Todo por Sylvia D. - Versão HTML

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"Quando o mundo estiver unido na busca do conhecimento, e não mais lutando

por dinheiro e poder, então nossa sociedade poderá enfim evoluir a um novo

nível."

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Para H ilary Sares, q ue f icou no fogo cruz ado comigo da p rimeira à

ultima p alavra.

1

Nova York era a cidade que nunca dormia; não sentia nem

sono. Meu apartamento no Upper West Side tinha o nível de

isolamento acústico esperado para um empreendimento de

altíssimo padrão, mas mesmo assim o barulho do lado de fora

entrava pelas janelas — o passar ritmado dos pneus sobre o asfalto

gasto, os freios com anos de uso, as buzinas incessantes dos táxis.

Quando saí do café de esquina para a sempre movimentada

Broadway, o burburinho da cidade tomou conta de mim. Como

conseguiria viver sem a cacofonia de Manhattan?

Como conseguiria viver sem ele?

Gideon Cross.

Segurei seu rosto e senti a receptividade ao meu toque. Essa

demonstração de carinho e vulnerabilidade me deixou tocada.

Algumas horas antes, cheguei a pensar que Gideon nunca mudaria,

que eu precisaria ceder demais para compartilhar minha vida com

ele. Pouco tempo mais tarde, admirava sua coragem, e duvidava da

minha.

Estava exigindo mais dele do que de mim mesma?

Fiquei envergonhada com a

possibilidade de tê-lo pressionado tanto para mudar enquanto

eu continuava obstinadamente a mesma.

Ele estava diante de mim, alto e forte como sempre. De calça

jeans, camiseta e um boné de beisebol enfiado na cabeça, muito

diferente do multibilionário que o mundo imaginava conhecer, mas

ainda tão poderoso que afetava todos por quem passava. Com o

canto dos olhos, notei como as pessoas ao redor reparavam nele,

sempre parando para uma segunda olhada.

Fosse com os ternos de três peças de sua preferência ou com

roupas casuais, o corpo longilíneo e musculoso de Gideon era

inconfundível. A maneira como se movia e a autoridade que

emanava de seu autocontrole impecável tornavam impossível para

ele se misturar à multidão.

Nova York engolia tudo o que surgia em suas ruas, mas

Gideon controlava a cidade com rédea curta.

E ele era meu. Mesmo com a aliança em seu dedo, às vezes eu

ainda não conseguia acreditar nisso.

Gideon jamais seria um homem como outro qualquer. Era a

ferocidade disfarçada de elegância, a perfeição escondida entre

falhas.

Era o que dava sentido ao meu mundo, e ao mundo em si.

Mesmo assim, tinha me mostrado que cederia até o limite do

suportável por mim.

Isso me deu determinação para provar que merecia o

sofrimento que o obriguei a encarar.

Ao nosso redor, o comércio da Broadway começava a abrir. O

trânsito na rua começou a ficar mais pesado, com os carros pretos

e os táxis amarelos sacolejando sobre a superfície irregular. Os

moradores saíam, levando o cachorro para passear ou se dirigindo

ao Central Park para uma corrida matinal, aproveitando o pouco

tempo que tinham antes de mais um dia de trabalho começar a

todo vapor.

A Mercedes estacionou bem quando nos aproximamos, e pude

ver a silhueta vultosa de Raúl ao volante. Angus parou o Bentley

logo atrás. Os carros levariam cada um de nós para a própria casa.

Como era possível considerar aquilo um casamento?

Mas nosso casamento era assim, apesar de não ser essa a

vontade de nenhum dos dois. Tive que impor um limite quando

Gideon contratou meu chefe para tirá-lo da agência em que eu

trabalhava.

Entendia o desejo do meu marido de que eu me juntasse a ele

nas Indústrias Cross, mas tentar me forçar a isso agindo pelas

minhas costas… Isso eu não podia permitir, não com um homem

como Gideon. Ou estávamos juntos de verdade — tomando todas

as decisões juntos —, ou nosso relacionamento não ia funcionar.

Ergui a cabeça e olhei para seu rosto deslumbrante. Seu

remorso era bem claro, assim como seu alívio. E seu amor. Muito

amor.

Ele era tão lindo que me deixava sem fôlego.

Seus olhos eram azuis como o mar caribenho, seus cabelos

eram grossos e pretos, chegando até o pescoço. Os ângulos de seu

rosto foram esculpidos à perfeição, algo que me deixava

maravilhada e quase incapaz de pensar racionalmente. Fiquei

impressionadíssima com sua beleza desde a primeira vez que o vi,

e de tempos em tempos ainda me surpreendia em momentos de

admiração febril. Gideon me deixava boquiaberta.

Mas o que mais me encantava era quem ele era por dentro,

sua força interior, sua energia incessante, sua inteligência afiada,

sua determinação implacável e seu coração…

“Obrigada.” Meus dedos percorreram suas sobrancelhas

grossas e escuras, que sempre se moviam quando eu tocava sua

pele. “Por ter me ligado. Por ter me contado sobre seu sonho.

Por vir me encontrar aqui.”

“Eu iria a qualquer lugar para ver você.”

Ditas com fervor e determinação, essas palavras soaram como

uma promessa.

Todo mundo tem seus demônios. Os de Gideon estavam

escondidos sob seu autocontrole implacável, mas quando dormia

eles o atormentavam em pesadelos violentos e assustadores que

não queria compartilhar comigo. Tínhamos muito em comum, mas

o abuso que havíamos sofrido na infância era um trauma que nos

aproximava e nos afastava ao mesmo tempo. Isso me fez querer

lutar ainda mais por Gideon e o que tínhamos juntos.

Nossos abusadores já haviam tirado coisas demais de nós.

“Eva… A sua vontade é a única coisa neste mundo capaz de me

manter distante.”

“Obrigada por isso também”, murmurei com um aperto no

coração. Nossa separação recente tinha sido dura para nós dois.

