Onde quer que ela estivesse, o celular não

estava com ela. Ela tinha deixado em casa sem bateria na noite que desapareceu.

Agarrando um pedaço em branco de papel da minha escrivaninha, eu comecei a rabiscar.

Pequenos desenhos, padrões bizarros, símbolos malucos... Qualquer coisa que me viesse à

cabeça. Rabisquei estas coisas repetidamente, novamente, até que tive que pegar uma nova

folha. Então eu comecei a escrever meus pensamentos. Qualquer coisa sobre coisa

nenhuma. De madrugada, eu tinha enchido oito folhas de papéis com palavras aleatórias.

Foi um processo cansativo, mas quando a manhã chegou, eu caí em um sono profundo. Eu

pulei o café da manhã e senti como se estivesse saltando o almoço também, e minha mãe

me deu um olhar estranho quando tropecei cozinha adentro.

— Você está se sentindo bem, Abbey? — ela perguntou, colocando a mão em minha

testa.

— Sim, eu estou bem, — eu admiti sentada à mesa. — Eu estou tendo dificuldades

para dormir, ultimamente.

Trazendo duas garrafas d‘água, ela sentou à mesa perto de mim, e me deu uma

garrafa. Eu olhei para as minhas mãos descansadas sobre a mesa, não prestando atenção

em nada mais.

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— Realmente acho que devo ir para a cama. Estou exausta.

— Você acha que não está dormindo bem por causa do funeral? — A pergunta

inesperada de minha mãe me assustou.

 

— Provavelmente tem algo a ver com isso. — A conversa no funeral veio á minha

mente e eu ouvi aquelas mulheres falando de Kirsten novamente. — Ou talvez tenha a ver

com o fato de que algumas pessoas dessa cidade não tenham nenhuma decência, ou boas

maneiras.

Ela franziu o cenho. — O que você quer dizer?

— Quero dizer que essa cidade é tão estupidamente pequena, tudo que precisa é

que uma pessoa comece um rumor falso, e antes que você perceba isso se torna a verdade

absoluta. — Frustração atravessou minha voz. — Você sabe do que eu estou falando, mãe, e

você sabe que não é certo. Eu ouvi algumas pessoas falando que Kirsten ou tinha se matado

ou estava envolvida com drogas. Elas não deveriam estar espalhando rumores como esses.

Não é justo com a família dela, e não é justo com ela— Batendo em meu braço, ela usou um

tom simpático.

— Eu sei como você se sente, Abbey. Mas não há muito que possamos fazer. As

pessoas falam. Isso irá morrer eventualmente.

— Você NÃO entende e você NÃO sabe como eu me sinto, — eu repreendi. — Ou

você faria alguma coisa para parar quem fala da Kirsten por trás. Use sua posição no

conselho da cidade. Fala algo a respeito deles.

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— Eu não posso controlar o que as pessoas da cidade pensam, Abigail. Você sabe

disso. — Ela levantou e foi até a lava-louças. — Apenas ignore-os; isso vai ser esquecido

logo.

Eu não podia acreditar que ela estava me falando para ignorá-los. Eu deveria ficar

de lado e deixar as pessoas falarem da minha amiga? De jeito nenhum.

— Bem, eu posso fazer algo sobre isso, mãe. — Eu estava com raiva. Eu estava

furiosa. — Eu posso defender minha melhor amiga. Mesmo que você não esteja disposta. —

Saindo da cozinha, eu deixei a água sobre a mesa e martelei escada acima para meu quarto.

Eu bati a porta com força para que ela soubesse que eu estava falando sério. Ela

provavelmente gritaria comigo mais tarde por isso, mas eu não me importava.

Eu só pretendia fechar meus olhos por um ou dois segundos quando deitei na

cama, mas devo ter caído no sono, pois a próxima coisa que eu sabia, mamãe estava

debruçada sobre mim, chamando meu nome. Lutando para me sentar, eu bocejei alto e

esfreguei meus olhos. — Estou cansada... Apenas tirando uma soneca... Por que você me

acordou?— eu resmunguei.

— Você gostaria de ir à nova loja de ervas comigo? — ela disse.

— Aquela após a guarita? Mas é uma hora de distância! Você quer realmente ir lá?

— Claro, porque não? Eu tenho uns papéis para deixar na casa do prefeito Archer

no caminho, mas, além disso, eu irei se você quiser.

Eu estava cansada demais para argumentar se era uma viagem para mim ou para o

prefeito, então deixei passar. Pelo menos ela estava tentando.

— Ok, — forcei um sorriso. — Vamos

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Nós fomos para o carro e eu peguei algumas uvas para comer. Pular o café da

manhã e o almoço estava fazendo algum efeito em mim agora. Não demorei muito para

acabar com elas e coloquei a última em minha boca antes de entrar no banco de

passageiros.

Minha mãe entrou no carro e colocou a chave na ignição, mas não o ligou. Eu

fiquei tensa, esperando para ver se uma lição sobre como eu deveria controlar minha raiva

estaria vindo.