“Sei que não é fácil para você me dar tanto espaço, mas precisamos

disso. Também sei que exigi muito de você…”

“Demais.”

Minha boca se curvou ao ouvir um sinal de irritação na voz

dele. Gideon não estava acostumado a não conseguir o que queria.

“Eu sei. E você respeitou isso, porque me ama.”

Mas, apesar de Gideon ter odiado ser privado de mim,

estávamos juntos agora porque aquilo o tinha mudado

positivamente.

“Sinto muito mais que amor por você.” Ele segurou meus

pulsos, apertando-me de um jeito autoritário que me fez ceder.

Balancei a cabeça, sem medo de admitir que precisávamos um

do outro de um jeito que a maioria das pessoas não consideraria

saudável.

Mas nosso relacionamento era assim. E era muito importante

para mim.

“Vamos no mesmo carro para o consultório do dr. Petersen.”

Seu tom ao dizer essas palavras foi de ordem, mas seus olhos

inquisitivos em mim faziam com que parecesse uma pergunta.

“Como você é mandão”, brinquei, querendo que nossa

despedida se desse em um clima leve, de esperança. Nossa sessão

de terapia semanal com o dr. Lyle Petersen era dali a algumas

horas, e não poderia vir em um momento melhor. Tínhamos feito

bastante progresso. Seria bom receber orientação quanto aos

próximos passos.

Ele enlaçou minha cintura com os braços.

“Te amo.”

Segurei a bainha de sua camiseta, agarrando-me ao tecido

macio. “Também te amo.”

“Eva.” Senti seu hálito quente no meu pescoço. Manhattan

pulsava ao nosso redor, mas sem provocar nenhuma distração.

Quando estávamos juntos, nada mais importava.

Deixei um ruído grave de desejo escapar, e meu corpo, que

tanto queria Gideon pressionado contra mim, estremeceu. Inspirei

profundamente para sentir seu cheiro, acariciando os músculos

firmes de suas costas.

A sensação que me invadiu foi de perder a cabeça. Eu estava

viciada nele — de corpo, alma e coração — e havia passado vários

dias sem uma dose, o que me deixou abalada, desequilibrada,

incapaz de funcionar plenamente.

Gideon me envolveu com seu corpo muito maior e mais forte

que o meu. Eu me senti segura em seu abraço, querida e protegida.

Nada seria capaz de me magoar ou me atingir enquanto

estivesse nos braços dele. Queria que Gideon sentisse essa mesma

sensação de segurança comigo. Precisava que soubesse que podia

baixar a guarda e respirar um pouco, que eu nos protegeria.

Eu precisava ser mais forte. Mais esperta.

Mais intimidadora. Tínhamos inimigos, e Gideon estava

lidando com eles sozinho. Era de sua natureza ser protetor, e esse

era um dos traços de sua personalidade que eu mais admirava. Mas

eu precisava mostrar a todos que eu era uma adversária tão

temível quanto meu marido.

Acima de tudo, precisava mostrar isso a Gideon.

Senti seu calor, ainda agarrada nele. Seu amor. “Vejo você às

cinco, garotão.”

“Nem um minuto a mais”, ele ordenou com um tom bem

sério.

Dei uma risadinha, encantada com seu lado durão. “Senão…?”

Ele se inclinou para trás e me lançou um olhar sério antes de

dizer: “Vou buscar você”.

Eu devia ter entrado na ponta dos pés na cobertura do meu

padrasto, prendendo a respiração, já que pela hora — pouco depois

das seis da manhã — a possibilidade de ser pega era grande. Mas

entrei dando passos determinados, com os pensamentos voltados

para as mudanças que precisaria promover.

Havia tempo para tomar um banho — e nada além disso —,

mas eu não queria. Fazia tempo demais que Gideon não me tocava.

Tempo demais que não sentia suas mãos em mim, seu corpo

dentro do meu. Não queria tirar os resquícios de seu toque. Aquilo

me daria forças para o que estava por vir.

Um abajur se acendeu sobre uma mesinha.

“Eva.”

“Minha nossa!”, eu disse, assustada.

Quando me virei, dei de cara com minha mãe sentada em um

dos sofás da sala de estar.

“Você me deu um baita susto!”, acusei, levando a mão ao

coração disparado.

Ela ficou em pé, com um robe de cetim que chegava até o

chão envolvendo suas pernas tonificadas e ligeiramente bronzeadas.

Eu era sua única filha, e nós parecíamos irmãs.

Monica Tramell Barker Mitchell Stanton era obcecada pela

aparência. A beleza jovial era seu grande trunfo para manter seu

histórico de casamentos com homens ricos.

“Antes que você comece”, aviso, “sim, precisamos falar sobre

o casamento. Mas preciso me arrumar e pegar minhas coisas para

poder voltar para casa hoje…”

“Você está tendo um caso?”

A pergunta seca e direta me assustou mais que ser

surpreendida no meio da sala. “Quê?

Não!”

Ela soltou o ar com força, e a tensão abandonou visivelmente

seus ombros. “Graças a Deus. Então o que está acontecendo? O

desentendimento com Gideon foi sério mesmo?”

Bem sério. Por um tempo, temi que as decisões dele

acabassem com nosso relacionamento. “Vamos nos acertar, mãe.

Foi só uma briguinha à toa.”

“Uma briguinha à toa que fez com que você o evitasse

durante dias? Não é assim que se resolve as coisas, Eva.”

“É uma longa história…”

Ela cruzou os braços. “Não estou com pressa.”

“Bom, eu estou. Preciso me arrumar para o trabalho.”

A mágoa ficou estampada no rosto dela, e meu remorso foi

imediato.

Houve um tempo em que eu queria ser como minha mãe

quando crescesse. Passava horas experimentando suas roupas,

cambaleando sobre seus saltos, melecando meu rosto com seus

cremes e

cosméticos caríssimos. Tentava imitar sua voz rouca e

sussurrada e seus gestos sensuais, com a certeza de que ela era a

mulher mais maravilhosa e perfeita do mundo. A maneira como os

homens reagiam à presença dela, como a olhavam e a agradavam…

Bom, eu queria ter essa mesma aura mágica.

No fim, eu me tornei uma cópia dela sem tirar nem pôr, a

não ser pelos cabelos e pela cor dos olhos. Mas só na aparência.

Não podíamos ser mais diferentes e, infelizmente, isso era motivo

de orgulho para mim. Parei inclusive de seguir seus conselhos, a

não ser para assuntos de moda e decoração.

Aquilo precisava mudar. E com urgência.

Tentei diversas táticas no meu relacionamento com Gideon,

mas não havia pedido a ajuda da única pessoa próxima de mim que

sabia como era ser casada com homens importantes e poderosos.

“Preciso de um conselho, mãe.”

Minhas palavras pairaram no ar por um instante, então vi a

reação que causaram. Os olhos dela se arregalaram de surpresa.

Um instante depois, minha mãe desabou no sofá, como se seus

joelhos tivessem fraquejado. Senti o quanto a havia afastado de

mim.

Quando me sentei em frente a ela, estava com o coração

apertado. Eu tinha aprendido a tomar cuidado com o que

compartilhava com minha mãe, fazendo de tudo para evitar

menção a informações que poderiam dar início a brigas

enlouquecedoras.

Nem sempre fora assim. Nathan, o filho de um dos meus

padrastos, arrancou de mim uma relação tranquila com minha

mãe, além da minha inocência. Depois de ficar sabendo do abuso,

ela mudou, tornando-se superprotetora a ponto de me seguir e me

sufocar. Monica Tramell sempre foi uma mulher absolutamente

confiante, menos em relação a mim. Comigo ela era ansiosa e

invasiva, e às vezes beirava a histeria. Ao longo dos anos, fui

forçada a evitar a verdade em várias ocasiões, guardando segredos

de todos que amava só para manter as coisas tranquilas.

“Não sei de que tipo de esposa Gideon precisa”, confessei.

Ela jogou os ombros para trás, assumindo uma postura

indignada. “Ele está tendo um caso?”

“Não!” Soltei uma risada sem graça.

“Ninguém está tendo um caso. Não faríamos isso um com o

outro. Não conseguiríamos.

Não precisa se preocupar com isso.”

O recente caso da minha mãe com o meu pai talvez fosse o

verdadeiro motivo dessa preocupação. Será que ela estava com a

consciência pesada? Ou repensando sua relação com meu padrasto?

Eu não sabia como me sentir a respeito, porque amava demais meu

pai, mas também achava que Stanton era o marido perfeito para

minha mãe.

“Eva…”

“Gideon e eu nos casamos em segredo algumas semanas

atrás.” Como era bom poder contar isso.

Ela piscou uma vez. Duas vezes. “Quê?”

“Ainda não contei ao papai”, continuei. “Mas vou ligar para

ele hoje.”

Os olhos dela se encheram de lágrimas. “Por quê? Eva… Como

foi que nos afastamos tanto assim?”

“Não chora.” Levantei e fui me sentar ao lado dela. Segurei

suas mãos, e ela me deu um abraço forte.

Ao sentir seu cheiro tão familiar, fui invadida pela

tranquilidade possível apenas nos braços de uma mãe. Por alguns

momentos, pelo menos. “Não foi nada planejado, mãe.

Viajamos num fim de semana e Gideon me pediu em

casamento. Eu aceitei, então ele tomou as providências… Foi uma

coisa espontânea. No calor do momento.”

Ela se inclinou para trás, revelando o rosto molhado de

lágrimas e um fogo no olhar.

“Ele se casou com você sem um acordo pré-

nupcial?”

Dei risada. Era inevitável. Claro que minha mãe ia se

preocupar com os detalhes financeiros. O dinheiro era o que movia

sua vida. “Eu assinei um acordo.”

“Eva Lauren! Você pelo menos leu o documento? Ou foi uma

coisa espontânea também?”

“Li tudinho.”

“Mas você não é advogada! Meu Deus, Eva…

Achei que fosse mais esperta que isso!”

“Até uma criança de seis anos entenderia aqueles termos”,

rebati, irritada com o verdadeiro problema do meu casamento:

gente demais interferindo no meu relacionamento com Gideon,

gerando uma distração constante que nos impedia de lidar com as

coisas que de fato precisavam ser resolvidas. “Não precisa se

preocupar com o acordo pré-nupcial.”

“Você deveria ter mandado o documento para Richard ler.

Não sei por que não fez isso.

Que irresponsabilidade! Eu não…”

“Eu li, Monica.”

Eu e minha mãe nos viramos ao ouvir a voz de Stanton. Ele

entrou na sala pronto para o trabalho, com um terno azul-marinho

impecável e gravata amarela. Eu imaginava que Gideon seria muito

parecido com meu padrasto quando chegasse à idade dele: enxuto,

distinto, mais confiante do que nunca como macho alfa.

“Você leu?”, perguntei, surpresa.

“Cross me mandou algumas semanas atrás.”

Stanton foi até minha mãe e segurou as mãos dela. “Eu não

seria capaz de negociar termos mais favoráveis.”

“Sempre é possível conseguir termos mais favoráveis,

Richard!”, minha mãe rebateu.

“Existem recompensas para datas como aniversário de

casamento e nascimento de filhos, e nenhuma penalidade para Eva

além de terapia de casal. Uma eventual separação causaria uma

distribuição mais que equilibrada dos bens. Quase mandei o

documento para o advogado de Cross revisar. Imagino que ele

consideraria totalmente desaconselhável.”

Minha mãe sossegou por um instante, refletindo a respeito.

Em seguida se levantou, furiosa. “Você sabia que eles iam se casar

em segredo? E não me disse nada?”

“Claro que não sabia.” Ele a abraçou, falando como se

estivesse se dirigindo a uma criança.