— Abbey...— ela começou. Limpando a garganta uma vez, ela tentou de novo. — Se

você precisar falar sobre Kirsten... Ou qualquer outra coisa, bem... Eu quero que você saiba

que você sempre pode contar comigo. Se eu não puder ajudar, nós podemos encontrar um

profissional que você possa conversar. — Seus olhos azuis estavam cheios de preocupação,

mostrando as pequenas rugas ao redor deles.

— Obrigada, mãe — Eu sorri fracamente. — Eu vou te falar se eu precisar de algo.—

Eu deveria estar tão perto do precipício quanto sentia se mamãe estava falando de me levar

a um psicólogo.

Minha resposta pareceu satisfazê-la, e ela sorriu de volta para mim, parecendo

aliviada de que sua parte tinha terminado. Ela ligou o carro e nós fizemos o caminho ate a

casa dos Archers.

 

Dez minutos depois nós tínhamos chegado lá, e mamãe prometeu que estaria de

volta em cinco minutos. Quando a porta bateu, eu peguei a caneta e um pequeno caderno

do porta luvas, sabendo que ficaria esperando. Os cinco minutos da minha mãe estavam

mais para vinte. Eu comecei fazendo uma lista do que esperava encontrar na nova loja, e

estava completamente perdida em pensamentos, quando minha mãe abriu a porta. —

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Desculpe ter demorado tanto, — ela disse, sentando no banco e reajustando o retrovisor. —

Eu tive que resolver algumas coisas com o prefeito.

— Sem problemas, — eu respondi ainda ocupada com minha lista. Eu acrescentei

frascos de teste e óleo de bergamota. Eu estava ficando sem os dois. Nós voltamos à

estrada, e eu coloquei o caderno de lado assim que senti que estava adormecendo. Eu sabia

que não ia aguentar mais muito tempo.

O som da porta abrindo me despertou, eu acordei com um empurrão. Olhando

para minha mãe, sorri preguiçosamente. — Desculpe, eu caí no sono. Eu acho que ainda

estava muito cansada.

— Não se preocupe com isso, — ela disse. — Nós chegamos.

Eu virei meu pescoço para absorver tudo enquanto eu saía do carro.

Uma grande placa de metal verde com acabamento brilhante nos cumprimentava,

proclamando o nome da loja, que era — A Thyme and Reason1 — e eu me apaixonei

instantaneamente.

A loja em si parecia que tinha existido em outra vida como uma grande cada da

virada do século, completa com gingerbread trim2, janelas do chão ao teto, e telhado

inclinado. O exterior era pintado diversos tons de magenta e verde que completavam um

ao outro maravilhosamente, e eu sabia que esse era o tipo de loja que eu gostaria de ter um

dia.

1 Um Tomilho e Razão

2 São enfeites que colocam nas casas, http://northeasternscalelumber.com/osc/catalog/images/gingerbread.gif

http://img2.timeinc.net/toh/i/g/0107_gingerbread/victorian-trim-09.jpg

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Assim que entramos, eu vi que era melhor do que eu esperava.

A loja não tinha só uma grande variedade de ervas, mas também tinha uma seção

de jarras e garrafas, frascos e kits de amostras, e embalagens para viagem de todos os tipos.

Eles também tinham quase todos os tipos de óleo perfumado conhecido pela humanidade.

Eu estava no paraíso. Eu teria passado semanas ali facilmente. Eles tinham quase tudo da

minha lista

Depois de procurar por quarenta e cinco, percebi que estava testando a paciência

de minha mãe, assim eu comecei a estreitar minhas escolhas. Peguei frascos para testes,

alguns frascos âmbar grandes, e um novo conjunto de conta-gotas. Mamãe finalmente me

alcançou na seção de óleos.

— Para que serve o óleo de bergamota? — ela perguntou, me observando enquanto

eu decidia qual tamanho do frasco eu iria levar.

— Sabe aquele perfume que eu fiz para você no outono passado? Eu quero fazer

isso de novo esse ano, mas com um toque mais terroso — Eu debati entre óleo de gengibre

ou de amora.

— Eu simplesmente amei esse perfume! — ela disse. — Você pode me fazer um

nesse inverno também? Algo com essência natalina?

— Claro, — respondi, acrescentando hortelã, pimenta, baunilha, óleo e bálsamo

para a minha coleção. Então eu peguei ambas as garrafas, de amora e gengibre e

acrescentei em minha pilha. A última coisa que eu peguei antes de me obrigar a sair de

perto da prateleira foi uma enorme garrafa de óleo de jojoba3. Agora eu tinha tudo que eu

3 óleo ojoba é a cera líquida produzido na semente da jojoba (Simmondsia chinensis) da planta, um arbusto nativo sul

do Arizona, Califórnia, sul e noroeste do México.

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precisava.

— Eu estou finalmente pronta para ir, — eu disse, cambaleando sob o peso da

minhas coisas, enquanto eu liderava o caminho até a frente da loja.

— Este lugar é absolutamente lindo, — eu disse a senhora de pé por detrás do

caixa, assim que cheguei lá. — Os proprietários fizeram um grande trabalho de decoração,

e as entregas são incríveis!

Ela riu. — Bem, obrigada. Eu o decorei, e eu aprecio os elogios.

— Você tem um site que posso encomendar mais algumas coisas da loja? — eu

perguntei ansiosamente.

Normalmente, eu abastecia meus estoques em uma loja perto de minha casa, mas

ela é realmente pequena e não têm nem metade do o que você tem aqui.

Ela riu novamente e acenou com a cabeça, me entregando um cartão de visita com

o nome da loja e o endereço do site corajosamente impresso nele. Eu dobrei-o com

segurança no meu bolso de trás quando ela começou a passar meus itens. Mamãe me

surpreendeu pagando por minhas compras, me dizendo para guardar o dinheiro, e

também pegou um CD de música clássica para ela. Eu sorria de orelha a orelha quando

demos adeus à proprietária da loja e íamos embora.

— Obrigado por ter-me trazido aqui, mamãe — eu disse, empilhando as bolsas no

carro. — Foi divertido.

Ela apenas sorriu para mim, e subimos em nossos assentos. Nós realmente não

falamos no caminho de casa, mas ela colocou o CD que ela tinha comprado, e a música

preencheu o silêncio. A viagem de volta foi calma e silenciosa, e eu realmente consegui

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ficar acordada.

Mais tarde naquela noite, cercada por minhas compras recentes, eu estava ansiosa

para finalmente voltar ao meu trabalho. Desde o desaparecimento abrupto de Kirsten, eu

tinha perdido toda minha paixão para fazer perfume. Meu coração não estava ali, então eu

desisti completamente. Mas hoje à noite era diferente. Senti-me centrada mais uma vez,

pela primeira vez em muito tempo.

Eu estava pronta para enfrentar um novo projeto.

Eu não tive qualquer preocupação em ficar acordada enquanto eu preparava meu

espaço de trabalho. Todas as vezes que eu faço um perfume novo, é necessária constante

concentração e grande quantidade de anotações durante todo o todo o processo, então

sabia que ia me manter ocupada. A meia noite veio e foi, e eu quase não notei. Quando

deram cinco horas da manhã, fiquei surpresa que já era hora de tentar dormir um pouco.

Dormi profundamente, e realmente acordei sentindo-me ansiosa e animada no

final da tarde. Criação de novos perfumes era um negócio ardil. Envolvia várias rodadas de

testes de diferentes combinações de óleo, à procura de reações, verificando notas,

comparando amostras, escrevendo as novas notas e, em seguida iniciar o processo inteiro

mais uma vez a cada nova escolha perfume.

E eu amei cada minuto dela.

Havia um milhão de combinações possíveis para um perfume, e cabia a mim

encontrar aqueles que se complementavam.

Às vezes era difícil, mas nunca era nunca entediante. E a melhor coisa sobre todo o

processo foi que cada noite parecia voar. Elas não se arrastavam mais, ameaçando-me com

sombras e sonhos.

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Eu comecei a trabalhar um pouco mais cedo cada noite, e dormir um pouco menos

durante o dia. Depois de aperfeiçoar a fórmula para o perfume de Outono de mamãe, e a

criar um perfume de inverno novo, eu decidi fazer algo diferente. Algo que me encheu de

medo e mais do que um pouco de receio, mas uma coisa eu sabia que tinha que fazer.

Eu ia fazer um perfume para Kirsten.

Ela me pediu várias vezes para fazer um especificamente para ela, mas eu sempre

hesitei. Era uma coisa desafiadora para se fazer, a criação de aromas para as pessoas que

não só cheirava bem, mas que combinasse misturando com a química do corpo. Desde que

Kirsten era minha melhor amiga, sempre senti uma pressão extra para me certificar de que

sua assinatura no perfume dela caberia perfeitamente. Eu nunca quis desiludir ela de

qualquer maneira. Mas dessa vez eu decidi tentar.

Ele acabou sendo muito mais difícil do que eu jamais pensei que poderia ser. Eu

não conseguia encontrar aromas que ficassem bem ao misturar, e depois de várias horas

de trabalhar sobre eles, levantei da mesa de trabalho e caminhei ao redor da sala para

esticar as pernas. Uma dor de cabeça estava começando a despontar entre meus olhos, e eu

esfregava minhas têmporas com a ponta dos dedos. De maneira nenhuma poderia

continuar trabalhando com fortes essências enquanto estivesse com dor de cabeça. Eu não

conseguia me concentrar.

Agarrando vários travesseiros no pé da minha cama, levei-os para o assento da

janela e montei uma pilha. Esperava que, se descansasse os olhos só por um instante, a dor

de cabeça ia embora... Esperava.

Eu estabeleci-me em meu ninho de almofadas e descansei minha bochecha contra

a vidraça. Foi legal e ajudou a aliviar um pouco o martelar em minha cabeça. Suspirei com

o alívio temporário. A posição estava bastante confortável... Poderia ficar assim para horas.