“Pensei que estivessem planejando o futuro.

Você sabe que esse tipo de negociação demora meses. Mas,

nesse caso, eu não teria nem pedido tudo isso.”

Fiquei em pé. Tinha que me apressar para não chegar atrasada

ao trabalho. Naquele dia, principalmente, eu precisava chegar na

hora.

“Aonde você vai?”

Minha mãe se desvencilhou de Stanton. “A conversa ainda não

terminou. Você não pode despejar uma bomba como essa e ir

embora.”

Virei para encará-la, mas fui andando para trás. “Preciso

mesmo me trocar. Que tal a gente se encontrar na hora do almoço

para conversar melhor?”

“Você não pode estar…”

“Corinne Giroux”, eu a interrompi.

Minha mãe arregalou os olhos, e logo depois franziu a testa.

Um nome. Não precisei dizer mais nada.

A ex de Gideon era um problema que não exigia maiores

explicações.

Era raro alguém ir a Manhattan e não se sentir imediatamente

em um lugar familiar. Os cenários da Big Apple haviam sido

imortalizados em inúmeros filmes e programas de TV, espalhando

pelo mundo todo o amor que os habitantes de Nova York sentiam

pela cidade.

Eu não era exceção.

Adorava a elegância art déco do Chrysler Building. Conseguia

me localizar em qualquer parte da ilha só avistando o Empire

State.

Fiquei impressionada com a altura da Freedom Tower, que

dominava a paisagem no centro da cidade. Mas o Edifício Crossfire

era de outra categoria. Eu já achava isso antes mesmo de me

apaixonar pelo homem cuja visão levou à construção do prédio.

Quando Raúl estacionou a Mercedes, observei com admiração

o vidro safira que envolvia a forma de obelisco do edifício. Ergui a

cabeça e deixei que meu olhar se dirigisse até o alto, para o espaço

iluminado que abrigava a sede das Indústrias Cross. Os pedestres

passavam sem parar ao meu redor, a calçada lotada de homens e

mulheres de negócios com pastas de couro em uma das mãos e um

copo fumegante de café na outra.

Senti a presença de Gideon antes mesmo de vê-lo, com meu

corpo todo vibrando assim que ele saiu do Bentley, estacionado

logo atrás da Mercedes. O ar ficou carregado de eletricidade, como

se uma tempestade estivesse a caminho.

Eu me virei para ele com um sorriso no rosto. Não era

coincidência chegarmos no mesmo instante. Soube disso assim que

vi seus olhos.

Estava usando terno preto, camisa branca e gravata prata.

Mechas escuras e sensuais de seus cabelos roçavam a mandíbula e

o colarinho. Gideon ainda me encarava com a mesma ferocidade

sensual que me atraíra a princípio, mas agora havia também

ternura em seus olhos azuis reluzentes e uma receptividade que

para mim significava mais do que tudo.

Dei um passo à frente quando ele se aproximou. “Bom dia,

Moreno Perigoso.”

Ele abriu um sorriso cheio de malícia. A brincadeira deixou

seus olhos ainda mais calorosos.

“Bom dia, esposa.”

Estendi a mão e me senti segura quando ele a segurou com

força.

“Contei para minha mãe hoje de manhã…

sobre o casamento.”

Uma sobrancelha escura se ergueu em surpresa, e o sorriso

dele pareceu ainda mais triunfante. “Ótimo.”

Rindo de sua possessividade indisfarçada, dei um esbarrão de

leve nele com o ombro. Gideon agiu rápido, puxando-me para

perto e me beijando no canto da boca.

Sua alegria era contagiante. Fez minhas entranhas se

aquecerem, iluminando espaços que andavam escuros nos últimos

dias. “Vou ligar para meu pai assim que tiver um tempinho. Ele

precisa saber.”

Gideon ficou sério. “Por que agora, e não antes?”

Ele falou baixinho, para manter nossa privacidade. Pessoas

passavam sem parar, quase sem prestar atenção em nós. Mesmo

assim, hesitei em responder, sentindo-me exposta demais.

E então… a verdade simplesmente apareceu.

Eu estava escondendo coisas demais das pessoas que amava.

Pequenas, grandes.

Tentando manter tudo como estava, ao mesmo tempo que

ansiava por mudanças.

“Eu estava com medo”, contei.

Ele se aproximou um pouco mais, com um olhar intenso no

rosto. “E agora não está mais.”

“Não.”

“Hoje à noite você me conta por quê.”

“Tá”, eu disse, concordando com a cabeça.

Gideon segurou minha nuca, em um gesto ao mesmo tempo

possessivo e carinhoso. Seu rosto se mantinha impassível, mas

seus olhos…

aqueles olhos azuis… eram um turbilhão de emoções. “Nós

vamos conseguir, meu anjo.”

O amor tomou conta de mim, inebriante como um bom

vinho. “Pode apostar.”

Foi estranho passar pela porta da Waters Field & Leaman,

contando mentalmente os dias em que ainda poderia me gabar de

trabalhar na prestigiada agência de publicidade. Megumi Kaba

acenou para mim da recepção, batendo no fone para mostrar que

não podia falar. Acenei de volta e fui para minha mesa com passos

confiantes. Havia muito a fazer.

Mas eu precisava começar pelo mais importante. Guardei a

bolsa na última gaveta, acomodei-me na cadeira e entrei no site da

minha floricultura on-line favorita. Sabia exatamente o que queria.

Uma dúzia de rosas brancas em um vaso de cristal vermelho.

Branco de pureza, amizade, amor eterno. E

também da paz. Demarquei minhas linhas de batalha ao forçar

uma separação com Gideon e, no fim, saí vencedora. Porém não

queria ficar em guerra com meu marido.

Nem

tentei

elaborar

um

bilhete

engraçadinho

para

acompanhar as flores, como havia feito no passado. Escrevi

simplesmente o que sentia em meu coração.

Você é um milagre, sr. Cross.

Eu te admiro e te amo demais.

Sra. Cross

O site abriu a tela para finalizar o pedido.

Cliquei no botão de confirmar e pensei por um momento no

que Gideon acharia do presente.

Um dia, queria vê-lo receber minhas flores. Ele sorria quando

Scott, seu assistente, entrava na sala com elas? Interrompia uma

conversa para ler o bilhete? Ou esperava por um raro momento de

folga para ter mais privacidade?

Abri um sorriso ao considerar as possibilidades. Eu adorava

presentear Gideon.

E em breve teria mais tempo para escolher os mimos.

“Você está pedindo demissão?”

O olhar incrédulo de Mark Garrity se ergueu da carta de

demissão para mim.

Senti um nó no estômago ao ver a expressão do meu chefe.

“Estou. Desculpa por ser assim tão repentino.”

“Amanhã é seu último dia?” Ele se recostou na cadeira. Seus

olhos eram alguns tons mais claros que sua pele chocolate e

expressavam surpresa e decepção. “Por quê, Eva?”

Soltando um suspiro, eu me inclinei para a frente e apoiei os

cotovelos nos joelhos. Mais uma vez, decidi contar a verdade. “Sei

que não é muito profissional da minha parte, mas… tive que

redefinir minhas prioridades e… não posso dedicar toda a minha

atenção ao trabalho no momento, Mark. Desculpa.”

“Eu…” Ele soltou o ar com força e passou as mãos pelos

cabelos crespos e pretos. “Que droga… O que posso dizer?”

“Que você me perdoa e não vai ficar bravo comigo?” Soltei

uma risadinha sem graça. “Sei que é pedir demais.”

Ele abriu um sorriso maroto. “Você sabe que não quero

perder você, Eva. Não sei se deixei claro como você é importante

para mim. Você me faz trabalhar melhor.”

“Obrigada, Mark. Mesmo.” Era mais difícil do que eu

imaginava, apesar de ser a melhor e a única decisão possível

naquele momento.

Meus olhos se voltaram para a vista que estava atrás do meu

chefe. Como gerente de contas júnior, ele tinha um escritório

pequeno, de frente para um prédio do outro lado da rua, mas era

um horizonte tão nova-iorquino quanto o das janelas do espaçoso

escritório de Gideon Cross no último andar.

Em vários sentidos, aquela divisão de andares espelhava a

maneira como eu tentava definir minha relação com Gideon. Eu

sabia quem ele era. Sabia o que ele era: um homem que pertencia a

uma categoria exclusiva. Adorava isso, e não queria mudar nada; só

desejava poder chegar ao nível dele por mérito próprio.

O que não imaginei foi que, ao me recusar a aceitar que o

casamento tinha mudado tudo, eu o estava rebaixando ao meu

nível.

Eu nunca seria reconhecida por chegar até o topo por

merecimento. Para algumas pessoas, seria sempre aquela que o fez

através do casamento. E precisava aprender a conviver com isso.

“Para onde você vai?”, perguntou Mark.

“Sinceramente… ainda não sei. Só sei que não posso continuar

aqui.”

Meu casamento não aguentaria muita pressão mais antes de

desmoronar,

e

eu

havia

permitido

que

se

aproximasse

perigosamente da beira do abismo ao querer distância. Ao me

colocar em primeiro lugar.

Gideon Cross era um oceano vasto e profundo, e por um

momento eu temi me afogar nele. Mas não podia mais viver com

medo. Não depois de perceber que meu maior temor era perdê-lo.

Tentando me manter neutra, eu tinha afastado Gideon. E,

irritada por isso, não percebi que, se quisesse ter algum controle,

era preciso assumir as rédeas da situação.

“Por causa da conta da LanCorp?”, questionou Mark.

“Em parte.” Alisei minha saia de risca de giz, afastando meus

pensamentos do ressentimento de Gideon pelo fato de ter

contratado Mark. A gota d’água havia sido a LanCorp procurar a

Waters Field & Leaman com um pedido específico para que Mark e,

portanto, eu cuidássemos da conta, uma manobra que Gideon

encarou com desconfiança. O esquema de pirâmide de Geoffrey

Cross tinha aniquilado a fortuna da família Landon, e tanto Ryan

Landon como Gideon precisaram recomeçar a partir do prejuízo

dos pais. Landon, porém, ainda tinha sede de vingança.

“Mas principalmente por motivos pessoais.”

Depois de endireitar a postura, Mark apoiou os cotovelos na

mesa e se inclinou na minha direção. “Sei que não é da minha

conta e não quero me intrometer, mas você sabe que Steven,

Shawna e eu estamos aqui para o que der e vier. Gostamos de

você.”

Sua sinceridade fez meus olhos se encherem de lágrimas.

Steven Ellison, o noivo de Mark, e sua irmã Shawna se tornaram

amigos queridíssimos em Nova York, uma parte importante da

rede de relações que construí depois de me mudar para a

cidade.

Independentemente do que acontecesse, não queria perder

contato com aquelas pessoas que tinha aprendido a amar.

“Eu sei.” Abri um sorriso triste. “Qualquer coisa eu ligo para

vocês, prometo. Mas vai ser melhor assim. Para todos nós.”

Mark relaxou e retribuiu o sorriso. “Steven vai pirar. Acho

melhor você contar para ele.”

Ao pensar no empreiteiro grandalhão e sociável, a tristeza se

foi. Steven ficaria uma fera comigo por deixar seu parceiro na mão,

mas no fim entenderia. “Ah, qual é?”, brinquei.

“Você não faria isso comigo… Já está sendo difícil o bastante.”

“Eu não me importaria de deixar tudo ainda mais difícil.”

Dei risada. Sentiria falta de Mark e do meu trabalho. Demais.

Como ainda era cedo em Oceanside, na Califórnia, quando fiz

a primeira pausa do dia, mandei uma mensagem de texto para meu

pai, em vez de ligar.