Quando abri meus olhos novamente, o mundo exterior estava em um tom suspeito de

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laranja. Então percebi que era o nascer do sol. Eu tinha dormido durante a noite, sem

pesadelos.

Ao longo dos próximos dias eu lentamente reajustei o cronograma do meu sono.

Eu não adormecia até depois da meia-noite, mas pelo menos eu não estava mais dormindo

durante o dia. O que era uma coisa muito boa, porque a escola começava na segunda-feira.

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Capítulo Quatro

Primeiros dias

―Sua casa-escola era uma construção pequena de um quarto grande, rudemente

construído de madeira; as janelas de vidro, em parte, e parcialmente corrigida com

folhas de cópia de livros antigos.‖ The Legend of Sleepy Hollow

Não foi até chegar a quatro quadras longe de casa, na segunda-feira de manhã que

percebi que estava indo na direção errada. Parei, abruptamente no meio da calçada. Não

haveria mais uma parada diária na casa de Kristen para buscá-la. Não este ano... E não no

próximo ano. Isso não aconteceria nunca mais.

Uma dor começou a latejar ao redor do meu coração, machucando meu peito.

Esfreguei enquanto virava na direção do colégio e comecei a andar lentamente em direção

à escola. Sozinha. Eu traguei o ar rapidamente, repetidamente, para tentar fazer com que a

sensação fosse embora, mas não foi. Eu continuei sentindo como se estivesse esquecendo

alguma coisa durante todo o caminho.

Eu ainda estava ocupada com meus pensamentos quando cheguei aos portões de

metal que marcavam a entrada do colégio e ao passar por eles, cheguei ao corredor

principal. Um grande letreiro com letras gravadas à mão colado na parede à minha

esquerda direcionava todo movimento ao ginásio para uma assembleia.

Seguindo o som de tênis novo rangendo alto no chão de madeira, polido

recentemente, eu me arrastava com a crescente multidão, apenas mais uma estudante em

uma fila muito longa.

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Enquanto passava pela porta vermelha giratória, pude ver que diversas fileiras das

arquibancadas de metal já tinham sido montadas e foram sendo preenchidas rapidamente.

Forçada a me lembrar que ninguém iria guardar um lugar para mim este ano, eu dirigi-me

ao fundo da sala e escolhi um lugar ao lado do setor geralmente reservado para os

professores.

Diretor Meeker estava meio sem jeito em um pódio montado em frente ao ginásio,

e ele limpou a garganta ruidosamente várias vezes enquanto esperava que o rangido

embaralhado de ruídos cessasse.

Ele estava vestindo uma camisa Paisley marrom estilo anos setenta que não

lisonjeava sua estrutura imponente, de nenhuma maneira e, infelizmente, já apontavam

uma fraca marcação de suor embaixo de cada braço. Era totalmente nojento.

Quando o barulho finalmente foi reduzido a um rugido maçante, o diretor Meeker

bateu palma uma vez e começou a falar.

— Bem-vindos de volta, alunos e professores. Eu acredito que todos tenham tido

férias de verão boas e educativas?

Suas sobrancelhas grossas subiram em expectativa e ele fez uma pausa. Após um

momento de silencio constrangedor, ele ajeitou seus óculos e voltou a falar.

— Antes de falar de algumas regras gerais para o próximo ano letivo, eu queria

discutir uma recente tragédia que tem afetado muito nossa escola e comunidade. Como a

maioria de vocês já sabe durante as férias de verão Kristen Maxwell foi envolvida em um...

er... afogamento fatal... acidente.

Eu podia ouvir o deslocamento nos bancos, de repente centenas de cabeças

pareciam girar e olhar na minha direção.

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Hollow High tinha apenas cerca de quatrocentos alunos, e naquele momento senti

como se cada um deles estivesse olhando pra mim.

Meus olhos trancaram-se ao chão. Concentrei-me fixamente no dedo do pé do meu

sapato, assim não teria que vê-los todos olhando pra mim. Quanto tempo ele vai falar

sobre isso?

— À luz deste acontecimento, teremos conselheiras extras à disposição de todos

que precisem de algum tipo de ajuda.

As cabeças deslocaram-se e eu já não era o principal tema de interesse.

— Eles estarão disponíveis antes e depois do período de almoço no escritório do

conselheiro durante toda a semana. Por favor, não hesite em parar e ver um deles se você

sente que precisa conversar com alguém sobre isso.

Ele olhou para nós e as sobrancelhas ressuscitaram.

— Apenas lembrem-se, pessoal, isso não é um passe livre. Os conselheiros só

podem ser utilizados por aqueles que, legitimamente, necessitam deles.

Então ele começou a compartilhar algumas de suas memórias sobre Kristen e abriu

a palavra para qualquer pessoa que quisesse fazer o mesmo. Vários professores se

levantaram e disseram todos os habituais sentimentos falsos. Coisas que as pessoas dizem

quando realmente não conhecem a pessoa, mas sentem-se obrigados a elogiá-los de

alguma forma. O momento passou como se estivesse através de uma névoa. De vez em

quando alguém olhava novamente em minha direção e me dava um olhar claramente

perguntando quando eu iria levantar e falar.