Avisa quando acordar, preciso contar uma coisa.

Como sabia que, como bom policial, meu pai sempre pensava

no pior, acrescentei: Mal tinha colocado o celular no balcão da sala

do café quando o aparelho tocou. O rosto bonito do meu pai

apareceu na tela, seus olhos acinzentados como os meus brilhando

na tela.

De repente, fiquei nervosa. Quando peguei o celular, minha

mão tremia. Eu amava muito meus pais, mas sempre considerei

meus sentimentos pelo meu pai mais profundos que pela minha

mãe. E, se por um lado ela nunca hesitava em apontar meus

defeitos, meu pai sempre pareceu pensar que eu não tinha nenhum.

Desapontá-lo, ou magoá-lo, era uma ideia insuportável.

“Oi, pai. Tudo bem?”

“Eu é que pergunto, querida. Comigo, tudo na mesma. E com

você? O que foi?”

Fui até a mesa mais próxima e sentei em uma cadeira para me

acalmar. “Eu disse que não era ruim, e mesmo assim você está

preocupado. Acordei você.”

“Tenho a obrigação de me preocupar”, ele falou, com o

divertimento evidente na voz grossa. “E você não me acordou, eu

estava me preparando para uma corridinha antes de começar o dia.

Qual é a notícia?”

“Hã…” As lágrimas bloquearam minha garganta, e eu engoli

em seco. “Minha nossa, é mais difícil do que eu pensava. Falei para

Gideon que estava preocupada com a mamãe, mas que você ia levar

numa boa, e agora…”

“Eva.”

Respirei fundo. “Gideon e eu nos casamos.”

Houve um silêncio preocupante do outro lado da linha.

“Pai?”

“Quando?” A rouquidão em sua voz acabou comigo.

“Algumas semanas atrás.”

“Antes de você vir me visitar?”

Limpei a garganta. “Sim.”

Silêncio.

Que massacre. Pouquíssimo tempo antes, tinha contado sobre

o abuso que sofri de Nathan, o que quase acabou com ele. E agora

aquilo…

“Pai… Você está me deixando nervosa. A gente estava numa

ilha muito, muito linda. E

sempre tem casamentos no resort em que ficamos, eles têm

toda a estrutura… é como Las Vegas. Tem um juiz de paz e um

tabelião de plantão por lá. Era a ocasião perfeita, sabe? A

oportunidade perfeita.” Minha voz falhou.

“Pai… por favor, fala alguma coisa.”

“Eu… não sei o que dizer.”

Uma lágrima quente escorreu pelo meu rosto. Minha mãe

escolheu o dinheiro em vez do amor, e Gideon era o exemplo

perfeito de homem que ela escolheria para casar em vez do meu

pai. Eu sabia que esse era o ponto fraco dele, e não seria fácil

contorná-lo.

“Ainda vamos fazer uma cerimônia oficial”, falei. “Queremos

que os amigos e a família participem…”

“Era só isso que eu queria, Eva.” Ele grunhiu.

“É como se Cross tivesse roubado você de mim! Eu deveria

levar minha filha ao altar, já estava aceitando a ideia, aí ele resolve

fazer tudo sozinho? E você nem me conta? Esteve aqui, na minha

casa, e não me falou nada? Isso magoa, Eva. Magoa mesmo.”

Não havia como segurar as lágrimas depois disso. Elas

vieram em profusão, borrando minha visão e fechando minha

garganta.

Tive um sobressalto quando a porta da sala do café se abriu e

Will Granger entrou. “Ela deve estar aqui”, disse meu colega. “Ah…”

Ele se interrompeu quando viu meu rosto, e o sorriso

desapareceu de seus olhos atrás dos óculos retangulares.

Um braço o empurrou.

Gideon. Seu corpo preencheu a abertura da porta e seus olhos

se cravaram em mim, deixando-me gelada. Ele parecia um anjo

vingador, com o terno escuro fazendo-o parecer competente e

perigoso ao mesmo tempo, o rosto endurecido em uma linda

máscara impassível.

Pisquei várias vezes, tentando processar como e por que ele

estava ali. Antes de chegar a uma conclusão, Gideon parou na

minha frente e tomou meu celular, baixando os olhos para a tela

antes de levar o aparelho ao ouvido.

“Victor.” Ele falou o nome do meu pai em tom de alerta. “Eva

está abalada demais, então você vai ter que falar comigo.”

Will deu um passo atrás e fechou a porta.

Apesar da dureza das palavras de Gideon, seus dedos roçaram

meu rosto com uma leveza inenarrável. Seus olhos estavam

voltados para mim, e a fúria em seu brilho azul me fez estremecer.

Gideon estava furioso. E meu pai também.

Dava para ouvir os berros dele.

Segurei meu marido pelo pulso, sacudindo a cabeça, sentindo

um pânico repentino ao perceber que os dois homens que mais

amava não gostavam um do outro — ou, ainda pior, se detestavam.

“Tudo bem”, murmurei. “Estou bem.”

Ele estreitou os olhos e fez com a boca: Não está, não.

Quando Gideon voltou a falar com meu pai, sua voz estava

firme e controlada, o que a fazia parecer ainda mais assustadora.

“Você tem o direito de estar irritado e magoado, eu entendo.

Mas não quero que Eva sofra por isso… Não, claro que eu

nem imagino como deve ser, já que não tenho filhos.”

Tive que me esforçar para ouvir, torcendo para que a redução

do volume do outro lado da linha significasse que meu pai estava

se acalmando, e não ficando ainda mais nervoso.

Gideon ficou tenso de repente, afastando a mão de mim. “Não,

eu não ficaria feliz se minha irmã se casasse em segredo. Mas não

seria nela que descontaria minha raiva…”

Fiz uma careta. Meu marido e meu pai tinham uma coisa em

comum: ambos eram absurdamente protetores com as pessoas que

amavam.