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Eu estava realmente começando a ficar cansado desse olhar. De outras pessoas

tentando decidir o que eu deveria ou não fazer.

Finalmente três meninas soluçando, fungando, com olhos lacrimejantes

levantaram-se e fizeram seu caminho lentamente para frente da sala. Elas eram,

naturalmente, as mais perfeitamente vestidas, perfeitamente confeccionadas,

perfeitamente pessoas coordenadas de toda a escola.

Um sussurro de emoção varreu a multidão.

Todo mundo sabia quem eram essas garotas.

E eu sabia que nem uma única delas jamais se preocupou em dizer qualquer coisa

para Kristen, ou para mim, já que tínhamos começado o ensino médio juntas.

A mais alta, e claramente a líder do grupo, Shana Williams, falou primeiro.

— Nós só queríamos dizer que não podemos acreditar que uma coisa tão terrível

tenha acontecido. Perder um dos nossos colegas em tão tenra idade é tão... tão... trágico.—

Ela fungou delicadamente e jogou seu cabelo loiro perfeito com uma mão.

Revirei os olhos. Essas meninas não se importam com Kristen. Tudo o que

importava era a atenção que estavam recebendo.

— A equipe de torcida do colégio decidiu dedicar esta temporada para a memória

de Kristen Markell. — Aubra Stanton falou do meio do grupo. Ela era a única morena do

grupo. — Faremos o nosso melhor pra que a memória dela fique viva em todos nós.—

Eu bufei alto quando ouvi isso, fazendo com que vários professores me olhassem

com simpatia. Elas provavelmente pensaram que eu era uma escolha contínua da minha

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dor ou algo assim.

A loira menor, Erika alguma coisa, teve a sua vez.

— Ela era apenas uma pessoa tão boa, sabe? Eu não posso acreditar que ela

realmente se foi. — Ela imediatamente se explodiu em soluços delicados, sendo muito

cuidadosa para não manchar sua maquiagem intocável, enquanto as outras duas meninas a

abraçavam.

Eu quase engasguei.

Primeiro, elas nem mesmo sabiam o sobrenome de Kristen, e em seguida elas

tiveram a audácia de se levantar e agir como se elas tivessem sido melhores amigas a vida

toda?

Que besteira.

Elas não se preocupavam com Kristen. Elas não tinham conhecido Kristen.

O som das minhas botas batendo no chão de madeira ecoaram alto pela sala

enquanto eu me levantei e fiz meu caminho pra fora do ginásio. Eu deixei a porta se fechar

atrás de mim e não me incomodei em olhar pra trás, preferindo para o maior reservado do

banheiro mais próximo para me esconder até que o sinal tocou para o primeiro período.

Este ia ser um ano bem longo.

A manhã se arrastou, e enquanto todos os outros à minha volta se esforçaram para

voltar ao hábito de ouvir professores e tomando notas novamente, eu lutava para não

pensar em Kristen. Não havia sequer uma cadeira esperando por ela. Como se ninguém

esperasse que ela voltasse.

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Quando o sinal tocou, finalmente, sinalizando o fim da aula de história e o início

do almoço, eu deslizei para a fora da porta e corri para o refeitório. Eu precisava

desesperadamente de um intervalo. Mas não era mais fácil lá dentro, e eu

automaticamente procurei a multidão pelo rosto de Kristen, enquanto eu caminhava para

o nosso local de costume. Algumas pessoas sorriram para mim quando passavam por ali,

mas eu não consegui sorrir de volta. Eu não queria piedade. Ou companhia forçada.

Depois de vinte minutos excruciantes, gastos escolhendo minha comida, eu saí do

refeitório, antes da multidão chegar ao corredor principal. Indo para o meu armário, eu

estava grata pelo armário de Kristen não ter sido atribuído a ninguém ainda, pois estava

diretamente junto ao meu. Enquanto ele estivesse vazio, eu não teria que aturar alguém

novo tentando assumir seu espaço.

Eu pulei quando o segundo sinal tocou, e então, peguei minha mochila em um

movimento assustado. Batendo a porta do meu armário, corri para a próxima aula. A tarde

se arrastou ainda mais lenta do que a manhã, e cada segundo era angustiante. Fiquei

aliviada ao descobrir que a minha última aula do dia, era apenas uma sala de estudo de

curta duração. Uma sala de estudo, eu aprendi rapidamente, juniores e seniores que foram

autorizados a pular para o segundo semestre do ano letivo.

Esse foi meu ponto alto do dia todo.

Mas mesmo o breve momento de felicidade desapareceu, e cinco minutos depois

eu estava pronta pra ir. Os dezoito minutos que faltavam até a liberdade pareciam mais

como dezoito horas.