“Pode falar comigo quando quiser, Victor. Eu vou até sua casa,

se for necessário. Quando me casei com Eva, assumi a

responsabilidade total pela vida e pela felicidade dela. Aceito as

consequências sem problemas.”

Gideon estreitou os olhos enquanto escutava.

Em seguida, ele se sentou ao meu lado, pôs o celular sobre a

mesa e ligou o viva-voz.

A voz do meu pai reverberou no ar. “Eva?”

Respirei fundo, soltei um suspiro trêmulo e apertei a mão

que Gideon estendeu para mim.

“Estou aqui, pai.”

“Querida…” Ele respirou fundo também.

“Não fica chateada. É que… eu preciso absorver melhor a

notícia. Não estava esperando por isso e… preciso pensar melhor.

Podemos conversar mais tarde? Quando eu voltar do trabalho?”

“Claro.”

“Ótimo.” Ele ficou em silêncio.

“Te amo, pai.” As lágrimas que escorriam pelo meu rosto

ficaram evidentes na minha voz, e Gideon aproximou sua cadeira

de mim, roçando a coxa na minha. Era impressionante como ele

me dava forças, o alívio que eu sentia com ele para me apoiar. Era

diferente do apoio oferecido por Cary. Meu melhor amigo era

afiado como uma lança, mas Gideon era um escudo.

E eu precisava ser forte o bastante para admitir que precisava

de um.

“Também te amo, linda”, disse meu pai, com uma tristeza de

cortar o coração. “Ligo para você mais tarde.”

“Certo. Eu…” O que mais podia dizer? Não fazia a menor ideia

de como consertar as coisas. “Tchau.”

Gideon desligou o telefone e olhou para a mão trêmula que

apertava a sua. Seus olhos estavam cravados em mim, cheios de

ternura.

“Não precisa ficar com vergonha, Eva. Está bem?”

Fiz que sim com a cabeça. “Não estou com vergonha.”

Ele segurou meu rosto, limpando as lágrimas com os

polegares. “Não aguento ver você chorar, meu anjo.”

Lutei para conter minha tristeza, sufocando-a para lidar com

ela mais tarde. “Por que você está aqui? Como sabia o que eu

estava fazendo?”

“Vim agradecer pelas flores”, murmurou.

“Ah. Você gostou?” Consegui abrir um sorriso. “Queria que

pensasse em mim.”

“Faço isso o tempo todo. A cada minuto.” Ele me abraçou e

me puxou para mais perto.

“Você podia ter me mandado um bilhete.”

“Ah.” Seu sorrisinho fez minha pulsação acelerar. “Mas aí eu

não poderia fazer isso.”

Gideon me puxou para seu colo e me deu um beijo

atordoante.

A mensagem de Cary chegou na hora do almoço, enquanto eu

esperava o elevador para descer. Minha mãe já estava lá, e eu ainda

precisava organizar melhor meus pensamentos.

Tínhamos muito o que conversar.

Eu só esperava que ela me ajudasse a lidar com a situação em

vez de piorar as coisas.

, respondi para meu querido e às vezes terrível colega de

apartamento, digitando enquanto entrava no elevador.

Eu sorri.

Soltei o ar com força, como se tivesse prendido a respiração,

o que provavelmente tinha feito sem perceber.

Não dava para culpar o namorado de Cary por ter se afastado

quando meu amigo descobriu que a garota com quem transava

estava grávida. Trey não conseguia aceitar a bissexualidade de Cary,

e um bebê significava que sempre haveria uma terceira pessoa

naquela relação.

Cary deveria ter assumido o compromisso com Trey em vez

de continuar aprontando, mas eu entendia o medo por trás daquela

atitude. Conhecia muito bem os pensamentos que passavam pela

cabeça ao se ver diante de uma declaração de amor de alguém

incrível depois de passar por tudo o que Cary e eu tínhamos

passado.

É bom demais para ser verdade. Não pode ser real.

Eu compreendia o lado de Trey também, e, se quisesse

terminar tudo, era uma decisão que precisava ser respeitada. Mas

ele era a melhor coisa que acontecera na vida de Cary em um bom

tempo. Eu ficaria arrasada se a relação deles não desse certo. O que

ele falou?

Ele só respondeu quando eu estava passando pelas catracas do

saguão.

Senti um aperto no coração. Não havia como interpretar

aquilo como uma boa notícia.

Dando um passo para o lado para permitir a passagem dos

demais, escrevi: “Eva!”

Minha mãe, uma presença impossível de não ser notada

mesmo durante o movimentado horário de almoço no Crossfire,

percorreu o espaço entre nós com suas sandálias de salto.

Sendo baixinha, Monica Stanton poderia se perder naquele

mar de ternos, mas chamava atenção demais para que isso

acontecesse.

Carisma.

Sensualidade.

Fragilidade.

A combinação bombástica que fez de Marilyn Monroe uma

estrela descrevia perfeitamente minha mãe. Vestida em um macacão

azul-marinho sem manga, ela parecia bem mais jovem do que era e

bem mais confiante do que estava. As panteras da Cartier que

adornavam seu pescoço e seu pulso mostravam a todos que se

tratava de uma mulher rica.

Ela veio diretamente na minha direção e me envolveu em um

abraço que me pegou de surpresa.

“Mãe.”

“Está tudo bem?” Ela se afastou e observou meu rosto.

“Está, sim. Por quê?”

“Seu pai ligou.”

“Ah.” Lancei um olhar preocupado para ela.

“Ele não recebeu a notícia muito bem.”

“Não mesmo.” Ela deu o braço para mim, e nós saímos. “Mas

ele vai superar. Só não está pronto para aceitar que você não é mais

só dele.”

“Porque eu lembro demais você.” Meu pai nunca tinha se

recuperado da perda da minha mãe. Ele ainda a amava, mesmo

depois de mais de duas décadas separados.

“Que bobagem, Eva. A semelhança até existe, mas você é

muito mais interessante.”

Isso me fez rir. “Gideon diz mesmo que sou interessante.”

Minha mãe abriu um sorriso largo, fazendo os homens que

passavam ao lado quase quebrarem o pescoço para continuar

olhando para ela. “Claro. Ele conhece bem as mulheres.

Mesmo você sendo um arraso, é preciso muito mais que isso

para fisgar um marido desses.”

Parei diante da porta giratória e deixei que minha mãe saísse

primeiro. A onda de calor úmido que me atingiu quando pisei na

calçada cobriu imediatamente minha pele com uma camada de

suor. Havia momentos em que eu duvidava que algum dia fosse me

acostumar àquela umidade, mas era um dos preços a pagar por

morar na cidade que eu amava. A primavera tinha sido linda, e o

outono também seria. Era a época perfeita do ano para renovar os

votos com o homem que tinha conquistado minha alma e meu

coração.

Eu estava agradecendo a Deus pela existência do ar-

condicionado quando vi o chefe do aparato de segurança de Stanton

esperando junto ao carro preto estacionado.

Benjamin Clancy inclinou a cabeça para mim e me

cumprimentou com seu jeito tranquilo e confiante. Sua conduta era

sempre muito profissional, mas eu me sentia tão grata a ele que

era difícil me segurar para não abraçá-lo e beijá-lo.

Gideon matou Nathan para me proteger.

Clancy tomou as providências para que meu marido jamais

tivesse que pagar por aquilo.

“Oi”, eu o cumprimentei, vendo meu sorriso refletido em

seus óculos escuros estilo aviador.

“É bom ver você, Eva.”

“Eu estava pensando a mesma coisa.”

Ele não sorria abertamente. Não era o jeito dele. Mas sua

sinceridade era visível.

Minha mãe entrou no carro primeiro, e eu me acomodei ao

lado dela no banco de trás.

Enquanto Clancy contornava a traseira do veículo, ela chegou

mais perto e estendeu a mão.

“Não se preocupe com seu pai. Ele tem esse temperamento

latino passional, mas os acessos de raiva nunca duram muito. Ele

só quer a sua felicidade.”

Apertei os dedos dela de leve. “Eu sei. Mas queria muito que

papai e Gideon se dessem bem.”

“São dois homens de personalidade forte, querida. Vão se

estranhar de vez em quando.”

Ela estava certa. Eu queria que os dois tivessem uma amizade

tipicamente masculina, compartilhando interesse por carros

esportivos e dando tapinhas nas costas um do outro. Mas era

preciso aceitar a realidade, fosse ela qual fosse.

“Você tem razão”, admiti. “Eles são bem crescidinhos. Vão se

entender.” Pelo menos era o que eu esperava.

“Claro que vão.”

Com um suspiro, olhei pela janela. “Acho que tenho a solução

para o problema Corinne Giroux.”

Houve uma pausa antes de minha mãe falar.

“Eva, você precisa esquecer essa mulher. Ela não merece sua

preocupação e não deveria ter esse poder sobre você.”

Encarei minha mãe. “É o segredo que envolve nosso

relacionamento que a tornou um problema. Todo mundo tem

muita curiosidade quanto a Gideon. Ele é lindo, rico, sexy e

brilhante. As pessoas querem saber tudo a seu respeito, mas ele é

tão cauteloso com seus assuntos privados que ninguém sabe quase

nada. É só por isso que existe interesse sobre o que Corinne possa

escrever sobre o tempo que passou com ele.”

Ela me lançou um olhar desconfiado. “O que você está me

dizendo?”

Remexendo na bolsa, saquei meu tablet.

“Precisamos de mais disso.”

Acionei a tela e mostrei uma foto minha com Gideon tirada

horas antes, na frente do Crossfire. A maneira como ele segurava

minha nuca era ao mesmo tempo carinhosa e possessiva, e meu

olhar voltado para o seu não deixava dúvidas a respeito do meu

amor e da minha admiração. A ideia de exibir um momento de

tanta intimidade para o mundo todo ver era de virar o estômago,

mas eu precisava superar aquilo. Precisava me abrir mais.

“Gideon e eu precisamos parar de nos esconder”, continuei.

“Precisamos ser vistos.

Passamos tempo demais isolados. O público quer ver que o

playboy milionário finalmente se tornou o príncipe encantado de

alguém.

Todo mundo gosta de contos de fadas, mãe, e de finais felizes.

Preciso dar às pessoas a história que elas querem, assim Corinne e

o livro dela vão parecer patéticos.”

Minha mãe jogou os ombros para trás. “É

uma péssima ideia.”

“Não é, não.”

“É terrível, Eva! Não troque sua privacidade por nada neste

mundo. Alimentar a curiosidade alheia só deixa as pessoas ainda

mais famintas.

Não se torne um alvo dos tabloides!”

Cerrei os dentes. “Não vai ser assim.”

“Por que se arriscar?” A voz da minha mãe soava estridente.

“Por causa de Corinne Giroux? O livro dela vai aparecer e sumir

em um piscar de olhos, mas você nunca vai se livrar dos holofotes

depois de entrar neles!”

“Não te entendo. É impossível ser casada com Gideon sem

estar nos holofotes! Pensei que fosse melhor aprender a dominar o

palco.”

“Uma coisa é ser conhecida, outra é ser assunto de programas

de fofoca!”

Soltei um grunhido quase silencioso. “Acho que você está

exagerando.”

Ela sacudiu a cabeça. “Confie em mim, essa não é a maneira

de lidar com a situação. Você já conversou com Gideon? Duvido

que ele concorde com isso.”

Eu a encarei, realmente surpresa com sua reação.

Pensei que fosse me apoiar, considerando a importância que

dava para o casamento com homens poderosos.

Então vi o medo em seus olhos e sua boca contorcida.

“Mãe”, falei com um tom de voz suave, recriminando-me por

não ter me dado conta antes. “A gente não precisa mais se

preocupar com Nathan.”