Já que não estava indo realmente estudar ou qualquer coisa, e ninguém estava

sentando próximo a mim, apoiei meus livros até esconder minha cabeça para trás e fechei

os olhos. Por um tempo eu só me sentei lá. Pensando no dia até agora e temendo o resto do

ano escolar.

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Talvez eu devesse falar com minha mãe sobre estudar em casa...

Foi o zumbido alto da campainha e alguém batendo na minha carteira escolar que

me acordou abalada. Limpando algumas babas no canto da minha boca com uma mão, eu

olhava ao redor pra ver se alguém tinha notado. Felizmente, não havia ninguém para

perceber. Eu era a única que ainda estava aqui. Agarrando os livros na minha frente,

empurrei-os para a mochila e me dirigi para a porta.

Um dia acabado, oitocentos milhões a mais para ir.

Peguei o longo caminho para casa, pensando nas horas dolorosas que passei na

escola. Não tinha sido agradável, e a última coisa na terra que eu queria fazer era repetir o

dia de hoje de novo. Essa ideia de estudar em casa estava começando a soar cada vez

melhor.

Logo que cheguei à porta de trás e entrei na cozinha, a voz da mamãe me

cumprimentou.

— Então, como foi seu primeiro dia? O Diretor ligou.

Todos os pensamentos de escola-em-casa imediatamente deixaram meu cérebro, e

eu estava congelada no lugar. Uns milhões de cenários diferentes passaram por minha

mente, enquanto eu assimilava a informação. O que fez o diretor ligar? Estou em apuros

pela tempestade fora da reunião? Ou por tirar um cochilo na sala de estudo? Como devo

jogar isto?

Eu testei a maré lentamente, encolhendo os ombros com indiferença.

— Foi tudo bem. Direto Meeker fez uma reunião e mencionou Kristen...

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Olhando com o canto do meu olho, vi que mamãe estava trabalhando em alguns

pápeis na mesa, e eu suspirei de alívio. Isso sempre foi um bom sinal. Isso significava que

ela estava pensando em algo mais importante do que eu.

— Sobre isso que ele ligou.

Ela nem sequer olhou pra mim, mas arrastou alguns jornais ao redor.

— Ele estava deixando todos os pais cientes sobre os conselheiros extras

disponíveis na escola. Espero que você vá dar um bom exemplo para os outros alunos,

Abigail.

Eu não tinha ideia do que ela quis dizer com isso.

— Claro, mãe. — Tanto faz.

— Eu vou lá pra cima pra começar meu dever de casa agora. Me chama quando o

jantar estiver pronto?

— Ok. — Ela respondeu distraidamente, e eu aproveitei para fazer uma fuga rápida

para o meu quarto.

Jogando minha mochila em cima da cama, fechei a porta atrás de mim e andava

pelo quarto, sentindo enjaulada e inquieta. Eu não sabia o que fazer comigo mesma. Eu

deveria estar com a Kristen agora. Caminhando pelo cemitério ou passeando na ponte.

Falando sobre o primeiro dia de volta à escola e quem tinha usado o quê. Compartilhando

observações enquanto lamentávamos sobre como era injusto os professores ordenarem

deveres na primeira noite... Qualquer uma dessas coisas.

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Isso não está certo. Eu não estava acostumada a ser tão sozinha.

Desesperada para ouvir a voz dela, para me enganar em pensar que tudo estava

normal de novo, peguei meu telefone e liguei para o número dela. Fui recebida por um frio

automático do-número-que-você-ligou-não-está-mais-na-mensagem-de-serviço. Eu não

podia sequer ouvir a sua voz gravada mais.

Desmoronando em minha cama, fui bombardeada com imagens do dia. Foi

confuso, e devastador, e eu não conseguia mais conter as lágrimas.

Eu ainda podia ouvir Diretor Meeker anunciando a morte de Kristen na frente de

toda escola. Eu podia ver o armário abandonado junto ao meu, onde ela deveria ter

continuado com as coisas dela. Ligar para o telefone dela e não ter resposta...

Escorregando para o chão, me enrolei numa pequena bola e balancei pra trás e pra

frente; tentando afastar a dor e o vazio, pôr de volta dentro daquele lugar escuro, então eu

não iria mais sentir isso. Um aperto agarrou meu coração e estava apertando toda a vida

dentro de mim.

Eu não podia lidar com este tipo de dor. Era muito grande. Muito bruto. Muito.

Quando minha mãe me chamou pra jantar, eu disse a ela que não me sentia bem e estava

indo pra cama cedo. Não era uma mentira total, pois meu peito doía e eu me sentia mal do

estômago. Mas eu não tinha intenção de ir para cama. Em vez disso, eu terminei todos os

meus trabalhos de casa e comecei a trabalhar no perfume de Kristen. Foi uma noite longa e

desgastante e eu não dormi.

No dia seguinte eu tive um tempo difícil pra me concentrar em minhas aulas na

escola e acabei adormecendo na sala de estudos novamente. Mas sabia que não importava.

Ninguém se importou com o que eu fazia mesmo assim.

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Na tarde de sexta-feira eu arrastei meu traseiro depois que o último sinal tocou e

praticamente corri da sala de aula, mas me acalmei logo que deixei o prédio. Por um lado,

fiquei extremamente feliz que iria fazer uma pausa de dois dias daquele inferno miserável

que suga alma chamado escola, mas por outro lado, não era como se eu estivesse indo ter

todo tipo de diversão ficando sozinha em casa.

Eu me arrastava em direção a casa, mas na última hora mudei de direção. Talvez

eu não tenha que gastar todo o meu tempo em casa.

Bati duas vezes quando cheguei à porta dos Maxwell, fiquei sem jeito na frente da

varanda. Normalmente, eu teria seguido Kristen na direita, mas as coisas são... diferentes

agora. Então, eu esperei.

A mãe de Kristen abriu a porta, e um sorriso largo dividiu seu rosto quando ela viu

que era eu.

— Abbey, venha. Você não tem que bater. Eu achei que era o carteiro.

Eu sorri e entrei no familiar corredor, tentando dificilmente não pensar na última

vez que estive aqui.

— Hey, Sra. M., eu só queria parar e dizer oi. Com o início da escola e durante toda

essa semana, eu tenho estado... ocupada. — Eu terminei indevidamente.

Bem, algo assim. Triste, oprimida, chateada, magoada. Ocupada? A mesma coisa.

Acenou-me para a sala e sentou-se num pequeno sofá azul bebê, enquanto eu

escolhi uma poltrona verde e rosa florida, próxima.

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— Então, como o primeiro ano vai indo até agora? — Ela me perguntou,

inclinando-se ligeiramente.

— Eles dizem que o primeiro ano é quando você começa todo o trabalho duro fora

do caminho para que você possa aproveitar seu último ano.

Forcei um sorriso falso. — Eu não duvido. Muito trabalho duro neste ano, isso é

verdade. Vai ser difícil.

— Com certeza será.

Ela disse suavemente, dobrando as mãos juntamente e descansando-as em

seu colo.

— Eu sei que Kirsten – Sua voz quebrou no nome, mas ela continuou falando.

— Bem, ela estava ansiosa por este ano. Ela não conseguia esperar pelo baile de

formatura, e começar a procurar por faculdades.

Inclinei-me mais perto dela, dei uma palmadinha no braço.

— Eu sei que ela estava, Sra. M, eu sei.

Eu tentei pensar em outra coisa pra falar. Isso não estava indo muito bem.

— Ela deveria estar aqui, Abbey, com você.

Sua exclamação repentina ecoou meus pensamentos do início da semana.

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— Começando a escola. Fazendo lição de casa. Fazendo planos para o final de

semana. Não... isso.

Ela olhou ao redor da sala, impotente.

— Agora é só uma casa vazia.

— E se ela ainda estiver lá fora?— Perguntei-lhe, de repente. — Por que você

desistiu tão cedo? — Eu sabia que não deveria dizer essas coisas, mas eu não consegui

parar. O filtro entre meu cérebro e minha boca explodiu espontaneamente.

Ela olhou pra mim com tristeza.

— Você sabe que ela não está lá fora, Abbey. Você sabe o que encontraram.

Ela não podia dizer isso, mas eu sabia do que ela estava falando.

— A polícia deveria ter feito mais. — Eu disse com raiva.

— Eu vi como essas coisas funcionam em Lei e Ordem. Eles não desistem tão

facilmente, e trazem em outras agências. E quanto ao FBI? Por que não chamaram eles?

Eles teriam feito alguma coisa. Só porque ela está desaparecida, não significa que está

morta.

— Não é como se fosse a primeira vez que isso acontece. — Ela refutou.

— Quando aquele velho homem caiu ano passado, não encontraram seu corpo por

seis meses.

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— Eu sei. É que...— Eu suspirei e sacudi a cabeça.

— Como não houve pedido de resgate, nenhuma evidência de sequestro.

— E o sangue?— Eu interrompi. — Isso poderia significar que alguém a machucou.

Desta vez foi a vez dela balançar a cabeça.

— A polícia sabe o que está fazendo, Abbey. Eles disseram que a pequena

quantidade de...sangue... na pedra não era compatível com alguém que bateu com a cabeça

e caiu. Você já sabe.

— Sim, bem, eu ainda acho que eles deveriam estar procurando mais. Como a

polícia na TV.

— A vida não é um programa de televisão.

Ela suspirou cansada antes de se levantar do sofá.

— Você quer sorvete? Acho que preciso de hortelã duplo com chocolate agora.

Eu assenti, e ela saiu da sala por um instante, antes de voltar com uma caixa

grande e duas colheres.

Passamos o balde de sorvete pra frente e pra trás várias vezes antes de falar

novamente.

— Eu não quero desistir dela, Abbey. — Ela disse claramente.

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— Mas precisávamos de algum tipo de encerramento. Com Thomas era diferente.

Desta vez nós precisávamos ter algum tipo de fim para tudo. Você entende isso?

Eu não entendo. Mas eu desejo com todo meu coração que a tristeza possa ir

embora pra ela tão facilmente como o sorvete fazia.

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Capítulo Cinco

Escolhas

―Ao longo de um profundo riacho negro, não muito longe da igreja, que antigamente era

uma ponte de madeira... Este era um dos lugares favoritos do Cavaleiro Sem Cabeça...‖

— The Legend of Sleepy Hollow

Na terça-feira seguinte, depois de mais um dia difícil na escola, eu tinha uma

sensação muito forte que se eu fosse pra casa, ia acabar no chão do quarto novamente,

balançando pra trás e pra frente. O que não era uma expectativa agradável. Eu descartei a

ideia e comecei a andar, sem saber a onde estava indo, mas sabendo que tinha que

continuar.

Quando cheguei a uma bifurcação na estrada, fiz uma pausa, pensando sobre

minhas opções. Alguma coisa me puxou e disse que direção tomar.

Cinco passos depois, os dois enormes portões de ferro que marcava a entrada do

Cemitério Sleepy Hollow me cumprimentaram. Inspirei profundamente, dei um passo pra

trás, e dois passos pra frente... e conclui meu destino.

Eu nunca pensei que algo tão simples como andar pudesse ser tão difícil, mas o

primeiro passo era grande. E tão difícil de tomar. Cada movimento que fiz parecia que iria

destruir a terra, pois me lembrava da última vez que estive aqui nesse cemitério... a razão

pra isso...

Não era uma boa memória.

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Concentrando em colocar um pé na frente do outro, eu andei lentamente ao longo

do caminho.

Eu sabia onde tinha que ir, havia alguém com que eu precisava conversar.

Lápides de todas as formas e tamanho apareceram pelo caminho.

Jazigos de famílias de muitas gerações foram escondidos atrás da estreita cerca

que servia para separar do canteiro. Frágeis barreiras erguidas entre os vivos e os mortos.

Mausoléus e criptas, com nomes desbotados que eu sabia de cor, erguiam-se

majestosamente para fora da terra.

Suas laterais, apesar de devastado pelo efeito do tempo, ainda fornecia um lugar

seguro para os corpos que descansam lá dentro, e eu assenti com a cabeça em sinal de

respeito às casas dos que partiram.

E então eu andei para a cadeira.

Ela ainda estava aqui, descansando ao lado de sua sepultura. A fina cobertura de

grama agora cresceu acima da superfície da sepultura e flores frescas cercava a borda do

canteiro. Acenei olá rapidamente antes de seguir em frente.

As árvores em volta de mim estavam explodindo com as cores vivas de outono. Era

absolutamente maravilhoso, e eu parei por um momento para aproveitar tudo. Então, eu

percebi o quanto eu realmente sentia falta de visitar esse lugar. Era minha casa. Meu

santuário.

Quando finalmente cheguei ao fim do caminho, virei à esquerda e sai em volta de

outro enorme mausoléu esculpido do lado de uma colina. Uma porta de ardósia gigante

protegia a entrada, mas meu destino era um próximo lugar... Túmulo onde Washington

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estava.

Depois de seguir os estreitos degraus de pedra que me levou num caminho até um

pequeno portão de ferro, empurrei vagarosamente o portão aberto e cruzei para o jazigo da

família Irving. Eu sabia que este lugar era melhor do que qualquer outro. Kristen e eu

parávamos aqui quase todos os dias. Quando éramos mais jovens, brincávamos de faz de

conta entre as lápides e gastávamos horas especulando sobre um lendário escritor que fez

nossa pequena cidade tão famosa.

Nós tínhamos sonhado com as figuras míticas enterradas abaixo da velha seção

holandesa e cada uma tinha um medo bobo de histórias de fantasmas que envolvem o

Cavaleiro Sem Cabeça4. E em mais de uma ocasião nós compartilhamos nossos segredos

para uma contadora de histórias que tinha partido há muito tempo, porém, ainda nos

fascinava com suas palavras. Eu não poderia pensar numa forma mais perfeita de ter

passado minha infância.

De repente, a memória esquecida de um projeto escolar da quarta-série veio à

minha cabeça, e sorriu pra mim. Sentia que tinha sido uma vida desde que Kristen e eu

cautelosamente copiamos cada nome das lápides Irving e usamos informações de velhos

jornais da biblioteca para projetar uma árvore genealógica. Nós também montamos um

boletim da família que detalhava os destaques e os favoritos da vida de cada pessoa.

Foi um A++ para nós duas.

Kristen estava tão orgulhosa do + extra que o professor tinha nos dado. Foi tudo

que ela falou durante dias. Eu balancei minha cabeça, e a memória desapareceu novamente

4 " The Legend of Sleepy Hollow" (em português: "A lenda do Cavaleiro Sem-cabeça" ou "A lenda da caverna adormecida") é um conto de

Washington Irving incluído na coleçãThe Sketch Book of Geoffrey Crayon, Gent. , escrita enquanto o autor vivia em Birmingham, Inglaterra. A